Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

    Este é o registro de um dos primeiros momentos da manifestação realizada em São Paulo, capital, na noite de ontem, 11/06:

 

  PRIMAVERA 11
 
 

    Cada vez mais animado para esquentar este fim de outono, alguém já chamou esse movimento muito bem orquestrado de “treinamento para a Primavera brasileira”…

 

    O jornalista Luís Nassif, que já não dorme de tão preocupado com o desenvolvimento onírico nacional, afirmou que esses “jovens vão às ruas e nos mostram que desaprendemos a sonhar”. Entende ele, pois, que “esses jovens” devam ser incentivados. E publicou em seu blogue um longo texto de um certo Andre Borges Lopes, intitulado “AOS QUE AINDA SABEM SONHAR” em evidente alusão à antologia beatlelógica dos últimos tempos, que nos diz o seguinte:

    “O fundamental não é lutar pelo direito de fumar maconha em paz na sala da sua casa. O fundamental não é o direito de andar vestida como uma vadia sem ser agredida por machos boçais que acham que têm esse direito porque você está “disponível”. O fundamental não é garantir a opção de um aborto assistido para as mulheres que foram vítimas de estupro ou que correm risco de vida. O fundamental não é impedir que a internação compulsória de usuários de drogas se transforme em ferramenta de uma política de higienismo social e eliminação estética do que enfeia a cidade. O fundamental não é lutar contra a venda da pena de morte e da redução da maioridade penal como soluções finais para a violência. O fundamental não é esculachar os torturadores impunes da ditadura. O fundamental não é garantir aos indígenas remanescentes o direito à demarcação das suas reservas de terras. O fundamental não é o aumento de 20 centavos num transporte público que fica a cada dia mais lotado e precário. O fundamental é que estamos vivendo uma brutal ofensiva do pensamento conservador, que coloca em risco muitas décadas de conquistas civilizatórias da sociedade brasileira. O fundamental é que sob o manto protetor do “crescimento com redução das desigualdades” fermenta um modelo social que reproduz – agora em escala socialmente ampliada – o que há de pior na sociedade de consumo, individualista ao extremo, competitiva, ostentatória e sem nenhum espaço para a solidariedade.”

 

    E esse texto assim termina:

    “Sempre vai haver quem prefira como modelo de estudante exemplar aquele sujeito valoroso que trabalha na firma das 8 da manhã às 6 da tarde, pega sem reclamar o metrô lotado, encara mais quatro horas de aulas meia-boca numa sala cheia de alunos sonolentos em busca de um canudo de papel, volta para casa dos pais tarde da noite para jantar, dormir e sonhar com um cargo de gerente e um apartamento com varanda gourmet. Não é meu caso. Não tenho nem sombra de dúvida de que prefiro esses inconformados que atrapalham o trânsito e jogam pedra na polícia. Ainda que eles nos pareçam filhinhos-de-papai, ingênuos em seus sonhos, utópicos em suas propostas, politicamente manobráveis em suas reivindicações, irresponsavelmente seduzidos pelos provocadores de sempre. Desde a Antiguidade, esses jovens ingênuos e irresponsáveis são o sal da terra, a luz do sol que impede que a humanidade apodreça no bolor da mediocridade, na inércia do conformismo, na falta de sentido do consumismo ostentatório, nas milenares pilantragens travestidas de iluminação espiritual. Esses moleques que tomam as ruas e dão a cara para bater incomodam porque quebram vidros, depredam ônibus e paralisam o trânsito. Mas incomodam muito mais porque nos obrigam a olhar para dentro das nossas próprias vidas e, nessa hora, descobrimos que desaprendemos a sonhar.”

 

    Quem tiver disposição para ler o que se inclui entre aquele começo e este fim, corra a http://www.advivo.com.br/node/1400276

 

    Hoje, poderá ser encontrada na página principal do UOL uma chamada a um comentário no mínimo surpreendente, que poderá ser atribuído ou a uma ingenuidade descomunal ou a uma simples e rasteira má-fé: “muitos ingredientes que estão fervendo no caldeirão. Um espetáculo do crescimento que ficou na promessa, passagens caras e tudo errado, são os componentes das manifestações que aconteceram nestas duas semanas. Junte-se a isso uma polícia que definitivamente não é a britânica e pronto, está feita a confusão. (…) há um mérito tremendo nisso tudo: (…) Essa garotada está fazendo o que todos deveríamos fazer: ir pra rua (…) os meninos estão fazendo a parte deles pacificamente. A baderna é o retrato. (…) é a manifestação óbvia de um sentimento represado. E tem a raiva. E motivos pra raiva não faltam” (http://blogdoorlando.blogosfera.uol.com.br/2013/06/12/manifestacoes-protestos-vao-muito-alem-de-r020/) É o que nos diz Orlando Pedroso, que é artista gráfico e ilustrador

 

    Eu cá não sei bem quem poderá ter-se preocupado com perguntar a opinião desse Orlando, ou perguntar a um Luís Nassif ou, muito menos, a esse seu companheiro de armas Andre Borges Lopes que é o que eles preferem ou não. Nem imagino que importância teria o que pudessem preferir.

    Sei, muito bem sabido, o que eles e alguns outros mais conseguem.  E conseguem bem mais que apenas parar o trânsito.

    Conseguem o que está nas fotos tiradas na noite de ontem, nas que ponho aqui ou em mais algumas que se encontram em http://noticias.uol.com.br/album/2013/06/03/aumento-de-tarifa-do-transporte-coletivo-gera-protestos-pelo-pais.htm)

 

    Sei também que não faz falta olhar para dentro de nossas próprias vidas para descobrir que desaprendemos a sonhar. É fato que já não sonhamos. Faz tempo. Nem podemos sonhar. Talvez já nem mesmo aquele sujeito valoroso que trabalha das 8 da manhã às 6 da tarde e encara mais quatro horas de aulas meia-boca, que tão pouco tempo terá para pregar o olho, ainda consiga sonhar com seja lá o que for.

 

    Por outro lado, para que percebamos por que é que desaprendemos a sonhar, basta-nos ler, além de ver as fotos, os didáticos textos produzidos por certos “intelectuais” de nossa Imprensa. E assim também perceberemos por que é que, se sonhos já não podemos ter, podemos estar tão bem servidos de pesadelos.

 

    Deixei, assim, o “conforme eu dizia” para o fim. Conforme eu dizia… à falta de boa Escola, os meios de comunicação, sejam formais ou informais, são quem nos “educa” e nos estimula a pensar e a agir…                

 

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