Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

  

gargalhada de Rousseff – “No dia em que falarem para vocês que caiu um raio, vocês gargalhem … eu não posso querer que tenha chuva e não tenha raio … Não é sério dizer que o sistema caiu por causa do raio. Se caiu por causa do raio, teve falha humana … porque raio vai cair” Dilma Rousseff

www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica-brasil-economia/33,65,33,14/2012/12/28/interna_politica,341383/

 

     Embora os diferentes sistemas concebidos mantenham entre si algumas características semelhantes e equivalentes articulações intrínsecas, para opinar sobre um sistema qualquer e suas vulnerabilidades é preciso minimamente conhecê-lo em seus elementos. Não vim aqui, portanto, dizer do sistema elétrico, que não conheço suficientemente. Vim dizer de apagões que também vêm merecendo gargalhadas. Faz tempo. Não somente as incentivadas por Rousseff.

 

    Recebi há alguns dias um comentário: “Aspecto interessante a observar: apesar do tamanho da nota, NENHUMA PALAVRA sobre a colocação das FORÇAS ARMADAS como a Instituição de maior credibilidade. E tome pau na Polícia e no Judiciário que estão criando problemas para os pilantras de plantão. Esquerdopatia é doença séria…

 

    A esse comentário seguia-se o que havia sido publicado em oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2012/12/15/judiciario-pouco-ou-nada-confiavel-mostra-estudo-479064.asp

 

    Para opinar sobre pesquisas de opinião é também preciso saber minimamente interpretá-las. E para confiar minimamente em uma opinião a respeito de uma pesquisa de opinião é preciso saber interpretar a interpretação expressa nessa opinião. Mas, seja qual for a forma como possam ser lidas e compreendidas, as opiniões e as pesquisas de opinião não nos revelarão qualquer verdade absoluta. Embora possam nos animar (ou obrigar) a pensar…

 

    A pesquisa da FGV a que se refere o comentário acima transcrito nos diz que as FFAA gozam da confiança de 75% da população. Muito bem. As Armas são fundamentais à manutenção do Estado Nacional. Consideráveis ¾ da população as aprovam, enquanto o Governo Federal obteve 41% de aprovação, o Judiciário e a Polícia obtiveram 39%, o Congresso obteve 19% e os Partidos políticos obtiveram 7%.

 

    Que significam esses percentuais? São suficientes para que celebremos algum fenômeno extraordinário em nosso País? Que traduzem eles, afinal? Que estamos em uma democracia plena e bem estruturada? Traduzem a necessária consciência do Estado? Traduzem que a população se sente em segurança? Que ela tem confiança na Ordem ou no Progresso? Traduzem, pelo contrário, que temos um “Estado forte”?

 

    Pois bem: se, nessa pesquisa, consagrando algumas pesquisas anteriores, as FFAA obtiveram 75%, em outra, também recente, Dilma Rousseff obteve 72% de aprovação da população – enquanto, repito, o Governo Federal obteve 41%, o Judiciário e a Polícia obtiveram 39%, o Congresso obteve 19% e os Partidos políticos obtiveram 7%.

 

    E então? Muito bem, também?

 

    A confiar nos números, que mostram que o índice de aprovação da Presidente a bem dizer coincide com o de confiabilidade atribuída às FFAA, a uma única conclusão chegaremos: a de que aqueles 75% de confiabilidade atribuído às FFAA devem-se ao fato de que a população as vê como a garantia da manutenção de um regime (eu disse “um regime”, não “um Estado”) forte que cada vez mais se fortalece. Para essa grossa e pesada fatia da população, esse regime resume-se à figura presidencial – entidade superior, autônoma, escolhida pela maioria, que, no imaginário de mais de 70% da população nacional, deve pairar, “soberana”, acima de qualquer Instituição; e que, por ser, constitucionalmente, Comandante em Chefe das FFAA, escolhe e nomeia os Comandantes dessas Forças aos quais as tropas, disciplinadas, obedecem.

 

    Por isso, nelas, nas FFAA, a maioria da população vem confiando. Embora desconfie das demais Instituições. O que é não mais nem menos que simplesmente assustador! E os declarados 75% de aprovação só poderão alegrar ou mesmo apenas surpreender aqueles que se recusam a aceitar este fato: o de que a população hoje vê as FFAA como o respaldo incondicional não exatamente “do Governo” – que é uma Instituição do Estado e a pesquisa mostra que goza de 59% de desconfiança – mas da figura individual da Presidente, que deve ser pelas Armas protegida e deve manter a certeza de que suas ordens serão cumpridas sejam quais forem e haja o que houver.

 

    Nada mais que isso o cruzamento do resultado das pesquisas significa. E, porque nada mais que isso significa, algo por aqui deveria estar sendo considerado como muito errado… Ou não?

 

    Ontem recebi outro comentário, que transcrevo abaixo (2), sobre a primeira pesquisa citada. O que é sinal de que o índice de aprovação das FFAA e o de desaprovação das demais instituições impressionaram… A última notícia de 13/12/2012 da Agência Brasil (3) a respeito da pesquisa da FGV, no entanto, chama atenção, em seu título, apenas para os 60% dos brasileiros que reprovam atuação da Polícia. Devemos, então, comemorar ou lamentar o fato de que as FFAA – que não estão, em absoluto, “criando problemas para os pilantras de plantão” – sejam enfim reconhecidas como uma instituição de extraordinária credibilidade popular?

 

    Em um ponto disso tudo, surpreendentemente, Rousseff terá plena razão: quando afirma, em seu habitual tatibitate, que não podemos “querer que tenha chuva e não tenha raio Se o sistema caiu, “teve falha humana porque raio vai cair”. Ah, que vai, vai… Disso sabemos todos. Assim como muitos raios já caíram e nos causaram imensos estragos. Literal e figuradamente. Todos eles caíram sobre nossas cabeças supostamente pensantes, em nada e ninguém mais, torrando definitivamente algumas delas. Mesmo assim, “não é sério dizer que o sistema caiu por causa do raio”…

 

    Sistema por sistema, últimas perguntas do ano, então, a quem ainda pensa, gosta de pensar e não desiste disso: quando e por que raios ou falta de raios foi que sofremos apagões em nosso sistema de energia elétrica? O primeiro não se deu em 1985, seguido de outro em 1999 e, com um racionamento de permeio (2000/2002), outro mais em 2009? E quando e por que raios ou falta de raios foi que a nossa Força Terrestre “resolveu”, contra o texto constitucional, invertendo suas funções em um típico apagão do sistema de energia política, tomar a si a “missão” de expulsar os invasores dos espaços particulares dos quais gozava uma autoridade nacional? Já não lá se vão 12 divertidas Primaveras? Nesse tempo todo, que mais fizemos além de gargalhar? Quem, afinal, deveria mostrar-se muito preocupado e estar tentando encontrar uma forma de dar um basta nos efeitos todos dessa constante tempestade mal direcionada que, seca ou molhada, assistimos confortavelmente esparramados em nossos estofados? Os Comandantes militares? Onde e como, exatamente, entram os Comandantes militares nessa história toda? Com que, exatamente, estariam hoje os Comandantes preocupados? Por quê? Quais reparos na ordem (no sistema) poderiam eles estar hoje pensando em providenciar? E, por fim: a “doença séria” que temos a enfrentar, e deveríamos enfrentar com seriedade, seria, de fato, uma “esquerdopatia” epidêmica? Ou é algo bem mais grave, talvez já crônico, mas talvez ainda mais contagioso e letal?

 

    Bem, ao que tudo nos indica, teremos um 2013 muito alegre, de muitas e muitas gargalhadas mais… Ou por que raios ou falta de raios seria diferente, não tão alegre assim, o nosso próximo ano?

 

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(1) Pesquisa CNI/Ibope: aprovação do governo Dilma supera Lula e FHC

16 de Dezembro de 2011 – 11h04 – atualizado às 12h49

Pesquisa do Instituto Ibope encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e divulgada nesta sexta-feira registra 72% na aprovação pessoal da presidente Dilma Rousseff, um ponto percentual acima do último levantamento, datado de setembro. O desempenho do governo federal é avaliado como ótimo ou bom por 56% dos entrevistados, patamar cinco pontos percentuais acima da última pesquisa e a mesma cifra que a melhor avaliação positiva de seu governo, medida apenas três meses após a posse. (…) noticias.terra.com.br/brasil/politica/pesquisa-cniibope-aprovacao-do-governo-dilma-supera-lula-e-fhc,a8880a43aa1da310VgnCLD200000bbcceb0aRCRD.html

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(2) Agência Brasil – AS FORÇAS ARMADAS CONTINUAM LIDERANDO na CONFIANÇA da POPULAÇÃO

O relatório sobre a confiança da população na Justiça, elaborado pela Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostrou que 63% dos brasileiros estão pouco ou muito insatisfeitos com a atuação da polícia. O percentual de insatisfação foi maior entre os mais pobres, 65%, e ficou em 62% entre os mais ricos.

A pesquisa também traz o Índice de Confiança na Justiça que, no segundo e terceiro trimestres deste ano, registrou 5,5 pontos, considerando uma escala de 0 a 10. O índice é obtido com base em casos concretos, como quando o cidadão recorre ao Judiciário para resolver conflitos. O indicador leva em conta a opinião da população em relação à celeridade, honestidade, neutralidade e custos de acesso à Justiça.

Segundo a pesquisa, o Judiciário é considerado moroso para 90% dos entrevistados, por solucionar os processos de forma lenta ou muito lenta. Além disso, 82% das pessoas consideram alto ou muito alto os custos de acesso ao Judiciário e 68% acreditam ser difícil ou muito difícil usar o sistema. Outro dado revela que 64% dos pesquisados avaliam o Judiciário como nada ou pouco honesto, e 61% nada ou pouco independente.

No ranking das instituições mais confiáveis, as Forças Armadas lideram com 75% das opiniões, seguida pela Igreja Católica (56%), Ministério Público (53%), grandes empresas (46%), imprensa escrita (46%), governo federal (41%), polícia (39%), Poder Judiciário (39%), emissoras de TV (35%), vizinhos (30%), Congresso Nacional (19%) e partidos políticos (7%).

Foi avaliada também a confiança em relação a determinados grupos do convívio social. A família ficou em primeiro lugar, obtendo a confiança de 89%, seguida por colegas de trabalho (34%), vizinhos (30%) e, em último lugar, pessoas em geral (21%).

A pesquisa ouviu 3.300 pessoas no Distrito Federal e em sete estados (Amazonas, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul), no segundo e terceiro trimestres do ano.

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(3) Mais de 60% dos brasileiros reprovam atuação da polícia, diz FGV

13/12/2012 – 15h57 – Justiça – Fernanda Cruz – Repórter da Agência Brasil

São Paulo – O relatório sobre a confiança da população na Justiça, elaborado pela Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), mostrou que 63% dos brasileiros estão pouco ou muito insatisfeitos com a atuação da polícia. O percentual de insatisfação foi maior entre os mais pobres, 65%, e ficou em 62% entre os mais ricos.

“É um dado alarmante, principalmente se considerarmos os últimos acontecimentos envolvendo o assassinato de policiais e diversas pessoas na periferia [de São Paulo]”, disse Luciana Gross Cunha, professora da FGV e coordenadora do Índice de Confiança na Justiça (ICJBrasil).

A pesquisa também traz o Índice de Confiança na Justiça que, no segundo e terceiro trimestres deste ano, registrou 5,5 pontos, considerando uma escala de 0 a 10. O índice é obtido com base em casos concretos, como quando o cidadão recorre ao Judiciário para resolver conflitos. O indicador leva em conta a opinião da população em relação à celeridade, honestidade, neutralidade e custos de acesso à Justiça.

Segundo a pesquisa, o Judiciário é considerado moroso para 90% dos entrevistados, por solucionar os processos de forma lenta ou muito lenta. Além disso, 82% das pessoas consideram alto ou muito alto os custos de acesso ao Judiciário e 68% acreditam ser difícil ou muito difícil usar o sistema. Outro dado revela que 64% dos pesquisados avaliam o Judiciário como nada ou pouco honesto, e 61% nada ou pouco independente.

No ranking das instituições mais confiáveis, as Forças Armadas lideram com 75% das opiniões, seguida pela Igreja Católica (56%), Ministério Público (53%), grandes empresas (46%), imprensa escrita (46%), governo federal (41%), polícia (39%), Poder Judiciário (39%), emissoras de TV (35%), vizinhos (30%), Congresso Nacional (19%) e partidos políticos (7%).

Foi avaliada também a confiança em relação a determinados grupos do convívio social. A família ficou em primeiro lugar, obtendo a confiança de 89%, seguida por colegas de trabalho (34%), vizinhos (30%) e, em último lugar, pessoas em geral (21%).

A pesquisa ouviu 3.300 pessoas no Distrito Federal e em sete estados (Amazonas, Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul), no segundo e terceiro trimestres do ano.

Edição: Carolina Pimentel

agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-12-13/mais-de-60-dos-brasileiros-reprovam-atuacao-da-policia-diz-fgv           

 

  

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

“… Separa um lugar nessa areia, / nós vamos chacoalhar a sua aldeia / Mistura sua laia / ou foge da raia … / Agora nós vamos invadir sua praia … Se você vai se incomodar /  então é melhor se mudar … / Se a gente acostumar a gente vai ficar / A gente tá querendo variar / e a sua praia vem bem a calhar / Não precisa ficar nervoso /  pode ser que você ache gostoso / Ficar em companhia tão saudável /  pode até lhe ser bastante recomendável /  A gente pode te cutucar …” (Ultraje a rigor – 1985)

 

Posso bem crer que quem compôs esses versos não os terá dedicado urbi et orbi. O local invadido seria esse aí, mesmo. Mas o público invasor teria origem em território bem mais próximo e mais restrito geograficamente, com certeza.

 

Regras gramaticais à parte, no entanto, os versinhos bem que avisaram. Foram proféticos. E o resultado da invasão foi o mesmo. Ou foi muito pior.

 

Considerando, no entanto, que pelo menos metade dessa gente flagrada na foto abaixo não fala Português (e a Copa vem chegando…), é até bem possível que alguém esteja achando isso aí muito chique… globalizado… politicamente correto… “saudável”… “recomendável”… “gostoso”… etc. etc. e tal, sei lá que mais.

 

Quem sou eu pra duvidar?

 

 

turismo de massa

Turistas e cariocas recorrem à praia de Ipanema, no Rio de Janeiro, para se refrescar do calor.

Pelo segundo dia seguido, a capital fluminense registrou a maior temperatura  do ano com escaldantes 43.2ºC

 

Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

   

 

 

     Já disse aqui, antes, que, muitas e muitas vezes, penso e repenso à exaustão se devo ou não devo divulgar o que percebo a respeito da situação nacional. Principalmente penso e repenso se o que divulgo será minimamente útil ou absolutamente inútil.

 

     É que, de verdade, ando muito zangada. Em certos momentos, vejo-me furiosa. E não poderia deixar de estar. Com muitas coisas que nos cercam. E, zangada assim, mais estarei correndo o risco de ser mal interpretada ou, pior, corro o risco de que minhas palavras possam ferir uns ou outros, e sejam consideradas como uma ofensa dirigida a quem eu deva e possa muito respeitar, a quem não pretendo, absolutamente, ofender.

 

     Esse, porém, é um risco que talvez me/nos seja necessário enfrentar. Se é que pretendemos de fato contribuir com construir alguma coisa de sólido, correto e bom.

 

     Direi, então, o seguinte: que tomo contato, todos os dias, com muitos textos interessantes. De variados teor e tendência ideológica. Todos eles são fruto do interesse e da percepção de quem os divulga. Todos eles têm uma intenção (intelectualmente formulada, portanto, direta ou indiretamente, politicamente formulada). Essa intenção, porém, nem sempre se mostra muito explícita. Muitas vezes porque explicitar foi considerado desnecessário; outras vezes porque a intenção é provocar, propositadamente, a confusão, minar o nosso entendimento, abrir uma cunha na solidez de nossas convicções. As palavras, porém, são necessárias a qualquer enunciado, e não podemos ser muito econômicos com as palavras corretas, porque palavras, quaisquer que sejam elas, lidas ou ouvidas, formando frases que coincidam ou não com as que possamos considerar válidas, sempre se acrescentam ao nosso raciocínio, por vezes o estimulando a contestar ou a prosseguir em dada direção, outras vezes, especialmente se ele estiver desatento, não necessariamente alterando, mas sempre afetando o entendimento a respeito de qualquer assunto. Consolidando ou abalando e esgarçando esse entendimento.

 

     Recebi, por exemplo, um texto recentemente que nos recomenda repassar a verdade: “A cada dia que passa, estamos mergulhando na lama da desgraça da decomposição moral. () O que virá?

 

     “Decomposição moral” – isso é uma verdade, uma verdade a bem dizer “absoluta”, não resta dúvida. Essa “decomposição moral” está evidente na palavra-de-ordem, por vezes enunciada, por vezes dissimulada, do momento: “é preciso desconstruir!”. E assim se processa a “desconstrução” absoluta dos pilares que sustentam qualquer Sociedade minimamente civilizada e sadia. Que se alicerçam na experiência secular da civilização da humanidade e na Moral (Ética, insisto, é uma outra coisa…). Em todos os setores. Isso é uma verdade, não resta dúvida.

 

     Mas que seria exatamente o que, naquele texto recebido, apoia essa verdade?

 

     As observações feitas me causam espanto. A primeira delas, na introdução, a que procura responder à pergunta “O que virá?” – “O mundo pode tremer. [e, em letras maiúsculas] MENSALÃO JÁ PASSOU. FALTA SÓ COLOCAR NA CADEIA” (o que não combinará muito bem com o “estamos mergulhando na lama da desgraça da decomposição moral”…) “AGORA É ROSEMARY. MAIS PERIGOSO TEM MULHER NO MEIO”.

 

     Ah, “tem mulher no meio”… Qual “a verdade” contida nesse comentário? Bem, particularmente considero, eu cá comigo mesma, que é um bocado difícil, se não impossível, encontrar algo neste mundo que tenha sido feito até os dias de hoje ou ainda se possa fazer, para o bem ou para o mal, sem que haja “mulher no meio”… Mas qual seria a diferença entre o comportamento político e a figura pública de Rosemary Noronha (que é o que de fato nos interessa de perto no escândalo “da hora”) e o dos demais participantes (supostamente) masculinos nos múltiplos escândalos que tanto vêm abalando a nossa República? O vínculo criminoso entre os irmãos Vieira, Marcos Valério, Palocci, Dirceu, Lula etc. seria menos escandaloso que o de Rosemary com algum deles ou com a Presidente atual, que a manteve no cargo até 10 dias atrás? Que denúncia mereceria mais ou menos atenção por ter “mulher no meio”? Ter “mulher no meio” significaria maiores ou menores garantias de que os fatos sejam mais ou menos corretamente apurados? Por quê? Francamente, é muito difícil entender.

 

     Essa introdução e o restante do texto pretendiam ser, presumo, informativos. Infelizmente, não são. São confusos. E o que é confuso só traz confusão. O texto inteiro expõe um rol de “coisas” desconexas que, em comum, têm apenas o fato de ser contra Lula da Silva, especificamente, e, de quebra meio enviesada, contra o PT de… Rousseff. Que foi eleita por uma maioria por ser “uma mulher”. Que se cerca de mulheres “companheiras”. Que é apoiada por uma “base aliada” e é combatida por uma “oposição” que santa não é e nunca foi. Rousseff pode ser criticada apenas porque dependurou-se no PT? Se resolvesse abandonar o PT, adotasse outra legenda partidária e se aproximasse daquela “oposição”, Rousseff poderia ser venerada? Ou, se “tem mulher no meio”, tudo se complica? Ou se facilita?

 

     Por nada, não, mas… o nosso problema republicano é Lula da Silva? É ter o PT no poder? É ter ou não ter “mulher no meio” ou na cabeça? Se a intenção de alguém se limita a acusar Lula da Silva ou o PT, aceitá-la como válida e, pior, como referência de boa Política apenas justificará e consolidará a pressuposição de que tudo se resolverá eliminando-se do cenário político um indivíduo ou seu Partido, ainda que os esquemas de corrupção e demagogia em que esse indivíduo se destaca, seu Partido ou a aliança e o próprio sistema que permitiu sua eleição permaneçam produzindo frutos em tudo semelhantes. Tudo se resolveria como que por encanto. O que não é verdade alguma nem é, muito menos, algo que mereça ser divulgado. Nem é o fato de que o escândalo da vez envolva Rosemary e o de que Rosemary seja uma mulher o que faz que o problema político brasileiro seja mais cretino, mais escandaloso ou menos escandaloso e menos cretino, mais ou menos perigoso para os envolvidos. Nem será por aí que se chegará ao nosso problema republicano. Que não se limita ao chamado “pacto federativo”. Nem será resolvido com a adoção de um regime monárquico.

 

     Em seguida, o texto que recebi recomenda que ouçamos HÉLIO BICUDO (http://www.youtube.com/watch?v=MKhSKE3FkDA), aquele que aderiu ao PT tão logo o Partido se formou e, hoje, tendo abandonado esse Partido, diz-se traído em seus ideais (teria também sido “apunhalado pelas costas”?). Ele também não só criou como preside a Fundação Interamericana de Defesa dos Direitos Humanos (FIDDH), entidade que atua junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Ouvindo o jurista, saberemos que ele não gosta da Polícia Federal. Hélio Bicudo não só foi como continua sendo um dos mais agitados detratores do Regime dito “militar”, em um período no qual, no fim das contas, de “militar” de fato a República só tinha, mesmo, o seu Presidente. Mas o texto justifica a recomendação: “PENSAMOS QUE DESTA FORMA AJUDAMOS A VERDADE E A JUSTIÇA”. A Verdade e a Justiça, então, com quem estariam? Com a Fundação? Com a Comissão? Com Hélio Bicudo?

 

     Mais à frente, o texto recomenda a leitura de uma reportagem que teria sido publicada no Correio da Manhã, jornal português, em 31 de outubro de 2012: “Ministério Público pede bloqueio de bens de Lula”. Os fatos a que se refere a matéria foram publicados por esse Jornal, na verdade, em 23 de fevereiro de 2011, um dia após terem sido publicados pela própria Procuradoria Geral da República (http://noticias.pgr.mpf.gov.br/noticias/noticias-do-site/copy_of_patrimonio-publico-e-social/mpf-df-propoe-acao-de-improbidade-contra-lula-e-ex-ministro-da-previdencia/?searchterm=improbidade), fonte primária, bem mais confiável que um diário português, que aponta a denúncia feita pelo MP contra o ex-Presidente. Mas o texto acrescenta: “Eu não sabia desse fato!” Ora, em outubro de 2012 o processo 7870-082011.4.01.3400 corria (“corria”?) há tempos na 13ª Vara da Justiça Federal em Brasília e estava “em fase de intimação dos réus. Ainda não sabemos se, como e quando terá sido julgada a liminar em que o MP pedia o bloqueio dos bens do Lula. Reeditar, porém, na web, notícia de quase dois anos atrás sem que qualquer novidade lhe seja acrescentada é somente tentar fazer marola. Ou seria tentar fazer, do próprio Ministério Público Federal, uma piada. Francamente, não me parece ser a melhor hora para fazer isso ou, sequer, qualquer coisa minimamente parecida.

 

     O texto também nos recomenda ouvir a exposição dos erros do Governo petista na área econômica (http://www.youtube.com/watch?v=IE_ZT55T1Kc&feature=player_detailpage) feita durante o “1º Seminário de Economia Austríaca” por quem, embora bem os exponha liberalissimamente, acusa levianissimamente um “Leviatã” brasileiro sem que, ao que tudo indica, tivesse bem lido Hobbes e, portanto, sem que o tivesse minimamente bem compreendido. E nenhuma solução nos oferece. Mesmo porque confunde, como a maioria dos liberais confunde propositadamente, Governo com Estado, Estado com Governo. Seja então cada um por si, Deus por todos e salve-se quem puder!

 

     Em seguida, o texto recomenda que ouçamos uma ode às saudosas virtudes morais pessoais do Presidente Figueiredo (http://youtu.be/ZpCD_Kbakv0). Muito bem. Mais que digno e justo. Mas, ao findar-se, ele ainda recomendará: “PARA COMPLETAR LEIA O ARTIGO TAPAR O SOL DE FERREIRA GULLAR” (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/ferreiragullar/1160933-tapar-o-sol.shtml)

 

     Que nos diz esse poeta? Acusa o PT e o Lula. E, fazendo isso, e só isso, também diz o seguinte: “[Lula] chamou o Rui Falcão, presidente do PT, para articular o apoio dos líderes da base política do governo. Disso resultou um documento desastroso, que chega ao ponto de acusar o Supremo de perpetrar um golpe de Estado contra a democracia, equivalente aos golpes que derrubaram Vargas e João Goulart. Pode? Vargas e Goulart, como se sabe, foram depostos pela extrema direita com o apoio de militares golpistas. (…) O tal manifesto só causou constrangimento. O governador Eduardo Campos [PSB], de Pernambuco, deu a entender que foi forçado a assiná-lo, após rejeitar três versões dele. Enfim, mais um vexame.“

 

     Aqui, não se sabe bem qual intenção de Gullar deverá ser considerada. A de criticar o PT? A de criticar o Lula? A de criticar também o PSB? A de apenas criticar? A de criticar os “militares golpistas”? O poeta verseja: “Goulart, como se sabe,” terá sido deposto “pela extrema direita com o apoio de militares golpistas”?  Seria essa “a verdade”? Ela deve ser divulgada?

 

     Apesar do comentário aposto, “COMO UM GOVERNADOR ASSINA SEM QUERER. FALTA CARÁTER E CORAGEM”, a intenção do texto, que é muito curto, perde-se entre opiniões de terceiros, as mais díspares opiniões apontadas como elucidativas da verdade, com destaque àquelas que justificam a “pureza” de posturas avessas ao comportamento do PT e de Lula, quaisquer que sejam as posturas e as intenções de quem emite essas opiniões. De qual verdade, então, essas opiniões seriam referência? Qual a opinião de quem as divulga (muitos se perguntarão)? Muito me admira, portanto, que nos esteja sendo indicada, como forma de acesso à verdade e à informação, a leitura desse rol de “denúncias” que nos deixa apenas a esquerda frustrada com o Governo petista e um destemido liberal como referências a ser consideradas. E admira-me que nos seja solicitada a sua divulgação.

 

     Poderia, por exemplo, ter sido recomendado que lêssemos o que foi publicado na Revista Consultor Jurídico, de 3 de dezembro de 2012 (http://www.conjur.com.br/2012-dez-03/camara-faz-devolucao-simbolica-173-mandatos-cassados-ditadura), referente a ato legislativo ocorrido no dia 06 de novembro pp. Que também “tem mulher no meio”…

 

     Saberíamos que a “Câmara devolve 173 mandatos cassados pela ditadura” corrigindo “uma injustiça praticada pelo regime de exceção que governou o país de março de 1964 a março de 1985. Em sessão solene no Plenário às 15h, serão devolvidos, ainda que simbolicamente, os mandatos populares dos 173 deputados federais cassados pela ditadura militar, dos quais somente 28 estão vivos. A homenagem é uma iniciativa da Comissão Parlamentar Memória, Verdade e Justiça, criada pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara” e “presidida pela deputada Luiza Erundina (PSB-SP) (…) para fornecer informações e fiscalizar os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. (…) Durante a sessão solene, serão entregues aos ex-deputados ou a seus familiares documento em forma de diploma e broche de uso parlamentar. Também será exibido documentário produzido pela TV Câmara que evidencia os prejuízos trazidos ao país pelo fechamento do Congresso Nacional durante a ditadura e pela cassação dos mandatos parlamentares (…) logo após a sessão solene, será inaugurada a exposição Parlamento Mutilado: Deputados Federais Cassados pela Ditadura de 1964, que reúne imagens que retratam os momentos mais tensos vividos pelo Congresso Nacional entre 1964 e 1985. Também será lançado livro de mesmo título, de autoria dos consultores legislativos…”

 

     Essa é uma verdade. Restaria acrescentar quem, exatamente, sentiu “os prejuízos trazidos ao país pelo fechamento do Congresso Nacional … e pela cassação dos mandatos parlamentares” no período pós-1964, uma vez que os cassados assim o foram por seu envolvimento em corrupção e na subversão da Ordem, e assim cassados foram para que não se fizesse, à época, a politicagem que hoje impera, sem peias, na Política.

 

     Na mesma Revista, poderíamos ainda ler que “A 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal decidiu que é válida a acumulação de duas pensões por parte da viúva do cientista Haity Moussatche, cassado com base no Ato Institucional número 5 (AI-5) durante a ditadura militar” (http://www.conjur.com.br/2012-nov-14/stf-permite-acumulacao-pensoes-viuva-cientista-cassado-ditadura). O que também “tem mulher no meio”…

 

     “Haity estava entre as dez vitimas do “Massacre de Manguinhos”, em alusão ao bairro do Rio de Janeiro em que se localiza o Instituto Oswaldo Cruz. Na ocasião, ele e os demais cientistas da instituição foram aposentados compulsoriamente sob o argumento de que eram filiados ao pensamento de esquerda e, portanto, subversivos. O destino de quase todos foi o exílio em países diversos, onde puderam prosseguir com suas pesquisas”.

 

     A bem da verdade, saberíamos que nenhum dos cientistas foi torturado nos porões do DOI-CODI – foram eles aposentados. Mas assim continua a notícia: “Em 1986, já no governo Sarney, os cientistas foram convidados a regressar ao Brasil, (…) reincorporados ao Instituto Oswaldo Cruz (…) atribuindo-se uma nova matrícula a cada um (…) Haity se aposentou desse segundo vínculo e passou a receber uma segunda aposentadoria proporcional ao tempo de contrato (…) ambas as aposentadorias foram convertidas em pensões em favor da sua mulher, Cadem Moussatche. (…) Em dezembro de 2009, porém, e sem que tivesse sido citada para se defender em qualquer tipo de processo, a pensionista recebeu uma carta comunicando a suspensão de um dos benefícios. Argumento: O Tribunal de Contas da União teria constatado violação ao artigo 40, parágrafo 6º, da Constituição. O dispositivo — incluído pela Emenda Constitucional 20/1998, posterior à instituição das pensões — veda a acumulação de aposentadorias quando os cargos sejam inacumuláveis na atividade. A questão foi levada ao Supremo Tribunal Federal, em Mandado de Segurança impetrado contra o ato do TCU. (…) havia muitas teses convencionais para sustentar a invalidade da decisão tomada pelo TCU. Mais importante do que isso, porém, seria preservar o caráter compensatório da segunda pensão (…) forma encontrada para reparar, ainda que parcialmente, a violência por ele sofrida. Essa tese moral [grifo meu] foi convertida em argumento jurídico por meio de uma interpretação teleológica do sistema constitucional em seu conjunto e, em especial, do artigo 8º do ADCT, que constitucionalizou a anistia e previu o dever do Estado de compensar as vítimas dos atos de perseguição política praticados durante o regime militar. Nas palavras do advogado: ‘ (…) é uma forma elementar de eficácia negativa, sem a qual se estaria admitindo que o Estado atue deliberadamente no sentido oposto ao que a Constituição exige’. (…) na visão do relator, o caso da pensionista constituiria uma das hipóteses felizes em que a solução justa salta aos olhos e encontra amplo amparo no Direito.” 

 

     Uma “solução justa”… Muito justa… não é verdade?

 

     O que pergunto, no frigir dos ovos, é: qual é a principal verdade republicana, a equação-chave, que merece e requer ser destacada em nosso raciocínio? O nosso problema republicano será Lula da Silva? É o PT hoje no poder? Ou seria, por acaso, “ter mulher no meio”? Porque tanto muitas verdades parciais, pontuais, não primordiais, como muitas denúncias poderão ser pinçadas aqui e ali no meio do lixo fértil; mas o porquê desse lixo continuar se mantendo como uma verdade se apoiará em muitas flácidas mentiras, na corrupção consentida como sendo necessária à “justiça”, na pétrea demagogia. E as incorpora. Quem manterá esse lixo como se insolúvel fosse, no fim das contas, seremos nós mesmos. Que aceitamos como uma “solução justa”, por uma razão ou por outra, as palavras, as frases e os argumentos de quem dele se beneficia.

 

     Insisto: afinal, qual é o NOSSO problema republicano? Se conseguirmos enunciá-lo, encontraremos a solução, a solução definitiva, sim, que, nem por ser definitiva, indicará que o processo republicano possa vir a ser necessariamente impecável, fácil, simples e rasteiro. Para poder enunciá-lo, porém, precisaremos de, antes, recuperar os fundamentos autênticos, legítimos, de NOSSA República, os que nos levaram ao processo que à sua proclamação nos levou, os que a justificaram e a podem hoje justificar – os que, definitivamente, não vêm sendo observados. Sem os quais ela não se manterá por muito mais tempo.

 

     Penso eu – aliás, também insisto em insistir nisso – que é minimamente necessário que deixemos nossas idéias muito claramente expressas ao divulgar notícias e, principalmente, comentários de terceiros. Idéias são como uma poeira, como o ar que respiramos. Elas penetram pelas brechas de nosso raciocínio (todos estamos sujeitos a tê-las), instalam-se onde pouco parecem incomodar, provocando um acúmulo de resíduos que dificultam o correto desenvolvimento desse raciocínio. Foi assim, por exemplo, que se infiltrou em nosso imaginário (no imaginário de todos nós) a expressão “ditadura militar” como sendo correspondente a uma característica de um regime que buscava eliminar ameaças flagrantes ao nosso Estado – enquanto Getúlio Vargas, mesmo que podendo ser tido como mais simpático ou menos simpático, transformou-se em referência de um regime “democrático e popular”, podendo emprestar esse rótulo a seus afilhados e sucessores. O que, entre outros fenômenos mais, deu no que deu e vem dando no que vem dando (que não me deixe mentir a campanha em que o “pai” Lula elegeu a “mãe” Rousseff para governar os “brasileirinhos”).

 

     Dessa forma, não é que nos seja necessário exatamente ser muito didáticos, mas muito necessário nos será procurar ser minimamente coerentes. Sem o que a mais absoluta confusão – que se faz entre nossas presumidas intenções, argumentos que esporádica e aparentemente lhes possam cair como uma luva apesar de serem dirigidos a objetivos contrários aos nossos, e princípios absolutamente antagônicos – apenas nos tritura e, por fim, ainda nos há de engolir. Por inteiro.

 

     Pois bem. Presumo que fosse muito bem intencionado o texto que recebi repleto de referências de terceiros. E que pretendia ser informativo. Infelizmente, informativo não é. Porque, infelizmente, ele só mais divulga e reforça uma “verdade” particular pretensamente “libertária” que não nos convém acatar e não nos poderá, jamais, libertar. Portanto, infelizmente também, tal como muitos outros que nos chegam cotidianamente aos olhos, e cotidianamente a outros tantos olhos chegarão, esse texto poderá ser apenas classificado, na melhor das hipóteses, como um típico “fogo amigo”. Que, nem mais nem menos cruel, nem mais nem menos doloroso que o fogo inimigo, igualmente nos há de matar.  

              

 

  

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

      

 

 

     Em um sítio virtual que costumo, por vezes, visitar, encontro publicado – portanto, recomendado –, na seção “para meditar”, o texto de um sociólogo internacionalmente conhecido e por muitos acatado (*).

 

     Leio, então, o texto; em seguida, medito.

 

     E, após ter, creio eu, suficientemente meditado, imagino ter podido reunir algumas conclusões, nenhuma delas muito importante ou surpreendente. A de que tenho nenhum poder, por exemplo. A de que não sou dona de qualquer verdade absoluta, mesmo porque ninguém é, nem aqueles que têm ou já tiveram algum ou muito poder nas mãos. Talvez exatamente por isso, se e quando chegar aos meus 80 anos, espero, mais que tudo, que tenha podido preservar minha lucidez. E espero que ela me livre de declarar, tentando me desculpar por meus muitos erros (se sou humana, errar será inevitável), que “me dediquei muito mais a ver a situação dos outros. De uma maneira modesta, sem proclamar”. Da situação nacional, pois – que é do que depende a minha situação e a “dos outros”, direta ou indiretamente, sejam eles quem forem, amigos ou inimigos, próximos ou distantes –, procuro sempre divulgar o que percebo, na expectativa de contribuir, em meus limites, com uma discussão que, a meu ver, a cada dia mais se nos faz necessária. Por cuidados devidos aos que dependem de nossa lucidez e nossa responsabilidade.  

 

     Concluo ainda que não levo, definitivamente, “minha vida inteira pensando no mundo, pensando na sociedade, pensando nas pessoas, nos outros”. Mas sempre me foi muito difícil supor alguma vez que fosse possível alguém querer dissociar o “intelectual” do “político”. Principalmente na faina sociológica. E que nunca imaginei que “buscar fazer alguma coisa que mude a situação mais ampla do que a minha própria” pudesse alguma vez prescindir da consciência de que “as pessoas contam”; ou prescindir da percepção de que o sentido da Vida não depende daquele que eu possa querer, ou não, emprestar à minha própria existência. Se a Vida é a Vida, enquanto Vida ela terá um sentido que extrapola qualquer definição mais detalhada que lhe venha a ser dada por qualquer indivíduo. E, se acaso eu confundisse o sentido da Vida com um sentido qualquer que quisesse dar à minha própria existência, ou se tentasse dissociar esses sentidos um do outro, o sentido de minha existência não seria “sentido” algum, seria apenas um expediente, uma invenção que me deixasse confortável ou menos desconfortável.

 

     Sei exatamente de quais latitude e longitude venho e, principalmente, sei por onde se estende o território – que tem seus limites perfeitamente delineados – em que me finquei – nos meus próprios limites, por mais que os possa pretender ampliar; sei também que estou onde estou porque quero estar, embora desconheça por completo, tal como todos desconhecem, o dia de amanhã. Assim como sei que não é pela idade que a morte escolhe quem consigo levar em seus passeios pelo mundo. Sei ainda que apenas quem disso se esquece e, à toa, muito se presume poderá paralisar-se diante de qualquer “angústia da morte e da ausência de um destino claro”.

 

     Assim sendo, bem sei também que o que percebo e faço questão de enunciar será não mais que uma opinião, uma opinião pessoal, limitada, que depende de referências acumuladas em uma existência limitada que, essa sim, é só minha, de ninguém mais, apesar de que ela se faça imersa no todo social do qual extraio algumas verdades que também serão só minhas, de mais ninguém. Penso o meu País porque nele me encontro e porque o que nele ocorre me afeta diretamente, e muito. Sou, portanto, solidária, em meus limites, com aqueles que nele procuram viver e procuram dar sentido ao que os cerca de perto de acordo com o sentido da Vida – que é a própria Vida, não outro qualquer.  Minha capacidade de abstração e de projeção também tem limites bem contornados: ele, o meu País, está no mundo – não eu, não aqueles que considero iguais a mim, os “meus”.

 

     Muitas e muitas vezes, porém, penso e repenso à exaustão se devo ou não devo divulgar o que percebo. Principalmente pondero se o que divulgo será útil ou inútil. O inútil, muitas vezes, poderá não ser apenas inútil e mostra-se prejudicial. Porque ocupa tempo, espaço e atenção. Que, na Vida, são preciosos.

 

     Pronto! Meditei! Despendendo algum esforço, é certo, mas meditei.

 

     Por mais que me esforce, porém, não consigo, sinceramente, alcançar saber a que tipo de meditação nos poderia ter estimulado o texto do sociólogo “velho de guerra” caso esse exercício não nos tivesse sido recomendado. E que é o que, de minimamente útil, suas palavras nos poderiam ter acrescentado.

 

     Bem, já disse e repito: tenho eu cá os meus limites…  

      

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     (*) As palavras postas entre aspas estão em “A soma e o resto: um olhar sobre a vida aos 80 anos” do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, livro publicado pela Ed. Civilização Brasileira, em 2011, cujo trecho abaixo foi divulgado na web.

      

     (…) Tem que haver, é claro, algum grau de riqueza, senão a miséria, a escassez, predomina e então não se tem nem liberdade nem igualdade. A escassez é a luta, a guerra pela sobrevivência. Tem que haver um certo bem-estar material. Além disso, porém, é preciso criar uma condição humana de dignidade, de decência, de aceitação e respeito pelo outro.

     Tentei entender isso do ponto de vista intelectual e fazer a mesma coisa do ponto de vista político. Então acho que dei um certo sentido à minha vida. Esse sentido tem que ser dado por cada um. Não está dado que todos tenham que ter o mesmo sentido e haverá quem nunca encontre sentido na vida e fique batendo cabeça.

     “Quando se vai ficando velho e, portanto, mais maduro, você tem que valorizar mais a felicidade, a amizade, essas coisas que, no começo da vida, parecem secundárias.”Essa angústia vai ser permanente. Não tem solução. É parte da condição humana. Não sabemos de onde viemos, não sabemos para onde vamos. Tampouco sabemos por que e para que estamos aqui. O que não podemos é deixar que essa angústia da morte e da ausência de um destino claro nos paralise.

     Cada um tem que inventar sua resposta. Cada um tem que dar sentido à sua vida. Ela não tem sentido em si. Esse sentido não está dado. Cada um tem que construir o seu sentido. E vai sofrer para encontrar.

     Uma resposta está no próprio convívio com os outros. Inclusive com os mortos. Talvez isso arrefeça um pouco a angústia. Não se vive sem amizade, sem amor, sem adversidade. Quando se vai ficando velho e, portanto, mais maduro, você tem que valorizar mais a felicidade, a amizade, essas coisas que, no começo da vida, parecem secundárias. Você continua querendo mudar o mundo, mas sabe que as pessoas contam. Embora eu tenha sempre me definido como mais intelectual do que como político, na verdade minha vida foi muito mais dedicada ao público. Isso vem da minha ancestralidade, da minha convivência familiar.

     O sentido, para mim, sempre consistiu em buscar fazer alguma coisa que mude a situação mais ampla do que a minha própria Nunca fui uma pessoa voltada em primeiro lugar para alcançar o meu bem-estar. Eu tenho bem-estar. Diria que quase sempre tive bem-estar. Mas esse não foi o meu valor.

     Mesmo em termos subjetivos, a ideia de felicidade, nunca busquei com denodo a felicidade pessoal. Eu a tive de alguma forma, nunca me senti infeliz. Eu me dediquei muito mais a ver a situação dos outros. De uma maneira modesta, sem proclamar.

     Nunca andei proclamando, sou solidário, sou do bem. Mas levei a vida inteira pensando no mundo, pensando na sociedade, pensando nas pessoas, nos outros. O sentido que dei à minha vida foi construir isso.

 

 

 

      

 

 

   

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     Leio que … Conceito Base Zero, o método de armazenagem que promove a irrigação e regeneração do solo, foi criado pelo engenheiro José Artur Padilha, um estudioso do semiárido e da natureza: são as barragens submersas em leitos de rios secos. (…) ‘O aleijamento cultural nos impede de perceber obviedades’ (…) Incluído na Agenda 21 do Ministério do Meio Ambiente de 1999, o Conceito Base Zero nunca foi adotado por nenhum governo.”

 

     A notícia, evidentemente, provoca-me extraordinário entusiasmo – foi lembrado que temos uma solução para a seca no Nordeste! Uma solução criada, provada e comprovada por um brasileiro! Embora ainda não tenha sido aproveitada por nossos governos.

 

     Mas… como é que é? “O aleijamento cultural nos impede de perceber obviedades”?

 

     Formidável! Era só o que nos faltava! Eis que aí surge entre nós mais um que de nós se destaca e nos vem ensinar que nossa cultura é troncha. O aleijume cultural seria adquirido, decorrente de um tombo ou de uma rasteira, por exemplo? Ou de um vírus como o da pólio, porque nossa cultura nunca pôde ser vacinada? Terá ela um aleijão de nascença? Seria (e este vem sendo o “argumento” preferido pelos considerados “intelectuais”…) genético esse aleijão? Ou nossa cultura terá sido amputada em um procedimento cirúrgico? Quando? Que membro exatamente lhe falta? Não importa: se nossa cultura aleijada é, estará predestinada a capengar ou até mesmo a ser dependente por todos os séculos dos séculos, amém.

 

     Aqui mesmo, porém, comprova-se que um brasileiro, que brasileiro é, será bem capaz de dar solução a qualquer problema por mais velho e mais gordo que seja este. Sendo um brasileiro, em que cultura, afinal, criou-se esse engenheiro que afirma ter resolvido, depois que observou e respeitou o comportamento da natureza na caatinga, não só na teoria como na prática o problema da seca no Nordeste? Será que esse seu feito se deve a que ele seja um único que pôde ser criado imerso em um ambiente perfeito, isolando-se de nosso entorno defeituoso? Ou deverá ele ser considerado “uma palmeira que nasceu no deserto”?

 

     Sejam óbvios ou não, problemas requerem solução. Ou não serão problemas. E problemas só se tornam óbvios quando afetam um interesse óbvio ou não. A seca do Nordeste é um problema nacional, não apenas do Nordeste é. E é um problema óbvio. Assim como se está tornando a seca no Sul. Assim como são as enchentes periódicas em todo o território nacional. Já a solução para qualquer problema óbvio põe-se igualmente óbvia desde que vejamos o problema como um problema de fato; desde que o que tão óbvio nos parece seja muito bem analisado e muito bem definido; desde que queiramos encontrar-lhe uma solução, desde que nos empenhemos em encontrar essa solução.

 

     Mas quem deixaria ou haveria de querer observar e enunciar nossos problemas (que obviamente são nossos, de ninguém mais) em sua forma correta e encontrar-lhes solução? Seria a “nossa cultura”? Ou esse interesse e essa responsabilidade são de nós mesmos, indivíduos providos de inteligência e algum conhecimento? Cultura cai do céu? Brota espontaneamente do chão? Cresce autonomamente? Do nada, no nada? Afinal, quem produz e cultiva uma cultura senão nós mesmos, os indivíduos?

 

     Ora, bem sabemos que um acúmulo de conhecimentos é o que permite novas descobertas e um maior avanço sobre a natureza que nem sempre se comporta exatamente como se fosse uma “mãe” e, muitas vezes, mostra-se apenas perversa. Tentemos, então, colocar, por favor, os fatos, os conceitos, as opiniões gratuitas, as coisas todas, enfim, em seus devidos lugares, sem o que o raciocínio se entorta, empaca e não consegue avançar.

 

     Sem dar grandes mergulhos na teoria, de forma rápida e rasteira que a intenção não é produzir um tratado, podemos entender a cultura como aquilo que permitiu domar e transformar a natureza – desde sempre em benefício de um grupo que se distinguirá dos demais por um conjunto mais ou menos uniforme de saberes, costumes, crenças, padrões de comportamento etc. Cultura, portanto, vincula-se diretamente a um grupo de indivíduos, cujo interesse é sobreviver da melhor forma, e também se vincula a um conjunto de fatores físicos, favoráveis ou adversos à vida desse grupo, e de valores que, por sua inteligência, foram criados e são respeitados. Sejam mais ou sejam menos racional e eficazmente orientados no sentido de unir, manter e proteger o grupo, os “saberes” culturais nem serão exatamente aleatórios nem serão rigidamente petrificados, porque mantêm-se, transformam-se ou se perdem em um processo que, muito ou pouco, transforma as condições em que o grupo se formou originariamente. Uma cultura poderá alterar-se por estímulo de elementos da própria natureza e também pelo estímulo provocado por contatos com elementos de outras culturas, quando técnicas podem ser adotadas, comportamentos assimilados, símbolos e significados replasmados, o que, em geral, permite que o grupo avance em conhecimento sem que necessariamente perca sua identidade e, principalmente, sem que a cultura perca sua finalidade.

 

     Conhecimento e inteligência, porém, assim como estupidez e ignorância, têm sede e domicílio próprios e bem definidos: encontram-se apenas no cérebro dos indivíduos, em nenhum outro espaço real ou virtual. Portanto, não é “a cultura” quem os abriga. Nem, portanto, “a cultura” poderá produzir, por si mesma, qualquer alteração na natureza, ou nela mesma, cultura, ou nos indivíduos que dela privam sem que estes estejam, por sua própria vontade, conformes. Nem produzirá qualquer descoberta, qualquer decisão ou qualquer solução. Se não perceberem uma necessidade, se não estiverem de acordo com uma alteração qualquer em seu ambiente, se não dedicarem esforços no sentido de produzir essa alteração, seja o que for que se pretenda alterar por meio de uma força, externa ou invasora, que “na cultura” e em seus objetivos não se identifique, os indivíduos “na cultura” compreenderão como sendo uma ameaça, e a essa força reagirão.

 

     Há culturas mais estruturadas e rígidas; outras serão bem mais flexíveis, mais “porosas”. Há culturas que se mostram mais adequadas às intenções dos indivíduos que as representam e há culturas menos adequadas. Há culturas mais avançadas pelo grau de eficácia de técnicas praticadas pelo grupo e pelo número de inovações efetivamente a ele úteis produzidas; outras há que são extremamente atrasadas. Só não há culturas aleijadas. Nenhuma cultura tem consciência alguma, nenhuma cultura quer alguma coisa ou tem alguma vontade, nenhuma cultura tem sentimentos ou se ressente, nenhuma cultura tem conhecimento algum, nenhuma cultura responde a pesquisas, nenhuma cultura atribui percentuais de aprovação a qualquer governante ou manifesta preferências eleitorais, nenhuma cultura nomeia investigados pelo TCU para cargos públicos, nenhuma cultura assalta o Tesouro Nacional ou os cofres particulares, constrói estruturas destinadas a desabar ou executa policiais nas ruas, nenhuma cultura vota, questiona candidatos, considera o passado e projeta futuro, nenhuma cultura poderá ser antropomorfizada segundo nossa mesquinha necessidade de, enquanto indivíduos, isentar-nos de responsabilidades, indivíduos cuja consciência individual somos responsáveis por levar aos que consideramos como nossos grupos de interesse. Não somos, portanto, “aleijados culturais” porque “nossa cultura” nos impediria de perceber obviedades. Nossa cultura nada nos impede. E nada faz, como qualquer cultura. Se nos recusamos a perceber obviedades, somos nós mesmos, indivíduos, que nos recusamos a perceber obviedades. Seja para que lado for que nossa cultura cresça ou definhe, seja o que for que nela aconteça, seja como for que a queiram podar ou mostre-se ela na foto depois de passar por eficiente editor de imagens.

 

     Fato é também que brasileiros não se destacam na observação de nossos problemas, portanto, não se destacam na produção de soluções que nossos problemas exigem, o que permite qualificar nossa cultura como, mesmo que relativamente, estagnada. Por outro lado, nenhuma idéia efetivamente “de ponta” produzimos. Se por vezes, mesmo que preguiçosamente, buscamos diminuir nossa defasagem no campo tecnológico, em muitos outros campos vê-se sendo adotado, como fosse uma solução “de vanguarda”, o que já pôde ser, por inútil ou contraproducente, descartado em sociedades tão complexas quanto a nossa. Nossa cultura, a brasileira, que nossa é, de todos nós, sem exceção, que é apenas o que é, não é o que dela possam dizer, é apenas uma cultura, não um qualificativo; é nem mais nem menos inteira e articulada, nem mais nem menos mutilada ou aleijada que qualquer cultura. Transforma-se, como qualquer outra, no tempo, no espaço e na medida exata em que os brasileiros – que, presume-se, por sua própria natureza, têm um cérebro e têm vontade – transformam-se individualmente e individualmente pensam, criam e agem, contagiando seus grupos que, progressivamente, contagiam outros grupos, até que toda a população se vê contagiada dos mesmos valores, dos mesmos saberes e das mesmas expectativas. Em uma reação “metabólica” em cadeia.

 

     Acreditamos que sabemos o que seja uma cultura porque os europeus e os norte-americanos nos ensinaram a verbalizar a palavra com extrema leviandade, não nos ensinando a usar o conceito com propriedade, até mesmo porque são muito poucos no mundo os que se dispõem a refletir a respeito dos conceitos. Os europeus e os norte-americanos são considerados civilizados, porém, e dizem “respeitar” a cultura dos demais e quando são publicados os respeitamos, sem discussão. Eles têm “a verdade”. E, como os compreendemos da forma como bem queremos (ou talvez como bem queiram eles), “cultura” e “cultural” passaram a ser palavras-coringa, que servem para designar qualquer coisa, da mais elaborada à mais rudimentar.

 

     Enquanto os indivíduos, em muitas partes do mundo (não em todas…), procuram aprimorar-se produzindo benefícios àquelas populações com as quais se identificam, muitos ou a maioria de nós, os brasileiros, pensamos e agimos tal como um Neandertal, que sozinho vai à caça, ou como as criaturas mais selvagens ainda remanescentes que, em sua “pureza cultural”, até hoje deixam seu lixo atrás de si a cada vez que migram em busca de solo novo ao verem esgotado o que antes ocupavam, acreditando, talvez, que a natureza se encarregará de repor os recursos explorados e de processar e incorporar o lixo residual da melhor forma. A responsabilidade, portanto, será “da natureza”, de ninguém mais. Será essa a “nossa cultura”? Ou esse é apenas o nosso modo individual de ser, de fazer, de agir, ao que nos impele a nossa inteligência, a inteligência que individualmente cultivamos?

 

     Embora todos os nossos problemas se venham acumulando, agravando e eternizando, o problema mais que óbvio no qual tropeçamos é exatamente esse acúmulo progressivo e incessante de problemas deixados sem solução porque não lhes queremos dar solução. Nosso fazendeiro de Afogados da Ingazeira, no sertão do Pajeú, que resolveu o seu próprio problema porque assim era de seu interesse, ofereceu a solução que encontrou aos governos brasileiros; acontece que resolver o problema da seca no Nordeste não era e não é do interesse dos governos brasileiros, de nenhum governo brasileiro. Porque “nossa cultura” é aleijada e nos impede de ver obviedades? Não. Nada nos impede de dar solução aos nossos problemas, muito menos a cultura. Nosso descaso não é, portanto, nunca foi, nem alguma vez será decorrente de qualquer “aleijamento cultural”.

 

     Aleijado muita gente pretende que o nosso raciocínio se demonstre ser e que assim ele se mantenha; também muita gente pretende que creiamos que esse nosso aleijamento não terá solução enquanto não repudiarmos nossa cultura – aquilo que, conforme foi dito acima, permite domar e transformar a natureza, seja como for que ela se manifeste, em benefício de nós mesmos enquanto grupo que se distingue dos demais. Quando o que nos falta é apenas querer nos conhecer. É querer mais consciência de nós mesmos e é mais nos identificarmos
com essa e, principalmente, nessa nossa cultura. Nada há de errado com ela. Errados somos nós, mancos de vontade de tomar consciência, de coragem de ter consciência. Consciência que nos vem do conhecimento de nós mesmos, da qual nos virá mais conhecimento e nos virá a capacidade que nos falta. Nada mais nos falta. E, como toda e qualquer consciência, toda e qualquer vontade e toda e qualquer coragem são exclusivamente individuais, assim como serão exclusivamente individuais todo e qualquer conhecimento e toda e qualquer capacidade, nenhuma consciência, nenhuma vontade, nenhuma coragem, nenhum conhecimento, nenhuma capacidade será dependente de qualquer cultura.

 

     Aleijada é nossa organização, que se traduz como nossa desorganização. Aleijado é o sistema político nacional. Sistema esse que, não tendo sido em nossa cultura criado, mas por nós foi adotado em sua nomenclatura como se fosse a condição imposta (por quem?) para que uma República se realizasse, assim como permitiu que nossos sucessivos governos tomassem decisões que muito nos prejudicaram, permitiu que nenhum deles, desde 1999, decidisse investir na solução da seca no Nordeste que aqui se diz provada e comprovada. Porque perpetuar problemas lhes conveio, a cada um deles, tal como sempre conveio a todos os nossos governos. É de seu interesse.

 

     É não mais que uma obviedade ululantemente óbvia que o que mais precisa de uma solução urgente é esse nosso sistema político aleijado, capenga, torto, sistema que permite que aleijados intelectuais – e aleijados morais – definam a nossa Política e invistam em condições aleijadas, fazendo do problema da seca, de problemas dela decorrentes e de outros problemas mais, tal como o de nossas cidades inchadas, o do nosso sub-emprego, o de nosso semiletrismo etc. uma próspera indústria eleitoral. Estariam esses aleijados em nossa cultura? Não, estão absolutamente fora dela, pensam e agem como se brasileiros não fossem. E não precisassem de ser. Esse sistema se mantém por regras que por nós vêm sendo feitas, aceitas e mantidas para que ele próprio, sistema, se mantenha, regras que, essas sim, são tortas, que nos obrigam, que nos empurram, que nos “educam” e nos paralisam, impedindo que nós nos mantenhamos como uma forte unidade cultural nacional. E a manutenção ou não dessas regras depende exclusivamente de nossa aceitação, de nossas atitudes, de nossa reação. Esse processo, ele sim, precisa de uma solução urgente e definitiva. Que não será encontrada enquanto acreditarmos que “nossa cultura” se desenvolveu de forma aleijada porque nasceu aleijada ou se aleijou de repente, determinando o que somos e podemos ser, fazendo que sejamos reconhecidos como aleijados físicos ou mentais, portanto, incapazes relativa ou absolutamente. E que desempenados nasceram os… outros.

 

     Enquanto acreditarmos que “nossa cultura” é aleijada, que a cultura dos outros é, seja lá por que motivo for, livre de aleijões, mais reta, mais bem articulada e mais correta que a nossa, enquanto nossa consciência, nossa vontade e nossa coragem demonstrarem que, elas sim, precisam de muletas, em geral importadas seja lá de onde forem, enquanto nos submetermos a adotar pseudo-soluções que nos são recomendadas por seja lá quem que possamos considerar mais capaz que nós mesmos, enquanto não buscarmos dar os nomes corretos aos bois, enquanto nos recusarmos a fazer Política de fato, observando e respeitando o comportamento da natureza na Política, só mais nos arrastamos e definhamos, cada um de nós. O que permite que um sistema político aleijado também se arraste em nosso território e mais nos sufoque indefinidamente até poder nos enterrar. A dez metros abaixo do nível do chão, tal como estão construídas as barragens da Fazenda Caroá. Mortos de sede e de fome. E de vontade de comer.

 

     De um jeito ou de outro, nossa cultura continuará sendo a nossa cultura. E continuará sendo feita. Por nós. Da única forma como uma cultura se faz, como toda e qualquer cultura se faz, para o bem ou para o mal. Porque todas as culturas são feitas pelo acúmulo de experiências dos indivíduos, de conhecimentos dos indivíduos e das atitudes daqueles que dela dependem, ou seja, daqueles que sabem que dependem dos que devem considerar como seus iguais. E nenhuma cultura poderá superar as deformidades que lhe sejam idiotamente atribuídas sem que os indivíduos que se olham no espelho e se julgam perfeitos tentem superar o seu próprio narcisismo, sua própria egolatria, seu próprio aleijamento.

 

     Torta, pois, não é a nossa cultura. Ela é apenas o que dela fazemos. Em nossa covardia. Em nossa irresponsabilidade. Em nossa estupidez. Em nossa deformidade. Todas elas individuais. Em nosso conjunto de todos nós. Nada mais. Nada menos. Tortos, pois, somos nós, que mantemos um sistema político suicida e, dia após dia, com nossas decisões tortas ou nossa indiferença, desprezando a inteligência dos nossos, fazemos nossa cultura. Até que nos desfaçamos por completo enquanto grupo de interesse nacional, quando não mais seremos “nós”. Por mais brilhantes, ilustrados e civilizados que individualmente, independentemente dessa nossa cultura, pensemos poder ser e imaginemos poder sobreviver. E essa nossa cultura deixará de existir.

 

     A quem ou a que, então, passaremos a atribuir nossos próprios erros?

 

     Este talvez seja um problema de difícil solução…

      

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     http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,barragem-submersa-garante-agua-na-seca-do-sertao-de-pernambuco,962853,0.htm

      

     Barragem submersa garante água na seca do sertão de Pernambuco

     Engenheiro cria método que promove a irrigação e a regeneração do solo e transforma sua fazenda em um laboratório vivo

     21 de novembro de 2012 | 2h 05 – Angela Lacerda, enviada especial – O Estado de S.Paulo

     Na pior seca das últimas décadas, em pleno sertão do Pajeú, em Pernambuco, a Fazenda Caroá, no município de Afogados da Ingazeira, a 390 quilômetros do Recife, não disputa carro-pipa. Na sua área, de 450 hectares, há água.

      

     Fazenda Caroá    

     Padilha diz que apenas observou e respeitou o comportamento da natureza na caatinga

      

     De boa qualidade e guardada no subsolo, a água pode ser coletada nos “pontos de entrega”, os bebedouros, distribuídos pela propriedade. Intitulado de Conceito Base Zero, o método de armazenagem, que promove a irrigação e regeneração do solo, foi criado pelo engenheiro José Artur Padilha, um estudioso do semiárido e da natureza: são as barragens submersas em leitos de rios secos.

     Ele faz questão de frisar que nada criou, apenas “observou e respeitou o comportamento da natureza na caatinga”, que tem como característica águas subterrâneas rasas e um elevado índice de evaporação.

     A propriedade de Padilha funciona como um laboratório vivo – o Laboratório Base Zero Fazenda Caroá. Depois de décadas de pesquisa, o engenheiro chegou à essência do que buscava. “O aleijamento cultural nos impede de perceber obviedades”, afirma ele.

     O “óbvio” percebido pelo engenheiro é simples, barato – em relação a outras alternativas – e eficiente. Ele constrói barragens baixas, em forma de arco romano deitado, utilizando apenas pedras – sem cimento ou argamassa nem escavação para fundações – ao longo do leito seco. No período chuvoso, a sucessão de barramentos absorve e retém a água, que fica acumulada, a cerca de dez metros, no subsolo, para os períodos de estiagem. Os elementos trazidos pelas correntes das águas da chuva – a exemplo de minerais e materiais orgânicos – vedam os espaços entre as pedras e são decantados e sedimentados, permitindo a regeneração da biodiversidade.

     Com a tática, o solo se recompõe e a vida animal é preservada. Sapos, abelhas e pássaros voltam a habitar a área. Nas terras que voltam a ser férteis, torna-se possível praticar a agricultura familiar – aliada ou não à criação de animais.

     Na Fazenda Caroá, os bebedouros instalados no mesmo rumo dos barramentos estão sempre cheios, oferecendo água sem necessidade de bombas ou cataventos para puxá-la. A gravidade faz o serviço.

     Ampliação

     Padilha tem mapeadas 418 microbacias hidrográficas nos 17 municípios do sertão do Pajéu. Mas ele assegura que o projeto pode ser replicado em todo o Estado de Pernambuco, em todo o semiárido e até no Brasil inteiro. “Sem exceção”, assegura o engenheiro, que já comprovou o sucesso das barragens submersas mesmo em áreas de caatinga totalmente planas.

     A sua fazenda se localiza ao pé de uma serra, com parte do terreno em área mais alta. “A lógica é a mesma, mas o modo de fazer é personalizado”, diz, ao observar que o ideal é construir as barragens em período seco, preparando o solo para o ciclo chuvoso. Quem faz a experiência, segundo ele, vê o resultado depois da primeira chuva. “É algo mágico, o ambiente antes inóspito se torna produtivo”, explica.

     Padilha dispõe o método a quem se interessar e afirma que a tecnologia pode ser repassada numa capacitação de menos de quatro horas – e até mesmo a distância. Ele destaca que a evaporação no bioma caatinga é muito alta – média de 2,5 mil milímetros – levando barreiros, barragens e açudes a uma redução rápida da água armazenada.

     “Não adianta brigar com o semiárido, qualquer coisa que se tente alterar é insensato”, defende o engenheiro, ao reiterar que a estiagem é um fenômeno comum na região.

     Padilha acredita em uma “revolução pacífica” para todo o semiárido nordestino com a adoção do Conceito Base Zero dentro de um planejamento de política pública. Ele observa que a mão de obra ociosa no período seco poderia ser usada para trabalhar na construção das barragens e sugere até um nome para a sua remuneração: “Bolsa Ecologia”.

     “Trata-se de uma questão fundamentalmente ecológica”, avalia, defendendo um desenvolvimento efetivamente sustentável e produtivo. Incluído na Agenda 21 do Ministério do Meio Ambiente de 1999, o Conceito Base Zero nunca foi adotado por nenhum governo.

 

      

      

 

 

 

   

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

    

 

 

 

     Rasgar é fácil.

     Rasga-se até no escuro. Basta ter força.

     Para compor e costurar, é preciso alguma técnica, alguma habilidade e alguma luz.

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      Pátria pedro bruno 1919 -2   

 Pátria – Pedro Bruno – 1919

 

 

Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     A Democracia alimenta os espíritos mais elevados. E os mais rasteiros. Em nome dela, entendida como seja lá o que for, a qualquer um será dado dizer – e fazer – o que bem entende. A alguns é dado ler o que lhes interessa e entender como bem queiram entender. A muitos é dado ingerir o que bem lhes for disponível. E a todos é dado metabolizar – reagir, sintetizando, desassimilando e liberando energia (*) – da forma como lhes for possível.

 

     Leio que, aos famintos de “ética política”, algumas opções tratam de incluir-se no cardápio eleitoral e se oferecem ao consumo. Os títulos sugerem que sejam de “direita”, de “centro”, de “esquerda”… “progressistas”… “nacionalistas”… até “conservadoras”… seguindo alguma receita antiga encontrada de repente no fundo de uma gaveta.

 

     Entendo que são sopas de preparo rápido.

 

     E digo que, a considerar os ingredientes, são, todas elas, uma mesma sopa. São feitas com água da bica sem filtrar engrossadas por uma mesma farinha de má qualidade. Nada mais contêm. Uma essência artificial lhes empresta sabor. Um sabor artificial de… qualquer coisa. A indústria (“democrática”) procura atender a paladares diversificados.

 

     Fervem-se, todas essas sopas, em uma mesma panela. Incorporam-se àquela sopa rala e mal cheirosa (também já rotulada de “democrática”) que já enche as duas cuias do Congresso, da qual, de quatro em quatro anos, sempre sobra um bocadinho – sopa que, por ser “básica”, sem cor e sem sabor, poderá ser servida com pimenta, com caviar, com cachaça, uísque, champanhe… Já houve quem a servisse com poire, lembram-se?

 

     Digo também que, nutrir, essas “novas” sopas não nutrem; e que sustância não dão. Nem podem dar. Vê-se algo sendo semeado e cultivado, um tempero que fosse, para que possa ser usado no preparo de alguma porção diferente, mesmo que mágica não seja?

 

     Digo ainda que até esquentam as tripas. Esquentam, sim, reconheço. Mas considero que só levam o sistema político à obesidade. E que nenhuma delas dá para engolir.

 

     Talvez por isso nos deitemos, preguiçosos, em nossa cama de pregos, a esperar, ressonando, não sabemos exatamente bem quê.

 

     Bem, dizem que o sono também alimenta…

 

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(*) metabolismo – … reações de síntese () e reações de desassimilação () que liberam energia – Dicionário Houaïss

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repassando:

     http://blogandofrancamente.blogspot.com.br/2012/07/oportunistas-gracas-deus.html

     segunda-feira, julho 30, 2012

     OPORTUNISTAS, GRAÇAS A DEUS.(*)

     (…) Pode-se afirmar que o excesso de partidos políticos – ou excesso de oportunistas – é nada mais, nada menos do que, os “oportunistas” se estabelecendo “comercialmente” com direito a verbas públicas, propaganda gratuita na TV e mandatos regiamente pagos; sem nos esquecer de outras facilidades como o enriquecimento ilícito.

     A mais nova esperança de uma “direita”- ou a mais recente oportunista – se chama Cibele Bumbel Baginski, gaúcha de 22 anos que organiza o movimento pela refundação da Arena, o partido criado para dar sustentação ao regime militar.

                     

      Cibele Bumbel Baginski 3

     

     Na Veja ela se autodefiniu:

     Como surgiu a ideia de refundar a Arena?

     Faltam ideologia e pragmatismo na política nacional, os partidos são movidos por interesses e conveniências e não existe direita no Brasil. Queremos oferecer aos brasileiros um partido que represente a genuína direita. Faremos isso assim que reunirmos o número de assinaturas necessárias para obter o registro da Arena, o que deve ocorrer no ano que vem.

     Você pretende copiar o ideário do partido original?

     Vamos nos inspirar nos fundamentos da Arena, sim. Existe um marketing para dizer que ser de direita é ruim e retrógrado, mas ser de direita é ter respeito às pessoas, é promover mudanças econômicas e sociais de maneira ordeira, sem caos, pensando no progresso do país em primeiro lugar.

     O que vocês defendem?

     Somos conservadores e nacionalistas. Estruturalmente, seremos uma sigla de alianças, como a original, e abarcaremos outras ideias, como o integralismo, por exemplo.

     Por que você acha que o projeto será bem recebido?

     As pessoas mais velhas, que têm saudade da Arena, certamente vão gostar. Um general me procurou e elogiou a iniciativa. Os jovens que já buscaram conhecer a história do país também vão abraçar a causa. Meus amigos de esquerda é que não curtiram.

     Nas páginas do Facebook ela também se definiu:

     – Religião:Católica não praticante (como a maioria dos católicos)

     – Preferência política: Monarquia (será? Mas vejamos o que a atrai no monarquismo)

     “sim, eu gosto de militarismo, porém sim, eu também gosto das coisas do jeito mais tradicional, e eu ainda quero um título de nobreza um dia porque é bonitinho, ok. não, eu não digo isso sem saber o que falo, mesmo que pareça somente mais um comentário de uma garotinha que não entende de política… é só o meu jeito de lidar com as coisas.

     e sim, eu sou a favor de algumas leis mais rígidas ou da velha guarda, porque naquele tempo ou as coisas se resolviam ou alguém levava chumbo… por exemplo, eu gosto do Código Civil Brasileiro de 1916, permitia o duelo… e o mais irônico, ele ficou por aí até 2002, me admira que os juízes não usassem esse dispositivo legal!

     pensem o que quiserem, e entendam como quiserem, sobre tudo eu posso dialogar, e é pra isso que estou aqui, afinal se eu fosse uma eremita não teria feito um facebook. beijos”

     Cibele Bumbel Baginski tem blogs: http://ladybaginski.blogspot.com.br/ – http://chamanachincha.blogspot.com.br/ e uma página http://meadiciona.com/ladybaginski onde exibe onde pode ser encontrada em todas as redes sociais.       (…)

     “Eu não sou a pessoa mais legal do mundo, mas eu conheço piores.

     Eu não sei falar de mim, mas eu consegui escrever um livro (publicado, fora o resto…).

     Eu posso ter um ego maior que eu às vezes, mas as pessoas que me conhecem sabem que eu amo elas.

     Eu sou amaldiçoada a transformar meus sentimentos em palavras e se me conheceres talvez um dia faça parte de um de meus livros, mas mesmo assim… não me cobre royalties, ok?”

     Será que realmente Cibele tem o perfil da velha Arena? É sentar – em berço esplêndido – e esperar para as primeiras “alianças” políticas se e quando o partido sair da prancheta.

     (*) Apenas lembrando um livro de Zélia Gatai (Anarquistas, graças a Deus).

     Por CAntonio 7/30/2012 07:36:00 AM

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    http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com.br/2012/11/estudante-que-tenta-ressuscitar-arena-e.html

     sexta-feira, 16 de novembro de 2012

     Estudante que tenta ressuscitar Arena e é contra cotas e Bolsa-Familía, é bolsista do Prouni

     Cibele Bumbel Baginski, que foi filiada ao DEM, é contra cotas e o Bolsa Familía é Bolsista do Prouni (Programa Universidade para Todos) do governo Lula.

     A estudante tenta refundar a Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido que apoiou a ditadura militar no país, diz que é agradecida ao ex-presidente Lula pelo financiamento de seus estudos. Presidente da sigla Arena, a gaúcha Cibele Baginski recebe bolsa integral do programa federal para cursar Direito na Universidade de Caxias do Sul (RS)

     Cibele, porém, diz não enxergar contradição entre sua bolsa e a posição adotada pela nova Arena. “Prouni não é cota. E completa: “O Prouni, graças a Deus, ainda não tem cota. Todo mundo pode entrar independente de cor, opção sexual ou anteninhas na cabeça ou não” diz ela.

     ProUni, também é cotas…

     O Prouni, que concede bolsas de estudo em instituições privadas do ensino superior a alunos de baixa renda, foi criado pelo governo Lula em 2004 e começou a vigorar no ano seguinte. O programa reserva cotas para pessoas com deficiência e alunos negros, pardos e indígenas.      (…)

      

      

 

 

   

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

– já que não mais nos é possível comemorar o aniversário da proclamação da República, muito menos é possível lhe (ou nos) dar os parabéns –

 

 

 

       A notícia que hoje cedo recebi de não poucos tinha um longo título: “SEGUREM-SE PARA NÃO CAIR DE COSTAS. UM TAPA NA CARA DE TODOS NÓS”. E um endereço era indicado: http://www.youtube.com/watch?v=jm7zXywyg-Y&list=UUIpqwvp6-wbti4JETXo_VtQ&index=1&feature=plcp

 

      Como a curiosidade matou o gato (e deixou escapar o rato), muitos, assim como fui, terão ido lá para ver de que se tratava. Ou alguns devem ter ido por cultivar certo masoquismo adquirido, já incontrolável e indisfarçável. Uns tantos ter-se-ão, no mínimo, incomodado. Apesar de alguns não se terem muito surpreendido. 

 

      O tapa doeu? Só um pouquinho? Muito? Não importa. Porque, se incomodou alguns e se doeu na pele de outros, a Rádio Bandeirantes já tratou de oferecer um programa às bochechas estapeadas: RECLAMAR ADIANTA. Mais um “grupo de trabalho”… É só participar, e participar é muito fácil: é reclamar e ouvir reclamações, como em um balcão de queixas aberto ao consumidor. O rubor e a sensação de ardência logo se atenuam, e o programa garante seu sucesso.

 

      A quem, exatamente, reclamar adiantaria? Pensando bem, a muita gente. O Datena reclama. O Casoy reclama. A Bandeirantes reclama. A Globo reclama. Reclamam os autorizados e os desautorizados a reclamar. Nove entre dez astros, estrelas, roteiristas e diretores do cinema e da televisão usam reclamar. Reclamam da Imprensa as autoridades. Reclamam os bandidos da Polícia, reclama a Polícia dos bandidos, reclama a população das balas perdidas, reclama o Alckmin do tamanho da população de São Paulo. Dirceu, Genoíno e Valério reclamam das condenações. O Ministro da Justiça reclama das condições das penitenciárias. Reclamam os Juízes, reclama a OAB e dos exames de ordem reclamam os bacharéis. Reclamam os Professores, reclamam os alunos, reclamam os Reitores. Reclamam os que votaram no PT. Reclama a indústria, reclama o comércio, os serviços reclamam. Reclamam os que não votaram no PT. Reclamam os que depuseram Jango. Reclamam os que “lutaram contra a ditadura”. Reclamam os pobres, os ricos e as classes médias de A a Z. Reclamam os civis dos militares. Reclamam os militares dos civis. Reclamam os autoritários, reclamam os tolerantes. Reclamam os monarquistas, os republicanos, os comunistas, os liberais, os anarquistas, os ecologistas. Reclamam os mais velhos, os mais jovens, os que não mais são tão jovens e os que ainda não são tão velhos. Reclamam os homens, as mulheres, os/as que nem são homens nem são mulheres. Reclamam os pretos, os brancos, os que nem são pretos nem são brancos. Reclamam os alfabetizados, os semiletrados, os analfabetos. Reclamam os crentes, os ateus e os que se fiam na ciência maia. Reclamam os que esperam um futuro que já está escrito. Reclamam os que têm saudades do passado. E por aí vai a lista sem fim dos reclamões nacionais.

 

      Muitos reclamam e, reclamando, dão-se muito bem, obrigada/o/s. Ora, ora, pois, pois… Reclamar é muito fácil, é democrático, poderá ser até solidário; e é bom, bonito e barato. E bem sabemos qual poderá ser o resultado final de tanta reclamação: uma choradeira belíssima, comovente, sem fim, ampla, geral e irrestrita. Uma beleza de espetáculo! O maior espetáculo da terra! A competir com os grandes eventos esportivos que brevemente em nosso território terão lugar. Destacando o nosso País do conjunto dos demais. Enchendo-nos de orgulho dito cívico.

 

      Poderíamos, então, apenas repetir o recado de um dos considerados estapeados que me enviaram aquele vídeo: “Realmente, não somos um País minimamente sério. Até quando seremos feitos de palhaços pelos donos do poder?

 

      Do que apenas uma única conclusão se extrai: é preciso reagir! Ou não?

 

      Já se tornou lugar comum citar a frase de Publius Flavius Vegetius: “igitur qui desiderat pacem, praeparet bellum”, reduzida ao vulgar “si vis pacem para bellum”, de uma obviedade quase insultante. E, entre nós, a questão crucial permanece sem resposta: qual é, afinal, o nosso objetivo, quais são as nossas intenções? Nós os teremos? Seria a… “paz”? A “dos cemitérios”? Seria a “liberdade”? A “universal”? Seria viver “sem medo de ser feliz”? Seria reclamar? Ou tudo isso e o céu também? Havendo um objetivo, sempre haverá uma estratégia possível e medidas práticas a ser tomadas. O que requer discussão. Sem que haja um objetivo, no entanto, não haverá qualquer estratégia, porque não haverá qualquer necessidade de uma estratégia. Que queremos, afinal? Quem somos? Quais são os nossos representantes, as nossas instituições, a nossa organização política criada para combater o que denunciamos como nocivo à nossa Sociedade? Onde estão? Que estão – ou que estamos – fazendo além de… reclamar, espernear e gritar salve-se quem puder?

 

      Uma guerra, mesmo que de palavras (que seria uma discussão de fato, levada às últimas consequências, não um enunciado de um rol de reclamações), faz-se com armas, com combatentes disciplinados e com um objetivo bem determinado. Reclamamos todos, mas, na realidade, não se vê qualquer discussão em nossa Sociedade. Não nos preocupamos com avaliar o tipo e o grau da força que sentimos agir contra nós e nos impele a reclamar dos seus efeitos, não discutimos as razões que permitem que exista o que consideramos que nos faz mal, não elaboramos argumentos, não nos preocupamos com nos armar mentalmente e com nos prover de munição intelectual, não sabemos o que queremos ou deveríamos querer, não nos organizamos. Apenas reclamamos. No campo de nossos falsos embates verbais permanentes e insanos, um “nós” sempre indefinido imagina que esteja enfrentando o “inimigo”, “inimigo” esse que nunca pôde ser exatamente definido porque “nós”, não sabendo nos definir, não saberemos defini-lo. O nosso “inimigo” pontual será aquele que se põe a favor do que nós, pontualmente, somos contra, ou se põe contra o que somos, pontualmente, a favor. Por vezes, aplaudimos a iniciativa daquele que, na véspera, como um inimigo reconhecíamos; outras vezes, atacamos nossos próprios virtuais aliados como se fossem, eles, os nossos inimigos.

 

      Não sistematizamos a guerra que se evidencia no cotidiano porque não a entendemos como uma guerra de sobrevivência. Rosnamos e fazemos de conta que lutamos. Assistimos placidamente a batalhas ferozes que se travam entre a imagem ilusória que temos de nós mesmos e essa mesma imagem no espelho, batalhas predestinadas ao fracasso de todos nós, já vencidos em outras batalhas anteriores ao nenhum planejamento ser traçado, nenhuma cautela ser tomada, nenhuma projeção ser feita, nenhuma providência ser aventada, nenhuma inteligência ser utilizada. São falsas batalhas que, sem objetivo definido, traduzem-se como falsas discussões, em que nenhum princípio de fato é defendido ou combatido. Como um bate-boca freqüente entre comadres que pretendem logo fazer as pazes, não em nome de qualquer “política de boa vizinhança”, mas porque cada uma apenas concebe sua própria vida como um reflexo da vida da outra. E, assim, diluem-se essas “discussões” em queixas, denúncias e críticas que são trocadas como crianças trocam figurinhas.

 

      No fogo cruzado de eventuais ataques mútuos – em que, de suas guaritas sempre dissimuladas por nós mesmos, o nosso Inimigo real nos tem por alvo e nos pretende fuzilar e, expostos à plena luz do dia, tentamos nos defender com pistolas “taser”, fogo cruzado esse do qual, entre mortos e feridos, salvam-se sempre todos – ninguém poderá ver ou ouvir a República reclamar. De tudo o que ela prometia ser, somos capazes apenas de nos lembrar de algumas palavras do hino que inspirou – “liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”. Mas, hoje, dia 15 de Novembro, faz 123 anos que a “nossa” República reclama. Insistentemente. Reclama uma atitude republicana. Reclama de nós. De todos nós. Os que nos dão tapas na cara. Os que levamos tapas na cara. Os que reclamamos. Os que não sabemos e não queremos saber que é o que ela exatamente significa ou nos deveria significar. E ela só se dá mal.

 

      Pois que, mesmo esgotada, continue reclamando, então! E daí?

 

      Daí que, além do estímulo a reclamar, nada é proposto, nada é cogitado, nada é feito.

 

      Daí que não poderá ser dito que reclamar não adianta. Reclamar adianta, sim. Adianta… o processo que a ameaça.

 

      Daí que só muita… ingenuidade… permitiria que alguém imaginasse que, em um País que “discute Futebol como se fosse assunto de Estado”, pudesse produzir algum efeito alguém reclamar de que ninguém aparece “para abrir uma ação pública” contra a “Lei da Copa” já sancionada pela Presidente, mesmo sendo essa Lei uma “aberração”.

 

      Daí também que, em meio a essa reclamação toda, a esse ruído todo, a discussão mais importante, a que deve ser levantada, a única que nos importa de fato, a sobre “que fazer”, “por que fazer” e “para que fazer”, mantendo-se a integridade nacional e a soberania como ponto de fuga na projeção do passado e no esboço do presente, perde seguidas oportunidades de tentar se desemperrar mesmo que entre uns poucos. Perdemos, assim, uma após outra, as raras oportunidades de nos desvencilhar das críticas furiosas, repetitivas e improdutivas contra os cínicos abrigados em Partidos e demais instituições políticas, contra sucessivos Governos irresponsáveis, contra a corrupção estrutural, contra fatos já mais que consumados, muitos deles já talvez irreversíveis (é preciso considerá-los, sim!), e contra aqueles que sabemos ser representantes, nacionais ou internacionais, de uma “ideologia” que nos vem levando ao nada absoluto. Perdemos a oportunidade de tentar levantar uma discussão de fato a respeito do nosso todo que hoje se desfaz aos nossos olhos e ouvidos complacentes, contando com nosso discurso conivente, a respeito de fatos que são decorrentes de um processo que a esse nada nos leva, a respeito de um sistema de relações que permite que esse processo prossiga. Perdemos a oportunidade de não apenas continuar entoando uma ladainha de denúncias sem sentido, com cada verso terminando em um contrito miserere nobis. E perdemos a oportunidade de passar, do exercício de um inócuo, iníquo, ensurdecedor e inegavelmente democrático jus murmurandi, a um exercício que a República nos exige e sempre exigiu de nós, de nós todos, os brasileiros – o de tentar encontrar um efetivamente eficaz modus operandi que nos leve a criar poder. E a ser poder.

 

      Perdemos, apenas perdemos, sempre perdemos, todos nós, enquanto se perdem, nesse nada que tão ruidosamente se agita, aqueles a quem, queiramos ou não, ensinamos com nosso exemplo e mostramos o caminho que eles próprios seguirão… até que tudo o que, um dia, tivemos nas mãos e deixamos, irresponsavelmente, escapar, finalmente chegue ao fim. Quando ninguém mais haverá de reclamar. Nem mesmo reclamar de que nada mais fazemos senão reclamar.

  

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     Recebo de um amigo mensagem com a seguinte citação:

 

     “As instituições, por muito boas que sejam, não são suficientes para manter o tipo do caráter nacional. São os homens tomados individualmente e o espírito que domina suas ações, que determinam a situação moral e a estabilidade das nações. O governo, no final das contas, costuma não ser melhor que o povo que ele governa. Quando a massa tem consciência, moral e bons costumes, a nação é dirigida honrada e nobremente; mas se, pelo contrário, está corrompida, se tem o coração egoísta e desonesto, se não conhece nem fé, nem lei, o domínio dos velhacos e dos impostores é inevitável.” – O Caráter, Samuel Smiles (1812-1904).

      

     Os últimos acontecimentos nacionais, incluindo eleições, julgamentos, placas comemorativas e denúncias, puseram, de uma forma ou de outra, nossas Instituições na berlinda. E a maioria das críticas que surgem é sobre o comportamento de indivíduos que se destacam, com certa relevância, no cenário político.

 

     Prefiro, aqui, “baixar o nível” um pouco e observar o cidadão comum que aspira e está em vias de conseguir distinguir-se, ainda que mais ou menos, dos demais que são atirados à vala comum.

 

     As credenciais declaradas no final de um texto publicado em viomundo.com.br indicam que seu autor seria “professor, mestre e doutorando em História Econômica pela USP”. Freqüenta ele, pois, como aluno, um ambiente acadêmico que pressupomos ser de excelência – aquela que é considerada uma das mais importantes Universidades brasileiras; como Professor, freqüentará outros ambientes mais, que não imagino quais sejam. Não o conheço. Mas esse seu texto voou na web entre os acadêmicos, docentes e discentes de diferentes áreas das chamadas Ciências Humanas, e mim chegou. Esse texto assim afirma e conclui:

 

     “(…) Joaquim Barbosa se tornou o primeiro ministro negro do STF como decorrência do extraordinário currículo profissional e acadêmico, da sua carreira e bela história de superação pessoal. (…) Com certeza, desde a proclamação da República e reestruturação do STF, existiram centenas, talvez milhares de homens e mulheres negras com currículo e história tão ou mais brilhantes do que a do ministro Barbosa. (…) O sonho de Joaquim Barbosa e a obsessão em demonstrar que incorporou, na íntegra, as bases ideológicas conservadoras daquele tribunal e dos setores da sociedade que ainda detém o “poder por trás do poder” está levando-o a atropelar regras básicas do direito, em consonância com os demais ministros, comprometidos com a manutenção de uma sociedade excludente, onde a Justiça é aplicada de maneira discricionária. A aproximação com estes setores e o distanciamento dos segmentos a quem sua presença no Supremo orgulha e serve de exemplo, contribuirão para transformar seu sonho em pesadelo, quando àqueles que o promoveram à condição de herói protagonizarem sua queda, no momento que não for mais útil aos interesses dos defensores do “apartheid social e étnico” que ainda persiste no país. Certamente não encontrará apoio e solidariedade nos meios de esquerda, que são a origem e razão de ser daquele que, na Presidência da República, homologou sua justa ascensão à instância máxima do Poder Judiciário. Dos trabalhadores das fábricas e dos campos, dos moradores das periferias e dos rincões do norte e nordeste, das mulheres e da juventude, diretamente beneficiados pelas políticas do governo que agora é atingido injustamente pela postura draconiana do ministro, não receberá o apoio e o axé que todos nós negros – sem exceção – necessitamos para sobreviver nessa sociedade marcadamente racista.” http://www.viomundo.com.br/politica/ramatis-jacinto-o-sonho-do-ministro-joaquim-barbosa-pode-virar-pesadelo.html

      

     Os indivíduos têm nome. Chama-se Ramatis Jacino, portanto, conforme se vê na referência ao endereço http, o autor do texto que, fragmentado, aqui transcrevo. Ele é também presidente do Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial – INSPIR. Inspirando-se, por certo, nas cotas a serem atualmente obedecidas para ingresso na Universidade e no Serviço Público Federal, ele nos diz, com todas as letras, que o Governo brasileiro foi “atingido injustamente pela postura draconiana do ministro” Joaquim Barbosa no julgamento do “mensalão”.

 

     Bem, se ele nos diz que, com a condenação de criminosos, “o Governo” foi “atingido”, é ele quem o diz, e dito está. Mas se ele nos diz que essa condenação foi determinada “injustamente”, não apenas estará justificando que o Governo se apoie em quem cometa atos considerados criminosos e que alguém possa alegar tê-los cometido em nosso nome – estará julgando quem julgou uma ação que se processou em um Tribunal do Estado. O que não está, em absoluto, credenciado e qualificado a fazer. Gostaríamos de crer que não teria sido, tampouco, autorizado. Pois, se o faz, Ramatis Jacino, um acadêmico, não respeita as Instituições políticas, não respeita as Instituições jurídicas e não respeita as Instituições acadêmicas e profissionais que atribuem capacitação específica aos indivíduos.

 

     Diz-nos ele também que a nossa Sociedade é “excludente, onde a Justiça é aplicada de maneira discricionária”, o que permite o “apartheid social e étnico”. Ou seja, diz-nos que nossa Sociedade é segregacionista. Outros dirão ainda, em um eco “feminista” já meio mofado, que ela é composta de “porcos chauvinistas”… O estranho é essa Sociedade “discricionária”, “segregacionista”, “excludente”, por certo composta de “porcos chauvinistas”, ter assistido à “justa ascensão” um negro e de duas mulheres “à instância máxima do Poder Judiciário”. O estranho é essa Sociedade “discricionária”, “segregacionista”, “excludente”, por certo composta de “porcos chauvinistas”, ter assistido à “justa ascensão” um negro e de duas mulheres “à instância máxima do Poder Judiciário”. O mais estranho é que, antes, essa Sociedade tivesse permitido que, presumida e suficientemente, qualificados fossem e estivessem essas mulheres e esse negro que ascenderam ao STF – tal como, segundo alega o doutorando, “desde a proclamação da República e reestruturação do STF” foram e estiveram “centenas, talvez milhares de homens e mulheres negras” –, sem o que seus nomes não poderiam sequer ter sido cogitados, muito menos poderiam ter sido indicados e homologados. Mais estranho ainda, porém, espantoso, mesmo, será os Juízes do Supremo, em decisão recente, terem considerado unanimemente que a miséria brasileira tem cor, que neste nosso País não há brancos pobres ou sem Escola, sequer básica, e que é justo aplicar-se por, no mínimo, 10 anos uma política de cotas que reduz as chances de que os mais capazes entre os capazes cheguem às Universidades (e, agora, ao Serviço Público), dando preferência aos que se declaram negros. E a tal “afrodescendência” já não será suficiente – é preciso participar do “movimento”, ou seja, obter uma “carteirinha”, para que alguém possa comprovar ter efetivo merecimento geo-histórico-genético em grau tal que permita sua inclusão entre os privilegiados.

 

     Aquilo que qualquer um fizesse ou dissesse a respeito de qualquer coisa ou a respeito de qualquer um de nós bem pouco poderia nos importar. Um indivíduo é um indivíduo, nada mais. E, como indivíduo, Ramatis Jacino, autor do texto aqui apontado, não exatamente nos seria importante. O que diz e faz ganha importância, no entanto, por um único e grave motivo: podemos considerá-lo como um exemplo do pensamento e da atitude de muitos entre todos nós. É um único indivíduo, mas é também um modelo daquilo com que somos tolerantes e até mesmo coniventes – o pensamento e a atitude da “massa”. E o que diz e o que faz essa “massa” nas ruas não será qualquer novidade. Muito menos o que faz nas Universidades será expressão da qualquer súbita alteração da qualidade do nosso ensino básico ou superior.

 

     Sendo um Mestre, Ramatis Jacino não será um autodidata. Terá aprendido muitas coisas com muita gente, por certo. Na Academia, com seus Professores, e também fora dela, na “luta” cujo enunciado frouxo coincide com a que nossas autoridades atuais e condenados recentes alegam ter sido ou ainda ser a deles mesmos. O interessante, porém, é notar que, aqui, o doutorando só nos diz de sonhos e de pesadelos enquanto nos demonstra que sabe tocar berimbau. Assim como sabe tocar berimbau o Deputado Federal Edson Santos, um Ministro de Estado do Governo Lula, cujos parentes estão sendo expulsos do Jardim Botânico por determinação do Tribunal de Contas da União e da Justiça Federal, e que defende a tese de que o povo carioca não precisa dessa histórica reserva ambiental porque o Rio já tem muitos parques (1). Ambos nos parecem estar muito bem qualificados para promover espetáculos de artes rítmicas… E não posso saber se o acadêmico soube ou não soube bem interpretar qual seria o sonho de Joaquim Barbosa. Não conheço, tampouco, o Ministro. Mas tudo nos leva a crer que o sonho de Ramatis Jacino é que Joaquim Barbosa, por ser negro, também se limite a tocar berimbau. No STF. Para poder merecer “o axé” que todos os “negros – sem exceção –” necessitariam “para sobreviver nessa sociedade marcadamente racista”.

 

Ramatis Jacino

 

      Esta é a imagem (2) daquele que escreveu (ou apenas assinou) o texto reacionário, racista e segregacionista que transcrevo (no twitter, ele escreveu, em 21/04/11: “Estou aprendo [sic] a mecher [sic] nesse troço…” e nada mais) (3). É a imagem de um indivíduo que criança já não é e decidiu agir como age em nosso meio porque assim lhe convém agir. Ramatis Jacino escolheu ser negro, como negros são, de fato, tanto Edson Santos quanto Joaquim Barbosa. Escolheu ser negro mesmo tendo, como se vê, a pele “parda”, tal como define o IBGE, mesmo sendo um mestiço cuja cor se confunde com a de qualquer inveterado surfista “branco-mediterrâneo” e mesmo apresentando traços que poderiam corresponder aos de muitos que se declaram brancos – o que nos demonstra que pelo menos alguns em sua própria família não terão sido tão racistas quanto ele hoje quer e pode ser. Escolheu, porque quis e porque pôde escolher, incluir-se entre os 7,6% de nossa população que, segundo o IBGE, é o percentual de negros (ou dos que se declaram negros) em nossa população. Como tantos mais têm escolhido.

 

     Como se vê, esse Mestre só é negro, como quer, ou preto, como quer o IBGE, por efeito de uma declaração de próprio punho. Por opção. Quer desfrutar dos privilégios que nossa Sociedade resolveu conferir a indivíduos que têm na pele uma cor que ele não tem, mas declara ter. Privilégios que nossa Sociedade conferiu a alguns indivíduos por querer demonstrar-se discricionária, racista e absolutamente avessa à integridade nacional, porque assim o mundo lhe exige ser e ao mundo há que obedecer. Por isso também confere ela terras públicas e privadas aos 0,4% de nós (também segundo o IBGE) que se declararam “índios” para que como “índios” constem e como “índios” se mantenham – podendo algumas de nossas autoridades alegar, de cara limpa, que tal determinação será constitucional e justa pois, “conforme perícia antropológica”, há cachoeiras, rios e cascatas em que “habitam espíritos do mato, que não devem ser perturbados” (4) ou qualquer sandice semelhante.

 

     Privilégios são, todos os dias, conferidos por leis, decretos e decisões judiciais, a alguns, entre os todos que deveriam ser, de fato, “iguais perante a Lei” (5)…  caso nossa Constituição não se tivesse feito tendo por modelo a colcha de retalhos exibida em um cômodo reservado na casa de Mãe Joana. Inclusive, e principalmente, o privilégio que têm alguns indivíduos brasileiros de poder ser identificados já não pela nacionalidade brasileira e por uma dura história vivida em comum com os demais brasileiros, mas por uma (alegada) remota origem étnico-geográfica que lhes seria determinante, uma (alegada) preservação de (alegados) valores ancestrais que já se perderam no tempo e no espaço ou foram “contaminados pelo Ocidente”, que resolveram, pelas boas, de repente, assumir renegando valores nacionais; o privilégio que têm alguns indivíduos de poder, por uma (alegada) superioridade cultural que lhes permitiria uma (alegada) comunhão com a natureza que (alegam que) a civilização lhes teria tentado impedir durante séculos a fio, isolar-se no solo e nas Instituições que seriam, por definição, nacionais, e, assim, poder identificar os demais nacionais como estranhos – e, do solo e das Instituições, afastar não só os demais brasileiros como o controle do Estado nacional; o privilégio que têm alguns indivíduos de poder, à revelia da Constituição e, principalmente, de todas as boas leis remanescentes oriundas dos nossos bons costumes, declarar-se racistas por exclusiva conveniência própria e ser abençoados por políticas racistas deliberadas por quem pode deliberar contra o Estado impunemente porque como seu representante foi, pela nossa Sociedade, reconhecido; o privilégio que têm alguns indivíduos de atribuir o seu próprio racismo de conveniência a essa nossa Sociedade inteira que, desde sempre, foi miscigenada… e por aí vão as coisas sendo feitas, fazendo que, em seu túmulo, o Conde de Gobineau enrosque a ponta de seus bigodes de tanta satisfação. Em breve, o ilustre Conde poderá ter seu nome emprestado a uma praça pública (se é que já não tem).

 

     Essas são cenas de nosso pesadelo cotidiano, que se repetem e cada vez mais se avolumam e se agravam. E não há como fugir dele. Um pesadelo que nos assombra sempre que somos capazes de perceber que são muitos os indivíduos que pensam, querem e agem da forma como pensa, quer e age esse modelo de militância destrutiva que aqui lhes pôde ser apresentado. E, desses muitos, muitos são Professores, são Mestres, são Doutores ou estão em processo de qualificação nas Universidades brasileiras e estarão plantando essa “filosofia” na cabeça fértil e absolutamente oca de nossos jovens, com colheita e mercado garantidos. Indivíduos que fazem de alegada origem, alegada cor da pele, ou mesmo alegado “gênero” uma razão e um mérito maiores que todas as razões e todos os méritos. Indivíduos que vivem para, direta ou indiretamente, exaltar a si próprios, egocêntrica e narcisicamente, e nada mais pretendem que consolidar em nossa Sociedade uma visão de mundo discricionária e reacionária, que a apenas uma pequena ínfima parcela da população nacional poderia convir, em que o único princípio a ser observado será o salve-se quem puder. E, por luxo, alegam pretender que se faça “justiça social”.

 

     O pesadelo está em que, por meio desses indivíduos e outros semelhantes ou equivalentes que com essa militância são coniventes ou tolerantes por esperteza, por ignorância ou por preguiça, a integração étnica nacional, fundamental à integração social e essencial à integração política, transforma-se, em velocidade cada vez mais acelerada, de uma realidade palpável, inerente à nossa população – realidade essa que nos constituiu – em não mais que um sonho nesse profundo sono em que, faz tempo, mergulhamos. Sono do qual corremos o risco de despertar, muito em breve, num pulo, depois de levarmos um balde de água fria. O que nos provocará soluços. Mas já nada nos restará fazer senão ceder, a sabe-se lá quem ou quê, o espaço inteiro onde imaginávamos poder continuar dormindo em paz.

 

     Ou, então… Bem, talvez seja ainda possível que os indivíduos que compõem a nossa Sociedade, antes de afofar seus travesseiros e, de novo, enroscar-se, virando-se para um outro lado que lhes pareça mais confortável, tomem repentina consciência do que dizem e fazem e, em um surto de inusitada inteligência, procurem refletir em por que e para que exatamente vêm dizendo e fazendo… Quem sabe?

 

     Ou isso também será nada mais que um sonho?

      

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(1) http://www.youtube.com/watch?v=tp1PAu7S2_w

(2) http://www.cut.org.br/destaque-central/47217/ramatis-jacino-e-eleito-presidente-do-inspir

(3) http://twitter.com/search/realtime?q=ramatis+Jacino&src=typd

(4) decisão unânime da 3.ª Turma do TRF – 1ª Região –  http://ultimainstancia.uol.com.br/conteudo/noticias/58634/

(5) TÍTULO II – Dos Direitos e Garantias Fundamentais – CAPÍTULO I – DOS DIREITOS E DEVERES INDIVIDUAIS E COLETIVOS Art. 5º – Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: …

  

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     Nenhuma regra esperta criada por qualquer indivíduo esperto ou qualquer grupo esperto para fazer funcionar qualquer sistema eleitoral esperto deverá substituir a consciência de um cidadão.

 

     Segundo informação da Agência Brasil (*), 30% dos eleitores compareceram às urnas nas eleições municipais chilenas. Quando, portanto, 70% deles se abstiveram. Caso o comparecimento, lá, no Chile, fosse obrigatório, tal como é cá, no Brasil, é bem possível supor que 70% da população chilena votasse em branco ou anulasse o seu voto. Independentemente do tipo e do grau de suas necessidades vitais, para os que compõem esse percentual que se absteve, as eleições talvez nada mais sejam que um circo (de horror) armado em praça pública, tal como aqui elas são. Conforme o que podem observar, a realidade não se altera seja quem for que se eleja. Para que participar ou fingir participar do espetáculo? Acaso ele é divertido?

 

     Por que deveríamos nós, brasileiros, escolher entre o nada e o coisa nenhuma para que esse nada ou esse coisa nenhuma possa dizer que “nos representa”, se o que podemos considerar correto não é contemplado nas campanhas eleitorais, nem nas ações do Executivo, nem nas discussões nas Casas Legislativas, e se, dessa nossa “democracia”, aproveitam-se, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, no cargo, na suplência ou em diferentes funções que dependem exclusivamente da indicação dos eleitos, todos os cretinos que se apresentam a nós somente quando é tempo de conquistar e/ou renovar sinecuras?

 

     Se nosso comparecimento à seção eleitoral é obrigatório, em nenhum momento nos será obrigatório emprestar confiança a algum candidato, ou nos será obrigatório escolher o “menos ruim” entre todos os ruins. Não existirá um menos ruim entre os reconhecidamente ruins, pois o que é ruim é ruim. E bem pior será “legitimar”, com nossa presumida escolha, Partidos políticos que nada representam senão interesses pessoais ou grupais e indivíduos e grupos cujos projetos são uma afronta explícita à Nação. Isso sim seria uma atitude irresponsável.

 

     Quando não há alternativa decente, a única saída que o cidadão encontra é anular o seu voto ou votar em branco. Para que não se agrave o quadro político. O que não deixa de ser um risco porque não se conhece o programa da urna eletrônica. Mas o voto nulo e o voto em branco não são, nunca foram e nunca serão uma omissão – serão uma inequívoca demonstração de repugnância ao que vem se comportando de forma repugnante. E nenhuma culpa como se tivesse agido irresponsavelmente deverá esse cidadão assumir ao ver que seu País vai por água abaixo – ele terá certeza que com isso não colaborou; pelo contrário, fez questão de denunciar e repudiar. E poderá sempre, a qualquer momento, reagir com coerência.

 

     Se votar não é um direito nem é uma opção, mas transformou-se em uma obrigação de recolocar os mesmos nos mesmos lugares em que se colocaram, perpetuando-os, votar não será necessário. Necessário será encontrar urgentemente formas de fato eficazes de reagir a essa situação intolerável. Uma situação que deveria ser considerada insustentável. 

      

      

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(*) http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-10-29/abstencao-nas-eleicoes-municipais-do-chile-atinge-70

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     Uma estaca é uma “peça estrutural alongada, de madeira, aço ou concreto, que se crava no solo”. Um poste é uma estaca.

 

     Lembro-me, de quando em quando, de uma canção que foi muitas vezes entoada nas esquinas, nos bares e nos lares catalães e também nos grandes palcos internacionais durante os anos 70 próximos passados. Essa canção foi traduzida em diferentes idiomas e ainda hoje inspira diferentes movimentos de reação política. Intitula-se “A estaca”. A longa letra começa assim (na minha tradução, sem respeitar a métrica): “Vovô Siset me falava, bem cedinho, enquanto, à porta, esperávamos o sol e víamos os carros passar. Siset: – Não vês o poste em que estamos todos atados? Se não o pudermos derrubar, nunca poderemos caminhar. Se todos puxarmos, ele cairá, e muito tempo não pode demorar. Certo é que tomba, tomba, tomba, bem carunchado ele já deve estar. Se eu o puxo com força por aqui e tu o puxas com força por lá, certo é que tomba, tomba, tomba, e nos poderemos libertar. (1)

 

     Nos anos 70 do século passado muita gente vivia muito insatisfeita com a política. No mundo todo. Hoje, muita coisa mudou. No mundo todo. Mesmo assim, muita gente no mundo todo tem razões de sobra para estar muito insatisfeita, pois bem sabemos como as coisas vão indo – elas vão indo muito mal das pernas. Tal como naquela década, o mundo está mergulhado em uma crise; mas não só está mergulhado em mais uma gravíssima crise econômica, mas principalmente em uma extraordinária crise de valores – que não há como não interpretar como sendo a principal causa da crise econômica. E o que também diferencia a crise de ontem da crise de hoje e mais a agrava é que as expectativas se alteraram.

 

     Antes, havia a convicção generalizada de que a “politização” de tudo arrancasse o povo do marasmo que uma fé cega nas autoridades constituídas ou nas lideranças boas de palanque provoca; e não só havia a esperança de que tudo se resolvesse ao serem derrubadas as estacas (os postes) da política, que mantinham o Estado, com o sacrifício dele mesmo, a serviço de alguns setores da população em detrimento dos demais, como a de que políticos de fato representativos dos interesses da população os substituíssem. A experiência demonstrou que tudo isso era uma fantasia. E toda essa expectativa foi por água abaixo. Os postes mudaram de cor e não só continuam sendo reverenciados como a população desistiu de exigir das autoridades o decoro, a coerência e até mesmo a inteligência. O que vale é a esperteza, o que vale é a propaganda. E cada vez mais se afirma a convicção de que política é algo sujo, de que não convém cuidar – cuide-se de retirar-se dela o máximo de proveito e de salvar-se dela quem puder.

 

     O problema muito se agravou porque, no processo da tão desejada “democratização” dos regimes políticos, muitos entre os muito bem intencionados sabiam exatamente o que não queriam; mas, além de poder repetir em forte e bom som, sem sofrer qualquer tipo de censura ou repressão, amplas e vagas palavras-de-ordem tais como “serviços públicos de qualidade” etc. etc. e tal, “anistia” para honestos e desonestos terroristas e ladrões e seus apoiadores, e “liberdade” para o comércio de drogas e o de produções culturais de estímulo a um erotismo vulgar sem limites ou fronteiras, a grande maioria deles não tinha a mais mínima idéia do que pudesse querer alcançar. Nem qualquer idéia do que deveria fazer além de reclamar.

 

     E hoje? Alguém tem, disso tudo, alguma idéia?

 

     Palavras-de-ordem são para mobilizar, não são para serem cumpridas. No Brasil mobilizado, entre apagões, campeonatos esportivos, cotas, bolsas-família, demais bolsas-disso, daquilo, daquilo outro, prestações, juros e viagens de recreio ao exterior, as novas e as velhas classes médias, de A a Z, vão sobrevivendo galhardamente às eleições ditas livres. E o que se ouve, dos revolucionários Partidos de oposição ao revolucionário Partido da situação em nível federal, muito me tem lembrado aquela já antiga canção catalã.

 

     Não por acaso, a manchete de hoje da Folha de S.Paulo é “Onda de mudança marca a eleição nas grandes cidades”. O jornal comenta que “uma onda oposicionista mudou a cara do poder nas maiores cidades do Brasil. Governistas perderam as eleições de anteontem na maioria das 85 cidades mais importantes, onde estão 37% dos eleitores do país” (2). Convenhamos em que essa “onda de mudança” já teria sido antecipada pelo julgamento do “mensalão”. Mas, se a maioria do STF, inclusive Barbosa, o relator-justiceiro, foi nomeada por Da Silva e Rousseff que eram apoiados pelos “mensaleiros” condenados, esse Tribunal é “situação” ou faz “oposição” ao Governo? E Genoíno, condenado no STF, que “ganhou apoio do partido para reassumir uma vaga na Câmara dos Deputados a partir do início de 2013” (3), deve ser considerado “oposição” ou “situação”? A vaga que lhe foi aberta como suplente renova ou mantém a Câmara que cassou Dirceu em conchavo permanente?

 

      Na capital paulista, o “poste” recém-eleito, em um discurso digno de candidato à presidência de centro-acadêmico, afirmou: “Fui eleito pelo sentimento de mudança que domina a alma do povo de São Paulo. Sei da enorme responsabilidade de todos que são eleitos pelo signo da mudança…. se São Paulo não conseguir resolver seus problemas, que cidade no Brasil e no mundo conseguirá fazê-lo? O fracasso de São Paulo seria o fracasso desse genial modelo de convivência que a humanidade desenhou ao longo dos séculos para sobreviver e ser feliz. Essa invenção insuperável do gênio humano, que se chama cidade.” (4)

 

     Entenderam a alegoria? Ah, que bom… Que significariam essas palavras? Apenas um fraseado nanomegalômano ao estilo Collor, FHC, Lula? Não, é mais complicado e talvez bem pior. É um “Europa, França e Bahia” traduzido ao paulistês: “Europa, França e… São Paulo”. É um cacoete recorrente na província (noves fora, ou seja, periferia fora), à falta de coisa mais consistente a ser dita. O refrão do velho e gasto samba-enredo que continua indo para a avenida sob os aplausos às piruetas do porta-estandarte da vez. Sempre composto em acordes de mudança maior, revezando-se “oposição” e “situação” na harmonia, sem dissonância. Aliás, a notícia do dia seguinte à eleição seria a da criação de um grupo de trabalho para promover a interlocução entre o governo federal e a equipe de transição da prefeitura paulistana (5). 

 

     Não é assim tão difícil ser um profeta. Seria, por acaso, de estranhar imaginar que, “se a economia não reagir no próximo biênio, os sonhos continuístas da presidente Dilma Rousseff poderão enfrentar dificuldades”? Não é meio óbvio que, “Se há uma lição política a tirar do que vem acontecendo na Europa, é a de que crises econômicas mais fortes têm o dom de transformar qualquer coisa que se pareça com oposição em situação. E crises de maior profundidade acontecem”? (6) Não será meio óbvio também que crises políticas mais fortes terão o dom de transformar qualquer coisa que se pareça com situação em oposição? E que crises de maior profundidade aconteçam? 

 

     Pois bem. Já em Campinas, o maior centro de pesquisa e desenvolvimento tecnológico do País, mesmo tendo sido puxado pela dupla Rousseff & Da Silva vestida de vermelho do alto do carro de som e com toda a bateria da escola segurando o ritmo… o sambão do Planalto não pegou. Assim foi. Em Campinas, tal como em algumas outras cidades do País, o eleitor percebeu que o poste estava podre. Alguém o puxou daqui, outro alguém o puxou de lá, e ele tombou. Tombou.

 

     Tombou? E agora? Ainda não sabemos o que nos está por vir? Nem podemos imaginar? Tudo vai mudar? Ou tudo continuará no mesmo tão seguro e conhecido caminho?

 

     Pensando bem… não nos estará faltando mais alguma coisa?

      

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      ARTE-URBANO-ANTONIO-MARIN-SEGOVIA-596x447  

      ~ ARTE URBANO – ANTONIO MARIN SEGOVIA ~

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1. L’avi Siset em parlava // de bon matí al portal // mentre el sol esperàvem // i els carros vèiem passar. // Siset: – que no veus l’estaca // on estem tots lligats? // Si no podem desfer-nos-em // mai no podrem caminar! // Si estirem tots, ella caurà // i molt de temps no pot durar, // segur que tomba, tomba, tomba, // ben corcada deu ser ja. // Si jo l’estiro fort per aqui // i tu l’estires fort per allà, // segur que tomba, tomba, tomba, // i ens podrem alliberar. … – L’ESTACA, de Lluís Llach, 1968      

2. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/      

3. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/75096-condenado-genoino-quer-assumir-vaga-de-deputado.shtml      

4. http://noticias.terra.com.br/eleicoes/2012/sp/sao-paulo/noticias/0,,OI6261993-EI20654,00-Leia+a+integra+do+discurso+da+vitoria+de+Haddad+em+SP.html      

5. http://www1.folha.uol.com.br/poder/1177076-haddad-e-dilma-criarao-grupo-de-interlocucao-de-sp-com-governo-federal.shtml      

6. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/75001-mensagem-das-urnas.shtml

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     Um documento … será remetido pela comissão à Organização das Nações Unidas (ONU). Na semana passada, 170 indígenas das etnias Guarani e Kaiowá divulgaram carta na internet, informando que descumprirão decisão judicial que obriga as tribos a deixar uma área de dois hectares que ocupam, há um ano, nas proximidades de Iguatemi. Segundo eles, a região, localizada entre uma reserva e uma propriedade rural, teria pertencido a seus ancestrais.”

      

     A quem teria pertencido o morro do Pão de Açúcar? A quem teriam pertencido as areias da praia de Copacabana? E as da praia de Boa Viagem? E as da praia de Torres? E o Pátio do Colégio? E a Praça da Sé? E o bairro do Pacaembu? E o de Casa Amarela? E o do Maracanã? E o Parque de Vila Velha, o Cânion do rio Iapó, a ilha de Paquetá, as águas e as margens do Tietê, do Amazonas, do Capibaribe, da lagoa do Abaeté, da lagoa da Pampulha? A quem teria pertencido o Planalto Central? E a quem teriam pertencido a nascente do Rio Ailã, o Arroio Chuí, a Ponta do Seixas e a Ilha do Sul em Martim Vaz, a serra da Contamana… … …?

 

     A quem pertencem hoje? Por quê? Quem nos pode garantir? Por quê?

 

     Há dúvidas? Por quê?

 

     E a quem teria pertencido o terreno onde erguemos nossas casas?

 

     Bem, em vez de construírem-se Palácios de Esporte que logo se transformarão em elefantes brancos, de projetarem-se linhas de trens-bala que logo ficarão às moscas, de financiarem-se tantas comissões internacionais, que se construam, em boa alvenaria, pelo menos em cada ponto do território nacional onde uma propriedade se possa pôr em dúvida, um Quartel, uma Escola, um Hospital, uma agência do Banco do Brasil, uma agência dos Correios, um Juizado Especial Cível e Criminal, um armazém, uma pista de pouso não clandestina, uma Delegacia da Polícia Federal, que se cuide de dar a cada um desses pontos água encanada, esgoto tratado, luz e telefone, que cada um deles se ponha interligado a todos os demais por uma rede ferroviária mesmo que de bitola estreita – e que se resolvam dúvidas estúpidas e falsas questões de uma vez por todas. Tal como elas sempre se resolveram. No mundo inteiro. Na mais santa paz. Sempre que não foi necessário o recurso às armas.

 

     Que estamos ainda esperando? Que os Senhores Juízes, Deputados, Senadores, Ministros, Presidentes da República se predisponham a aprender a ler e a fazer contas, a estudar História e Geografia e finalmente a não mais cometer sandices? Estamos esperando que o próprio Soberano seja posto em dúvida? Ou estamos esperando que ele abdique? Por quê?

    

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http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/valor/2012/10/30/deputados-pedem-manifestacao-de-dilma-sobre-caso-guarani-kaiowa.htm

      

     Brasil -30/10/2012 18h11 –

     Bruno Peres

     Deputados pedem manifestação de Dilma sobre caso guarani-kaiowá 

     A Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara vai enviar carta à presidente Dilma Rousseff com um apelo para que o Executivo se manifeste sobre a situação dos índios Guarani e Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, que estão em conflito com fazendeiros na cidade de Iguatemi. Um documento alertando para essa situação também será remetido pela comissão à Organização das Nações Unidas (ONU).

     Na semana passada, 170 indígenas das etnias Guarani e Kaiowá divulgaram carta na internet, informando que descumprirão decisão judicial que obriga as tribos a deixar uma área de dois hectares que ocupam, há um ano, nas proximidades de Iguatemi. Segundo eles, a região, localizada entre uma reserva e uma propriedade rural, teria pertencido a seus ancestrais. No texto, eles afirmam que lutarão até morrer, mas que não deixarão o local.

     Em carta a ser entregue a Dilma, os deputados citarão relatórios do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) que abordam casos de suicídios entre os indígenas ocorridos nos últimos anos em função, segundo informou a comissão, da “desesperança” com perdas em disputas judiciais envolvendo litígio de terras.

     A comissão vai cobrar que a Fundação Nacional do Índio (Funai) conclua estudos antropológicos que demonstrariam que a terra localizada na região de conflito pertence a ancestrais dos indígenas e pedirão que, “institucionalmente”, o Executivo cobre responsabilidades do Legislativo e do Judiciário com relação às competências de cada um na garantia dos direitos dos indígenas.

     Na segunda-feira, Dilma convocou uma reunião de emergência com os ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Advocacia-Geral da União (AGU), Luís Inácio Adams, para tratar da situação dos índios Guarani e Kaiowá.

      

        Decisão judicial mantém índios guaranis-kaiowás em fazenda no MS

       Comunidade guarani-kaiowás pretende recorrer a cortes internacionais caso seja expulsa de suas terras

       Comissão do Senado debaterá questão dos guaranis-kaiowás nesta quinta

       Conselho Indigenista Missionário nega “suicídio coletivo” de kaiowás e guaranis em Mato Grosso do Sul

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

A oposição libanesa pediu a renúncia do governo, no qual Hezbollah xiita tem um papel predominante, após o assassinato do chefe da inteligência da polícia libanesa, Wissam al-Hassan, em um atentado. ‘Pedimos a este governo que saia e a seu chefe que renuncie imediatamente, já que a permanência deste governo oferece proteção e cobertura aos criminosos por este complô’, afirmou Ahmad Hariri, um porta-voz da oposição, após uma reunião convocada com urgência. Pouco antes, o chefe da oposição, Saad Hariri, acusou formalmente o presidente sírio Bashar al-Assad de ser o instigador do assassinato do general Hassan, um dos principais chefes da segurança no Líbano.”     www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2012/10/19/interna_mundo,329096/

      

“O governo brasileiro condenou o atentado em Beirute que nesta sexta-feira (19/10) causou a morte do chefe da inteligência das Forças de Segurança Interna (FIS) e de outras sete pessoas, em uma nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores. ‘Ao manifestar seu pesar e solidariedade às famílias das vítimas, o Brasil reitera sua condenação a todo e qualquer ato de terrorismo’, indicou o governo.”      www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2012/10/19/interna_brasil,329109/

      

“O ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nesta segunda-feira por formação de quadrilha na ação penal do mensalão, disse que nunca compôs ou formou quadrilha, e que foi ‘condenado por ser ministro’.”      br.reuters.com/article/topNews/idBRSPE89L09A20121022

 

      

     Pois é. Nada é menos extraordinário e mais certo que o sol nascer e se pôr todos os dias, e nada é mais confortante que saber que não há um único dia que não chegue ao fim. Não é isso? O problema é que, muitas vezes, nada se perde, tudo se aproveita e tudo se transforma em uma mesma sopa ou em várias sopas diferentes, dependendo de quem a sirva e de quem a sorva, e tanto faz como tanto fez. E assim confirma-se a tese de Lavoisier.

 

     A notícia do começo da tarde desta última 6ª feira era: “Chefe de Inteligência da polícia libanesa é morto no atentado no centro de Beirute”. À noite, muitas horas depois, porque a novela na TV e a campanha nos palanques não permitiam muita meditação, veio a de que os ex-terroristas que hoje ordenham o nosso Estado condenam esse atentado e todo e qualquer outro no estilo. Em nota oficial do MRE. O mundo inteiro a pôde ler.

 

     Muito bem. Ainda bem que, em nosso Brasil aqui, não acontecem essas coisas. As nossa instituições são firmes, as nossas ruas são calmas e gozamos de plena segurança. Supostas bombas que explodam, assassinatos que forem supostamente cometidos e sejam diariamente informados pela Imprensa nada mais significam que uma ensaiada busca por sensacionalismo. Escândalos vendem…

 

     Fico, então, cá eu pensando se, tão preocupado que é com a paz mundial, com os direitos humanos e com estender nosso bom exemplo aos demais, o nosso Governo não esteja, intimamente, considerando que uma violência do tipo da que sofreu Beirute seja algo necessário ao povo libanês. Para que ele tenha um promissor futuro aberto à frente. Bonito. Colorido. Democrático e popular.

 

     Se aqueles que há mais de uma década nos representam em nosso Governo – e também aqueles outros, os de nossas “oposições”, os que por mais quase outra década os precederam ou os que ainda pretendam sucedê-los – não consideram assim, por que fizeram coisas tão parecidas por aqui? É certo que, eles mesmos, já não as fazem. Arrependeram-se delas? Já delas não mais precisam? Pretendiam que delas nos esquecêssemos? Pediram-nos desculpas? Alguém viu ou ouviu algo que com isso pudesse ser confundido? Ou é que, na Verdade com maiúscula, aquela Verdade tão contundente que motivou a formação de uma Comissão para que pudesse vir à luz, nenhum deles, nunca, jamais, em tempo algum, fez coisas tão parecidas por aqui?

 

     Que fizeram, então, para merecer do povo brasileiro e das lideranças internacionais o entusiasmo e a confiança? E aquela notícia que, em 1966, por acaso nos dizia : “Jornalista e Secretário do Governo de Pernambuco e Vice-Almirante são mortos no atentado no aeroporto de Guararapes”? Quem poderia ter aprontado essa e outras brincadeiras tão bem intencionadas e tão mal interpretadas mais? Difícil responder. Essa notícia deve ter sido um boato de mau gosto originado por aqueles que haviam deposto um Presidente por ser ele amante dos esportes radicais. Coisa “da Direita” para que o regime encruecesse. Numa dessas, não só o número de vítimas fatais noticiado como também o próprio suposto atentado, tudo foi coisa da Imprensa, que é branca e conservadora. Ah, essa Imprensa… sempre dizendo o que não deve…

 

     Se bem que, naquela época, tal como hoje em dia, pôr umas bombinhas aqui e ali, sair metralhando pra cá, pra lá, pra cima, pra baixo, dependendo de quem o fizesse, já poderia ser considerado um ato de valentia. De heroísmo, até. Ato digno, razoável e salutar. Desde que não fosse cometido pelo Estado burocrático e autoritário, é claro; ou seja, pela Polícia e pelas FFAA em suas funções. Já poderia ser considerado um ato de valentia e heroísmo mesmo por alguns tantos nas Instituições Acadêmicas e na própria Imprensa que, preocupados apenas com o povo, bem mais inteligentes que qualquer um de nós, com tais atos se comoviam e colaboravam. Ainda que colaborassem apenas intelectualmente. Naquela época. E se nossas supostamente ex-terroristas autoridades atuais, inequivocamente idealistas, quando quase todas muito jovens e inexperientes, supostamente explodiram bombas ou metralharam alguém durante os tais chamados “anos de chumbo” – agindo da mesma forma como hoje libertários narcotraficantes supostamente criminosos agem, comovendo alguns tantos nas Instituições Acadêmicas e na própria Imprensa que, preocupados apenas com o povo, bem mais inteligentes que qualquer um de nós, com tais atos colaboram apenas intelectualmente – com certeza assim foi feito para que pudéssemos finalmente ter chegado, em alto nível de profissionalismo, ao tempo em que estamos. Da forma como estamos. Todos nós absolutamente livres, sadios, bem educados, felizes e em paz. Com acendrado espírito cívico e justo orgulho nacional.

 

     Além de que a verdade verdadeira seja dita: por aqui, neste nosso território nacional, nunca se soube de um Chefe de Inteligência ou de um Presidente que tivesse sido morto em atentados terroristas. Pois é: algum deles levou chumbo? Não, não levou! Não merecia levar? Provavelmente merecia. E por que não levou se, no Líbano – que só agora chega ao estágio de consciência e de civilização que já tínhamos, em alguns setores marginais vitais ao nosso desenvolvimento, alcançado há uns 40 anos – tanto foi morto agora o principal responsável pelo Serviço Secreto policial como foi morto antes um Primeiro-Ministro? Por aqui, vejam só, nem mesmo um reles General da Ativa, nem mesmo um mísero Senador ou um insignificante Ministro do Supremo levou chumbo de terrorista ou guerrilheiro algum! Nem unzinho deles. Nem um chumbinho. Só pouco mais de uma centena de indivíduos mal intencionados não-terroristas perderam a vida, aos quais nós e o mundo inteiro podemos não dispensar a mais mínima atenção.

 

     Ora, isso nem foi justo nem foi bonito. Mesmo considerando-se que os guerrilheiros eram tão poucos, e precisavam, para garantir posteriores condecorações, seus nomes nas praças públicas e cargos eletivos e/ou de confiança, dos recursos que sobravam em alguns cofres bancários e particulares e lhes eram negados, mesmo considerando-se que lhes era tão difícil conseguir armas e munição, pois elas dependiam de assaltos às unidades militares – o tomava seu tempo e os desviava de seu objetivo heróico principal; mesmo assim, com que cara ficamos, quase sem heróis ou com supostos terroristas tão incompetentes, perante a nossa História e a comunidade internacional? Com cara de tacho!

 

     Quem sabe se não é exatamente por isso, por ver tão frustrado esse nosso povo sem heróis, que o Governo brasileiro hoje, amargurado, condena com palavras o terrorismo que o Brasil desde sempre condenou com atitudes? Aquele mesmo terrorismo que os que compõem esse Governo tentaram praticar com extremada abnegação, algum garbo e alguma eficiência… Se assim for, não será por hipocrisia, é por um justificado recalque, e até Freud talvez o possa explicar…

 

     Por outro lado, ainda bem que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH/OEA) aí está para que, enfim, possamos ter muito claramente desvendado quem terá sido o estúpido responsável por essa nossa frustração, a de não podermos hoje exibir mais competência e maiores méritos em nossa anterior experiência guerrilheira e terrorista. Foi a repressão infame, ninguém duvide. Foi ela, só ela, nada mais. E, como não há um único erro sem que, por ele, haja culpados, o Ministério Público Federal já bem cuida de apontar nomes aos Tribunais – os nomes daqueles covardes que foram capazes de evitar tantos outros atentados e mortes que se somariam aos tão poucos que quisemos, com alegria, justificar e podemos, até mesmo, deles nos esquecer.

 

     Mas, voltando às notícias, a 2ª feira terminou com a seguinte: a de que José Dirceu (ex-Deputado federal cassado em 2005 por quebra de decoro parlamentar; ex-ministro da Casa Civil de 2003 a 2005, quando foi denunciado; já condenado, há alguns dias por “corrupção ativa”), José Genoíno (acusado, indiciado, mesmo assim chamado a exercer um cargo de Assessor do Ministro da Defesa e já condenado pelo mesmo crime atribuído a José Dirceu), ambos ex–presidentes do Partido que elegeu a Presidente da República e o seu antecessor, e Delúbio Soares (ex-tesoureiro desse Partido de 2000 a 2005) foram declarados pelo Supremo Tribunal Federal, com outras estrelas de menor grandeza, responsáveis por “formação de quadrilha”.

 

     Quadrilha? Que quadrilha? Quadrilha não é coisa de bandido? Este José Dirceu não é aquele mesmo doce estudante que tão dedicado ao nosso bem se demonstrou? Não lutou pela democracia e não celebrou o seu retorno da Cuba democrática e socialista com o povo cantando nas ruas, podendo, enfim, deixar de usar falsos “nomes de guerra”? Seus companheiros de luta não estão no poder, dando prosseguimento a essa luta e transformando em realidade seus ideais? Como se explica ter declarado que está sendo “vítima dos tribunais de exceção” e que foi “condenado por ser ministro”? José Genoíno não é aquele libertário e destemido ex-guerrilheiro? Terá sido condenado por ter sido condecorado pelo Ministério da Defesa em 2011 com a Medalha da Vitória (*), dando um merecido tapa na bochecha do Exército que o combateu? E Delúbio Soares? Foi condenado por ser um competente Professor de Matemática? Estamos ou não estamos, afinal, em um país livre? Quem deve ser condenado por formação de quadrilha? Que comanda quadrilhas ou as comandou? Com que intenção?

 

     Nada é menos extraordinário e mais certo que o sol nascer e se pôr todos os dias, e nada é mais inquietante que saber que não há um único dia que não chegue ao fim. Para todos nós. Para o bem ou para o mal. Não é isso? Então, a turma do STF que se cuide, pois poderá, se não hoje, mas amanhã, ou depois, tropeçar com cartazes colados em postes, árvores e muros que estampam seus rostos sob a legenda “torturador”. Por que não?

 

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(*) Decreto nº 6.126, de 15 de junho de 2007 – Dá nova redação ao art. 2º do Decreto nº 5.023, de 23 de março de 2004, que cria a Medalha da Vitória.

     O Presidente da República, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso VI, alínea “a”, da Constituição, Decreta: Art. 1º – O art. 2º do Decreto nº 5.023, de 23 de março de 2004, passa a vigorar com a seguinte redação: “Art. 2º A Medalha da Vitória poderá ser conferida aos militares das Forças Armadas, aos civis nacionais, aos militares e civis estrangeiros, aos policiais e bombeiros militares e às organizações militares e instituições civis nacionais que tenham contribuído para a difusão dos feitos da Força Expedicionária Brasileira e dos demais combatentes brasileiros durante a 2ª Guerra Mundial, participado de conflitos internacionais na defesa dos interesses do País, integrado missões de paz, prestado serviços relevantes ou apoiado o Ministério da Defesa no cumprimento de suas missões constitucionais.” (NR) Art. 2º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. Brasília, 15 de junho de 2007; 186º da Independência e 119º da República. LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA – Waldir Pires – http://www.dji.com.br/decretos/2007-006126/2007-006126.htm

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

   

  

 

     A charge anexa é até engraçadinha. Não digo que não é.   

   

     Mas direi que não só engraçadinha ela é. A sua intenção subliminar – tal como a intenção por vezes escancarada de muitas outras charges e certos textos que circulam na web e na Imprensa escrita – ou é muito desavisada ou é apenas cínica. E é perversa.

 

 CHURRASCO

 

     Joaquim Barbosa foi o Ministro-relator do processo do “mensalão” e reconheça-se o seu mérito em bem ter-se portado como um Juiz do Supremo Tribunal Federal. Mas Joaquim Barbosa não é o responsável exclusivo pela condenação dos criminosos que poderíamos querer ver afastados da Política. Sem os votos dos demais Juízes do Supremo que os condenaram, todos os acusados estariam hoje soltos e impunes… apesar do esforço e da vontade de Joaquim Barbosa. E ainda teríamos que lhes pedir desculpas, talvez também inaugurar uma placa no STF e pagar-lhes indenização…

 

     Se o processo do “mensalão” se deve a uma denúncia do Ministério Público e se cada Juiz no Supremo votou segundo a sua própria convicção depois de ter, cada um deles, estudado cuidadosa e minuciosamente esse processo, por que apontar Joaquim Barbosa como aquele que nos veio oferecer três cabeças petistas ao corte e à degustação? E por que tentar fazer de Joaquim Barbosa um herói nacional?

 

     Joaquim Barbosa condenou, sim, alguns réus do “mensalão”. Presumidamente porque não quis pôr-se à venda em um momento no qual tudo se reduz a ser uma mercadoria. Condenou-os, como bom Juiz que é, porque considerou que eram culpados, da mesma forma como absolveu outros deles: condenou uns e absolveu outros obedecendo à sua consciência. Joaquim Barbosa, o Relator do processo, levantou argumentos e demonstrou considerável saber jurídico, além de demonstrar ter Moral individual e respeito ao que é público – tal como muitos brasileiros pobres, remediados e ricos, brancos, pretos ou multicores, Juízes, Promotores, Professores, Motoristas de ônibus ou Varredores de rua etc. terão (e outros não terão). O Revisor várias vezes o contestou. E, se os demais Juízes, cumprindo sua função e obedecendo às suas próprias consciências, não discordaram dos votos de Joaquim Barbosa, isso não ocorreu porque, nele, tenham encontrado um “líder” excepcional, mas porque consideraram culpados os que, como culpados, consideraram; e consideraram inocentes do que lhes foi, nesse específico processo, imputado, aqueles que absolveram.

 

     Por outro lado, não por ser negro e não porque nasceu pobre, Joaquim Barbosa condenou criminosos e demonstra ter Moral e ter saber jurídico. Joaquim Barbosa criou-se no Brasil da sua geração, preparou-se, formou-se, fez seus cursos complementares, teve suas chances, teve suas vitórias e sofreu seus fracassos no Brasil de sua geração, como qualquer negro, qualquer branco, qualquer indivíduo de qualquer cor e qualquer origem, sob as condições dadas por gerações anteriores, tal como todos os de sua geração; nem hoje é Ministro do Supremo graças a uma política de cotas ou por sempre ter votado no PT (tal como, por certo, continuará votando); nem se tornou capaz de exercer sua função graças à iluminação extraordinária de uma geração de esquerda. Joaquim Barbosa é um homem inteligente, sem dúvida, e é resultado das condições da Escola brasileira de seu tempo, que se preocupava com bem formar e, assim, dar oportunidades a muita gente – Escola que hoje, “democraticamente”, cada vez piores condições oferece aos pobres, remediados e ricos e cada vez mais apenas reforça os desmandos do Governo, Governo que “resolve” carências estruturais, tais como o insuficiente número de vagas e de mérito docente e discente, com expedientes racistas conjunturais, deixando muita gente inteligente e capaz fora da Escola e sem oportunidades.  

 

     Apenas por ter saber jurídico, por ter condenado criminosos e por ser inteligente, porém, Joaquim Barbosa não demonstra que esteja capacitado para ser indicado como Presidente de nossa República ou, sequer, que esteja capacitado a nos indicar quem deva ser Presidente de nossa República – da mesma forma como, apenas por ter saber jurídico, ter condenado criminosos e por ser inteligente, não demonstra estar suficientemente capacitado para ser um Administrador Público ou um Engenheiro ou um Oficial Militar ou um Médico, um Técnico em Informática, um Pintor, um Padre, um Cozinheiro ou qualquer outra coisa que não seja um Jurista. Ele está capacitado para ser um bom Juiz do Supremo. Será um bom Juiz do Supremo se assim se mantiver.

 

     É preciso dar um basta à demagogia frouxa de uma vez por todas enquanto é tempo. E fazer parar, enquanto é tempo, um andor preguiçoso que agora carrega nas alturas mais uma estrela tirada da cartola de alguém, estrela que, exibida da forma como vem sendo, tem sua imagem espalhada com velocidade da luz e quer se impor como mais uma verdade absoluta. É preciso fazer que esse erro não mais se avolume e não mais siga adiante, contagiando multidões em procissão. É preciso que chutemos de uma vez por todas, para bem longe de nós, um balde já repleto, até a boca, de fantasias estúpidas, que insistentemente nos é oferecido graciosamente para que nos distraiamos jogando-o insana e repetidamente cada vez mais ao fundo de um poço absolutamente seco de qualquer realidade. É preciso que não saiamos, mais uma vez, beijando mãos e agradecendo de joelhos, como reles escravos das circunstâncias, a cada qualquer um que apenas nos demonstre saber bem cumprir o seu dever perante a coisa pública – o que não deve ser visto como qualquer virtude extraordinária pois nada mais é que uma obrigação de todos nós. E é preciso fazer, de uma vez por todas, exatamente o que fez Joaquim Barbosa, em sua função, com os erros levados a julgamento no Supremo: repor, inteligentemente, cada um de nós, cada coisa e cada um em seu devido lugar. Porque esta é nossa função.

 

     Se consideramos que merecemos um Brasil mais decente e melhor, se consideramos que temos o dever de deixar às próximas gerações algo de bom que mereça ser preservado, que nos preocupemos com imaginar como resolver o que impede que isso seja alcançado, todos nós, sem nos deixarmos cair, outra vez mais, em politiquices, estrelices e esparrelas eleitoreiras, corporativas ou pontuais.

 

     Enquanto nos aglutinarmos apenas por conveniência individual, por diversão ou por comoção, movidos por charges, cartazes, filmes, novelas, espetáculos pirotécnicos, sorrisos, lágrimas e cantorias, enquanto evitarmos pisar no nosso chão e não tentarmos saber, a sério, que fazer com nosso País em toda a sua dimensão, enquanto não nos organizarmos com uma expectativa de futuro consistente e realista, baseada em suas condições reais e nas reais condições de seu entorno, não saberemos quem chamar para administrá-lo e não teremos quem chamar. E tudo ficará no mesmo. Na mesma ficção. Ou ainda bem pior do que já está.

 

     É mais que tempo de pararmos de ser tolerantes e coniventes com o resultado de patacoadas do tipo “o crime é fruto da miséria”, “a crise é um tsunami nos EUA e no Brasil é só uma marolinha”, “a Amazônia é o pulmão do mundo”, “o Brasil é um país pacífico”, “a terra é do índio e foi usurpada”, “a culpa dos fracassos nacionais é de uma elite branca e conservadora”, “o Brasil tem uma dívida histórica decorrente do regime de escravidão”, “o Brasil tem uma dívida histórica decorrente da Guerra do Paraguai”, “somos latino-americanos e todos somos irmãos”, “o país tal é um exemplo a seguir”, “encontremos um líder e seremos salvos”… e outras do gênero. Precisamos compreender definitivamente que um líder não se encontra de repente – um líder nasce no calor da discussão, dos debates, da luta. E não se mantém como líder se não mais acudir às funções de uma liderança – transforma-se em mito vazio de sentido, nocivo ou apenas inservível, ocupando um espaço que nos poderia ou deveria ser útil, nada mais.

 

     Precisamos urgentemente compreender que já não somos crianças que devem ser conduzidas por alguém para que não se percam em um passeio. Não estamos por aqui a passear e somos todos adultos – e ser adulto é assumir responsabilidades, inclusive e principalmente políticas. Nós, todos nós, devemos cumprir nossas funções da melhor forma possível, empenhando o melhor de nós mesmos. E não o devemos a qualquer presumida vítima do passado, mas sim à nossa população do presente, ela inteira, para que, entre todos os brasileiros, não haja vítimas no futuro.

 

     Se vítimas houver, não procuremos culpados, pois seremos nós mesmos seus algozes. Serão nossas essas vítimas, vítimas de nossa inconsequência, de nossa incompetência, de nossa incoerência, de nada e ninguém mais, ainda que sejamos nós mesmos essas vítimas.

      

     Para que ninguém se esqueça ou se confunda:

 

1. “Barbosa diz que foi Frei Betto, que o conhecia por terem participado do conselho de ONGs, que fez seu currículo ‘andar’ no governo. (…) O ministro votou em Leonel Brizola (PDT) para presidente no primeiro turno da eleição de 1989. E depois em Lula, contra Collor. Votou em Lula de novo em 2002. (…) ‘Lula é um democrata, de um partido estabelecido. As credenciais democráticas dele são perfeitas’. O escândalo do mensalão não influenciou seu voto: em 2006, já como relator do processo, escolheu novamente o candidato Lula, que concorria à reeleição. ‘Eu não me arrependo dos votos, não. As mudanças e avanços no Brasil nos últimos dez anos são inegáveis. Em 2010, votei na Dilma.’ (…) ‘A imprensa brasileira é toda ela branca, conservadora. O empresariado, idem’, diz. ‘Todas as engrenagens de comando no Brasil estão nas mãos de pessoas brancas e conservadoras (…) Uma pessoa com o mínimo de sensibilidade liga a TV e vê o racismo estampado aí nas novelas’.” Cf. em http://mariomarcos.wordpress.com/2012/10/11/joaquim-barbosa-a-folha-o-comando-e-dos-brancos/

      

2. Conferir as decisões no STF.

http://revistaepoca.globo.com/Brasil/Especial/noticia/2012/09/o-julgamento-do-mensalao-no-stf-voto-voto.html

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

     “… o Brasil parece mais a Dinamarca do que um país mestiço. Na TV, o negro sempre aparece na posição de empregado ou de chacota. O lado branco é chiquérrimo, e o outro, escravo ou ex-escravo” Emanoel Araujo, artista plástico

 

     “Com muita honra, vamos lançar os editais e apoiar e incentivar a produção da cultura negra por quem é negro” – Marta Suplicy, Ministra da Cultura

      

     Não, isso não é racismo. É apenas uma ação afirmativa. Mais uma, de favorecimento aos “companheiros”.

 

     Ou seja, Dona Suplicy destrambelhou de vez.

 

     Não só faz tempo que perdeu a compostura como agora parece já não saber onde encontrar o mais mínimo pudor. Que coisa mais feia…

 

     Tudo indica que a loura musa do PT não vem gostando muito do que o Ministro Joaquim Barbosa vem dizendo dos amigos dela que são réus no processo do Mensalão. Em sã consciência, quem de nós poderia considerar o Ministro em “posição de empregado ou de chacota”? A alguém ele pareceria um “escravo ou ex-escravo” em sua toga? Lewandowski estaria demonstrando ser mais “chique” que ele?

 

     Eu cá diria que, quando Joaquim Barbosa abre a boca, vem resplandecendo de tão “chique”. Tão “chique” vem-se demonstrando o Ministro, que faz resplandecer a nossa cultura verde e amarela. Está “chiquérrimo”…!!! E ponham “chique” nisso!

 

     Nada mais chique que a moral.

 

     E que seria exatamente a cultura brasileira negra? A dos “criadores”, “atores”, “diretores”, “dançarinos”, “artistas plásticos” que “precisam” ser premiados? A da ficção, pois?

 

     Porque a cultura brasileira da realidade nos parece muito bem representada no STF. Aliás, por inteiro. Ou não?

 

     Até quando e até que ponto “precisaremos” fantasiar a nossa realidade?

      

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http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1164067-ministerio-da-cultura-anuncia-lancamento-de-editais-para-negros.shtml

     04/10/2012 – 19h37

     Ministério da Cultura anuncia lançamento de editais para negros

     DE SÃO PAULO

     Em nota divulgada no início da noite desta quinta (4), o Ministério da Cultura informou que “vai lançar editais com a temática afrodescendente, condicionando a produção e criação a produtores e criadores negros”.

     “É uma justa reivindicação da comunidade negra”, disse a ministra da Cultura, Marta Suplicy. O anúncio se segue a uma reunião de Marta com produtores da cultura digital, nesta segunda (3), em que, segundo o texto do MinC, houve um “desabafo de que a cultura negra é apoiada pelo MinC, mas não é realizada por produtores e criadores negros”.

     A ministra da Cultura, Marta Suplicy, em visita à 30ª Bienal de São Paulo, na semana passada

     Marta se reuniu nesta terça com a ministra de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, para discutir a questão. Também se reuniu com o diretor-curador do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo, para tratar das atividades de lançamento dos editais e da comemoração do Dia da Consciência Negra em São Paulo, em 20 de novembro.

     De acordo com o MinC, a ordem da ministra aos presidentes da Funarte, Antonio Grassi, da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Galeno Amorim, e à secretária do Audiovisual, Ana Paula Santana, é de que apresentem, até a semana que vem, editais a serem lançados na data.

     “Com muita honra, vamos lançar os editais e apoiar e incentivar a produção da cultura negra por quem é negro”, declarou Marta.

    

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http://www.google.com/search?hl=en&q=N%C3%A3o+%C3%A9+racismo%2C+%C3%A9+a%C3%A7%C3%A3o+afirmativa%2C+diz+Marta+Suplicy+sobre+editais+para+negros

     Não é racismo, é ação afirmativa, diz Marta Suplicy sobre editais para negros

     MATHEUS MAGENTA – DE SÃO PAULO 

     A ministra da Cultura, Marta Suplicy, anunciou nesta quinta-feira (4) que a pasta lançará, em comemoração do Dia da Consciência Negra (celebrado em 20 de novembro), editais para beneficiar apenas produtores e criadores negros.

     “É para negros serem prestigiados na criação, e não apenas na temática. É para premiar o criador negro, seja como ator, seja como diretor ou como dançarino”, disse a ministra à Folha.

     A decisão foi tomada na quinta em reunião em Brasília com a ministra Luiza Bairros (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) e com integrantes do MinC, como o presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes), Antonio Grassi. A decisão foi tomada na quinta em reunião em Brasília com a ministra Luiza Bairros (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) e com integrantes do MinC, como o presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes), Antonio Grassi.

     A reunião foi realizada a pedido de Marta após debate, na última segunda, sobre inclusão digital em São Paulo. No evento, ela ouviu de um produtor cultural que a cultura negra é apoiada pela pasta, mas nem sempre é realizada por negros.

     Para Nuno Coelho de Alcântara, representante em São Paulo da Fundação Cultural Palmares, instituição ligada ao MinC para promover e preservar a cultura afro-brasileira, um edital que condicione a seleção à raça do criador ou produtor pode “fomentar o preconceito racial”.

     Marta discorda. “Não é [racismo]. Isso vai como uma ação afirmativa.”

     A medida foi defendida por ativistas do movimento negro ouvidos pela Folha.

     “Esse é o chamamento que faltava para a produção cultural negra no Brasil, que é rica e carente de apoios”, afirmou Sinvaldo Firmo, do Instituto do Negro Padre Batista, de São Paulo.

     Para o artista plástico Emanoel Araujo, curador do Museu Afro Brasil em São Paulo, os editais representam uma “posição política”.

     “Mas isso é muito bem-vindo. Como está, o Brasil parece mais a Dinamarca do que um país mestiço. Na TV, o negro sempre aparece na posição de empregado ou de chacota. O lado branco é chiquérrimo, e o outro, escravo ou ex-escravo”, disse.    

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     O mundo é, sempre foi e sempre será um grandioso palco em que se encenam disputas permanentes, umas menos, outras mais violentas. Há, inclusive, quem nos afirme que, sem competitividade, não haverá progresso. E, em não havendo progresso…

 

     Em nossos dias – quando a comunicação virtual e as imagens projetadas nas telas (sendo a maioria delas editada) permitem parecer que é desnecessário o contato com a realidade e parecem poder substituir com vantagens qualquer proximidade com interlocutores reais e enfrentamentos físicos de qualquer natureza – “brilhar” equivale a “vencer”.

 

     Vira daqui, mexe dali, acreditamos encontrar a origem de um brilho eventual e fugaz de nosso País em refulgentes indivíduos e os exaltamos “patrioticamente”. Fechamos os olhos às motivações pessoais que os levaram a participar de disputas em um ambiente qualquer em que todos disputam permanentemente contra todos, tal como são todos os ambientes montados naquele palco de dimensão mundial; não raramente veremos, em seguida, que esses indivíduos poderão estar prestando serviços a outras forças e organizações, não em exclusivo ou apenas não mais às nossas, brasileiras.

 

     Podemos também assistir a entusiasmo semelhante quando algum brasileiro surpreende a população, obtém sua simpatia e se destaca por ter agido em sua função de acordo com a moral pública ou em sua defesa e a de regras que lhe são decorrentes. Imediatamente, seu nome será cogitado para a Presidência da República… Em seguida, os próprios fatos do dia-a-dia se encarregam de soterrá-lo na vala comum onde já se encontram, cobertos por pesada poeira sideral, os milhões de nomes de milhões de bons cidadãos que apenas agiram e agem de acordo com os protocolos.

 

     É que vira daqui, mexe dali e nos esquecemos de ponderar que astros e estrelas somente brilham e bem ou mal nos iluminam quando nos cerca a escuridão. E nos esquecemos também de que as analogias sempre serão, no mínimo, interessantes ao raciocínio e ao conhecimento.

 

     Há, sim, o que tenha certa luz e brilho próprios. Mas o brilho, em geral, independe do que compõe intrinsecamente o que brilha. O brilho dos iluminados depende apenas do tratamento que recebem, do material que os reveste, da sua posição e da luz que lhes é jogada em cima. Não brilhará o que estiver encoberto ou muito gasto e não receber polimento adequado. E brilhar nem sempre corresponde à consciência de que estamos indo por um caminho muito mal traçado, mal calçado e mal iluminado, à consciência de que o rumo que tomamos é equivocado porque é circular e viciado, e à de que alterar esse rumo somente nos beneficiará caso decidamos ir ao encontro de um ponto capaz de nos permitir impulso a que avancemos de fato e nos livremos de um destino inexorável que se reserva aos que sobrevivem na periferia, com todos os males que afligem a periferia.

 

     Somos incontestavelmente um espaço que se caracteriza por uma cultura de periferia, um espaço que, por ser de periferia cultural, será, por decorrência, não só de periferia política como econômica. Para escapar dessa condição humilhante, que não decorre de quaisquer de nossas condições materiais naturais, é necessário que tenhamos muita cautela com receitas prontas que nos sejam oferecidas – embora, com esse friozinho que anda fazendo, caia bem também uma canja de galinha que a ninguém faz mal. Toda cautela é necessária porque o incentivo a que se manifeste muito entusiasmo com determinadas atitudes “de efeito”, levando-nos a interpretá-las como próprias dos “salvadores da Pátria”, poderá perfeitamente corresponder apenas ao canto de uma sereia. Ou significar que Tróia possa ter decidido nos oferecer de presente um belo cavalo recheado de gregos mal intencionados. E acudir a esse incentivo poderá demonstrar apenas que por sereias gostamos de ser enfeitiçados, ou que pelo cavalo, que consideramos ser melhor que nada, devemos agradecer comovidos – um comportamento típico de periferia, provocado por uma mentalidade típica de periferia.

 

     Vou aqui chamar, como exemplo de falso brilho, de sereias que cantam e/ou cavalos de Tróia que são dados de presente, um caso bem recente e também típico, que aqueles que nos “inventaram” nos oferecem: como o “melhor recanto de Espanha” acaba de ser eleito um monumento do século XVI, em estilo manuelino, plantado em um simpático pedacinho de Portugal que, um belo dia, foi abocanhado pelo império seu vizinho – a Igreja de Santa Maria Madalena de Olivença. O concurso foi de iniciativa do Guia Repsol – Repsol, sim, a 15ª maior petroleira do mundo e a maior companhia energética privada hispano-americana. Muitos oliventinos e, por certo, muitos portugueses de vários outros rincões entusiasmaram-se com o concurso, correram a dar seu voto pela web e se maravilharam com o resultado da eleição que brindou um dos motivos de justo orgulho da monumentalidade portuguesa somente superado pelo Mosteiro dos Jerônimos.

 

     Muitos se entusiasmaram, pois, mas nem todos. Porque nem todos são tolos e nem todos puderam ser iludidos. Dizia o jornal “Público” de Lisboa “(…) Já nesta quinta-feira [27 de agosto], num comunicado de reacção à eleição, o Grupo dos Amigos de Olivença alerta que ‘esta escolha, das quais se desconhecem os critérios, não será certamente inocente e deverá levar todos os portugueses a questionar quais os reais motivos dos organizadores do evento colocando um monumento tipicamente português como representativo de Espanha’.”

 

     Acrescente-se, por ser de nosso “suposto” (hirc!) mesmo que remoto interesse, que, não por acaso, nessa mesma Igreja se encontra o túmulo de Frei Henrique de Coimbra, que era confessor do Rei D. Manuel e acompanhou Pedro Álvares Cabral em sua chegada oficial ao Brasil em 1500. Quais os argumentos do Grupo dos Amigos de Olivença, GAO? “Para este grupo, a escolha representa mesmo uma ‘indecorosa tentativa de legitimação da ocupação do território de Olivença junto da opinião pública portuguesa. Nem mesmo escamoteando a verdade se pode entender como pode uma catedral portuguesa, na nossa Olivença, ser representativa da Espanha. A igreja da Madalena nada tem de espanhol e ali nada há de estremenho (…) Olivença é um território juridicamente português ocupado ilegalmente por Espanha.  A escolha da igreja da Madalena é certamente vista por muitos portugueses, no mínimo como muito infeliz, no máximo como uma provocação a Portugal patrocinada pela Repsol’ ”.(http://www.publico.pt/Sociedade/igreja-portuguesa-de-olivenca-eleita-melhor-recanto-de-espanha-2012-1564755)

 

     Tudo já aqui foi dito, nada há a acrescentar. O concurso foi não mais que uma arapuca, que cativou muitos daqueles que gozam de uma preguiçosa tendência a viver bem em cativeiro, desde que a merenda seja farta. Embora muitos – mas nem todos – pudessem ter visto nesse concurso uma provocação ao Estado português, a inclusão do monumento português erguido em terra que Espanha hoje ocupa indevidamente entre os locais que poderiam disputar o título de “o melhor recanto” deste país mobilizou a população portuguesa “em defesa”, por certo, de um valor que lhe é caro; e, com isso, bem menos caro a essa população e, portanto, bem menos defensável se demonstrou, ao mundo, ser o próprio Estado português.

 

     Quanto a nós aqui, não nos custa olhar o julgamento do Mensalão com certa cautela, embora canja de galinha não se ponha todos os dias à mesa de todos. Esse julgamento não depende de eleições, mas poderá muito influir na expectativa do resultado delas.

 

     Vara da Justiça Federal em Brasília, de estar envolvido no esquema do mensalão e de utilizar a máquina pública para realizar promoção pessoal. O MPF pediu, em liminar, o bloqueio de seus bens. Em que pé estaria esse processo? Eu cá não tenho qualquer notícia dele. (previdencia/?searchterm=improbidade).

 

     Se bem que saibamos que “indivíduo” é “indivíduo”, que “Partido” é “Partido” e que “base aliada” é “base aliada”, e se bem que possamos supor que, para Dom Inácio, seria muito importante que o nome de todos os participantes e colaboradores de seu governo – e o dele próprio – saíssem desse julgamento no STF como lírios do campo em tarde amena depois de um chuvisco, nada nos convence inteiramente de que Dona Rousseff se ponha de fato muito abalada com o afastamento de algumas tiriricas inequivocamente emporcalhadas de seu pasto. Afinal, ela se autonomeou Faxineira em Chefe do Planalto Central. Se não for, ela mesma, envolvida na sujeira que a cerca e em que expoentes de seu Partido e de outros tantos chafurdam, só tem a ganhar com o final da Ação Penal 470 (Mensalão) seja qual for o resultado. Brilhará.

 

     Se abstrairmos insinuações em hora e local inapropriados a resolvê-las, o Relator do processo, até aqui, vai indo bem. O que, aliás, para muitos foi uma surpresa. Mostra ter fôlego e, mesmo que faça o que vem fazendo só por saber bem aproveitar seus 15 minutos de holofotes, pelo menos escolheu sair bonito nas fotos que deixará em nossa História. E muitos o vêm acompanhando em suas conclusões, o que também, por vezes, surpreende. 

 

     Dizem que ele conta com segurança pessoal garantida por Oficiais da ABIN, o que terá sido decidido pelo Gen. Elito, do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, de acordo com alguns integrantes do Alto Comando das FFAA e atropelando Dona Rousseff. Pode ser que sim, pode ser que não. Meio difícil é, porque todo Oficial militar é muito disciplinado. Mas nada é impossível. E, se de fato assim foi, é que a coisa está bem mais complicada do que podemos supor… Por outro lado, quanto às FFAA, a eventual condenação de José Genoíno não lhes altera, em nada, o quadro adverso – o Marechal de Campo Amorim, Ministro da Defesa, poderá substituí-lo por outro ex-guerrilheiro e a festa há de prosseguir com alegria.

 

     Outro fato a considerar é que não se limpa um País enfiando só meia dúzia atrás das grades. Ou forçando alguém ao exílio. O resultado das próximas eleições que nos confirme, outra vez mais, essa tese. Além de que bolhas de sabão não duram por muito tempo. E mesmo o bom sabão mistura-se bem à lama e, se não for muito bem enxaguado, deixará uma goma mal cheirosa como resíduo na superfície que se pretendia limpar.

 

     Há boatos em excesso, tal como sempre houve a respeito de tudo. Muita gente anda simplificando em excesso o que é muito e muito complicado. Sabemos muito pouco do que ocorre nos bastidores e a Imprensa não só ajuda a fazer marola como muito pouco nos informa de útil – talvez até porque a muito pouco tenha acesso, além de ter seus próprios interesses. O que de bom restar disso tudo, pois, consideremos como consolo – se algo de bom restar e quando assim pudermos interpretar.

 

     Mas, desde já, não nos iludamos. Seja qual for o resultado do julgamento da AP 470, o Brasil só perdeu, a começar por ter permitido que existisse aquilo que a motivou. A verdade verdadeira é que nós todos já nos perdemos e perdemos muito, não no particular, mas no geral, porque faz tempo que escorregamos no calçamento, batemos a cabeça e perdemos o bonde da História. E não será esperando o próximo que reverteremos o atraso, a opacidade e a escuridão em que nos metemos – mesmo porque, além de muita gente bem saber que não quer corrupção no poder, ninguém sabe o que de fato mais poderá ou deverá querer fazer, inclusive para evitar a corrupção no poder. E todos continuam sendo orientados por falsas estrelas e falsos astros que, da mesma forma que os verdadeiros, podem ser vistos brilhando em posição diferente conforme a latitude e conforme a época do ano. A tendência, pois, é que nos próximos tempos só continuemos a perder e a nos perder, de um jeito ou de outro, de carona no estribo do bonde ou a pé, com entusiasmo ou sem entusiasmo, a céu aberto ou coberto de nuvens, com alguns gatos pingados sendo agora condenados ou absolvidos. Até que resolvamos recobrar a consciência.

 

 

 

 

  

  

 

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VACAS VOAM?

23-09-2012
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

“Dos mortos, seis foram identificados. Todos possuem passagens pela polícia, segundo informou, em nota, a Secretaria Estadual da Segurança Pública. (…) foram apreendidos duas espingardas calibre 12, uma metralhadora, sete pistolas, quatro revólveres, cinco veículos, todos roubados, e 20 quilos de maconha que estavam dentro de uma geladeira. Segundo a polícia, a chácara pertence a um candidato a vereador. (…) a vítima do estupro, uma garota de 12 anos, sua mãe e o irmão dela, também criança, estavam presentes na chácara. Eles confirmaram que assistiram ao julgamento.”  (*) 

      

     Entre minhas leituras, não digo as obrigatórias, mas as de quando em quando freqüentadas, estão as colunas de Pasquale Cipro Neto na Folha de S.Paulo. São bem interessantes. A nossa língua portuguesa me encanta, encanta-me a riqueza e a precisão de seu vocabulário, sua lógica impecável, seus sons, seus meandros, suas “armadilhas”, tanto quanto me encanta a nossa gente brasileira. Da mesma forma como gostaria de não ver essa nossa gente dominada, em tempo algum, por qualquer meio, por quem quer que fosse, gostaria imensamente de poder dominar com perfeição a nossa linguagem – o que, reconheço, é bastante difícil. Já o Professor Pasquale, conforme currículo publicado na wikipédia, “notabilizou-se por popularizar a interpretação de textos e em especial as dúvidas de gramática”. Bem, eu cá prefiro crer que o responsável pela redação tenha tentado dizer que o Professor se notabilizou por se dedicar, em especial, a esclarecer dúvidas que nossa boa gramática sucita, não por popularizá-las…

 

     A coluna do Professor Pasquale na Folha de 20/09, intitulada “Leitura(s) torta(s)” (1), levanta um problema sério que, sempre que tenho oportunidade, insisto em apontar – a nossa falta de atenção ao significado correto das palavras e à logica das frases, que compromete não só a leitura como a redação e o próprio raciocínio. O Professor nos diz que um “exemplo de leitura torta /…/ decorre do desconhecimento do real significado de uma palavra. Passemos para outro exemplo de leitura torta, que começa com o seguinte raciocínio: ‘Toda vaca voa; Mimosa voa, portanto Mimosa é…’. Quem concluiu o raciocínio dizendo ‘portanto Mimosa é uma vaca’ errou. E errou porque leu mal, porque pensou mal. Dizer que toda vaca voa não equivale a dizer que tudo que voa é vaca. Como vimos, esse caso de leitura torta decorre da deficiência no raciocínio lógico. Agora vejamos um terceiro caso de leitura torta – para mim, o pior de todos. Refiro-me ao tipo de leitura de que é exemplo aquela que muitos fizeram do lúcido texto escrito por Maria Rita Kehl e publicado na ‘Ilustríssima’ do último domingo. Eu sabia que não deveria ler os comentários postados na versão eletrônica do artigo. /…/ Caminhões de exemplos de leitura torta, raivosa, fruto do pior dos males, da pior das doenças: a brutalidade, a grosseria, o analfabetismo funcional.

 

     Muito bem. Li somente os textos. Os comentários, não li. Mas ponderaria que, se “brutalidade” e “grosseria” pertencem a um mesmo registro lógico – decorrem da falta de equilíbrio ou de refinamento emocional –, “analfabetismo funcional” se encaixa em outro, completamente distinto – é o resultado de uma péssima escolaridade. De fato, esses são problemas que, não raramente, enfrentamos em nossa Sociedade. Mas não se confundem. Se tratados como uma doença, a pior das doenças, cujo sintoma ou cuja conseqüência seria uma leitura torta e raivosa, que remédio lhes dar? Meio difícil resolver isso…

 

     Não será difícil, no entanto, compreender que, pretendendo identificar Mimosa, se começarmos a raciocinar com a premissa “toda vaca voa”, seguramente chegaremos não muito longe e a nada de bom ou útil. Este não é um bom caminho. Não é que seja um caminho equivocado, apenas – é um caminho estúpido. No entanto, ele poderá ser contestado com um raciocínio que comece tendo “nem toda vaca voa” como premissa, e esse caminho será igualmente estúpido. Associar qualquer vaca à capacidade de voar continuará sendo não mais que uma estupidez. E o raciocínio que nos leve a aceitá-la não será estúpido por uma deficiência na sua própria lógica, mas por ignorância absoluta dos significados das palavras ou por um desprezo absoluto à conexão que as palavras e seus significados devem manter em sua função na lógica da linguagem.

 

     Portanto, somente quem souber que uma vaca é um bicho que não tem asas, e souber que asas são necessárias para que um bicho possa voar (embora nem todo par de asas permita a façanha), saberá que uma vaca não poderá voar. Quem não conhece uma vaca e/ou nunca viu voando um bicho que voe, não saberá. Uma vaca nunca voará. Ponto pacífico. Alguns poderão afirmar, porém, que bastará colocá-la em um avião que ela, a própria vaca, voa… Este é um raciocínio errado, mas não é exatamente estúpido, é até bem esperto. E alguns outros se lembrarão de que (dizem que) Tomás de Aquino acreditou que fosse mais razoável uma vaca voar que um monge mentir. Tomás de Aquino era um Filósofo. Provavelmente um bom homem. Não era um Professor de Português. 

 

     O Professor Pasquale continua em sua coluna: “Gente que não consegue diferenciar uma reportagem de um texto analítico se pôs a dizer grosserias /…/ Maria Rita Kehl, cujo nome atravessa as nossas fronteiras, escreveu um artigo (artigo, não reportagem!) em que, essencialmente, defende a civilização, e, no estado de direito, civilização significa agir de acordo com a lei, seja quem for aquele que age (civil ou militar). /…/ Para os que gostam de enxergar o que não há nos textos e/ou para os que gostam de atacar o que não foi dito ou ainda para os que atacam a pessoa e não as ideias (realmente) proferidas, sugiro a leitura de “A Dialética Erística”, do filósofo Schopenhauer. Quem sabe a compreensão dessa obra fizesse muita gente ficar corada de vergonha por perpetrar tanta bobagem. É isso.”

 

     Bem, pode até ser isso, sim, mas, antes de nos atermos a apenas isso, façamos uma visita aos conceitos, que sempre nos ajudam a mais bem compreender o que nos possa estar sendo dito e nos ajudam a manter o raciocínio bem orientado. Não vou discutir “civilização” nem “lei” porque não terminaria este texto hoje. Já com as palavras “artigo”, “reportagem” e “análise” temos todos alguma intimidade. Na Imprensa, nada impede que um artigo corresponda a uma reportagem. Mas pode não corresponder. Nem por isso será, necessariamente, um texto analítico. Poderá ser apenas um artigo opinativo, ou seja, uma opinião. E, penso eu, porque me é permitido assim pensar, que, tal como uma vaca não voa, quem não conhece o significado das palavras e desfaz de sua articulação lógica nas frases não compreenderá “A Dialética Erística” do filósofo Schopenhauer, por mais que abra o livro recomendado, por mais que o leia ou imagine que o esteja lendo. E muitas outras coisas mais poderá não compreender. Vamos agora ao dicionário, que está ao alcance de todos e não nos costuma mentir, para que evitemos esforços hermenêuticos excessivos e desnecessários: “dialética” seria um “conflito originado pela contradição entre princípios teóricos ou fenômenos empíricos”. E “erística” seria “arte ou técnica da disputa argumentativa no debate filosófico, desenvolvida sobretudo pelos sofistas, e baseada em habilidade verbal e acuidade de raciocínio”. Platão já teria usado o termo com um significado pejorativo: “argumentação que, buscando unicamente a vitória em um debate, abandona qualquer preocupação com a verdade” (cf. Houaïss na web). A “dialética erística” poderá, então, ser compreendida como um embate verbal travado entre opositores movidos por quaisquer interesses conflitantes, no qual vencer, seja como for, custe o que custar, é o único objetivo – nada mais terá, nesse embate, importância alguma. Nem coerência, nem honestidade, nem… Ou será o próprio método utilizado nesse embate para obter-se a vitória.

 

     Muitos serão os que poderão compreender com bastante facilidade que, se o objetivo de uma discussão for encontrar uma verdade a respeito de um assunto qualquer, as teorias, as premissas e os argumentos corretos que acompanham o raciocínio correto deverão prevalecer, sempre, sobre os que possam ser falsos e/ou errados. O que em geral se observa em uma discussão, no entanto, especialmente se ela for sobre a Política e as paixões ditas políticas, é que os argumentos vão-se desenvolvendo em um crescendo de equívocos fortuitos ou premeditados que se acumulam e se enroscam uns nos outros até deixarem essa discussão com um aspecto absolutamente surrealista. E talvez não haja força ou habilidade capaz de destrinchá-los e ordená-los convenientemente. É possível observar-se também que, se a discussão for pública, os discursos, ainda que absurdos e mal articulados, sempre ganharão aplausos da claque particular de quem os levanta – porque algumas palavras desses discursos serão suficientes para levar essa claque a aceitá-los como corretos e verdadeiros por inteiro.  

 

     Voltemos, então, a Mimosa. Se Mimosa voa, e se vacas não voam, Mimosa não será uma vaca. Ponto pacífico. Mas nada disso nos diz que raios Mimosa é. Mimosa poderá ser uma arara, uma mosca, uma barata… ou qualquer coisa – dizer que folhas voam ao vento de outono não é um erro semântico, lógico ou gramatical, é apenas uma extensão de sentido ou uma licença poética. Nem mesmo ressalvas de muita importância, como a de que dizer “toda vaca voa” não equivale a dizer que tudo aquilo que voa é uma vaca, algum indício nos darão do que seja Mimosa. Se conhecermos as vacas apenas de ouvir falar delas, porém, ou se pouco nos importar se vacas voam ou não voam, a classificação de Mimosa como vaca poderá ser perfeitamente bem aceita – que importância isso teria? – pois incontestável é que “Mimosa” é um típico nome de vaca, de boa vaca leiteira de anedota mineira, com badalo no pescoço; e, se Mimosa voa ou não voa, muito pouco também nos há de importar, pois, com este nome de vaca que Mimosa tem, Mimosa há de merecer ser reconhecida como vaca. Por outro lado, se as vacas voassem, seria possível imaginar que fizessem ninhos em beirais de telhados ou nos galhos. Só mesmo para quem bem conhece vacas e bem sabe que vacas não voam, nem sobem pelas paredes ou em árvores, será impossível imaginar um ninho de vaca nas alturas. Da mesma forma como não será possível exigir que um Estado se comporte como se fosse um monastério na suposta (esta palavra não está ficando meio gasta?…) ideal concepção de Tomás de Aquino.

 

      ***

 

     Que nos diz o texto de Maria Rita Kehl, publicado na Folha de domingo (2), que o Professor Pasquale interpretou e tanto defendeu em sua coluna?

 

     Com a autoridade que lhe empresta o fato de ter sido indicada como membro da “Comissão da Verdade” e, pelo Governo, contratada com um salário de mais de R$ 11.000,00 mensais para punir os que agiram em nome e em defesa do Estado brasileiro, Maria Rita Kehl, a Psicanalista, critica: “O Estado, ao mentir, coloca-se acima do direito republicano à informação – portanto, contra os interesses da sociedade que pretende governar. O Estado, ao mentir, perde legitimidade”. E exemplifica: “agentes das Polícias Militares, integrantes do Exército e diversos matadores free-lancer justificavam as execuções de supostos inimigos públicos que militavam pela volta da democracia durante a ditadura civil militar, a qual oprimiu a sociedade e tornou o país mais violento, menos civilizado e muito mais injusto entre 1964 e 1985”.

 

     Com a pureza d’alma de um Tomás de Aquino, ela nos indicará qual é a mentira a que se refere: “o Estado militarizado teve carta branca para prender sem justificativa, torturar e matar cerca de 400 estudantes, trabalhadores e militantes políticos (dos quais 141 permanecem até hoje desaparecidos e outros 44 nunca tiveram seus corpos devolvidos às famílias /…/) Esse número, por si só alarmante, não inclui os massacres de milhares de camponeses e índios, em regiões isoladas e cuja conta ainda não conseguimos fechar. Mais cínicas do que as cenas armadas para aparentar trocas de tiros entre policiais e militantes”.

 

     Somos assim informados de que o País era injusto, incivilizado e violento antes de 1964, pois, daí até 1985, quando a sociedade era oprimida pelos inimigos de supostos inimigos públicos, ele teria ficado mais injusto, menos civilizado e mais violento. O que se alterou naquelas datas, para que elas possam ser uma referência, pouco importa, mesmo porque, hoje, o País parece estar bem pior: “Se a tortura aos oponentes da ditadura foi acobertada, quando não consentida ou ordenada por autoridades do governo, o que pensar das chacinas cometidas em plena democracia, quando governadores empenham sua autoridade para justificar assassinatos cometidos pela polícia sob seu comando?” Hoje, “a mortandade continua, e a sociedade brasileira descrê da democracia” – o que, de verdade, parece ser uma situação um bocado grave e também muito difícil. Mas difícil, mesmo, será compreender como pôde ser classificado como “analítico” um texto cuja premissa básica é uma extraordinária declaração de fé em uma verdade absoluta absolutamente subjetiva, fé que promete ser mantida apesar de qualquer prova objetiva que porventura possa ter sido ou vir a ser apresentada e a contrarie.

 

     Tudo indica que Maria Rita Kehl não gosta do nosso Estado. Nem gosta do Exército nem gosta de Polícia. Nem de quem os justifica como instituições necessárias. Não gosta, pronto! E não gosta do Governador Geraldo Alckmin, de quem eu mesma também não gosto – e daí? – não pelos mesmos motivos que ela tem para não gostar. Quais motivos são esses, não sabemos exatamente, mas ficamos sabendo que ela não gosta do Governador porque ele defendeu a “ação da Rota /…/ que matou nove supostos bandidos”. E mais explica a razão desse seu não gostar: “Um dos mortos foi o suposto estuprador de uma menor de idade, que acabava de ser julgado pelo “tribunal do crime” do PCC na chácara de Várzea Paulista. Ora, não faz sentido imaginar que os bandidos tivessem se esquecido de desarmar o réu Maciel Santana da Silva /…/ Aliás, o “tribunal do crime” acabara de inocentar o acusado: o senso de justiça da bandidagem nesse caso está acima do da PM e do próprio governo do Estado. Maciel Santana morreu desarmado”.

 

     Caramba! É verdade? O suposto estuprador de uma menor de idade morreu desarmado? Isso não faz, mesmo, sentido algum e não é, nem um pouco, justo! Certa estará a Psicanalista: deveria ter uma arma o morto, se já havia sido absolvido pelo “tribunal do crime” cujo senso de justiça é superior ao suspeito senso de justiça da PM e ao do próprio Governo do Estado que apenas “investe-se do direito de mentir para encobrir seus próprios crimes” praticados contra criminosos! Mas, pensando bem… por que não faria sentido imaginar que bandidos se esquecessem de desarmar um bandido que por eles mesmos, bandidos, já teria sido inocentado? Eu aqui não saberia responder. Ficou muito complicado, bem difícil de entender… Além de que… quem informou que o bandido havia sido inocentado? A Polícia? Os bandidos? A vítima? A Imprensa?

 

     “Engana-se – ainda nos dirá a “analista” (psicanalista, não repórter – estava escrito nos créditos do artigo, santo Deus!) – a parcela das pessoas de bem que imaginam que a suposta ‘mão de ferro’ do governador de São Paulo seja o melhor recurso para proteger a população trabalhadora. Quando o Estado mente, a população já não sabe mais a quem recorrer” e a Policia militar “compromete a segurança de todos os cidadãos”. E, piedosa, pontifica: “Não há grande diferença entre a crueldade praticada pelo tráfico contra seis meninos inocentes, no último domingo, no Rio, e a execução de nove homens na quarta, em São Paulo. /…/ ‘os homens’ não invadem mais as casas de cantores, professores e advogados, mas continuam a arrastar moradores ‘suspeitos’ das favelas e das periferias para fora dos barracos ou a executar garotos reunidos para fumar um baseado nas esquinas das periferias das grandes cidades”.

 

     Santo Deus digo eu! Então, “os homens” invadiam as casas de cantores, professores e advogados que tocavam suas músicas, preparavam seus planos de aula e escreviam suas petições, não as invadiam em busca de envolvidos com uma guerrilha contra o Estado, seus planos de assaltos e seqüestros e suas armas? E “os homens” agora executam garotos nas esquinas das periferias das grandes cidades só porque eles estão fumando um baseado? “Os homens” feriram e ferem a intimidade da vida privada, que é sagrada, em todos os sentidos! Com uma violência gratuita! Que justificará plenamente o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso ter confessado o receio que tinha de expor sua opinião contrária à proibição do uso da maconha. De mais a mais, não se entende por que a Polícia possa atribuir certos atos somente imagináveis em um filme de horror àqueles que supostamente fornecem entorpecentes ou àqueles que, porque supostamente são viciados em entorpecentes, supostamente já perderam o discernimento e a consciência do que fazem ou deixam de fazer – uma mentira que permite que, mesmo mal nutrida e mal acudida, essa Polícia decida, de vez em quando, sair caçando vítimas inermes, que nunca reagem, em divertido safari esportivo como se fosse o Rei de Espanha; nem é possível aceitar que o Estado insista na mentira de que viciados em entorpecentes procurem e consigam viciar outros tantos que ainda não estão viciados, supostamente por ordem expressa de honestos comerciantes de entorpecentes que com isso se beneficiam – o que, mesmo sendo verdade, deve ser considerado muito bom para a Sociedade, pois, segundo alguma lei da Economia que ainda está para ser provada, quanto maior for a demanda, mais cairá o preço da mercadoria e, assim sendo, um número bem menor de seqüestros e latrocínios será necessário para amparar o consumo de entorpecentes. O que comprova, por sua vez, ainda que meio pelo avesso, o que nos diz a “analista”: “O que parece ser decidido em nome da segurança de todos produz o efeito contrário” e nos instiga a querer decidir em prol da insegurança. Afinal, a Sociedade deve ser corretamente protegida. E, se antes alguém poderia duvidar, agora ninguém mais duvida: proibir vícios “não dá certo”… (3). Não é assim?

 

     Há ainda mais, tenham paciência, por favor. O “texto analítico” da respeitada Psicanalista Maria Rita Kehl, um nome que atravessa nossas fronteiras, alerta-nos para duas outras questões, que são cruciais: 1. “do ponto de vista do cidadão desprotegido, qual a diferença entre a lógica do tráfico, do PCC e da política de Segurança Pública /…/ quando a eliminação sumária de supostos criminosos pelas PMs segue os mesmos procedimentos e goza da mesma impunidade das chacinas cometidas por quadrilhas de traficantes?” 2. “O Estado que pratica vendetas como uma Camorra destrói as condições de sua própria autoridade, que em consequência disso passará a depender de mais e mais violência para se sustentar.

 

     Como não me incomodo de jogar fora o meu tempo, mas nem tanto assim, não me ponho aqui a me perguntar “se é possível confiar na lisura” de um inquérito quando um Governador já legitimou “o morticínio praticado pela PM que responde ao comando dele”; mas me pergunto por que cargas d’água, um bom dia, alguém, que estúpido não era, pôde definir o Estado como aquele que detém o “monopólio da violência legítima”; por que cargas d’água pôde ser conferida a legitimidade da violência ao Estado, se tão mais fácil seria se, a todos, tudo fosse permitido fazer, se descriminalizássemos tudo aquilo que crime é porque, em nome da segurança de todos, como crime foi definido em Lei – tal como alguém outro que não era, tampouco, estúpido, definiu; por que cargas d’água qualquer Estado que deve “proteger a sociedade a partir de suas atribuições constitucionais” haveria de pensar em praticar algo que destruísse as condições de sua própria autoridade; por que cargas d’água – e por quem – a autoridade do Estado pôde ser e continua sendo questionada e enfrentada; por que cargas d’água, se não motivada por uma vendeta, e com que autoridade formou-se uma “Comissão da Verdade” que só reconhece razão a quem atentou e hoje atenta contra o Estado; e, considerando que um conjunto intersubjetivo, cuja realidade psíquica é extraordinariamente privilegiada, tem na manga uma carta com a receita pronta para que bandidos-mocinhos e mocinhos-bandidos vivam em paz e em segurança e crimes não mais existam ou não mais sejam considerados como crimes (inclusive os contra o Estado), eu me pergunto ainda – à toa, à toa, bem sei – como, para que, para quem e por que cargas d’água o Estado brasileiro deverá se manter.

 

     Não gosto de atacar pessoas nem ataquei o que, nos textos que comento, não foi dito; enxerguei, pois, somente o que neles de fato havia, e discuti somente as idéias realmente neles proferidas – e, é claro, as minhas – cá comigo mesma, com meus botões e minha consciência, que não pretendo substituir pelo inconsciente de quem quer que seja e gosto de manter bem acesa. Assim, posso afirmar que, do que li, restou-me apenas a incômoda sensação de ter sido chamada a acompanhar as rasantes que vacas voadoras pudessem estar praticando sobre nossas cabeças.

 

     Não afirmaria que seja uma Verdade que certa gente que demonstra crer que vacas voam só esteja tentando fazer, por uma viciada dialética erística, que algumas mentiras de caráter particular sejam consideradas como verdades públicas. Mas diria que é bem possível que sim. Concluo, pois, sugerindo que o Professor Pasquale ainda deixe a gramática e a sintaxe um pouco de lado, tal como fez em sua última coluna, para mais se preocupar com descobrir, de uma vez por todas, se esses bichos voam ou não voam, nunca voaram nem voarão; e com esclarecer o mais rapidamente possível tanto a população inculta quanto a população culta de sua conclusão. A considerar as palavras e as frases com que justificou o “analítico” e “lúcido” artigo de Maria Rita Kehl, muita gente que lê sua coluna procurando conhecer um pouco mais de nossa linguagem vai continuar acreditando ou vai passar a acreditar que, se não todas, algumas vacas possam voar.

      

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(1) www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/67213-leituras-tortas.shtml

     São Paulo, quinta-feira, 20 de setembro de 2012

     Leitura(s) torta(s)  – Pasquale Cipro Neto  

     O leitor certamente conhece a frase “O bom filho a casa torna”. Vou logo dizendo que esse “a” não tem mesmo acento indicador de crase, mas isso é conversa que fica para outro dia.

     Pois bem. Muita gente entende mal uma conhecida sentença, que é “semelhante” à primeira e vem da parábola do filho pródigo. Sabe qual é, não? É só trocar “bom” por “pródigo”. Lá vai: “O filho pródigo a casa torna” (também sem acento no “a”). Muita gente acha que as frases se equivalem, como se “pródigo” fosse sinônimo de “bom”, “magnânimo” etc., ou seja, como se o filho voltasse para casa porque não esquece os seus, porque lhes é grato e por aí vai. O filho pródigo volta para casa justamente porque é pródigo, ou seja, porque é esbanjador, gastador, dissipador. Leia a parábola, se for o caso.

     O exemplo de leitura torta que acabamos de ver decorre do desconhecimento do real significado de uma palavra. Passemos para outro exemplo de leitura torta, que começa com o seguinte raciocínio: “Toda vaca voa; Mimosa voa, portanto Mimosa é…”. Quem concluiu o raciocínio dizendo “portanto Mimosa é uma vaca” errou. E errou porque leu mal, porque pensou mal. Dizer que toda vaca voa não equivale a dizer que tudo que voa é vaca. Como vimos, esse caso de leitura torta decorre da deficiência no raciocínio lógico.

     Agora vejamos um terceiro caso de leitura torta -para mim, o pior de todos. Refiro-me ao tipo de leitura de que é exemplo aquela que muitos fizeram do lúcido texto escrito por Maria Rita Kehl e publicado na “Ilustríssima” do último domingo. Eu sabia que não deveria ler os comentários postados na versão eletrônica do artigo. Um dos meus filhos bem que me advertiu (“Pai, não estrague o seu domingo”). Mas o burro aqui leu. E o que o burro viu? Caminhões de exemplos de leitura torta, raivosa, fruto do pior dos males, da pior das doenças: a brutalidade, a grosseria, o analfabetismo funcional.

     Gente que não consegue diferenciar uma reportagem de um texto analítico se pôs a dizer grosserias como “Essa repórter deveria ir para a cozinha” ou “Por que essa jornalista não leva um bandido para a casa dela?”. Santo Deus!

     A respeitada psicanalista (psicanalista, não repórter -estava escrito nos créditos do artigo, santo Deus!) Maria Rita Kehl, cujo nome atravessa as nossas fronteiras, escreveu um artigo (artigo, não reportagem!) em que, essencialmente, defende a civilização, e, no estado de direito, civilização significa agir de acordo com a lei, seja quem for aquele que age (civil ou militar). Para muita gente, no entanto, basta que alguém questione uma ação da polícia, umazinha que seja, para que se configure a defesa do banditismo (!!!), das ações dos bandidos (!!!) etc. Para essa gente, a polícia tem e sempre teve razão, em qualquer situação, fato, circunstância, tempo, período, era etc., o que configura um estado de coisas que tem um nome bem claro: nazifascismo (ou atraso, barbárie etc., etc., etc.).

     Sugiro a essa gente que ouça (e entenda) “Nome aos Bois”, dos Titãs. Sugiro ainda que leia, leia muito, mas leia o que desarma o espírito, eleva e enleva a alma. Se possível, que inclua na leitura um pouco de filosofia, de textos que aprimorem o pensamento. Para os que gostam de enxergar o que não há nos textos e/ou para os que gostam de atacar o que não foi dito ou ainda para os que atacam a pessoa e não as ideias (realmente) proferidas, sugiro a leitura de “A Dialética Erística”, do filósofo Schopenhauer. Quem sabe a compreensão dessa obra fizesse muita gente ficar corada de vergonha por perpetrar tanta bobagem. É isso.

      

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(2) www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/66471-o-veredicto-de-geraldo-alckmin.shtml

     São Paulo, domingo, 16 de setembro de 2012

     O veredicto de Geraldo Alckmin

     MARIA RITA KEHL      

     “Quem não reagiu está vivo”, disse o governador de São Paulo ao defender a ação da Rota na chacina que matou nove supostos bandidos numa chácara em Várzea Paulista, na última quarta-feira, dia 12. Em seguida, tentando aparentar firmeza de estadista, garantiu que a ocorrência será rigorosamente apurada.

     Eu me pergunto se é possível confiar na lisura do inquérito, quando o próprio governador já se apressou em legitimar o morticínio praticado pela PM que responde ao comando dele.

     “Resistência seguida de morte”: assim agentes das Polícias Militares, integrantes do Exército e diversos matadores free-lancer justificavam as execuções de supostos inimigos públicos que militavam pela volta da democracia durante a ditadura civil militar, a qual oprimiu a sociedade e tornou o país mais violento, menos civilizado e muito mais injusto entre 1964 e 1985.

     Suprimida a liberdade de imprensa, criminalizadas quaisquer manifestações públicas de protesto, o Estado militarizado teve carta branca para prender sem justificativa, torturar e matar cerca de 400 estudantes, trabalhadores e militantes políticos (dos quais 141 permanecem até hoje desaparecidos e outros 44 nunca tiveram seus corpos devolvidos às famílias -tema atual de investigação pela Comissão Nacional da Verdade).

     Esse número, por si só alarmante, não inclui os massacres de milhares de camponeses e índios, em regiões isoladas e cuja conta ainda não conseguimos fechar. Mais cínicas do que as cenas armadas para aparentar trocas de tiros entre policiais e militantes cujos corpos eram entregues às famílias totalmente desfigurados, foram os laudos que atestavam os inúmeros falsos “suicídios”.

     HERZOG A impunidade dos matadores era tão garantida que eles não se preocupavam em justificar as marcas de tiros pelas costas, as pancadas na cabeça e os hematomas em várias partes do corpo de prisioneiros “suicidados” sob sua guarda. Assim como não hesitaram em atestar o suicídio por enforcamento com “suspensão incompleta”, na expressão do legista Harry Shibata, em depoimento à Comissão da Verdade, do jornalista Vladimir Herzog numa cela do DOI-Codi, em São Paulo.

     Quando o Estado, que deveria proteger a sociedade a partir de suas atribuições constitucionais, investe-se do direito de mentir para encobrir seus próprios crimes, ninguém mais está seguro. Engana-se a parcela das pessoas de bem que imaginam que a suposta “mão de ferro” do governador de São Paulo seja o melhor recurso para proteger a população trabalhadora.

     Quando o Estado mente, a população já não sabe mais a quem recorrer. A falta de transparência das instituições democráticas -qualificação que deveria valer para todas as polícias, mesmo que no Brasil ainda permaneçam como polícias militares- compromete a segurança de todos os cidadãos.

     Vejamos o caso da última chacina cometida pela PM paulista, cujos responsáveis o governador de São Paulo se apressou em defender. Não é preciso comentar a bestialidade da prática, já corriqueira no Brasil, de invariavelmente só atirar para matar -frequentemente com mais de um tiro.

     Além disso, a justificativa apresentada pelo governador tem pelo menos uma óbvia exceção. Um dos mortos foi o suposto estuprador de uma menor de idade, que acabava de ser julgado pelo “tribunal do crime” do PCC na chácara de Várzea Paulista. Ora, não faz sentido imaginar que os bandidos tivessem se esquecido de desarmar o réu Maciel Santana da Silva, que foi assassinado junto com os outros supostos resistentes.

     Aliás, o “tribunal do crime” acabara de inocentar o acusado: o senso de justiça da bandidagem nesse caso está acima do da PM e do próprio governo do Estado. Maciel Santana morreu desarmado. E apesar da ausência total de marcas de tiros nos carros da PM, assim como de mortos e feridos do outro lado, o governador não se vexa de utilizar a mesma retórica covarde dos matadores da ditadura -“resistência seguida de morte”, em versão atualizada: “Quem não reagiu está vivo”.

     CAMORRA Ora, do ponto de vista do cidadão desprotegido, qual a diferença entre a lógica do tráfico, do PCC e da política de Segurança Pública do governo do Estado de São Paulo? Sabemos que, depois da onda de assassinatos de policiais a mando do PCC, em maio de 2006, 1.684 jovens foram executados na rua pela polícia, entre chacinas não justificadas e casos de “resistência seguida de morte”, numa ação de vendeta que não faria vergonha à Camorra. Muitos corpos não foram até hoje entregues às famílias e jazem insepultos por aí, tal como aconteceu com jovens militantes de direitos humanos assassinados e desaparecidos no período militar.

     Resistência seguida de morte, não: tortura seguida de ocultação do cadáver. O grupo das Mães de Maio, que há seis anos luta para saber o paradeiro de seus filhos, não tem com quem contar para se proteger das ameaças da própria polícia que deveria ajudá-las a investigar supostos abusos cometidos por uma suposta minoria de maus policiais. No total, a polícia matou 495 pessoas em 2006.

     Desde janeiro deste ano, escreveu Rogério Gentile na Folha de 13/9, a PM da capital matou 170 pessoas, número 33% maior do que os assassinatos da mesma ordem em 2011. O crime organizado, por sua vez, executou 68 policiais. Quem está seguro nessa guerra onde as duas partes agem fora da lei?

     ASSASSINATOS A pesquisadora norte-americana Kathry Sikkink revelou que o Brasil foi o único país da América Latina em que o número de assassinatos cometidos pelas polícias militares aumentou, em vez de diminuir, depois do fim da ditadura civil-militar.

     Mudou o perfil socioeconômico dos mortos, torturados e desaparecidos; diminuiu o poder das famílias em mobilizar autoridades para conseguir justiça. Mas a mortandade continua, e a sociedade brasileira descrê da democracia.

     Hoje os supostos maus policiais talvez sejam minoria, e não seria difícil apurar suas responsabilidades se houvesse vontade política do governo. No caso do terrorismo de Estado praticado no período investigado pela Comissão da Verdade, mais importante do que revelar os já conhecidos nomes de agentes policiais que se entregaram à barbárie de torturar e assassinar prisioneiros indefesos, é fundamental que se consiga nomear toda a cadeia de mando acima deles.

     Se a tortura aos oponentes da ditadura foi acobertada, quando não consentida ou ordenada por autoridades do governo, o que pensar das chacinas cometidas em plena democracia, quando governadores empenham sua autoridade para justificar assassinatos cometidos pela polícia sob seu comando?

     Como confiar na seriedade da atual investigação, conduzida depois do veredicto do governador Alckmin, desde logo favorável à ação da polícia? Qual é a lisura que se pode esperar das investigações de graves violações de Direitos Humanos cometidas hoje por agentes do Estado, quando a eliminação sumária de supostos criminosos pelas PMs segue os mesmos procedimentos e goza da mesma impunidade das chacinas cometidas por quadrilhas de traficantes?

     Não há grande diferença entre a crueldade praticada pelo tráfico contra seis meninos inocentes, no último domingo, no Rio, e a execução de nove homens na quarta, em São Paulo. O inquietante paralelismo entre as ações da polícia e dos bandidos põe a nu o desamparo de toda a população civil diante da violência que tanto pode vir dos bandidos quanto da polícia.

     “Chame o ladrão”, cantava o samba que Chico Buarque compôs sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Hoje “os homens” não invadem mais as casas de cantores, professores e advogados, mas continuam a arrastar moradores “suspeitos” das favelas e das periferias para fora dos barracos ou a executar garotos reunidos para fumar um baseado nas esquinas das periferias das grandes cidades.

     PELA CULATRA Do ponto de vista da segurança pública, este tiro sai pela culatra. “Combater a violência com mais violência é como tentar emagrecer comendo açúcar”, teria dito o grande psicanalista Hélio Pellegrino, morto em 1987.

     E o que é mais grave: hoje, como antes, o Estado deixa de apurar tais crimes e, para evitar aborrecimentos, mente para a população. O que parece ser decidido em nome da segurança de todos produz o efeito contrário. O Estado, ao mentir, coloca-se acima do direito republicano à informação -portanto, contra os interesses da sociedade que pretende governar.

     O Estado, ao mentir, perde legitimidade -quem acredita nas “rigorosas apurações” do governador de São Paulo? Quem já viu algum resultado confiável de uma delas? Pensem no abuso da violência policial durante a ação de despejo dos moradores do Pinheirinho… O Estado mente -e desampara os cidadãos, tornando a vida social mais insegura ao desmoralizar a lei. A quem recorrer, então?

     A lei é simbólica e deve valer para todos, mas o papel das autoridades deveria ser o de sustentar, com sua transparência, a validade da lei. O Estado que pratica vendetas como uma Camorra destrói as condições de sua própria autoridade, que em consequência disso passará a depender de mais e mais violência para se sustentar.

      

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(3) noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/09/18/fhc-elogia-proposta-uruguaia-de-legalizacao-da-maconha-e-diz-que-tinha-receio-de-defender-descriminalizacao.htm

      

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(*) redebomdia.com.br/noticia/detalhe/32765/Acao+da+Rota+acaba+em+tiroteio+e+9+mortos

     12/09/2012

     Ação da Rota acaba em tiroteio e 9 mortos

     Polícia recebe denúncia anônima sobre julgamento de estuprador e invade chácara na região de Jundiaí

     Aline Pagnan e Michele Stella /Agência BOM DIA     

     Nove homens foram mortos durante operação da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), nesta terça-feira à tarde, em uma chácara na Rua Cambará, no Sítio São José, em Várzea Paulista, a 52 quilômetros de São Paulo. Outros oito homens foram presos pela tropa de elite da Polícia Militar no local.

     O serviço de inteligência da PM recebeu uma denúncia anônima de que no local haveria o julgamento de um estuprador por integrantes da facção criminosa PCC. 

     Dois pelotões da Rota, com 45 policiais em dez viaturas, chegaram à cidade por volta de 16h30. Quando notaram a presença da polícia, alguns bandidos tentaram fugir em dois carros. Dois deles foram mortos a menos de 200 metros da porta da chácara e um outro comparsa acabou preso. Segundo a PM, eles teriam disparado contra os oficiais e não obedeceram a ordem de parada.

     Já outros quatro homens, em um outro carro, conseguiram fugir do cerco e foram perseguidos. A pouco mais de 1,5 quilômetro da chácara acabaram batendo o veículo em uma árvore e, ainda segundo a versão dos policiais, desceram atirando contra os oficiais da Rota. Dois foram mortos na hora e outros dois presos.

     Enquanto isso, na chácara, quem ficou também atirou contra a Rota, novamente segundo o relato dos policiais. Cinco foram detidos e cinco morreram.

     “As informações que nos chegaram mostram que, entre os mortos, estava o estuprador. Tudo indica que os criminosos o executaram”, disse, nesta terça à noite ao DIÁRIO, o coronel Roberval Ferreira França, comandante da PM.

     Os nove homens baleados foram levados para o Hospital da Cidade, em Várzea. Dos mortos, seis foram identificados. Todos possuem passagens pela polícia, segundo informou, em nota, a Secretaria Estadual da Segurança Pública. Os nomes e as idades de cada um não foram divulgados pelo comando da corporação até o fechamento desta edição.

     Explosivo  Uma viatura do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) esteve na chácara nesta terça onde ocorreu a troca de tiros para retirar granadas e dinamites encontradas no imóvel de alto padrão. Por volta das 20h30, os presos foram retirados do local nos camburões da PM e, só então, a Perícia Técnica chegou ao local. Os delegados Marcel Fehr, da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Jundiaí, e seu assistente, Elias Ribeiro Evangelista Júnior, estiveram no local para iniciar as investigações, mas não quiseram dar detalhes aos jornalistas, que ficaram do lado de fora do imóvel.

     Ao todo, foram apreendidos duas espingardas calibre 12, uma metralhadora, sete pistolas, quatro revólveres, cinco veículos, todos roubados, e 20 quilos de maconha que estavam dentro de uma geladeira. Segundo a polícia, a chácara pertence a um candidato a vereador.

     Moradores de bairro pacato têm tarde de terror em meio a balas

     O barulho de tiros durante pelo menos 40 minutos interrompeu o marasmo da Rua Cambará, no Sítio São José, em Várzea Paulista, na tarde desta terça. Segundo a aposentada Orides Campos Santos, de 75 anos, os disparos começaram por volta das 17h. “Eu estava no quintal. A primeira reação foi colocar os netos para dentro de casa e fechar as portas e janelas”, contou.

     Formado principalmente, por chácaras e casas de alto padrão, o Sítio São José é um bairro relativamente novo. A Rua Cambará, uma via sem saída, é dividida entre empresas, pequenas chácaras e muitas casas em construção.

     Sandra Gadioli, de 42 anos, estava sozinha com o filho de 3 anos no momento do confronto entre policiais e bandidos. “Liguei para meus irmãos que moram perto e eles vieram me buscar. Hoje vou dormir fora por segurança”, disse. 

     Para a dona de casa Marli Souza, de 32, a ação da Rota “foi coisa de televisão”. “É assustador ver tantas viaturas assim.”

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     Entrevista

     Roberval França -_comandante da PM

     Vítima de estupro acompanhou julgamento

      

     DIÁRIO_ Que informação a PM recebeu de início?

     ROBERVAL FRANÇA_ No meio da tarde recebemos um denúncia de que haveria um tribunal do crime em Várzea Paulista. Seria uma quadrilha numerosa e julgariam um estuprador. Várias equipes da Rota foram para o local e tentavam localizar a chácara. A missão era preservar vidas e por isso era preciso agir rápido.

     E a Polícia Militar confirmou que realmente haveria o tribunal do crime?

     O tribunal do crime foi confirmado. Inclusive fomos surpreendidos com a informação de que a vítima do estupro, uma garota de 12 anos, sua mãe e o irmão dela, também criança, estavam presentes na chácara. Eles confirmaram que assistiram ao julgamento.

     E qual foi a definição dos bandidos?

     Decidiram que o estuprador deveria morrer. Até mandaram que a mãe e as duas crianças saíssem da chácara.

     O estuprador morreu. Ele entrou em confronto com a polícia também ou foi assassinado pelos integrantes do tribunal do crime?

     Tudo indica que ele foi morto pelos criminosos.

     A ação da Rota foi legítima?

     A existência do tribunal do crime, com a presença da própria vítima do estupro, o arsenal e drogas encontrados e o fato de que em três situações houve presos ilesos indicam que sim.

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     “Países que, como o Brasil, viveram episódios trágicos de tribunais de exceção, abraçam, corretamente, a ideia de que, na dúvida, o juiz deve acolher sempre a interpretação mais benéfica aos réus. Condenar um inocente é a falência dos sistemas jurídicos democráticos. (…) Daí a necessidade de refletir com cuidado sobre a ideia de prova. (…) Por isso, a tarefa dos ministros é delicadíssima, sobretudo no momento em que aparecem como réus figuras que detinham enorme autoridade. Eles precisam balancear o respeito ao devido processo legal e a obrigação de não permitir que ilícitos deixem de ser punidos.”

      

     Que me desculpe o “analista” de cujo texto, publicado ontem, com destaque, no pé da página A4 de O Estado de S.Paulo, destaquei por minha conta o que foi transcrito acima (a íntegra vai abaixo). Ao que me conste, no nosso bom Direito, nenhum Juiz tem ou alguma vez teve qualquer “obrigação de não permitir que ilícitos deixem de ser punidos”. Muito menos “balancear o respeito ao devido processo legal” alguma vez pôde ou poderá ser entendido como necessário ou conveniente ao bom ofício de um bom Juiz. Pelo contrário.

 

     Não posso imaginar, pois, que uma Ministra do STF tenha comentado que “nos chamados delitos de poder, quanto maior o poder ostentado pelo criminoso, maior a facilidade de esconder o ilícito” – o que nada mais é que uma obviedade – na mais remota intenção de extrapolar sua função e/ou de fazer que outros atuem segundo o que ela mesma, a Ministra, que tem poder, pudesse eventualmente desejar ou não desejar.

 

     Juízes têm, sim, a obrigação de bem julgar, com consciência, o que lhes é apresentado nos autos. E têm a obrigação de ater-se à Lei e ao processo legal, portanto, a obrigação de muito bem conhecê-los. Nada mais. O que já é um bocado consideravelmente árduo. A menos, é claro, que queiramos conceder aos Juízes (ou a alguns deles) a prerrogativa de que se comportem como “justiceiros”, e que nos cause um especial prazer vê-los empenhados em punir grupos ou indivíduos com os quais possamos particularmente antipatizar e em recompensar os que nos pareçam suficientemente simpáticos. Naquilo que seria… um “tribunal de exceção”, por certo!

 

     Aliás, a que “tribunais de exceção” o “analista” se refere? Quantos e quais “tribunais de exceção“ correspondendo a quantos e quais “episódios trágicos” houve em nosso País nos últimos, digamos, 100 anos, para não chegarmos muito mais longe?

 

     Que eu saiba, poderíamos, no máximo, apontar um, mas apenas um único – e olhem lá!: o Tribunal de Segurança Nacional (TSN), criado após a Intentona de 1935 e em plena vigência da Constituição de 1934 pela lei nº 244 de 11 de setembro de 1936 no primeiro Governo Vargas. Esse Tribunal, que tinha a função de julgar crimes políticos e contra a economia popular, foi extinto em 1945. Nenhum outro “tribunal de exceção” houve em nossa história recente – exceto, é claro, se quisermos considerar os “tribunais revolucionários” marginais ao Estado, formados na guerrilha, que resolveram executar alguns tantos em “processos sumários”. Ou estaríamos aqui confundindo a atribuição política conferida à “Comissão da Verdade” – esta, sim, “de exceção” – com a atribuição dos Tribunais de Justiça?

 

     A encabeçar a “análise” (e o juízo), foi chamado o personagem Odorico Paraguaçu, que, representando um “político sem ética”, teria sido Prefeito de Sucupira, cidadezinha do interior nordestino na ficção levada ao público pela televisão brasileira em capítulos de estrondoso sucesso. Muito bem: mostrou-se Odorico muito bem mostrado na novela. Vai daí quê?

 

     Vai daí que acreditar que a força da Lei e a do processo legal possam ser instrumento eficaz para a limitação do poder de mando dos “Odoricos” da realidade atual em nenhuma hipótese significará o mesmo que insinuar que um debate entre os brasileiros sobre “a conexão entre ilícito e autoria” seja um instrumento hábil para avaliar a forma como os Ministros do Supremo devam ou não devam considerar quaisquer provas ou a ausência delas em quaisquer processos.

 

     Vai daí, também, que fica, dependurada no ar, a pergunta que é muito grave: a quem e a que pretende aproveitar uma “análise” como essa e outras tantas semelhantes já publicadas em espaços nobres, destinados à Política Nacional? Qual terá sido exatamente a sua intenção? Em um ambiente policialesco como o que hoje nos envolve – ambiente esse, é bom que se diga, não exatamente criado pela Justiça brasileira – como será ela compreendida pelo público leigo leitor?

 

     O perigo do democratismo manco é que ele é irmão gêmeo do autoritarismo gago. Ambos sempre se nos apresentam sorrindo e de mãos dadas – o que nem sempre permite que distingamos um do outro. Mas nem a percepção de um nem a percepção do outro exigirá que provas de sua realidade sejam consideradas. Ou, melhor dizendo, a evidência dos resultados da confusão que se faz na consciência dos brasileiros é tamanha que dispensa, em absoluto, pelo número de vítimas e pelo grau dos danos, a consideração de provas, qualquer que seja a natureza delas.

 

     Alguém na grande Imprensa já se lembrou de sugerir um debate a respeito desse processo que dia após dia apenas mais se agrava? Tenho cá comigo que esse debate seria bem mais correto, bem mais produtivo e bem mais saudável ao nosso País que uma discussão sobre o enredo e os personagens de qualquer novela, antiga ou nova.

      

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http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,odorico-e-a-natureza-das-provas-,932062,0.htm

     Odorico e a natureza das provas

     18 de setembro de 2012 – O Estado de S.Paulo

     Análise: José Garcez Ghirardi

     Odorico fazia e desfazia em Sucupira. Mandava empastelar o jornal oposicionista, não pagava o salário de Chico Moleza e, com dinheiro público, contratava como delegado um notório assassino, tudo na esperança de inaugurar o cemitério, legado que sintetizava sua ideia de progresso. Quando os desmandos passavam do ponto, não era ele quem sofria as consequências, mas seu assessor e notório pau-mandado, Dirceu Borboleta.

     Dias Gomes nos ajuda a entender uma questão jurídica de enorme importância para os regimes democráticos: a natureza das provas nas ações penais. Boa parte das divergências sobre a Ação Penal 470 centra nesse ponto. Países que, como o Brasil, viveram episódios trágicos de tribunais de exceção, abraçam, corretamente, a ideia de que, na dúvida, o juiz deve acolher sempre a interpretação mais benéfica aos réus. Condenar um inocente é a falência dos sistemas jurídicos democráticos.

     Isto não significa, contudo, que todos os delitos produzam provas de igual natureza, nem que haja um modo único de se estabelecer a conexão entre ilícito e autoria. A ministra Rosa Weber, por exemplo, já observou que “nos chamados delitos de poder, quanto maior o poder ostentado pelo criminoso, maior a facilidade de esconder o ilícito”. O poder é, justamente, a capacidade de fazer com que outros atuem segundo se deseja. Assim, ilícitos praticados por meio da influência sobre terceiros tendem a deixar vestígios materiais em relação a quem age, mas não a quem manda. Daí a necessidade de refletir com cuidado sobre a ideia de prova. Deixar triunfar os que burlam as leis é também um fracasso da justiça e solapa a crença nas instituições, pois invalida o princípio de que ninguém está acima da lei.

     Por isso, a tarefa dos ministros é delicadíssima, sobretudo no momento em que aparecem como réus figuras que detinham enorme autoridade. Eles precisam balancear o respeito ao devido processo legal e a obrigação de não permitir que ilícitos deixem de ser punidos. “Juiz patifento. Sempre desconfiei desse juiz”, diz Odorico ao ver seu poder de mando ser limitado pela força da lei.

     A clareza dos ministros sobre como entendem as provas nesse estágio do processo é essencial para que os brasileiros possam debater o julgamento e acolher as decisões com mais serenidade que Odorico.   

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     Um exemplo de como se exerce, de fato, a Soberania. No dia a dia. Sem carrancas, sem trejeitos, sem fanfarras, sem demagogia. A sério.

 

     Que é também um exemplo de como podem ganhar importância na formação e na consolidação da consciência do Estado nacional as sentenças que são proferidas em Tribunais brasileiros – se e quando são proferidas por Juízes que tenham, de fato, consciência do compromisso exigido por sua função.

 

     Esse exercício de Soberania, por sua vez, ganha importância na formação e na consolidação da consciência do que (e, por decorrência, de quem) pode ou deve ser considerado como sendo, de fato, um Inimigo de todos Nós. Porque um exemplo é.

 

     E nada mais eficaz ou mais didático que um exemplo.

 

     Que ninguém nos venha falar em “Defesa Nacional” – muito menos em “orgulho de ser brasileiro” – sem considerar o que deve ser, de fato, considerado em todos e quaisquer pensamentos, palavras e obras.

      

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     “… a punição do Brasil na Corte Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH) não revoga, não anula, não caça a decisão do Supremo em sentido contrário.

     … o Direito interno, pautado pela Constituição Federal, deve se sobrepor ao Direito internacional. Nosso compromisso é observar a convenção, mas sem menosprezo à Carta da República, que é a Constituição Federal.

     … a Corte Interamericana extrapolou os termos do acordo. Se, de fato, é verdade que o Brasil voluntariamente se vinculou às decisões da referida Corte, não é menos verdade que o fez para fatos ocorridos após 1998, conforme dispõe o artigo 1º do Decreto nº 4.463/2002:

     É reconhecida como obrigatória, de pleno direito e por prazo indeterminado, a competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos em todos os casos relativos à interpretação ou aplicação da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José), de 22 de novembro de 1969, de acordo com art. 62 da citada Convenção, sob reserva de reciprocidade e para fatos posteriores a 10 de dezembro de 1998.”  

        

    Isto a Imprensa e a TV não publicam.

   

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     DJF – 3ª Região

     Disponibilização: quinta-feira, 13 de setembro de 2012.

     Arquivo: 87 Publicação: 10    

     SEÇÃO JUDICIÁRIA DO ESTADO DE SÃO PAULO PUBLICAÇÕES JUDICIAIS  I – CAPITAL SP SUBSEÇÃO JUDICIÁRIA DE SAO PAULO 10ª VARA CRIMINAL

     REPRESENTACAO CRIMINAL 0004204-32.2012.403.6181 – JUSTICA PUBLICA X CARLOS ALBERTO BRILHANTE USTRA X DIRCEU GRAVINA (SP015193 – PAULO ALVES ESTEVES E SP012316 – SERGIO LUIZ VILELLA DE TOLEDO E SP069747 – SALO KIBRIT E SP123639 – RITA DE CASSIA K F DE A RIBEIRO E SP142420 – PATRICIA CRUZ GARCIA NUNES)

      

     Em que pese o teor das razões do recurso em sentido estrito apresentadas pelo Ministério Público Federal (fls. 727/745), mantenho a sentença rejeitando a denúncia por seus próprios fundamentos, acrescidos, ainda, dos argumentos de convicção que ora passo a expor.

     O pressuposto lógico para o recebimento de denúncia por crime de seqüestro é que a vítima esteja viva. Há, todavia, lei que a declarou morta.

     Embora lei em sentido formal tal dispositivo possui efeitos concretos e substituiu a necessidade de sentença judicial com o mesmo teor.

     Destarte, não há que se falar em negativa de vigência do artigo 7º do Código Civil. Não é o Ministério Público Federal que diz para quais efeitos a lei irá se prestar, mas o legislador, e ele foi claro ao determinar que a vítima foi reconhecida como morta para todos os efeitos legais, sejam eles civis ou penais. Não há que se falar, portanto, também, em negativa de vigência do artigo 158 do Código de Processo Penal.

     Ora, se para todos os efeitos legais a vítima é considerada morta, eventual denúncia por seqüestro deveria vir acompanhada de indícios mínimos de comprovação da tese, o que não foi feito. Em outras palavras, caberia ao Ministério Público Federal, uma vez que a Lei atestou que a vítima está morta, provar o contrário.

     O Ministério Público Federal parece só admitir, para a comprovação da morte, sentença judicial nos termos do disposto no Código Civil.

     Ocorre que tal sentença não existe e nunca existirá por falta de interesse dos legitimados.

     De fato, o Ministério Público Federal deixou patente que (fls. 734) não tem interesse em tal sentença, assim como também os familiares, pois a Lei nº 9.140, de 4 de dezembro de 1995 lhes supre esta ausência.

     Não há, assim, a mais remota possibilidade de obtenção desta sentença.

     Segue que o Ministério Público Federal, que teria legitimidade para propor ação cível para declaração de morte da vítima, instrumento que entende imprescindível para tal finalidade, não o faz. Ao mesmo tempo, por não existir tal sentença, ofereceu denúncia pelo delito de seqüestro, pois não há provas de que a vítima está morta.

     É paradoxal. O Ministério Público Federal afirma que não existe meio mais idôneo para se esgotar as buscas e averiguações, como exige o Código Civil, que a ação penal pública (fls. 734). Afirma, ainda, que enquanto não houver certeza da morte, mediante identificação dos restos mortais ou por outro meio suficientemente capaz de determinar com precisão as circunstâncias destes eventos, descabe presumir que a vítima está morta.A ação penal pública, entretanto, não tem por objetivo realizar tais buscas e averiguações como sugere o Ministério Público Federal. Para isto existe o inquérito.

     A ação deve ser proposta apenas quando ultrapassada esta fase, e não como meio para a colheita de provas que já deveriam ter sido produzidas. E mais, a ação que declara a morte presumida é a cível e não a penal. Ingenuidade seria acreditar ser a ação penal instrumento hábil para desvendar fatos ocorridos há mais de quarenta anos que, não obstante todos os esforços até hoje empreendidos, não foram esclarecidos.

     Observe-se, ademais, que os réus podem, se assim o desejarem, permanecer em silêncio ao passo que as testemunhas arroladas evidentemente nada sabem sobre o paradeiro da vítima, pois do contrário já o teriam dito.

     Assim, é evidente que esta ação penal nada esclarecerá acerca do paradeiro da vítima.

     Tais observações foram feitas apenas ad argumentandum, pois, repise-se, há lei declarando que a vítima está morta!

     Diz o Ministério Público Federal que não se pode abortar a persecução penal lançando-se mão desta odiosa presunção de morte. Na verdade odioso é, não obstante todas as evidências dizerem que a vítima está morta, não obstante haver lei com tal teor, fechar os olhos para a realidade e com fundamento em uma tese que não se sustenta, tentar reabrir, via transversa, assunto já decidido pelo Supremo Tribunal Federal.

     Odioso é achar que os fins justificam os meios e tentar por meio de subterfúgios, sem enfrentar a questão de maneira direta, desconsiderar decisão proferida pela Corte Constitucional em processo concentrado de controle de constitucionalidade.

     Continua o Ministério Público Federal argumentado que querer que se prove que o desaparecido ALUIZIO está vivo como condição para processar os seus seqüestradores e algozes é mais uma afirmação de ingenuidade cruel do MM. Juiz para com as vítimas e familiares de mortos e desaparecidos políticos.

     Não se trata de uma cruzada do bem contra o mal.

     Este juízo abomina, tanto ou mais do que os membros do Ministério Público Federal, os agentes do regime de exceção que tantos sofrimentos impuseram às suas vítimas. Não é isto que está em discussão.

     O argumento do Parquet não convence e não se aplica ao caso. A questão que se coloca é se há ou não fundamentos para o recebimento de denúncia que afirma que a vítima, desaparecida há mais de 40 anos, permanece em poder dos denunciados e supostos seqüestradores. Apenas isto.

     Este juízo não afirmou, ao contrário do que foi alegado pelo Ministério Público Federal, que a vítima morreu em 1995, apenas considerou esta uma das hipóteses, a menos provável, após a edição da Lei nº 9.140/95. Repise-se, quem afirmou a morte da vítima não foi este juízo, mas a Lei. Ademais, os crimes imprescritíveis a que se refere o inciso XLIV do artigo 5º da Constituição, são os cometidos contra a ordem constitucional e não os para sua manutenção. Não é o juiz obrigado, ao rejeitar a denúncia por determinado crime, recebê-la por outro, quando este não está descrito nos autos e, ainda, é totalmente incompatível com o delito originariamente denunciado.

     O crime de ocultação de cadáver pressupõe a morte do indivíduo, ao passo que o de seqüestro supõe que ele esteja vivo. Não haveria, assim, a possibilidade de recebimento da denúncia pelo crime de ocultação de cadáver por falta de descrição da conduta e por ser tal crime incompatível com o de seqüestro.

     O Ministério Público Federal afirma que não está questionando a constitucionalidade da Lei nº 6.683/79 (fls. 740). Ocorre que, na página seguinte, afirma que a persecução penal é obrigatória tendo em vista a inoponibilidade da prescrição e da anistia por força da decisão da Corte Interamericana no caso Gomes Lund. Afirma que a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos é posterior à decisão do Supremo na ADPF nº 153, e que este juízo, ao desprezar a força normativa e impositiva da decisão da Corte Interamericana de Direitos, deixou de respeitar os seus efeitos no sistema jurídico brasileiro. Não se trata aqui, aduz o Ministério Público Federal, de uma escolha possível. O juiz errou gravemente ao recusar-se a cumprir a decisão de um Tribunal Internacional ao qual soberanamente o Brasil se vinculou. Não foi um mero erro de fato, mas verdadeiro error in judicando.

     Com a devida vênia, a posição do Parquet não encontra respaldo na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. Error in judicando haveria se não houvesse respeito à decisão do Supremo Tribunal Federal. Nesse sentido manifestou-se o Ministro Cezar Peluso , dias após o julgamento da CIDH: a punição do Brasil na Corte Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH) não revoga, não anula, não caça a decisão do Supremo em sentido contrário. O ministro negou a possibilidade de rever a decisão do Supremo e afirmou que o que pode ocorrer é o país ficar sujeito a sanções previstas na convenção ratificada pelo Brasil para integrar a Organização dos Estados Americanos (OEA). Peluso ainda afirmou que caso alguém entre com um processo contra eventuais responsáveis, a pessoa que se sentir prejudicada vai entrar com Habeas corpus e o Supremo vai conceder na hora. No mesmo sentido o entendimento do Ministro Marco Aurélio: o Direito interno, pautado pela Constituição Federal, deve se sobrepor ao Direito internacional. Nosso compromisso é observar a convenção, mas sem menosprezo à Carta da República, que é a Constituição Federal. Ele ainda afirmou que a decisão da CIDH tem eficácia apenas política e que não tem concretude como título judicial. Na prática, o efeito será nenhum, é apenas uma sinalização.

     Além da jurisprudência do Supremo, firme no entendimento de que é sua a última palavra em matéria constitucional, observo que a Corte Interamericana extrapolou os termos do acordo. Se, de fato, é verdade que o Brasil voluntariamente se vinculou às decisões da referida Corte, não é menos verdade que o fez para fatos ocorridos após 1998, conforme dispõe o artigo 1º do Decreto nº 4.463/2002: Art. 1º – É reconhecida como obrigatória, de pleno direito e por prazo indeterminado, a competência da Corte Interamericana de Direitos Humanos em todos os casos relativos à interpretação ou aplicação da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José), de 22 de novembro de 1969, de acordo com art. 62 da citada Convenção, sob reserva de reciprocidade e para fatos posteriores a 10 de dezembro de 1998.

     Como restou claro, os fundamentos pelos quais a denúncia foi rejeitada foram exclusivamente jurídicos. Os argumentos políticos, utilizados ao final, o foram tão-somente para demonstrar que a tese do Ministério Público Federal não encontra respaldo quer no campo jurídico quer no político.

     Pelas razões acima manifestadas mantenho a decisão proferida às fls. 707/724.Nos termos do artigo 583, II, do Código de Processo Penal, remetam-se os autos ao Egrégio Tribunal Regional Federal da Terceira Região, para processar e julgar referido recurso, observadas as cautelas de praxe.

     Dê-se ciência às partes.

     Cumpra-se.      

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

     Hoje, dia 7 de Setembro de 2012, o Brasil completou 190 de independência declarada.

 

     Não só gente comum como alguns… “anjos”… foram às ruas para conferir, aplaudir ou criticar o desfile de praxe com que nossas Armas e nossas Escolas o celebravam.                                                         

      ANJOS EM DESFILE (*)

      

     Quanto à sua independência exercitada, isso é outra história, é outra conta, são outros quinhentos mil réis.

      

     Por aqui, tal como em qualquer lugar do mundo, tal como sempre houve, nos dias atuais há aplausos e aplausos. Há também críticas e críticas. E há objetivos e objetivos. Muitas vezes, não há como criticar, no micro, um opoente nosso no campo político-ideológico apenas porque ele se vem mostrando ser um adversário de nossos macro-objetivos. Caso o que proponha seja adequado aos fins que julgamos necessários, bons e sadios ao País e à Sociedade, devemos celebrar a iniciativa, não mais. Seu esforço se somará aos nossos esforços. Da mesma forma, quando um considerado aliado age mal há que criticar e não referendar o que ele diga ou faça.

 

     Há, ainda, métodos e métodos, cada qual podendo ser avaliado e qualificado conforme sua adequação, ou não adequação, aos objetivos propostos. Assim é na Política, assim é na Economia, assim é na Educação, assim é no dia-a-dia.

 

     Em artigo publicado nesta Semana da Pátria, cujo título é uma pergunta – “A educação básica cabe ao município?” (1) -, Renato Janine Ribeiro levantava à discussão “o nível de educação mais relevante”, que seria o básico. Já em seu primeiro parágrafo, o filósofo da nova ordem atesta, com a autoridade que lhe é conferida por atribuídos méritos, que o ex-Senador Cristovam Buarque, para quem a Educação deveria ser federalizada, é uma “verdadeira usina de idéias”. Não o contesto. Se uma usina de idéias esse senhor é, que lhe seja reconhecido o atributo. Apenas pondero que há idéias e idéias, as boas e as más. O importante na produção de idéias não é a quantidade – serão a qualidade, a consistência, a coerência.  

 

     Tanto Janine Ribeiro quanto Cristovam Buarque têm títulos em número e grau bem maior que os que a maioria dos mortais poderá exibir; mas podem ser também ser avaliados por sua produção literária dita “científica”, assim como por suas atitudes – o último, também por sua passagem pelo Ministério da Educação que não primou exatamente pela qualidade dos resultados. Basta-nos querer vê-los.

 

     Outro comentário que Janine Ribeiro nos traz, e deve ter sido dirigido especialmente aos acadêmicos, é o de que a Escola básica não é assunto “dos mais populares” e, nas campanhas eleitorais, perde para a Saúde. O que não é de espantar em nosso País, levando-se em conta seu estado de dolência crônica, por vezes crítica, e outros sintomas mais específicos e evidentes. Já dizer que “A educação faz parte dos assuntos, como a ética, que não lotam a avenida Paulista” nos parece bastante equivocado. Embora os eleitos nunca as tenham respeitado, tanto “Educação” quanto “Ética” (esta, especialmente na era D.S – depois de Sarney) são as promessas que mais enchem tanto a boca dos candidatos quanto os ouvidos – e, por conta de um “filosófico” discurso de botequim, também se põem na ponta da língua – dos eleitores que, por sua vez, costumam encher muitas e muitas Avenidas Paulistas juntas em época de campanha eleitoral. Em que nos encontramos, aliás.

 

     Um considerável interesse pela Ética se comprova também ao verificarmos que ela pôde ser levada, por exemplo, ao debate “A Ascensão Conservadora”, realizado em 28 de agosto na USP (2) – quando Marilena Chauí, também uma filósofa da nova ordem, explicou à sua platéia, entre muitos gestos e caretas, que a palavra corresponderia ao “exercício da consciência, da liberdade e da responsabilidade” e foi bastante aplaudida.

 

     Trocando em miúdos e com a ajuda de palavras meio distantes das mais adequadas às salas de aula e aos palanques políticos: os mais antigos filósofos gregos já se debruçavam sobre a conduta dos indivíduos e aquilo que lhes permitiria escolher entre o bem e o mal de maneira que cada um pudesse atender a seus interesses sem causar prejuízo ao conjunto dos demais: à Polis, ao Estado. O que foi chamado de “Ética”. “Ética” é palavra que vem de “ethos”, que eu aqui, viciada que sou em reflexões mundanas, tão leiga em boa Filosofia quanto muitos podem ser absolutamente leigos em boa Sociologia, diria corresponder a “modos de ser” (“ser”, aqui, entendido o mais objetivamente possível – como conjunto de traços que caracteriza um indivíduo ou um grupo). O “ethos” seria, em boa parte, conformado pela “Paideia” – que, nas palavras de Platão, seria “a essência de toda a verdadeira educação”, e permitiria que o indivíduo desejasse “se tornar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento“.

 

     Hoje, a Sociedade, não o Estado, é a unidade coletiva que mais merece a atenção dos estudiosos, embora o termo venha sendo muito mal-e-mal definido. Os conhecimentos e as reflexões sobre os “modos de ser”, denominados “Ética”, serão também, então, conhecimentos a respeito das regras criadas e aplicadas pela e na Sociedade no sentido de orientar os indivíduos – aquilo que vulgarmente chamamos de “Moral”, entendida esta como “modos de agir” – e incluirá necessariamente uma reflexão sobre as razões dessa “Moral”. Isso, em teoria, para que ela, a Sociedade, bem sobreviva e, assim, os indivíduos que a compõem também sobrevivam bem. Por certo “Moral” não será qualquer prática e qualquer convenção que possam ser condenadas pela Sociedade, mas será, sim, os costumes e as convenções considerados úteis e necessários pela Sociedade.

 

     Apesar de que bem possamos perceber que a palavra “Moral” desapareceu dos discursos dos arautos da nova era – talvez porque, segundo alguns, a moralidade é um reducionismo pequeno-burguês –, isso tudo apenas nos diz que, em não se considerando os “modos de agir” (Moral), não haverá qualquer Ética (“modos de ser”) que possa ser observada; e nos diz também que, se não houver Ética, apontá-la será não mais que inventar o nada no vazio das idéias. Por outro lado, não haverá Moral onde não houver regras das quais alguém possa ter consciência.

 

     Que conceito o indivíduo e a população terão de “responsabilidade”, se o conceito de Moral não lhe for associado? Que “consciência” terão da “responsabilidade”? Será “consciência” tudo e qualquer coisa que lhes der na telha? Que “liberdade” hão de exercitar ou pretender exercitar? Que padrões de respeito ao próximo ou ao público orientarão os indivíduos e a Sociedade? Associar Ética a uma liberdade individual dissociando essa liberdade de padrões de moralidade, ou seja, associar Ética a uma liberdade sem rumo ou rédeas, ou celebrar a ausência desse rumo e dessas rédeas, que são os conceitos e convenções que permitem a coexistência, da mesma forma que chamar de Moral o que se demonstra ser imoral ou amoral, será apenas uma grande estupidez. Ou, quando a estupidez não puder ser atribuída, será somente muita má-fé.  

 

     Pois bem. Voltando ao texto de Janine Ribeiro, quando ele nos lembra de que “O constituinte pensou que, aproximando a educação básica do cidadão, nos municípios, aumentaria o controle popular sobre ela” e que isso terá sido apenas um “engano”, não há como dele discordar. A leitura de seu texto até ganha interesse. Por muito pouco tempo, porém. Porque o que nos apresentará a partir disso, como se fosse um contador, por mais de dois parágrafos cheios, são números do Indicador de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) que “mede o desempenho e, assim, induz políticas de longo fôlego” – números esses que comprovam que “os primeiros anos de escolaridade obrigatória têm avançado mais que o previsto”. O filósofo não nos traz qualquer discussão a respeito dos objetivos ou dos métodos da Educação. Aos esgotar esses números todos, pontificará sem muito precisar recorrer à boa Filosofia: “Não se melhora a educação sem bons salários – nisso têm razão os sindicatos. Mas não basta subir os salários para os professores se tornarem bons – nisso têm razão os pesquisadores críticos ao mundo sindical.” E afirmará, como decorrência, que, para os professores, “O ideal é uma carreira federal: ou se federaliza a educação mudando-se a Constituição, ou a União coloca dinheiro e cobra em qualidade alta”. A solução que propõe, então, é “Aumentar os salários em função do desempenho. Mas, sobretudo, definir metas num prazo factível.”

 

     Ora, mesmo que a respeito do aumento do controle popular sobre a Educação do cidadão os Constituintes de 1986 possam ter-se enganado, tal como se (e nos)  enganaram com tantas idéias frouxas mais, a qualquer criatura em mínima sã consciência esse controle popular não há de parecer ser instrumento suficiente ou hábil para medir a qualidade da Educação e/ou para garantir ao cidadão que obtenha o que possa ser exatamente uma educação de “qualidade alta” – uma vez que, por faltar-lhe Escola (conhecimento, pois), Disciplina e Moral, a população nacional não estará em condições de distinguir uma “qualidade alta” de uma “qualidade baixa”.

 

     Por exemplo: a considerar como verdadeiro o que a Imprensa divulga, que “Brasil é o maior mercado de crack no mundo” (3) – e, recorrendo também aos números, que “Quando a pesquisa abrange o consumo das duas drogas, cocaína e crack, o número atinge 2,8 milhões de pessoas em todo o país … Cerca de 4% da população adulta … já experimentaram cocaína alguma vez na vida. … 3% da população jovem também já tiveram experiência com a droga. Segundo o levantamento, o uso da cocaína e do crack em áreas urbanas é três vezes maior do que nas rurais” – bem podemos projetar a qualidade da Educação que o “controle popular” poderá nos garantir. Qualidade e controle com os quais as Redes de Televisão e a Imprensa escrita, que são voltadas ao público,  portanto serão conforme o gosto popular, vêm contribuindo de forma bastante eficaz. Resta-nos saber desde quando “popular” significa inocente e puro e desde quando “público” significa sábio e bem intencionado. Se assim não for, o filósofo anarquista apenas nos demonstra o quão distante poderá se encontrar seu pensamento de qualquer proposta de solução às carências educacionais da população brasileira em seu conjunto.

 

     Por outro lado, mesmo que possamos considerar que a “federalização” dos serviços públicos vitais ao Estado nos seja algo bastante adequado e possa ser muito desejável, não será a conveniência salarial dos funcionários o que a justificará. E não será necessário federalizar a carreira do magistério para “federalizar a educação” caso isso possa ser compreendido como a União tomar a si a responsabilidade de levar a boa Escola ao inteiro Território nacional, não apenas encarregar-se do salário do Professor. Nem a possibilidade de cobrança de “alta qualidade” nesse campo depende do dinheiro colocado pela União para a Educação nos Municípios. “Federalizar a educação” depende apenas de que os objetivos e os métodos da Educação sejam determinados pela União – o que de certa forma já são, mas isso vem sendo feito sem que se atente à qualidade dos currículos ou, pelo contrário, cada vez mais os tentando deformar – e que o controle rígido e responsável desses objetivos e desses métodos seja efetuado também pela União.

 

     Sendo qualitativamente elevados os objetivos e adequados os métodos, eles próprios, objetivos e métodos, mais um sério e atento controle de ambos, provocariam uma decorrente requalificação dos encarregados de aplicá-los na Escola, “em todas as disciplinas”, resultando em uma renovação integral do “sistema escola por escola, criando assim ambientes mais qualificados de ensino. A renovação beneficiaria todas as classes sociais, na proporção que têm na sociedade, o que implica atender à classe média e mesmo à rica, mas sobretudo à multidão dos bairros pobres e periféricos. Para promover a inclusão social, é mais eficiente do que as cotas”. Onde e como o Município entraria nesse esquema que corresponde a uma hercúlea tarefa? O próprio Janine Ribeiro responde: “para funcionar isso exigirá ações integradas, inclusive no plano dos transportes, construções e segurança pública”.

 

     O que nos falta, pois, não são exatamente idéias, nem usinas de idéias, mas simplesmente conhecimento, vontade, moralidade, responsabilidade e mínima inteligência nas atitudes em todos os níveis e, principalmente, na produção de idéias, para que essas atitudes e essas idéias sejam de fato conseqüentes e minimamente aproveitáveis aos nossos objetivos.

 

     Na verdade, as Escolas brasileiras, não apenas as de nível básico e não apenas as municipais e não apenas as públicas, hoje se limitam a ser um depósito de crianças e jovens, para, em teoria, tirá-los das ruas – quando, na prática, não contribuem para afastá-los de casa e para que sejam levados exatamente ao nível mais baixo que as ruas lhes possam oferecer; e se é que não as queiramos reconhecer como Escolas de delinqüência, práticas sexuais “libertárias”, indisciplina e redução de horizontes para todos, crianças e jovens de todas as classes sociais. O programa curricular que orienta essas Escolas não tem por objetivo elevar o nível de conhecimento e proporcionar a essas crianças e a esses jovens qualquer possibilidade de que façam uma abstração mais ampla que a necessária para situá-los no seu estreito entorno mais imediato, e visa a apenas neste entorno mantê-los – como se fosse o melhor entre os melhores, e como se essa abstração fosse um primeiro degrau que, sem intermediários, permitisse que alguém alcançasse o imediatamente seguinte que seria “o mundo”, onde supostamente se faria a projeção dos indivíduos e a imposição de seus valores. O acesso à informática, que deverá ser garantido pela Escola, seria capaz de promover tal fenômeno. 

 

     Os meus cachorros, que são imensos e muito bonitos, conhecem perfeitamente a sua casa, a vizinhança e as ruas, sabem exatamente o horário da comida – quando ela atrasa, reclamam – e são capazes de abrir qualquer porta que encontrem fechada. Não precisaram de Escola ou de professores para saber tanto – bastou-lhes me acompanhar de perto 24 horas por dia, todos os dias, e observar o que eu fazia, em atitude de absoluta dependência e submissão consentida e de reverência ao “líder” da matilha que, em mim, reconhecem. Mas eles serão incapazes de aprender a ler e a escrever, por mais que a isso eu me dedique, ou de olhar para o céu à noite e imaginar-se em um ínfimo ponto luminoso qualquer que, de outra perspectiva, seria semelhante aos astros e estrelas que pudessem ver. Também disso tudo será incapaz gente que não tem boa Escola, embora possa bem saber como se juntam as letrinhas e formam palavras. Do que se depreende que gente jovem que, por sua natureza, é capaz de muito abstrair, precisará situar-se no mundo real, para que não se torne uma gente adulta eternamente vítima de discursos ordenadores não mais que ideológicos, iludida pela demagogia. E, para tanto, precisará que lhe sejam oferecidas condições diferentes e muito mais e diferentes estímulos que aqueles com os quais os meus cachorros contam.

 

     A qualidade dos professores brasileiros vem sendo atribuída de acordo com sua afinidade partidária ao mesmo tempo em que a qualidade da Escola brasileira vem sendo calculada pelo número de computadores que se coloquem disponíveis aos alunos. Melhorou a qualidade da Escola ao ser ela informatizada? Vamos a outra analogia como exemplo: em que melhorou a qualidade da Imprensa ao ser informatizada? Nela, não mais existem os revisores de texto. Serão supérfluos, pois os computadores “resolvem” essa função. Mas, de que valem as engenhocas se não há uma consciência que a programe? A Folha de S. Paulo foi capaz de publicar, em um mesmo dia, um título – “Servidor que manter greve ficará sem reajuste, diz governo” – e um subtítulo – “…ex-PM afirma que, quanto menos se expor, melhor” – em que a língua portuguesa pôde ser vilmente atropelada (4).

 

     Que haja alunos de Faculdade (e formados por ela) que não saibam ler e escrever já não mais nos espanta. Outros há, e não são poucos, que nunca, em toda a sua vida, viram um mapa-mundi à sua frente. Não têm a mínima noção de onde esteja o Norte ou o Sul, ou o Brasil, qual seu contorno, sua dimensão, suas fronteiras, quem dirá seus recursos; não sabem do chão em que pisam, da gente que os cerca; não sabem do que dependem. Como hão de situar-se “no mundo”? Conhecem a propaganda do Governo; sabem de cor e salteado, isso, sim, que ditadores serão sempre militares, portanto militares, se não se recolhem aos Quartéis esperando ordens civis, serão sempre ditadores; que os índios lutam pelo direito a manter sua cultura e por novas demarcações de terras e obtêm o apoio que identificam como internacional, portanto, “superior”; sabem muito bem apertar alguns botões; sabem que são “cidadãos” – e que “cidadania” será não gastar água à toa, não jogar papéis nas ruas, não praticar barbeiragens grosseiras, evitando ocupar três vagas ao estacionar seu automóvel, e será procurar estar, como indivíduo, à luz dos holofotes da mídia. Não têm a mais mínima consciência de quem são.

 

     Como reclamar do individualismo e da alienação absoluta que hoje regem as relações sociais, individualismo e alienação que nós mesmos, que muito reclamamos deles, vamos estimulando em todas e quaisquer oportunidades que temos para estimular?

 

     Mais um exemplo: tomo conhecimento de que, no dia 25 de Agosto último, Dia do Soldado, o programa “Caldeirão do Huck” da Rede Globo de Televisão apresentou “dois jovens alunos, um menino de Recife e uma menina de Manaus”, travando “uma batalha cultural (…) Passaram mais de vinte minutos, soletrando e acertando diversas palavras, que, segundo o Professor Sérgio Nogueira, eram palavras dificílimas e pouco usuais no nosso dia-a-dia. (…) A menina é do Colégio Militar de Manaus e o garoto é do Colégio Militar de Recife” – o que demonstraria a excelente qualidade do ensino nos Colégios Militares.

 

     De onde viria essa idéia de fazer que jovens colegiais soletrassem em um programa de televisão destinado a divertir a massa? Tenho cá uma suspeita: os Estados Unidos da América são uma megapotência econômica e tecnológica, que nos influencia consideravelmente, principalmente por meio de sua indústria cultural (filmes, músicas etc.), por meio da qual podemos perceber que elementos “educativos” estarão sempre sendo reforçados – os produtores exaltam a Bandeira, a Escola, o sistema judiciário, a Polícia, a Defesa nacional, os valores que possam e devam ser compartilhados em uma Sociedade; e nos permitem saber que as Escolas de nível básico daquele país promovem campeonatos de soletração. Ora, se os Estados Unidos da América soletram publicamente, deve ser muito importante saber soletrar.

 

     Assistir às cenas em que os alunos norte-americanos procuram decorar como se formam as palavras e disputam com colegas em concursos cada vez mais amplos, por vezes nacionais, quem melhor possa recitá-las aos pedaços deveria nos causar certo desconforto, uma vez que vemos crianças muito novas já sendo estimuladas a competir desesperadamente em busca de projeção individual. A adoção desse método de ensino e a cobrança desse saber, porém, talvez sejam bastante compreensíveis, admissíveis e úteis naquela imensa Nação, uma vez que os sons em língua inglesa não mantêm correspondência com os signos gráficos. Escrever em Inglês corretamente deve demandar um esforço semelhante ao exigido para escrever em Mandarim. O que não é o caso das línguas neolatinas.

 

     E, em Português, venhamos e convenhamos, principalmente depois da última “facilitação” proporcionada por nossos muito ilustres letrados, as dificuldades que a escrita apresenta residirão no acerto entre Ç e S, nos dos H mudos e, talvez, no do M antes de B e P. Já a composição de uma frase ou a compreensão de um período… bem, isso é muito mais complicado.

 

     De mais a mais, se formos buscar o significado de “soletração”, um bom dicionário até mesmo também na web poderá nos dizer que é: “1. método de ensino de leitura que consiste em memorizar e pronunciar separadamente as letras, para depois juntá-las em sílabas, e daí se passar às palavras, para finalmente chegar ao entendimento das frases e textos; 2. leitura muito vagarosa, arrastada, letra por letra, da pessoa que aprendeu por esse método e não adquiriu destreza e velocidade na leitura” (Houaïss, grifos meus).

 

     Observem, por favor, que o significado das palavras (primordial abstração necessária a uma leitura minimamente útil, que exigirá a articulação simultânea entre os significados) não ganha importância alguma nesse método de ensino. Apenas a forma importará. A preocupação com o significado terá lugar apenas remotamente, em níveis escolares subseqüentes. Ou nunca terá lugar, uma vez que muitos são os que abandonam os estudos no 1º grau e nem sequer chegam a completá-lo.

 

     Mas foi assim, sem nos preocupar com o significado das palavras e com a articulação entre elas, que chegamos ao ponto de nos entusiasmar, há alguns anos, com a “criatividade” de uma jovem cuja redação não por acaso foi premiada pela pródiga UNESCO, posto que não só confundia o Estado Brasileiro com seus Governos (o que é bastante banal entre os tidos como cultos, mas nem por isso deixa de ser grave), como, satirizando versos de nosso Hino Nacional, referia-se ao que seria nossa “PÁTRIA MADRASTA VIL”; e, puxando o gado, reclamava uma “educação libertadora” e pregava uma “revolução estrutural” (5). E hoje nos emocionamos com a disputa promovida seja lá com que intenção entre jovens que saibam bem soletrar seja lá por que razão no palco de um estúpido programa de auditório, transmitido por um canal de televisão que reúne uma programação absolutamente estúpida que cada vez mais estupidifica a população produzindo “celebridades”.

 

     Quando o que motiva a Escola coincide com o que move as Armas, não haverá força capaz de alterar o destino de um Estado. O que nos tornou cada vez mais indiferentes ao nosso presente, nosso passado e nosso futuro e cada vez mais dependentes não foi o modelo de Escola que pôde ser, um bom dia, considerado “superado”. Foram outras determinantes, foram outros apelos, que, pouco a pouco, passamos a considerar bem mais importantes que levar uma  Escola de qualidade à nossa população, qualidade que a Escola brasileira um dia já teve – em quantidade, porém, insuficiente. Foram providências sacadas do fundo de uma cartola que apenas a desestruturaram e a substituíram por um arremedo de Escola que, até hoje, persiste em quantidade absolutamente insuficiente. Foi não saber juntar palavras e interpretar um discurso. Foi o mais absoluto descaso com a Ética no pensamento voltado ao que é nacional, o que, pouco a pouco, mais se agrava em nome de uma “Ética” dita universal.

 

     Desculpem-me os muito entusiasmados com tantos sinais exteriores de saber e competência por minha extrema apreensão com relação aos seus resultados. Há questões muito graves a ponderar no campo da Educação nacional – inclusive e principalmente a de como fazer dela um fator capaz de permitir que ultrapassemos a ideologia contida em métodos e objetivos que nos são apresentados como magicamente eficientes e a de fazer dela um instrumento da verdadeira independência nacional. São questões cuja solução exige bem menos estardalhaço, bem menos contorcionismo ufanista físico e mental e bem menos “filosofia” barata. Exige apenas seriedade e algum cuidado.

 

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noticias.uol.com.br/album/2012/09/07/comemoracoes-do-dia-da-independencia.htm

1. gilvanmelo.blogspot.com.br/2012/09/a-educacao-basica-cabe-no-municipio.html

2. www.youtube.com/watch?v=KrN_Lee08ow&feature=player_embedded

3. noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2012/09/05/brasil-e-o-maior-mercado-de-crack-no-mundo-aponta-levantamento.htm

4. www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/62715-cabo-bruno-diz-estar-com-mente-boa-e-que-vivera-para-fazer-a-obra-de-deus.shtml

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    www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/62710-servidor-que-manter-greve-ficara-sem-reajuste-diz-governo.shtml

comentados em   

    noticias.bol.uol.com.br/brasil/2012/08/30/quotservidor-que-manter-grevequot.jhtm

5.unesdoc.unesco.org/images/0015/001576/157625m.pdf

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     O Brasil vem produzindo novelas emocionantes, dramatizadas por bons e maus atores, profissionais e amadores, que nos oferecem alguns episódios trágicos, outros cômicos, mas sempre nos afetam a emoção, cujos capítulos podem ser acompanhados todos os dias na Imprensa diária e cujo final todos nós procuramos prever.

 

     Mas, além do noticiário nacional, temos acesso ao internacional e a inúmeras outras séries, produzidas em ambiente estrangeiro, para a televisão.

 

     “NCIS” é uma delas. Fantasiosos, evidentemente, são episódios curtos, com começo, meio e fim, a respeito do Serviço de Investigação Criminal da Marinha norte-americana, que resolve assassinatos, espionagem, terrorismo, furto de materiais etc. ocorridos no âmbito da Força. Os crimes praticados, que sempre deslinda, por vezes sofrendo baixas, não só denunciando como punindo os envolvidos sem considerar cargos ou patentes das vítimas ou dos responsáveis, podem ser vistos como um tema em segundo plano. O que há de mais interessante para acompanhar todos os dias é a ação, os diálogos inteligentes e as razões dos personagens. Independentemente de diferentes idiossincrasias manifestadas em sua vida privada, demonstram, todos eles, ter bem claramente compreendidas a sua participação e sua responsabilidade na segurança nacional. 

 

     Após cada episódio do “NCIS”, ao desligar a televisão, porque outras séries não despertam muito o meu interesse, não posso deixar de comparar o que vi, li e ouvi com o que vejo, ouço e leio na realidade brasileira e naquilo que vem sendo chamado de “Defesa Nacional”. 

 

     Um episódio que, no dia 22 último, pude acompanhar na tela, não da TV, mas do computador, diz-nos de um “Livro Branco” do Ministério da Defesa. O personagem que ganhou voz principal nesse episódio é o Chefe da Assessoria de Planejamento Institucional desse Ministério, o General Júlio Amo Júnior.

 

     Na reportagem intitulada “Livro Branco de Defesa Nacional vai aumentar segurança do País, diz general” (*), produzida e divulgada pela Agência Câmara de Notícias, leio que, segundo teria dito o General, qualquer preocupação com a fragilidade do poder bélico brasileiro é “leviana, uma vez que as munições possuem prazo de validade e não devem ser produzidas em grande quantidade em tempos de paz”. 

 

     O General nos teria afirmado também que “O Livro Branco é uma ferramenta geradora de confiança mútua e funciona como um redutor de tensões (…) nos ajuda em termos de transparência, porque estamos mostrando nossas reais intenções, o que realmente pretendemos com a nossa capacidade de defesa, e ainda que o Brasil é um País que prima pela cooperação na América do Sul”. Expondo “publicamente os objetivos do Brasil na área de defesa”, o Livro traz “dados estratégicos, orçamentários, institucionais e materiais sobre as Forças Armadas e a Defesa Nacional”. Mesmo assim, “não fragiliza o sistema de defesa brasileiro” porque, conforme o General também nos parece querer esclarecer, “não revela informações relacionadas às chamadas tecnologias sensíveis, como enriquecimento de urânio, que poderiam servir de base para ataques contra o patrimônio do País.”

 

     Que raios significa exatamente o que disse o General? Que, além de colocar as FFAA a serviço da defesa civil e cumprindo funções policiais, tal como vem fazendo, outro encargo que o Ministério da Defesa poderá assumir é o de proteger o segredo de “tecnologias sensíveis”. Apesar, porém, de que tenhamos segredos a guardar na área de enriquecimento de urânio, não temos tecnologia militar suficiente para enfrentar qualquer Potência de fato que se mostre adversa às nossas intenções, quaisquer que sejam elas. E isso é mais do que sabido, mas não nos preocupa, porque estamos em tempos de paz, e, assim sendo, não será necessário sequer que as FFAA tenham munição, porque “munição não deve ser produzida em grande quantidade em tempos de paz” – nem produzida para treinamento, nem, portanto, para enfrentar uma emergência. As FFAA, pior, não têm armas para usar a munição que não têm. Quem nos forneceria armas em quantidade e qualidade que nos fossem necessárias em um eventual conflito? Ainda bem que nenhuma emergência ocorrerá porque o Livro Branco “funciona como um redutor de tensões”… Se alguma ocorresse, é bem possível que não houvesse como tentar defender aqueles nossos segredos tecnológicos.

 

     A soma das palavras ditas pelo General ou a ele atribuídas tem como resultado uma declaração confusa ou propositadamente destinada a confundir. Mas as palavras estão, e não nos parecem ter sido mal escolhidas, portanto, devem ser acolhidas e interpretadas. Afinal, quais tecnologias devemos defender? As que já adquirimos, as que pudéssemos desenvolver ou já ter desenvolvido, ou apenas as “sensíveis”, porque somente estas servem “de base para ataques ao patrimônio do País”? Que patrimônio? Os ataques virão de quem? Quem nos ameaça? Seria um inimigo interno? Quem é ele? O narcotráfico? Esse é internacional. Tem armas e munição. Contra ele, se quisermos recuperar o território literalmente invadido, precisaremos de armas e munição. Será ninguém, porque não temos inimigos? Os vizinhos? Esses não serão, pois nosso País “prima pela cooperação”. Nem serão as Potências que poderiam se sentir ameaçadas por nossas reais intenções, pois essas intenções (quais são, exatamente?) são deixadas bem transparentes, demonstrando-lhes o quanto somos confiáveis… para que a confiança seja mútua. Essa confiança, se mútua é, será mútua baseada em quê? Que é o que nos permite ter confiança nos demais? Um “Livro Branco” que tenham escrito e publicado?

 

     São declarações e providências como essas que nos dão a certeza de que as FFAA nacionais de hoje não são as FFAA de ontem, por mais que queiramos e tentemos pôr panos quentes nesse assunto. As Forças são outras, e não porque sejam mais (ou menos) aparelhadas, tecnológicas, preparadas, humanizadas, civilizadas, capazes, mas porque não têm noção alguma de para que servem ou para que estão. Ou de para que não estão e não servem. E não será dos indivíduos que hoje alcançam os mais altos escalões da carreira militar a culpa disso. Nem é que esses indivíduos tenham pouca inteligência ou má fé. Assim foi conformado o seu espírito (embora consideremos que haja exceções que confirmem a regra); assim lhes foi ensinado, pouco a pouco, nas próprias Escolas militares de diferentes níveis – a pensar, de forma absolutamente avessa ao espírito militar e a qualquer interesse de Estado, a partir do “princípio” de que a “paz universal” deva ser o único objetivo válido a quaisquer Instituições nacionais e que ela possa ser obtida por meio da desordem hoje evidente nas mesmas Instituições nacionais e na idéia que a nossa população possa delas fazer e fazer das ameaças que pairam sobre nosso País.

 

     Ao que tudo indica, e isso se vem comprovando não só no discurso dos Generais do Governo como no dos Políticos do Congresso, na Imprensa, nas esquinas, nos bares e nos lares, o nacional desapareceu definitivamente do nosso imaginário e, portanto, do imaginário de nossas FFAA, que são nada mais que o reflexo (em tese, armado) do que somos todos e do que todos nós queremos ser. Dele restou apenas a palavra, sem muito significado, para designar exatamente quê, não se sabe. O Estado não será, porque, na Constituição, já abdicamos da soberania. O território também não é, porque ele não preocupa, uma vez que primamos “pela cooperação” e, assim, a defesa contra possíveis pretensões dos vizinhos próximos e distantes não nos será necessária. “Cooperamos”. Palavra de honra: não compreendo! Ou o meu Português anda muito defasado ou devo estar, talvez por isso mesmo, tão desinformada e pensar tão tolamente quanto os Oficiais da Reserva, que são as Forças de ontem, e podem hoje ser considerados desinformados e tolos…

 

     Se, como afirma o Deputado “verde” Alfredo Sirkis nesse mesmo capítulo dessa emocionante novela, as únicas ameaças ao Brasil a considerar são o terrorismo, a falta d’água e a possibilidade de “conflitos entre a China e a Rússia por terras agricultáveis”, realmente muito remotamente a paz nacional será perturbada. Terrorismo já demonstramos por A + B não saber que possa vir a ser, pois somos governados por ex-terroristas que nós mesmos escolhemos para nos governar, e convivemos perfeitamente bem com o terrorismo do narcotráfico, dedicados que estamos a pacificar favelas; nossa água já se tornou uma commodity; China e Rússia estão muito distantes de nós, mas poderão ser tranqüilizadas, pelos funcionários do Ministério das Relações Exteriores, de que não interferiremos em seus interesses… Afinal, por que é chamado de “branco” o tal Livro que trata da transparência de nossas intenções e visa a aumentar nossa segurança? Branca é a paz nas ilustrações dos artistas. Transparente é o sentimento dos amantes nos versos dos poetas.

 

     Ao que tudo indica, também, a tradução que se faz de “segurança nacional” é o Brasil inteiro poder imaginar que, comportando-se “bem” (?), não está sendo e não será ameaçado, nem representa qualquer ameaça a seja lá quem for. É como se o nosso País tivesse por obrigação obter, a qualquer custo, a tolerância das Potências reais ou virtuais ao incômodo que causam a nossa existência, a nossa dimensão e o nosso próprio potencial. É como se o País que devemos defender não precisasse temer ameaças externas porque conta (quando ninguém se sente por ele ameaçado) com a simpatia e, mesmo, o carinho dos diferentes países que coexistem, com todos os seus conflitos, no mundo e, especialmente, na extensão territorial atribuída à dita “América latina”, todos eles soberanos, com diferentes objetivos estratégicos e diferentes capacidades, inclusive bem maiores que a nossa.

 

     E, embora países “pacíficos” possam pretender adquirir os conhecimentos tecnológicos que possamos nós ter produzido, isso, por certo, para fabricar, com toda a “sensibilidade” que demonstram ter, o armamento com o qual poderão manter a “paz universal”, o cuidado com tecnologias que desenvolvemos no processo de enriquecimento de urânio parece significar, por sua vez, uma preocupação muito mais econômico-industrial que política. Afinal, é só a economia o que preocupa esse Governo, tal como preocupou os anteriores, todos eles retirando das FFAA os recursos necessários para que elas fossem, de fato, o instrumento de defesa do Estado contra seus inimigos internos e externos. É como se nosso País tivesse, de fato, o “compromisso” de manter os elementos de suas FFAA ativos e distraídos com qualquer assunto menor apenas para que possam integrar as Forças de Paz da ONU, mesmo que só os enviemos se e quando o Governo assim queira. É como se o desempenho das FFAA no esporte, na segurança pública, na construção civil e nas funções de assistência aos desfavorecidos pudessem se sobrepor ao seu dever maior, de natureza política, ou mesmo substituí-lo com vantagens, permitindo e consolidando uma posição de poder “soft” destacada que o Governo deseja alcançar. É como se…

 

     Hoje é o Dia do Soldado. Honras lhe sejam feitas, porque lhe são devidas. Sem sua presença, não teríamos alcançado ser o que somos. Contra ele, chegamos a um patamar de “inteligência”, de “segurança” e de “defesa nacional” cujo modelo preconizado e realizado, no século passado, absolutamente esdrúxulo, modelo típico de não-soberania, era a Costa Rica. Na falta dele, talvez bem logo cheguemos, no máximo, a uma extensão territorial equivalente. Que alguns muitos considerarão mais conveniente, menos preocupante, menos aborrecida. O que não deixa de ser uma expectativa de futuro…

      

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(*)  http://www2.camara.gov.br/agencia/noticias/RELACOES-EXTERIORES/424628-LIVRO-BRANCO-DE-DEFESA-NACIONAL-VAI-AUMENTAR-SEGURANCA-DO-PAIS,-DIZ-GENERAL.html

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     “Dilma na banguela: da ditadura à dentadura, ‘uma’ mutirão de pensamentos desdentados”

      

      Para não sentir apenas mal-estar com o comentário que a esse título se segue, com as razões que o possam justificar e com tudo ou quase tudo que hoje se vê feito e comentado como se Política fosse, será necessário considerar que o nível nacional das considerações e do discurso anda um bocado baixo. Talvez devamos, então, procurar também baixar o nível das nossas próprias considerações e do nosso próprio discurso. Para não destoar.

 

     Vamos lá, pois.

 

     Bem, que me lembre, quem disse “o povo está botando dentes” ou algo muito parecido com isso foi Dom FHC (não, esse H não é de haxixe – haxixe é só uma rima toante), fazendo sua demagogiazinha em setembro de 1997. À época, os otimistas calculavam que seriam mais ou menos 1 milhão e meio de brasileiros sem um único dente na boca. A dentadura e o frango na panela seriam as grandes conquistas populares em seus 8 anos de governo.

 

     Dom da Silva seguiu o modelo. E Dona Rousseff não se afastou dele. Ao frango de Dom Fernando somaram-se o financiamento para a compra de um carro, uma televisão, uma geladeira e o próprio frango, e a inadimplência geral. Já a dentadura, como também, é claro, a “ditadura”, de que todos alegam terem sido vítimas, permaneceram no discurso – para que ninguém imaginasse que essas coisas não existem, embora seja desde sempre e cada vez mais tão difícil encontrá-las fora do discurso, e porque discurso é discurso, em geral é pastoso, desde que seja quente não requer muito tempero e, a seja lá o que ele contenha ou deixe de conter, muita gente abre a boca e, mesmo sem querer, acaba por engoli-lo de gute-gute sem se engasgar.

 

     Dom Fernando pôde ser esquecido, graças a Deus, mesmo que ainda, por vezes, cuspa alguma abobrinha que mastiga em seco tentando resolver isso. E pôde se esquecer dos dentes do povo. E do povo sem dentes.

 

     Tanto da Silva quanto Rousseff, mais dia, menos dia – algum dia -, pedirão também para que esqueçamos tudo o que disseram, e também serão esquecidos, se Deus quiser.

 

     Mas não antes que levemos as muitas dentadas que esses discursos todos vêm permitindo que nos sejam dadas. Que nos são e serão dadas não pelo povo, porque, tenha ou não tenha dentes, morder, o nosso povo não morde, isso está mais que comprovado. Mas são muitos os que dizem representá-lo e continuam afiando os dentes que de fato tenham ou que pretendam ter para mostrar e para usar.

 

     Resta apenas conferir quantos mais, com dentes ou sem dentes, continuam sorrindo ao tomar conhecimento do teor dos discursos pré e pós-eleitorais. E por que razão continuam sorrindo. Ou se põem às gargalhadas…

      

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http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/dilma-na-banguela-da-ditadura-a-dentadura-uma-mutirao-de-pensamentos-desdentados/

 

     Dilma na banguela: da ditadura à dentadura, “uma” mutirão de pensamentos desdentados

     CELSO ARNALDO ARAÚJO

     Rio Pardo de Minas, norte do estado, mais de 700 km distante de BH. A presidente vai falar da importância de ter dentes na boca. Como ela insiste em ser chamada de presidenta, não é uma rima „Ÿ e já não era uma solução.

     De dedo em riste, num tom muito acima do normal, Dilma vai anunciar na cidade a ampliação do programa Brasil Sorridente, criado no primeiro ano do governo Lula. Uma espécie de PAC 2 odontológico, com a mesma dinâmica do plano-mãe: não se conhecem os resultados da primeira fase.

     O Brasil „Ÿ depois de oito anos de Lula „Ÿ continua sendo um dos países mais desdentados do mundo, no qual 55% dos adolescentes já não têm todos os dentes e 40 milhões de adultos só têm na boca a língua e as gengivas. Lula, na verdade, se incomoda ao ver uma pessoa sem dente „Ÿ é o que dirá Dilma, daqui a pouco.

     Pelo discurso, porém, presume-se que, ao final dessa ampliação do BS, todos os brasileiros estejam de posse de seus 32 dentes, originais ou substituídos, exatamente na configuração que Deus nos deu: 8 incisivos, 4 caninos, 8 pré-molares, 12 molares.

     Ao tentar explicar o programa, insistindo na tese surpreendente de que é melhor ter dentes do que não tê-los, assim como é melhor ter casa própria do que morar sob a ponte, Dilma tentou ser bastante incisiva.

     Mas, se a Dilma sobram dentes, faltam palavras. Seus discursos, como os desdentados, não podem sorrir nunca „Ÿ talvez de vergonha por sua dramática incapacidade de expressar as boas intenções que devem perpassar o neurônio solitário. Mas há dias especiais „Ÿ em que as palavras de Dilma parecem cair da boca como dentes abalados na raiz. Rio Pardo de Minas presenciou um desses dias:

     “No passado, ninguém olhava pra pessoa de uma forma completa”, começa ela, antropologicamente, sem esclarecer quem é essa pobre pessoa do passado a quem só se olhavam as partes.

     Prossegue:

     “E aí, a gente tratava aqui no Brasil de várias coisas, mas isquicia (sic) que um dos elementos fundamentais pra identidade de uma pessoa é ela ser uma pessoa inteira”.

     Será o mesmo infeliz da frase anterior? Ou outro? Uma coisa é certa: desse monturo de sandices, a pessoa só sai mesmo aos pedaços.

     Ok, mas essa pessoa está prestes a ser remontada, como um Robocop:

     “Daí porque a importância que no Brasil Sorridente nós damos à saúde bucal, aos dentes, e nós olhamos não mais uma pessoa como uma parte, uma pessoa que tem uma doença, mas olhamos o que pode dá saúde integral pra ela”.

     Afinal, o Brasil Sorridente é um projeto odontológico ou oftalmológico? De qualquer forma, o fim dos desdentados brasileiros começou com Lula – que não suporta ver um pela frente, mesmo que seja da família. É o que revela Dilma, relembrando a origem do programa:

     “Assisti e presenciei o empenho do presidente Lula e o incômodo que ele tinha quando ele via um cidadão do nosso país, um brasileiro, um irmão, ou uma brasileira, uma irmã, sem os dentes”.

     Um reparo: onde estava Lula, muito bem pago desde 1978, e com assistência sindical-odontológica completa extensiva à família, que deixou um irmão e uma irmã perder os dentes?

     Na verdade, o Brasil de Dilma é um grande irmão:

     “Nós precisamos de uma coisa importante em nosso país, que é a nossa autoestima. Olhar pra nós mesmos e sabê que esse país conta fundamentalmente conosco”.

     Nesse fundamentalismo da presidente, era o caso de perguntar: quem é nosco?

     Mais à frente, o povo de Rio Pardo de Minas será informado de que, além de resgatar todos os dentes, o governo de Dilma estará “assegurano” emprego para todos os brasileiros, incluindo crianças e aposentados. Sim, é um novo Brasil – no anterior, estar desempregado ou não trabalhar era um direito. Agora, não mais:

     “Esse povo que pode e teve (sic) muitas vezes desempregado. Nós não queremos isso. Nós queremos todos os brasileiros empregados”.

     Impactante. Empregos para todos, dentes para todos. É uma ordem de Dilma:

     “Num pode perdê dente, num pode deixá que jovem perca os dentes ou qui criança não tenha acesso ao dentista”.

     Então, faz um apelo tão claro quanto um molar cariado:

     “Junto com uma prótese, que a gente fala uma (sic) mutirão de prótese, eu vou falá como o povo fala, junto com um mutirão de dentadura, nós temos de falá também num mutirão para tratar dos dentes de cada criança”

     Mas ainda faltava, nesse extraordinário discurso de Dilma, aquela centelha do gênio, a palavra que marca para sempre. A versão Dilma de “I have a dream”.

     Não espere mais. Ei-la:

     “Aqui eu vi muitas crianças, vi muitos jovens, vi muitas mulheres e vi também muitos homens”.

     Agora, sem sorrir: mesmo sendo um país de desdentados, o Brasil não merece uma presidente cujo raciocínio desce ladeira abaixo, sem rumo, atropelando o bom senso e a inteligência, na banguela.

     (http://www.youtube.com/watch?v=JkLhH5gQ8RE)

  

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     Nas Olimpíadas de Londres/2012, o Brasil perdeu para Cuba no cômputo geral das medalhas: “apesar dos mais de cem bilhões de reais a mais de investimento, os anfitriões dos próximos jogos, em 2016 no Rio de Janeiro, não evoluíram como o esperado. (…) Enquanto os brasileiros levaram 257 atletas, Cuba conseguiu uma atuação melhor levando apenas 110” http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/23642/

   

      Da delegação de atletas brasileiros que disputaram jogos em 32 modalidades, 51 eram militares. Das 17 medalhas obtidas por esses atletas brasileiros, 5 nos foram trazidas – além de a Sargento Fernanda Garay ter brilhado no time de vôlei que nos garantiu o bi-campeonato olímpico – por atletas militares: uma de ouro, de Sarah Menezes no judô, 3 de bronze, também no judô, de Mayra Aguiar, Rafael Silva e Felipe Kitadai e mais uma, no pentatlo, de Yane Marques. Sem patrocínio privado, Yane vira militar e dá salto na carreira (…) Em 2009, Yane foi uma das primeiras atletas brasileiras a serem integradas ao Exército, com o objetivo de se formar uma equipe forte para os Jogos Mundiais Militares do Rio, disputados em 2011. Como sargento da instituição, ela passou a contar com estrutura e apoio financeiro, elementos fundamentais em um esporte caro como o pentatlo (…) ’Hoje ela vive graças ao apoio do Exército e da Bolsa Federal. Isso é o que sustenta ela. Recebemos total apoio do COB para treinamentos, mas é um esporte dispendioso, não é uma coisa barata. Sem esse apoio do Exército, a gente não conseguiria’ (…) além das cinco modalidades praticadas (esgrima, hipismo, natação, tiro e corrida), Yane precisa praticar musculação e ter uma equipe que inclui psicólogo e nutricionista, além dos deslocamentos para treinos. Yane (…) mora no Recife. Já França [o treinador] fica em Porto Alegre. Os trabalhos feitos em conjunto acontecem na Escola de Educação Física do Exército, no Rio, onde há todas a [sic] estrutura necessária (…) Os treinos, de segunda a sábado, variam de 6 a 8 horas por dia. Portanto, não há muito espaço para que ela tenha outra atividade.” http://www.montedo.blogspot.com.br/2012/08/sem-patrocinio-privado-yane-vira.html      

      

     Com vistas a repetir em 2012 o ouro conquistado em 2008 pelo vôlei feminino, o Brasil já em 2010 mais abria seu caminho e seria campeão da Superliga: “Campeãs mundiais militares se destacam na Superliga feminina de vôlei (…) a Seleção Brasileira Militar feminina de vôlei sagrou-se campeã mundial em 2010, ao superar a Alemanha na final. (…) Entre as atletas militares, o grande destaque do fim de semana foi a meio de rede Sargento Natasha, que levou pra casa o Troféu Viva Vôlei de melhor jogadora em quadra na vitória do Usiminas/Minas sobre o Pinheiros, fora de casa, por 3 sets a 1. A Sgt Michelle também esteve em quadra pela equipe mineira. (…) a equipe carioca conta com as meios de rede Sgt Juciely e Sgt Valeska e a ponteira Sgt Regiane. A levantadora Sgt Ana Cristina ajudou o Vôlei Futuro a derrotar o Macaé, das Sgt Camila Adão (levantadora) e Sgt Monique (oposto). (…) A exceção entre as atletas militares campeãs mundiais em 2010 na Superliga é a Sgt Fernanda Garay (ponteira), que está no NEC, do Japão.” http://www.revistaforcasarmadas.com.br/revista/noticias/campe-s-mundiais-militares-se-destacam-na-superliga-feminina-de-volei

      

     Não entendi muito bem, mas não faz mal, vamos em frente. Em 2012,  “a torcida que lotou a Arena em Londres viu um Brasil gigante. Valente. Campeão. Bicampeão olímpico. A vitória na final (…) mostra que (…) as meninas não têm medo de bicho-papão. (…) Para um grupo tão acostumado a viradas heroicas, nada mais adequado do que festejar a conquista trocando o tradicional peixinho por cambalhotas em série no chão da quadra, diante de um ginásio lotado e eufórico. http://arymoura.wordpress.com/2012/08/11/olimpiadas-brasil-e-bi-no-voleibol-feminino/

      

     Tudo isso aí é verdade. Ou deve ser, porque está publicado. As cambalhotas também. Verdade verdadeira. E a verdade como verdade deve ser reconhecida. Ainda mais quando muito nos alegra.

 

     Perdemos para Cuba? Ora, pouco importa – como já bem sabemos, somos todos irmãos, portanto, somos amigos, e toda disputa internacional faz-se só por esporte. E os amigos de nossos irmãos serão nossos amigos, bem poderão também querer jogar no nosso time. Mesmo assim, para que a alegria também seja permanente entre nós, que não temos medo de bicho-papão, é preciso evoluir.

 

     E é, então, preciso investir mais. Em nós. Como o Exército Brasileiro investe. Para cuidar do Esporte, temos, sim, um Ministério do Esporte. Mas não teríamos hoje tantas belas medalhas no peito caso o Exército Brasileiro não participasse do preparo físico dos atletas e também muito empenhasse recursos materiais e morais para obter tais resultados. Ganhamos 17 medalhas de ouro, de prata, de bronze, e, acima de tudo, ganhamos uma medalha de lata, a mais reluzente entre todas, que também o EB conseguiu, embora não exatamente sozinho, que neste ano de 2012 lhe fosse concedida por reconhecimento de méritos, medalha essa última que promete ser só nossa, do Brasil, por muito e muito tempo: “Segundo relato de generais, há munição disponível para cerca de uma hora de guerra.(…) ‘Nós perdemos nossa capacidade operacional, sabemos dessa defasagem. A obsolescência é grande’ (…) a abertura democrática e a criação do Mercosul provocaram mudanças na forma da população conceber a proteção do país, Consequentemente, foram feitos cortes nos investimentos militares. (…) ‘O emprego dos militares tem sido bem diferente nos últimos anos, seja em ações de defesa civil, de segurança pública, de apoio aos órgãos estaduais. E isso demanda alterações estruturais profundas na política, na mentalidade da população e em investimentos’ (…) o ex-ministro de Assuntos Estratégicos Roberto Mangabeira Unger, que escreveu o texto da Estratégia Nacional de Defesa, disse que se considerava ‘moralmente impedido de falar’ devido à ‘relação íntima e especial com as ações e tarefas de que tratará a reportagem’. (…) o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim, que também assinou a END em 2008, disse que não iria comentar a situação, pois não ocupa mais o cargo.”  http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/08/sucateado-exercito-nao-teria-como-responder-guerra-dizem-generais.html?

      

     Estão corretas, pois, as nossas autoridades, não deixando, jamais, o dito pelo não dito, nem o feito pelo não feito. Confiemos nelas. Houve um sério e pesado investimento nisso tudo, e não ele é de hoje, também devemos reconhecer. Que resultou em que alcançássemos e consolidássemos posições por muitos de nós, há muito tempo, ambicionadas. Por certo, as medalhas, nós as merecemos. Todos nós. Merecemos todas essas medalhas e muitas mais. E, também por certo, com elas, as FFAA vêem, mais uma vez, justificados seu orgulho e a sua existência como instituição nacional permanente. “Para um grupo tão acostumado a viradas heróicas, nada mais adequado do que festejar a conquista trocando o tradicional… por cambalhotas em série…”

 

     Vai daí… … quê?     

  

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

“O Senado aprovou nesta terça-feira projeto que reserva 50% das vagas nas universidades federais e escolas técnicas do país para alunos que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas. Além das chamadas ‘cotas sociais’, o projeto também estabelece a divisão das vagas com base nas raças dos estudantes. (…) O tema tramita há 13 anos no Congresso, mas por ser polêmico, só foi aprovado depois que o governo mobilizou aliados em favor da matéria. (…)  O projeto aprovado pelos senadores estabelece que o ingresso nas universidades federais por meio de cotas deve ocorrer pela média das notas de cada aluno no ensino médio, sem o tradicional vestibular. (…) ‘Ao colocar todas as instituições no mesmo molde, estamos ferindo a autonomia da universidade.’ (…) ‘A rejeição desse projeto significaria não querer que os negros, índios e pardos tenham acesso à universidade’. (…) a proposta não leva em consideração ‘contextos socioeconômicos distintos’ de cada uma das universidades– Folha de S.Paulo (*)

 

      

 

     Os títulos, quaisquer títulos, não apenas os acadêmicos, que qualquer um possa obter poderão dar mais status social a qualquer um. Isso claro está. Mas nada mais darão.

 

 

     Ter status é ter poder. Mas nada mais é. Isso também claro está.

 

 

     E o poder, bem sabemos, poderá facilitar a obtenção de títulos. Mas ter poder, assim como ter status social e títulos a ostentar, não significará necessariamente ter saber a utilizar. Nem o poder, nem o status, nem os títulos emprestam inteligência, capacidade ou valor pessoal a quem quer que seja. Aí estão as condecorações, gratuitamente concedidas às pencas, os Doutorados Honoris Causa, oferecidos aos potes, além das colunas sociais, das manchetes dos jornais e das capas de revistas, dos programas de TV etc. que não me deixam mentir.

 

 

     Também claro está que todas as portas do poder deveriam estar abertas a todos – a todos aqueles que estivessem empenhados em resolver nossos problemas com competência e com inteligência, que isso seja bem entendido.

 

 

     O importante, então, para uma Sociedade se tornar sadia e permanecer sadia, deveria ser que, uma vez tendo ela resolvido o problema da qualidade do ensino fundamental (que, em nosso caso, é nenhuma) e o problema da qualidade do ensino médio (que, decorrentemente, em nosso caso, é também nenhuma), as portas das Universidades fossem naturalmente abertas a todos aqueles que se interessassem pelos graves assuntos que ela, e só ela, a Universidade, nenhuma outra instituição, poderia e deveria discutir e acudir.

 

 

     Se aos índios, aos negros, aos pardos, aos brancos e a todos os demais indivíduos brasileiros, com quaisquer traços étnicos e a pele de quaisquer cor e matiz, estão garantidas as mesmas condições, desde a infância, por meio da universalização de uma boa Escola pública em níveis que deveriam servir de padrão às Escolas particulares; se estão dadas as condições prévias a que, em nossa Sociedade, possamos contar com Universidades de alto gabarito que façam jus a esse pomposo nome; se tudo isso já foi resolvido, e se negros, índios e pardos são de fato preteridos e barrados às portas de nossas Universidades, não por sua demonstrada incompetência resultante de um eventual não-saber, mas por sua origem genética próxima ou remota, nada mais justo que estipular “cotas” para o preenchimento de vagas! Corrigir-se-ia, assim, um grave problema decorrente de um grave e repugnante erro: o racismo. Racismo que, aliás, já era uma contravenção penal desde 1951 (“Lei Afonso Arinos”) e nossa Constituição “cidadã” considerou como crime inafiançável. E poderíamos punir exemplarmente os responsáveis. Se comprovado, por que não?

 

 

     Se nada, porém, pôde ainda ser resolvido…

 

 

     Ora, se nada do que se requer para resolver um problema grave de incompetência nacional foi resolvido e, mesmo assim, as portas das Universidades estão sendo abertas a todos e qualquer um por uma determinação legal, deduz-se que os Congressistas brasileiros, voluntaristas regidos por sua própria incompetência, resolveram usar de seu próprio poder para que todos façam de conta que tudo está resolvido. Não por serem absurdamente demagogos e absurdamente pródigos com todos os recursos públicos, inclusive os não apenas materiais, mas por serem apenas carinhosos – a exemplo de “Mãe” Rousseff, que estimulou e a quem cabe sancionar o projeto –, concedem, de mão beijada, a cada brasileirinho semiletrado oportunidade a que exiba um título de Bacharel, dando-lhe também oportunidade a que obtenha status mais elevado e maior poder. E, assim, não só: nossos Congressistas dão também oportunidade a que pelo menos um em cada dez brasileirinhos semiletrados de posse de seu bachareladozinho – ou menos que dez, sejamos ambiciosos e corajosos como realmente somos! – obtenha um status ainda mais elevado e ainda maior poder, já que poderá, com muito ou pouco esforço, ser reconhecido como um doutorzinho. E isso pouco nos importa – quantos já não são?

 

 

     Ao nosso olhar “politicamente correto” e absolutamente cego, cada vez mais reproduziremos em farta quantidade a nossa produção de… digamos duvidosa qualidade. Aos olhos atentos do mundo real, no entanto, não seremos qualquer Sociedade entupida de inúteis titulados pela Academia procurando desesperadamente um emprego público, mas apenas uma Sociedade que não se respeita e, por isso mesmo, é capaz de encarar o saber como uma caçoada, uma pilhéria universal.

 

 

     Enquanto o mundo gira e o nosso País roda, arrastado na ciranda de sua própria incompetência, temas muito importantes são discutidos pelos doutos. E todos eles são muito interessantes. A “autonomia universitária”, por exemplo. Este é, de fato, um objetivo de suma importância, um poder sem o qual nenhuma Universidade, em tempo algum, alcançaria os mais mínimos graus de excelência… Há ainda os distintos “contextos sócio-econômicos de cada uma das Universidades”… Há que considerá-los. E os diferentes contextos sócio-econômicos das diferentes Escolas fundamentais e médias? Devem ser também considerados? Apesar dos esforços feitos pelos últimos Governos para nivelá-los todos, exceto o de seus diretos e indiretos colaboradores, ao mínimo patamar e rotulá-los de “classe média”, as diferenças são flagrantes e abissais! É preciso, pois, que sejam consideradas e, quem sabe?, assim possam ser mantidas. Talvez para isso cuidemos de fabricar tantos altos especialistas em tantos assuntos, credenciados por suas publicações em Revistas internacionais, tanto faz como tanto fez se são meras transcrições de citações de citações, se são apenas conforme a orientação impressa por Governos estrangeiros ou se são de Faculdades de fundo de quintal. São títulos. São status. São poder.

 

 

     Esses e outros mais são temas de fato muito empolgantes. Acompanhá-los será, por certo, mais importante que combater o racismo, criminalizado na teoria e já descriminalizado na prática, tanto assim que agora nos chega a todo vapor em sua nova versão, a pelo avesso, em detrimento do mérito. A cada dia que passa, o racismo vem sendo mais cultivado, radical, artificial e escancaradamente, e mais se imprime, sob a força das Leis, em nossa Sociedade, mais e mais fragmentando-a. Da mesma forma que a estupidez geral e certas “verdades” julgadas necessárias ao desmonte absoluto de toda uma História bem ou mal já concebida e construída. Em um processo que ninguém discute. Que ninguém discute, talvez – e não digo que sim nem que não – porque nem o Congresso, nem Deputados, nem Senadores, nem a Universidade, nem os Doutores, nem os Bacharéis comovem-se com suas conseqüências ou sequer as sabem projetar. Talvez porque o poder hoje esteja em mãos muito erradas. E em mãos muito erradas o poder pretenda continuar.

 

 

     Então, perdoem-me o plágio, mas é impossível fugir da pergunta: que fazer? Se pretendemos manter alguma expectativa de que este nosso País sobreviva, parece ser necessário dar bem mais que meia-volta e volta-e-meia nessa alegre ciranda. Há muito e muito para corrigir. Principalmente a nossa viciada perspectiva.  

 

 

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(*) http://educacao.uol.com.br/noticias/mobile/2012/08/07/senado-aprova-projeto-que-reserva-50-das-vagas-em-federais-para-cotas.htm

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http://www1.folha.uol.com.br/educacao/1128262-para-reitores-proposta-fere-autonomia.shtml

  

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

  

 

 

 

     “Ninguém é inimigo de ninguém” – Ayres Britto

      Frase destacada na Folha de S.Paulo, ontem.      

 

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     Segundo Ayres Britto, a palavra “mensalão” – nome dado às investigações que apontaram um esquema de compra de votos de parlamentares pelo Executivo no Governo Lula da Silva – não deve ser usada pois indica um pré-julgamento do processo ora em pauta na Suprema Corte brasileira. O Ministro não vê, no entanto, mal algum em que Dias Toffoli, seu colega de toga amigo de José Dirceu, “como qualquer ministro da casa, (…) suficientemente maduro, maior, capaz, vacinado, experimentado para decidir, diante de uma eventual alegação de suspeição”, decida participar do julgamento.

 

     Ao que a frase citada acima indica, Ayres Britto, o poeta do STF, aprendeu a versejar com boleros rasgados na juventude: “Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa. Ninguém é de ninguém, até quem nos abraça. Não há recordação que não tenha seu fim. Ninguém é de ninguém, o mundo é mesmo assim…”

 

     Só não sei se bem os compreendeu. Talvez não, talvez sim. Porque o que o bolero quer dizer, mas não diz em seu mau Português, é que ninguém seria de alguém em exclusivo.

 

     Ninguém significa nenhuma pessoa. Assim como nada significa nenhuma coisa.

 

     Em bom Português, não o dos pungentes versos de um bolero, se dizemos que “nada é nada”, ou que nenhuma coisa será nenhuma coisa, estaremos também dizendo, por certo, que “qualquer coisa pode ser muita coisa”, não que “tudo nada é”.

 

     Se dizemos “ninguém é inimigo de ninguém”, não é que nenhuma pessoa seja ou tenha um inimigo, mas, sim, que alguém ou todos e qualquer um podem ser inimigos de alguém outro. Ou de todos. Simples assim: duas negações = uma afirmação. Regra decorrente da lógica gramatical que talvez decorra, por sua vez, do matemático e cristalino princípio que nos indica que menos por menos dá mais… Sei lá. Sei que não há linguagem sem uma lógica que a reja. E que o Português exige uma lógica rígida e perfeita, caso contrário não será Português, será um dialeto inculto e feio. Se não obedecermos a essa lógica, não haverá compreensão alguma do que seja dito. E faz-se imediatamente a confusão – a que nos vem regendo faz tempo em todos os campos da atividade social.

 

     Se “ninguém é inimigo de ninguém”, alguém que seja inimigo de alguém pode querer se engalfinhar com esse alguém, como quiseram Barbosa e Lewandovski, e, em muitas ocasiões, muitos mais.

 

     Por outro lado, a frase mal construída pode querer significar que alguém é amigo de alguém. Ou que todos serão amigos de todos.

 

     Entre amigos, tudo o que for dito e feito poderá, em seguida, ficar por não dito e não feito. Nenhum problema. Como diz o bolero, dessa vez sem confundir, na vida tudo passa e não há recordação que não tenha seu fim. O mundo é mesmo assim… Pelo menos, o mundo que vamos conhecendo por aqui.

 

     Sei também que, se pelo menos alguns só discutissem em bom Português – que ninguém mais conhece, nem mesmo para bem compreender nossa Lei que nos diz que um Juiz deve declarar sua suspeição caso o réu no processo que julga seja seu amigo -, nada estaria tão atravessado como está, facilitando o tropeço de todos nós, que devemos dançar conforme a música.

 

     Enfim, sigamos em frente: são dois pra lá, dois pra cá…

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

     … do “barão”.

 

 

 

     Conforme nos diz o artigo publicado no caderno “ilustríssima” da Folha de S.Paulo (transcrito abaixo), “toda Nação vive, em parte, de seus mitos”.

 

     Já há algum tempo que, para reforçar um profundo menosprezo por tudo o que possamos ter e que nosso possa ser, as altas patentes militares passaram a ser escritas na Imprensa com inicial minúscula.

 

     Alguns poderiam classificar essa questão como ideológico-corporativa. Mas a prática se ampliou e alcançou qualquer título obtido por importantes vultos de nossa História. E alguns poderiam considerar essa questão como semântica.

 

     Ela é bem mais complicada.

 

     Para reforçar e levar sempre e cada vez mais longe os pretensamente nobres objetivos dos últimos Governos (ou seriam governos) – entre os quais o de atribuir grau acadêmico ao saber popular e o de conseguir fazer, da nossa, uma terra arrasada –, não é bastante à nossa Imprensa dedicar-se a ajudar a desmoralizar nossos Generais. Ela precisa mais estender o leque das “verdades” jornalísticas exibindo-as tal como um pavão exibe sua cauda. Só para exibi-la, nada mais. Porque a carrega. Arrastando-a no chão.

 

     Uma vez que compete ferozmente no estrito âmbito de si mesma e nada constrói nem se preocupa com construir, essa Imprensa dita nacional, estéril de assuntos minimamente interessantes da forma como se vem demonstrando, parece mais encontrar que sua missão é não outra que destruir a imagem dos que ainda hoje se mantêm como um exemplo para todas as gerações.

 

     Se “toda Nação vive, em parte, de seus mitos” e se exemplos alguns indivíduos se tornaram, que mais a respeito desses personagens de nossa História nos poderia interessar? Os detalhes mais íntimos de suas vidas privadas? O disse-que-disse-que paralelo aos fatos pelos quais foram responsáveis e graças aos quais conseguimos alguma vez nos impor frente aos demais? O que nossos inimigos deles apregoaram? O uso que, de sua sombra, os políticos do improviso fazem ou puderam fazer?

 

     Se “toda Nação vive em parte de seus mitos“, para que servirá, exatamente, tentar desmoralizar o Barão do Rio Branco? Alguém nos saberia dizer?

 

     A cauda de um pavão é bem farta e colorida. Quando ele está ciscando, ela se mantém fechada. E, ao que saibamos, nenhum pavão alça vôo com a cauda aberta.

 

     Quem gosta de se arrastar, pois, que corra atrás dela.

 

PAVÃO CISCANDO

      

     ………………………………………

“Toda nação vive, em parte, de seus mitos. (…) Rio Branco fez de si o elo entre o Império derrotado e a República vitoriosa. (…) serviu a quatro presidentes como ministro das Relações Exteriores sem compunção (1902-12). (…) pôs a política externa a serviço dos novos-ricos da burguesia agroexportadora e não hesitou em entrar para a vitrine da nova ordem, a Academia Brasileira. (…) manteve o título de barão e fomentou a mitologia segundo a qual a diplomacia republicana bebia da fonte de um suposto passado imperial de glórias. Habilidoso jogador para uns, inescrupuloso camaleão para outros, enfrentou desafetos e inimigos. Para os monarquistas, era um traidor. Para os republicanos, potencial líder da restauração monarquista. (…) Só virou unanimidade depois de morto. (…) Em muitos países, uma figura desse naipe seria objeto de ricas e divergentes biografias. Não aqui. A literatura sobre o barão é escassa, ignora a farta documentação disponível sobre ele em arquivos estrangeiros e mantém-se irritantemente laudatória. (…) O conjunto faz do barão um herói irretocável. (…) Ler a respeito de Rio Branco ainda é frustrante. (…) aprende-se que ele era “coerente”, “seguro”, “inovador”, “singelo”, “lúcido”, “despretensioso” e, curiosamente, conseguia ser “tímido” e “extrovertido” ao mesmo tempo. Como se tivesse poderes do além, “não falhou em nada que empreendeu”. (…) Há cem anos, o nome do Barão é usado e abusado. Nas palavras de Villafañe, trata-se de uma verdadeira ‘santificação de Rio Branco na religião laica do nacionalismo’.” http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/55782-usos-e-abusos-do-barao.shtml 

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     “O erro, feito em uma fração de segundos – e admitido pela atleta –, pôs fim a uma jornada de quatro anos (…) A atleta ficou inconsolável e precisou de quase uma hora para se recompor e conseguir falar com os jornalistas sobre a desclassificação. Rafaela admitiu que cometeu o erro, mas que acreditou que não seria punida.”

 

      

     O mau hábito da cozinha vai à sala. Esse é um sábio ditado, muito antigo, que nos ensina que, em lugar nenhum, em nenhuma ocasião, um comportamento indevido, venha de quem venha, deve ser tolerado. Porque, em qualquer que seja o campo da atividade, tudo o que de verdade funciona bem na vida obedecerá a regras e protocolos rígidos. Quem não os observa só fará um papelão à vista de todos.

 

     E a culpa do mal feito será de ninguém mais senão daquele que não observou as regras e os protocolos ou, principalmente, daqueles que permitiram que eles não fossem observados. Ou seja, de quem não os levou a sério.

 

     Hoje em dia, no entanto, é mais comum ouvirmos a “lição” de que devemos ser tolerantes com o comportamento das ruas, onde regras e protocolos passam quase despercebidos. Quando não a de que deveríamos mesmo exaltar “democraticamente” esse comportamento como exemplo de sinceridade, espontaneidade etc. e tal.

 

     Mais dia, menos dia, porém, os hábitos (e os vícios) das ruas acabam chegando aos palácios. Aos palácios do Esporte, da Política, da Justiça…

 

     É assim que, até nas Olimpíadas, as esperanças brasileiras de sucesso são também eliminadas não só pela capacidade do oponente como também pelo comportamento dos próprios brasileiros. Aos quais é permitido acreditar que golpes irregulares não serão vistos, não serão considerados, muito menos serão punidos.

 

     Depois de exibido e conferido, quem lamenta o fracasso vertendo lágrimas em cachoeiras perante o mundo merecerá tão somente a tolerância dos tolerantes. Pode até ganhar algum consolo, mas esse consolo não o corrigirá. Talvez o levará ainda mais para trás.

 

     Haverá de ser essa, para todo o sempre, a nossa marca nacional, indelével e internacionalmente reconhecida?

 

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     http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/07/120730_judoca_dg_rc.shtml

     Golpe irregular elimina judoca brasileira ‘descoberta’ brigando na rua

     Daniel Gallas – Da BBC Brasil em Londres – Atualizado em 30 de julho, 2012 – 11:27 (Brasília) 14:27 GMT

     Rafaela disse acreditar que golpe não seria julgado irregular

     A judoca Rafaela Silva, que era a grande esperança de medalha do Brasil nesta segunda-feira nos Jogos de Londres, foi eliminada das Olimpíadas na sua segunda luta após derrubar sua rival com um golpe irregular.

     O erro, feito em uma fração de segundos – e admitido pela atleta –, pôs fim a uma jornada de quatro anos que começou na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro.

     Aos 12 anos, Rafaela Silva era considerada arruaceira e se metia em várias brigas de rua. Foi quando conheceu o técnico Geraldo Bernardes, que percebeu o talento da jovem para o judô.

     Rafaela Silva foi acolhida pelo Instituto Reação, do judoca brasileiro Flávio Canto, medalhista de bronze em Atenas 2004. A ONG usa o judô para dar oportunidades a crianças de comunidades carentes no Rio de Janeiro.

     No último ano, a carioca de 20 anos chamou atenção pelos bons resultados. Foi medalha de prata no Jogos Pan-Americanos e está em quarto lugar no ranking na categoria leve – de até 57 kg.

     Lutas

     Rafaela Silva começou o dia com uma vitória tranquila sobre a alemã Myrian Roper – após duas penalidades para a alemã e um yuko da brasileira.

     Na luta seguinte, contra a judoca húngara Hedvig Karakas (16ª no ranking), Rafaela conseguiu aplicar um golpe e derrubar a adversária. Inicialmente, o árbitro marcou um wazari (a segunda melhor pontuação do judô) para a brasileira, mas logo a decisão foi objeto de consulta na mesa de juízes.

     Poucos minutos depois, o árbitro anunciou o hansoku-make – eliminação imediata da brasileira. Rafaela desequilibrou a adversária agarrando a sua perna – um golpe que não é mais permitido no judô.

     A atleta ficou inconsolável e precisou de quase uma hora para se recompor e conseguir falar com os jornalistas sobre a desclassificação.

     Rafaela admitiu que cometeu o erro, mas que acreditou que não seria punida. Ela achou que Karakas já estava desequilibrada e que – ao agarrar a perna da adversária – não estaria influenciando na queda da húngara.

     “Eu senti ela descendo e botei a mão na perna. Achei que já tinha sido dado o golpe. Achei que podia”, disse Rafaela, que disse esperar poder competir nas Olimpíadas na sua cidade natal daqui a quatro anos.

     O técnico Ney Wilson disse que a decisão da arbitragem é incontestável.

     “Foi justo. Ela fez o golpe da maneira clássica que fez com que isso fosse proibido no judô”, disse Ney. “A dor dela é justamente porque ela sabe que foi culpa dela.”

     (…)

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

Aproximadamente 20% dos atletas que integram a delegação brasileira que competirá nas Olimpíadas de Londres são militares da Marinha e do Exército. (…) ’o esporte é a atividade que mais se aproxima do combate em tempos de paz’ (…) na prática, esses novos militares terão somente a função específica de atuar em competições esportivas. Todos os participantes do programa são voluntários. Eles passam por um processo de seleção no qual a participação em competições internacionais e as medalhas já conquistadas na carreira são transformados em pontuação. Os que obtêm as melhores notas nesta fase são alistados e recebem um treinamento militar básico, que dura em média três semanas. (…) “Eu tinha interesse em ter uma segurança financeira. Como o esporte tem altos e baixos, queria ter os benefícios de um funcionário público e ao mesmo tempo trabalhar em uma instituição que valoriza o esporte” (…) ‘os valores do esporte e das forças armadas são semelhantes’. ”

 

      

     Sei não… Mas me parece que algumas coisas por aqui estão muito erradas.

 

     E não andam dizendo os próprios Comandantes que o orçamento das FFAA é um bocado curto e que está muito difícil, quase impossível, até mesmo acudir ao essencial?

 

     Ah, sim! Realmente, esticar o orçamento requer muita “ginástica”.

 

     Talvez vá daí a idéia de que os valores do esporte e os das FFAA venham a ser “semelhantes”…

 

     Podem até ser, não duvido. Idéias são idéias. Bem ou mal concebidas, não batem continência nem pedem licença para sair do Quartel. Nem para entrar no Quartel.

 

     E quem sou eu, afinal, para dizer que é o que, exatamente, estaria certo ou errado?

      

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http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/07/120725_olympics_militares_lk.shtml

      

     Londres 2012: Um quinto dos atletas brasileiros nos Jogos é militar

     Luis Kawaguti – Da BBC Brasil em São Paulo – Atualizado em 27 de julho, 2012 – 05:22 (Brasília) 08:22 GMT

     Aproximadamente 20% dos atletas que integram a delegação brasileira que competirá nas Olimpíadas de Londres são militares da Marinha e do Exército.

     Eles somam 51 esportistas de um total de 259, segundo o Ministério da Defesa, e devem competir em 12 modalidades, entre elas atletismo, esgrima, tiro, natação, pentatlo, judô e taekwondo.

     A grande quantidade de “atletas militares” se explica pelo Programa de Incorporação de Atletas de Alto Rendimento nas Forças Armadas iniciado pelo governo brasileiro em 2008.

     O general de divisão Fernando Azevedo e Silva disse à BBC Brasil que o programa foi criado para fortalecer a equipe brasileira para a 5ª edição dos Jogos Mundiais Militares, realizados no ano passado no Rio de Janeiro.

     No entanto, o projeto também visava inicialmente à preparação de atletas para as Olimpíadas de Londres e os Jogos de 2016 no Brasil.

     Segundo Silva, o objetivo das Forças Armadas com o programa é fortalecer o esporte de forma geral no país. “Além disso, a rigidez física faz parte da formação militar e o esporte é a atividade que mais se aproxima do combate em tempos de paz“, afirmou.

     Militares voluntários

     Os atletas chegam ao Exército e à Marinha através de concursos para preencher vagas de sargento ou marinheiro temporário especialista em atletismo de alto rendimento.

     Mas na prática, esses novos militares terão somente a função específica de atuar em competições esportivas.

     Forças Armadas recrutam atletas voluntários para atuarem em competições militares

     Todos os participantes do programa são voluntários. Eles passam por um processo de seleção no qual a participação em competições internacionais e as medalhas já conquistadas na carreira são transformados em pontuação.

     Os que obtêm as melhores notas nesta fase são alistados e recebem um treinamento militar básico, que dura em média três semanas.

     A partir daí, os atletas têm direito a receber um soldo e assistência médica e a utilizar as instalações esportivas militares, principalmente os complexos construídos no Rio de Janeiro para os Jogos Mundiais Militares.

     O lutador de taekwondo Diogo Silva, uma das esperanças brasileiras de medalha nos Jogos de Londres, entrou para a Marinha em 2009.

     “Eu tinha interesse em ter uma segurança financeira. Como o esporte tem altos e baixos, queria ter os benefícios de um funcionário público e ao mesmo tempo trabalhar em uma instituição que valoriza o esporte”, disse à BBC Brasil.

     Segundo ele, o processo de adaptação à vida militar foi fácil, pois seu esporte tem origem militar. Ele disse ainda que “o contato com o ambiente da Marinha com sua cultura e tradição foi muito positivo para sua vida pessoal”.

     Hinos e marcha

     Mas Silva afirma que sua rotina não mudou muito. Embora a base à qual está vinculado fique no Rio de Janeiro, ele continua morando e treinando em São Paulo e vai à cidade apenas para fazer exercícios específicos e participar de cerimônias militares.

     Sua vinculação à Marinha também não impede que receba patrocínios e, eventualmente, seja remunerado pela participação em campanhas publicitárias.

     Já a judoca Sarah Menezes, que também compete em Londres, diz que desde que se alistou à Marinha tem que informar à corporação onde está e o que faz.

     “Tenho que mandar presença semanal para eles por e-mail e estar sempre em atividade. E tenho que ir no quartel sempre que eles me mandam comparecer por lá”, disse à BBC Brasil.

     Diogo Silva treina em São Paulo mas se apresenta periodicamente em base naval no Rio

     Sarah se alistou à Marinha em 2009, através de uma parceria da Confederação Brasileira de Judô, em preparação para os Jogos Mundiais Militares. Mas ela afirma que, sem o apoio militar, não teria conseguido a vaga olímpica.

     Segundo a atleta, os valores do esporte e das forças armadas são semelhantes. No entanto, ela sentiu a diferença durante o treinamento que recebeu para se tornar marinheira.

     “Fizemos todas as tarefas que eles exigem para se tornar militar no curso do CEFAN (Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes) no Rio de Janeiro. Tínhamos que passar pelo processo deles, tipo acordar cedo todos os dias, organizar o quarto, ir para fila, cantar hinos, marchar.

     De acordo com o general Silva, alguns atletas também procuraram a carreira militar de olho no suporte médico ou por gostar da profissão, além da estabilidade financeira.

     Atualmente, a Marinha e o Exército mantém cerca de 300 atletas de alto rendimento. De acordo com oficiais militares, esse contingente não deve sofrer grandes alterações até as Olimpíadas de 2016.

     *Colaborou Camilla Costa

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     Um artigo de Jânio de Freitas na Folha de S.Paulo, hoje, intitulado “As armas do vazio mental“, entre outras coisas nos diz: “Antes de tudo, a conveniência militar alheia não é um problema a ser resolvido pelo Brasil”. Nada mais óbvio. E, disso, retira-se imediatamente apenas uma única conclusão: a de que a conveniência militar do Brasil é um problema a ser resolvido pelos brasileiros, ninguém mais.

 

     O texto não se refere à defesa ou à segurança do Estado, mas, sim, ao comércio de armas, e prossegue nos dizendo: “Ainda mais se o pretendente a comprador é uma ameaça a relações normais com seus vizinhos ou à liberdade e aos direitos humanos em seu país.” Esse “ainda mais” é sobremodo interessante – é como se nossas relações com nossos vizinhos fossem plácidas e pairassem em nível absolutamente livre de qualquer eventual enguiço potencial (tal como as apresenta a Unasur, talvez…). E afirmará, em seguida: “Esta regra essencial no Estado de Direito é transgredida pelo Brasil, com suas exportações de bombas condenadas e outras armas para o Oriente Médio e para ditaduras africanas. E ainda em operações triangulares”.

 

     A transparência do comércio internacional de armas, desejada por alguns como forma de controle de conflitos sob o argumento da garantia de proteção às populações civis, apesar de esse comércio ser feito também através do contrabando tal como o comércio de entorpecentes que por vezes se vê plenamente justificado, não é algo que se proponha e se decida assim, em uma conversa durante o chá das cinco. Armas são um item do comércio legal internacional, e comercia com armas quem delas crê necessitar (devido a um problema qualquer que não deve, tampouco, ser “resolvido pelo Brasil”, mesmo porque o Brasil não o poderá resolver, pois sequer os seus próprios problemas ele resolve) e quem as produz.

 

     O artigo citado nos explica ainda que “Com a idéia fixa (…) de que os Estados Unidos usariam a Colômbia para atacar a Venezuela, Hugo Chávez tratou de alardear suas grandes compras militares. Se houve, o risco arrefeceu e foi silenciado pelo novo presidente colombiano, Juan Manuel Santos, mais lúcido do que o antecessor Uribe”. Ora, então o que estimulou Chávez a armar a Venezuela terá sido a atitude do ex-Presidente colombiano? O risco de uma ação militar norte-americana contra Chávez, se é que havia, foi eliminado pelo atual Presidente colombiano? Caramba, como gozam de poder os indivíduos nascidos na Colômbia, valha-me Deus! E as demais pretensões bélicas de Chávez não entram nessa conta? Que bom! Só fica difícil compreender, então, por que cargas d’água há pouco mais de um mês Hugo Chávez ainda anunciava a chegada de um novo lote de armas russas…  

 

     Para que o nosso “vazio mental” não se perpetue, imposto sob as armas dos argumentos alheios, é preciso que o preenchamos com mais algumas questões, mesmo que bem simples, quase elementares. Isso mais nos é necessário, pelo menos para esquentar o raciocínio que é até capaz de ir bem longe, porque bem sabemos que o Brasil produz (algumas) armas. E que as diferentes armas constam como verbetes nos dicionários do dialeto dissuasivo, que é de uso internacional. O Brasil deve ou não deve produzi-las? Quem pode comprar armas no Brasil? O Brasil deve ou não deve exportá-las? Para quem poderá vendê-las? Se há “bombas condenadas” sendo produzidas e comercializadas, quem as produz em nosso País? Por quem a produção lhe vem sendo permitida? Nosso País deve ou não deve poder importar outras armas mais sofisticadas que aquelas que fabrica? Por quê? Esses assuntos são para ser debatidos em uma Conferência da ONU ou em nosso Congresso?

 

     Enquanto não nos posicionamos todos, consciente e democraticamente, em relação a isso, a Organização das Nações Unidas reuniu os seus 193 países membros para, entre o dia 2 de julho corrente e amanhã, 27, discutir o comércio de armas e tentar “diminuir o nível de armamento do mundo”, como nos anuncia uma rádio francesa, responsabilizando os próprios Estados pelo controle através de critérios específicos e registro das transações, como nos informa uma outra agência de notícias.

 

     Lendo aqui e ali, saberemos um pouco mais. Que, na Conferência da ONU em curso, Alemanha, França, Inglaterra e Suécia acusaram o mercado de armas de ser “uma crescente ameaça à humanidade”. E que Ban Ki-moon, Secretário Geral da ONU, pedia, ontem, aos países presentes na Conferência, que fossem flexíveis e agissem com boa fé para superar suas divergências. Ele se preocupava com os “avanços muito limitados” já obtidos nas negociações que devem ser concluídas na primeira hora de sábado (horário de Brasília). Apesar disso, o Secretário-geral da ONU mantinha a esperança de que a conferência gerasse “um tratado sobre o comércio de armas que seja sólido e juridicamente vinculante”.

 

     Para que se faça um Tratado, que é, realmente, uma tarefa muito e muito complicada, será necessária a aprovação de todos os países, e qualquer um deles poderá impor seu veto. Já de cara, algumas discussões prévias foram mais necessárias, atrasando a principal, até que pudesse ser decidido que a representação da Palestina e a do Vaticano se mantivessem presentes na condição de observadores.  

 

     Estados Unidos, com 40% do mercado, e Rússia, seguidos pela Alemanha, a França e o Reino Unido são os principais exportadores de armamento. Índia e China, que compram da Rússia, seguidas de Coréia do Sul e Paquistão, que compram dos Estados Unidos, são os maiores importadores.

 

     A Índia, o Paquistão, o Japão e a Arábia Saudita pretendem defender o direito de um país equipar as forças de segurança.

 

     A China quer excluir do Tratado as armas ligeiras.

 

     Conforme a posição cubana, deverá haver “um instrumento que preserve e garanta plenamente o direito de todo Estado a fabricar, importar e possuir armas para sua legítima defesa e suas necessidades de segurança”. Esse argumento se completa com o seguinte: “um critério de muita relevância é a proibição da transferência de armas a atores não estatais ou que não estejam devidamente autorizados pelos Estados”. Não deixa de ser uma posição sumamente interessante, pois sabemos que os Estados se manifestam por intermédio da voz de seus Governos. Se o critério para usufruir do direito “legítimo” a possuir e usar armas não é a exatamente a responsabilidade cívica, mas sim uma autorização que reflete a vontade do Governo, imaginemos quem, no Brasil, hoje, poderia obter esse privilégio (e quem o perderia)…

 

     Já para Obama – representando o Governo dos EUA, que está presente em todo o mundo para garantir a “democracia” e que, até ontem, não aceitava discutir qualquer regra internacional que interferisse no comércio de armas –, munições não deverão entrar em pauta, e a preocupação com a estabilidade regional deve ser considerada, justificando-se plenamente, caso ela seja ameaçada, o comércio de armamento. 

 

     O diretor da campanha de controle às armas no mundo, Jeff Abramson, lamenta que “Em tempos de crise econômica (…) a venda de armamentos também faz parte da estratégia de crescimento, e isso poderá ser um dos empecilhos nas negociações”. Opa, eu cá já diria que é bom saber que alguém nesse mundo tão perfeitamente idealizado não sofre de absoluto “vazio mental”…

 

     Mas, voltando ao artigo de Jânio de Freitas, ele nos lembra que “A população vê e ouve os sinais do sofrimento e da morte. Mas lerá a inscrição dos petardos em seu voo? E depois de bombas, balas e foguetes destruídos por sua própria explosão, onde estarão as inscrições para a comprometedora ‘identificação de quem os forneceu’?”

 

     Bem, há quem considere que uma população bem formada e bem orientada seja perfeitamente capaz de ver e ouvir e de procurar muito mais que isso. Inclusive de encontrar sua própria responsabilidade nos males que enfrenta. E de reagir da melhor forma. Mas o “pacifismo”, ideologia que justifica manter-se o desarmamento como meta, por vezes nos deixa muito desconfortáveis, quase sem encontrar palavras para rebatê-lo racionalmente, em virtude do extremado surrealismo (um eufemismo para extremada tolice, infantilidade, mesmo) de seus argumentos puramente emocionais. Que comovem multidões. Em todo caso, eu ainda me atreveria a perguntar: e as flechas, que também voam e não se autodestroem, elas são armas? Este é um assunto que poderá “ser resolvido pelo Brasil”? Ou deve ser submetido a uma decisão da ONU? Ou seria ele da alçada exclusiva de um Comitê Olímpico?

 

     É por nada, não; é que, depois do “meia volta, volver!” ordenado, sob a pressão das ONGs ditas sócio-ambientalistas e de defesa de direitos dos índios, pela AGU (Advocacia Geral da União) na marcha da sua própria Portaria 303 publicada em 17 de julho último – a que regulamenta, de acordo com as 19 condicionantes definidas pelo STF (Supremo Tribunal Federal), a atuação da União em processos judiciais que envolvam a demarcação e uso de terras indígenas em todo o país –, pensei ser conveniente me interessar por saber… Só para saber, juro, para nada mais.

       

 

 

 

  

  

 

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