Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

(fechando 2013)

 

 

 

 

       O ano de 2013 termina e, tentando recordar o que de importante ocorreu nos últimos 12 meses, nada encontramos. É como se não tivéssemos existido. Foi mais um tempo em tempos de nulidades. E nada encontramos que permita projetar um 2014 minimamente diferente, muito menos o que permita concebê-lo como promissor. Nem mesmo algo que permita antecipar o surgimento de qualquer “salvador da Pátria” tão esperado por tantos de nós. Para projetar, há apenas a continuidade da lenta sangria que há anos debilita o País. 2014 nos há de chegar, assim, sem qualquer expectativa de que algo se altere em nossa Sociedade. Um ano sem esperanças, portanto.

 

      A pretexto da proliferação de intelectuais panegiriqueiros desencadeada nos meios de comunicação por ocasião da recente morte de Mandela, a pretexto da pertinência da projeção da ação desse líder sul-africano sobre a nossa realidade, a pretexto também dos que, por ignorância, sob aplauso dos entusiastas da reforma radical de nossos mais de 500 anos de História, derrubam, sem qualquer cerimônia, Deodoro da sela de seu cavalo e oferecem-na a Joaquim Barbosa, cabe, da nossa perspectiva, a brasileira, tentar levantar aqui algumas ponderações, ainda que muito poucas, considerando-se o número possível delas.

 

      Para tanto, trago alguns “retratos do Brasil”, este gigante verde e amarelo que nos deveria alimentar e acalentar os sonhos, fossem modestos ou grandiosos, abraçando-os e protegendo-os em seu berço esplêndido.

 

      1. O primeiro deles poderá ter em destaque a “Inteligência” brasileira, que até procura fazer pose elegante, mas é facilmente pega desprevenida, em atitude displicente ou se descabelando. Na foto revelada por Thomas Shannon, o Brasil se mostra um fácil “alvo de ataques cibernéticos diários”. Os demais detalhes dessa foto, que foi publicada e comentada em http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2013/12/20/servico-de-inteligencia-do-brasil-e-pobre-declara-assessor-da-casa-banca/, ou são Diplomacia (que nós já não sabemos o que seja) ou são fofocas palacianas, inclusive o comentário que o ex-Embaixador em Brasília pudesse ter feito a respeito da decisão do Governo de comprar da sueca Saab e não da norte-americana Boeing os 36 caças que “reequiparão” (??) a Força Aérea brasileira. Evidentemente, não interessará aos EUA, tal como a nenhum outro país industrial interessaria, em tempo algum, por qual motivo fosse, abdicar de qualquer oportunidade de “cooperar com a FAB”. Questão de mercado e de projeção de poder.

 

      O pano de fundo para o destaque é um horizonte que nos aponta Miguel Ángel Fernández y Fernández, Almirante da Marinha espanhola:

 

O desenvolvimento do ciberespaço está forçando, como se vê, mudanças estratégicas no campo da segurança nacional e, inclusive, no campo militar …  há que ter em conta na avaliação da ameaça, a ordem de combate, as capacidades cibernéticas do inimigo. Dizia Sun Tzu, tantas vezes citado como referência em assuntos de estratégia, que alcançar cem vitórias em cem batalhas não é o melhor; melhor é submeter o exército inimigo sem necessidade de combater. Talvez aqui resida a idéia deste tipo de guerra, que se dirige especialmente às infra-estruturas mais críticas de um país, como a energia elétrica, as comunicações, mando e controle, as finanças ou o transporte, cujo colapso significa a derrocada, sem disparar um único tiro, de um inimigo já incapaz de oferecer resistência” (http://database.jornaldefesa.pt/estrategias/JDRI%20086%20201213%20guerra%20cibernetica.pdf)

 

      Imaginar, pois, o Brasil, no estado em que se encontra, a enfrentar, por sua própria conta e risco, uma guerra cibernética será apenas divertido. Não é sério.   

 

      2. Fatos são fatos, intenções são intenções, ilusões são ilusões. Em um segundo retrato, o que vemos é a Força Aérea Brasileira engessada por falta de aviões. Receberá um, dizem os otimistas, em 2018 – o primeiro dos 36 caças que da Suécia foram comprados como “resposta”, dizem também, às curiosas espiadelas norte-americanas às quais o Governo brasileiro se expôs. Os demais chegarão nos três anos seguintes. Gripens foram também comprados pela Tailândia – seis deles decolaram em fevereiro de 2011, fazendo escalas na Hungria, Grécia, Egito e na Índia antes que pousassem em seu destino (http://www.planobrazil.com/tailandia-recebe-os-seis-primeiros-saab-gripen-cd/); e foram os escolhidos pela África do Sul – segundo o que se lê em http://www.areamilitar.net/noticias/noticias.aspx?nrnot=558, “é o mais sofisticado avião de combate ao serviço a sul do Sahara”. Estamos bem acompanhados em nossas escolhas… Além de podermos saber, por uma reportagem de O Globo (http://g1.globo.com/politica/noticia/2013/12/governo-anuncia-compra-de-36-cacas-suecos-do-modelo-gripen.html), que o Gripen NG sueco, modelo novo, goza de tecnologia inferior à dos concorrentes no processo de seleção aberto pelo Governo brasileiro, tem menor capacidade de carga, portanto, de carga de armas, voa com recursos produzidos não pela Suécia, mas inclusive por norte-americanos, não foi provado em combate, é um protótipo de uma única turbina, mas seria perfeito para “atender às necessidades operacionais da FAB pelos próximos 30 anos”, saberemos também, sem auxílio de qualquer repórter investigativo, que, se hoje não há aviões, amanhã não haverá pilotos. E não havendo aviões nem pilotos, as bases da FAB serão supérfluas – o que nossos previdentes governantes já compreenderam porque são inteligentes:

 

Enquanto no ar os pilotos de caça não conseguem cumprir, em um ano, as 150 horas de voo obrigatórias para manter as condições de combate, na terra a Aeronáutica conduz discretamente um processo de desativação de bases aéreas para gastar menos. E a expectativa na tropa, com a encomenda de R$ 4,5 bilhões a Suécia, é que o comando aperte ainda mais os cintos. A pretexto de redimensionar a frota, a Aeronáutica já esvaziou os hangares de duas bases [Natal e Fortaleza]a política de desativação deve atingir agora a base de Florianópolis (SC), sede do esquadrão Phoenix, formado por Bandeirantes Patrulha (2º do 7º), e a histórica Base Aérea do Campo dos Afonsos, na Zona Oeste do Rio— ‘E assim, base após base, município após município, a FAB vai reduzindo sua presença nacional e consequentemente a função econômico-social que exerce dentro das comunidades às quais se integra’ — disse um piloto de testes, que prefere não se identificar.”  (http://oglobo.globo.com/pais/enquanto-gripen-nao-chega-fab-fecha-bases-para-economizar-11134543#ixzz2oCVznuNp).

 

      E, nesse enxugamento pragmático, o Brasil promete permanecer por mais 5 anos, quando, depois de um processo de duas décadas, pois que iniciado em 1992, poderá, por fim, dizem ainda, enfrentar “ameaças em qualquer ponto do território nacional com carga plena de armas”.

 

      3. O terceiro retrato nessa mesma página de nosso álbum é o do Exército Brasileiro, primordial responsável pela consolidação da unidade nacional, tentando sobreviver miseravelmente na Amazônia e nas fronteiras para que o Brasil sobreviva com seu território e sua identidade íntegros, enfrentando e superando grupos inimigos, místicas raciais e superstições sociais. Ele nos mostra (http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/12/soldados-que-defendem-fronteiras-da-amazonia-vivem-na-idade-da-pedra.html) que o abastecimento de alimentos e medicamentos dos pelotões de fronteira se dá a cada 30 ou 45 dias, dependendo da disponibilidade de um avião. Água para banho, para lavar roupa e louça será a do rio e para beber é a da chuva. A carne é guardada congelada e, também para que isso seja possível, geradores funcionam 16 horas por dia. Em dois pelotões esses geradores pararam de funcionar ao mesmo tempo, em 16 de Novembro último, devido a que o combustível havia sido adulterado. A tropa ficou mais de 24 horas sem energia. A FAB, apesar das restrições de ordem não exclusivamente orçamentária, acudiu em caráter de urgência. De regra, uma única viagem por mês é feita a cada unidade. Quem precisar de medicamento ou ser transportado, deve esperar. Em Boa Vista, o avião que apóia 6 pelotões de Roraima permaneceu em terra para manutenção por mais de uma semana. Dois pelotões estão com pistas de pouso curtas demais, em péssimo estado, sem condições para pouso de grandes aeronaves. Em virtude dessas condições precárias, onde a pista não oferece condições de sequer garantir alimentação para todos, os familiares dos militares foram retirados. E o efetivo foi reduzido – onde havia 60 homens apenas 17 são mantidos. A FAB só opera com aviões que comportam até 600 quilos, nenhum avião capaz de levar 6 ou 7 toneladas. Afora isso, são vinte minutos (é até pouco…) para conseguir conexão na internet, não há sinal de celular, nem telefonia fixa além de um orelhão. O Brasil, em 2012, possuía munição para apenas uma hora de guerra. Não sabemos quanta munição utilizável hoje ele terá. Mas já sabemos que nosso País não se interessa por guerras – o Brasil quer a paz. Então, está tudo certo.

 

      4. Dito isso, viremos a página desse álbum. E será interessante nos lembrar do que todos nós fazemos questão de esquecer – o que Gilberto Freyre nos disse em 1963: “A mestiçagem unifica os homens separados pelos mitos raciais. A mestiçagem reúne sociedades divididas pelas místicas raciais e grupos inimigos. A mestiçagem reorganiza nações comprometidas em sua unidade e em seus destinos democráticos pelas superstições sociais”. Lembrando disso – do que é ou deveria ser, que um dia já foi e quase não mais é – se formos um pouco mais inteligentes que nossos governantes, começaremos a perceber que a única chance real que o Brasil terá de manter-se minimamente vivo é encontrar e, encontrando, proteger a unidade e a força de seu povo, apostando nelas. Para isso, é preciso que esse povo tenha uma identidade e a queira defender. Ou seja, a única chance que temos de nos mantermos minimamente vivos é encontrar e proteger a nossa identidade.

 

      E o retrato seguinte a apreciar poderá ser o da Escola brasileira, tentando miseravelmente deseducar uma reduzida parte da população ainda relativamente educada na nacionalidade para que o Brasil se fragmente por completo e, sem identidade, não sobreviva aos mitos raciais, aos grupos inimigos e às superstições sociais

 

***

 

      O Brasil não é a África. A começar porque a África é um continente e o Brasil é um Estado. E, sendo um Estado, nem faz parte da Federação que se denomina Estados Unidos da América, nem é a África do Sul, nem é outra coisa qualquer senão Brasil. O Brasil tem uma História só dele mesmo, feita por brasileiros, uma História de origem diferente da História dos tais nossos “irmãos”, os ditos “latinos” que se encontram no continente americano, diferente da História mais recente de qualquer outro país da região ou fora dela, que terá produzido experiências diferentes das experiências que qualquer outra História pudesse permitir – a nossa História de fato é aquela que permitiu que chegássemos onde estamos, a que muitos procuram deturpar para transformá-la em igual à que seria a História “de todos”.  Nenhuma outra. Seria de se supor que a população brasileira buscasse afirmar sua identidade em seu próprio benefício, buscando-a em sua origem, e sob ela se organizasse, procurando cada vez mais superar as questões de ordem administrativa e de ordem socioeconômica na miscigenação incontestável que desde sempre a caracterizou. Não é o que acontece. O País cada vez mais se desorganiza produzindo efeitos em cascata em ambas as esferas e em muitas outras mais.

 

      Teremos, assim, nas páginas seguintes, outros retratos mais, interessantes de ver e de rever, alguns apenas extravagantes, outros muito e muito preocupantes, mas todos eles do Brasil.

 

      5. Em 1928, Paulo Prado, nascido primogênito do Conselheiro Antônio Prado, no seio de uma das mais influentes famílias paulistas, cafeicultor, investidor (bancos, industrias, imobiliárias), formado em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, incentivador da Semana de Arte Moderna, escritor e poeta, jogou-nos em cima um “Ensaio sobre a tristeza brasileira”. O que era chamado de “tristeza” seria uma característica de um povo que ele, mas não apenas ele, Paulo Prado, observava com o desdém pelas evidências apenas apropriado aos pedantes e aos ignorantes. Essa “tristeza” mereceria ser explicada de maneira “original”, embora essa explicação fosse apenas uma opinião, mas estivesse de acordo com as teorias históricas ditas “científicas” em voga no momento – as que foram sacadas do bolso da algibeira de um Gobineau e de um Chamberlain, por exemplo. Paulo Prado nos dirá a nosso respeito, entre outras coisas mais, que

 

A melancolia dos abusos venéreos e a melancolia dos que vivem na idéia fixa do enriquecimento — no absorto sem finalidade dessas paixões insaciáveis — são vincos fundos na nossa psyché racial, paixões que não conhecem exceções no limitado viver instintivo do homem, mas aqui se desenvolveram de uma origem patogênica provocada sem dúvida pela ausência de sentimentos afetivos de ordem superior. Foi na exaltação desses instintos que se formou a atmosfera especial em que nasceu, viveu e proliferou o habitante da colônia. … No Brasil a tristeza sucedeu à intensa vida sexual do colono, desviada para as perversões eróticas, e de um fundo acentuadamente atávico. Por sua vez a cobiça é uma entidade mórbida, uma doença do espírito, com seus sintomas, suas causas e evolução. Pode absorver toda a energia psíquica, sem remédios para o seu desenvolvimento, sem cura para os seus males. Entre nós, por séculos, foi paixão insatisfeita, convertida em idéia fixa pela própria decepção que a seguia … sem que nunca lhe desse a saciedade da riqueza ou a simples tranqüilidade da meta atingida … pela inutilidade do esforço e pelo ressaibo da desilusão. Luxúria, cobiça: melancolia. Nos povos, como nos indivíduos, é a seqüência de um quadro de psicopatia: abatimento físico e moral, fadiga, insensibilidade, abulia, tristeza. Por sua vez a tristeza, pelo retardamento das funções vitais, traz o enfraquecimento e altera a oxidação das células, produzindo nova agravação do mal com o seu cortejo de agitações, lamúrias e convulsões violentas”.

 

      Assim, Paulo Prado retratou o Brasil, retrato esse que foi exposto em álbuns de família, foi emoldurado e pregado nas paredes das casas, exibiu-se em galerias públicas e em palanques políticos, agitando orgulhos e preconceitos particulares estúpidos, que estão na fonte do racismo, e pretensões separatistas.

 

      Para controlá-los, em 03 de Julho de 1951, surge uma lei contra a discriminação racial (Lei 1.390/1951), conhecida como Lei Afonso Arinos, em plena vigência e no vigor de seus resultados até os dias de hoje, apenas alterada (Lei 7.437, de 20 de Dezembro de 1985) para incluírem-se em alguns de seus artigos, após “preconceito de raça ou de cor” as palavras “de sexo ou de estado civil”. Em nosso País, que conta (ou na época contava, e contou até que todo furta-cor passou a ser obrigado a escolher e declarar a cor de suas vísceras) com mais de 50% da população miscigenada, tal Lei apenas brindava e reafirmava uma tendência espontânea da maioria nacional e corrigia desvios. Corrigia a marginalidade, nada mais.

 

      No entanto, outros muitos entre os discípulos dos grandes teóricos acima citados, repetiriam seus mestres e se encarregariam de aperfeiçoar o ofício de disfarçar o óbvio social com argumentos mirabolantes, se não insanos, que calariam fundo em alguns grupos de nós. Não só entre considerados brancos. O que deu origem a diferentes expressões multicoloridas da mesma coisa. Assim, o “orgulho de ser” qualquer-coisa-descendente que tempere com boas qualidades um pífio ser brasileiro e o faça muito especial entre os demais mestiços todos é ainda a ilusão que mais nos castiga o couro e o juízo – até os dias de hoje. A começar do “pífio”. E, assim, fomos brindados com muitos outros retratos do Brasil nesses últimos 85 anos em que já podiam ser percebidos os atuais recursos de um photoshop de última versão, antecipados e fartamente utilizados.

 

      6. Em uma Nação composta de todos e qualquer um que a quisesse compor, desde o primeiro momento, uma Nação inteiramente miscigenada entre todas as etnias concebíveis, por isso mesmo tão extraordinária, não podemos admitir que qualquer minoria presuma gozar de qualquer superioridade sobre os demais provinda de uma suposta pureza racial; nem poderíamos atribuir responsabilidades e culpas exclusivamente a uma única dada etnia; muito menos poderíamos determinar uma tendência, uma índole, um caráter, qualquer característica específica não eminentemente política que unificasse a maioria mestiça; menos ainda alguma vez poderíamos ter atribuído à maioria qualquer inferioridade intelectual genética que nos induzisse à servidão.

 

      Poderemos afirmar, portanto, com absoluta segurança, que, se isso acontece, apenas acontece graças à influência e à ação de organizações globais, supra-estatais, tanto de esquerda quanto de direita (charmosamente denominadas “think tanks” ou ONGs), religiosas ou laicas, que visam, especificamente, à desarticulação do Estado Nacional. E acontece não só no Brasil. E não só nos dias de hoje. Essas organizações se infiltram e se confundem com instituições nacionais fantasiadas de protetoras dos direitos das ditas vítimas do preconceito racial, e desfrutam da demagogia eleitoreira dos que apontam uma “minoria branca” como responsável por todos os nossos males, inclusive pela violência urbana – tal como um Claudio Lembo (seria ele bege, azul ou cor de rosa?), na maior desfaçatez, quando Governador de São Paulo, foi capaz de retratar… – http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u121683.shtml).

 

      7. Muito bem, há opiniões de salão que são tomadas como teorias científicas. Especialmente quando a opinião é a de uma “autoridade”. As teorias não são tão importantes quanto os fatos, mas serão bastante importantes, principalmente porque nem sempre se reduzem a explicar os fatos – o que é a função de qualquer teoria. Agindo como ideologia, as teorias, por vezes, criam os fatos. Ou transformam fatos esparsos, sem qualquer importância generalizada, em fatos determinantes.

 

      Kabengele Munanga tem em seu currículo uma graduação em Antropologia Cultural pela Université Officielle Du Congo à Lubumbashi e um Doutorado em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, da qual é Professor Titular. Ele também nos mandará olhar o passarinho. O retrato por ele revelado tem, como pano de fundo, algumas considerações pertinentes (https://www.ufmg.br/inclusaosocial/?p=59):

 

Os conceitos de negro, branco e mestiço não significam a mesma coisa nos Estados Unidos, no Brasil, na África do Sul, na Inglaterra, etc. Por isso que o conteúdo dessas palavras é etno-semântico, político-ideológico e não biológico. Se na cabeça de um geneticista contemporâneo ou de um biólogo molecular a raça não existe, no imaginário e na representação coletivos de diversas populações contemporâneas existem ainda raças fictícias e outras construídas a partir das diferenças fenotípicas como a cor da pele e outros critérios morfológicos. É a partir dessas raças fictícias ou ‘raças sociais’ que se reproduzem e se mantêm os racismos populares. … o racismo é essa tendência que consiste em considerar que as características intelectuais e morais de um dado grupo, são conseqüências diretas de suas características físicas ou biológicas. … difícil é aniquilar as raças fictícias que rondam em nossas representações e imaginários coletivos.”

 

      Até aqui, tudo bem. Mas o acadêmico ainda nos dirá, de boca cheia, ao solenemente perorar:

 

A questão é saber se todos têm consciência do conteúdo político dessas expressões e evitam cair no biologismo, pensando que os negros produzem cultura e identidade negras como as laranjeiras produzem laranjas e as mangueiras as mangas. Esta identidade política é uma identidade unificadora em busca de propostas transformadoras da realidade do negro no Brasil. Ela se opõe a uma outra identidade unificadora proposta pela ideologia dominante, ou seja, a identidade mestiça, que além de buscar a unidade nacional visa também a legitimação da chamada democracia racial brasileira e a conservação do status quo.”

 

      Esse flash sobre inúmeras “identidades” raciais, que muito agradará à “Humanidade” – e a estimulará a mobilizar-se para que nossa “identidade mestiça” não mais busque “a unidade nacional nem vise à “legitimação da chamada democracia racial brasileira” – será pano de fundo para outras fotos mais. E, nelas, negros, brancos e outros mais até poderão não pretender uma relação de superioridade/inferioridade, mas serão diferentes como água e azeite, que não se misturam. Se não se misturam, será impossível qualquer referência à nossa Nação, pois ela se caracteriza pela mestiçagem. Essa “evidência” também justificará o isolamento entre os considerados brancos e os considerados índios. E justificará a manutenção da “cultura ancestral” desses últimos. Essa divisão “necessária” criará evidente desconforto ao tentarmos consolidar qualquer manifestação de nossa cultura eminentemente mestiça e nascida da mestiçagem.

 

      8. Vejamos, por exemplo, o retrato da música popular brasileira. Ela nem é preta nem é branca – é música e é brasileira, ponto. Não é jazz, não é reagle, não é funk e não se resume ao samba. Nem todo samba é alegre, nem todo samba é triste. O samba carioca é diferente do samba paulista, que é diferente do samba baiano. E quem faz sambas não são brancos ou são pretos – são compositores, músicos e letristas. Vinícius de Moraes (poeta, parceiro de Carlos Lyra, Pixinguinha, Baden Powell, Tom Jobim, João Gilberto, Toquinho…) nos teria afirmado que “se hoje ele [o samba] é branco na poesia, ele é negro demais no coração”. O que separa o verbo, o intelecto, que seria branco, do ritmo e da melodia, que seriam negros. O poeta de Ipanema ainda mais determinaria: “pra fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, se não, não se faz um samba, não”. Apesar de que seja “melhor ser alegre que ser triste” – o que não há como contestar. Então, o bom samba seria meio alegre e meio triste. O samba que assim não fosse não seria considerado bom. Não poderia ser bom porque não teria beleza. Esses versos todos estão em um único samba. Cada um deles soa muito bonito, mas, no conjunto, dizem não mais que uma tremenda cretinice.

 

      A questão preta x a questão branca foi levantada em uma entrevista – publicada no Pasquim em Agosto de 1970 e citada em http://euqueroumsamba.blogspot.com.br/2012/02/as-patacadas-do-branco-mais-negro-do.html – concedida por Paulinho da Viola (compositor, violonista e poeta, que cresceu na zona Sul do Rio em contato com os integrantes do conjunto Época de Ouro, do qual seu pai, César Faria, era parte, e com Jacob do Bandolim, Pixinguinha e outros gigantes da nossa música popular). Em certo momento dela, Vinícius intervém e argumenta: “Eu acho que quanto mais o negro se aproximar de uma cultura, menos racista ele deve ser. Compreende-se que como “cultura” Vinícius se referisse a “civilização”, não a qualquer cultura tribal. Ele prossegue: “É a cultura que aproxima as pessoas e resolve os problemas. Até agora não tem resolvido nada, mas nossa esperança é que resolva.” E declara, como bom poeta que era: “o grande problema do racismo se resolve na cama”. Compreende-se que como “problemas” Vinícius quisesse dizer “conflitos” e ao apontar “resolver” Vinícius quisesse apontar “miscigenar”. Ou, sendo ele um macho, quisesse apenas apontar “dominar”…?

 

      Paulinho da Viola rebaterá: “Eu acho que aí há um negócio diferente. No momento em que você tenta fazer certas afirmações em termos de uma cultura negra, de certos valores negros, e tenta afirmar isso como valores absolutos, como uma coisa que tem que ser porque não foi, eu acho que é racismo. … Essa afirmação desses valores que você entende como uma posição racista, ela é racista até certo ponto. Dependendo das proposições, das coisas que estão acontecendo, ela até pode ser uma posição válida e importante, ela pode não ser uma posição racista.”

 

      A questão não foi resolvida nem por um nem por outro, nem por alguém mais, mesmo porque não seria uma questão a ser levantada por qualquer um de nós com um mínimo de juízo; e nós, que, sem discutir se o samba seria branco ou seria negro, que costumávamos produzir, entre negros, brancos e principalmente mestiços, muitos sambas lindos, , e costumávamos aprender, cantando, a falar, a pensar e a sentir o País em bom Português, com versos perfeitos, por vezes refinados, sofisticados, nunca pedantes, hoje nada aprendemos nem produzimos mais. Ou não divulgamos, o que dá na mesma. E não mais sabemos cantar a nossa música, exceto em círculos muito restritos. Porque nossos sambas não mais nos fazem falta. Ninguém mais os assovia sequer nas ruas. É possível que os tenhamos superado com nosso ingresso no álbum de fotos da “pós-modernidade”. Porque a “Humanidade” tem seus ritmos próprios, mais adequados à “globalização”, e, no território nacional, o importante será desqualificar a cultura e enterrá-la de vez para que se rompa a unidade em prol da dispersão. Por outro lado, consideremos que, se para fazer um belo samba é preciso um bocado de tristeza, para nos mantermos fazendo sambas deveríamos nos manter um bocado tristes. Ou meio tristes. O que nem é muito sadio nem é muito agradável…

 

      9. Mas, por falar em proposições e em valores, Edison Portilho, ex-Deputado Estadual (PT-RS), atual vereador de Sapucaia do Sul, animado com a garantia constitucional dos direitos e deveres individuais e coletivos … estampada “no art. 5º, especificamente no Inciso VI, ‘é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias’, apresentou, em Agosto de 2003, o Projeto de Lei n° 282 que acrescenta parágrafo único ao art. 2º da lei nº 11.915, de maio de 2003, que institui o Código Estadual de Proteção aos Animais no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul, com a seguinte redação: “Art. 2º…. Parágrafo único – Não se enquadra nessa vedação o livre exercício dos cultos e liturgias das religiões de matriz africana.”

 

      Portilho agitou-se agitando esse projeto em retrato que lhe seria caro, declarando de sua tribuna: “Não sou Batuqueiro, mas sou Negro. E, como Negro, tenho o dever de lutar por esta causa.” (http://blogs.estadao.com.br/joao-bosco/tag/edson-portilho/). Doque se conclui que tentar impedir a aprovação desse Projeto seria racismo. Racismo também seria supor, como supôs Vinícius de Moraes que “quanto mais o negro se aproximar de uma cultura, menos racista ele deve ser”. Como Portilho, de Deputado, desceu à condição e ao salário de Vereador, é lícito crer que nem sequer a confiança dos negros, entre os quais se incluiu mas não são tão estúpidos, conseguiu manter… 

 

      10. Muito pouca gente, especialmente no Sul e no Sudeste, conhecerá Leão Alves. É um médico, membro do “Nação Mestiça”, movimento que surgiu no Amazonas e defende “a valorização do processo espontâneo de mestiçagem entre os indígenas, brancos portugueses colonizadores, pretos africanos trazidos ao Brasil no período escravista, amarelos e demais imigrantes”. Leão Alves permitirá que tenhamos de nós um retrato mais aproximado da nossa realidade.  Diz ele :

 

O antropólogo Kabenguele Munanga não responde na primeira pessoa, mas informa que ‘construir a identidade “mestiça” ou “mulata”’ é considerada por ‘mestiços conscientes e politicamente mobilizados como uma aberração política e ideológica, pois supõe uma atitude de indiferença e de neutralidade perante o processo de construção de uma sociedade democrática, na qual o exercício da plena cidadania, a busca da igualdade e o respeito das diferenças constituem tributos fundamentais.’ Quem seriam estes ‘mestiços conscientes’ que o antropólogo não nomeia? Quem seriam estes ‘mestiços’ tão conscientes de sua identidade que eles mesmos defendem que esta não deva ser ‘construída’? Como é possível falar em ‘respeito das diferenças’ sem respeitar uma identidade mestiça independente? O ‘politicamente mobilizados’ parece indicar a resposta.”

 

      Para confirmar sua autoridade no assunto, Leão Alves nos dirá ainda:

 

“… sou mulato e nunca percebi ter sido chamado pejorativamente por este termo, exceto por alguns ativistas de movimentos negros que se iraram quando assumi minha identidade mestiça numa audiência do Senado em Brasília acerca do PL das Cotas Raciais, e em alguns outros eventos similares. Como dissemos, a tentativa de dar ao termo mulato uma conotação depreciativa visa atingir o objetivo político de constranger o mulato e fazê-lo identificar-se como negro.” (http://www.nacaomestica.org/la_kabengele_munanga_e_a_aberracao_mestica.htm):

 

      A essa altura, Paulo Prado talvez desse um pulo na sepultura e na discussão interferisse nos dizendo que brancos produzem cultura e identidade como laranjeiras produzem laranjas e mangueiras produzem mangas… com o que Vinícius de Moraes, pulando na sua, concordaria, ou não, e também Kabenguele Munanga poderia concordar, ou não, concordando, ou não, também com Edison Portilho, uma vez que a “consciência” de que os negros, assim como os índios, devem ter seus direitos particulares acudidos e defendidos deverá pairar acima de qualquer outra consciência.

 

      11. E, por isso, desde já, mais um retrato do Brasil nos poderá ser exposto nessa galeria: o de cinco dos grandes caciques de nossas tribos selvagens, todos eles candidatos a anjos e a santos, em vôo conjunto à África do Sul a convite da “presidenta” búlgara na poesia e negra no coração, para homenagear, em uníssono e de mãos dadas, Mandela, líder anti-apartheid que não encontrou a morte na posição de Chefe de Estado em exercício. É um retrato de um Brasil que “mereceu” financiar uma comitiva para que rendesse honras a um grande líder da “Humanidade” em cerimônia politicamente ecumênica.

 

      Eis que chegou a vez de Mandela subir ao altar da nossa Pátria, posando entre os “guerreiros do povo brasileiro” com amparo de todos os inconseqüentes. Então, que fazer? É esperar para ver, agora, o que, em nome de Mandela e de sua luta, poderá ser desejado, ser dito e ser feito.

 

      Conforme disse não eu, mas Luís Felipe Pondé em programa de televisão, fosse Mandela católico e poderíamos chamá-lo de santo desde já. A observação cairá como uma luva sobre o ilustre recém-morto e sobre todos os demais que, entre os que são e estão bem vivos, já estão mortos, mas sobrevivem, por insuspeita excelsa glória, a todos nós. O que acontece, acontece em todos os tempos do tempo, aconteceu com muitos mais antigos, aconteceu com Lineu, Gobineau e Chamberlain etc. etc., aconteceu também há pouco menos de um século com Gandhi, e acontece agora com Mandela e ainda acontecerá com outros mais. O que acontece é que certos indivíduos dão um “salto qualitativo” e serão adotados como ícones por todos aqueles que não têm amor à terra e não se identificam em sua nacionalidade. Serão “superiores”.

 

      Aqui não se trata de questionar o valor de Mandela para seu próprio povo – trata-se de ponderar se existem de fato razões para que se atribua ao seu discurso qualquer vantagem adicional para o nosso povo, o brasileiro. Mas, uma vez que os supostos interesses da “Humanidade” devem se sobrepor aos de nosso Estado, uma vez que Afonso Arinos pôde ser esquecido, a nossa realidade já pouco nos importa. Se verificamos que nela nos será impossível encontrar a pertinência do discurso de Mandela, poderemos tentar compreender, se formos curiosos, por que esse discurso se torna tão valioso. E a única explicação para o valor que lhe é atribuído se encontrará em que ele justifica plenamente que, de decomposição em decomposição, de salão literário a salão literário, de ensaio científico a ensaio científico, de homenagem a homenagem, possamos nós ir adiante de forma “politicamente correta”, condenando o “branqueamento” da população, que “devemos” condenar horrorizados, e compondo, pedaço a pedaço, em um mosaico sem cimento forte que o sustente, o retrato fragmentado deste (ainda) nosso Brasil colorido por inteiro. Todos esses pedaços, lado a lado, tingidos de cada uma das cores que possamos encontrar em seu isolamento, desarraigadas, disponíveis à manipulação de qualquer um para objetivos de qualquer espécie, formarão o retrato do Brasil segmentado, que revela o porquê da situação miserável que a Escola brasileira enfrenta – Escola que só diz a que está enquanto projeção de Brasil houver, ou seja, enquanto houver uma identidade nacional a se projetar -, e da situação miserável que as Forças Armadas Brasileiras suportam – Forças Armadas que só dizem a que estão enquanto Brasil se mantiver, ou seja, enquanto houver uma integridade nacional a manter. Escola e FFAA são dois retratos de conjunto nesse álbum do Brasil inteiro, o de todos nós, a nos acotovelar, cada um com cada um, todos com todos os demais, tentando sobreviver no território dito brasileiro.

 

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      Ao virar mais esta página de nosso álbum de retratos, encontraremos uma folha solta, pautada, de rascunho, que ninguém sabe quem ali a terá colocado, na qual foi feito um rabisco com lápis verde e azul como a Amazônia que lembra a forma humana; sobre os membros e a cabeça, desproporcionais, foi grosseiramente passada uma borracha que os deixou menos nítidos. No alto da folha, uma palavra foi escrita: “Humanidade”.

 

      Aqui e ali vemos mudas da “Humanidade” sendo plantadas, adubadas e regadas com conveniente mise en scène e muitas lágrimas. Em nenhum lugar as vemos vicejar. Porque a “Humanidade” nada tem a ver com a Biologia – é uma definição estritamente política, ideológica. O fato de o Homem ser um conceito universal não faz da tal da “Humanidade” um fenômeno universal. E o conceito de “Humanidade” será o avesso perfeito do conceito de “povo”, por mais que os que o utilizam tentem confundi-lo, esvaziando de valores esse último e usurpando-lhes o significado.

 

      Desde que o mundo é mundo, pelo que dela dizem, seria possível observar que a tal da “Humanidade”, um ente misterioso, amorfo, inconsistente e guloso, que por ninguém jamais foi visto, teria o vício de acenar com promessas de distribuição de milagres modelo prêt-à-porter e o de produzir e cultivar ídolos transgênicos, semeando-os por todo o território terrestre. Ídolos do Bem e ídolos do Mal, do bom e do mau-mocismo, que se esgotam em si mesmos, que de fato são estéreis. Essas falsas sementes são frutos verbais, os mitos de si mesma, que alimentam suas tropas para que sejam devoradas no momento oportuno pelos que se mantêm no seu comando (em sendo política, não biológica, a “Humanidade” terá um comando, isso é óbvio).

 

      A “Humanidade” não produz qualquer milagre. Definitivamente não. Nenhum foi por ela feito até os dias de hoje. E os Homens querem milagres. Querem maná caído do céu, sombra e água fresca com mínimo esforço. Então, a “Humanidade” faz discursos nas quermesses promovidas pela mesma “Humanidade”, quermesses onde imagens de anjos e santos do Bem, muito iluminadas, e de dragões da maldade, empilhados em um canto enfumaçado, serão vendidas em barraquinhas ao lado de colares de contas e defumadores. É uma indústria próspera e bom comércio esses que se nos põem à disposição. As imagens maiores poderão ser exibidas nas estantes, ao lado da TV ou junto aos livros; as menores estarão em medalhinhas e servirão de amuletos que prometem proteger os indivíduos das adversidades. Imagens de dragões devem também ser compradas, e devem ser escondidas no fundo do armário, de ponta-cabeça, ou enterradas no fundo do quintal. Todas elas serão instrumentos de uniformização de mentalidades e comportamentos, permitindo que, em cada oração ou cada exorcismo, adaptemos o nosso faz-de-conta cotidiano às “verdades universais”; permitindo que deuses de pés de barro continuem sendo adorados e recebam ladainhas, oferendas e sacrifícios em praça pública; permitindo que o mundo caminhe cada vez mais devagar. Às vezes, não para frente, mas para trás, de marcha a ré.

 

      À “Humanidade” pouco importa se a História desse mundo obedece ou não àquela versão que vem sendo contada como se fosse a verdadeira por seus escribas oficiais, os arautos do ontem, por vezes confundidos com historiadores, por vezes confundidos com profetas. Desconhecendo sua própria História, certos indivíduos crêem tanto na nova história que lhes possa ser oferecida “gratuitamente”, que se tornam incapazes de se reconhecer em suas próprias circunstâncias, que específicas são e não o deixarão de ser, jamais. E, para gozar de boa vida, apelam aos ícones sagrados da “Humanidade”, que são reconhecidos por “todos” como exemplos, modelos de caráter e de virtudes que convêm a discursos que deleitem os incautos e as “bases” políticas mais ou menos amplas ou restritas em todo e qualquer lugar sob todas e quaisquer circunstâncias. Esses ídolos, que eram gente comum como todos nós, fossem quais fossem exatamente suas intenções e seus objetivos, que muito poucos chegaram ou chegam a conhecer, sejam quais sejam sua trajetória e seus desvios, transcendem, de repente, seus limites físicos e são elevados em espírito ao pódio dos “Heróis da Humanidade”. Alguns de nós, simples mortais (alguns raros) ainda conseguem ser relativamente críticos em relação aos mitos alheios. Mas que ninguém ameace apontar o dedo a seus próprios ídolos…

 

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      12. Na página seguinte, revelar-se-á mais um retrato do Brasil: o dos períodos de eleições e campanhas eleitorais, como é o atual, que se repetem de dois em dois anos, em que o povo – que também é um conceito político, mas este, sim, concreto, palpável, demonstrável – não se reconhece a si próprio em suas condições reais e, por isso, não terá representantes a indicar. Os candidatos a eleição serão candidatos a anjos e a santos – para habilitar-se a tal, deverão exibir na coleira algum dragão-demônio referendado pela “Humanidade” que encontraram vadiando pelas ruas e deverá ser domado. Se nenhum for encontrado nas proximidades, adotam qualquer um que lhes possa ser emprestado por um vizinho mais distante. Afirmando combatê-lo, os candidatos serão seguidos por multidões em busca de milagres, sempre restritos às condições de suas vidas particulares.  

 

      E que ninguém pense em corrigir-se. Por que alguém encontraria alguma necessidade de se corrigir, se os exemplos “universais” não só podem como “devem” ser observados, seguidos ou rechaçados conforme o “politicamente correto” do momento, seja ou não seja assim chamada a moda e isso tanto faz como tanto fez, amém? Afinal, a paz, seja lá o que isso for, é o desejo de todos, e só será conseguida por meio de um comportamento “bem orientado”, que não ofenda os deuses, os santos e os anjos – e, para que ela seja alcançada, sacerdotes de diferentes doutrinas e filosofias estarão sempre prontos a orientar o nosso comportamento. E se não são deuses, se não são santos, se não são anjos, serão sacerdotes por alguma razão…

 

      Interessante notar, ainda, que somente os vencedores se transformam em ídolos, tanto do Bem quanto do Mal – e a vitória não lhes chega por acaso. Se todos os Homens nascem iguais, Homens comuns só conseguem ser elevados a anjos, santos ou demônios quando catapultados por aqueles que têm efetivo poder sobre os demais. E serão incorporados aos mitos da “Humanidade” com grande estardalhaço, firmando-se no imaginário popular. Os demais, os que perdem suas batalhas, ainda que sejam árduas e sejam justas, serão esquecidos, e perderão suas vidas, literal ou metaforicamente, na poeira dos tempos.

 

      13. E o último retrato que me ocorre aqui mostrar é o da Universidade brasileira, da qual decorrem os mais recentes retratos nacionais de conjunto. Ele terá como destaque e como legenda a posição inferior de que goza essa Universidade entre as demais, ou seja, o seu redondo e incontestável fracasso enquanto Universidade. Para o que um “ensaio” de araque já providenciou uma explicação (“científica”?), que não será muito discutida, muito menos na própria Universidade: não é porque ela, a nossa Universidade, não incentive mais do que a produção de glosas de outras glosas e/ou apenas reproduza as “verdades científicas” oriundas de outras plagas; não é porque ela não consiga ter autonomia intelectual suficiente para querer tentar nos ver, a nós, tal como somos, e não consiga descrever a nossa realidade sem que esta esteja filtrada e empacotada pela descrição de realidades outras, alheias a nós, que poderão ser tão verdadeiras quanto uma aldeia Potemkin; não é porque, a partir da nossa realidade, ela, a nossa Universidade, não consiga projetar verdades nossas que possam vir a ser reconhecidas como mais universais que as ditas “verdades universais”; não é porque essa Universidade agite a bandeira da Anarquia e viva de greve em greve e promova a invasão, a ocupação e a destruição do próprio público e não é que quem nela ingressa nem sequer saiba ler, fazer contas, escrever e falar Português que ela não consegue gozar de respeito e de bom conceito – é porque… ela não dá aulas em inglês, ora! (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/79945-nossas-universidades-precisam-falar-ingles.shtml)

 

      Não é fantástico? Simples assim. Como não pensamos nisso antes? Deveremos esperar que a crise chegue a tal ponto nas nações anglo-saxãs que comece a provocar um grande fluxo migratório? Se isso ocorrer, nossa elite intelectual (e política…) poderá em breve contratar governantas suficientes para que sua prole possa familiarizar-se desde cedo com versos de Shakespeare sem precisar que sejam bem traduzidos… o que combinaria com nossas vitrines de Natal cobertas de neve e o Papai Noel coberto de lã em pleno Dezembro… Ou poderemos nos satisfazer desde já com o inglês da Jamaica?

 

***

 

      Nesses retratos todos, procuremos com alguma atenção que nos reconheceremos todos. E poderemos também reconhecer a nossa responsabilidade – e responsabilidade não tem cor – porque só nossa ela é, e de mais ninguém. Somos nós todos nessas fotos. E somos nós mesmos nos fotografando. E nos exibindo ao mundo. De nada adianta o fotógrafo tentar se esconder de nós e dele mesmo – ele sempre aparece. 

 

      E continuaremos a posar para nossos retratos, os retratos do Brasil das benevolentes parcerias estratégicas, das misteriosas parcerias público-privadas, das micro, médio empresas de franquia, das montadoras e maquiadoras, das mega-empresas de boa família. Do Brasil dos liberais socialistas, dos socialistas liberais, todos eles amorais capitalistas. Do Brasil que engana a fome de quem tem fome e a sede de quem tem sede, que investe na engenharia faraônica e na arquitetura irracional de obras públicas sem janelas e sem banheiros, que investe em rebolado, em bolsas-esmola, em cotas pseudo-raciais e em desindustrialização, o Brasil da seca, o Brasil das inundações, dos incêndios e dos desabamentos. Do Brasil sem patentes registradas, sem patentes a registrar, com patentes a negociar; do Brasil da pirataria importada, o Brasil emergente sem saídas de emergência, que acumula vítimas sobre vítimas ano após ano, mas é pródigo ao remendar o buraco na burra dos ditadores que mantêm a miséria das demais populações do mundo inteiro para que eles possam ser considerados responsáveis pelo avanço social em uma economia de mercado. É o Brasil das continências, das reverências, das deferências aos que nada respeitam, aos que roubam mas fazem, desde que tenham feito seja lá o que fizeram. 

 

      É o Brasil sem saúde, sem Escola, é o Brasil esgarçado e escancarado que esperneia ao descobrir que alguém pôde ter lido o correio elegante das autoridades às celebridades e das celebridades às autoridades. É o Brasil das Polícias sem poder de impor a ordem, das Forças Armadas sem armas, o Brasil sem motor, sem portos, sem navios, sem aviões, sem estradas, sem ferrovias, sem projeto, sem destino, sem perspectiva, sem Inteligência. É o Brasil dos colégios sem uniformes, é o Brasil da última moda, que não permite que alguém, por seus méritos ou pela pertinência da instituição à qual serve, intervenha, fardado ou de toga, no real. Um Brasil das várias “soberanias”, que oferece seu terreno e abandona suas fronteiras, disposto a fazer escambo da banana por maconha, da mandioca por coca, que não admite exercer um papel de liderança no continente porque, neste, “não há espaço para relações hegemônicas”…

 

      Não é um Brasil sem vergonha – é o Brasil sem Estado, sem Moral política. É o Brasil da pós-modernidade. Um Brasil de caras pintadas, bem maquiadas, reveladas em palidez. O Brasil das arquibancadas. O Brasil do retorno às queimadas e à agricultura de subsistência. É o Brasil dos ministérios consulares, da diplomacia presidencial, da diplomacia ex-presidencial, da diplomacia municipal. Um Brasil que afirma não permitir que alguém lhe dê palpites, mas só age de acordo com os palpites que lhe são dados, e pretende ser reconhecido como capaz de dar palpites nos destinos do universo; que envia os gurus do Governo e os gurus da Oposição a dar um passeio ao outro lado do mundo para que rezem um “pai nosso” em uníssono e de mãos dadas a quem nada teve a ver com sua História ou com seus problemas, e façam pose de “estadistas” ao lado de quem nada tem nem quer ter a ver com os problemas brasileiros e com a História brasileira. É o Brasil do ridículo estimulado, do absurdo cultivado.

 

      É o Brasil da paz. É o Brasil dos “black blocs“. É o Brasil dos foguetes que explodem no espaço, dos molotovs que explodem nas ruas, das perimetrais já explodidas e por explodir em fumaça e caprichos. É o Brasil dos discursos sem nexo, do caroço que não é semente, dos ossos com Ç que pedem para ser exumados, dos sujeitos separados dos verbos por vírgula, quando não por ponto e vírgula. É o Brasil sem parágrafos, sem travessões, sem dois pontos. É o Brasil dos recessos parlamentares e das férias forenses bem financiadas, do ex-terrorismo e do terrorismo democrático. É o Brasil das Olimpíadas, dos Estádios de Futebol, do Carnaval, dos leilões, do Turismo sexual… É a nossa Pátria em chuteiras despida de orgulho nacional.

 

      É o Brasil do “cadê?”, das faculdades guerrilheiras, das liberdades totais, dos crimes e das contravenções, das condecorações aos condenados, das coleções de títulos honoris causa, dos processos empilhados e engavetados, dos mártires envenenados, dos anjos ressuscitados, dos demônios convertidos, dos beatos injustiçados, das revanches, das guerras santas, dos indultos, da contabilidade criativa, das penas alternativas, do regime semi-aberto, do público que é privado, do privado que é público, da Constituição que desconstitui. O Brasil das “brasilidades”, o Brasil das “brasileirices”. É o Brasil dos contrastes nos quais não se enxergam as contradições. É o Brasil da hipocrisia e da estupidez. É o Brasil da demagogia, o Brasil das invencionices. O Brasil de ninguém. O Brasil de todos.

 

      É o Brasil do um dia seremos… de todos. É o Brasil que já foi nosso deixando de ser Brasil. O Brasil que se despedaça em agonia assistida por desqualificados doutores e práticos em cirurgia, em que canetadas receitam a eliminação do passado, abrindo caminho amplo, geral e irrestrito a um futuro no qual o que se tem como certo é que nenhum Brasil haverá. E não deixará herança alguma.

 

      Em nome de quem ou de que o Brasil tanto se mutila, ninguém sabe, ninguém vê e ninguém se importa com isso. Mas seria, mesmo, importante? A quem importaria? À “Humanidade”?

 

      Continuaremos buscando respostas durante o próximo ano…

  

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

1. “No plano racional, a reclusão cumpre dois objetivos. Tira o criminoso de circulação, impedindo-o de voltar a delinquir, e serve de exemplo para que outros não o imitem. O problema é que, na maioria dos casos, podemos obter o mesmo efeito sem recorrer à prisão. A dificuldade para mudar de paradigma é que a parte mais intuitiva de nossas mentes ainda não se livrou da noção meio sádica de que quem comete um delito merece sofrimento como retribuição.” Hélio Schwartsman

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/140065-martir-ou-bandido.shtml

 

2.Quem vai visitar Dirceu e seus companheiros tem a impressão de que está num quartel. A sala de visitas é modesta, com mesa e cadeiras, e todos vestem roupas brancas. (…) Até esta quinta-feira, era Dirceu – hipocondríaco de carteirinha – quem cuidava do horário dos remédios de Genoino, conferia se ele se alimentava direito e procurava animá-lo.”

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,jose-dirceu-impoe-disciplina-a-companheiros-de-carcere,1099245,0.htm

 

3.1. “Barbosa atendeu a um pedido da defesa de Genoino. Ontem, segundo seu advogado, Luiz Fernando Pacheco, ele passou mal e teve um princípio de infarto na penitenciária.”

3.2. “Após realização dos exames laboratoriais e de imagem, foi descartado infarto agudo do miocárdio e diagnosticado elevação dos níveis pressóricos (pressão arterial)” – Boletim médico do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal (ICDF)  

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/11/1375109-jose-genoino-teve-pressao-alta-e-nao-infarto-aponta-boletim-medico.shtml

 

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      Por mais que dê tratos à bola, não consigo imaginar a quais fantásticos métodos Schwartsman poderia estar se referindo ao afirmar que, sem que mantenhamos os criminosos atrás das grades, obteremos o efeito de tirá-los de circulação, impedindo-os de voltar a delinqüir e a oportunidade de fazer deles um exemplo para que outros não o imitem. Em todo caso, já estamos cansados de saber, intuitivamente ou não, que tudo o que acontece neste nosso (?) País é fantástico. E, apesar de que a questão da delinqüência seja um problema muito sério, não é bem isso o que nos deve preocupar agora.

 

      O que agora nos deve preocupar é definir se um “homem de princípios” será ou não será capaz de cometer delitos. E se seria justo conduzi-lo à cadeia pública e pretender mantê-lo preso.

 

      E não é que a parte mais intuitiva de nossas mentes não se tenha livrado da noção meio sádica de que quem comete um delito merece sofrimento como retribuição. Aliás, aquela turma dos Direitos Humanos, com a qual não consigo me dar muito bem, reunirá os maiores craques em apontar intuitivamente os que merecem sofrimento, tenham ou não tenham cometido delitos. É que, por não ser muito intuitiva, após a Imprensa nos ter dado conhecimento de que Genoíno teve (ou alegou ter tido) um “princípio de infarto”, aquelas questões passaram a me preocupar. E deveriam preocupar todo mundo.

 

      Porque um infarto é um infarto – qualquer um de nós terá, ou não, um infarto; e o que for um “princípio” de infarto não será um infarto. Se Genoíno teve um “princípio” de infarto e não teve um infarto, o que sobrará para que ele tenha tido é um… “princípio”. Nada mais. Sendo aceito que Genoíno manifestou um “princípio”, nada impedirá que Genoíno seja reconhecido como um “homem de princípios”. Que “princípios” sejam esses exatamente, poderemos não estar sabendo. Mas não deixarão de ser “princípios”.   

 

      Resolvida a questão dos “princípios”, resta a questão dos homens. E mais outra coisa me preocupará. Se Genoíno voltar à cadeia, mesmo que aposentado por invalidez de acordo com os “princípios” que regem a Câmara dos Deputados, o que me preocupará é que ele possa ser posto na mesma cela em que estiver José Dirceu.

 

      Porque temos notícia (pela qual poderemos ainda saber que um Quartel se caracterizará por manter uma sala de visitas modesta, com mesa e cadeiras e porque, nele, todos vestem roupas brancas – o que muito me informou, mas não me preocupou) de que José Dirceu é um hipocondríaco de carteirinha. E de que era Dirceu quem cuidava de Genoíno antes que este tivesse tido o “princípio” de infarto. Hipocondríacos tomam e recomendam aos amigos que tomem remédios como se chupassem caramelos. O que nos indica que alguém deverá ficar de olho em que Genoíno obedeça às prescrições médicas e tome os medicamentos da forma estritamente recomendada. Porque, se Genoíno não os tomar, se tomá-los de forma errada ou se tomá-los em excesso, estará apto a, outra vez, ser acometido por “princípios”. Ou alegar ter sido.

 

      Poderá inclusive morrer. E, se Genoíno estiver na cadeia e, amanhã ou depois, Genoíno morrer (risco ao qual todos nós estamos expostos, na cadeia ou fora dela, tenhamos ou não tenhamos “princípios”), estará consagrado mais um mártir-guerreiro-do-povo-brasileiro, que brilhará nos altares de nossas igrejinhas políticas e na coleção de imagens de ilustres martirizados que mantemos em nossas estantes. Haverá romarias, ladainhas, quermesses, venda de santinhos…

 

      Isso, evidentemente, por razões óbvias, nada intuitivas, deveria nos preocupar. E muito. Portanto me preocupa.

 

      Sim, tudo isso teve um “princípio”. Teve, sim. O problema é que não vai ter fim… Nunca há de ter um fim. Haja paciência… Ó vida, ó céus… 

  

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

      “O Congresso Nacional aprovou na madrugada desta quinta-feira (21) um projeto que anula a sessão realizada pela Casa no dia 2 de abril de 1964, que declarou vaga a Presidência da República exercida na época pelo presidente João Goulart, o Jango (1919-1976), viabilizando o reconhecimento do novo governo militar (1964-1985).(…) A ideia, de acordo com os parlamentares, seria retirar qualquer ‘ar de legalidade’ do golpe militar de 1964.” – www1.folha.uol.com.br/poder/2013/11/1374374-apos-49-anos-congresso-anula-sessao-que-afastou-jango-da-presidencia.shtml

 

 

      Há alguns anos, acompanhado por acordes de seu violão, para deleite dos guerrilheiros (hoje “ex”) do mundo inteiro, Paco Ibañez cantava esses versos abaixo, de José Agustín Goytisolo (Barcelona 1928-1999), que bem poderiam ser considerados proféticos:“Érase una vez / un lobito bueno / al que maltrataban / todos los corderos. / Y había también / un príncipe malo, / una bruja hermosa / y un pirata honrado. / Todas estas cosas / había una vez, / cuando yo soñaba / un mundo al revés”.

 

      Sonhar é livre sonhar. Fosse lá o que fosse, significasse o que significasse, quem sonhou com “un lobito bueno” deveria ter suas razões para sonhar com isso.

 

      Mas, como o mundo gira e a Lusitana roda, o alvo se pôs fora de foco e fomos nós, aqui, os que ganhamos todas essas coisas. Com as quais nunca sonhamos, mesmo porque o sonho é um privilégio dos iluminados, isso lá é verdade. Ganhamos, todos nós, essas coisas todas, de repente, não como sonho. Nem mesmo como pesadelo. Ganhamos como realidade. E, se já éramos confusos, mais confusos ainda ficamos em um mundo inteiramente ao revés. Um mundo em que a História que se fez, que muitos crêem que deva e possa ser corrigida por inteiro porque a consideram, por inteiro, errada, poderá ser esquecida como se não tivesse sido feita. Não é que ela deva ser substituída por uma outra História – é que a História é nula, é nenhuma.

 

      Por isso mesmo, pouco importa que aqueles versos estejam aqui em Castelhano e não em Português. Faz de conta que, como sugere um canal de televisão também iluminado que anuncia programas em Castelhano sobre o “nosso povo” para que ele possa aprender a ser, nós todos falamos outra língua, não a nossa. E daí? Isso tanto faz como tanto fez. Tal como tanto fez como tanto faz tudo o que já se fez ou se deixou de fazer. Basta-nos fazer de conta que foi feito ou não foi feito. E poderemos saber que era uma vez um príncipe santo que foi martirizado por uns gorilas; e havia também um Congresso tímido, umas bruxas boas e uns pelegos honrados. Todas essas coisas, se não houve uma vez, passaram a haver neste mundo ao revés.

 

      Só o que ainda nos parecia faltar era uma máquina como esta: http://www.youtube.com/watch?v=OHyygU1cU0k – que é bem mais que uma máquina do tempo. Ao vê-la funcionando, temi, sinceramente, que dela pudessem ser cuspidos alguns intelectuais… alguns guerrilheiros… alguns políticos iluminados… mais alguns…  ainda mais alguns… os bem mortos e enterrados inclusive, alguns mais. Mas pensei melhor e percebi que esse meu temor era inútil, porque já chegava muito tarde… Pensando bem, talvez já não nos falte sequer essa máquina, e ela esteja em pleno funcionamento. Certas coisas malucas, tais como presos, porque condenados pela Justiça, receberem salário do Congresso Nacional, entre outras coisas tão ou mais malucas que andam acontecendo por aqui, só mesmo essa máquina maluca, em um mundo maluco, todo ao revés, poderia explicar.

 

      Aguardem – porque nada mais será como antes: a próxima proposta a ser apresentada pelos Senadores, que nosso Congresso revolucionário aprovará e celebrará, é a de que seja declarada nula a nossa República retirando-lhe qualquer ‘ar de legalidade’, o que se justificará porque sua proclamação, em tarde amena, não passou de um golpe de Estado dado pelas elites fardadas, quando o povo trabalhador politizado estava ausente das praças públicas.

 

      Estão certos os Congressistas. Por certo que estão. Se não fizemos História é porque não existimos. Se não existimos, esses Congressistas não nos representam, representam-se, não mais, a eles mesmos e às histórias e à Política deles mesmos. Mas fazemos de conta que nos representam. E, entre todas essas coisas, nosso território, que não será nosso – será de ninguém, ou será deles, dos Congressistas, do Governo, de quem primeiro nos disser “chegue pra lá” –, poderá, em bons pedaços, ir a leilão.

 

      Vai dar para acomodar com conforto um bocado de gente. Toda essa gente ficará muito contente. E ninguém haverá para reclamar.

 

   

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21/11/2013 – 00h39

Após 49 anos, Congresso anula sessão que afastou Jango da Presidência

MÁRCIO FALCÃO – DE BRASÍLIA

O Congresso Nacional aprovou na madrugada desta quinta-feira (21) um projeto que anula a sessão realizada pela Casa no dia 2 de abril de 1964, que declarou vaga a Presidência da República exercida na época pelo presidente João Goulart, o Jango (1919-1976), viabilizando o reconhecimento do novo governo militar (1964-1985).

 

Deputados e senadores vão fazer uma cerimônia para proclamar a nulidade da sessão. A proposta foi apresentada pelos senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Randolfe Rodrigues (PSOL-AL).

 

A sessão do Congresso de 1964 foi realizada de madrugada e, por decisão do então presidente do Congresso, Auro de Moura Andrade, a vacância foi declarada. No pedido, os dois senadores afirmam que a anulação faz um “resgate histórico” porque a vacância permitiu o golpe militar de 1964, embora Jango estivesse em Porto Alegre (RS) em solo brasileiro. A ideia, de acordo com os parlamentares, seria retirar qualquer “ar de legalidade” do golpe militar de 1964.

 

“Fica claro que o ato do Presidente do Congresso Nacional, além de sabidamente inconstitucional, serviu para dar ao golpe ares de legitimidade”, afirmam os senadores na justificativa do projeto. Simon e Randolfe afirmaram que, depois de 49 anos da sessão, o Congresso “repudia de forma veemente a importante contribuição ao golpe dada pelo então presidente do Legislativo”.

 

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse que o Congresso estava reparando essa mancha na história do Brasil. “É uma desculpa histórica”.

 

Em discurso, Simon disse que a proposta não pretende reescrever os fatos. “Não vamos reconstituir os fatos. A história apenas vai dizer que, naquele dia, o presidente do Congresso usurpou a vontade popular de maneira estúpida e ridícula, depondo o presidente da República”, disse.

 

Um dos principais defensores da ditadura militar, o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi voz praticamente isolada contra a medida e disse que a proposta era irregular pois estavam querendo “tocar fogo” no Diário do Congresso Nacional. “Querem apagar um fato histórico de modo infantil. Isso é mais do que stalinismo, quando se apagavam fotografias, querem apagar o Diário do Congresso”.

 

A votação foi acompanhada por João Vicente Goulart, filho do ex-presidente. O texto foi aprovado aos gritos de “Viva o Brasil”, “Viva democracia” e “Viva Jango”.

 

Com o objetivo de verificar as causas da morte de Jango, o corpo do ex-presidente foi exumado, na semana passada, no cemitério da cidade gaúcha de São Borja, na fronteira com a Argentina. A família e o governo suspeitam que Jango teria sido envenenado durante seu exílio na Argentina. Na época, não houve autópsia. De São Borja, os restos mortais foram trazidos a Brasília e recebido com honras de chefe de Estado pela presidente Dilma Rousseff.

 

A perícia será feita no DF e amostras serão enviadas para análise em laboratórios no exterior. A intenção é voltar a homenageá-lo novamente em 6 de dezembro, dia em que a morte completará 37 anos e o corpo deverá voltar a São Borja (a 581 km de Porto Alegre), na fronteira com a Argentina.  

  

 

 

 

  

  

 

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19 DE NOVEMBRO

19-11-2013
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

Hoje é o Dia da Bandeira.
 
            O dia da Bandeira nacional.
 
                                      Quem celebrou?                               
 
                                                      Quem se lembrou?
 
 
19 DE NOVEMBRO 2
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
 
 

Moisés 

 

        Em seu blogue, Rodrigo Constantino publicou, sob o título “O simbolismo dos punhos cerrados”, um texto e algumas imagens (*) a pretexto das poses em que se deixaram fotografar Genoíno, Dirceu e outros tantos mais antigos.

 

       Braços levados ao alto em público – ambos os braços ou apenas o esquerdo ou o direito, estejam os punhos cerrados, estejam as mãos abertas ou entrelaçadas – costumam ilustrar propagandas de desodorantes. Que, em geral, pretendem transmitir uma sensação de poder, liberdade, sensualidade, alegria, frescor, bem estar… mas são de muito mau gosto, estúpidas, cafonas, ridículas, algumas até mesmo asquerosas se bem observadas.

 

       Propaganda de perfumaria não é feita para inspirar lágrimas. Nem é feita para provocar risadas. É feita exclusivamente para vender perfumaria. Mesmo que o produto seja inócuo ou seja nocivo.

 

       Braços erguidos são também recomendados em manuais de propaganda de perfumaria política. Se super-heróis de araque são flagrados por fotógrafos com os braços nessa posição, mesmo que a legenda se diversifique, alguma perfumaria alguém nos estará querendo vender. E a propaganda será distribuída por todos os meios possíveis, porque é importante que a imagem se fixe atrás de nossa retina. Nem sempre o produto se põe evidente, e por muitos de nós será comprado não por ele mesmo, mas pelas alegadas vantagens materiais e imateriais que nos traria se fosse aceito e usado sem moderação, vantagens que serão levadas muito a sério. Tal como são levadas a sério as supostas vantagens de tudo e mais um pouco que preenche em vão os nossos dias vãos.

 

SEMPRE CABE MAIS UM

 

       Bem que a propaganda, qualquer propaganda, de qualquer coisa, se fosse mais inteligente, poderia servir não só para estimular o consumo, mas para também estimular o público a ser um pouquinho mais exigente, mais crítico e a reagir. Nem que o estimulasse apenas a sair em busca da estética perdida. Especialmente quando fosse a propaganda de uma perfumaria política. 

 

       Como consumir é bom, e como ninguém por aqui está a fim de reagir, continuaremos a produzir e a admirar as propagandas, a acreditar que elas nos indicam o que nos abrirá caminho à terra prometida tal como Moisés teria afastado as águas do Mar Vermelho, continuaremos a colecionar produtos propagandeados como essenciais à nossa sobrevivência e a trocar figurinhas, todas elas com os braços apontando para cima.

 

       E continuaremos a chamar, como já chamamos, essa prática lúdica, que, barata ou cara, custa-nos não menos que a vida, de prática política.

 

       Aliás, pior ainda: consideraremos, para todo o sempre, essa prática como muito bela, muito sadia e essencialmente democrática.

 

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(*) http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/corrupcao/o-simbolismo-do-punho-cerrado/

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

EMBARQUES HISTÓRICOS 1.1

 

Setembro de 1969 

Registro fotográfico do momento que antecedeu ao do embarque de José Dirceu e seus bons companheiros, presos injustamente por subversão – o que somente ocorreu porque, ao Governo brasileiro, foram caracterizadas equivocadamente como subversão algumas ações praticadas com extraordinário destemor, no estrito cumprimento do dever, por gente muito séria, de muito mérito e muita visão e muito responsável, que apenas obedecia a ordens superiores, ações essas que eram essenciais ao êxito de belas aventuras, patrocinadas e estimuladas a partir de muitas partes mais humanizadas do mundo, para que o País assumisse a posição de liderança que merecia alcançar. O grupo embarcou no Hércules 56 da FAB que o levaria ao México, de acordo com exigência feita por outros companheiros, os que tomaram a iniciativa do seqüestro do Embaixador norte-americano – a de que ninguém perdesse as proveitosas férias patrocinadas por diversas Organizações de Direitos Humanos e pela Anistia Internacional, durante as quais todos teriam oportunidade de estudar, ampliar seus horizontes, conhecer lugares mais alegres e muita gente muito interessante, muito importante e muito mais feliz do que a gente que vivia no Brasil. E de, assim, tornarem-se muito mais úteis à Humanidade.

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EMBARQUES HISTÓRICOS 2.2

 

Novembro de 2013

Flagrante do momento do embarque de José Dirceu e seus atuais bons companheiros, presos injustamente por corrupção – o que somente ocorreu em virtude de que, ao Supremo Tribunal Federal, foram como corrupção caracterizadas equivocadamente certas ações que, com extraordinário destemor, foram praticadas conforme ordens superiores, no estrito cumprimento do dever e no interesse público, visando exclusivamente a que fossem patrocinadas algumas ambiciosas aventuras necessárias a que o País assumisse a posição de liderança que merece no mundo humanizado. O grupos embarcou em avião da Polícia Federal que o levaria a Brasília para que cumpra férias vencidas, que são devidas, e desfrute de imersão integral ou só de pernoite em centro de recreação nacional, mas de freqüência seleta, administrado por funcionários dedicados. Como José Dirceu e seus companheiros de aventura se tornaram gente muito interessante, muito importante e muito útil a que sejam criadas condições favoráveis a que muitas aventuras mais sejam experimentadas pelos demais companheiros brasileiros e por nossos povos irmãos, a Anistia Internacional e diversas Organizações de Direitos Humanos tudo farão para interromper, bem rapidinho, essas férias.

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

– introdução

 

       1. “Pesquisa feita pelo Ibope, encomendada pela “Rede Globo” e pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, divulgada nesta quinta-feira [24 de Outubro], mostra que a presidente Dilma Rousseff (PT) se reelegeria no 1º turno em praticamente todos os cenários possíveis para a disputa eleitoral de 2014. … A pesquisa também simulou um eventual segundo turno entre Dilma e seus principais adversários. A presidente tem 42% das intenções contra Marina, que aparece com 29% … contra Aécio, Dilma alcança 47% ante 19% do adversário… tem 45% das intenções contra 18% do governador de Pernambuco … Contra Serra, que já foi derrotado pela petista em 2010, Dilma aparece com 44% e o tucano com 23% … A última pesquisa feita pelo Ibope, divulgada em 26 de setembro…a presidente tinha 38% das intenções, contra 22% de Marina, 13% de Aécio e 5% de Campos.”

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2013/10/24/dilma-se-reelegeria-no-1-turno-em-qualquer-cenario-mostra-ibope.htm

 

      Sem comentários.

 

      2. No último dia 02, já de Novembro, o UOL publicou um álbum de fotos com a seguinte legenda: “Gadgets não mudam o mundo, mas solucionam problemas pontuais. Os da lista, a seguir, podem ter pinta de ‘tabajara’ (linha de produtos inventada pelo ‘Casseta e Planeta’, extinto programa de humor da ‘TV Globo’), mas existem e, alguns deles, estão até disponíveis para venda”.

http://tecnologia.uol.com.br/album/2013/11/02/produtos-tabajara.htm?mobile

 

      E ninguém achou estranho.

 

      Até alguns poucos anos atrás, chamávamos de “engenhoca” tudo aquilo que fosse improvisado. Engenhocas seriam idéias, métodos, maquininhas, aparelhos, inclusive bastante complexos, que, mesmo que fossem úteis para alguma coisa, nada de muito importante significavam em termos de invenção ou inovação. E, mesmo que fossem inúteis, alguém haveria de se entusiasmar com elas e experimentá-las. Hoje, engenhocas são chamadas de gadgets. Como gadgets, as engenhocas ganham importância. Inclusive importância política. E, como para que surjam oportunamente, dependem de inspiração e de sensibilidade – e como inspiração se chamada de insight será mais inspirada que qualquer inspiração, e sensibilidade, se chamada de feeling, será, por certo, bem mais sensível que qualquer sensibilidade -, no mínimo, esses gadgets serão considerados mais sofisticados e muito mais inteligentes que qualquer engenhoca. Mas não deixam de ser engenhocas…  

 

      3. Em Recurso que apresentou ao STF, José Genuíno citou os comoventes versos de Pablo Milanés em “Canción por la Unidad Latinoamericana“, com os quais este se dedica a proclamar que “Bolívar lanzó una estrella que junto a Martí brilló, Fidel la dignificó, para andar por estas tierras” – versos esses que mereceram uma versão bastante medíocre, mas bem mais alegrezinha de Chico Buarque, um dos nossos intelectuais engajados. Não entendi muito bem se todos os versos foram salpicados no Recurso ou apenas foi citado um “Lo que brilla con luz propia nadie lo puede apagar” que prossegue com um “su brillo puede alcanzar la oscuridad de otras cosas”, em tradução literal.

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2013/11/08/em-recurso-ao-stf-genoino-cita-musica-de-chico-buarque-e-diz-que-nao-e-bandoleiro.htm

 

      E ninguém estranhou.

 

      De “nosso”, há alguns anos, chamávamos tudo aquilo que se referia a nós mesmos, os brasileiros. E apenas o que se referia a nós mesmos. Tínhamos nossos poetas, nossos compositores, nossos escritores, nossos políticos, nossa história… bons, medíocres ou péssimos, mas eram nossos. Diziam de coisas nossas, talvez nem sempre e não exatamente do nosso jeito, mas diziam de coisas que eram ou deveriam ser nossas e disso ninguém duvidava. Hoje, nós, os indivíduos, nos julgamos supranacionais. Todos dizem do mundo. E somos todos poderosos, “não precisamos” do Estado, mesmo que não usemos um cartão de crédito. Fuçamos nossas árvores genealógicas à procura de um ascendente qualquer que nos permita ostentar o título de qualquer-coisa-brasileiro. Se possível, corremos a obter uma dupla nacionalidade. E, além de chamar engenhocas de gadgets, inspiração de insight e sensibilidade de feeling, podemos chorar emocionados sempre que ouvirmos os Beatles ou um soul, assim como cantar canções em qualquer idioma incorporando as ambições, a história, a experiência daqueles que, há alguns anos, chamávamos de “outros”, acreditando que sejam “nossas” e fazendo “nossas” essas ambições, história e experiência. Com muita fé. Assim ingressamos na tal “Humanidade”, que antes nos era negada. Tudo o que nos for muito particular, muito local, muito restrito, terá o solene direito a ser chamado de idiossincrasia, de “brasileirice”, seja autêntico, seja copiado e mal improvisado – que substitui o termo “caipirice” que poderia parecer ofensivo…

 

      4. No julgamento daquele mesmo Recurso, negando-o, mas desculpando-se quase aos prantos por negá-lo, Luís Roberto Barroso nos diria: “Temos um sistema político distorcido e perverso, indutor da criminalidade. De um lado há parlamentares eleitos em campanhas de custos estratosféricos que transformam o parlamento em um balcão de negócios. Só surpreendeu a quem não tinha olhos de ver o fato de que foram condenados nesse processo por corrupção passiva lideranças de vários Partidos políticos. E de outro lado foram condenados por corrupção ativa líderes do Governo querendo implementar a sua agenda política, reformas como a da previdência e tributária, e comprando aquilo que consideravam o interesse público. Essa a dura realidade. Um modelo político no qual o interesse público precisa freqüentemente ser comprado. Precisamos, não de uma agenda política, mas de uma agenda patriótica para desfazer essa armadilha histórica, que nos manterá atrasados, girando em círculos, incapazes de dar um salto moral para fora do pântano.” 

http://www.nacaojuridica.com.br/2013/08/por-unanimidade-ministros-do-stf-mantem.html

 

      E ninguém ficou surpreso com o que foi dito.

 

      Ora, quem tiver olhos de ver poderá encontrar neste País, muito bem montado, um sistema político distorcido e perverso, indutor da criminalidade. Quem, então, seríamos nós, os que temos, os que somos, os que criamos e mantemos esse sistema, os que induzimos, pois, à criminalidade? Se temos o que temos é porque somos o que somos. Que mais esperar de um povinho sem personalidade, sem história, distorcido, perverso, indutor da criminalidade, que não precisa de uma agenda política para ter uma agenda patriótica (?) senão um sistema distorcido, perverso, indutor da criminalidade?

 

      5. Já de Marina Silva, veremos transcrita a narrativa de uma experiência pessoal em um comentário sobre sua recente biografia – outra mais, além da que veio à luz em 2011, escrita por Sirkis. “… ao receber a unção com o óleo que sela a fronte dos doentes, Marina teve uma experiência mística. … ‘Foi como um relâmpago que apareceu na minha mente. … Nunca tinha tido uma experiência como aquela. … Senti uma coragem muito grande.’”  

http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/2013/10/1351507-leia-trecho-de-biografia-de-marina-silva.shtml

 

      E ninguém se espantou com isso.

 

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OS UNGIDOS E SEUS REBANHOS – (I/4)

 MARINA I E III      

               

      Dizem que a voz do povo é a voz de Deus. E a Deus se atribuem a bondade e a sabedoria supremas.

 

      Se soubermos distinguir a Política de uma prática religiosa amparada pela fé absoluta em algo absoluto, e soubermos distingui-la de uma aposta em jogos de azar, saberemos que, nela, não deveremos procurar milagres, nem mártires devotos, nem santos milagreiros, nem a sorte. E, se apontarmos alguém como capaz de nos governar, que isso não se faça porque esse alguém brilhe com luz própria ou seja ou esteja sendo iluminado. Devemos ser frios, racionais. O mais lógico será que, para nos governar, apontemos alguém cujas idéias a respeito do mundo, a respeito das coisas, a nosso respeito, nós aprovamos – porque, ideologicamente, encontramos certa afinidade entre o nosso pensamento e aquilo que esse alguém possa propor ou desejar fazer de nós. E isso nada tem a ver com nossos sonhos particulares – quando falarmos de Política, esse “nós” não será uma soma aritmética de todos os nossos “eus” – esse “nós” terá um significado político, público, um significado relativo ao Poder entre os Poderes, não um significado particular, individual, ou corporativo, ou de origem ou de grupo.

 

      Os atuais responsáveis e os candidatos a responsáveis por funções de administração da coisa pública terão algumas idéias a respeito da administração da coisa pública. Algumas idéias. Elas serão excelentes, boas, medíocres, más ou pérfidas. Ou nenhuma idéia terão, apesar de demonstrarem muito querer o Poder. Mas terão a apresentar uma trajetória pessoal, um conjunto de atitudes cronologicamente encadeadas que lhes permitiu, por suposto, ter pretensão a merecer a confiança do público para o exercício de uma função pública.

 

      A Lei pertence ao âmbito público, e não há leis privadas, em particular. O que for contra Lei será do interesse público apontar; quem for contra Lei será do interesse público punir. Mas a vida privada, a vida íntima dos indivíduos, mesmo a dos que se tornam pessoas públicas por qualquer motivo que seja, francamente, se interessa aos psicólogos, aos romancistas e aos barbeiros e às manicures do bairro, não deveria despertar qualquer interesse ou curiosidade. Marcos Palmeira, por exemplo, é figura pública porque é ator de cinema e televisão, e foi dito que Eduardo Campos o andou sondando para disputar o Palácio da Guanabara. Não fará falta ler a biografia de Marcos Palmeira para saber o que ele pensa e o que terá condições de fazer ou não fazer em âmbito público. Veja-se o que ele faz, ouça-se o que ele diz. Ronaldo Caiado, por outro exemplo, pode não ser brilhante, e nem suas idéias nem seu desempenho serão qualquer unanimidade nacional; mas representa um setor vital à nossa economia, setor que se vê bastante ameaçado pela demagogia dos últimos Governos. Caiado foi solenemente dispensado por Campos da sua lista de apoios por exigência de Marina ao dar-se o enlace entre esses dois. Algo, portanto, aproximará o político Eduardo Campos das artes de Marcos Palmeira e o afastará dos interesses de Ronaldo Caiado. Interessará ao público conhecer o que seja esse algo – e as razões pelas quais esse algo uniu ou separou pessoas públicas nos estarão imediatamente óbvias. Não interessarão, a ninguém, as recônditas razões emocionais pregressas que os fizeram preferir que esse algo se mantivesse cru, fosse frito ou fosse cozido.   

 

      Trazendo outros exemplos mais: eu cá não vou querer saber por que memória de infância, doce ou azeda, Maduro, o Presidente venezuelano – que diz que uma “guerra nacional e internacional” contra seu governo provoca e agrava a escassez de açúcar, café, azeite, leite e papel higiênico -, decidiu antecipar o Natal e criar um Vice-Ministério da Suprema Felicidade Social. Basta-me saber que há escassez de tudo e mais um pouco na Venezuela – o que não é brincadeira -, que o Natal, que tem data certa, foi por lá antecipado, e que um Vice-Ministério foi criado com um nome maluco, que mais parece uma brincadeira. Nem vou querer saber de quantos episódios anedóticos ou trágicos Ulisses Guimarães pôde participar em sua vida particular. Nem vou querer entender por que estranha razão os envolvidos no Mensalão nele se envolveram. Basta-me saber o resultado das artes políticas de Ulisses, ou saber quem esteve envolvido no Mensalão e o rombo que este significou. Não vou querer saber como terá sido a adolescência de Fernando Henrique Cardoso para entender por que cargas d’água ele namora ou deixa de namorar ou para tentar definir se lhe seria ou não adequado o perfil dessa eventual namorada. De Eduardo Campos, não preciso de saber se teve ou não teve uma babá na infância para tentar compreender o que o leva a ter “dificuldades em dar corpo a uma candidatura de continuidade em relação ao governo atual” ou em tentar encontrar e “apontar erros do governo para encontrar seu espaço, com cautela para não ser confundido com Aécio”.  Sei que, assim como Aécio, Campos quer o Poder federal. Basta-me saber disso e de como ele vem administrando Pernambuco. E, de Aécio Neves, basta-me saber que, por consideradas extraordinárias “visão estratégica e a capacidade de articulação política”, propôs que o Bolsa-Família se transforme em permanente “programa de Estado”. Isso me diz muito mais dele (e de quem comenta sua iniciativa) que saber que Tancredo teve um neto e que esse neto, algum dia em sua vida, brincou com trenzinhos ou soldadinhos de chumbo, ou poderá ter inspirado maiores ambições políticas ao avô. Não vou querer saber, tampouco, quantas vezes subiu em árvores ou galopou pelos Pampas, em sua juventude, Maria Tereza Goulart – viúva idosa que, além dos 480 salários mínimos antes recebidos como “reparação”, recebe 32 mil e 100 reais mensais de pensão acumulada (ex-presidente + anistiado político) isenta de impostos que os comuns dos mortais são obrigados a recolher aos cofres públicos – para procurar entender por que colabora com a “inteligência” oficial no sentido de tentar atribuir suspeitas sobre os responsáveis pelo Movimento de 1964 e incriminá-los por ter Jango sofrido um infarto. De Dilma Rousseff, pouco me importa sua ascendência búlgara, ou se, desde que nasceu, só terá participado de ações ditas “revolucionárias” porque aprendeu ou não a pular amarelinha ou a pular carniça – interessa-me como e por que foi eleita Presidente e o que vem fazendo com o meu País. O que já é muito. E será suficiente para que me assombre o grave temor de que, em breve, vejamos nomeado mais um Ministro em seu Governo – o da Suprema Felicidade Social.

 

      E por aí vai a coisa. O que figuras públicas pensam estará expresso claramente em seus atos, no que elas fazem. Elas não se transformam quando se candidatam ou quando se elegem. E ninguém se candidata se não tiver já feito alguma coisa, promovido ou participado de algum ato público, contribuído com algum fato que tenha chamado a atenção do público. Se esses atos tiverem conseqüências de real importância ou projeção pública, serão fatos que, esses sim, poderão despertar nosso interesse. Eles, por si, desenharão a personalidade do candidato. E nos dirão se é possível ou não é possível confiar em suas idéias, nas enunciadas e, especialmente, nas que não são enunciadas em palanque, e na sua capacidade administrativa. Em suma: se essa gente toda dorme bem ou tem insônia, não é de nossa conta.

 

      Mas, porque desde sempre espremidos entre um romantismo tupiniquim encruado e o realismo das corporações internacionais, como temos o que temos e somos o que somos, nada me impede de (me) perguntar e tentar (me) responder se e por que diabos as experiências da ex-Ministra de Lula, ex-católica, ex-petista e ex-verde Marina Silva, místicas ou não, poderão ser consideradas tão importantes para o público.

 

      Paro por aqui para ninguém se cansar. Em seguida, há um segundo pedaço disso mesmo.

 

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OS UNGIDOS E SEUS REBANHOS – (II/4)

 MARINA II E IV

 

      Marina Silva esteve no programa do Jô Soares, contou suas histórias e terá deixado alguns eleitores satisfeitos, pois o objetivo desses eleitores será encontrar o nome de alguém que demonstre querer o Poder e seja capaz de derrotar a candidata do PT. Assim sendo, bastará que esse alguém tenha vontade de derrotar Rousseff e manifeste alguma capacidade de convencimento, não importando quais idéias orientem suas ações e seus objetivos. Ou qual ideologia esse alguém professe.

 

      Derrotar Rousseff nas urnas é o que alguns tantos pretendem. Ou dizem que pretendem. Esses alguns que nos dizem que pretendem ver Rousseff derrotada têm nomes. Talvez Marina também o pretenda (tenho eu cá minhas sérias dúvidas). Nem assim esses nomes todos significarão alguma guinada nos caminhos que o País já tomou. O nome da ex-Ministra de Lula despertará simpatias talvez porque consegue, por artimanhas, por uma engenhoca esperta qualquer, não parecer vinculado a experiências anteriores que causaram aos eleitores muitas decepções. E a expectativa é de que, sendo ela eleita, ou sendo eleitos aqueles que ela indique, possamos nos ver em situação melhor do que a que nos vemos hoje. Que é trágica.

 

      Algumas expectativas sem fundamento e/ou respaldo algum na realidade encaixam-se perfeitamente em um mais ou menos recente artigo de Fernando Gabeira –“ex”terrorista, “ex”comunista, “ex-PT”, “ex-PV”, “ex”-companheiro de Marina, “ex”-usuário de tanguinhas de crochê  (se “ex”-chincheiro já não sei bem, mas a idade pesa), um dos muitos “ex” de araque que colecionamos cuidadosamente em nossa galeria de iluminados, cuja verbosidade professoral nos desova em cima suas próprias experiências, convicções, expectativas e temores que “devemos” suportar e considerar como sendo “nossos” – pelo menos, como os “de uma nossa geração”. Gabeira nos diz, sabendo exatamente por que diz: “Parece ironia, mas se a oposição deixar também de fazer sentido, seja por uma tardia descoberta dos encantos da literatura ou pela recusa a analisar friamente os problemas nacionais, aí, então, estaremos perdidos. Só nos restará escolher entre o bom humor dos comediantes e o mau humor dos manifestantes, mas até neste caso um tipo de síntese conciliatória é desejável.” – http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,de-todos–os-picaretas-,1084409,0.htm

 

      Isso até se parece com uma ameaça. Mas não é. É apenas muito conveniente esse “se” de Gabeira, enunciado como “se” os encantos da literatura ou a recusa a analisar friamente os problemas nacionais já não estivessem consolidados como insana prática política de todos e qualquer um. Como “se” já não estivéssemos perdidos faz tempo. E como “se” exatamente nessa síntese de manifestações e comédias de mau gosto não estivesse o único “sentido” que uma “oposição” vem fazendo há muito tempo. Mais interessante ainda será esse seu “só nos restará”… que nos leva, necessariamente, a querer sustentar uma “oposição” nos moldes em que essa “oposição” se apresenta. Contra quê, exatamente, essa “oposição” se coloca? Se essa “oposição” deixar de fazer sentido, que falta nos fará? E, se nada mais faz sentido, exceto essa “oposição” e um Governo sem o qual essa “oposição” não existiria, qual sentido terá uma síntese conciliatória de bons e maus humores pontuais, que nem sequer oferece qualquer alternativa a ela mesma? Só nos restará, a nós, que, sem essa “oposição”, estaríamos perdidos, o bom humor dos comediantes e o mau humor dos manifestantes em síntese conciliatória exatamente por quê? Por uma única razão: porque somos incapazes de encontrar uma forma de bem administrar este País.

 

      Se neste País houvesse uma oposição de fato ao que significa o Governo atual e ao que significa essa “oposição” sem substância que não se lhe opõe, ela não seria uma oposição do “contra”, uma oposição choramingas, ao estilo já clássico do velho Partido Comunista que se infiltra até debaixo de nossas camas, mas uma oposição do “a favor”. A favor do Brasil. Reconheceria que o Brasil tem interesses que são absolutamente conflitantes com interesses que nos possam ser sugeridos desde fora de suas fronteiras. Poderia inclusive buscar uma proposta conciliatória a respeito de tudo o que nos falta para apresentar aos eleitores, porque tudo o que é novo é incipiente – mas essa seria uma proposta positiva, não negativa. Trataria a população como parte do Estado brasileiro, que merece respeito, não como uma afilhada do Governo ou como fiel platéia de seus malabarismos. O que é muito diferente da situação atual, em que todos são contra todos e contra tudo, mas não há oposição organizada. E como não há, de fato, oposição organizada alguma que possa dar um pontapé inicial de qualquer processo realmente novo, Gabeira, que é da “oposição”, saberá o que diz e exatamente por que o diz – não o dirá à toa.

 

      Nada me impede, ainda, que faça algumas perguntas meio básicas a muitos de meus amigos aflitos por encontrar um porto seguro para nosso País e por encontrar algo “novo” na política, uma ruptura com (tudo?) o que o colocou, absolutamente desarrumado, nesse vagar absolutamente sem rumo, e acreditam ter encontrado tudo isso em Marina Silva.

 

      – Rousseff alega que não há desemprego no País. A dupla dinâmica Marina /Campos reconhece as “conquistas” obtidas durante as gestões de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e de Lula da Silva (2003-2010) – só não reconhece conquistas na gestão Rousseff. Teria Lula governado com um modelo diferente daquele de governou Fernando Henrique? Exatamente em quê? Rousseff governa com um modelo diferente do modelo Lula? Exatamente em quê? Por que Fernando Henrique e Lula estariam certos e Rousseff estaria errada? A dupla Marina /Campos alega que “o modelo atual de se fazer política não é o mais adequado para assegurar avanços”. No Roda Viva, Marina afirmou que “quando o País atingiu sua plena capacidade produtiva não temos mais para onde ir”. Por isso ela quer avançar de uma “maneira diferente” não apenas no campo da ecologia, mas nos campos econômico, social, ético e cultural. Se o modelo atual não mais é adequado é que esse modelo se esgotou. Se o modelo se esgotou é porque o Brasil atingiu sua plena capacidade produtiva. É por isso, então, que não há desemprego? Ou é por isso que há desemprego, que as “bolsas” isso e aquilo procuram, desde Fernando Henrique (pela iniciativa de Ruth Cardoso), contornar? Se houver (mais) desemprego no futuro, as reservas florestais o resolverão? É essa a “maneira diferente” em que avançaremos? Em que sentido? Em que direção? Qual seria o modelo ideal? Que avanços pretendem assegurar Marina e Campos? Avanços sobre quê?

 

      – qual vantagem haveria em trocar uma petista “ex”-terrorista dita “vermelha” por uma “ambientalista” intransigente, que, por luxo, quer impedir que se construam hidrelétricas, quer liquidar com o agronegócio, o único de vulto que ainda nos resta, e quer dar de bandeja ainda mais terras, terras nossas, para que indiozinhos mimosos plantem mandioca (??) com a bênção de “cientistas” considerados acima de qualquer suspeita?

 

      – Marina afirma que “o que está aí é uma governabilidade com base na distribuição de pedaços do Estado. Ninguém governa sem partidos mas se faz isso com base num programa. Discutindo idéias força você pode ter um governo de coalisão baseado em programa e não no toma-lá-dá-cá.” Tudo bem. Se não se governa sem Partidos e se não haverá distribuição de “pedaços do Estado” entre os aliados, como será dada a retribuição por alianças feitas? Ou essas alianças se farão gratuitamente? Cada aliado estará em uma área determinada da administração? A quem cada um deles pretenderia beneficiar prioritariamente? Essas áreas não são “pedaços do Estado”? Por que não? Ou todos os aliados estarão em todas as áreas em distribuição aleatória? Sendo assim, não haverá conflitos inconciliáveis entre as diferentes orientações e os diferentes objetivos? Como se resolverão? Ou nenhum aliado estará em qualquer área da administração? Então, quem estará?

 

      – O “programa” de Marina – não o da dupla, que ainda é nenhum – resume-se à questão que ela denomina como “sustentabilidade” – ou seja, o “ambientalismo”. Embora nenhum programa conjunto tenha justificado sua aliança com Campos – o que faz dessa aliança um acordo meramente pragmático – que peso, em relação a outras eventuais “idéias-força” de outros indivíduos, Partidos, ONGs, Associações diversas, poderá manter essa “idéia-força” da qual Marina diz que não abre mão em uma aliança qualquer baseada em um programa? Com que recursos Marina levaria adiante seu programa ambiental se é o único programa que enuncia? Com que autoridade? Qual setor deverá ser sacrificado para que haja tais recursos? Quem estará investindo no programa de Marina?

 

      – o apoio que se possa dar a Marina reflete uma simpatia confusa, equivocada, mas sincera pela cor de uma camisa que defende claros interesses supranacionais, ou apenas revela um certo tipo específico de daltonismo esquizofrênico que impede que percebamos quando a combinação de verde-amarelo-azul-e-branco, que, essa sim, devemos de fato defender, encontra-se ausente?

 

      – a turma que prega a bíblia dos crentes em que “dos males o menor” e acha que isso, mesmo que não nos leve à salvação, será uma “solução” para nossos problemas, acredita, mesmo, em que nossos problemas se resumem a ter o PT no Governo? Mas, por que e por quem o PT foi formado e foi eleito? Quem nos trouxe esse problema? Que espécie e que tamanho de mal, em cima dos males que o PT e, antes, o PSDB e, mais antes, e ainda durante, o PMDB já nos proporcionaram, essa turma acha por bem nos garantir como sendo algo melhor do que tudo o que estamos presenciando e vivendo hoje? Será melhor por quê? Melhor para quem?

 

      Diria eu que é exatamente em virtude da “pro-atividade” dessa turma de tolerantes, dos “oh, não sejamos radicais!”, de pachorrentos, de auto-iludidos, que estamos onde estamos e não encontramos forma de sair do buraco. Nem mesmo aquela que aquele burro, não tão burro assim, encontrou – o que subiu na terra que lhe era jogada em cima e o enterraria vivo, e saiu pastando.

 

      Paro, de novo, por aqui para ninguém se cansar. Em seguida, um terceiro pedaço disso mesmo.

 

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OS UNGIDOS E SEUS REBANHOS – (III/4)

MARINA I E III 

 

      Não vi a entrevista de Marina no programa do Jô Soares. Era dose dupla, demais para minha saúde. Mas reconheço que se tornou uma “celebridade”, sei que tem o apoio de muitas “celebridades”, sei dos cargos que exerceu, das medidas que tomou, li o artigo de Ruth de Aquino na revista Época – que nos diz do “discurso da ética” de Marina, que ela será “respeitada com o que Deus lhe deu” e que “o eleitor não poderia arranjar outra igual para embaralhar o jogo sonolento da sucessão em 2014” – e vi Marina no Roda Viva (http://tvcultura.cmais.com.br/rodaviva/marina-silva – de onde retirei a foto que, pelo direito e pelo avesso, ilustra esses textos) sendo rasteiramente questionada por simpáticos entrevistadores a respeito de princípios, fins e, principalmente, meios. 

 

      Segundo Ruth de Aquino, “no caso de Marina, a biografia conta muito, no mínimo para que [ela, Marina] seja respeitada como pessoa, no pântano de nossa politicagem”. No caso dos demais, então, a biografia não contará? Por quê? De onde saiu Marina? Que há de tão importante na biografia de Marina, essa flor tão pura que só encontrava o pântano ao redor de si e pôde vir à luz fora dele?

 

      Os fatos que conhecemos pela Imprensa cotidiana já rebateriam e desautorizariam qualquer razoável expectativa com relação às idéias da possível candidata à Presidência ou à Vice-Presidência da República em 2014 (o que ainda não foi definido e não se sabe quando o será) a respeito desta coisa pública que, em tese, tem dono. A começar por ter ela mesma – ela, que foi candidata à Presidência em 2010, há recentes três anos, pois – ter dito e repetido no Roda Viva: “Não tenho como objetivo ser Presidente da República. O objetivo da minha vida não é ser Presidente da República“. Qual será o objetivo de Marina, então?

 

      Sendo seu objetivo apenas “trazer idéias para melhorar o país”, por que Marina se candidata a um cargo executivo e não ao Congresso, para que essas idéias possam ser levantadas e discutidas? E quais idéias seriam essas? Se a ideologia de Marina, a que permitiria que ela quisesse “melhorar o País”, é uma escolha de Marina e não o que determina suas escolhas, por que não deveria ser discutida? Como Marina se impôs na Política, ou seja, qual sua trajetória como pessoa pública, com quem e com que já se comprometeu, com quem e com que hoje se vê comprometida? Quais foram as demais escolhas de Marina? Quando foram feitas? Em nome de quê? Não, não haverá necessidade alguma de ler sua biografia para conhecê-las.

 

      O fato de que Maria Osmarina da Silva Vaz de Lima tenha nascido no Acre e seja filha de cearenses seringueiros nos diz apenas que ela é acreana e filha de cearenses que migraram para colher borracha na Amazônia – nada mais nos diz, nem de bom, nem de mau. De ter aprendido a ler aos 16 anos e ter completado, pelo Mobral, em quatro anos, o primeiro e o segundo graus, só nos poderá dar orgulho do Mobral (criado pela Lei n° 5.379, de 15/12/ 1967) e de quem o concebeu. Seria um projeto excelente, quase fantástico. E, em tese, foi. E muita gente conseguiu fazer o que Marina fez graças ao Mobral. Ter Marina trabalhado como doméstica e ter recebido salário por isso é ter conseguido algo que nem toda mulher, mesmo de média classe-média, consegue – em geral, esse serviço não é remunerado. Aliás, o Governo anda fazendo tudo e mais um pouco para acabar com essa possibilidade de renda familiar. Ter contraído cinco malárias e duas hepatites e salvar-se da morte é algo que se deve à sua genética, aos cuidados que recebeu ou à sorte. Formar-se em História muita gente, bem ou mal formada, também se formou e ainda se forma. Querer ser freira não é mérito. Nem demérito. Poderá parecer estranho a alguns, e muito normal a outros tantos. Não ter sido uma freira também não é mérito. Nem demérito. É uma escolha. Virar marxista, apesar de também poder parecer meio estranho aos mais inteligentes, pode ser considerado normal, tanto por influência da Igreja Católica quanto por influência do Curso de História. Em seguida, sem desvirar do que já tinha virado, ter virado evangélica apenas denota confusão mental. Ter filhos, um, dois, quatro, uma dúzia, também não é mérito. É vontade ou descuido.

 

      Prossegue Ruth de Aquino – colunista, blogueira, repórter e fã da ex-Ministra de Lula – nos dizendo que Marina foi “a mais jovem senadora do Brasil, aos 35 anos”. Antes, pois, terá feito uma campanha política, possivelmente já enfrentando madeireiros e fazendeiros – mas enfrentar “cangaceiros”, tal como diz a cronista, é outra coisa. Imagino que pretendesse dizer “capangas”, “jagunços”, não “cangaceiros”. Jagunços, Floriano os enfrentou e ninguém gosta de Floriano. Cangaceiros, quem os enfrentou foi Getúlio; e, se quase ninguém hoje se lembra ou gosta de se lembrar do Estado Novo, os cangaceiros já foram consagrados como revolucionários por Hobsbawm – que é sempre levado muito a sério. Por fim, “Lula a nomeou ministra do Meio Ambiente. Saiu derrotada e desgastada cinco anos depois, em briga com a mãe do PAC, a então ministra Dilma Rousseff”.

 

      No Roda Viva, quando foi perguntada por que teria saído do PT, Marina respondeu que saiu do Partido (após 30 anos de militância!) “em função de divergências no que concerne à agenda do desenvolvimento sustentado”. Perguntaram: “Não ficou suficientemente impressionada com o escândalo do mensalão?” Respondeu: “Nunca cheguei nem perto dessa história do Mensalão. Fazia o meu trabalho na área ambiental e saí do PT porque via o Presidente Lula sendo induzido a revogar as medidas do Plano de combate ao desmatamento”. E, perguntada sobre como dar fim à corrupção, respondeu que “a corrupção vai acabar quando se transformar em um problema nosso”. Mas… a corrupção era ou não era problema de Marina quando ela compunha o Governo de Lula… que ela faz questão de continuar chamando de “Presidente”?

 

      A primeira idéia que já se extrai das declarações de Marina é a de que, desde que na área ambiental possa ser feito o que ela pretende que seja feito, pouco lhe importam as “histórias” de corrupção”.

 

      Quanto aos conchavos para conseguir o Poder simplesmente pelo Poder, que Marina repudiaria, Marina tinha ou não tinha identidade com o Partido que a lançou à vida pública – o PT? O único “conflito de consciência” que encontraria quando no poder, como Ministra de um Governo do PT, foi, segundo o que ela mesma nos disse, ter que conviver com Mangabeira Unger por determinação do “Presidente Lula” (insisto: assim Marina continua referindo-se ao ex-Presidente). Se defende a ecologia com garras e dentes, quais conflitos de consciência teria enfrentado no Partido Verde, para o qual migrou e do qual, em seguida, também se desligou? Quais conflitos enfrenta Marina ao conversar com seu marido, até hoje secretário adjunto de Desenvolvimento Florestal, da Indústria, do Comércio e dos Serviços Sustentáveis no governo do petista Tião Viana? Ele já afirmou em rede social: “Vou pedir demissão não. Pelo menos este ano. Apoio e trabalho para o Tião Viana com muito orgulho.”

 

      E a filiação de Marina, a iluminada, ao PSB foi ou não foi nada mais que um conchavo para conseguir o Poder pelo Poder? Um conchavo com o candidato Campos, que pretenderá exatamente a mesma coisa – o Poder pelo Poder – e nada mais que isso. Tanto assim que refez suas alianças anteriores ao adotar Marina como aliada. E ainda está tentando descobrir como explicar em que se difere de Dilma e de Aécio. Marina, por sua vez, declara, sem demonstrar qualquer sombra de constrangimento ou de vergonha, que sua filiação é de faz de conta. Afora seus outros conchavos bem mais graves e mais danosos ao País que este, que não confessa.

 

      E paro, mais uma vez, por aqui para ninguém se cansar. Em seguida, um quarto pedaço disso mesmo.

 

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OS UNGIDOS E SEUS REBANHOS – (IV/4)

MARINA II E IV 

 

      Muita gente anda sinceramente preocupada com os flagrantes rumos tortos que nosso País tomou já há algum tempo, e está convencida de que precisamos impor um Governo que mantenha uma agenda séria voltada principalmente às necessidades da Sociedade, à valorização da Educação, da Saúde, da Segurança Pública, das Forças Armadas, garantidoras de nossa soberania e de nossa integração territorial; de que precisamos confiar em que as medidas econômicas tomadas não nos coloquem novamente em colisão com a superinflação; de que devemos dar fim à corrupção desenfreada na política, que se justifica, visando à tal da Governabilidade, somente porque a agenda governamental não supre as reais necessidades da Sociedade e porque elegemos um Congresso corrupto.

 

      Muito antes de que nos entendêssemos por gente, o nosso povo, que pelo menos algum dia já soube que era o Brasil e nada mais, já gritava nas ruas um “abaixo a carestia” acompanhado de um “abaixo a corrupção” ou coisa muito parecida. Tudo isso é um prato repleto de petiscos cheirosos que atrai qualquer demagogo, que chega a salivar de boca aberta antes de pôr-se a saboreá-los. Porque são idéias-fim que, embora sejam válidas, estão esparsas, sem concatenação e nada indica os meios que devem ser utilizados para que elas se tornem realidade. São o enunciado pelo enunciado. A realidade nua e crua é que até hoje ninguém conseguiu, exceto por alguma medida muito drástica e considerada, pelos muito sensíveis e muito inspirados, muito antidemocrática, fazer que esse nosso País andasse um pouco para frente, e não continuasse a se arrastar de lado (ultimamente ele vem andando para trás…). Porque o Brasil é um País do samba de uma nota só, dos temas minimalistas, das grandes metáforas, das maquiadoras, dos eufemismos.    

 

      Qual expectativa podemos ter de um Governo nacional eleito por um povo que idolatra modelos supranacionais, que adota uma ilusória identidade regional forjada nas últimas décadas, que exalta os que se dizem ungidos por bênçãos divinas, que exulta ao ver-se fatiado por cotas raciais, que se apoia em detalhes da vida privada de candidatos para escolher o mais simpático, que espera que suas engenhocas eleitorais sejam lançadas no mercado para comprar a mais sonora?

 

      Ideologia é um elemento eminentemente político, não econômico. Muitos daqueles que, mesmo antes do tão alardeado “fim das ideologias”, já entendiam errado o significado dessa palavra, atribuindo-lhe uma conotação específica “de esquerda”, com a ampliação dos mercados nas últimas décadas passaram limitá-lo ainda mais. Assim, a palavra perdeu importância e pôde ser aposentada. Quando a palavra ressurge, por qualquer motivo, sem que se revele em sua complexidade e sua especificidade, ser-lhe-á atribuído, no máximo, um valor equivalente ao de uma escolha entre meios e métodos que possam ser usados para um mesmo fim – que será a “salvação da humanidade” – quando não signifique apenas uma escolha de palavras que possam ser usadas por diferentes indivíduos para enunciar “o” discurso da atualidade, um único discurso que traduz um único pensamento que procura organiza a realidade. Ninguém poderá ser nacionalista e supra ou internacionalista ao mesmo tempo. Mas algumas palavras se tornaram tabu, umas serão malditas, outras benditas, umas serão simpáticas, outras antipáticas.

 

      Nessa confusão de palavras, alguns imaginam que o vilão da nossa história seja um individualismo que surge entre nós por combustão espontânea e vem sendo capaz de queimar qualquer boa intenção e qualquer boa Política. Outros se sensibilizam com o enunciado de que “nosso sistema” é “distorcido e perverso, indutor de criminalidade” e consideram que esse “sistema” deva ser substituído por outro “sistema” bem recomendado, que seja mágico e puro. Outros mais acreditam que o grande problema brasileiro se resume em que não se exige seriedade dos políticos e não se impedem os conchavos para que o Poder seja obtido simplesmente pelo Poder. O que é, sim, mas não é, não, um mero jogo de palavras: não permitir que o Poder seja desejado e obtido meramente pelo Poder requer o enunciado de objetivos, programas e projetos quando “os políticos” estejam em campanha, para que esses objetivos, projetos e programas possam ser analisados pelo eleitor e comparados com os demais objetivos, programas e projetos dos demais candidatos; exige que certas facilidades desfrutadas por aqueles que representam o Poder público não sejam usadas para que eles mesmos se mantenham no Poder pelo poder; exige que certas facilidades oferecidas pela fortuna acumulada por determinados indivíduos e determinados grupos – que têm Poder – não desvirtue, por meios lícitos ou ilícitos, a discussão daqueles projetos todos. Exige que a Política seja sempre praticada como um “sacerdócio”, desvinculada de interesses. O que é uma utopia, pois.

 

      Ao buscar o Poder, teremos necessariamente um objetivo político e um objetivo econômico, em maior ou menor amplitude dependendo da nossa identidade (uma questão ideológica) e dos interesses que essa identidade nos impõe. Não somos todos filósofos, mas somos todos políticos. A Política é feita no dia a dia, pelos eleitos e pelos eleitores, mas nunca alguém será capaz de tomar atitudes políticas “pela Política”, não mais, embora alguns pretendam poder fazer arte pela Arte.  

 

      E para cada música, haverá um reco-reco. Voltando a Marina, a ungida entre os ungidos – que de fato demonstra ter uma enorme coragem, coragem insana que lhe permite que nos diga tudo o que nos diz, de cara limpa, até mesmo que terá sido agraciada de maneira especial por entidades sobrenaturais -, desculpem-me, mas, esteja ela bem ou mal pintada ou sem pintura, só nos resta nos pôr ou continuar de mal com ela. Mas não apenas com ela. O que de verdade nos resta para que não mais prossigamos perdidos como já estamos é ficar definitivamente de mal com todos e quaisquer candidatos ou ex-candidatos cujos “projetos” e “programas” se resumam a apenas manter ou apenas conseguir o Poder pelo Poder, pois envolvem uma mesmice crônica que não se confunde, em absoluto, com qualquer interesse público; é ficar de mal com todos aqueles que nos exortem a ter uma fé absurda e gratuita em bons demônios e em uma reza braba qualquer que, sendo feita em coro, pudesse exorcizar maus demônios de plantão.

 

      Essa já “velha política” não se perpetua porque os que a representam brilhem com luz própria e ninguém os consiga apagar. Perpetua-se porque esperamos um “nome” que nos leve à terra prometida, porque justificamos, a cada momento, com nossa fé em um nada que se oponha a um coisa nenhuma e com nossos atos, o fato de que eleitos e candidatos à eleição possam conchavar à vontade, seja para manter o Poder pelo Poder, seja para submeter o interesse público aos caprichos do interesse supranacional, seja para implementar a “sua” agenda política, seja para comprar o que alegam ser o interesse público. Desde quando o interesse público permitiria a compra de votos na urna ou no Congresso? Desde quando o interesse público justificaria a fragmentação nacional? Desde quando o interesse público permitiria a alienação de terras nacionais? Desde quando o interesse público justificaria a massificação intelectual em todos os níveis? E por aí vai a coisa. Ninguém que seja hoje eleito pela vontade pública (ou por forças sobrenaturais…) representará qualquer “nova política” ou qualquer “ruptura com a velha política”. Porque, enquanto estivermos buscando um nome certo entre raposas erradas e não nos dispusermos a elaborar projetos nacionais com um mínimo de consistência e coerência, sabendo definir exatamente qual seja o nosso objetivo, seguiremos no mesmo rumo em que estamos, cavando o mesmo buraco embaixo de nossos pés. Essa é “a dura realidade”.

 

      Francamente, já não nos cansamos disso?

 

      Queremos votar? Votemos. Com raiva, com alegria, com asco, com entusiasmo, com conforto, com desconforto, com certeza, com desconfiança, tanto faz. Afinal, dizem que eleições são a essência da democracia. E o voto é um direito de todos e um dever de alguns. Mas não justifiquemos mais ainda, mais uma vez, o absolutamente injustificável. Que ele se faça, mais uma vez, pois não temos alternativa – mas não o justifiquemos. Muito menos justifiquemos qualquer campanha que nada nos traga de novo, cuja absoluta falta de substância será capaz, isso sim – e que considerem essa possibilidade os que pretendem, com seu voto, derrotar Rousseff -, de dividir os eleitores que se colocam contra o Governo atual, ajudando-o a novamente ser vencedor nas próximas eleições. O que, para todos nós, não significará qualquer vantagem ou qualquer desvantagem adicional. Significará apenas que o mesmo jogo se manterá com o mesmo Partido, não com outro qualquer, no Poder.

 

      Seja qual for o resultado das próximas eleições, o caminho será o mesmo, na mesma direção, porque não temos – e não temos porque não nos preocupamos com ter – qualquer alternativa ao que se ia e ainda se vai plantando com nosso consentimento; porque nada plantamos, nós mesmos para nós mesmos; porque nas últimas décadas aqui foi só plantado erva daninha, nem sequer capim de pasto; porque, aqui, onde em se plantando tudo dá, o que se plantou está sendo e será colhido. Por todos nós. Essa é “a dura realidade”. Realidade que a condenação e a prisão de meia dúzia de “mensaleiros” não altera, que ninguém muito se anime com essa “faxina”. Realidade que é estrutural, não se resume a um conjunto de problemas pontuais e não decorre de qualquer “sistema” extraordinariamente brasileiríssimo. Em qualquer lugar do mundo, sob as mesmas condições, sob os mesmos estímulos, essa estrutura se faria igual. E não será qualquer engenhoca política esperta que a resolverá. Nem por isso, porque justificada está, será moral, será justo, será lícito ou será preciso mantê-la.

 

      Se tivessem sido bem cuidadas as boas sementes – o que não dependeria, em absoluto, de agronegócio algum, mas apenas de boas cabeças, boa intenção, bons valores e de um bom projeto nacional –, aí sim, poderíamos ter alguma expectativa de que tudo aquilo que algum dia se alterasse se alteraria para melhor, em nosso próprio benefício. As boas sementes não foram bem cuidadas. Mas não morreram. Ainda sobrevivem, tentando brotar das frestas desse nosso terreno tão inóspito, onde puderam se abrigar. E sempre há de sobrar tempo ao tempo.

 

      Por isso mesmo, paro por aqui. Embora qualquer dia desses possa voltar a aborrecer com outros pedaços disso mesmo, que aqui não termina nem tão cedo terminará. Mas não agora. Agora, não. Depois. Para que ninguém se canse.

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
 
 
Ora, vejam só: pelo visto, alguém neste mundo ainda sabe – e ainda quer – fazer Política.
A lástima é que esse alguém não sejamos nós.
Tentar reunir, neste nosso País, cinco ou seis cabeças para discutir qualquer idéia que fuja das tradicionais receitas de como fazer farofa, aquelas que já constem do índice dos manuais importados e muito mal traduzidos que os milhares de nossos iluminados recitam de cor e salteado, é algo que a todos parece ser absolutamente absurdo e injustificável.
Jantar, sim, jantamos todos, e muito bem. Em nossos jantares, discutimos também. Discutimos a farofa. A que fazemos e a que comemos, saboreando.
Farofa, quando bem feita, é muito bom; e, quando não engasga, entulha. E só entulha.
Nós, aqui, continuaremos a nos entulhar de farofa até o dia em que não só uma farofa como também um jantar sejam considerados politicamente incorretos. Ou pela Esquerda ou pela Direita, isso tanto faz.
Nesse dia, Brasil não mais haverá.
E, de nós, sobrarão os ossos. Que alguém há torrar, moer e transformar em farinha. Que alimentará os peixes dos aquários ornamentais.
E o mundo continuará girando…  Da mesma forma como ele sabe girar. 
 
 
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08/11/2013 às 00h00

Ativistas querem mudar a China com jantares

Por Josh Chin | The Wall Street Journal, de Pequim

Uma nova safra de ativistas está causando embaraços ao governo autoritário da China de uma maneira simples, apesar de inusitada: eles se reúnem para jantar.

Todo mês, no último fim de semana, críticos do governo se reúnem para refeições modestas em mais de 20 cidades do país para discutir problemas que vão das falhas do sistema jurídico à desigualdade no acesso à educação. Os encontros são intencionalmente discretos, dizem os organizadores, mas sua meta – estabelecer os fundamentos para a democratização da China -, não.

“Não é ilegal se reunir para jantar”, diz Zhang Kun, um ex-funcionário de uma empresa de publicidade, de 26 anos, que começou ajudando a organizar as refeições depois de conhecer outros ativistas online. “Esse é o nosso lema: mude a China comendo.”

Ao mesmo tempo em que a elite do poder se encontra em Pequim para uma reunião a portas fechadas do Partido Comunista neste fim de semana, o grupo organizado de maneira informal e conhecido como Movimento dos Novos Cidadãos apresenta aos líderes do país um novo desafio. Encabeçado por um advogado formado na Universidade Yale, nos Estados Unidos, e apoiado por um investidor de capital de risco bem-sucedido, o grupo é formado por representantes da elite empresarial e da crescente classe média – uma enorme diferença dos movimentos anteriores, que eram formados em grande parte por dissidentes e pobres.

Suas reuniões têm evoluído para além de bate-papos: os jantares têm sido usados para organizar petições e manifestações contra corrupção, desigualdade e abuso de poder por parte da polícia.

Até agora, as autoridades reagiram de maneira previsível. Desde março, 18 membros do movimento foram detidos, incluindo a maioria de seus líderes, de acordo com a Human Rights Watch. Na semana passada, foram abertos os primeiros processos contra três ativistas menos conhecidos, acusados de reunião ilegal e outros crimes, depois que tiraram uma foto em grupo protestando contra a repressão.

Os líderes de Pequim temem agitações – assim como o chinês comum. Se por um lado a China vê com frequência protestos, às vezes violentos, seja de agricultores descontentes ou separatistas étnicos, o Movimento dos Novos Cidadãos apresenta um tipo diferente de ameaça, atraindo chineses educados e críticos que estão interessados em alternativas para o atual autoritarismo político.

Depois de várias décadas de forte crescimento econômico, aqueles que colheram os frutos desse avanço estão migrando das questões financeiras para as sociais. Profissionais urbanos conectados por uma explosão da mídia social, fortalecidos por suas carreiras de sucesso e ansiosos para proteger o que possuem estão cada vez mais criticando o governo abertamente sobre tudo, da poluição à censura e à violação das liberdades civis consagradas pela Constituição.

“Trata-se da chamada revolução das expectativas crescentes”, diz Tom Gold, especialista em sociedade civil chinesa da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Muitas dessas pessoas foram beneficiadas e agora querem o cumprimento do contrato.”

Os membros do Movimento dos Novos Cidadãos dizem que não estão incentivando uma revolução. Muitos chineses se lembram das violentas reviravoltas políticas da era maoísta e estão profundamente preocupados com uma possível volta da turbulência daqueles dias. Em vez disso, o grupo apoia uma mudança gradual na cultura da política da China.

“A China deve mudar completamente, deve se transformar completamente do estado atual de lutas políticas de vida ou morte para uma democracia com base no Estado de direito, da barbárie ao discurso civilizado. Sobre este ponto, não há discussão”, diz Chen Min, um comentarista social mais conhecido pelo pseudônimo Xiao Shu, que escreve intensivamente sobre o movimento. “Mas os métodos e caminhos específicos estão abertos para discussão.”

Participantes de longa data relacionam as origens do movimento à proposta de criar uma nova “cultura de cidadania” para vencer a “corrupção aparentemente onipresente e privilégios que minam o Estado de direito” na China. Publicada online em 2010, a “Promessa dos Cidadãos” foi apoiada por um grupo de reformistas que inclui Xu Zhiyong, professor de direito que deu aula na Universidade Yale como acadêmico convidado em 2004 e 2007, e Wang Gongquan, um investidor de capital de risco que fez fortuna investindo no mercado imobiliário e no boom das empresas pontocom no fim dos anos 90.

O apelo gradualmente ganhou espaço entre os usuários das mídias sociais de tendência mais liberal, cujo ceticismo sobre o governo cresceu depois de recorrentes escândalos de segurança alimentar e corrupção.

Ansioso para se conhecer pessoalmente, no ano passado o grupo passou a realizar jantares como uma forma de se reunir sem levantar suspeitas. O grupo queria que seus jantares fossem caracterizados por discussões organizadas para dar a todos a oportunidade de serem ouvidos, afirma Zhang Kun.

Os participantes propõem tópicos que variam de protestos contra a desapropriação de terras a modelos de governança democrática e depois os colocam em votação.

As refeições podem atrair de um punhado a dezenas de pessoas. No fim de dezembro, um jantar em Pequim atraiu mais de 200 pessoas, diz ele.

Quando uma nova liderança do Partido Comunista assumiu o poder, no fim do ano passado, prometendo combater a corrupção, o grupo enxergou uma abertura. Eles circularam uma petição online pedindo que 205 líderes do país divulgassem o patrimônio de suas famílias.

Essa iniciativa, que passou da teoria à prática, provavelmente instigou o governo da China a voltar-se contra o grupo, de acordo com defensores de direitos humanos e analistas.

Pouco depois das reuniões legislativas anuais do país terem terminado, em março, as autoridades prenderam dez membros do movimento por organizar uma manifestação em Pequim. Xu Zhiyong foi detido em meados de julho e Wang Gongquan dois meses mais tarde.

 

 
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

      Gosto muito de olhar para o céu e de poder ver aquele azul imenso, as nuvens passeando, livres e brancas como dizem que é a paz; gosto de ver os passarinhos voando, gosto de poder ouvi-los gorjeando, as cigarras cantando no alto da copa das árvores… A Natureza é muito bela e dela desfruto o quanto posso. Quando olho para o chão, só vejo bestas feras – as indomadas e as ditas domesticadas. O que não me fará considerar a Natureza menos bela. Mas é com essas bestas feras que convivo. Aliás, é com elas que convivemos todos nós. E, entre elas, buscamos sobreviver.

 

      O artigo abaixo, assinado por Luís Felipe Pondé, é muito interessante. Muito. Imagino que ele acuse os fatos que constata e que com eles se preocupe por razões muito e muito elevadas.

 

      Mas, como a exposição que ele faz desses fatos mais se assemelha à descrição de um cenário de guerra que a um poema parnasiano, vou aproveitar para tirar uma soneca.

 

      Se e quando for levantada a questão dos meios que deverão ser usados para tentar resolver esse enguiço todo que Pondé acusa, por favor, dêem-me, rápido, um cutucão. Porque vou gostar de lhe perguntar se o que ele propõe é que resolvamos tudo isso peripateticamente. 

 

      Se ele disser que sim, me levanto e vou embora, sem mais. Não haverá possibilidade de qualquer discussão ou, sequer, de uma troca de idéias. 

 

      Se disser que não, também me levanto e vou embora, porque me convenço de que ele só faz questão de mencionar “terríveis torturas” durante a “ditadura carregada por um golpe” porque não abre mão de passear pelos bosques férteis da demagogia abocanhando pedaços de melancias e assoprando os caroços. Gosto muito de melancias geladas, mas elas podem ser muito perigosas se ingeridas quando quentes do sol.

 

      E se Pondé disser que não sabe como resolver, aceitarei sua resposta numa boa, mas me levantarei mais rápido, para poder ir embora mais rápido ainda. E vou procurar trocar idéias com quem possa saber. Ou discutir com quem possa querer saber. E queira resolver.

 

      Por enquanto, aproveito para tirar uma soneca.

 

      Porque tudo isso que Pondé acusa, além de muito e muito mais do que isso tudo, já estamos cansados de conhecer. E não só deixamos acontecer como deixamos que continue acontecendo.

 

      Ou não?

 

 

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segunda-feira, novembro 04, 2013

Eu acuso – LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP – 04/11

O bullying ideológico com os mais jovens é apenas o efeito, a causa é maior

 

Muitos alunos de universidade e ensino médio estão sendo acuados em sala de aula por recusarem a pregação marxista. São reprovados em trabalhos ou taxados de egoístas e insensíveis. No Enem, questões ideológicas obrigam esses jovens a “fingirem” que são marxistas para não terem resultados ruins.

Estamos entrando numa época de trevas no país. O bullying ideológico com os mais jovens é apenas o efeito, a causa é maior. Vejamos.

No cenário geral, desde a maldita ditadura, colou no país a imagem de que a esquerda é amante da liberdade. Mentira. Só analfabeto em história pensa isso. Também colou a imagem de que ela foi vítima da ditadura. Claro, muitas pessoas o foram, sofreram terríveis torturas e isso deve ser apurado. Mas, refiro-me ao projeto político da esquerda. Este se saiu muito bem porque conseguiu vender a imagem de que a esquerda é amante da liberdade, quando na realidade é extremamente autoritária.

Nas universidades, tomaram as ciências humanas, principalmente as sociais, a ponto de fazerem da universidade púlpito de pregação. No ensino médio, assumem que a única coisa que os alunos devem conhecer como “estudo do meio” é a realidade do MST, como se o mundo fosse feito apenas por seus parceiros políticos. Demonizam a atividade empresarial como se esta fosse feita por criminosos usurários. Se pudessem, sacrificariam um Shylock por dia.

Estamos entrando num período de trevas. Nos partidos políticos, a seita tomou o espectro ideológico na sua quase totalidade. Só há partidos de esquerda, centro-esquerda, esquerda corrupta (o que é normalíssimo) e do “pântano”. Não há outra opção.

A camada média dos agentes da mídia também é bastante tomada por crentes. A própria magistratura não escapa da influência do credo em questão. Artistas brincam de amantes dos “black blocs” e se esquecem que tudo que têm vem do mercado de bens culturais.

Mas o fato é que brincar de simpatizante de mascarado vende disco.

Em vez do debate de ideias, passam à violência difamatória, intimidação e recusam o jogo democrático em nome de uma suposta santidade política e moral que a história do século 20 na sua totalidade desmente. Usam táticas do fascismo mais antigo: eliminar o descrente antes de tudo pela redução dele ao silêncio, apostando no medo.

Mesmos os institutos culturais financiados por bancos despejam rios de dinheiro na formação de jovens intelectuais contra a sociedade de mercado, contra a liberdade de expressão e a favor do flerte com a violência “revolucionária”.

Além da opção dos bancos por investirem em intelectuais da seita marxista (e suas similares), como a maioria esmagadora dos departamentos de ciências humanas estão fechados aos não crentes, dezenas de jovens não crentes na seita marxista soçobram no vazio profissional.

Logo quase não haverá resistência ao ataque à democracia entre nós. A ameaça da ditadura volta, não carregada por um golpe, mas erguida por um lento processo de aniquilamento de qualquer pensamento possível contra a seita.

E aí voltamos aos alunos. Além de sofrerem nas mãos de professores (claro que não se trata da totalidade da categoria) que acuam os não crentes, acusando-os de antiéticos porque não comungam com a crença “cubana”, muitos desses jovens veem seu dia a dia confiscado pelo autoritarismo de colegas que se arvoram em representantes dos alunos ou das instituições de ensino, criando impasses cotidianos como invasão de reitorias e greves votadas por uma minoria que sequestra a liberdade da maioria de viver sua vida em paz.

Muitos desses movimentos são autoritários, inclusive porque trabalham também com a intimidação e difamação dos colegas não crentes. Pura truculência ideológica.

Como estes não crentes não formam um grupo, não são articulados nem têm tempo para sê-lo, a truculência dos autoritários faz um estrago diante da inexistência de uma resistência organizada.

Recebo muitos e-mails desses jovens. Um deles, especificamente, já desistiu de dois cursos de humanas por não aceitar a pregação. Uma vergonha para nós.

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Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, “Contra um mundo melhor” (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de “Ilustrada”.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2013/11/1366183-eu-acuso.shtml 

 

 

 

 

  

  

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

      O que penso e o que eu possa pretender, todos os que me lêem estão cansados de saber.

 

      Ontem, no começo da tarde, escrevi no Facebook, onde gente de todas as tendências políticas me dá uma olhada (assim imagino), gente essa na qual estou de olho:

 

      1. “Uma hipótese nós levantamos quando queremos compreender e explicar alguma coisa. Em geral, sempre levantamos algumas hipóteses se queremos compreender, explicar e, principalmente, dar solução a alguma coisa que nos parece ser um problema. Em http://www.brickmann.com.br/ uma hipótese é levantada. Como hipótese. E ela até poderá ser válida. Muito válida. É uma hipótese que explicaria uma única morte em certo dia, entre as muitas e muitas mortes que temos nas ruas do País inteiro, todos os dias. Inclusive as de muitos PMs. O que eu gostaria de saber é o que poderia explicar o resto… todo o resto.  Alguém tem alguma hipótese a enunciar? Ou nos basta, como nos vem bastando, deixar rolar?” – o que se fazia acompanhar por um pedaço do texto publicado no endereço citado;

 

      2. “CADÊ? Cadê o corpo de João?  Alguém chamará no Facebook uma mobilização para que ele seja encontrado?” – o que introduzia um cartaz referente ao homem cuja cabeça foi encontrada no portão de sua casa dentro de uma mochila que foi divulgado por “apoio policial”.

 

      Não esperava resposta alguma, evidentemente. Apenas tentava, como sempre tento, estimular o raciocínio de quem observa o jogo político que se desenvolve sem sua participação direta como se estivesse sentado em uma arquibancada de estádio esportivo, escolhendo o time mais simpático, torcendo, gritando, chorando, rindo, argumentando, vociferando, não admitindo a derrota e não sendo capaz de ver qualquer falha ou má intenção naqueles “seus” jogadores.

 

      Mais tarde, chegou-me, tal como chegou a muitos, também pelo Facebook, o texto que se encontra em 

http://ensaiosde-igorbuys.blogspot.com.br/2013/10/proposicao-de-uma-tatica-anti-black.html?m=1 .

 

      Não é qualquer resposta de alguém, nem mesmo indireta, ao que escrevi. Não é, tampouco, apenas a propaganda de uma dada posição política. É uma análise de situação. Que, indireta, mas imediatamente, responderá à análise de situação que eu mesma possa ousar fazer.  

 

      Gosto de ler textos escritos por gente inteligente. Eles me acrescentam. Mas nem todos os textos que leio eu recomendo. E não considero inteligentes apenas aqueles que concordam com os objetivos que persigo e com os métodos que creio adequados. Podem ser inteligentes também os que discordam deles todos. Até os que possam discordar de minhas convicções absolutamente. Especialmente estes me instigam e, lendo-os, amplio ou corrijo o azimute de minhas considerações. Portanto, penso mais, reflito mais, aprendo mais, muito mais.

 

      Recomendo a leitura atenta desse texto a que me refiro. É bastante longo, mas é bastante claro no que diz. E é bastante sinuoso no que não diz ou pudesse pretender não dizer. Desde logo, pareceu-me que tivesse sido escrito por alguém que tivesse acesso ao que eu não poderia ter, jamais, e, assim, conhecesse um número muito maior de detalhes do que o que eu poderia tentar conhecer. Em muitas passagens, o texto entusiasma. Em outras, parece exagerar. Em outras mais, cai em certos cacoetes de argumentação que somente os mais organizados ou os mais confusamente “ideologizados” possuem. Não fui capaz de decodificar de imediato a organização que os pudesse permitir. Consideremos que muita gente se fantasia de “nacionalista”, adota um discurso “nacionalista” apenas por canalhice, ou explica – quando não justifica – qualquer estupidez como sendo “nacionalismo”; e que muitas organizações não só contam com elementos que se infiltraram desde sempre e ainda se infiltram em todos os nichos de poder, seja maior ou menor, inclusive nos menos prováveis, como contam com um excelente serviço de informações supranacional.

 

      Surpreendeu-me, assim, mesmo após ter percebido a recomendação de cautela com a possibilidade de um abalo irreversível da ordem institucional atual, encontrar a exaltação de porta-vozes dos projetos do Governo Rousseff que se caracteriza pelo tatibitate e pela demagogia voltados às massas incultas e semicultas. Não me constava que o PT tivesse alguém com estatura intelectual suficiente para produzir um texto tão bem articulado como esse é. Vê-se que nada é impossível, porém… E que nada deverá ser considerado improvável. Por outro lado, uma coisa é certa: os demais Partidos e organizações paralelas à política eleitoral não estarão preocupados, muito menos em grau semelhante, com o que é declarado como razão de preocupação. Nem têm “inteligência” capaz de possuir ou articular tanta informação.

 

      Recomendo, então, a leitura de um texto que foi escrito por quem não conheço – declara-se “servidor da Justiça Federal; escritor profissional sindicalizado desde 2001, dramaturgo e poeta” e desvinculado do Partido no poder. Não professará as mesmas convicções que professo; mas escreve muito bem e demonstra ter, se não as mesmas em um mesmo número, algumas das preocupações que, sim, eu tenho – e muito me preocupo.  Bem, sabemos que há preocupações programáticas e preocupações pragmáticas…

 

      Recomendo a leitura, sim. Mas recomendo uma leitura crítica. É um texto inteligente. Não afirmo que contenha apenas verdades, nem sequer que contenha alguma verdade, nem afirmo que contenha mentiras ou só mentiras. Afirmo apenas que contém e articula evidências. E tem alvo determinado: a camada mais intelectualizada da paróquia – a classe média urbana que, atônita, assiste à destruição de suas cidades, os profissionais de diferentes áreas que vêem, atônitos, seus esforços e seus conhecimentos considerados inúteis pelos entusiastas dos programas de cotas raciais e ditas sociais, os Policiais que vêem, atônitos, suas funções e sua capacidade sendo desafiadas, os Oficiais das FFAA que, atônitos, percebem que o País se desfaz como mingau no calor da violência das reivindicações de rua etc. O texto abre alas a que o Bloco Vermelho do Paz-e-Amor passe… e enfrente os Blocos Negros do Quebra-quebra no fantástico Carnaval de rua que se programa, ensaia e avizinha. “Legitima” a ação do Partido em lugar da ação do Estado. E isso somente pode ser feito porque não há, hoje, qualquer projeto nacional de fato que tenha sido sequer alinhavado por uma “inteligência” desvinculada dos objetivos da esquerda. Nem contamos com qualquer organização ou ação política de vulto efetivamente nacional (oh, mas elas não seriam… “fascistas”…?).

 

      Seja informação de fato, seja contrainformação, o que esse texto nos traz deverá ser considerado por quem pensa a realidade, busca soluções e busca antecipar-se a problemas que possam tornar-se insolúveis. Mesmo se sentirmos, enquanto lemos, um certo estranho odor no ar, os exageros do texto, sejam ou não sejam exageros de fato, correspondam ou não à verdade ou às possibilidades, precisam de ser considerados pelo menos como hipóteses.

 

      É isso. Eu penso, vocês pensam, nós pensamos… E, assim, algum dia, todos nós talvez possamos sair do buraco sem fundo em que nos metemos exatamente porque pudemos pensar que eles, os nossos “outros”, pudessem não pensar.

 

 

 

  

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

Os fatos obrigam Chico Buarque a se desculpar. Mas ele continua errado, na gramática e no mérito. (…) Sempre que me deparo com o uso de ‘algum’ em lugar de ‘nenhum’, fico atento. Pode ser que estejamos diante de um novo Castilho da língua portuguesa, não é? Estou entre aqueles que consideram esse emprego uma licença. Evidentemente, o que remete à melhor língua portuguesa é ‘Eu não me lembrava de ter dado entrevista NENHUMA’. Para não entrar em minudências, vou para o exemplo: — Quantos livros de gramática você já leu, Chiquinho? — Não li algum! — Hein? — Não li nenhum! — Ah, bom… (…) Ocorre, meus caros, que uma licença pode ser usada por escolha ou por ignorância.” – Reinaldo Azevedo – http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/ – 17/10/2013

 

 

      A bem da boa verdade, afirmaríamos que a gramática quase nunca obrigará Chico Buarque a se desculpar. E a estética muito pouco o obrigará a fazer isso. Muito embora os méritos e os fatos lhe pudessem exigir que o fizesse com bastante frequência. Nestes, o popular compositor vem dando chutes e trombadas, há muitos e muitos anos, mas desculpar-se é algo com que, sendo uma celebridade, ele não muito se preocupará. Celebridades, como bem sabemos, estão acima de qualquer suspeita. Não cometem erros nem contam mentiras. No máximo, se algo puder ser mais escandaloso do que sua própria fama, explicarão que desconheciam certos fatos ou que sofreram algum lapso de memória, que terá sido involuntário, como bem sabemos.

 

     Também a bem da boa verdade, diríamos que os méritos e os fatos quase nunca vêm obrigando Reinaldo Azevedo a que se desculpe. Mas, mesmo que consideremos que sejam poucos os seus tropeções (nem por isso serão pouco graves), nem sempre a estética se vê presente no que escreve; e, na semana passada, a gramática não deve ter dormido muito satisfeita com ele.  

 

     Fatos e méritos à parte (por enquanto), querer corrigir Chico Buarque por este ter dito “Eu não me lembrava de ter dado entrevista alguma a Paulo Cesar de Araújo, biógrafo de Roberto Carlos” será desconhecer não apenas as regras básicas da língua portuguesa como sua lógica irrepreensível. Se, onde e quando elas forem desprezadas, faz-se a confusão. E será pretender que se adote um galicismo como sendo uma regra “legítima” dessa nossa preciosa língua. Os franceses, sim, usam em suas frases a dupla negativa. Em Português, quem o fizer estará afirmando, não negando.

 

     Se alguém dissesse “Eu NÃO me lembrava de ter dado entrevista NENHUMA”, tal como sugere Reinaldo Azevedo que Chico Buarque devesse ter dito, esse alguém estaria dizendo o que corresponderia a “eu NÃO me lembrava de NÃO ter dado uma, qualquer, alguma entrevista” – o que, por sua vez, corresponderá a “eu me lembrava (sim!) de ter dado uma, qualquer, alguma entrevista”. O que Chico Buarque pretendia dizer, pelo que se retira de suas declarações, seria o justo contrário, fosse verdade ou não fosse. Ele quis dizer que NÃO se lembrava de ter concedido, sim, a entrevista que, sim, concedeu.

 

     Vou às minudências. No diálogo que Reinaldo Azevedo traz como exemplo de sua certeza do erro de Chico Buarque, que começa com: “— Quantos livros de gramática você já leu, Chiquinho? — Não li algum!”, o que temos é o seguinte: quantos livros terá lido Chiquinho? Se Chiquinho dissesse que NÃO tinha lido uns quantos livros, cinco, seis, dois, ele poderia ter lido os demais que lhe tivessem sido recomendados; se ele diz que NÃO leu (livro de gramática) algum, ALGUM livro, livro ALGUM, qualquer livro, um único livro de gramática, NADA do que já tenha sido publicado a respeito de gramática ele leu. E, se ele NADA leu, a resposta correta não poderia ser “NÃO li NENHUM” (livro). Ela seria: “NÃO li ALGUM (livro)”, ou “eu li NENHUM (livro) ou “NENHUM (livro) eu li” – e lhe caberia, perfeitamente, ouvir um “Hein?” de desaprovação, de espanto, como resposta (e, neste ponto, já estarei entrando em méritos…). Mas, sendo esperto, e cuidando de escapar da bronca, Chiquinho quis “corrigir-se” e disse em seguida: “— Não li nenhum!”. E, então, terá merecido um — Ah, bom…” como resposta que, antes, não lhe caberia, porque esta é uma resposta de aprovação. Recebeu-a agora porque, dizendo “NÃO li NENHUM”, terá dito que leu, sim, livros de gramática – aliás, poderá ter lido todos eles. Quantos livros de gramática Chiquinho NÃO leu? NENHUM. Invertendo os termos: se NENHUM livro de gramática Chiquinho NÃO leu, quantos livros ele leu? Se não todos, algum ele terá lido.  

 

     Se digo que a preguiça me leva a NÃO querer fazer uma coisa qualquer, alguma coisa, escrever um livro, por exemplo, como poderemos supor que o dissesse, principalmente por escrito? Para não ser acusada de incoerência, levando em conta a preguiça que aleguei, um segundo “não” só poderia estar na frase no início dela, antes de uma vírgula, no final, depois de uma vírgula, ou entre vírgulas, pois seria apenas um reforço: NÃO, eu NÃO quero escrever um livro. Ou eu NÃO quero, NÃO, escrever um livro. Ou eu NÃO quero escrever um livro, NÃO. Ou, como diriam os nordestinos, talvez por influência holandesa (?!), quero NÃO escrever um livro, ou escrever um livro, quero NÃO. Ou, simplesmente, NÃO quero escrever livro ALGUM. E, se não quero escrever um livro, o que, sim, eu quero é escrever NENHUM livro. Somente se NÃO quero (negativo) fazer alguma coisa ou coisa alguma, tanto faz, o que quero (afirmativo) será fazer coisa NENHUMA (negativo) – o que só a preguiça me permitirá dizer. Não poderei dizer que NÃO quero NÃO escrever um livro. Se um segundo “não” estiver desprovido de vírgulas, e se o “nenhum” estiver confrontando o único “não”, em conjunto, na frase, eles estarão afirmando que estou querendo fazer alguma coisa, SIM.

 

     Explicando de melhor forma (penso eu), pelo avesso: se o que eu NÃO quero é ver-me NÃO fazendo qualquer coisa, se NÃO quero NADA fazer (ou fazer NADA), se NÃO quero fazer NENHUMA coisa (ou coisa NENHUMA), se NÃO quero escrever NENHUM livro (ou livro NENHUM), que será o que eu quero, então, fazer? Tudo. Ou fazer alguma coisa. Ou fazer qualquer coisa, até escrever um livro. O que não se encaixará muito bem com a preguiça que aleguei. Se não quero escrever um livro não poderei dizer que NÃO quero escrever livro NENHUM. Chico Buarque disse que NÃO se lembrava da entrevista que deu. Não é que NÃO se lembrasse da entrevista que NÃO deu, ou seja, que NÃO se lembrava de NENHUMA entrevista que tivesse dado, ou de entrevista NENHUMA. Ele NÃO se lembrava de que ALGUMA entrevista teria sido dada, NÃO se lembrava de entrevista ALGUMA. A inversão das palavras apenas reforça o que foi dito, não inverterá nem subverterá o significado delas ou o da frase inteira.

 

     Obedecendo à mesma lógica, dizer, como é nosso costume, que NINGUÉM (nenhum indivíduo) quer fazer NADA (nenhuma coisa, nenhum fazer, nenhuma forma, nenhuma essência) será o mesmo que dizer que todos querem fazer tudo e mais um pouco, como também é nosso costume. Mas também atrapalhará a vida de todo mundo, tanto quanto a preguiça atrapalha. 

 

     É certo que, na leitura e na redação, inclusive na nossa própria, deveremos estar atentos sempre que nos depararmos com o uso de “algum” em lugar de “nenhum” e vice-versa. E deveremos nos manter atentos especialmente quando escrevemos muito rapidamente ou quando rebatemos com paixão algo ou alguém que muito nos incomode – poderemos não dar muita atenção à forma que emprestamos ao que de fato estivéssemos querendo dizer, e os tropeços serão constantes. Isso porque, ao negarmos algo, nosso próprio raciocínio, que é muito mais rápido que nossas mãos e muitas vezes nos passa a perna, se deixado solto, há de nos levar a pôr tudo aquilo que a esse algo ou a esse alguém se refira ou se acrescente no negativo. Porque, ao negar, negaremos absolutamente. Bastará, porém, que leiamos com atenção o que já escrevemos, e o conhecimento dos fatos e o conhecimento da linguagem correta nos acudirão e nos levarão a corrigir o que poderá ter sido muito bem pensado, mas poderá ter sido mal escrito.

 

     E deveremos ainda estar muito atentos a muitas coisas mais que se nos colocam como armadilhas. Deveremos, por exemplo, prestar muita atenção à pontuação ao transcrever a linguagem oral (a que usamos para pensar no que dizer): primeiro, porque ela não é sonora; depois, porque não corresponde a pausas de locução – estas dependem da entonação que damos ao enunciado. Vírgulas, pontos, travessões etc. são sinais gráficos exclusivos de uma linguagem escrita, muito necessários a ela, se na conta certa, e têm uma função específica, uma função lógica, essencial à comunicação das idéias quando postas por escrito. Dê-se, pois, a Saramago o que é de Saramago e a nós o que nosso é. O que valerá, ao fim, é o conteúdo, a capacidade de transmissão e a capacidade de compreensão.

 

     O conhecimento nem sempre acudiu Chico Buarque. Talvez porque nem sempre tenha sido chamado a acudir – não seria o que lhe importava no momento. Nos versos de “O que será”, por exemplo, que de repente me ocorrem, Chico Buarque parece concordar com a lição que Reinaldo Azevedo nos quis dar. Ao dizer “o que NÃO tem certeza NEM NUNCA terá, o que NÃO tem conserto NEM NUNCA terá… o que NÃO tem decência NEM NUNCA terá, o que NÃO tem censura NEM NUNCA terá”, esses seus “nem” todos deveriam ter sido substituídos por “E” – o que não feriria a métrica nem a sonoridade: o que não tem… E nunca terá. Porque NEM significa NÃO. Quando já dissemos um NÃO, antes, significará TAMBÉM NÃO. NÃO isso, (também) NÃO aquilo, ou NÃO isso NEM aquilo, ou NEM isso, NEM aquilo. E porque a negação já estava intensamente expressa em NUNCA (em tempo NENHUM ou em NENHUM tempo): NÃO isso (E) NUNCA aquilo.

 

     Como bem diz Reinaldo Azevedo, “uma licença pode ser usada por escolha ou por ignorância”. Um galicismo é um vício de linguagem que “deixamos passar” com liberdade e, muitas vezes, permitimos que se instale entre nós e em nós. Nós lhe damos licença como damos licença aos que consideramos muito sábios e/ou muito eruditos, algumas vezes até lhes fazendo reverências. De vez em quando, resvalo em galicismos. E, sim, por ritmo, por sonoridade, por estética, por preguiça, quando não compromete o que escrevi, permito-me não incomodá-los. No caso, a licença, que subverte a nossa linguagem, que foi dada pelo próprio Reinaldo Azevedo e também por Chico Buarque, terá sido uma escolha, porque ignorância não será, mas resultará em que usemos duas negativas para negar. Elas se anularão e afirmarão positivamente o que pretendíamos que fosse negado. Aceitar tal construção como regra significará querer confundir, será adotar algo que não pertence à lógica (lusitana, corretíssima) de nossa linguagem. Algo que obrigará a linguagem a se comportar como não deveria se comportar. E, por vezes, há de nos levar a nos comportar como não deveríamos nos comportar. Esta é a questão de fato.

 

     Alguém nos poderá dizer ainda que um galicismo, ora, mesmo sendo um vício, não é exatamente um erro. Não, não é, não – é apenas um galicismo, nada mais. É um “jeito de ser, de fazer e de dizer”, com o qual já nos habituamos e muitas vezes adotamos sem querer e sem perceber. Alguns até poderão nos dizer que é um “refinamento”. Entre nós, todos dizem o que bem entendem a respeito de qualquer coisa. E todos entenderão qualquer coisa como sendo qualquer coisa. Inclusive o que digo agora. E acreditam que tudo terão entendido muito bem.

 

     É assim que outros vícios mais e outras escolhas tortas se incluem em nosso cotidiano. Porque também os “deixamos passar”, sem lhes impor os limites que nos seriam adequados e convenientes. Assim vamos indo, aos escorregões, aos trambolhões e aos tropeços em galicismos, em anglicismos, em germanismos e em outros tantos “ismos” mais que nos sejam muito e muito mais perversos.

 

     Questão de méritos, talvez. Quem sabe? Mas quem os atribui a quem?

 

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 inesquecíveis x inesquecíveis

   

      Está escrito, no chão da sala de aula que se vê na primeira das figuras acima (dê um clique):

 

      “Se você é professor(a) e teve alunos inesquecíveis, compartilhe !!!

 

      Compartilhemos todos nós, professores!

      Porque nossos alunos serão, todos eles, do primeiro ao último, inesquecíveis. E são inesquecíveis porque são. Todos eles.

 

       ****************************************

 

      E, porque são inesquecíveis, para que não nos esqueçamos deles, não mais precisaremos de vê-los em sala de aula.

 

      Poderemos, assim, manter nossas greves por tempo indeterminado, livremente, sem corte de ponto, incentivando quaisquer outras greves levadas por qualquer que seja o motivo, sejam quais forem as conseqüências;

 

      em nossas manifestações, poderemos nos misturar à tropa de choque de mascarados que nos garante o exercício de nossos direitos inalienáveis – aliás, segundo o depoimento de alguns de nós, ela é formada por nossos alunos, que são inesquecíveis;

 

      poderemos, assim, fazer nossas manifestações por tempo indeterminado, livremente, incentivando quaisquer outras manifestações provocadas por qualquer que seja o motivo, ainda que ele seja declarado como incerto e não sabido;

 

      temos o dever de dar, aos nossos alunos inesquecíveis, o exemplo – principalmente o exemplo do exercício dos direitos inalienáveis da cidadania;

 

      justificaremos as paredes pichadas, as pedradas nas vitrines, os molotovs, os incêndios;

 

      justificaremos o soberbo desprezo pela ordem pública e por mais três ou quatro direitos fundamentais constitucionalmente assegurados a todos, tais como são o direito à liberdade de movimento mesmo que para gozar de descanso ao fim de um dia de trabalho e o direito a freqüentar uma Escola – direitos esses extensivos inclusive a nossos alunos inesquecíveis;

 

      justificaremos a destruição da propriedade, pública e privada, e a agressão à integridade física de quem quer que seja que se oponha à nossa liberdade e à de nossos alunos inesquecíveis.

 

      Juramos, sem cruzar os dedos nas costas, por tudo o que nos seja mais sagrado, que nunca nos esquecemos, nem nos esqueceremos, jamais, de nossos alunos inesquecíveis.

 

      E sabemos que os conhecimentos que lhes proporcionamos serão inesquecíveis.

 

      Sabemos também que nossos alunos não precisam de nos ver em sala de aula para que não se esqueçam de nós. Somos professores inesquecíveis. Porque somos.

 

      ****************************************

 

      É digno e justo, razoável e salutar, em todo e qualquer tempo ou lugar…

 

… “Na última terça-feira, novos protestos terminaram em confronto com policiais militares e atos de vandalismo nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Foram detidas 190 pessoas na capital fluminense e 56 na capital paulista, na ocasião.  Em São Paulo, o ato foi convocado por estudantes da USP, que invadiram a reitoria da universidade no último dia 1º e reivindicam eleições diretas para reitor. O ato, porém, atraiu também partidos de esquerda, movimentos sociais e “black blocs”.  Na capital fluminense, o ato foi convocado por professores das redes municipal e estadual, que estão em greve desde 8 de agosto, e são contrários ao plano de cargos e salários da categoria proposto pela Prefeitura do Rio e aprovado pela Câmara de Vereadores.” 17/10/2013 – 16h39  

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/10/1358114-violencia-em-atos-reflete-sofrimento-do-cidadao-diz-ex-secretario.shtml

 

 

 

 

 

 

 

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A COISA

15-10-2013
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

      Nunca considerei a “Constituição cidadã” o “menor dos males possíveis”. Nem poderia considerar.

 

      Desde sempre considerei seu objetivo como sendo, literal e escancaradamente, o fim da picada. Com ela, deu-se início à caminhada, curta, mas desenfreada, rumo a esse específico fim, ao qual hoje chegamos. Não há mais como seguir em frente, nem virando à direita, nem virando à esquerda, nem mantendo-se ao centro. E não há volta possível, porque a picada, ao ser trilhada, era cuidadosamente coberta de armadilhas entre as quais um matagal cerrado se formou. Resta-nos apenas nos sentar no chão e assistir à implosão do Estado brasileiro. E bater palmas ao espetáculo e aos personagens responsáveis por ele.

 

      A começar, insisto, do seu Título I, Art. 4º, Parágrafo único – “A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”, de iniciativa de quem não sei, ao qual ninguém se opôs – a “Constituição cidadã” se demonstra a qualquer um que saiba ler como sendo o resultado de um campeonato absurdo em que a sensatez – ou seja, o pensamento minimamente voltado às reais questões nacionais – perdeu todas as partidas. E as terá perdido não em campo, mas por abster-se delas, por ver-se absolutamente ausente. Perdeu todas, ainda que os times que se faziam presentes fossem de várzea.

 

      Tanto quanto o PT disse à época, mas por razões diametralmente opostas às do PT, diria e digo eu que “não assinaria aquela coisa”, jamais, de jeito algum. Coisa que parece ter saído da mente doente de um roteirista de filmes de terror de 3ª categoria, coisa insensata, irracional, que é responsável por todos os males que atravessamos desde que foi promulgada “grávida de direitos e infértil de deveres”, tal como diz o texto abaixo, que vale a pena ler.

 

      Seus incontáveis remendos apenas refletem o agravamento, que ela mesma permite, de “um alarido de proporções nacionais em favor de teses” estúpidas, na ordem econômica, e populistas e demagógicas na ordem social e em tudo mais.

 

      Discutir esse arremedo de Constituição e propor que seja colocado um número cada vez maior de esparadrapos nas feridas expostas e purulentas do Estado brasileiro é não mais que mais perda de tempo.

 

      Só não sei ainda por que razão aqueles que se consideram minimamente sensatos não decidiram voltar-se contra esse texto letal, do qual se armam cotidianamente os inimigos da sensatez, na sua totalidade; e não tratam de tentar discutir e produzir uma Constituição minimamente decente que reflita a intenção de que um Estado minimamente decente possa ser reconstruído e a de que ele possa desenvolver-se de forma minimamente decente. Possivelmente porque são pachorrentos e/ou insensatos o suficiente para que se sintam desobrigados ou impedidos de fazê-lo.

 

      Se alguns ousassem, um mínimo que fosse, pelo menos teríamos uma discussão de fato política neste nosso País e não esse lero-lero encruado, provincial, de quintal, infernal, a tentar nos distrair entre uma eleição e outra, enquanto profissionais da politicagem nos “governos” de faz de conta se sustentam com recursos remanescentes de um Estado já morto, mas ainda insepulto, e “oposições” de faz de conta nos estimulam a cavar, sempre cada vez mais fundo, sem sair do lugar em que estejamos sentados e a, nesse mesmo fosso que nós mesmos cavamos, com ele, o nosso Estado, nos enterrar. A enterrar todos nós, os insensatos, os ditos sensatos e os que se consideram sensatos.

 

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http://www.puggina.org/

AOS QUE SABEM “DE OUVIR DIZER”

Percival Puggina

 

        Vinte e cinco anos se passaram desde a promulgação da Constituição Federal. Um nada, na linha da história. Um vapt-vupt, na existência de cada um. No entanto, o leitor talvez se surpreenda ao saber que, segundo a pirâmide etária brasileira de 2010, apenas 31% dos cidadãos brasileiros de hoje tinham 18 anos ou mais naquela data. Portanto, sessenta e nove por cento sabem do processo constituinte de 1988 apenas por ouvirem dizer. E em questões de política e história recentes, saber por ouvir dizer, beber de solitária fonte, é das piores maneiras de ser informado.

        Surpreendeu-me a afirmação de Lula sobre a participação de seu partido na Constituinte. Segundo ele, se tivesse sido aprovada a constituição que o PT queria, “o país seria ingovernável, porque nós éramos duros na queda e muito exigentes”. Com efeito, o PT da Constituinte detestou tanto o texto final que votou contra. Não satisfeito, anunciou que sequer iria assinar aquela coisa. Denegrindo a carta e seus autores, os petistas espalharam pelo país seu escândalo ante o “conservadorismo” do texto. Por um triz os deputados do partido não rasgaram as vestes na Praça dos Três Poderes. E só após muitos apelos de Ulysses Guimarães, consentiram em acrescentar seu precioso jamegão à Carta Magna. De nariz torcido, claro.

        Quem lê estas linhas em 2013 deve estranhar o fato de o PT haver sido derrotado pela maioria em 1988. Pois mais ainda o surpreenderá saber que para aquela importantíssima legislatura o partido de Lula conquistou apenas 16 das 487 cadeiras existentes à época na Câmara. E não elegeu um único senador. Os parlamentares do PT, PCB, PCdoB, PSB e PDT, somados aos esquerdistas do PMDB, compunham pequena minoria naquele plenário. Mas o reduzido grupo, liderado por José Genoíno e Roberto Freire, com apoio da CNBB, produzia um alarido de proporções nacionais em favor de teses comunistas na ordem econômica, socialistas na ordem social, populistas quase sempre. E demagógicas em tudo. Dá para reconhecer o estilo?

        Poucos, hoje, terão ouvido falar do “Centrão”, o grupo de congressistas que se organizou para que houvesse um mimimum minimorum de racionalidade no novo texto constitucional, opondo-se às teses da esquerda radical, muito minoritária, mas muito organizada. Este último grupo dispunha, em seu favor, de notável suporte da mídia militante, que execrava o Centrão e o servia à opinião pública como Salomé, na bandeja das coisas odiosas, articuladas com as mais nefastas e malignas intenções. Abro parêntesis: é bom que se diga, a bem da verdade, que o Centrão não foi sempre majoritário e que as cisões eram frequentes no bloco diante das pressões desencadeadas de fora para dentro do plenário e das comissões. Fecho parêntesis. Assim, em 1988, a sensatez perdeu inúmeras partidas e o Brasil ganhou uma Constituição grávida de direitos, infértil de deveres. Nos anos seguintes presenciaríamos inesquecível surto inflacionário e depois, uma escalada tributária que persiste ainda hoje entre as mais altas do mundo.

        A intenção deste artigo, quando se comemoram os 25 anos da Constituição, é sublinhar o reconhecimento de Lula aos pecados de seu grupo no processo constituinte de 1988. Ao declarar que as propostas petistas tornariam o país ingovernável, ele admite ter sido bom que não hajam vingado. Mas elas não vingaram graças a resistência dos bravos que decidiram pagar o preço da impopularidade para que a Carta, enfim aprovada, fosse o menor dos males possíveis. Na contramão, 14 anos mais tarde, com as mesmas teses comunistas (na economia), socialistas (no social), populistas (em quase tudo) e demagógicas (sempre), o PT se tornou o maior partido político do país.

        Com ele, muito distante de qualquer sinal de contrição, prosperou seu exército de falsos “progressistas”. São, entre outros, os fazedores de cabeça no meio escolar e universitário. E são os manipuladores da informação na mídia, das consciências em templos e da Justiça em tribunais.

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* Percival Puggina (68) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, membro do grupo Pensar+.   

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     Para quem se dedica a observar e analisar os movimentos sociais, muito pouco ou quase nada importarão as intrigas palacianas visando a viabilizar/inviabilizar candidaturas em eleições cujo resultado já pode ser previsto como muito semelhante aos de todas aquelas que as precederam, em nada alterando – exceto podendo agravar – o rumo já tomado por nossa Sociedade. E as informações obtidas na Imprensa diária serão sempre complementadas pelo que for publicado nas chamadas redes sociais.

 

     Entre tudo e mais um pouco que este meio de comunicação proporcionava coletar ontem pela manhã, duas imagens e uma notícia me chamaram a atenção. E, assim que as vi, a notícia e as imagens, veio-me à cabeça uma obviedade rasteira à qual nem sempre atentamos porque os próprios meios de comunicação a buscam camuflar e confundir: conflito é conflito e harmonia é harmonia. Há razões de sobra para que ambos se manifestem e sejam reconhecidos com facilidade nas Sociedades, em qualquer delas. Buscando equilibrar-se entre esses dois, digamos, “princípios” (entre aspas, porque um Princípio será outra coisa) que pautam as intenções e as atitudes, as Sociedades avançam e poderão aperfeiçoar-se. Com inteligência. A harmonia, sempre desejável e sempre precária, somente poderá ser conseguida por meio da conciliação dos conflitos, que serão permanentes, embora apresentem diferentes elementos e diferentes contornos em diferentes épocas e/ou sob diferentes circunstâncias. E o recurso à violência será apenas esporádico – quando a inteligência de alguma forma se demonstrou ausente e essa ausência o fez necessário. As razões dos conflitos, porém, e os meios de incentivá-los nunca se confundirão com as razões da harmonia e os meios que a possam incentivar. Até prova em contrário.

 

    No mundo inteiro, por mais ou por menos que as Leis se alterem e que os legisladores busquem aperfeiçoar as Sociedades na direção de uma utópica harmonia ampla, geral e irrestrita, a presença ostensiva de um Soldado indicará os cuidados com a prevenção de qualquer ameaça, potencial que seja, de uma conflagração exacerbada dos conflitos. Conflito é conflito, harmonia é harmonia, e Soldados são Soldados. Um Soldado sabe que é um símbolo da ordem instituída – da ordem do Estado, não das ordens ou das desordens de um Governo qualquer – que deve ser respeitada por todos. E um Soldado aprende que quem fere essa ordem será um inimigo, um inimigo real, seja externo, seja interno, do Estado e do virtual processo de aperfeiçoamento da Sociedade, um inimigo contra o qual deverá eventualmente entrar em combate frontal. Soldados aprendem ainda que, nesse combate, se algo der errado, não levarão pitos, empurrões, beliscões, nem serão apenas postos de castigo, sem sobremesa ou só podendo ir para casa descansar muito mais tarde do que esperavam poder ir – eles sabem que poderão ser gravemente feridos e que poderão ser mortos, deixando definitivamente um lugar vazio à mesa em que sua família se reúne para o jantar. O risco é consciente, faz parte da profissão, que é – ou deve ser – uma opção de consciência. E isso é o poderíamos chamar, mesmo que impiedosamente, de “normal”. É a ordem do Estado o que os Soldados estão encarregados de proteger para que os conflitos em Sociedade não o destruam e não destruam a própria Sociedade. 

 

    E marginais são marginais. Serão marginais não apenas ao Estado, mas também à Sociedade. Assim como os Soldados em combate, os marginais se cuidam, uns dos outros, e todos de todos e de cada um. E lutam – aproveitando todos os meios que encontrem disponíveis material, emocional ou intelectualmente, como marginais que são – para preservar o seu presumido “direito” a agir na marginalidade, impondo condições e regras que só poderão ser impostas e mantidas pelo poder das atividades e de uma força – sempre armada – marginais ao Estado e à Sociedade.

 

    Os Soldados da Polícia Militar são Soldados. O conflito entre Soldados da PM e marginais é também considerado “normal”, porque é inevitável. Se marginais, que são bandidos, que causam danos à Sociedade, convivem em harmonia com Soldados da PM, alguma coisa há de estar muito errada – ou estará errada com os marginais ou estará errada com os Soldados.  E, por isso mesmo, assim dizia a notícia que, infelizmente, podíamos ler ontem pela manhã, entre as muitas de teor semelhante que lemos todos os dias: 

 

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Moradores intervêm em abordagem e PM acaba morto na Cidade de Deus

7 outubro 2013 – Roberta Trindade

Após receber denúncia relativa a um carro roubado que estaria circulando na Favela Cidade de Deus, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, uma equipe da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Cidade de Deus foram até a esquina da Avenida Miguel Salazar Mendes de Moraes com a Rua Eleázar abordaram o trio que estava no interior do veículo, neste domingo, dia 6 de outubro.

No momento em que iam conduzi-los à delegacia, um dos detidos correu e fugiu. Cerca de 50 pessoas que estavam em uma festa nas proximidades foram até o local e iniciaram um tumulto para impedir que os PMs levassem os detidos até a 32ª DP (Taquara).

Aproveitando-se da confusão, criminosos da facção Comando Vermelho (CV) que controlam o tráfico de drogas na região passaram em uma moto efetuando disparos. Um dos tiros atingiu o soldado Anderson Dias Brazuna, 34 anos, no peito. Socorrido pelos colegas de farda, ele ainda foi levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Cidade de Deus, mas não resistiu.

Lotado na UPP CDD há quatro anos, o soldado Brazuna entrou na PMERJ em 2008. Ele se tornou o 59º policial morto no Estado do Rio somente este ano. De janeiro a hoje, já são 152 policiais baleados. No total, 75 estavam de serviço.

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    Já a função dos Professores, da qual também dependem o Estado e a Sociedade, é outra. Ela não se resume a mantê-los ou defendê-los, mas avança mais além, muito mais, no sentido de elevá-los em qualidade. A profissão também implica muitos riscos e exige muita coragem. Especialmente riscos e coragem intelectuais. E exige sacrifícios. Especialmente quando um Estado e uma Sociedade se encontram frágeis, sem defesa e vêm sendo barbaramente desvirtuados pela ação de marginais, que muitos daqueles que nós mesmos elegemos impedem que sejam combatidos.

 

    Sendo assim, a primeira figurinha das duas a que me referi acima nos poderia dizer com muita propriedade: 

 PROFESSORES x PM   Mas, se levarmos em consideração o depoimento expresso na segunda figurinha:

PROFESSORES x PM 2 , somente nos será possível chegar a uma única conclusão: a de que alguma coisa deve estar muito errada. Ou estará errada com os bandidos ou estará errada com os Professores. Porque quando os interesses, as atitudes e o poder de bandidos não conflitam com as funções e a presença física da figura-símbolo de um Professor, e quando Professores desautorizam a função dos Militares tanto quanto os marginais a querem desautorizar… é que Professores desautorizam não só o Estado quanto qualquer intenção de que a Sociedade se mantenha. E nos será impossível compreender qual função pretenderão, conscientemente, desempenhar tanto na Sociedade quanto no Estado.

 

    Alguma coisa anda muito e muito errada. Em muitos setores de nosso Estado, em muitos setores de nossa Sociedade. Ela provoca e mantém tudo o que ainda ontem, à noite, todos nós podíamos conferir nas centenas de figurinhas publicadas pela Imprensa. E provocará ainda muito mais que tudo isso, que já é suficientemente grave.

 

    Que coisa seria essa que pode estar tão errada com todos nós?

 

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MANIFESTAÇÃO 07-10 .1

 

MANIFESTAÇÃO 07-10 .2

 

MANIFESTAÇÃO 07-10 .3

 

MANIFESTAÇÃO 07-10 .4 

 

http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/10/08/em-noite-de-protestos-camara-do-rio-e-atacada-e-tem-salao-incendiado.htm#fotoNav=236

Em noite de protestos, Câmara do Rio é atacada e tem salão incendiado

Giuliander Carpes e Hanrrikson de Andrade –  Do UOL, no Rio de Janeiro  – 7.out.2013  

Um grupo de manifestantes jogou ao menos três bombas caseiras (coquetel molotov) na porta lateral da Câmara dos Vereadores pela rua Evaristo da Veiga — onde há também um quartel da PM (Polícia Militar)

A Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro foi o grande alvo dos protestos da noite desta segunda-feira (7). A instituição confirmou, por meio de nota à imprensa, que os manifestantes jogaram, pelas janelas, galões de gasolina para incendiar o prédio.

Ainda não se sabe quais foram todos os estragos causados além da porta vandalizada e da sala de cerimonial que ficou parcialmente destruída. Segundo a nota, os guardas municipais responsáveis pela segurança conseguiram impedir a invasão da casa. Na terça-feira, não haverá expediente na Câmara para que possam ser levantados os prejuízos durante a realização de uma perícia.

Como saldo da noite, pelo menos 14 pessoas foram detidas e um adolescente foi apreendido. O protesto chegou a reunir 10.000 pessoas, segundo a PM.

Carona de ônibus – Um dos confrontos que aconteceram entre a polícia e os manifestantes se deu no cruzamento da avenida Mem de Sá com a rua Gomes Freire. Um grupamento do choque deteve cinco manifestantes. Para conduzi-los até a 5ª DP, delegacia da região, um policial que era chamado pelo grupo de “Comandante Lemos” parou um ônibus de linha (507 Silvestre).

O “comandante” pediu ao motorista que levasse os cinco detidos mais cinco policiais e dois advogados da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para a delegacia.

Os outros manifestantes do grupo se sentaram na rua para impedir que o ônibus os levasse. Houve confronto ali mesmo. O choque conseguiu deter os manifestantes após bombas de efeito moral e balas de borracha.

O motorista do carro A72116 da empresa Transurb deu ré e saiu pela avenida Mem de Sá, seguindo para a delegacia.

Ônibus e prédios vandalizados – Pelo menos cinco ônibus sem passageiros foram sequestrados e vandalizados por grupos de manifestantes mascarados, identificados como Black Blocs. Três deles foram deixados na avenida Rio Branco — todos foram vandalizados, sendo que um foi incendiado. Os outros dois foram encontrados na Lapa: um na rua Maranguape e outro no Passeio.

Segundo o motorista Henrique Santos Souza, que estava no ônibus que foi queimado, os manifestantes que sequestraram o veículo pretendiam jogá-lo sobre a entrada de um prédio comercial. “O mascarado falou para mim que meu ônibus ia virar estatística”, contou Souza.

Além da Câmara, a reportagem do UOL observou depredação nos arredores da Cinelândia. Ao menos duas agências bancárias foram depredadas (uma na Evaristo da Veiga e outra próxima à avenida 13 de maio).

Os manifestantes atacaram o consulado americano, que teve suas janelas quebradas. A tropa de choque usou bombas de gás e de efeito moral para dispersar os manifestantes.

A entrada do edifício Serrador, sede da empresa de Eike Batista, ficou totalmente destruída. O grupo que depredou o prédio usou seus próprios tapumes para quebrar as vidraças.

Policiamento menos ostensivo – No começo dos protestos, a PM (Polícia Militar) teve uma atitude mais tímida, sendo difícil de avistar o contingente policial no percurso entre a Candelária, de onde partiu a passeata, até a Cinelândia. O número de policiais (500) também foi menor que o da semana passada (700) no dia em que houve um confronto mais violento com os manifestantes.

Quando um grupo de mascarados pichava a parede lateral da Câmara dos Vereadores, por exemplo, a PM não reagiu. Ela só entrou em ação, com suas guarnições de choque, depois que os manifestantes já haviam jogado ao menos três bombas contra a porta da instituição.

No meio da confusão, o vereador Brizola Neto (PDT-RJ) tentava deixar a Câmara, cercado de seguranças. Ele questionava, aos gritos: “Cadê a polícia?”

Após as ameaças, dois grupos do choque cercaram os manifestantes e os dispersaram com bombas de efeito moral e balas de borracha.

As manifestações dessa segunda-feira foram organizadas para protestar contra a violência da PM, que entrou em confronto com os professores na semana passada. Tanto a rede municipal quanto a rede estadual estão em greve desde o dia 8 de agosto.

 

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/10/1353208-manifestantes-mascarados-colocam-fogo-no-clube-militar-no-rio.shtml

07/10/2013 – 20h54 –

Manifestantes mascarados colocam fogo em ônibus e no Clube Militar, no Rio

MARCO ANTÔNIO MARTINS – DO RIO

Manifestantes mascarados colocaram fogo no Clube Militar e em um ônibus no centro do Rio na noite desta segunda-feira (7). Localizado na esquina da avenida Rio Branco com rua Santa Luzia, o clube foi atingido por um coquetel molotov. Parte da sobreloja do clube está em chamas.

Na praça da Cinelândia, diante do clube, o cenário é de confronto entre manifestantes mascarados e policiais militares. Às 20h10, o grupo avançou contra os PMs atirando coquetéis molotov e fogos de artifício. Os manifestantes quebram telefônicos públicos e colocam fogo em lixo espalhado no meio da avenida. (…)    

   

  

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

– sem abuso de aspas, com algumas citações e repleto de figurinhas, porque figurinhas despertam a atenção de todos, dos mais jovens aos mais velhos.

 

 

 

    Dizem-nos os mais atentos e safos, que nem por isso são considerados mais sabidos, que, ao terem sido feitas as primeiras descobertas de pinturas rupestres, que eram imagens de animais e nada mais que isso, os antropólogos puderam chegar a uma brilhante conclusão científica: a de que os homens das cavernas espancavam suas mulheres com uma clava e as arrastavam atrás de si puxando-as pelos cabelos. Assim nossos primevos ancestrais foram caracterizados e evocados por várias e várias gerações consecutivas. Inclusive a nossa.

 

    As pinturas recém-descobertas na Serra da Capivara

 

ENSAIO 1 nos poderão trazer – depois de bem interpretadas, é claro, por alguém que tenha suficientes títulos honorários ou um pouco menos ou mais que isso – a certeza segura de que o local onde elas se encontram e seus arrabaldes foram, certo dia, invadidos por uma tribo fardada de origem européia, opulenta e de ascendência imaculadamente pura, que escravizou, maltratou, discriminou e até hoje oprime os pobres, os inocentes, especialmente os negros, os indígenas, os homossexuais e os artistas, além dos alunos e os Professores das Escolas públicas…

 

    A mesma certeza de natureza estritamente científica que inspirou teses antropológicas muito celebradas e até hoje respeitadas, que nos permitiu conhecer em detalhes a história do mundo e as relações sociais em minúcias, em cada uma das épocas que a Humanidade atravessou, permite que se lhe e nos seja feita justiça quæ sera tamen. Permitirá ainda, por exemplo, que, sempre avançando em conhecimentos mais que nunca necessários ao nosso avanço, cientistas e estudiosos dedicados à história mais recente divulguem o resgate de documentos datados de 1985/86, grafados em waimiri-atroari, com W, o que lhes empresta inequívoca autenticidade – e, para os que não sabem, que serão muitos, e não têm tempo para consultar uma bibliografia especializada, este é um dialeto do tronco lingüístico Karib, com K, que a UNESCO reconhece como sendo o utilizado por indivíduos antes conhecidos como crichanás, com C, que tiveram contato no séc. XIX com segmentos expansionistas da sociedade brasileira envolvente, contatos esses que foram especialmente re-impulsionados pelo ufanismo alardeado por um governo militar de nenhuma relevância exceto pelas atrocidades cometidas.

 

    Um desses documentos ilustra extrema violência: o momento em que, não se sabe bem quando, indivíduos presumidamente brancos e presumidamente fardados sobrevoaram em helicóptero, com péssimas intenções, a aldeia que goza, por imemorial ou desmemoriado usucapião, de estar plantada em território dito nacional brasileiro, de fronteira e não urbanizado. Pura violência!  

 

ENSAIO 2

 

    Em outro documento, da lavra do mesmo realista, criativo, talentoso e oprimido artista-repórter,

 

ENSAIO 3   vê-se a sombra de um texto grosseiramente apagado, e palavras que lhe foram sobrepostas

 

ENSAIO 4– mas um estranho “fugi com alguma coisa, que é possível imaginar que seja um “mêdo” (com acento circunflexo, conforme corretamente o medo já se escreveu) mal desenhado, e não “nêdo de kanña…”, que poderá ser “canhão”, foi incluído na redação waimiri-atroari em relativamente bom português. Possivelmente isso se deu porque índios, que sempre foram valentes tal como, hoje, eles todos se comprovam, de nada terão medo e nunca fogem de coisa alguma, especialmente de quem os vem sustentando como espécimes raras destinadas a estudos científicos e a outras coisas mais sem tanta importância. E covarde será a tribo de brancos fardados que, até bem pouco tempo, só falavam português. E vê-se ainda um desenho que mais parece ser o de um disco-voador que de outra coisa qualquer, com escadinha e tudo mais que os que já viram discos-voadores sabem que os discos-voadores devem ter. Se bem que, é bom que se diga, estas últimas considerações serão pura especulação, não são exatamente ciência. Mas nada impede que sejam feitas.

 

    Aquela mesma certeza, porém, científica, por suposto, justificará que uma viúva, há 16 longos anos, de um Oficial militar, já cansada da solidão e do anonimato a que se vêem condenados os que nada sabem em meio a tantas celebridades que sabem tanto, pedisse desculpas públicas por tudo aquilo que seu falecido marido tenha ou não tenha feito em uma vida extraordinária que teria sido, segundo suas palavras, “marcada por muitas coisas que não batem uma com a outra

 

ENSAIO 5 – inclusive aquelas coisas que, ver, ela não terá visto, mas são coisas das quais andou sabendo e hoje tem a certeza de que se lembra de que o marido as fez. Todas elas. Como se as tivesse feito ontem. E o que andou sabendo, e contou que sabe, parece-lhe bater muito bem. Bate quase tão bem quanto bateu a “Folia no Matagal” com o nu frontal grupal exibido pela Rede Globo em seu programa “Amor & Sexo” que, se ciência não é, poderá ser arte, e é experiência, mas talvez possa até ser considerado justiça por todos aqueles que são obrigados a se vestir todos os dias (http://televisao.uol.com.br/noticias/redacao/2013/10/04/rede-globo-mostra-nu-frontal-no-programa-amor–sexo.htm?fb_action_types=og.recommends&fb_source=other_multiline).

 

    A mesma certeza bastante científica justificará ainda que, tomando-se por base o depoimento de alguns moradores da dita pacificada favela da Rocinha, conclua-se, indutiva ou dedutivamente, tanto faz como tanto fez, que o desaparecimento de um desses moradores significaria que ele tivesse sido torturado e assassinado por Policiais Militares.

 

ENSAIO 6   Embora corpos não haja, em parte alguma, nem haja outras evidências quaisquer, os Policiais Militares encarregados de manter aquela pacificação em uma operação denominada, por redundância, “Paz Armada” – ou como se fosse possível manter, alguma vez, alguma paz desarmada – que investigava o tráfico de drogas, e outros tantos deles, serão responsáveis por todos os demais 35.000 indivíduos já desaparecidos em apenas 5 anos e meio, só no Rio – o que nos dá, por ano, um número bem maior e bem mais expressivo que o da população waimiri-atroari total em seus primeiros contatos com a tribo de brancos invasores, número este cientificamente projetado. Por tanto, os PMs todos devem ser indiciados, julgados e condenados. Sem contemplação. Porque isso atende aos critérios científicos aplicados às investigações; porque narcotraficantes não são mágicos – e não poderiam ter feito alguém desaparecer nas cartolas pois nem sequer usam cartolas; porque assim se faz justiça, e porque já não a ciência, mas, sim, a experiência é quem nos diz que a justiça falha, mas não tarda.

 

    E, por falar em justiça, no Supremo Tribunal Federal, expôs-se recentemente a “contradição entre o tradicional princípio in dubio pro reo …  e a novidade introduzida no julgamento da Ação Penal nº 470 [Mensalão], a chamada teoria do domínio do fato”, conforme comentário a respeito da entrevista de Ives Gandra Martins publicado em um meio de divulgação acima de qualquer suspeita (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=224901). Uma outra novidade, porém, que já não é tão nova e que também se põe a serviço da justiça, não se limita a que os fatos, comprovados ou não, tenham ou não tenham assumido mais importância que a doutrina no afã jurídico. O princípio que a rege é bastante simples: como bem sabemos, também cientificamente, a opinião de cada um de nós, quando insistentemente divulgada, influirá no que é chamado de opinião pública; a opinião pública produzirá costumes; os costumes produzirão direitos e deveres. Introduzida na Sociedade, já há algum tempo, para consumo cotidiano, imediato e mediato, foi a teoria do domínio do depoimento – e para sua aplicação será desnecessário que o depoente tenha de fato testemunhado qualquer fato. Ou será desnecessário que haja, mesmo, qualquer fato – bastará a presunção, ou seja, a conjectura, e a verbalização. A aplicação dessa nova teoria ao direito, no entanto, é mais complexa: dependerá das conjecturas, dos sujeitos e dos específicos objetivos.

 

     Aliás, fato por fato, os fatos todos poderão ser resumidos a um só, que será o único que interessará à ciência, jurídica e extrajurídica, em nossa cientificíssima Sociedade global-nacional: contra a ciência não há argumentos! Esse é o fato. Seja a ciência o que for. Contra a ciência, nenhum argumento e nenhum fato… exceto a arte. É justo! Arte é arte, ora. Em todas as suas formas de expressão. O resto é o resto.

 

ENSAIO 7 E como a arte exprime as expectativas e os sentimentos mais puros e recônditos que fervilham em uma Sociedade, a arte de vanguarda exprimirá os mais conformes, e exprimirá o inequívoco avanço dessa nossa Sociedade de vanguarda. E merecerá estar nas ruas para ser mais bem compreendida, aplaudida e estimulada.

 

ENSAIO 8 – era o que se anunciava, alguns dias atrás, em http://www.uol.com.br/.

 

    E porque sabemos, graças a um saber antropológico – científico, evidentemente – não só como as relações sociais exatamente ocorreram desde que o mundo é mundo e sabemos também como exatamente elas hoje ocorrem, e porque sabemos ainda, por boas leituras, que os Estados tendem a desaparecer inexoravelmente da face da Terra, que os militares que ainda os protegem são burocráticos, autoritários, violentos e repulsivos, e que narcotraficantes, índios, terroristas, artistas, viúvas aflitas, alunos, professores e outros mais, tais como os ex-tudo isso, são gente sempre pacífica, de absoluta boa índole e absolutamente confiável, gente que não deve ser agredida, jamais, porque não agride, jamais, sequer o bom senso, sequer a paciência, muito menos a existência, de ninguém,

 

ENSAIO 9 

ENSAIO 10 será recomendado no Facebook, que é o livro dos livros da atualidade: “Estude para não ser um PM”. Essa recomendação seria em seguida explicada ao explicar-se o Brasil em poucas linhas:

 

ENSAIO 11

 

 

    Mas, tendo sido permitido a um PM bater em Professores que se manifestavam pacífica e confiavelmente, quem for curioso e não tiver conhecimentos científicos – eu, por exemplo – poderá perguntar: quem foi que permitiu tal despautério?

 

    Com certeza não fui eu. E eu não diria, jamais, a um Policial, civil ou militar, que batesse em um manifestante pacífico e confiável, muito menos que batesse em um Professor. Assim como não diria a um Professor que jogasse pedras em um PM porque teria esse direito.

 

    Terão sido, então, aqueles que pensam, como também penso eu, que o patrimônio público, histórico ou não tão histórico assim, deva ser preservado da liberdade dos artistas grafiteiros

 

ENSAIO 12 e que a liberdade dos cidadãos-transeuntes após um dia de trabalho árduo deva ser preservada da liberdade dos que se divertem pelas ruas cantando palavras-de-ordem contra governos que eles mesmos elegeram, impedindo um trânsito já normalmente bem mais que caótico,

 

 ENSAIO 13 permitindo que pneus se ponham em chamas, que vitrines sejam estilhaçadas e lojas sejam saqueadas, que caixas eletrônicos sejam assaltados?

 

 ENSAIO 14

 

    Ao que tudo indica, também não. Porque esses não têm qualquer poder, muito menos terão um poder de mando.

 

    Poderiam, então, ter sido as autoridades. Mas elas afirmam que não o permitiram. Que consideram muito bonitas todas e quaisquer manifestações de rua. Que os grupos ou “o povo”, ao fazê-las, estão exercendo seus direitos. Além de que, caso o tivessem permitido e assumido o feito, estariam contradizendo a confiança daqueles que as elegeram. E perderiam votos. Elas foram eleitas, sim! pela maioria!

 

    Terão agido os Policiais Militares por conta e risco próprios? Bem, as Polícias estaduais, assim como os Professores, têm uma função muito bem definida na Sociedade. Essa função policial não se exerce por voluntarismo, espontaneamente, alegremente, mas apenas como resposta a determinados estímulos. E para acudir imediatamente a esses estímulos as Polícias devem estar preparadas e sempre dispostas. Sempre.  

 

    Ao que tudo indica, portanto, quem permitiu que os Policiais Militares batessem em Professores foram todos aqueles lhes ofereceram esse estímulo. Os que pensam e agem tal como, por exemplo, a criatura que foi às ruas, quando não era Carnaval, fantasiada de assaltante de diligência

 

ENSAIO 15 e/ou a que pôde ser capaz de dar uma declaração como esta:

 

Anonymous Brasil · 2 de outubro – https://www.facebook.com/AnonBR?ref=stream

Quem são os Black Blocks? Para mim professora e grevista, são jovens destemidos q estão ao lado dos professores, eles são nossos alunos, são estudantes a grande maioria da rede pública. Hoje, quando cheguei na Cinelândia eles estavam no megafone, explicando o q fazer quando a PM jogar gás de pimenta. Eles entram na linha de frente para apanhar no nosso lugar, quebram alguma coisa para tirarem o foco da PM e nos dar folga para fugir. Ajudam quem levou bomba e spray, distribuindo soro fisiológico e leite de magnésio, são meninos e meninas, com uma disposição foram do comum. A mídia quer nos vender a imagem de que esses jovens são vândalos, bandidos, mas o que tenho visto é totalmente ao contrário, o vandalismo esta sendo produzido pelo Governo, Pelo Eduardo Paes, Pelo Cabral, pelos políticos coniventes com o sistema atual, Pela PM, o vandalismo esta sendo produzido por todos aqueles que deveriam nos proteger! Ontem os Black Blocks projetaram na câmara dos vereadores: “O professor é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo.” e eu faço a recíproca: “O Black Block é meu amigo, mexeu com ele, mexeu comigo.” Por Teresa Gouveia (professora carioca em greve)”

 

    E essa “postagem” termina, como só poderia terminar, com uma palavra-de-ordem entre meio ritmada e meio rimada: “VÂNDALO É O ESTADO ! O POVO NA RUA NÃO É VIOLÊNCIA, É RESISTÊNCIA“ – o que poderá ser com facilidade, talvez não tão cientificamente, mas, com certeza, empiricamente comprovado.

 

    Bem, agora, dizendo um pouco mais a sério: o indivíduo que vive em Sociedade não vive isolado. E uma Sociedade se constrói de valores que nela se encontram no atacado, não de três ou quatro deles no varejo. Ela se mantém e se aperfeiçoa apoiada no grosso da população, não em exceções ou em minorias. Alguns se lembrarão de muitos brasileiros que se destacaram e se destacam no País e no mundo por extraordinária inteligência e competência. Outros tantos há que mais ainda se destacam por sua absoluta subserviência. Muitos exemplos poderão ser apontados. Mas não há como dizer de uma Sociedade de milhões dizendo de uma centena ou de um milhar de biografias.

 

    Uma Sociedade evolui ou regride no seu conjunto, não por setores isolados, e cada um destes setores contaminará, constantemente, todos os demais de bons ou maus valores e induzirá todos os demais a comportamentos adequados ou inadequados à própria Sociedade. E esse conjunto contaminará todos os indivíduos. Ou o que chamam de Sociedade não será uma Sociedade, será apenas um blefe. É por isso, não por qualquer mística libertária, que uma boa Escola extensiva a todos é fundamental. Em todos os níveis. E para que haja uma boa Escola será fundamental que o Estado a administre, direta ou indiretamente.

 

    E, não, não é a ciência quem nos diz, nem, muito menos, será a justiça ou a arte, mas apenas a experiência: quem vai às ruas pretendendo confrontar o Governo, confiando em que uma tropa de choque de paspalhos irresponsáveis lhe abra caminho e estimulando um quebra-quebra, não só quer como pede para ser confundido com um paspalho irresponsável, e não só quer como pede para ser tratado como um marginal, como um criminoso – não como um Professor. 

 

    É preciso, sim, que todos respeitem os Professores. E é preciso remunerar adequadamente os Professores. Sim. Mas é também preciso que cada Professor se respeite a si próprio e se dê ao respeito. E que quem nomeie Professores respeite a Sociedade. Assim como é preciso que a Sociedade, ou seja, o conjunto de cidadãos que convivem em dado território administrativo sob a regência das mesmas leis, respeite-se a si própria. E se dê ao respeito. A Sociedade que não se respeita, que não respeita os Professores e não os remunera adequadamente, é uma Sociedade doente, à beira da morte. Uma Sociedade doente designará governantes doentes, que se apropriam das prerrogativas do Estado e nomearão Professores doentes – que o transformam em um Estado cronicamente doente. Sempre à beira da morte. Tal como hoje se encontra o Estado brasileiro.

 

    E é preciso estudar, sim. Em qualquer Sociedade, qualquer que seja o nível de seu desenvolvimento, será preciso estudar qualquer coisa para que qualquer um seja qualquer coisa. Portanto, para ser um PM também é preciso estudar. E muito. E, especialmente, é preciso que todos estudem, e muito, para que ninguém mais caia em conversa de gente doente, gente que apregoa em seus delírios, entre outras tantas bobagens mais – e serão bobagens para dizer o menos, por delicadeza –, que o mais perfeito e inevitável fruto da ciência, da justiça e/ou, até mesmo, da arte mais avançadas será a destruição do Estado e da Sociedade nacional, gente que é apenas viciada em tentar vender arremedos revolucionários, doentes, a ingênuos consumidores, que acabam também doentes, por mais experientes que se possam imaginar.

 

    Mas, e para não ser um PM, que deveriam nossos jovens estudar e aprender? O que já vêm estudando e aprendendo? Que mais os nossos jovens vêm aprendendo, em nossas Escolas, daqueles que são reconhecidos como Professores, para poder querer falar de Política tão desembaraçadamente, além de a agir com uma fé cega em casuísmos, em utopias que dispensariam quaisquer regras comuns a todos exceto uma liberdade total e absoluta, e em um deus-nos-dará? Que mais, além de um conjunto de conhecimentos teóricos e práticos sobre como “tirar o foco” não só da PM como da Sociedade inteira? Além de uma noção precisa de necessidade de tumultuar, desmontar, desobedecer e desrespeitar tudo e todos continuamente? Além de uma técnica de “dar folga” para que aqueles que apenas pretendem incitar toda uma população a uma revolta sem qualquer perspectiva possam fugir das suas responsabilidades – inclusive da responsabilidade primeira de um Professor, por menos experiente e justo que este seja: a de procurar manter em sala de aula os milhões de alunos que hoje estão, fora delas, dedicados a “quebrar alguma coisa”?

 

ENSAIO 16  Que mais?

 

    Infelizmente, ainda que muitas outras figurinhas pudessem ter sido colhidas para enfeitar este “ensaio”, não foram encontradas as que pudessem ilustrar esse algo mais.

 

    Entre as que estariam disponíveis destacam-se, por exemplo, as dos candidatos às próximas eleições, que plantam e adubam, com invejável destemor, os seus conflitantes projetos. Mas são todas muito feias e já estão muito desgastadas:

 

“Dilma Rousseff negou em entrevista a emissoras de rádio do Rio Grande do Sul, nesta sexta-feira, 9, estar em campanha pela reeleição em 2014. ‘Não estou pronta para o discurso da campanha, estou pronta para defender o meu governo’ … ‘o resto tem de fazer campanha, porque quer o meu lugar’. ‘Eu estou exercendo o governo e a troco de que eu vou fazer campanha?’ “ – http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,dilma-nega-estar-em-campanha-pela-reeleicao-eu-quero-governar,1062332,0.htm

 

“Marina discutia com aliados na manhã de ontem a melhor maneira de explicar publicamente as razões pelas quais decidiu aliar-se ao PSB após o fracasso da montagem da sua Rede Sustentabilidade, barrada pela Justiça Eleitoral … ‘A Marina reconhece a candidatura posta do Eduardo Campos e se dispõe, desprendidamente, a ser vice em eventual candidatura.’  … antes do encontro com Campos, Marina já havia dito que sua decisão levaria em conta o desejo de “quebrar” a polarização política existente no país.”http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/10/1352396-marina-decide-se-filiar-ao-psb-para-concorrer-em-2014.shtml

 

 “O senador Aécio Neves, presidenciável do PSDB, reagiu positivamente à parceria firmada entre Marina Silva (Rede) e Eduardo Campos (PSB). … ‘Ambos já apoiaram o PT e agora estão no campo da oposição’, disse. … ‘Acho que, na hora em que a discussão for programática, vai haver uma afinidade muito grande entre as nossas propostas’ ” http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2013/10/05/aecio-ha-chances-reais-de-a-oposicao-ganhar/

 

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     Dizem-nos os mais sabidos, que nem por isso são considerados mais atentos e safos, que o Sol, desde que o mundo é mundo, nasce para todos, no mesmo ponto, todas as manhãs. Assim eles nos dizem. Mas nem tudo o que nos é dito corresponderá à realidade. Nos últimos tempos, muito e muito cinzentos, não só, como também, neste nosso País que dizem ser abençoado pela Natureza, o que a própria Natureza vem querendo desmentir, parece que o Sol vem nascendo de dia e de noite, do Leste ou do Oeste ou do Norte ou do Sul, e somente para uns mesmos… Embora alguns desses bem merecessem que o Sol nascesse quadrado, ele nasce redondo, e nada diferente se ensaia no horizonte.

     

 

 

  

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

      Gregorio Byington Duvivier tem 25 anos. Com esta idade, há alguns anos, ele seria considerado um adulto. Estaria a mais de meio caminho andado em direção a tornar-se um avô. Hoje em dia, é-lhe concedido gozar de prerrogativas especiais, as que são concedidas aos muito jovens, e poderá levar a vida na brincadeira. Ser-lhe-á permitido, de quebra, poder dedicar-se a gozar da cara do público.

 

     Gregório é filho de Olivia Byington, cantora, e Edgar Duvivier, músico. E vive com Clarice Falcão, artista multimídia, filha de Adriana e João Falcão, roteiristas da Globo. Ele é um poeta, e, há 5 anos, publicou um livro – “A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora”. É também ator e comediante. Ou quer ser tudo isso quando crescer. É um dos fundadores e sócios do canal humorístico virtual Porta dos Fundos, que, dizem, supera 30 milhões de acessos no YouTube.

 

     Em fins de Julho, Gregório ganhou de presente uma coluna na  Folha de S.Paulo, na qual se exibe enquanto não cresce e exibe as artes que, de travesso, apronta.

 

     Hoje, a Folha de S.Paulo publica, no espaço da coluna de Gregório, uma “carta” absolutamente sem graça alguma, mas que os que não levam a vida a sério – e podem não levá-la porque com nada terão compromissos e nenhum compromisso lhes será exigido – poderão encontrar muito engraçada. É uma “carta” em que Gregório supostamente (tal como a Imprensa gosta tratar os fatos) substitui-se a si mesmo. E em que afirma ter recolhido “alguns argumentos” entre seus “amigos do clube militar”. 

 

     Gregorio Byington Duvivier não terá amigos no Clube Militar. Com toda a certeza. Os sócios do Clube Militar não são tão estúpidos.

 

     Mas nada impede que alguns dos que lêem a Folha de S.Paulo possam ser.

 

 

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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/132619-a-coluna-inutil-daquele-maconheiro.shtml

Gregorio Duvivier

A coluna inútil daquele maconheiro

Venho por meio desta carta pedir que o jornal explique por que é que a maconha não pode ser legalizada

Cara Folha de S.Paulo,

Como vocês sabem, os jovens (e o FHC) estão querendo legalizar a erva. Eu, que nunca fumei nem pretendo fumar, mas sei que ela é danosa, pois só quem fuma é marginal, venho por meio desta carta pedir que o jornal explique ao leitor jovem (e para o FHC) por que é que ela não pode ser legalizada. Para ajudá-los, recolhi alguns argumentos entre meus amigos do clube militar.

1. Se legalizar, vai virar moda. Nos países em que a ditadura gay venceu e as feministas legalizaram o aborto, as pessoas passaram a abortar só para se enturmar. Resultado: os países foram dizimados e hoje em dia nem existem mais.

2. Se legalizar, os jovens que atualmente trabalham no ramo do tráfico de drogas vão ficar desempregados. As ruas vão ser tomadas por jovens roubando, matando e estuprando para sobreviver.

3. A maconha impede os jovens de serem violentos quando eles precisam ser. Enquanto a cocaína os torna mais ativos, a maconha os deixa lesos, uma presa fácil para assaltos e estupros. A legalização da maconha vai gerar uma juventude muito facilmente estuprável.

4. Maconha é crime. Como é proibida, é através dela que os jovens entram no mundo do crime. Sim, se ela for legalizada, o argumento muda. Mas como não é, é melhor não legalizar, porque é crime.

5. Maconha é uma droga tradicionalmente cultivada por negros. Não é à toa que bastou os Estados Unidos terem um presidente mulato para afrouxarem em relação à erva. Liberar a maconha equivale a oficializar que vivemos numa negrocracia, não bastasse o pagode, o funk e aquele programa da Regina Casé.

6. Maconha gera a famosa “larica”, fenômeno que faz com que o jovem coma qualquer coisa, comestível ou não, que ele veja à sua frente. O que é que isso gera? Obesidade, indigestão e mortes por engasgamento.

7. A qualidade da maconha vai melhorar e vão começar a surgir sommeliers de beque, pessoas que vão achar na erva sabores que só eles sentem. “Esse baseado tem notas de baunilha”. Ou então: “A melhor parte do soltinho da Bahia é o retrogosto”. Não, por favor. Já bastam os enochatos. A sociedade não está pronta para o surgimento dos ervochatos.

Peço que a Folha me ajude nessa cruzada elucidativa a favor da família brasileira, de preferência publicando a minha carta no lugar da coluna inútil daquele maconheiro carioca (perdão pela redundância).   

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

Permitido pela lei sob certas condições, o trabalho de adolescentes na faixa de 15 a 17 anos, que deveriam estar matriculados no ensino médio, afasta os jovens dessa faixa etária da escola.  … Apesar de uma tendência de longo prazo de queda do trabalho na faixa de 15 a 17 anos (47% dos adolescentes trabalhavam em 1992), cresceu a presença dessa faixa no mercado de trabalho — de 23,6% em 2011 para 24,8% em 2012 … Ao todo, 3,5 milhões de crianças e adolescentes (de 5 a 17 anos) trabalhavam em 2012. Trabalho afasta adolescentes das escolas, segundo dados do IBGE –

http://www1.folha.uol.com.br/educacao/2013/09/1348210-trabalho-afasta-adolescentes-das-escolas-segundo-dados-do-ibge.shtml

 

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) considera que uma pessoa é alfabetizada se ela souber ler e escrever um ‘bilhete simples’. … A dona de casa alagoana Rosilene Rocha da Silva, 35, está em processo de alfabetização. Ela estuda com mais seis pessoas em um projeto voluntário … ‘Comecei há dois anos e meio a estudar. Cursei até a quarta série, quando era adolescente, mas não terminei. Nunca tinha apreendido a ler…’Taxa de analfabetismo para de cair no Brasil após 15 anos, diz Pnad –

http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/09/27/analfabetismo-volta-a-crescer-no-brasil-apos-mais-de-15-anos-de-queda.htm

 

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    Escola para quê?

 

    Isso a gente sabe. Está cansada de saber.

 

    Mas, agora me digam: e “essa” Escola, a que temos e mantemos hoje? Para quê?

 

    Na rede pública há bons professores? Há, sim. Em todos os níveis. Tantos quantos há na rede privada. Há aqueles que se reviram pelo avesso para dar boas aulas, com bons conteúdos, e obter a atenção dos alunos. Embora sejam muito poucos, enquanto se encontram em muito maior número os animadores de auditório, os eco-contemplativos e os prosélitos de uma certa filosofia ou teoria-político-econômica que transforma todas as disciplinas em uma única e se mantém na ordem do dia como sacrossanta. Estes nada têm a ensinar, e, como nada lhes é exigido – exceto que sobrevivam a pouco preço -, os alunos só se lembram vagamente do que ouviram em sala de aula nos momentos desagradáveis em que fabricam suas colagens que, muitas vezes, nem serão avaliadas, mas lhes permite passar de ano, e nos momentos agradáveis em que pintam faixas para serem agitadas em manifestações politizadas. Menos mal?

 

    Há alunos que se salvam? Há, também há, sim. Alguns. Em ambas as redes, salvam-se uns aqui, outros ali… Apesar do sistema educacional.

 

    Em suma: de nada adiantou retratar os criadores do MOBRAL como ogros; de nada adiantou que terroristas ganhassem um “ex-” antes dos seus nomes de guerra enquanto eram resgatados a fórceps da vala comum dos criminosos; de nada adiantou conferir um título de “latino-americano” a brasileiros que nem percebem o que isso, na verdade, significa e continuam sem saber o que seria ser um brasileiro; de nada adiantou eleger doutores, professores, operários, artistas diletantes ou profissionais para que representassem e administrassem o nosso País, sua população, seus recursos e seu potencial; de nada adiantou deformar a palavra “Presidente” substituindo um E por um A, e tratar essa função como “maternal” e como “soberana”; de nada adiantou que meia dúzia de gaiatos ditos ilustrados tivessem, entre outros muitos rebuliços, abolido o acento agudo no “PÁRA” do verbo PARAR. Tudo isso apenas mais agravou a tremenda confusão entre muitas coisas que já se fazia há muitas e muitas décadas; e, nessa parafernália toda, hoje é possível confundir o que antes se esperava dos “pára-quedas” e o que se programa, nas nossas próprias Escolas, “para quedas” dos índices nacionais de conhecimento e capacidade intelectual e criativa, índices que despencam vertiginosamente, em parafuso, acompanhando o desmanche generalizado.

 

    A preposição “PARA”, por sua vez, continuou encaminhando as mesmas vantagens, as mesmas desvantagens, as mesmas conseqüências e a mesma irresponsabilidade aos mesmos sujeitos – sejam eles analfabetos, sejam alfabetizados, estejam na Política ou na Escola ou fora delas. Apesar de que notícias publicadas na Imprensa não só dizem, a quem quiser saber, que o número de analfabetos parou de cair, ou seja, que promete subir, como dizem ainda que a nossa Escola não se mostra capaz de, em 4 anos, ensinar um adolescente a soletrar e a rabiscar um bilhete simples – e, assim, não é capaz de permitir que ele seja considerado alfabetizado.

 

    E eu cá gostaria, sinceramente, de poder compreender, entre os porquês, para ques, ondes e comos de muitas e muitas outras coisas mais, ainda que fosse para compreender só mais ou menos, em que, exatamente, estaria apoiada aquela certeza tão certa que foi enunciada em uma das notícias, a de que há “uma tendência de longo prazo de queda do trabalho na faixa de 15 a 17 anos”…  Sinceramente, olho em volta e nada que a ampare consigo ver.

 

    A menos, talvez, que o narcotráfico seja regulamentado, que esse regulamento impeça o recrutamento de menores e que a “instituição” faça uma parceria público-privada com os Ministérios da Educação e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Ué! E por que não? Já não regulamentaram a prostituição? E já não andam querendo regulamentar a espionagem? 

 

    Aliás, impedir que sejam drogados e muito mais que o valor de uma bolsa-escola, o narcotráfico já garante aos jovens que dele participam. Além da “escola” que lhes é dada na prática, todos eles são orientados a que freqüentem a Escola oficial – e eles não perdem uma única aula. Todos esses jovens terão, sim, um emprego certo, e apenas no momento certo.

 

    Avante, Brasil! Este deve ser um bom caminho!

     

 

 

  

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     Dizem os que disso entendem que a Justiça de Deus é justa. E é absoluta.

     

     Não se exige tanto da Justiça dos Homens.

 

     Os Juízes têm a Lei e os Códigos que devem amparar suas decisões. Mas, como são humanos, também têm paixões, o que abalará suas convicções, mesmo as mais racionais, produzindo um meio termo a que chamamos de “ponderação”, quando não de “discernimento”. A Justiça dos Homens nos traz, assim, resultados tão justos e tão imparciais quanto possam ser os julgamentos de partidas de futebol realizados por qualquer uma das torcidas. Apenas exige-se que o vocabulário que os justifica seja menos chulo. Os ritos e as regras são, todos eles, muito bem conhecidos, e todos sabem que devem ser cumpridos estritamente. Mas o coração os interpretará, com suas razões que a própria Razão desconhece – o que não deixa de ser considerado muito normal ou muito… “justo”.

 

     O acatamento pelo Supremo Tribunal Federal de embargos infringentes que beneficiariam ou beneficiarão alguns dos que já foram julgados e condenados por esse mesmo Tribunal não dependeu da Doutrina nem dos Códigos, cuidadosa e exaustivamente destrinchados pelos Doutos sob todos os aspectos pertinentes ao caso – dependeu apenas da cor da camisa dos times em campo. E “o caso” era o julgamento de um processo, não o de um mérito. Apesar de que o resultado do julgamento desse processo possa ainda vir a interferir no julgamento de um mérito já julgado que pretende ver-se re-julgado.

 

     A dizer a verdade, nada ali se julgou com base na Justiça – tudo se julgou com base nos argumentos que o Direito permite que sejam levados à discussão em um Tribunal. E com base no “discernimento” dos togados. “Discernimento” esse que, como todo e qualquer “discernimento” de todo e qualquer indivíduo de carne e osso, desenvolve-se em terreno arado e adubado pela ideologia, ou seja, pela visão de mundo que cada um possa ter, particularmente, desenvolvido.

 

     Isso permitiu que, nesse julgamento, ganhasse tanta importância a discussão sobre a opinião pública, opinião essa que é uma opinião política, não um parecer jurídico.

 

     Assistimos, assim, a um julgamento político, no sentido mais rasteiro que a palavra possa abrigar, sob as condições mais rasteiras que aquilo que chamamos de Política nacional nos permite desfrutar. E, assim também, o resultado desse julgamento pôde resumir-se àquele que era esperado pelos craques mais idolatrados, em campo e fora dele, que têm o maior número de técnicos, massagistas e torcedores na arquibancada. Inclusive assim foi feito o gol que desempatou a partida.  

 

     Desempatada a partida, nada se alterou. O campeonato da temporada continua sendo o mesmo, desenvolvendo-se sob as mesmas regras e ritos admitidos política e juridicamente.

 

     Independentemente de qualquer fato que mereça ser levado aos Tribunais, em qualquer lugar decente do Universo, os homens públicos, quando apontados como responsáveis ou corresponsáveis por qualquer venalidade, sejam culpados ou sejam inocentes, tomam a iniciativa de afastar-se dos cargos que ocupam. Não só para evitar que o caráter do cargo seja emasculado como para evitar que um eventual julgamento seja influenciado pela representatividade do cargo e pelas paixões de torcedores partidários.

 

     O Brasil é um grande País, em que cada indivíduo cuida de si mesmo, de suas coisas particulares e de seus amigos, e em que cada uma das Instituições supostamente representativas da vontade de todos se julga Soberana, inclusive as Confederações esportivas. O Brasil é também o País do futebol. E, sendo do futebol este País, e sendo o futebol o esporte das multidões, eu prefiro me manter de olho na bola – mas outros esportes quaisquer poderão também ser chamados a bem explicá-lo. Talvez por isso o País seja tão divertido, embora não se demonstre minimamente como sendo um lugar decente.

 

     Portanto, aqui é finda esta nossa reportagem. Nada a acrescentar, nada mais a comentar. Nem a conjecturar.

 

     Resta apenas ler, mantendo ao lado um copo d’água com sal de frutas, o que a Imprensa, em seu “discernimento”, publica; e deliciar-se com o que minha amiga Eliane Rio Branco, com muita arte, inspiração e muito fina e bem comportada ironia, soube colocar em palavras:

 

     “Senhor Representante do Supremo Tribunal

     Meritíssimo Sr. Dr. Juiz Celso de Mello

 

     Tomo a liberdade de me dirigir a esse douto decano e representante legal que ocupa uma cátedra do mais alto escalão do Sistema Judiciário de nossa pátria, tendo como intuito tecer comentos leigos sobre seu soberano voto de Minerva proferido acerca do vulgarmente denominado processo do “Mensalão”, voto esse que foi alcatifado e, reitero, segundo meu leigo ideário se pautou em citações de jurisprudências que percorreram o mundo, numa viagem jurídica ilustrativa e confesso que afanosa.

     Não obstante, conforme V. Exa. proferiu, não é possível pautar decisões jurídicas acolhendo-se clamores públicos, e o que aqui aporto é justamente um clamor pessoal.

     Surge que advém em minha mente uma concepção, quiçá doidivana e temerária, de que existe um roteiro para isso e que, no que seria um jogo de xadrez, as peças são movidas a bel prazer das obscuras volições políticas, que não ferem a lei, mas armam um tabuleiro onde as peças já possuem um arrasto pré-ordenado por alguma entidade maior.

     Será isso um desvario de minha parte?

     Isso eu avaliarei através do número de acessos que terei em minha rede social, daqueles que compartilham desse juízo.

     Procurei também me tornar inteligível a todos que ocupam cátedras de polpa usando do vernáculo que vai além da norma culta e seguindo seu douto exemplo.

     Sem mais, como um peão humilde que labuta diariamente, peço vênia para estampar minha simplória apreciação.

     Eliane Rio Branco”

 

    

 

  

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

      A Terra do Faz de Conta não é um País das Maravilhas. Nem é um Estado de Graça. É apenas um Município. Com uma Constituição municipal.

 

     A Terra do Faz de Conta é um Município, um mega-município, cujo território, administrado com objetivos e mentalidade estrita e especificamente municipais, abrange 8.515.767 km² e uns quebrados. Nele vivem mais de 200 milhões de indivíduos que se dedicam à colheita de uma cultura de multiplicação vegetativa quando não se caçam, pescam-se e devoram-se mutuamente.  

 

     Como todos, na Terra do Faz de Conta, fazem de conta que devem e podem confiar em que seus direitos individuais inalienáveis sejam garantidos por forças superiores sobrenaturais, ninguém tem a mais mínima idéia do que venha a ser o Poder; muito menos terá idéia do que seja ter o Poder nas mãos ou de por que uma boa Política possa ser necessária à sobrevivência. E todos vão levando tudo na flauta. No frigir dos ovos, todos, na Terra do Faz de Conta, gostariam de viver gozando de sombra, água fresca e alguma pastagem para polir os dentes e manter belos os sorrisos. “Sombra e água fresca” é uma legenda que, nessa privilegiada área municipal e apenas nela, transformou-se, por sua vez e por si mesma, em ideal civilizatório; e, assim, todos terão, por certo, alguma noção do que ameaça impedir a transformação dessa feliz legenda em feliz realidade. Segundo os habitantes dessa Terra, o que ameaça são os “outros”. Nem todos, mas alguns já viram esses “outros” – portanto, eles existem! – e os que os viram contam que são abomináveis, assustadores como o ET de Varginha, e que, como este, merecem muito respeito.

 

     Na Terra do Faz de Conta, a cadência do tempo é bissexta. A cada quatro anos acontece uma grande liquidação para balanço. É o chamado “Grande Festival das Urnas”. Uma queima de estoques mais modesta é também oferecida a cada quatro anos, mas em época não coincidente. Em todas essas ocasiões, que são intercaladas, multidões acorrem aos pontos de venda preocupadas com não se esquecer do nome do santo de sua devoção que permitirá adquirir seu sonho de consumo por pouco preço. Entre um e outro desses eventos festivos, todos se põem indignados e muito se revoltam por constatar que, depois de cada uma dessas festas, não mais encontram qualquer uma daquelas vantagens promocionais que lhes eram prometidas antes delas. E decidem reclamar a quem não se sabe muito bem, talvez aos “outros”, ameaçando levar a questão aos Tribunais. Logo após, porém, verificando que os Tribunais estão muito atarefados e não gostam muito de lidar com conflitos, correm todos a limpar e a montar novamente as vitrines para o próximo evento, providenciando novas roupagens cor de burro quando foge para os mesmos manequins cor de burro quando foge, que se exibem sobre um mesmo e antigo fundo cor de burro quando foge.

 

     Na Terra do Faz de Conta todos buscam a perfeição, o que parece fácil atingir porque tudo se faz na cor de burro quando foge – que sabemos ser uma cor específica, aquela que não é cor que possa ser chamada por outro nome, mas que algum erudito certa vez afirmou que não existe, pois o que existiria de fato é um “corro de burro quando foge”, que ninguém, desde tempos muito remotos, soube entender corretamente. Mas, na Terra do Faz de Conta, ninguém o entenderia, mesmo, porque isso é coisa que ninguém, na Terra do Faz de Conta, pensou em fazer até hoje. Então, todos fazem de conta que a cor existe, e tanto faz como tanto fez. É bom saber, no entanto, que essa cor, que não existe, mas passa a existir, não foi a escolhida para compor a Bandeira da Terra do Faz de Conta; nem essa Bandeira terá sido inspirada em burros fujões, mas apenas no resultado de uma recente pesquisa acadêmica patrocinada pela UNESCO: constatou-se que, à noite, todos os gatos se confundem como fossem da mesma cor. Essa Bandeira, de extrema originalidade, foi, então, desenhada por um artista de renome internacional e já foi aprovada em plebiscito amplo, geral e irrestrito. Ela é negra, com um losango de cor parda e um círculo recheado de vermelho ao centro. Uma faixa cinzenta nesse círculo, em diagonal, trará as palavras “UNIDOS VENCEREMOS” e um ponto de exclamação. Ao ser oficialmente apresentada, a Comunidade internacional, que ninguém sabe quem é ou onde vive, mas todos fazem de conta que sabem porque desconfiam de que precisam de sua bênção, celebrou com uma taça de champanhe, emocionada. Há um vídeo no youtube que o comprova. Embora nenhuma das demais imagens esteja minimamente nítida, o rótulo da garrafa pode ser visto com muita nitidez.

 

     É bom também saber que, se correr de burro quando foge é algo bastante prudente, e se ninguém aprendeu, na Terra do Faz de Conta, a correr de burros quando fogem, será porque todos estão convencidos 1. de que correr cansa; 2. de que fugir é coisa de meliante; 3. de que ninguém será capaz de ser burro. Na Terra do Faz de Conta, ninguém será reconhecido como sendo burro. Assim como ninguém será reconhecido como meliante. Atribuir qualquer um desses qualificativos a alguém é terminantemente proibido e quem o fizer se verá incurso nas penas que se aplicam aos que cometem atos de violência física ou psicológica, em uma relação desigual de poder, causando dor e angústia. Na Terra do Faz de Conta só há gente bonita, honesta e inteligente. Ninguém mais. Alguns são criativos, outros são vítimas das circunstâncias. O que não impede que muitos se caracterizem por ambos os atributos. Todos os que sejam apenas vítimas das circunstâncias, para que não encruem como vítimas, deixam-se salgar por um certo período em um poço de lágrimas, após o que terão oportunidade de submeter-se a novas avaliações consecutivas, em processo de depuração, até que o feito eventualmente considerado imperfeito possa ser considerado perfeito. E, assim, todas vítimas das circunstâncias passam a ser apenas indivíduos criativos.

 

     Na Terra do Faz de Conta foi, um certo dia, decretado que a palavra “cidadania” deveria constar de todos os proclamas, públicos ou privados, inclusive da Ordem do Dia nos Quartéis, das prédicas em Igrejas, dos brindes à mesa, das discussões no trânsito e dos pitos das mães a seus filhos, sem o que todo o conteúdo de qualquer deles deveria ser desconsiderado. Conforme determinaria um Dicionário da Academia de Letras municipal – ainda não publicado por falta de verbas específicas e por excesso de trabalho dos ilustres que se dedicam a, uma vez por semana, elogiar-se reciprocamente, a elaborar um dialeto que venha a substituir o idioma oficial do Município, a fazer poses para fotografias e a tomar chá com biscoitos -, “cidadania”, uma palavra de fácil articulação e complicadíssima compreensão, que adquiriu o valor de um carimbo mágico que a tudo e qualquer coisa empresta legitimidade, significa algo como “abracadabra”.

 

     Na Terra do Faz de Conta, as Instituições, especialmente a Imprensa e a Escola, encarregam-se de manter um culto árduo, mas divertido, aos profetas que afirmaram que o fim da História será o inverso daquele que Fukuyama encontrou e divulgou em sua famosa ficção que foi um estrondoso sucesso em vendas e diferente daquele que o calendário maia antecipava. Os que não concordam com os profetas se encarregam de lembrar a todos de que a Guerra Fria não terminou, mesmo que ela possa já ter terminado oficialmente por decisão em reunião do Conselho de Segurança da ONU, e mesmo que as guerras que ainda hoje se vêem sejam outras e sejam tão quentes como as que desde sempre se fizeram. E, assim, esses últimos jogam o mesmo jogo dos primeiros. Na Terra do Faz de Conta, ninguém manifesta qualquer pretensão, qualquer expectativa ou qualquer preocupação com relação a qualquer fim da história ou a qualquer futuro. O futuro é lá mesmo, e é agora, quando se mastiga e se suga o presente, seja qual for esse presente, e se farejam e se esburacam terrenos em busca do passado, seja qual for esse passado, em todas as suas versões. Assim, não há por que haver qualquer pretensão ou qualquer expectativa de que essa Terra se comporte como soberana ou destaque-se de alguma forma no dito “mundo globalizado”. Basta fazer de conta que ela é.

 

     E a Terra do Faz de Conta não quer saber de fazer guerras. Ela é da paz, e treina Soldados exclusivamente para fazer a paz politicamente correta. Quem faz guerras são Estados, e a Terra do Faz de Conta não é um Estado, nem mesmo é um País, é apenas um Município administrado por nobres famílias rivais que se revezam no poder e buscam impor-se sobre as demais por gozarem de um status já tradicional, sempre reconfirmado naqueles “Festivais das Urnas”. De quando em quando, algum fidalgo pula o muro, escapa de seu castelo com sua viola, fantasia-se de menestrel e põe-se a cantar uma velha história procurando esconder sua pertença à nobreza local. Só de farra. Logo será reconhecido pelos cacoetes verbais. E tudo volta ao normal. Nada disso terá importância alguma, porque os Prefeitos, os ex-Prefeitos, os candidatos à Prefeitura desse Município, todos, e seus eleitores, todos, têm um mesmo discurso – é só dar corda na chavinha que se encontra nas costas de cada indivíduo que esse discurso se repete, de cor e salteado, indefinidamente, nas promessas, nas cobranças, nos lamentos, nos rancores. E ninguém seria capaz de compreender um outro discurso qualquer, nem mesmo aquele que diga exatamente o mesmo que os já conhecidos dizem, mas em ordem diferente e com outras palavras – ele seria considerado confuso.

 

     A Terra do Faz de Conta ocupa hoje o mesmo território que antes era ocupado por um Estado Nacional criado há mais ou menos uns dois séculos. Alguns que perceberam sua existência consideraram, por muitos e muitos anos, que ele poderia crescer e dar muito trabalho; mais recentemente, consideraram que, por não ser tão jovem, já era hora de que fosse ultrapassado pela velocidade das fortes pernas do progresso e de que fosse morto e enterrado sem choro e sem velas. E de que quem nele vivesse abrisse alas aos criadores do Município que seria constituído com todas as novidades e as facilidades de seu tempo. Mesmo as Forças daquele Estado, tanto as armadas, que saíam dos Quartéis, quanto as desarmadas, que permaneciam em alerta nas demais Instituições, deixaram-se substituir docilmente pela muito amada força da meiguice (leia-se ternura) daqueles que entenderam que deveriam ter por missão a sua firme omissão. Alguns dos remanescentes das antigas Forças sobrevivem e se mantêm imóveis e calados porque em boca fechada não entra mosca e porque macaco que muito se mexe pede para cair do galho. E porque o que é válido para os insetos deve valer para os mamíferos. Outros, que a população espera e torce para que não demorem a desocupar a cena, são legitimamente discriminados, legitimamente qualificados como antiprogressistas, legitimamente tratados, se possível, a pão e água que lhes sejam fornecidos, de preferência, através das grades, legitimamente isolados da Sociedade local, porque não vale a pena preocupar-se com eles, e, quando se atrevem a aparecer em público, levam cusparadas, são apedrejados e são baleados nas ruas. Legitimamente. E, a isso, a população do Município chama de exercício democrático.

 

     Na Terra do Faz de Conta, Nação se confunde com população, como se fossem sinônimos. E a coisa pública é considerada a soma das coisas privadas. Faz-se de conta que Política é algo que se formula como se faz uma lista de supermercado, a cada 2ª feira, e se administra como a geladeira lá de casa. As Finanças municipais são complicadas e, mesmo com todos os cortes na carne, complicam-se cada vez mais. Mas, não surpreendentemente, exatamente por ser de Faz de Conta, essa Terra mantém um Corpo Diplomático municipal, de faz de conta, que se dedica a programar as freqüentes viagens oficiais dos Prefeitos e suas troupes e a rosnar nos espelhos palacianos estrangeiros, fazendo eco aos que crêem que, sem ele, o mundo não evoluirá no que se deve considerar o bom sentido. Apesar de que o mundo continue evoluindo exatamente do único jeito que sabe e pode evoluir.

 

     Em todas as Regiões Administrativas em que se divide esse Município que, pelos menos atualizados, é conhecido como “República Federativa do Brasil” – porque este é o nome do antigo Estado que o precedeu -, tudo o que for verdade deve ser posto no lixo ou todos devem fazer de conta que não vêem e seguir adiante. E o que é de faz de conta se transforma em verdade e, como verdade, fixa-se em todas as esquinas. Em parte, isso acontece porque, já naquele Estado que havia antes de que a Terra do Faz de Conta se constituísse no território, todos já podiam fazer de conta que os que iam às ruas na intenção de desfazer a ordem e a segurança pública eram heróis, e todos aqueles que assumiam a prerrogativa de impor a ordem e manter a segurança seriam os inimigos da coisa pública. Afinal, foi ou não foi aquele Estado chamado Brasil que deu origem à Terra do Faz de Conta e permitiu que ela prosperasse? E essa Terra é ou não é a Terra do Faz de Conta?

 

     Convenhamos: se não fosse…

 

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A notícia abaixo refere-se ao que ocorre em uma das Regiões Administrativas da Terra do Faz de Conta.

 

De Roberta Trindade,

Em 11 de Setembro

“Setembro: em 11 dias, 9 policiais atingidos por tiros – 5 não resistiram. A quarta-feira começa com mais um ferido. Um PM lotado no 16ºBPM foi atingido durante confronto com assaltantes, na Avenida Brasil, na altura da Favela Cidade Alta, em Cordovil, na Zona Norte do Rio.”

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Em 12 de Setembro

“Só nesta quinta-feira, dia 12 de setembro, foram dois mortos. De janeiro a hoje, 133 baleados – 52 não resistiram.”

Estatística completa -> http://robertatrindade.com.br/?page_id=8951  

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Em 08 de setembro

“Tentei não comentar, mas infelizmente não consigo.

‘OAB-RJ assume a defesa de Black Blocs presos por vandalismo em atos’: ah, tá! Agora tente encaminhar vítimas de violência para um orientação jurídica e descubra a verdadeira OAB (bem verdade que o mesmo serve pras tais comissões de Direitos Humanos, Defensoria, etc.)

Vergonhoso. E ainda querem nos enfiar goela abaixo o ‘sem advogado não há democracia’. Mas oferecem serviços gratuitos – ah, ‘voluntários’ – apenas para quem bem entendem.

O dia em que encontrar advogados dando plantão em qualquer delegacia, em qualquer ocasião – e não apenas quando há imprensa envolvida – aí, sim, vou levar a sério.

‘São voluntários e os presos têm a quem recorrer’? Ah, senta lá, Cláudia! Todos os dias centenas de pessoas são presas e não têm qualquer facilidade de acesso a advogados. Menos ainda sendo de graça. Então, se querem realmente ‘fazer voluntariado’, essa é uma boa oportunidade. Pelo menos vão aparecer fazendo uma boa ação.

E para os que vão bater no peito falando em ‘Direitos Humanos’, só digo uma coisa: Cadê os ‘defensores dos direitos humanos’? Estarão eles se organizando em plantões para dar assistência a todos os familiares? Para cobrar resposta das autoridades?  Acho que não, né?

E para aqueles que vão falar que ‘Direitos Humanos’ são apenas para ‘vítimas do Estado’:

O policial recebe salário indigno, mora em área de risco por conta disso, tem que esconder a farda para não morrer, leva um tiro quando tem sua identidade descoberta… Ah, sim… Ele não é vítima do Estado, né?…

Bando de hipócritas!

Isso só reforça a minha tese de que os brasileiros não têm o costume de tratar o 7 de Setembro como os americanos tratam o 4 de Julho e talvez por isso vivamos nessa democracia falida – onde o que está escrito na Constituição vale apenas para alguns e onde todos são iguais perante a lei, mas não perante os encarregados de fazê-la cumprir.

Em tempo: ‘DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS (adotada e proclamada pela resolução 217 A (III) da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948)

Artigo III -> Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.  (…)

 Artigo VII -> Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.’

Quem quiser me mostrar onde está escrito que Direitos Humanos não se aplicam a policiais, estou à disposição para receber esse esclarecimento.”

 

    

 

  

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

      Tentemos compreender o que nos diz a notícia:

 

 “…um médico cubano que trabalhou na África, Guatemala e Venezuela, se prepara juntamente com dezenas de compatriotas para trabalhar nas aldeias indígenas mais distantes da Amazônia, que os médicos brasileiros não querem ir. … ‘Estou muito animado’, explica este afro-cubano procedente de Cienfuegos …  Seu destino será o Vale do Javari, uma área de tribos isoladas na fronteira com o Peru. … O governo de Dilma Rousseff lançou o programa Mais Médicos para preencher 15 mil vagas nas regiões remotas e pobres do país. ‘O principal problema será a língua. … os indígenas não falam português, vamos ter que aprender’ … Ruberilson, 12, dono de um belo sorriso … caminha batendo com sua bengala entre os cubanos … se comunica em idioma ianomami. … ‘Era um tumor benigno, mas demorou a ser atendido e afetou o nervo óptico. Será difícil seu retorno para a aldeia ianomami, porque é uma sociedade onde cada um tem sua função, pescar, caçar’, explica uma encarregada do curso para os cubanos. … ‘estas praças muitas vezes rejeitadas pelos médicos brasileiros … são áreas muito remotas e que requerem uma habilidade para tratar com uma cultura e hábitos muito diferentes’, explica à AFP Antonio Alves de Souza, secretário de Saúde Indígena do governo brasileiro.  … ‘Não pode chegar alguém com essa visão de que a ciência do homem branco domina o mundo’, explica. … ‘A saúde no país estava cada vez mais precária. … médicos estrangeiros … talvez incentivem nossos médicos a trabalhar melhor’ … diz … enfermeira da Casa de Saúde Indígena. … A concentração de médicos nos grandes centros acompanha a de outros profissionais de saúde, como dentistas e enfermeiros, e a de unidades de saúde. Onde falta um, faltam os outros.“ http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/afp/2013/09/09/medicos-cubanos-vao-para-aldeias-e-temem-problemas-com-a-lingua-indigena.htm

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      Tentemos.

 

      Até que dá para compreender por que Ruberilson, que tem 12 anos e se diz um ianomami, chama-se Ruberilson.

 

     O que não dá para compreender é por que Ruberilson não fala português. E não dá para compreender por que um cubano contratado pelo Governo brasileiro à nossa custa deva aprender ianomami à nossa custa para poder ser compreendido e poder compreender o que os nossos Ruberilsons possam querer dizer.

 

     Não dá, também, para compreender por que o Governo brasileiro deva nomear um secretário para que cuide exclusivamente da Saúde indígena. Nem dá para compreender por que indígenas não possam e não devam compreender que a ciência do homem branco domina o mundo, nem possam nem devam compreender por que essa ciência, que domina o mundo, domina o mundo. Muito menos dá para compreender por que os brasileiros todos, de todas as origens e cores, não consigam compreender o que significa dominar e gastem seu tempo brincando com coisa séria.

 

     O que não dá para compreender, ainda, é onde e como o Comandante do EB, nossa Força de Terra, que é encarregada de ocupar os nossos espaços levando o Estado brasileiro a todo nosso território – Força essa que possui um Corpo Médico assim como as demais Forças –, poderia encontrar palavras que explicassem o abandono em que se encontra esse território e o abandono em que se encontra a sua população a ponto de que nos seja necessário entregá-la à responsabilidade e aos cuidados de terceiros.

 

     E não dá para compreender, tampouco, por que a Inteligência brasileira, que tanto se agitou com o voyeurismo de Obama, não seja capaz de projetar as consequências desse abandono ou as conseqüências da forma como o(s) Governo(s) brasileiro(s) decidiram empenhar-se em contorná-lo.

 

     Ou devemos compreender que todos aqui estão (estamos) dedicados a facilitar essas conseqüências?

 

     É fácil, é muito fácil, mesmo, compreender os problemas nacionais e a razão deles todos.

 

     O difícil, o que é difícil, mesmo, é compreender por que é tão difícil encontrar brasileiros que os queiram resolver com um mínimo de consciência, competência e destemor.

 

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Saúde pública

Médicos cubanos vão para aldeias e temem problemas com a língua indígena

AFP Em Brasília – 09/09/201313h25 

Bernardo Madrazo, um médico cubano que trabalhou na África, Guatemala e Venezuela, se prepara juntamente com dezenas de compatriotas para trabalhar nas aldeias indígenas mais distantes da Amazônia, que os médicos brasileiros não querem ir.

“A Amazônia será muito diferente do que fiz antes. Estou muito animado”, explica este afro-cubano procedente de Cienfuegos, 47 anos e 23 de experiência médica (dois na Guatemala, dois no Lesoto e quatro na Venezuela). Seu destino será o Vale do Javari, uma área de tribos isoladas na fronteira com o Peru.

 O governo de Dilma Rousseff lançou o programa Mais Médicos para preencher 15 mil vagas nas regiões remotas e pobres do país. Serão 4.000 médicos cubanos e centenas de argentinos, venezuelanos, espanhóis e portugueses.

 “O principal problema será a língua. Estudamos muito português, mas os indígenas não falam português, vamos ter que aprender suas línguas”, explica Ania Ricardo, outra cubana que passou três anos em bairros pobres e violentos de Caracas e que agora irá para uma aldeia no rio Solimões, na Amazônia.

 Junto com outros 40 compatriotas que chegam ao Brasil com um contrato de três anos, Madrazo e Ricardo tiveram seus primeiros contatos com indígenas brasileiros na última sexta-feira (6), com um treinamento na Casa de Saúde Indígena, a 25 km de Brasília, um local que abriga pacientes submetidos a tratamentos e cirurgias complicados em todo o país.

 Ruberilson, 12, dono de um belo sorriso e grandes cicatrizes escondidas por um boné, caminha batendo com sua bengala entre os cubanos depois de ter ficado cego há alguns meses. Ele se comunica em idioma ianomami.

 “Era um tumor benigno, mas demorou a ser atendido e afetou o nervo óptico. Será difícil seu retorno para a aldeia ianomami, porque é uma sociedade onde cada um tem sua função, pescar, caçar”, explica uma encarregada do curso para os cubanos.

 Doença do espírito

 “O governo está determinado a dar prioridade à saúde indígena e cobrir estas praças muitas vezes rejeitadas pelos médicos brasileiros porque são áreas muito remotas e que requerem uma habilidade para tratar com uma cultura e hábitos muito diferentes”, explica à AFP Antonio Alves de Souza, secretário de Saúde Indígena do governo brasileiro.

 “São culturas que consideram o pajé como um médico e acreditam que a doença é do espírito e não do corpo. Não pode chegar alguém com essa visão de que a ciência do homem branco domina o mundo”, explica.

 A melhoria dos serviços de saúde pública foi uma das grandes reivindicações das manifestações que tomaram as ruas do Brasil em junho. Mas o programa também gerou controvérsia.

 Apesar de os médicos estrangeiros irem para as praças em que os brasileiros não vão, alguns deles foram recebidos nos aeroportos com vaias e declarações racistas.

 A polêmica surgiu porque os cubanos recebem apenas parte dos R$10 mil reais que o Brasil paga, uma vez que o dinheiro é destinado ao governo de Havana. “Em Cuba, temos tudo garantido pelo Estado, eu não paguei um centavo para me formar, é nosso sistema, como também nos incutem a solidariedade de sair para exercer (a medicina) fora”, explica Ania Ricardo.

 Sétima economia do planeta, o Brasil tem uma taxa de 1,8 médico por 1.000 habitantes, menos que Argentina (3,2) ou Grã-Bretanha (2,7).

 “A saúde no país estava cada vez mais precária. Realmente precisamos destes médicos estrangeiros que talvez incentivem nossos médicos a trabalhar melhor e quererem ir a locais distantes”, diz Kenia Gomes de Matos, enfermeira da Casa de Saúde Indígena.

Onde falta médico, faltam dentistas e enfermeiros, mostra pesquisa

A concentração de médicos nos grandes centros acompanha a de outros profissionais de saúde, como dentistas e enfermeiros, e a de unidades de saúde. Onde falta um, faltam os outros.

 É o que o mostra um recorte da pesquisa Demografia Médica no Brasil, que se baseou em dados da AMS (Assistência Médico-Sanitária) do IBGE, que conta os postos de trabalho ocupados por profissionais de saúde

 

    

   

  

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

      Voa no ar, como gaivota, uma desconfiança generalizada com relação à qualidade da Universidade que concedeu diplomas aos médicos cubanos que foram chamados a acudir o sistema de saúde nacional e, por decorrência, com relação à qualidade e à quantidade de conhecimento desses médicos. O romance entre esse sistema e esses doutores cubanos não é de hoje e é decorrente de acordos de intercâmbio celebrados entre as nossas autoridades e as de diferentes países, em diferentes áreas, muitos deles, por sua vez, decorrentes da idéia de integração regional alinhavada no âmbito da ALADI desde muito antes da concepção do Mercosul. A integração da “América Latina e Caribe” nos foi imposta pelos constituintes de 1986 e, há décadas, tem sido a direção obedecida por nossos sucessivos Governos, todos eles obedientes à Constituição.

 

     Há muito boas Universidades espalhadas pelo mundo. E algumas são reconhecidas, sendo ou não sendo de fato, como as melhores em algumas áreas. São centros de pesquisa e inovação e reúnem grandes nomes ou nomes apenas conhecidos em seus quadros docentes e discentes. A Sorbonne, por exemplo, é uma Universidade francesa há séculos respeitada internacionalmente, por seja qual for o motivo, razoável ou não. E, conforme nos informa a Wikipédia, entre os “personagens célebres que freqüentaram a Sorbonne está Fernando Henrique Cardoso, o 34º Presidente do Brasil”.

 

     Segundo essa mesma fonte, o Doutor Fernando Henrique Cardoso foi funcionário da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), membro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), Senador da República (1983 a 1992), Ministro das Relações Exteriores (1992) e Ministro da Fazenda (1993 e 1994), além de Professor na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade de Paris (Sorbonne), antes de ser Presidente da nossa República. Como tal permaneceu por oito longos anos, ao fim dos quais o candidato apresentado por seu Partido, em coalizão com alguns outros, foi derrotado. E foi derrotado pelo candidato de uma outra coalizão, formada por outros Partidos, que elegeu aquele que, mantendo exatamente a estrutura recebida, sem tirar nem pôr, esteve por mais oito longos anos no poder, e pôde eleger quem o sucedeu.

 

     Essas coalizações, costuradas aqui e ali com finalidade especifica e exclusivamente eleitoral, não se mantiveram compostas da mesma forma e com o mesmo desenho durante esses últimos quase 20 anos em que os Partidos exercitaram, tal como sempre o fizeram, aquilo que se chama conchavo e costumamos, equivocadamente, chamar de Política.  

 

     Com novas eleições se aproximando, aquele que antes pôde ser chamado de “Príncipe dos Sociólogos”, já consagrado “imortal” pela Academia Brasileira de Letras, veio generosamente nos oferecer, neste último domingo, uma análise de situação e uma receita para a construção de “uma sociedade mais próspera, decente e equânime” (texto publicado em www.estadao.com.br/noticias/impresso,falando–francamente-,1070059,0.htm e reproduzido em diferentes sítios virtuais).

 

     É preciso, pondera ele, fazer “um mea culpa coletivo” e, “mantendo as diferenças políticas, e mesmo ideológicas”, “limar as diferenças” e fazer “cessar as rixas internas a cada partido”, para que se forme “um bloco confiável, com visão estratégica e capaz de seguir caminhos práticos”.

 

     Isso, porque “quando o barco afunda vamos todos juntos, governo e oposição, empregados e empregadores, os que estão no leme e os que estão acomodados na popa”; porque “sempre o mais fácil é culpar o presidente ou o governo ou algum partido especificamente, embora seja possível identificar responsabilidades”; porque  “o bater de cabeças dentro e entre os partidos faz mais zoeira do que gera caminhos”; porque “é preciso grandeza para colocar os interesses de longo prazo do povo e do País acima das desavenças e pactuar algumas reformas (poucas, não muitas, parciais, não globais) capazes de criar um horizonte melhor, começando pela partidário-eleitoral”; porque “parece inevitável reconhecer que a questão central é de liderança”.

 

     De alguém muito instruído e de um líder nato essa receita e sua justificativa podem até ser. E, por isso, até merecerão nossa atenção. Mas, francamente, elas não primam pela criatividade, e seus ingredientes não nos parecem garantir qualquer resultado muito novo, minimamente nutritivo, que nos evite o escorbuto ou seja tão supimpa assim.  

 

     Francamente por francamente, que diabos o Doutor nos estaria recomendando e justificando? Dá pra entender? Um motim, que tenta liderar a partir da popa, uma nova direção ao leme, resultado de poder ver-se novamente ao timão? Ele convoca a “oposição” a que se una e avance? Muito bem. Que “oposição”? Quem está na “oposição”? Falando francamente, existe uma “oposição” neste País? “Oposição” a quê, exatamente? Uma vez formado um “bloco” de toda essa “oposição”, esse “bloco” faria, de repente, um mea culpa de quê? Seria, de repente, confiável em quê? Teria, de repente, uma visão estratégica por quê? Mostrar-se-ia capaz de seguir caminhos práticos visando a quê?

 

     No bocado que nos foi dito e recomendado, e naquele que já nos foi dado a, até aqui, experimentar, francamente por francamente, essa receita mais parece uma receita de gaiato, pois quem a oferece já pôde receitar o que quis, o quanto quis, desde a CEPAL, desde o CEBRAP, desde o Congresso Nacional, desde o Ministério das Relações Exteriores e o da Fazenda, e, em seguida, pôde administrar o nosso País, dando as ordens a seus eternos grumetes, de bombordo a estibordo, por oito longos e longos anos. E, com coalizão ou sem coalizão, a nenhum problema deu solução, não deixando, em contrapartida, de nos criar outros tantos mais. Pois apenas mais abriu e aplainou o caminho que nos levava e nos levou ao estado em que hoje nos encontramos – o de uma sociedade nem próspera, nem decente, nem equânime. E, mesmo que, a quem não for marinheiro de primeira viagem, seja possível identificar responsabilidades, ainda pretende se nos apresentar como sendo o conciliador da “oposição”.

 

     Um bocado gaiato é esse senhor. Mais gaiato, porém, será quem ainda se deixe levar por promessas vazias de um gaiato tão gaiato, ou pelas promessas vazias de qualquer outro gaiato entre todos os gaiatos que se dizem de “oposição” às vésperas de uma eleição, quando nenhuma oposição de fato aos rumos tomados pelo País foi sequer ensaiada, muito menos foi capaz de formar-se durante os últimos quase… não 20, mas 30 longos anos em que vagamos em direção ao Triângulo das Bermudas; gaiato será qualquer um que ainda ponha fé em que gaiatos em campanha eleitoral, viciados nas fanfarronadas e nas artimanhas dos maus timoneiros, sejam capazes de sacar qualquer receita minimamente sensata do bolso da algibeira como se saca um apito, se por quase trinta longos anos consecutivos nenhum deles percebeu que fazer uma oposição conseqüente aos absolutamente inconseqüentes, e não apenas propor conchavos ou ceder a eles, seria absolutamente necessário ao País.  

 

     Gaiatice por gaiatice, aliás, o que diz uma placa esperta cuja foto me chegou por aqui e vê-se abaixo – e onde está afixada não sei, mas, na Sorbonne, por certo não deve estar – nos poderá, em poucas linhas, esclarecer muito mais do que tudo o que já nos pôde ter sido dito até agora e continua sendo dito pelos encarregados do avanço da conciliação. Não é uma receita e, francamente, não resolve o nosso enguiço; mas talvez bem nos explique por que não temos qualquer liderança de oposição política à vista, e também por que, francamente, estamos precisando tanto de que surja, em nosso horizonte, uma Oposição de fato como alternativa a essa lamentável Situação.

 

 

    teoria e prática

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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BOLSA CASERNA?

30-08-2013
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

1. “Precisamos continuar temperando nossa fibra na dureza do adestramento continuado, gastando suor para poupar sangue. E, também, na prontidão para o inesperado, na preservação dos valores intrínsecos da nacionalidade brasileira, na busca dos melhores meios, da maior competência e da melhor capacidade para atuar no amplo espectro dos conflitos, e proteger o País de ameaças que possam atrasar sua chegada ao seu local de destino. Lá, o BRASIL, cada vez mais forte, decisor de primeira grandeza, e participante ativo da modelagem do cenário mundial, poderá – inspirado em CAXIAS – contribuir ainda mais com a harmonia entre os povos e com a paz mundial, ampliando sua Estratégia da Cooperação”. Enzo Martins Peri, Comandante do Exército em Ordem do Dia de 25 de agosto de 2013 (dia que é do Soldado em homenagem a Caxias)

 

2. “No ano passado 249 oficiais se demitiram das Forças Armadas. A predominância recai sobre os postos de capitães e tenentes; e os oficiais engenheiros e dos quadros de saúde e intendência superam aqueles dos quadros operacionais, em todas as três Forças Armadas. A evasão ocorre, pois, nos postos mais baixos da carreira e incide nas qualificações mais demandadas no atual mercado de trabalho – engenharia, medicina e logística. (…) Uma explicação simplista poderia considerar o fator remuneração como o preponderante, uma vez que a demissão deveu-se, em sua grande maioria, por aprovação em concurso público para ocupar cargo que provavelmente pague melhor. Tal fato não é uma verdade absoluta. Conheço casos de oficiais que se demitiram até mesmo para perceber menor vencimento, mas sem os ônus que a profissão militar requer, como por exemplo a dedicação exclusiva. Marco Antonio Esteves Balbi – Cel Ref do Exército Brasileiro em 16/08/2013 – http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/forcas-armadas-249-oficiais-se-demitiram-no-ano-passado-neste-ano-ate-julho-foram-162-o-que-e-que-esta-acontecendo/

 

3. “O post provocou também muitos comentários de militares ou ex-militares das três Armas e de diferentes graduações, explicitando, na maior parte, as razões de seu desencanto com a carreira militar. Acho que o blog presta um serviço aos responsáveis ao registrar aqui algumas das opiniões, não raro dramáticas ou muito críticas, desses integrantes ou ex-integrantes das Forças Armadas. Opiniões como essas deveriam, no mínimo, provocar reflexões do Ministério da Defesa, dos comandantes militares e do governo”. Ricardo Setti, jornalista, em 22/08/2013 – http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/forcas-armadas-depoimentos-dramaticos-de-militares-mostram-as-razoes-de-frustracao-com-a-carreira/

 

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      É… Não é? Pois é. E, disso tudo, eu cá, se é que posso achar alguma coisa, achei outra, que se coloca em diametral oposição àquela que pôde ser achada pelo Jornalista – achei que este “post” só nos presta um enorme desserviço. A todos nós. E digo por quê:

 

     – porque nem o Ministério da Defesa, nem os Comandantes militares, nem o Governo carecem tomar conhecimento por intermédio da Imprensa de quaisquer “opiniões como essas” que foram publicadas para refletir sobre a atual realidade das FFAA, nem seriam essas opiniões o que os induziria ou obrigaria a fazer qualquer reflexão – estão todos eles fartos de conhecer a realidade, nos mínimos detalhes e nas condições e circunstâncias em que se vem gastando o suor da tropa brasileira para poupar o sangue de não sabemos muito bem quem – mas bem sabemos que o nosso sangue não é esse que vem sendo poupado;

 

     – porque as Forças Armadas somente chegaram às condições deploráveis, desastrosas, em que estão graças à condição deplorável, desastrosa, em que se encontra o Estado Brasileiro, exatamente em virtude da irresponsabilidade do(s) Governo(s), do Ministério da Defesa, dos Comandantes militares, das demais Instituições nacionais, da boa-Imprensa e de bons-cidadãos brasileiros comuns, convincentes que são e convencidos que estão, todos, há algumas décadas, de que contribuímos decisivamente com a harmonia entre os povos e com a paz mundial por efeito de nossa cada vez mais ampliada Estratégia da Cooperação. Talvez aqui devêssemos perguntar: e os fatos? Ora, se produzimos tão belos poemas, que importância nos terão os fatos?

 

     – porque, se o Ministério da Defesa, os Comandantes militares ou o Governo se incomodassem e se comovessem com algum problema nacional e se sentissem minimamente responsáveis por oferecer-lhe alguma solução, solução de fato, não o que fosse um quebra-galho, não esperariam “opiniões como essas” para procurar reverter um desastre já mais do que constatado, cujas consequências são perfeitamente calculáveis e, portanto, de surpresa não nos pegarão; mas, para enfrentá-las, ao que se saiba, ninguém se pôs, ninguém se põe ou se porá de prontidão;

 

     – porque os Comandantes militares, o Ministério da Defesa e, especialmente, o(s) Governo(s), irresponsáveis, gozaram e gozam do aplauso entusiasmado de todos os demais irresponsáveis, que cotidianamente informam suas consciências lendo o que publica aquela que consideram ser uma boa-Imprensa, fazem das eleições uma festa e se vêem, a si próprios, como bons-cidadãos – caso contrário não teriam aceito ou compactuado com essa realidade deplorável, desastrosa, que não se fez de repente e não mais que de repente; o que nos induz a supor que essa realidade deplorável, desastrosa, que é tanto do Estado quanto das FFAA encarregadas de sustentá-lo e preservá-lo, seja exatamente a que era desejada pelos que se crêem bons-cidadãos – caso contrário estes não aplaudiriam e manteriam o(s) Governo(s), o Ministério da Defesa, os Comandantes militares e a Imprensa que a aceitaram e com ela compactuaram;

 

     – porque todo e qualquer denuncismo sem projeto apenas incentiva uma rebeldia sem causa, e o incentivo a toda e qualquer rebeldia sem causa será apenas um imenso desserviço prestado à Nação.

 

     Dizem alguns que fantasiar a realidade e confundir a consciência dos incautos é não só uma das artes como um dos poderes do demônio. Não sei se isso reflete alguma verdade absoluta. Mas sei que este nosso País, por ingenuidade e boa-fé à toda prova, acredita piamente que, pedindo perdão por existir, tal como lhe vem sendo sugerido ou exigido, poderá garantir sua eternidade, protegendo os demais e sendo protegido para todo o sempre de todos os males do universo ao alcançar o reino dos céus. Aliás, essa, lá, é única instância em que é possível aos crentes supô-lo cada vez mais forte, um decisor de primeira grandeza e participante ativo da modelagem do cenário mundial. Contando com os meios, a competência e a capacidade que temos para atuar no amplo espectro dos conflitos, é um bocado difícil, extremamente complicado, nesta nossa terra habitada, toda ela inteira, por simples mortais, até mesmo sonhar com que esse nosso tão sublime, generoso e glorioso “destino manifesto” possa ser realizado algum dia, mesmo que com muito atraso. Quem não cuida da própria casa porque não sabe cuidar ou porque não cria meios para dela cuidar por sua própria conta e risco não terá o direito de querer meter-se a dar palpites em como cuidar das casas dos vizinhos – a menos que seja um funcionário do dono do bairro inteiro e aja sob suas ordens.

 

     Pois bem. As Forças Armadas recebem, nas pesquisas de opinião, alto grau de consideração, confiança e estima da população nacional, que elas vêm acudindo, a cada catástrofe eventual ou crônica, não em auxílio, mas substituindo literalmente uma Defesa Civil mal estruturada e insuficiente, quando não inexistente (incluindo-se nisso também o território da Amazônia). São prestigiadas ainda porque apoiam os atletas nacionais. A existência das Forças Armadas, porém, somente se justifica pelo fato de que elas se encarregam de defender, em armas, o Estado nacional contra seus inimigos externos e internos, e, em armas, somente elas devem disso se encarregar. Elas estão aviltadas? Estão. Vêm sendo estúpida, vergonhosamente aviltadas por Governo eleito após Governo eleito, em progressão geométrica, há décadas. Por que e como se mantêm?

 

     Se os Soldados, integrantes dessa Instituição que é do Estado e de ninguém mais, cidadãos diferenciados porque permanente, legítima e legalmente em armas, concordando com a opinião dos “representantes da sociedade civil”, estão convencidos de que sua função se limita a curvar-se às decisões de Governos (Governos?), Ministros da Defesa (Defesa?) e Comandantes militares mesmo que esses todos sejam flagrantemente irresponsáveis; se acreditam (porque todos eles, Soldados, e todos os demais, que Soldados não são, estão a depender dessas decisões que se mostram, a cada dia que passa, mais estúpidas) que suas frustrações individuais provocadas pelas condições encontradas nos Quartéis devam ser “denunciadas ao povo” para que o “povo” cada vez mais com eles se identifique e vice-versa; se estão convencidos de que podem ou devem lamentar-se e protestar batendo panelas ou fazendo passeatas ou vertendo lágrimas ou apelando a gestos espetaculosos (chegamos a uma exibição de rappel, caramba!) ou a discursos dramáticos e grandiloqüentes que repercutam nos Quartéis e/ou ganhem espaço na Imprensa, tal como o “povo” e seus “representantes” se comportam; se confiam em que, demonstrando publicamente o tipo e o grau de seu “desencanto” profissional, obterão a atenção e a comiseração do “povo”, que chamará à razão as “autoridades” em seu benefício; se supõem que assim (e só assim, porque o “povo” exige) seus chefes imediatos e remotos atenderão suas reivindicações individuais ou corporativas; se… mais um monte de evidências que podem ser colhidas ao acaso… e se tratam de justificar a defesa de si próprios como indivíduos comuns e, com pureza d’alma, supõem que isso tudo deva ser considerado como um bom e suficiente serviço que prestam ao País, em vez de agir correta, decisiva, ordenada e corajosamente em defesa das FFAA e do Estado contra eventuais Governos (Governos?) irresponsáveis… é porque Soldados eles não são. E se nenhum daqueles que se dizem Soldados deles discorda, mesmo que muitos assim não ajam, é porque faltam Soldados neste País. Haverá poetas, seresteiros, namorados, oradores, conciliadores, pacificadores, contorcionistas, manifestantes… mas não Soldados. Nem Comandantes, que muito bons Soldados devem ser. Muito menos haverá Soldados e Comandantes que tenham sido forjados à sombra de Caxias, com a consciência do Estado que Caxias deixou como exemplo, dentro e fora do Exército. Por mais que haja quem tenha tido sua fibra temperada na dureza de um adestramento continuado.

 

     Não havendo mais Soldados como Caxias, com a consciência de Caxias, não mais haverá quem defenda em armas o Estado. A Diplomacia o defenderá? Não há boa Diplomacia sem respaldo em boas Armas. E talvez isso já pouco importe aos bons-cidadãos porque talvez Estado brasileiro já não haja (e eu continuo me perguntando e continuo sem saber me responder de que, exatamente, imaginam esses que serão cidadãos…). Talvez neste País haja tão somente um Governo (Governo?) com o qual alguns estão muito satisfeitos e outros tantos não estarão. E, talvez, por isso os Soldados queiram ir às ruas, que a Imprensa tem por função também cobrir. Não só acatam o chamamento dos que nas ruas já estão, como convocam às ruas. Enfim, levam-se os Soldados às ruas não para festejar o poder nacional em 07 de Setembro, não para manter, para impor ou para fazer a Ordem no Estado tal como deles espera quem tem juízo. Levam-se os Soldados às ruas para que se acotovelem com outros grupos de bons-cidadãos insatisfeitos, para que lamentem e protestem. E para que, flagrantemente, desrespeitem não apenas a hierarquia das Armas (e a desrespeitem não por razões de Ordem nacional, o que se justifica, mas por razões estritamente particulares) como para que desrespeitem os regulamentos disciplinares por inteiro, a começar pelo que se refere ao decoro que o Estado lhes exige.

 

     Se alguém ou algo os leva, e se não é, com certeza, uma voz de comando militar, terá sido uma voz de comando civil. À qual, não por comando militar, acharam por bem obedecer. Mas, uma coisa é certa: se Estado brasileiro já não houver, cidadãos brasileiros não mais haverá, pois quem concede e garante a condição de cidadão ao indivíduo é o Estado, nada e ninguém mais, muito menos um Governo. E, não havendo Estado, não haverá por que haver FFAA. Nem haverá por que haver Soldados inspirados em Caxias. E de nada nos servirá chamar de Soldados e adestrar, mal ou bem adestrados, e manter financeiramente, bem ou mal mantidos, indivíduos que carregam armas inadequadas, cujos tiros lhes saem pela culatra, e arrastam um espírito que, por ser inservível ao Estado, permitiu que este se visse inerme e, não só, mas também por isso, perecesse. Por outro lado, não é possível que os vencimentos dos Soldados sejam tratados como se fossem uma espécie de “Bolsa Caserna” entre as instituídas pelo revolucionário programa de concessão de bolsas do Governo da República que, sendo o que é, por razões óbvias, quer que a população confunda aceitar receber “bolsas” e “cestas básicas” com assumir algo semelhante a dignidade.  

 

     Devemos, sim, todos nós, lamentar a perda dos valores intrínsecos da nacionalidade brasileira e o fracasso dos projetos nacionais, devemos incentivar a denúncia dessa perda e procurar compreender as razões desse fracasso, e reagir a elas com firmeza e decisão e tentar recuperar o nosso Estado; mas isso exige inteligência e organização, e não será protestando nas ruas, implorando atenção de… de quem? das “autoridades”?… que recuperaremos valores ou (re)formularemos projetos nacionais e salvaremos o que nosso deve ser. Nada nos obrigará (ou obrigará o Estado, portanto) a, em processo semelhante, tratar a expectativa de alguém ou de todos e cada um com relação a uma carreira pessoal livremente escolhida como um desses valores, ou a confundir com um desses projetos o adequado ajuste do valor de serviços particulares contratados a curto ou a longo prazo. Não será dever do Estado, portanto, patrocinar indivíduos quaisquer porque a estes lhes atraem usar uniformes, executar serviços técnicos e burocráticos, gozar de instalações esportivas ou experimentar emoções radicais; nem será seu dever cuidar para que nunca se frustre quem sirva a qualquer uma das Armas nacionais que servem ao Estado e, pelas boas, decidiu servir como se fosse funcionário de uma empresa ou de uma fictícia governança supranacional.

 

     Mas é exatamente isso, apenas isso, nada mais que isso o que mais uma rebeldia sem causa e mais um denuncismo sem projeto promovem e incentivam. E, assim sendo, não se justificam a promoção e o incentivo. Muito menos se justificará qualquer lamento da tropa fardada, que será mais um que se junta, em uníssono, aos demais lamentos particulares que ao mesmo e único ponto sempre nos levaram e nos vêm levando – ao nada. 

 

     Pois é. E assim é. Pelo menos é o que eu acho que é, e só acho e só digo que acho porque todo mundo ainda pode achar e vem achando o que bem entende. Mesmo que as FFAA sofram porque o orçamento militar mais uma vez se viu roído por outros setores em nome de outras prioridades públicas ou particulares, eu cá duvido e faço pouco de que alguém possa encontrar no “post” de Ricardo Setti qualquer razão para respeitar nossos Soldados como Soldados inspirados em Caxias. Pior, bem pior: muito menos alguém de bom juízo encontrará razão alguma para tanto seja no primeiro ou no segundo textos aqui transcritos. São manifestações verbais que apenas refletem como pode ser fantasiada e mais ainda maltratada uma realidade já muito e muito infeliz – a realidade que é a de todos nós. Que os Soldados de fato inspirados em Caxias não mais encontram meios de tentar resolver.

 

     E muito pior, ainda: nenhum dos textos aqui postos em epígrafe evitará que alguém possa interpretar que o Congresso Nacional, ao não ter ainda proposto extinguir as Forças Armadas em uma só canetada, e não aos poucos, tal como a própria Instituição vem fazendo em suicídio lento, apenas esteja contribuindo para consagrar, sem pompa, sem fanfarra e sem palanque, um Governo irresponsável e uma “categoria de funcionários” que lhe parece interessante e confiável, embora esta se considere injustiçada com o pouco que recebe em comparação com o muito que se empenha para que, conforme se confirma no discurso do Comandante do Exército, um Brasil efetivamente “de todos”, não mais dos brasileiros, torne-se uma realidade irreversível. Que ninguém possa supor e decida afirmar que isso acontece por respeito ao vulto de Caxias, ao vulto de qualquer um dos Patronos das Armas nacionais ou ao de seus Soldados.

    

   

  

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

Cuba lança

31.jul.2013 – Com boina e charuto cubano, médico participa de protesto no centro

de Florianópolis (SC), nesta quarta-feira (31), contra a contratação de profissionais

estrangeiros – Hermeto Garcia/Futura Press

 

 

      Há exatos dois anos, o “Diário de Notícias” de Lisboa publicava o seguinte:

 

 

“Bastonário da Ordem dos Médicos: Utentes satisfeitos com médicos cubanos ‘incompetentes’ – por Lusa, 07 agosto 2011

José Manuel Silva voltou a lamentar a falta de “competências adequadas” para exercerem a função

O bastonário da Ordem dos Médicos acredita que os utentes tenham ficado ‘satisfeitos’ com a chegada, há dois anos, dos médicos cubanos a Portugal, mas voltou a lamentar a falta de “competências adequadas” para exercerem a função.  ‘São médicos indiferenciados sem a especialidade de medicina geral e familiar, que em Portugal tem quatro anos de curso’, explicou à agência Lusa José Manuel Silva. De acordo com o bastonário é necessário que esses clínicos tenham ‘competências específicas porque têm que lidar com situações que vão desde o planeamento familiar à obstetrícia, à pediatria, à geriatria e ao estudo e acompanhamento das famílias’. ‘Naturalmente os cidadãos que receberam os médicos estrangeiros ficaram satisfeitos. Porque até aí não tinham médico e passaram a ter. Não com as competências adequadas e desejáveis, mas passaram a ter um médico’, acrescentou. O primeiro grupo destes médicos cubanos chegou a 08 de Agosto de 2009, no âmbito de um contrato celebrado entre os governos de Portugal e de Cuba, para prestar cuidados médicos em centros de saúde no Alentejo, Algarve e Ribatejo. ‘A Ordem dos Médicos defende que todo o cidadão português tem direito a ter acesso a um médico. O que quer é que tenham acesso a um médico com especialidade. Não tem a ver com a nacionalidade. Não há qualquer tipo de xenofobia’, afirmou o bastonário, sublinhando que ‘dez por cento dos médicos a trabalhar em Portugal são estrangeiros’. José Manuel Silva considerou que o principal erro do anterior Governo foi ter importado activamente médicos do estrangeiro para desempenharem ‘funções para as quais não estão preparados’.(http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1947638)

 

   

      Então é isso: apesar de que médicos cubanos não tivessem chegado com as competências adequadas e desejáveis… os cidadãos d’além mar se puseram satisfeitos com a chegada dos médicos cubanos. Isso porque… bem, porque até ali não tinham médicos. E passaram a ter. Médicos são necessários.

 

      E, então…? Quem, exatamente, será contra a “importação” de médicos de Cuba ou de Cucuí de las Palomas ou dos raios que nos partam, os que o Brasil decidiu contratar de acordo com uma “vontade política” do Governo? E por que alguns se recusam a aceitá-la? Porque eles não sabem falar o Português-do-Brasil? Porque, sendo cubanos, esses médicos terão nascido na propriedade particular de Fidel e com sua bênção se terão criado? Porque Cuba lança sobre nós, como um míssil, seus agentes especializados em doutrinação comunista e agitação revolucionária travestidos de doutores em Medicina, em “missão”, à semelhança de uma “missão francesa” que já tenhamos acolhido, e correremos o risco de que eles façam nossas cabeças?

 

     Vejamos: os médicos brasileiros que fazem da profissão um sacerdócio (tal como fazem, da deles, os bons Soldados) não hão de querer assistir a uma invasão de médicos alienígenas que pretendam “fazer o Brasil” (a exemplo dos muitos que “fizeram a América”), sejam eles cubanos, mexicanos, havaianos… ou marcianos, pouco importa. E muito deverão temê-la, pois a contratação de profissionais suspeitos por métodos suspeitos poderá incluir os muito incompetentes. Há ainda o risco de nivelá-los, todos, por baixo, tal como as Escolas todas nos vêm nivelando, em virtude de que um título obtido sabe-se lá por quais critérios valerá ao leigo tanto quanto um título das nossas mais rígidas Universidades (mas isso ainda existe por aqui?); e presumirá, de todos, semelhante grau de conhecimento – tal como já acontece, há muitas e muitas décadas, com muitas das profissões que lidam diretamente com o público ou não, inclusive na área da Educação, e assim faz-se o desastre nacional. Os médicos brasileiros que fazem da profissão um sacerdócio deverão, assim, também temer que se desmoralizem todos os cursos de Medicina nacionais e, pior, o próprio exercício da Medicina. Mas não serão médicos cubanos os que, por si sós, farão cabeças que já vêm sendo feitas faz tempo. 

 

     Os Conselhos Regionais de Medicina não hão de querer, tampouco, médicos “importados”. O presidente do CRM-MG, por exemplo, já declarou que os médicos brasileiros “não devem corrigir o que o estrangeiro fizer de errado”. Declarou ainda: “Vou orientar meus médicos a não socorrerem erros dos colegas cubanos”; e, apesar de que os reconheça como “colegas”, pretende denunciá-los por exercício ilegal da profissão, decisão essa que justifica: “O papel do CRM é fiscalizar a medicina, não fazer politicagem para que prefeitos sejam eleitos“(http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2013/08/23/nao-serei-preceptor-de-medico-estrangeiro-diz-presidente-do-crm-de-minas.htm). Muito bem. Terá ele também recomendado a “seus” médicos que deixem morrer no mato ou sentados nas calçadas em frente às clínicas e aos consultórios quem tiver sido vítima de qualquer barbeiragem cometida por quaisquer médicos brasileiros incompetentes (também existem!) ou quem tiver sido vítima de omissão de socorro em tempo hábil?

 

     Os que fazem de sua profissão, qualquer que seja ela, um bom negócio, um instrumento adequado à conquista de uma cota de fiéis consumidores de suas habilidades, também verão, por certo, na “importação” de profissionais gabaritados no exterior uma ameaça ao seu cotidiano gargarejo dedicado aos que podem comprar o mesmo viscoso e ardido produto de pessima qualidade rotulado de “liberal-democrático”, que perfuma o hálito e também vem sendo importado em maior ou menor quantidade conforme as conveniências de cada um de nossos sucessivos Governos

 

     O inteiro povo brasileiro não deveria aceitar médicos “importados”. Não deveria… caso contasse com serviços de qualidade em quantidade suficiente oferecidos pelos médicos nacionais. E não deveria aceitar os “importados” principalmente porque deveria temer que a demagogia e o proselitismo ideológico do atual Governo – que, como seus antecessores, há anos-luz deveria estar preocupado com a Saúde nacional tanto quanto se mostra preocupado com a (re)eleição – mais uma vez substitua a atenção devida a esse setor vital à Nação que há anos-luz se vê abandonado. O povo teme que isso aconteça? O povo tem alguma idéia do que seja proselitismo ideológico? Ou apenas teme o que conhece e apenas conhece o que é tentar sobreviver sem contar com a assistência do Estado?

 

     O inteiro povo brasileiro não deveria aceitar a “invasão” proporcionada pelo Governo porque deveria ter, antes, exigido e, hoje, ainda estar exigindo que médicos brasileiros de fato dedicados e competentes fossem formados por nossas Universidades e que eles estivessem presentes em ambulatórios e Hospitais de qualidade que cobrissem inteira e eficientemente todo o território nacional, nos quais não faltassem medicamentos, nem instrumentos, nem vagas, nem enfermeiros qualificados. O povo exigiu isso? Exige isso? Alguém o exige ou antes vinha exigindo em seu nome?

 

     Se isso nunca foi exigido e só agora o povo passou a exigir mais médicos, e apenas médicos, sem mais, sabe-se lá movido exatamente por quê (poderia perfeitamente estar exigindo mais pajés…), explica-se, por si só, como e também por que só agora o Governo se preocupa com isso e como e por que, agora, essa novidade, e só ela, a da “importação” de médicos, pode ser vendida livremente ao público interno e ao mundo que nos observa atentamente (?) como sendo a mais capaz de resolver um problema estupidamente velho, obeso, paralítico e desmemoriado que conosco vem convivendo, às nossas custas, sob nossas responsabilidade, na mais perfeita paz. Foi, de repente, encontrada a mezinha,  a receita mágica daquilo que mais permite que sejam obtidos os mais amplos benefícios no mais curto prazo possível. Benefícios ao… Governo.

 

     E, então? Precisamos, mesmo, de pesquisar estatísticas publicadas por qualquer Organização Mundial de Saúde para constatar a miséria em que se encontra a Saúde nacional? Ou ela nos salta aos olhos? Para o preenchimento das vagas hoje ditas disponíveis aos médicos “importados”, foram oferecidas condições ao exercício da boa Medicina? A inscrição dos médicos brasileiros foi garantida? Essas vagas não foram preenchidas por quê? Todos os interessados tiveram acesso às inscrições? O que se viu foi que a ninguém elas apeteceram? Ou o que se viu foi uma “confusão” proposital que tão bem caracteriza todos os procedimentos neste País? Os médicos “importados” possuem “competências adequadas e desejáveis” já apontadas como necessárias, há dois anos, pelo Bastonário da Ordem dos Médicos portuguesa? Quem as garante? 

 

     Caso todos se submetam ao REVALIDA, e caso esse REVALIDA seja de fato levado a sério, pouco importará à população brasileira ou mesmo aos médicos brasileiros de onde tenham sido “importados” os médicos que nos sejam necessários. A população terá médicos, o que até aqui não teve. Ou, afora os das demais procedências, 4.000 médicos cubanos serão dispensados desse exame e entrarão pela janela no SUS porque cubanos são? Estamos contratando médicos porque os que temos não nos são suficientes, porque nossos médicos não querem ser médicos, ou apenas colaboramos com aliviar os problemas crônicos de uma ilha “santa” que sofre com uma superprodução de “semimédicos” que terminam por se ver ociosos? Esses médicos cubanos não nos estarão caindo de paraquedas como marias-candelárias apenas para que o Governo de Fidel-companheiro receba, de nós todos, alguns cobres a mais? Sendo assim, que fazer para resolver com seriedade e competência a amargo estado de indigência da Saúde nacional (em sentido estrito e amplo)?

 

     Essas são as questões a discutir, essas todas, e só essas são as questões a discutir. Nenhuma outra questão se levanta. Não são questões de ordem corporativa – são questões de ordem nacional. Questões que, no fim das contas, resumem-se a uma única – a última que aqui foi enunciada – que, não sendo enfrentada e resolvida, não permitirá que qualquer outra o seja.

 

     Ou, melhor dizendo, há mais uma, uma só, que não é exatamente a mais importante, mas não deixa de ter importância: a de como fugir de ter que “pagar o mico” – porque a quantidade de “micos” já pagos, francamente, ultrapassou os limites aceitáveis, faz muito tempo.

 

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CRM de Minas diz que vai orientar médicos a não socorrerem erros de cubanos

Do UOL, em São Paulo

23/08/201314h23 > Atualizada 23/08/201314h57

O presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG), João Batista Gomes Soares, declarou à imprensa nesta sexta-feira (23) que pretende denunciar os médicos cubanos por exercício ilegal da profissão. Ele chegou a dar uma declaração que gerou polêmica: “Vou orientar meus médicos a não socorrerem erros dos colegas cubanos”, disse o médico ao Estado de Minas.

Ele tem noção de que sua frase repercutiu bastante, mas que não tem nenhum receio ou arrependimento da declaração: “O papel do CRM é fiscalizar a medicina, não fazer politicagem para que prefeitos sejam eleitos”, disse ao UOL.

Também esclarece que sua frase serve para médicos estrangeiros em geral, e não só para os que vierem de Cuba. “Foquei nos cubanos porque serão 4.000. Eu não vou pegar um médico estrangeiro e orientá-lo. Minha obrigação é com paciente. E se o prontuário estiver com erros, por exemplo? Também não vou entrar em cirurgia com eles. Não vou ser preceptor de médicos estrangeiros”.

Soares alega que o governo autorizou a atividade desses profissionais sem que eles passem pelo processo de revalidação do diploma estrangeiro e pelo exame de proficiência em língua portuguesa. Comentou, também, que se o governo insistir nas contratações, o tema se tornará caso de polícia.

O presidente do CRM de Minas também diz que sua orientação para todos os médicos mineiros é a mesma: eles não devem corrigir o que o estrangeiro fizer de errado. “Temos obrigação apenas com o paciente”.

Como os primeiros médicos estrangeiros chegam hoje a várias capitais, inclusive Belo Horizonte, Soares diz que já agendou a ida de um fotógrafo para documentar a chegada do grupo.

“Os conselhos regionais de medicina do país inteiro compraram esta briga. Que venham os estrangeiros, só queremos que façam o Revalida. Se passarem ou não, problema deles”, diz. “Nós temos de obedecer a lei e isso que estão nos impondo é uma medida provisória”, encerra.

    

   

  

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
 
 
 
 
AMARILDO 2

   

  1. “Corruptela” (ou “corrutela”, conforme os neolingüistas possam preferir), substantivo feminino, significa: um ato, um processo ou um efeito de corromper(-se); o que corrompe ou pode ser corrompido; alteração ou perda de qualidades originais de algo; desvirtuação, abuso; CORRUPÇÃO (ou, alguém querendo, “corrução”…); pronúncia ou escrita de palavra, expressão etc. distanciada de uma linguagem com maior prestígio social. Assim é porque assim nos dizem os dicionários.

 

      Mas nem tudo os dicionários nos dizem.

 

      Em uma Sociedade contemporânea qualquer, não apenas na nossa, setores ou indivíduos “com mais prestígio social” não serão necessariamente os mais refinados ou os mais inteligentes e mais capazes. E visto, ouvido e conferido está que uma “linguagem com mais prestígio social” não significará qualquer linguagem “clássica”, mais “erudita” ou “sofisticada”, que necessariamente fosse utilizada em ambientes sociais freqüentados por indivíduos política e economicamente privilegiados. “Linguagem com mais prestígio social” será apenas um eufemismo (ou será uma corruptela?) com o qual, de uns tempos para cá, os tolerantes com os erros cometidos contra a nossa linguagem vêm designando uma linguagem correta tentando socialmente desqualificá-la – o que resulta no prestígio que se empresta a uma linguagem troncha, desestruturada, que colabora com (usando aqui o jargão acadêmico “engajado”) a “desconstrução do discurso dominante” para que se atinja a “democracia radical” em todos os espaços sem fronteiras linguísticas, emocionais, econômicas, geopolíticas e administrativas.

 

  2. Qualquer Sociedade, da mais rudimentar à mais sofisticada, terá regras, sejam escritas ou não, sejam mais ou menos apuradas e rígidas – as que definem e estabilizam as relações entre os indivíduos, os grupos, os fatos, as coisas. Não por isso impedirão a mobilidade social. Qualquer linguagem, da mais rudimentar à mais sofisticada, também terá regras, escritas ou não. A precisão e a excelência da comunicação e do entendimento do que é certo e do que é errado socialmente (o que dispensa solenemente o vazio pernosticismo acadêmico) estarão no bom recurso à linguagem. O bom enunciado, a boa compreensão e a boa crítica tanto das regras sociais quanto das críticas que a elas sejam feitas permitirão o bom enunciado, a boa compreensão e a boa crítica das relações e do nexo, existente ou inexistente, entre palavras, frases, pessoas, lugares, coisas, conceitos, símbolos, significados… Uma linguagem não será mais bela ou mais eficiente à comunicação quanto mais frouxa, desestruturada, reduzida e improvisada for, muito pelo contrário: quando a linguagem não é precisa, a comunicação apenas provoca confusão, desordem e danos à coletividade.

 

      Embora haja setores da nossa Sociedade que pretendam limitar a educação popular a uma decoreba de pragmáticos manuais que “ensinam” métodos e meios de protesto, “ensinam” meios e métodos de uso e fruição e “ensinam” a ler instruções e a apertar botões, esses manuais não prescindem da linguagem. E esta linguagem não educa, apenas permite educar (ou deseducar) – ela é o que transmitirá conteúdos, significados e modelos de comportamento, sejam contra ou a favor de qualquer coisa, inclusive contra o tal discurso considerado “dominante” que, segundo alguns, deve ser “descontruído” para que tudo se “desconstrua”.

 

  3. A linguagem não é uma arte, não é uma filosofia, não é apenas um conjunto de sons e caracteres gráficos, nem é instrumento de libertação ou de dominação – a linguagem é uma técnica por meio da qual se permite e se produz a comunicação. Mesmo a dita linguagem poética será uma técnica, não pura invenção ou pura inspiração, que exige o conhecimento dessa técnica para ser percebida e compreendida. A linguagem será importante, portanto; mas só será importante se a comunicação for considerada importante, pois ela é fundamental à comunicação. Nada mais que comunicação uma linguagem permitirá e produzirá (ou não produzirá e não permitirá). Portanto, também, ela será um meio pelo qual se amplia ou se reduz a compreensão das relações entre palavras, frases, pessoas, lugares, coisas, conceitos, símbolos e significados. Amplia-se essa compreensão se e quando o cérebro do indivíduo tenha sido bem nutrido de proteínas, bem expandido e bem formado. Uma linguagem não promove, por si mesma, a nutrição, a formação ou a capacidade de qualquer inteligência. Mas, sem ela, o conhecimento não se acrescenta e a inteligência não se desenvolve.

 

      Uma linguagem é uma técnica que estará ao alcance de todos – basta-nos que tenhamos escola; e é o único meio que também permite que todos e quaisquer assuntos sejam compreendidos e discutidos criticamente – basta-nos que tenhamos senso crítico e o apuremos. Uma linguagem, por si mesma, nunca regride. Ela avançará, sem que se altere, sempre em seus limites formais, para acompanhar o dinamismo técnico-tecnológico que determina a obsolescência de algumas coisas e de alguns nomes; ela avançará para não estagnar e não se ver defasada e inútil. Se avança é porque se aprimorou, não porque terá regredido e se desestruturado. Se regrediu ou desestruturou-se, foi porque quem a utiliza retrocedeu no tempo, no espaço e/ou na capacidade mental.

 

  4. Certo é o que faz o bem e errado é o que faz o mal. E o bem e o mal são percebidos na carne muito antes que sejam elaborados no espírito. Uma Sociedade desregrada ou que, a cada momento, improvise regras conforme o interesse de alguns determinados grupos não será, “por sua própria natureza”, mais “científica”, mais inteligente, mais refinada ou mais justa e mais democrática que uma Sociedade que bem defina, bem enuncie, persiga e acuda suas necessidades, e que bem defina, bem enuncie e faça observar os limites da liberdade de todos e dos direitos de cada um. Como os interesses imediatos presentes em uma Sociedade são vários e muitas vezes antagônicos, os meios para que a Sociedade atinja certo equilíbrio que a todos convenha lhe são dados pelo Estado, que é uma organização política, pelas Instituições do Estado, que são públicas, das quais uma Sociedade bem formada não poderá prescindir, e pelas Instituições da própria Sociedade, que são particulares, cujas regras no que se refere ao seu alcance público o Estado definirá. Não haverá conflitos entre uma Sociedade bem formada e um Estado bem formado. Somente haverá conflitos entre uma Sociedade e um Estado mal formados.

 

  5. As Instituições colaboram (ou devem colaborar) com o aperfeiçoamento e a adequação da Sociedade aos desafios que lhe são colocados. A Imprensa e a Escola, especialmente a Universidade, são algumas dessas instituições à disposição da Sociedade.

 

      Se a lógica, o instrumental e o método que as impulsionam por vezes se assemelham, há um abismo entre o conteúdo das “ciências físico-químicas e experimentais” e o das “ciências sociais”, e há uma diferença fundamental na forma como evoluem. As primeiras evoluem a cada nova constatação de fenômenos e processos específicos em cada área em que são divididas; algumas dessas “descobertas”, corretas ou não, suficientes ou não, hão de nos parecer “definitivas” e, considerando-se o curto tempo da humanidade e o da coexistência de gerações, “imutáveis” na estrutura do universo. Transformam-se em “verdades estruturais” e dão oportunidade a que se construam modelos ou paradigmas – que não tolherão, no entanto, o desenvolvimento das pesquisas e permitirão novas descobertas, novas “verdades” e que novos modelos sejam elaborados como mais adequados à realidade. O próprio aprofundamento dessas “verdades” suscitará tal fenômeno. Se assim não fosse, hoje estaríamos ainda celebrando os modelos sugeridos por Copérnico ou Galileu ou qualquer outro modelo entre os que os precederam.  

 

      As “ciências sociais”, por sua vez, apenas evoluirão caso sejam capazes de considerar as alterações que se dão constantemente no “humor” da natureza social em virtude das mudanças nas condições objetivas e subjetivas dos indivíduos em sociedade, “humor” esse que será fortemente influenciado por decisões de curto alcance tomadas por Governos, pela propaganda, por interesses e conflitos de diferentes ordens. Elas não lidam com coisas, lidam com gente. Para essas “ciências”, o conjuntural ganha tanta ou mais importância que o estrutural. Não haverá (ou é bom que não haja) quaisquer “verdades científicas universais e absolutas” a orientar análises e pesquisas sociais (tais como são as que apoiam políticas públicas), mesmo porque nenhum “cientista” da área terá sido ou será capaz de considerar uma totalidade social em todos os seus detalhes, muito menos considerará todas as intenções que movem os indivíduos; porque todos esses “cientistas” serão influenciados por sua própria história particular e por aquele “humor social” (ou não serão humanos, serão “deuses”); porque o que é particular ao indivíduo ou a um grupo não poderá ser alegremente generalizado ao universo.  

 

      Haverá, no entanto, um princípio a definir-se (e, ao defini-lo, estará imediatamente definida uma noção de moralidade) e a fixar-se como definidor de uma linha de raciocínio; haverá um campo a delimitar; haverá um problema a enunciar; haverá conceitos a discutir; haverá lendas a descartar; haverá observações sobre o que não foi observado; haverá novas considerações sobre elementos que já possam ter sido por alguém, algum dia, considerados; haverá uma infinidade de fatos havidos a incluir nessas considerações; haverá opiniões, que poderão acrescentar-se às anteriores já consagradas, que poderão mantê-las ou derrubá-las enriquecendo (ou não) o conhecimento. Haverá muito trabalho a fazer, não apenas trabalhos já feitos a pura e simplesmente compilar e classificar, forçando a que tudo caiba, idealmente, de um jeito ou outro, em um único e mesmo processo definido, algum dia, por alguém já afastado da realidade no tempo e no espaço. O que não se confunde com qualquer “relativismo cultural”, que apenas exige idealizar, interpretar e qualificar tudo e qualquer coisa como bom, válido e correto, por mais errado e inadmissível que se demonstre, porque qualquer coisa e tudo será “relativo”…  

 

  6. A respeito da realidade social, quaisquer opiniões e quaisquer conclusões poderão ser contestadas e/ou coonestadas, a qualquer tempo. Devem ser contestadas ou coonestadas, porém, com apoio em fatos e decorrentes considerações. E essa discussão só fará bem ao pensamento. Mas, por exemplo, quando um Professor universitário vem a público contestar e desqualificar um de seus pares – seja o que for que este tenha dito em algum texto publicado, esteja o que estiver certo ou errado – argumentando literalmente que tolerância tem limites e que uma opinião não poderá ser contrária à de “pensadores como Noam Chomsky, Boaventura de Sousa Santos, Ferreira Gullar e dezenas de outros” pois, além de ofendê-los diretamente, “ofende indiretamente os leitores”, alguma coisa estará muito errada na Universidade. E na Sociedade. Isso se chama censura intelectual. E, pior: essa “crítica” exige autocensura, tal como a Igreja, julgando-se dona absoluta dos conceitos do certo e do errado, exigia dos pensadores da Idade Média.

 

      Se os acadêmicos citados “e dezenas de outros” que os seguem exigem, porque lhes é dado exigir, que suas idéias e opiniões sejam tratadas como “verdades absolutas”, não serão aqueles que a eles se opõem de uma forma ou outra, mas sim eles mesmos, esses acadêmicos autoritários e seus seguidores reacionários, os únicos que deverão ser censurados. Ou não? No exemplo dado, não se trata do cerceamento de uma ação – trata-se de uma questão prévia a qualquer modelo supostamente democrático: a de se nos será permitido pensar livremente ou não, a de se é ou não possível e permitido que alguém ouse pensar qualquer aspecto da vida social usando um quadro de referências que não seja o oficialmente recomendado e, assim, ouse contribuir com o avanço da qualidade do pensamento social. Somente em seguida virá a questão de se nos será permitido enunciar o pensamento ou não, esta, sim, uma questão que diz respeito a qualquer modelo concebido como virtualmente democrático.

 

  7. Não é possível imaginar que a Universidade, local virtual de produção de pensamento, estimule a produção de um manual de perguntas permitidas e respostas prontas. Em geral, qualquer afirmação bem estruturada a respeito de qualquer fato, fenômeno ou processo despertará, em qualquer inteligência mediana, a curiosidade e levará a que perguntas sejam feitas. Dar respostas não absurdas ou contraditórias exigirá alguma reflexão. As “verdades absolutas”, porém, hoje pululam, como sempre pulularam, não só na Academia como na Imprensa. A linguagem que deve ser utilizada nessa discussão (se ela nos for permitida), porém também, não compromete o conteúdo, não se altera em sua estrutura ou nada será dito ou compreendido.

 

      Da mesma forma como improvisações, invenções informais e/ou tribais nunca substituirão com vantagens quaisquer as instituições de um Estado bem estruturado – bem plantado em seu território, com sua Sociedade bem formada –, improvisações e invenções fonéticas e/ou gráficas não substituirão, jamais, uma linguagem bem estruturada. O incentivo às invenções e às “colagens” verbais supostamente substitutivas de uma linguagem correta, incentivo este que se faça sob a suposição de que, com ele, serão incentivados a criatividade e o saber populares, não nos trará, jamais, qualquer vantagem comparativa ou qualquer melhor inserção em qualquer utópica “nova sociedade internacional” na qual vantagens comparativas não sejam consideradas.

 

  8. Qualquer animal, assim como qualquer ser humano, será capaz de reconhecer um inimigo, liderar seus iguais, submeter-se à liderança, competir, enfurecer-se, acomodar-se, querer, recusar, temer, avançar, arriscar, dependendo do estímulo a que se veja sujeito. O entretenimento é um dos fatores capazes de estimular emoções. Embora qualquer manifestação animalesca possa transmitir emoções ou intenções, grunhidos não substituem palavras e caretas, sorrisos, lágrimas e gestos estereotipados não substituem frases bem concebidas. Dar publicidade à ignorância, porque ela convém ao livre comércio de bens e serviços, e à violência, real ou encenada, porque convém que não haja restrições a esse comércio, não significa nem substitui a transmissão de conhecimentos ou a crítica da ignorância ou da violência real ou encenada – serve apenas a que um público em tese já civilizado se habitue a conviver com a ignorância e a violência, reais ou encenadas, e as assimile e incorpore às suas ações e reações possíveis porque estarão “legitimadas”.

 

      Se a ignorância e a violência entretêm, não é porque convenham ao entretenimento – é somente porque convém a alguns setores da Sociedade que a publicidade da ignorância e da violência entretenha um público de qualquer faixa etária de qualquer classe social. Produzir essa espécie de entretenimento servirá apenas para desvirtuar as emoções e canalizá-las à obtenção de determinados objetivos cuja discussão não se colocou e não se coloca ao acesso do público.   

 

  9. Da mesma forma como o resultado de uma emoção ou de uma intenção não se sobreporá com quaisquer vantagens ao resultado da equação racional de qualquer problema que se queira resolver e/ou ao de qualquer atitude racional no sentido de resolvê-lo, não bastará, ao povo, desqualificar os setores “socialmente” privilegiados ou denunciar aos gritos e aos trancos quem os compõe – é vitalmente necessário que se encontre um conjunto de regras que seja adequado à Sociedade e observá-lo. Observá-lo estritamente. O que não implica conferir plenos direitos a todos e cada um.

 

      Se o problema em pauta é o de que alguns indivíduos e alguns setores sociais gozam de extraordinários privilégios, em detrimento de outros setores que se sentem discriminados, esse problema tem origem em que aventureiros ignorantes e incivilizados, muitas vezes criminosos, puderam se utilizar da comunicação, convenceram um público mais amplo ou menos amplo, foram e são bem sucedidos na Política local e/ou na sua atividade econômica, formaram grupos, Partidos, Governos, legislaram, julgaram e, assim, no processo, puderam esboçar e delimitar em seu exclusivo proveito as relações em Sociedade – o que provoca, ao povo inteiro, seja qual for a arquitetura da Sociedade, prejuízos incalculáveis. O que mantém as relações em Sociedade dessa forma delineada e desvirtuada é a tolerância com a inobservância das boas regras, as que estivessem bem definidas por escrito ou gravadas nos costumes em um processo que permitisse seu aprimoramento e o desenvolvimento social no sentido do bem estar geral.

 

 10. A maior ou menor tolerância com opiniões contrárias ao que cremos ser “a verdade” social indica o quanto somos ou não somos civilizados e o quanto somos ou não somos conscientes e seguros da pertinência de nossos objetivos e nossas expectativas. Mas querer conferir “direitos humanos” a criminosos e a aventureiros não justifica emprestar-lhes algum saber superior, boa índole ou tolerar seus mal feitos. O tolerância com os objetivos de aventureiros não mais que uma aventura é – é confiar no incerto e não sabido. Já a tolerância com criminosos é o mesmo que a conivência com o crime – então, crime é.

 

      A tolerância excessiva com o excesso de erros cometidos contra nossa linguagem poderia ser classificada como um pecado. Pecado não é crime, apenas pecado é. E crime é crime. De acordo com um exemplo ilustrativo do uso que se dá ao termo “corruptela”, exemplo este encontrado no Dicionário Aulete da Língua Portuguesa, “pecado não é coisa alguma nem substância, mas é efeito e corruptela”. Já crime, além de ser alguma coisa muito bem definida, além de ser efeito, de ser causa e de ser corruptela (ou seja, desvirtuamento, corrupção – o criminoso é um corrompido socialmente), será também substância. Assim sendo, o que diferiria um crime de um pecado seria a existência de substância.

 

      Ignorância nem é pecado nem é crime, mas é causa e é efeito. Crime será valer-se dela e perpetuá-la por conveniência. E os efeitos da ignorância se mostram materialmente – são, então, inequivocamente, substância. Sendo a corrupção uma desvirtuação do correto e sendo um crime, a tolerância excessiva com o excesso de erros contra nossa linguagem poderá, então, ser classificada não só como um pecado mas também como um crime. Se essa tolerância tem por motivo a ignorância popular generalizada, mantida pela falta de boas Escolas e de bons Professores, terá por pretexto a “vontade política” de que uma linguagem errada não seja considerada como ignorância e, assim, não seja envergonhada. Mas ignorância ela é, pouco importa se é ignorância muito lapidada – muitos diplomados não conseguem encontrar qualquer razão para que haja um nexo entre sujeitos e predicados – ou ignorância tosca. E essa ignorância não apenas faz que nossa linguagem seja inteiramente corrompida – ela potencializa a ignorância a respeito de todos, tudo e qualquer coisa, uma vez que uma linguagem corrompida permitirá uma comunicação corrompida e não facilitará a compreensão, pelo contrário, apenas a corrompe e a reduz. Essa tolerância não será um pecado ou um crime exata ou exclusivamente contra a linguagem, mas contra a Sociedade, contra o próprio povo.

 

 11. Se observamos que alguns setores sociais falam e escrevem de forma afetada ou de forma grosseira, reduzida, insuficiente ou inútil, reduzindo ao mínimo os assuntos extremamente graves e complexos que devem ser permanentemente discutidos pelos mais qualificados para que se busque resolvê-los da melhor forma e para que a Sociedade evolua, como um todo, a um ponto em que todos se sintam e sejam de fato responsáveis por todos, é porque as regras sociais privilegiam alguns desses setores e discriminam outros muitos, e é porque convém aos setores privilegiados que os discriminados sejam discriminados – não porque apenas alguns poucos tenham nascido mais iluminados. Alegadas “dívidas históricas” não se resolvem definindo-se que todos merecem fazer o que bem entendem ou que apenas alguns merecem impor o que mais lhes convenha. O que determina essa distorção é nada mais que a alteração, o abuso, a desvirtuação do melhor conceito de Estado, a perda de suas qualidades originais, a sua absoluta corrupção. E, corrupção, bem sabemos, é crime. Pelo menos por enquanto ainda não foi formalmente descriminalizada.

 

 12. “Cadê”, termo de uso bastante antigo, mas que já vem sendo grafado “popular e democraticamente” nos cartazes e nas pichadas dos muros como “KD”, é uma corruptela de “que é de” (pronome interrogativo + verbo + preposição), já omitido o 2º termo da locução verbal; ou seja, será corruptela de “que é feito de” alguém ou alguma coisa. “Cadê” substitui “onde está”. Na linguagem coloquial, seu uso será perfeitamente consentido, mas nenhuma gramática, apenas a ignorância e o pouco caso dedicado às formas corretas justificarão grafá-lo – e, como qualquer som, permitirão sua grafia de qualquer jeito, tal como se dá com qualquer som corrompido ou com qualquer onomatopéia, enquanto seu significado se firma, com o uso intensivo, emprestando consistência a uma busca por algo que se encontre fora das vistas. No momento, o “cadê” levado às ruas reforça a necessidade de uma busca por alguns e algumas coisas que alguns, que nenhuma regra observam, já observaram ou pretendem observar, reclamam e aproveitam da forma que mais lhes seja conveniente. Se o povo repete a pergunta “cadê” alguma coisa ou alguém, pergunta que por alguém terá sido sugerida, isso significa, inequivocamente, que há um interesse geral em que seja conhecido o que foi feito dessa coisa ou desse alguém. Não significará, porém, que esse interesse deva ou possa ser substituído por histeria ou por violência. Nem significará que o povo, de repente iluminado, esteja pretendendo conhecer qualquer “verdade absoluta” a respeito de qualquer assunto.

 

 13. O povo que reclama liberdade, participação direta na Política, segurança, escolas, estradas, hospitais… não deveria estar perguntando “cadê os meios”, “cadê o objetivo”, “cadê o esclarecimento”, “cadê a solução”, “cadê o projeto”, “cadê a educação”… “cadê a inteligência”…? Essas perguntas nunca foram às ruas, nelas não estão, e nem tudo o que desapareceu é ou quer ser reclamado. As manifestações populares que levaram às ruas cartazes com essa pergunta “cadê” referindo-se seletivamente a algumas coisas e alguns indivíduos, quando outras coisas e outros indivíduos são “esquecidos”, porque “não importariam” ao público ou porque “merecem” não ser lembrados, serão não mais que uma corruptela (uma corrupção) intelectual e material de manifestações políticas em que, em tese, pudesse estar sendo reclamada alguma decência a ordenar o Estado brasileiro e fossem minimamente válidas à Sociedade.

 

      Muitas atitudes descontroladas nas últimas manifestações “populares” colaboraram com que os ânimos se acirrassem, alguns indivíduos foram feridos, alguns prédios públicos foram depredados; nada foi proposto ou se obteve de concreto, exceto um recuo de alguns centavos no preço do transporte, o constrangimento de três ou quatro indivíduos, a ameaça de punição de Policiais que cumpriam um dever. Enquanto criminosos seguem em liberdade e, apenas eles, em segurança; a violência progride a pretexto de ser “reação”; os jovens seguem desconhecendo qualquer tipo de relação com o meio, com os fatos, com as regras, com os objetivos que não conhecem, exceto o “direito de protesto”, e seguem sem Escolas ou nelas aprendendo apenas a “desconstruir”; o território segue sem defesa; a população nacional segue sem acesso à Saúde sequer básica – na expectativa de que lhe surja um “salvador“ nos ambulatórios capengas e no vazio de idéias, cada vez mais fragmentada e desunida pela falta de comunicação física, intelectual e emocional, a fazer de conta que se organiza na proliferação de guetos reciprocamente discriminados e segregados por preconceitos cada vez mais exacerbados, a iludir-se com uma “universalidade” política e econômica que a nivele às mais intelectual e emocionalmente desenvolvidas e permitindo guiar-se pela orientação de quem paira acima dela, a ela não pertence nem pretende pertencer.

 

 14. Enquanto muito tumulto sem qualquer objetivo racional (e/ou nacional) é provocado, muitas providências, muitos conceitos, muitos recursos, muitos indivíduos que desapareceram de nossas vistas continuam sem ser reclamados e sem ser, sequer, lembrados. E as perguntas que não foram e não são feitas nas ruas não serão feitas no dia 07 de Setembro próximo, quando muitos convocam a população a que às ruas novamente ela vá, a pretexto da comemoração de uma data histórica, mas não para celebrá-la e sim para protestar. Contra quê, exatamente, de que forma, exatamente, visando a quê, exatamente, pretenderão que proteste a população os que a chamam às ruas em um dia de festa nacional, quando as Forças militares nessas mesmas ruas estarão (exibindo-se em sua deslumbrante precariedade), quando idosos e crianças as estarão prestigiando? Que estarão pretendendo provocar e “legitimar” os que convocam ao protesto contra tudo e contra todos, se absolutamente coisa nenhuma têm a oferecer em substituição ao que errado lhes parece estar? Que inteligência levarão às ruas no dia 07 de Setembro os que repercutem uma palavra de ordem de teor eminentemente anarquista ou niilista? Qual é, exatamente, o objetivo dessa repercussão? Alguém já o enunciou? Alguém já (se) perguntou?

 

 15. Se nenhum clamor popular e nenhuma racionalidade, em tempo algum, em nenhuma Sociedade, justificarão o privilégio concedido a alguns a que sejam os donos da verdade e o desprezo dedicado à experiência e às expectativas de alguns outros, se nenhuma racionalidade e nenhum clamor popular justificarão que uma Sociedade não tenha objetivos e que, por não tê-los, que ela transforme em seus os objetivos de alguns indivíduos, o que os justifica é o som corrompido de um enunciado, com intenção política corrompida; o que os justificam são a ignorância, o pouco caso com ela e uma “vontade política” de que ela se perpetue. O que os justifica é a corruptela do óbvio.

    

   

  

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

     Quando vemos, filmadas ou descritas por quem quer que tenham sido, as últimas cenas exibidas nas ruas ou na Tribuna do Senado, as que nos mostram como são pranteados aqueles que se dedicaram, com muito ou pouco talento, a cantar em verso e prosa o ódio destilado contra a classe média e, por azar, encontraram a morte pelas mãos de seja lá também quem for;

 

– quando vemos que se pretende levar, a uma população de destemidos ignorantes irresponsáveis (que votam!), a idéia de que “o funk” ou qualquer outro grupo “guerrilheiro” ou “ex-guerrilheiro” que pregue atitudes “guerreiras” só deseja a paz, ou a idéia de que fazer Política será promover uma festa popular nas calçadas do Copacabana Palace;

 

– quando vemos que é permitido que qualquer um avente uma analogia alegre entre os impropérios emitidos por uma grande ou uma pequena multidão e o massacre histórico havido nos jardins das Tulherias e que torça publicamente por efeitos semelhantes;

 

– quando vemos que se pede em praça pública as cabeças de um Presidente e de um Governador que foram “democraticamente eleitos” sem que se projetem os efeitos de sua repentina substituição por ninguém ou por alguém que, por pertencer ao mesmo meio, por certo haverá de merecer igual tratamento posterior;

 

– quando, após ter-se logrado liberdade para que se ministrem instruções do “política e sexualmente correto” a partir das Escolas mais básicas, vemos que se reclama liberdade para quem decida recorrer a alucinógenos, para que os corpos possam exibir-se nus ou travestidos, para que neles possam ser espetados seringas e badulaques, enxertados cacarecos de silicone, rabiscadas idiotices;

 

– quando vemos que se exigem passes livres para o transporte no asfalto das grandes cidades e outros “direitos” urbanos mais, que devam ser obtidos à custa de impostos que todos se recusam a pagar etc. etc.,

 

– quando vemos, repito, essas cenas todas ou lemos a respeito delas e as comparamos com as deste vídeo produzido pela Rede Globo (oh! produzido pela Rede Globo?!?) a respeito das obras prometidas para combater a seca no Nordeste (seca que se alastra no Sul, prometendo ser tratada da mesma forma), podemos ter noção aproximada do contorno e do volume do tudo que está política ou culturalmente errado neste nosso País:

 

https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=EQ9IieacRAY#t=475sfarl

 

     Porque apenas isto é o Brasil. O Brasil é o que se vê neste vídeo, mesmo que ele se repita com ligeiras diferenças em diferentes locais. Um Brasil que quem condena e evita a Rede Globo enquanto se rende ao que aprende com os programas das demais emissoras, especialmente as de programação dita “culta” ou “erudita”, e com o que possa ser divulgado por qualquer um pelo facebook, não viu e não vê – porque só vê o que quer ver e, então, não vê a Globo, porque ouviu dizer que a Globo só expõe o que “não deveria” expor. Esse vídeo, que foi exibido pela Globo, é o Brasil que ninguém conhece nem alguém quer conhecer – exceto para tentar tirar dele algum proveito imediato. Essa gente, neste vídeo que é… da Globo, oh!, é a nossa gente, uma gente igual a nós, pela qual devemos nos sentir também responsáveis. Esse não é aquele falso Brasil, o que se diz “politizado”, que exige que a Imprensa (só) publique o que “o povo deve saber”.

 

     Na Caatinga, que é nossa (que representa 10% do nosso território, que se estende por Paraíba, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Maranhão, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, que já alcança o Norte de Minas Gerais e está em expansão), ninguém se preocupa com ostentar correntes no pescoço ou argolas no nariz porque nem o gado que de fato gado é (mas é um gado limpo, forte e bonito quando bem alimentado) os carrega; na Caatinga, uma angústia cinzenta se desenha em cada rosto que vemos sem máscara alguma, sem lambuzar-se de tintas de qualquer cor; na Caatinga, não as drogas chiques ou populares, mas beber água pode ser considerado um vício, ou oscilar entre um vício e um desperdício, e todos têm no bolso um passaporte e um passe-livre para conhecer a morte de perto a cada dia do ano. Na Caatinga, a morte chega também com a água contaminada que é distribuída por caminhões-pipa. Na Caatinga, ninguém faz fila para ver o lançamento do mais novo filme de horror produzido – o horror estará disponível a todos, sem censura, no quintal de cada casa. E não há falta de símbolos medonhos a copiar – o símbolo vivo da região será um abutre pousado em um galho retorcido ao lado de uma pilha de ossos. Basta para tanto que não chova quando deve chover. Ali, qualquer promessa absurda de qualquer cretino que se indique como um “estadista” se reverte em votos, e não porque aquela nossa gente seja ignorante ou estúpida, mas porque o desespero a induz a querer acreditar em qualquer promessa absurda. Que, se não cumprida, será sempre uma promessa não cobrada, porque não haverá como cobrá-la. Para aquela gente, que é a nossa gente, igual a nós, qualquer político de qualquer Partido ou qualquer protesto espontâneo ou organizado valerá a mesma coisa – valerá nada.

 

     Reclamamos da violência urbana? Reclamamos de “a violência”, não mais, genericamente, qualquer que seja ela? O que mais nos violenta não será a repressão aos narcotraficantes ou aos desmandos produzidos por palavras de ordem repetidas sob o comando de não se sabe quem. O que mais nos violenta é, sim, a alienação absoluta desses todos que se dizem “o povo”, os que, com demandas desarticuladas e sem qualquer nexo com as prioridades exigidas pela realidade (às quais uma reportagem de um canal de televisão “informativa” – que não é o da Globo – sugere e estimula a que se acrescente a de uma “plaza” para abrigar as evoluções de paulistanos “profissionais do skate” e demais aficionados dessa “arte”), vão às ruas destruindo o muito pouco que de bem feito ainda mantemos e acreditam que, assim, extirparão o muito que é muito mal feito (mas que fazer com a cabeça mal feita dele mesmo, esse “o povo”?). O que mais nos violenta é a alienação dos que se julgam com direito divino a escrachar quem lhes faz cócegas, a quebrar vidraças, a pôr fogo no que encontram pela frente, a homenagear guerrilheiros de botequim e a propor substituir o nome das ruas, a pichar muros e monumentos e a se enrolar na Bandeira Nacional como se fosse ela uma alegoria carnavalesca que existisse apenas para proteger a baderna. O que mais nos violenta é a alienação de quem os tolera e mais ainda nos violenta a alienação de quem os incita ou ajuda a incitá-los. O que mais nos violenta é a alienação dos que exaltam os feitos de patifes velhos e de patifes novos que nada têm a ver conosco ou muito menos têm algo com nossos reais problemas, exceto se os provocaram, e nossos reais interesses: os que apenas alegam querer acudir a prioridades mais amplas e urgentes que a de encher seus próprios bolsos e adubar suas próprias vaidades até se tornarem “celebridades”, obterem títulos honoríficos e outras benesses da pseudointelectualidade supranacional, e acumularem um rebanho de fãs incondicionais que os segue e lhes perpetua essas benesses. O que mais nos violenta é a atitude de gente pequena, mesquinha, que não sabe onde pisa e quer indicar caminhos, deixando o futuro ao Deus dará porque não enxerga um palmo à sua frente nem quer enxergar. O que mais nos violenta é a seca braba intelectual que contamina e estorrica todos os cérebros nacionais e a moral nacional. E seria o caso de nos perguntarmos a quem exatamente, a Globo e as demais emissoras dedicariam, afinal, aqueles programas que podemos considerar como sendo os piores programas da TV, incluindo-se nessa lista alguns noticiários, alguns “documentários” e “entrevistas” pré-fabricados…

 

     Que ninguém mais confunda manipulação com esclarecimento nem carnaval com realidade. Que ninguém nos venha dizer que o Nordeste vem sendo carregado pelo Sudeste e que, por isso, o Sudeste merecerá um número ainda maior de oportunistas choramingões a representar “o povo brasileiro” no Congresso. Muito menos quem, gozando de ampla e absoluta liberdade, milite em prol da desunião e da fragmentação nacional nos venha querer convencer e nos impor sua “causa” com discursos recheados de argumentos baratos tais como “um novo pacto federativo”, ”direitos humanos”, “revoluções verdes”, “bem da humanidade”, “paz mundial” ou, tanto faz, ”segurança internacional”. Não permitamos mais essas conversas, que de mansas nada têm, que são concebidas e mantidas para que o Brasil que é de fato Brasil se enrosque e se encolha no já supostamente seu antigo e esplêndido berço, berço que se vê quebrado, infectado e roído pelos ratos cujas pulgas se aninham em “feudos” de identidade duvidosa, prontas para nos saltar em cima e nos sugar. A quem for capaz de somar dois com dois e encontrar quatro essas conversas sonsas só poderão provocar asco!

 

     Nada do que façamos iludidos por novidades “modernas” ou “pós-modernas” nos trará qualquer benefício. Não há um único princípio novo que nos possa guiar a qualquer melhor destino nem sequer um único indício de que, algum dia, possa haver. E nossos problemas e nossos sonhos não poderão continuar se resumindo a poder oferecer solução a problemas dos outros e a acudir a sonhos alheios que nos tenham sido jogados no colo e dos quais, já há algum tempo, resolvemos nos encarregar de cuidar. O fato é que não teremos condição alguma de dar solução a nossos problemas reais, que são os nossos problemas reais, e acudir aos verdadeiros sonhos de todos nós, que não serão os delírios de quem quer que seja, enquanto não substituirmos, em nossa consciência mesma, a expectativa insana de que a politicagem eleitoral se torne, um bom dia, “transparente”, e não mais carregue em si mesma a corrupção, pelo exercício de fato do que é Política de fato; enquanto não tivermos alguma noção, rasa que seja, do que é e deve ser um Estado Nacional; enquanto não tivermos consciência plena de nossas imensas e extremamente pesadas responsabilidades.

 

     Todo o resto, que se espalha e que se espelha em reivindicações de origem supranacional, por mais bonito e mais “vanguarda” que nos possa parecer, nada mais é que farofa. Farofa que é feita, em grandes ou pequenas panelas, por farofeiros. Para que só dela nos alimentemos. E para que eles todos prossigam lucrando à sua maneira, e à sua maneira se divertindo.

 

 

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(Palmeira dos Índios, a “Princesa do Sertão”, onde nasceu Graciliano Ramos, sede do Município do mesmo nome que produz pinha, caju, manga e leite, tem indústrias de laticínios e de transformação da cana-de-açúcar, é a terceira cidade de Alagoas, localizada na divisa com Pernambuco, com mais ou menos 70.500 habitantes)

 

http://tnh1.ne10.uol.com.br/noticia/maceio/2013/07/17/256033/agua-que-mata-reportagem-investiga-causas-do-surto-de-diarreia-em-alagoas

Maceió

Água que mata: reportagem investiga causas do surto de diarreia em Alagoas

09:27 – 17/07/2013Da Redação

Ministério da Saúde atribui causa de surto à qualidade da água distribuída

O surto de diarreia continua a preocupar a população alagoana. Já chegou a 70 mil o número de pessoas infectadas e já foram registradas 37 mortes no estado só em 2013. O uso irregular de carros-pipas chegou a ser oficializado como a causa da pior de epidemia de doenças diarréicas em Alagoas desde 1993, mas a origem do problema não é bem este. É o que mostra a investigação da equipe da TV Pajuçara sobre o problema, que começou a ser exibida na série de reportagem “Àgua que mata”.

O Ministério da Saúde atribuiu a causa da epidemia à qualidade da água distribuída em carros-pipas, mas a série mostra que um conjunto de problemas, como chuvas e falta de saneamento, levaram a essa situação. O surto de diarreia começou em Palmeira dos Índios e logo se alastrou por 27 cidades alagoanas. Outros 40 municípios estão em estado de alerta.

Uma comparação com os casos registrado em 2012 mostra a dimensão da epidemia enfrentada nessas regiões. De acordo com dados divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), nas primeiras 23 semanas do ano passado foram 34 mil casos da doença. No mesmo período de 2013, esse número subiu para 54 mil.

Ainda segundo a Sesau, 37 pacientes infectados morreram. Só em Palmeira dos Índios, foram dez mortes. “Geralmente esses pacientes são crianças ou idosos, que devido à desidratação violenta vem a óbito”, disse Maria Elisabeth, diretora da Vigilância Ambiental de Saúde..

    

   

  

 

 

 

 

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SURPRESA!

15-07-2013
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Pois é. Ela não sabia, eles não sabiam, ninguém sabia… nem alguém poderia imaginar… Foi uma surpresa! Agora todo mundo sabe. Um “grupo de trabalho” já terá sido providenciado em Brasília para resolver a questão.

A cada dia que passa, tudo por aqui vai ficando cada vez mais divertido…
 
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YES WE SCAN
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Eles são “éticos”, são “humanitários”, são “preocupados com o próximo” e são… “espontâneos”.
Em geral, são de “boa família”. Portanto, quem a eles adere, quem os aplaude e quem os protege estará acima de qualquer suspeita…
E quem os combate, portanto também, será arrogante, será estúpido e gratuitamente violento.
Não é isso aí?    Muito bem !!!!
 
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BLOCO NEGRO
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

  

 

     Se deixarmos o computador de lado e nos atrevermos a abrir um livro – “História da Política Exterior do Brasil”, por exemplo, da Editora UnB, cuja leitura é indicada àqueles que se arrisquem em concursos para ingresso no Itamaraty – encontraremos alguém de bastante projeção nos meios universitários nos explicando, entre outras coisas muito e muito curiosas se não espantosas, que “Com relação à política platina, o Parlamento esteve coeso e unânime em aprovar os recursos para manter a guerra contra Buenos Aires, cuja condução confiou ao Executivo sem contestação. Nem todos concordavam com a justiça da guerra movida pelo Governo brasileiro” (que significaria “coesão”? e “unanimidade”?). Ou saindo-se com esta: “Os defensores da ordem eram liberais, porém não ao estilo rousseauniano” (que raios seria um “liberal ao estilo rousseauniano”?). Ou com esta mais: “O conservadorismo político, dotado de senso realista, com seus planos de reformas lentas, era um freio a mudanças…” que nem merece qualquer comentário… Ou mereceria?

 

     E por aí foi e por aí vai o impresso.

 

     É… Ideologia é um negócio muito complicado…

 

     Pois muito bem. Voltando ao computador, receberemos aulas magnas ao vivo e em cores. 

 

     Por exemplo: https://www.facebook.com/photo.php?v=10201463122889382 – uma aula magna a respeito de como, partindo-se de premissas absolutamente corretas (o enunciado do que venha a ser o capitalismo e do que seja o socialismo), será possível formular-se uma conclusão absolutamente troncha, raquítica e burra: a de que só o “Livre Mercado” nos salva.

 

     Vá ter fé, ser iludido e tentar iludir assim no Inferno, que, de boas intenções, sempre esteve entupido! Vá mergulhar na história dos países tradicionalmente capitalistas que conseguiram imprimir em seus territórios um relativo bem estar social para verificar se alguma vez o Estado foi menosprezado ou abdicou de planejar e de interferir na Economia! Ah… mas… então é por isso, porque sempre o Estado burocrático e autoritário interveio e barrou a livre iniciativa iluminada, que um “laissez faire, laissez passer, le monde va de lui même” ainda não logrou nos levar, todos, a conhecer o reino dos céus…

 

     Fé ardorosa? Ilusão colorida? Santa ingenuidade? Ora, francamente! Quanta estupidez!

 

     É… Ideologia é um negócio muito complicado… E nisso é que dá criarem-se Faculdades que se limitam a exigir dos alunos (que, em seguida, serão professores) que mastiguem e cuspam, tanto à esquerda quanto à direita, as “grandes teses” elaboradas para consumo na periferia que esvoaçam no mainstream internacional.

 

     Quando vamos parar de ter tanta fé em reducionismos de 5ª categoria? Algum dia? Quando nos levaremos a sério? Quando haveremos de querer, de fato, partir para a discussão de como encontrar uma solução real para nossos problemas reais, baseados em nossas reais condições, em nossa História real, na realidade que nos cerca, sem que nos satisfaçamos com campanhas para tentar substituir, no nosso Governo, na administração de nossas coisas públicas, os seis por uma meia-dúzia (ou por uma meia-dezena, por um meio termo, por uma meia hora, por umas meias-calças, por qualquer meia-boca, por meia volta e volta e meia vamos dar…)? Nunca?

 

     Ou só depois que nosso Estado – que reclama permanente discussão Política, em estrito e amplo sentidos, nem que seja para que possamos acompanhar os tempos – se vir transformado em poeira cósmica?

 

     Que poderá orientar o raciocínio dos minimamente bem intencionados? É isso aí, o que se lê em um livro oficialmente recomendado, de uma incoerência a toda prova, ou o que se vê e se ouve no vídeo (fofo?) divulgado, de um reacionarismo absurdo, que nos exige regredir ao tempo das caravelas, que quer ser reconhecido como “conservador” e substituir qualquer proposta anti-liberal, por mais fofa que possa esta ser? Ou seria, por acaso, o destempero típico de classe média AA+ moradora do Leblon, com todos os seus típicos problemas existenciais, aquela que está mais para VIP emergida que para aristocracia falida, em seus 6:59 minutos de glória, afiadinha-afiadinha, capacitada e bem disposta a bater boca de frente, no mesmo nível, com qualquer Marilena Chauí?

 

     Definitivamente, sem um princípio correto, sem objetivos claros e muito bem determinados, sem planejamento e sem direção centralizada ninguém chegou, nunca, e ninguém chegará, jamais, a lugar algum!

 

     E é exatamente por isso, e porque a nada disso atentamos, que nos vemos eternamente derrapando no mesmo lugar, que há de permanecer, para todo o sempre, enlameado. Do jeito que o Brasil está. E nos promete ficar.

    

   

  

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
 
 
 

 

     A notícia estampada na página do UOL ontem à noite era, no mínimo, intrigante… Talvez nem Sherlock Holmes a decifrasse sem incriminar alguém: “Governo brasileiro desiste de ‘exportar’ 6000 médicos cubanos” (clique nas imagens).

 

QUEDA NAS EXPORTAÇÕES...QUEDA NAS EXPORTAÇÕES.... 2 jpg

 

      A decisão de exportar gente brasileira não é nova. Vem de longe, de muito longe. Mas a de exportar cubanos, de verdade, surpreende. Francamente, desconheço o impacto dessa decisão em nossa produção e nossas exportações… Mas pode até ser grave; ou não – sei lá…

 

     Hoje, a notícia a respeito da contratação de médicos estrangeiros já era mais detalhada, mas nem por isso era menos doida: “Dilma: médicos estrangeiros ocuparão vagas não aceitas por brasileiros. A presidente Dilma Rousseff voltou a defender nesta segunda-feira a contratação de médicos estrangeiros (…) ‘Os estrangeiros só cobrirão as vagas que não sejam ocupadas pelos médicos brasileiros’, que terão ‘prioridade’, pois são ‘formados no país e são altamente qualificados’, declarou a chefe de Estado.” 

 

     Com o que a questão do grau de qualificação dos médicos brasileiros, sobre o qual a ameaça da “importação” dos cubanos pôde semear alguma dúvida, parece ter sido resolvida. Eles são “altamente qualificados” – muito embora o Governo tenha acrescentado 2 anos à sua formação: serão 8 anos, mais um Exame Nacional de Revalidação de Diplomas (este, mais do que justo e necessário, dada a qualidade incerta de algumas Faculdades e, muito mais incerta, a das novas Faculdades particulares que serão abertas com incentivo governamental…) que, a partir de 2015, os novos terão que enfrentar.

 

     E tomamos ainda conhecimento, por vias oficiais (já o poderíamos supor, mas… também pairavam dúvidas…), de que há “vagas desprezadas pelos profissionais brasileiros – pois assim “declarou a chefe de Estado” que também assim “esclarece” e justifica sua nova determinação. Se nossos médicos são exigentes e caprichosos, se não aceitam ou não aceitamos os cubanos, tudo resolvido – “importaremos” outros médicos, não os médicos cubanos. Ou talvez importemos os médicos cubanos que Portugal possa descartar…

 

     Mercadante mais ainda elaborou o discurso: “Não é uma importação de médicos, porque para trazer médicos para trabalhar em outras áreas tem que fazer o Revalida” – o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos. A ser isso verdade, a questão novamente se complica e muito mais – e torna-se bem mais grave: que estamos trazendo ao nosso território (não “importando”, não), afinal? Para quem um médico sem um diploma revalidado será suficiente? A quem recorrerá esse médico em casos que requeiram mais que uma aspirina? Os Hospitais das promessas de hoje ainda são promessas, não são Hospitais e não o serão tão cedo. Ou seja, para quem, exatamente, bacalhau há de bastar?

 

     Pois bem. Pretendendo facilitar a seus leitores a compreensão da “proposta de contratação de médicos estrangeiros para atuar no Brasil”, a Folha de S.Paulo publicava, em 28 de junho último, um… desenho… (reproduzido abaixo).

 

     Por esse desenho e suas legendas, já de cara, via-se que à Saúde, assim como à Escola, o que menos importará é o conteúdo. Será bastante que “constem” postos de atendimento, seja qual for a condição desses postos, e nele “conste” um “profissional”, seja “profissional” em que for e seja qual for o grau de sua competência, para dar ao mundo a impressão de que a população brasileira está sendo assistida.

 

     Afora outras considerações importantes mais, que o miserável quadro da Saúde nacional permite levantar, a considerar correta a informação matemática divulgada pela Folha, cerca do dobro do número de vagas oferecidas (6 mil) e não preenchidas em 2011 terá sido o número de médicos brasileiros que estariam formados em 2012 (projetando-se os 13 mil que se formaram em 2011 e sem considerar o possível acúmulo de médicos formados nos anos anteriores). Matematicamente, pois, considerando-se esse acúmulo apenas a partir de 2012 e considerando-se ainda que, como foi informado, apenas a metade desses médicos se interessasse por atender na Rede Pública, uns 6.000 poderiam estar disponíveis já no começo de 2013. Acrescentando-se a este contingente os que, nas mesmas condições, estão por formar-se em 2013, o número de médicos brasileiros que, em tese, estarão qualificados e sem oportunidade de trabalho (porque a desprezam…) no final do ano corrente será o dobro (serão 12.000) do número de vagas que se ofereciam em 2011.

 

     Estaríamos oferecendo que tipo de trabalho a estrangeiros qualificados em quê (não prestarão o “Revalida”) e por quê?

 

     Porque os médicos brasileiros todos decidiram ou decidirão montar seus consultórios com seus próprios recursos, foram ou serão absorvidos por clínicas particulares, deverão incorporar-se aos serviços médicos de outros países ou ao “médicos sem fronteiras”? Ou é porque novos postos de saúde, novos leitos, novos hospitais públicos além dos da promessa de hoje e novas vagas já teriam sido abertos em quantidade muito maior que os 12.000 médicos brasileiros que, em tese, estarão disponíveis em 2013?  Ou os médicos estrangeiros seriam, seguramente, mais interessados e mais capacitados em “medicina básica” que os nossos, uma vez que Rousseff afirma que os nossos são “altamente qualificados”, ou seja, qualificados em excesso? E seriam mais capacitados por quê? Porque os nossos desprezaram o povo? Ou será porque terminaram a Faculdade mas desprezaram a residência? Desprezaram ou não tiveram condições de fazê-la? E não tiveram por quê? Eles todos terão cumprido as exigências todas e preferem exercer serviços burocráticos em outras áreas a clinicar? E por que os médicos estrangeiros “com autorização para exercer medicina no seu país de origem” se submeteriam a um trabalho a bem dizer “escravo”, ou seja, a exercer seu trabalho sob condições extremamente limitadas inclusive no espaço (“só poderão exercer a atenção básica – prevenção e procedimentos pouco complexos” e “só estariam autorizados em um local determinado, por isso não fariam a revalidação do diploma, que os permitiria atuar em todo país”)? O mundo é ingrato e não os valoriza? Estariam mais desesperados por um emprego que os nossos? Onde estão os nossos médicos? O concurso para preenchimento das vagas foi muito exigente? Eles se assustaram com o padrão FIFA das instalações que lhes eram oferecidas nos Hospitais públicos e, por isso, encolheram-se? Que estão fazendo os nossos médicos? Preferiram vadiar e receber o bolsa-família?

 

     Consideremos que “a situação é mais grave em especialidades como pediatria, anestesia e ginecologia” e nas áreas mais remotas; que “o governo federal vai abrir cerca de 10 mil vagas para médicos para atuação exclusiva na atenção básica em periferias de grandes cidades, municípios de interior e no Norte e Nordeste do país”; que muitos de nossos médicos são e serão formados com subsídios públicos; que “o Ministério da Saúde pretende alcançar 2,5 médicos para cada mil pessoas – índice similar ao da Inglaterra, que tem 2,7”; que o salário oferecido estará “em torno de R$ 10 mil” e carga horária ainda está por definir-se pela “presidenta” que lança agora seu Programa Mais Médicos para inglês ver…

 

     De qualquer jeito, seja o que for, seja como for, poderão ser feitas muitas outras perguntas, que, por mais ou menos idiotas que possam ser ou parecer, ficarão, como todas as demais que se fazem, no ar, sem respostas. Fico eu aqui, absolutamente leiga no assunto, com algumas poucas, sendo uma delas a principal: por que raios as FFAA, que estão presentes (ou deveriam estar porque precisam de estar) em todo o território nacional, não ampliam seus quadros na área da Saúde? Seria porque nossos médicos não se interessariam pelos proventos, aviltados da forma como estão, e não veriam futuro algum na carreira militar? Porque o rancho não é suficiente? Porque é da conveniência do Governo que as FFAA eliminem seu serviço médico-hospitalar e se dependurem no SUS? Melhor será, então, para todos os brasileirinhos e brasileirinhas das cidades, dos campos e das matas que o Governo contrate elementos provisórios provisoriamente, que se dependurarão, eles mesmos, no SUS por dois anos, que no SUS prestarão serviços limitados porque terão licença limitada, que depois… ora, depois… depois é depois, ora. Que se aventurem assim como nos aventuramos todos… A vida é bela.

 

     Ah, esses nossos políticos… esses nossos administradores… esses nossos jornalistas… esses nossos professores… esses nossos militares… esses nossos médicos… essa nossa gente… Ah, esse nosso Brasil…

 

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agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-05-14/mercadante-diz-que-medicos-formados-fora-do-brasil-devem-trabalhar-no-pais-temporariamente

noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2013/07/08/medicos-formados-terao-de-atuar-dois-anos-no-sus-anuncia-governo.htm

noticias.uol.com.br/infograficos/2013/06/28/entenda-a-proposta-do-governo-de-contratacao-de-medicos-estrangeiros-para-atuar-no-brasil.htm

MÉDICOS 2  (clique na imagem)

                

 

  

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Guilherme Fiuza, em O GLOBO – 29/06/13, comenta o “movimento revolucionário” (2º texto abaixo):  

Se o movimento que encanta o país fosse minimamente lúcido, cercaria o Palácio do Planalto (…). Poderia anunciar, pacificamente, que só sairia de lá com a extinção de pelo menos cinco ministérios inúteis, mantidos para alimentar correligionários.”

Conforme se vê, só uma coisa nisso tudo que está acontecendo é absolutamente segura e certa – ninhada nova não consegue escapar de raposa velha. 

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04/07/2013 – 03h26  –

Lula sugere a Dilma corte de ministérios

VALDO CRUZ – FERNANDO RODRIGUES – CATIA SEABRA – DE BRASÍLIA

A proposta de reduzir o número de ministérios, feita pela oposição e encampada pelo PMDB, já havia sido sugerida à presidente Dilma pelo ex-presidente Lula como uma medida para sinalizar austeridade num momento de turbulências na economia.

Segundo a Folha apurou, Lula, em conversas com interlocutores, também disse que defendeu mudança nas principais áreas do governo, como articulação política e equipe econômica.

Dilma chegou a indicar, segundo petistas próximos a Lula, que iria analisar a possibilidade de mudar a equipe ministerial durante o recesso do Congresso, em julho.

Só que o surgimento da onda de manifestações nas ruas fez a presidente mudar o foco de sua agenda e, segundo assessores, adiar as trocas.

Recentemente, Lula queixou-se a interlocutores que a presidente é “teimosa” e não queria “fazer ajustes” no governo, considerados por ele necessários para reverter o clima de pessimismo na área econômica e política.

Oficialmente, a assessoria de Lula diz que o ex-presidente não tratou desse tipo de assunto com Dilma, afirmando que “é atribuição da presidente definir ministério”. Informou ainda que o petista faz palestras no exterior.

Petistas ligados ao ex-presidente disseram à Folha, porém, que a sugestão era, inclusive, o governo fazer uma redução de 39 para cerca de 30 ministérios e assumir um discurso de maior rigor fiscal.

Quanto ao discurso na área fiscal, Dilma decidiu no mês passado, depois de se reunir com Lula num hotel em São Paulo, determinar que o ministro Guido Mantega (Fazenda) assumisse compromisso com a meta de superavit primário de 2,3% do PIB.

A proposta de reduzir o número de ministérios já havia sido feita à presidente pelo empresário Jorge Gerdau, membro da Câmara de Gestão da Presidência da República.

Dilma tem hoje 39 ministros. São 24 ministérios, dez secretarias e cinco órgãos com status de ministério. Ela criou duas novas pastas, a Secretaria de Aviação Civil, cujo titular tem status de ministro, e o Ministério da Micro e Pequena Empresa. Seu antecessor deixou para ela 37 ministros.

Lula herdou do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso 24 ministérios. Ele converteu em secretarias com status de ministério várias áreas ligadas até então a outras pastas, como Portos, Direitos Humanos e Pesca. FHC chegou a ter nove secretarias, sem status de ministério.

Lula fez também, recentemente, críticas à estratégia política do Planalto, depois negadas oficialmente por ele. Na semana passada, reservadamente, ele classificou de “barbeiragem” a articulação do governo para a instalação de constituinte exclusiva para a reforma política.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/07/1305903-lula-sugere-a-dilma-corte-de-ministerios.shtml

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Plebiscito em Marte

Os parasitas da nação estão em festa.

Os efeitos dos protestos de rua estão tomando o melhor caminho possível (para eles): constituinte, plebiscito, pré-sal…

gmfiuza – O GLOBO

Os parasitas estão gargalhando em seus gabinetes. Sempre souberam que embromariam a multidão, mas não esperavam que fosse assim tão fácil.

Ao fim da primeira semana de manifestações, Dilma foi à TV. Nas ruas, os protestos contra o aumento das passagens de ônibus mostravam o óbvio: a volta da inflação enfim tirara os brasileiros de casa. O transporte era só o item mais visível da escalada de preços em todos os setores. A vida ficou mais apertada – e a paciência acabou. Como todos sabem (ou deveriam saber), o governo popular abandonou a meta de inflação para irrigar sua formidável máquina de dezenas de ministérios. Mas na TV, Dilma parecia uma porta-voz dos revoltosos.

A presidente disse que os anseios das ruas eram os mesmos do seu governo. É preciso coragem para soltar um disparate desses sem gaguejar. O tal governo que anseia por mudanças governa o país há dez anos. E Dilma não deu uma palavra sobre gastos públicos – ou, em português, sobre a orgia orçamentária que seu partido preside no Estado brasileiro. Pregou a melhoria dos serviços públicos (supostamente os do Brasil), no momento em que seu governo bate mais um recorde de despesas – como sempre reduzindo os investimentos e aumentando o custeio (a verba dos companheiros). É preciso muita desinibição.

O projeto parasitário é desinibido porque a opinião pública é trouxa. E o pronunciamento da presidente foi engolido pelos brasileiros, incapazes de relacionar a inflação e a queda dos serviços com a administração perdulária e inepta da grande gestora.

Se o movimento que encanta o país fosse minimamente lúcido, cercaria o Palácio do Planalto depois desse pronunciamento. Poderia anunciar, pacificamente, que só sairia de lá com a extinção de pelo menos cinco ministérios inúteis, mantidos para alimentar correligionários. Ou com o compromisso da presidente de voltar a respeitar a meta de inflação. Ou denunciando o escândalo da “contabilidade criativa”, pelo qual o governo do PT passou a fraudar seu próprio balanço – seguindo a escola Kirchner-Chávez –, escondendo dívidas para poder gastar mais com cargos e propaganda.

Será que os heróis das ruas não percebem que é isso o que mais infla o custo de vida (e as passagens de ônibus)?

Não, não percebem. Uma líder do movimento declarou ao “Jornal Nacional” que a próxima prioridade era a reforma agrária… Aí os parasitas estouraram o champanhe. Era a senha para mandarem Dilma tirar da cartola uma constituinte: reforma política! (mesmo balão de ensaio usado por Lula quando estourou o mensalão). E o truque colou. Tiraram a constituinte de cena, mas deixaram o Brasil entretido no debate lunático sobre um plebiscito do crioulo doido. De brinde, Dilma prometeu transformar a “corrupção dolosa” em crime hediondo. Eles venceram de novo.

Enquanto gritam por cidadania, educação, dinheiro do pré-sal e felicidade geral, os revoltosos urbanos estão absolvendo Rosemary Noronha – a protegida de Lula e Dilma na invasão fisiológica das agências reguladoras (responsáveis pelos serviços que a presidente promete melhorar…). Estão absolvendo as quadrilhas que dominaram o PAC – reveladas pela CPI do Cachoeira, que Dilma abafou e nenhum manifestante reclamou. Estão chancelando todos os denunciados na época da faxina imaginária que continuam dando as cartas no governo, como o ministro do Desenvolvimento Fernando Pimentel.

Os revoltosos estão sancionando a sucção e cantando o Hino Nacional.

Fica então uma sugestão de pergunta para o plebiscito: o Brasil prefere ser roubado por corrupção dolosa ou indolor?

Guilherme Fiuza é jornalista

http://oglobo.globo.com/opiniao/plebiscito-em-marte-8844735

Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Aos poucos, vamos chegando lá – aos objetivos da desordem.
Os anarcas do “Anonymousbr” (filial da organização supranacional “democrata” e “pacifista” que se sente agora autorizada a nos avisar que está “mudando” o nosso país) já colocaram no ar um “vamos ver se cola” apontando a sigla da FAB como correspondente a “farra aérea brasileira”.
Nenhuma razão e nenhum sentido lógico há em atribuir à FAB (a quem os sucessivos Governos vêm negando aviões suficientes até para que possa treinar seus pilotos…) uma farra que é exclusiva de politiqueiros no poder.
A FAB obedece ao poder civil. Quando as “autoridades’ civis requisitam os aviões, a FAB obedece.
Os que se sintam por essa farra agredidos que peçam satisfações a Amorim, o civil que hoje é responsável por mais um na coleção inútil de Ministérios da “Defesa do Governo”, que é a quem se subordina o Comando da FAB.
E que ninguém tente envolver, de alegre, a nossa Força Aérea ou qualquer das Armas do Estado nessa trambicada toda, tentando desmoralizá-las.
Além de que o Brasil hoje tem as Forças que, aos gritos histéricos nas ruas, pediu para ter – guardadas nos quartéis.
Ou é que era para ter nenhuma? Bem, disso aí só não sabe quem não quer saber…
Que “pacifismo” mais safado, sô!
 
 
VAMOS VER SE COLA
 
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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

    

 

 

     Em 14 de junho último, foi publicado no sítio virtual do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas pelo impacto do desenvolvimento social com sede em São Paulo) um comentário sobre pesquisa da Fundação Victor Civita mais o CEBRAP, em parceria com o Banco Itaú BBA e a Fundação Telefônica Vivo, cujo título, para variar, estará em mau Português: “O que pensam os jovens de baixa renda sobre o Ensino Médio?” (por favor, elimine-se ou o “O” do início ou a interrogação do final…).

 

     De cara, seremos informados de que “O estudo aponta que falar sobre a escola com os jovens é difícil, o assunto não aparece nas conversas entre si e a instituição é considerada apenas como um ponto de encontro. Um em cada cinco alunos só vai à escola para conseguir o diploma, e as expectativas em relação ao Ensino Médio são baixas e nem sempre atendidas” (www.gife.org.br/artigo-o-que-pensam-os-jovens-de-baixa-renda-sobre-o-ensino-medio-15130.asp). A pesquisa abrangeu “mil jovens de 15 a 19 anos de [?] de Recife e São Paulo”.

 

     Seria, de fato, necessária uma pesquisa para que alguém chegasse a essa conclusão? Seria necessária pesquisa mais ampla para dela sacar a conclusão de que, no Brasil inteiro, a realidade é essa mesma, não outra qualquer?

 

     Diz-nos ainda o texto publicado (que não está assinado): “Dentre as causas do descontentamento estão: a desorganização, já que 76,7% dos entrevistados relatam que situações de “zoeiras” são comuns em salas de aula, a ausência frequente de professores (42% deles não tiveram alguma aula no dia anterior à pesquisa) e a insegurança no ambiente escolar (24% dos respondentes não se sentindo seguros na escola). A visão de inutilidade em muitas disciplinas oferecidas também é um ponto de discussão. Física, sociologia e literatura, por exemplo, estão abaixo dos 20% de estudantes que acreditam que essas matérias façam sentido. Outro ponto crucial levantado na pesquisa é a falta de tecnologia nas escolas. Cerca de 70% dos entrevistados têm acesso à internet em casa e 57% em celulares, mas 37% dos alunos nunca usaram o computador na escola. Para Torres [coordenador da pesquisa feita], as escolas de Ensino Médio não estão preparadas para atender a juventude. ‘Não há possibilidade das escolas não terem tecnologias. O ponto a se discutir é qual tecnologia usar a favor da educação’.”

 

     Ah…! A tecnologia…!!! Oba! Vamos cuidar da tecnologia. Com muito empenho e respeito. Da tecnologia, que é crucial. Que deixou, faz tempo, de ser mera tecnologia, transformando-se em uma “filosofia”. Ou em uma “religião”. Só ela nos salvará. Aleluia, aleluia.

 

     Do conteúdo dos currículos escolares, nenhuma palavra. E por que os conteúdos nos deveriam preocupar?   

 

     Há dois dias, Rodolfo Constantino, jovem economista atento e liberal, apontava no facebook (irônico, por certo): “Acabo de escrever artigo alegando que quem tem Fiesp não precisa de USP. Mas olha, a USP consegue se superar! É muita doutrinação ideológica mesmo, vou te contar… socorro!!!!” E indicava a razão do seu espanto ou de seu medo: a ementa da disciplina “Introdução à Pedagogia Socialista” (EDA0693) do Curso de Administração Escolar e Economia da Educação  da Faculdade de Educação da USP.

 

     Esse grito por socorro foi divertido. Mas o mais divertido não é isso. O mais divertido é que alguém, entre os que leram o comentário de Constantino, pulou e contestou: “Doutrinação? Sério mesmo? Vc checou o programa? Notou que a disciplina tem uma abordagem HISTÓRICA [em maiúsculas, assim mesmo]? Que trata desde o socialismo de Thomas Morus até o socialismo real? Ou deduziu pelo nome que era doutrinação marxista?

 

     Caramba! Só mesmo um doutrinado muito doutrinado, só um alucinada e irremediavelmente doutrinado não perceberá que um programa da disciplina (uspdigital.usp.br/jupiterweb/obterDisciplina?sgldis=EDA0693&nomdis) composto por seis pontos, sendo o 1º deles “Socialismo: em busca de uma definição” (ou seja, ele mesmo, o Programa, já anuncia que serão levados à sala de aula informações e métodos que ajustem a atenção do indivíduo a um conteúdo indefinido), os 4 seguintes versando a respeito do Socialismo utópico (“utópico” porque não se tornou realidade) e o 6º e último “Os impasses advindos da derrocada do socialismo real: para repensar a educação” (mas… o Socialismo não estaria ainda buscando uma definição?), com uma bibliografia indicada composta de “mestres” anarquistas e comunistas, sem uma única exceção sequer que permita uma comparação qualquer e, portanto, permitisse qualquer reflexão, somente poderá corresponder a um único objetivo:  doutrinar e apenas a doutrinar. Ou não?

 

     Imaginemos que constasse da grade curricular do Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação, não esta, mas outra disciplina, denominada “Introdução à Pedagogia Liberal-capitalista”, com o seguinte programa: o ponto 1 seria “Liberalismo: em busca de uma definição”; os 4 seguintes versariam sobre a “utopia liberal”; o último ponto seria “Os impasses advindos da derrocada do Liberalismo real: para repensar a educação”. A bibliografia que acompanhasse a “abordagem histórica” do programa seria composta de autores que difundiram as idéias liberais ao longo dos séculos, mas não incluiria uma única obra crítica. Como deveria essa disciplina ser interpretada? No máximo, usando o máximo de tolerância e elasticidade intelectual e verbal possível, poderíamos dizer que, da mesma forma que uma “Introdução à Pedagogia Socialista”,  ela estaria destinada a ensinar a ensinar a ter sonhos bonitos… Mas essa disciplina não existe. Nem sequer é aventada. Quem precisará de escola para especializar-se em cultivar e em divulgar sonhos, por mais bem “formatados” que eles queiram e possam ser?

 

     O problema, no entanto, não se limita a uma específica disciplina – o problema é o Curso inteiro de Pedagogia da USP, a começar por sua concepção. E, como a USP é a USP, quantas Faculdades mais não a tomarão por modelo? A vontade que dá? A vontade que dá é a de recomendar aos alunos matriculados que sejam vadios, bastante relapsos… que percam as aulas… que não façam os trabalhos… Pois, para que obtenham um diploma lhes bastará usar a imaginação. E, gazeteando, sairiam da Universidade bem menos estúpidos. No mínimo, sairiam tão curiosos quanto entraram, e não tão “donos da verdade”.

 

     Para ampliar a discussão – ou seria para incentivá-la ou, pelo menos, para despertar a preocupação -, eu recomendaria uma visita ao PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DO CURSO DE LICENCIATURA PLENA EM PEDAGOGIA da USP (www4.fe.usp.br/wp-content/uploads/graduacao/ppppedagogiaversao.pdf). Depois dessa coisa toda ter sido lida e relida, a gente poderá conversar um pouco mais sobre a realidade… 

 

     Enquanto isso, fiquemos no que realidade parece – e eu disse “parece” – ainda não ser. Pois bem: vimos que, segundo os intelectuais que freqüentam a Educação da USP, o Socialismo, que ainda não goza de definição, foi e ainda é considerado por alguns enquanto utopia, pois quando concebido como “real” não deu certo, mas será suficiente para que possamos “repensar a educação”… socialista, é claro, seja lá o que for o Socialismo. E utopia? Que significaria “utopia”, afinal? O que era utopia deixou de ser utopia? Seria um ideal a conquistar? Um ideal que, conforme seja concebido e articulado, poderá ser considerado viável? Ou utopia (sem tergiversações, por favor!) será simplesmente o que, mesmo sendo projetado como a perfeição das perfeições, por ser incompatível com a realidade, mostrar-se-á inviável? E, exatamente por estar em desacordo com a realidade, por ser inviável, por basear-se em uma quimera, por ser não mais que uma ilusão, “utopia”, não outro qualquer, será seu nome? Ou como é que a gente deveria chamar algo que assim fosse?

 

     A pretexto do artigo “The Courage to be Utopian”, publicado pelo Ludwig von Mises Institute austríaco, de tendência inquestionável (mises.org/daily/6469) – do qual me permito aqui destacar o seguinte: “A public intellectual need not be an original thinker, scholar, or expert in a field. (…) Such intellectuals include journalists, teachers, ministers, lecturers, publicists; radio, television, and online commentators; writers of fiction, cartoonists, artists, actors, and even scientists and doctors who speak outside their fields of expertise. ‘It is the intellectuals in this sense who decide what views and opinions are to reach us, which facts are important enough to be told to us, and in what form and from what angle they are to be presented. Whether we shall ever learn of the results of the work of the expert and the original thinker depends mainly on their decision’ ” -, Constantino, o liberal, comentava ainda, no mesmo dia, em outro tópico da mesma página virtual: “É verdade que Hayek estimulou liberais a mergulharem em uma ‘aventura utópica’, para tornar a doutrina atraente novamente. Mas algo me diz que o próprio Hayek, se vivo estivesse, não gostaria muito do resultado prático disso. É que esses utópicos agora o chamam de ‘socialista’…”

 

     Pondero eu, cá com meus botões, se, tendo sido quem foi e feito o que fez, Hayek hoje não estaria exultante com o resultado prático do que estimulou – porque recomendou – em suas teses. São “aventuras utópicas” sendo cogitadas aqui, ali, lá, acolá, desfrutadas acolá, lá, ali e aqui, métodos, técnicas e tecnologias várias sendo colocadas a serviço dessas aventuras e da exaltação de uma “ordem espontânea” decorrente de um “comportamento emergente”, e comentários deste tipo podendo ser feitos: “… Buscar uma ‘utopia viável’ – pra usar uma expressão que o FHC usou ontem no Roda Viva – pode ser um caminho… Como sabemos, conjecturas são perigosas em qualquer área das ciências sociais, mas ao nos abstermos de tentar procurar respostas de uma sociedade de livre mercado ou sem Estado, que nunca vivemos plenamente, acabamos por fazer igual aos próprios socialistas, que não procuram essas respostas por esse mesmo motivo de ‘nunca vivemos um socialismo pra saber’.  É por essas e outras que Hayek é importantíssimo.”

 

     Bem, esse nosso ex-Presidente que esteve no programa Roda Viva e foi citado nos brindou com… um livro (!) intitulado “Utopia Viável” – são mais de 100 páginas publicadas em 1995. Já o comentário acima foi, por alguém, no facebook, atrelado ao que, aqui, antes foi transcrito. E não encontrou resposta. Ou seja, não conseguiu impressionar ou motivar sequer um único indivíduo em um grupo de leitores. Por quê? Ora, porque, aventura por aventura, utopia por utopia, tecnologia por tecnologia, de tecnologia em tecnologia, de utopia em utopia, de aventura em aventura, mal ou bem, o barco vai indo… Ele vai indo. Se assim é que assim seja. E, ao que tudo indica, assim é que deve ser, e ele continuará indo… e indo… e… … … indo. Nele estamos nós. Que “a coragem dos utópicos” o vá tocando em frente. Porque isso, sim, e apenas isso será importantíssimo… E dane-se a realidade, a nossa e a do mundo inteiro.

 

     Corretos, pois, estarão hoje a USP e seus intelectuais. E corretos estarão os atuais intelectuais de nossas Faculdades e Universidades todas. Que formam com louvor um número cada vez maior de corajosos intelectuais utópicos que povoam nossas Escolas todas, nossos Institutos, nossas Fundações, nossas Empresas, nosso Congresso, nossas ruas… Que buscam viabilizar utopias. Todos estarão corretos.

E quem sou eu para dizer que não?                  

 

  

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

E não é que a população “politizada” da Zona Sul vaiou a Seleção…?

Que pouca vergonha!

Não é só que o Brasil tenha sido campeão – O BRASIL É TETRACAMPEÃO na Copa das Confederações! – 1997 / 2005 / 2009 / 2013. Quando se dirigia de ônibus ao Maracanã já era TRICAMPEÃO. Além de ser PENTA no Mundial.

Como disse o Parreira e Fred repetiu, futebol tem hierarquia, caramba! Respeite-se. É preciso respeitar. Quem não gosta de esportes ou não gosta de futebol que se tranque em casa e vá ouvir Brahms. Executado na viola de gamba.

Mas aproveitar um jogo de bola para fazer proselitismo é de lascar!

Além de que NOSSO time, que carrega as NOSSAS cores, deu um espetáculo impecável em campo! IM-PE-CÁ-VEL! E não só hoje.

Não posso comemorar por quê? A “eticazinha” de classe média não me permite? Porque a Rede Globo transmitiu a Copa além de transmitir novelas? Porque (também) a FIFA nos comprou? Porque quem está no poder é Rousseff?

E eu com isso? Quem a colocou lá? Não fui eu.

Era só o que me faltava alguém no Governo ou na “Oposição” (?) tentar me sovinar mais esta.

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
 
 
 
 
 

     Por que as pessoas estão nas ruas reclamando do Estado brasileiro – investimentos em serviços públicos, probidade na administração dos recursos etc.? Que é o Estado brasileiro? Quem é o Estado brasileiro?

 

     O Estado brasileiro somos nós. Nada a mais e nada a menos. Nós que estamos nas ruas? Não. Somos todos nós, todos – ele é tudo isso e apenas isso. No Estado, organizados conforme nossos objetivos e interesses concretos e ideais, nós todos nos articulamos politicamente, ou seja, nós nos articulamos não no plano pessoal, mas no plano de nossas Instituições. Que são nossas, de ninguém mais. São o nosso poder. Portanto, o Estado não é e nunca será uma representação da tradução literal de uma ideologia de um único grupo. Quem afirme algo em contrário estará blefando.

 

     A força e a legitimidade de nossos anseios particulares se fazem em uma organização. Quem não estiver organizado estará longe de participar das decisões do Estado – mas nem por isso estará fora dele. Apenas submete-se a ele. E quem está organizado? Estará vinculado a um Partido político? Não necessariamente. Partidos políticos são organizações, mas nem sempre os enunciados partidários contemplam nossas expectativas. E nem sempre adotar eventualmente, em época de eleições, por exemplo, um programa e uma linha de ação partidária significará organizar-se. Estará hoje nas ruas? Também não necessariamente. Nem sempre, em época de manifestações coletivas, adotar uma palavra de ordem significará organizar-se. Da mesma forma, nem sempre manifestar-se nas ruas significará adotar um programa e uma linha de ação partidária; e nem sempre quem está organizado manifesta-se nas ruas – poderá estar por trás delas, manipulando-as. Mas sempre – sempre – nossas atitudes, individuais ou coletivas, privilegiarão determinada ideologia. Inclusive uma ideologia que combata o Estado, o que nos deixará como que flutuando no espaço político, privados de Instituições em que nos apoiar para nos articular e poder ver realizados aqueles nossos anseios. E qualquer coisa poderá nos acontecer independentemente de nossa vontade. Quem afirme algo em contrário estará blefando.

 

    O que se vê nas ruas não são as Instituições formais do Estado, mas é o Estado brasileiro em uma de suas expressões. Que nos diz que ele está em crise. Em crise evidente. E a crise, que não é de hoje, hoje se vê porque representantes de diferentes ideologias, organizados ou desorganizados, nenhum deles satisfeito com o acordo que se fez no Estado, resolveram enfrentar-se abertamente, muitos enfrentando a ideologia que o Governo diz professar, alguns a favorecendo, alguns outros enfrentando o próprio Estado enquanto espaço real ou virtual de articulação nacional. Quem afirme algo em contrário estará blefando.

 

     As Igrejas também são organizações. Agem como Partidos políticos. E uma religião, tal como uma seita, também é ideologia. Quem está nas Igrejas estará organizado. Quem afirme algo em contrário estará blefando. Mas não só o que chamamos de Partido, de religião ou de Igreja será ideologia, é organização e se traduz em poder. A palavra de ordem “Estado laico”, que, em tese, pretende traduzir uma verdade absoluta que estaria acima das ideologias presentes no Estado, traduz nada mais que também ideologia, e permite uma organização bem mais semelhante à das Igrejas que à os Partidos políticos. E  organiza.

 

     Um “Estado laico” não evitará o preconceito dos representantes dessa ideologia em relação aos representantes de diferentes outras ideologias presentes na Política nacional. Ou, mais especificamente, presentes nas ruas, mansas ou violentas, e nas Instituições que abrigam a articulação de quase todos com quase todos, tal como o Congresso Nacional ou uma Presidência eleita por coligações partidárias e apoiada por lideranças extrapartidárias. Nosso Estado, o Estado brasileiro, deve ser laico, ou seja, deve não estar subordinado a Igrejas, seitas, religiões? Sim. Como não deve se subordinar a caprichos partidários. Mas laico ele é em suas Instituições, desde que a República se proclamou. E nada indica que assim não permaneça. Quem afirme algo em contrário estará blefando.

 

     Então por que um Estado laico reivindica um “Estado laico”, senão para afastar das decisões de Estado grupos que estejam organizados em suas Igrejas? Para que se substituam, nas consciências tão pouco esclarecidas, “Deus” por um “Filósofo” qualquer, o Evangelho por uma bíblia laica qualquer, seis por meia dúzia?  

 

     Eu, particularmente, não tenho Partido, não freqüento Igrejas, não sou religiosa, não creio em verdades absolutas, muito menos naquelas cujos “pastores” as fantasiam de “princípio filosófico” ou apelidam de “não-ideologia” e jogam às ruas em palavras de ordem que a massa, formada por ignorantes (mesmo que estes não se manifestem estúpidos exceto em sua recusa diria neurótica a observar a realidade – e, portanto, ignoram a realidade), pretende impor como absolutamente corretas sobre os demais. Observo a Política como objeto de estudo, racionalmente – não a pratico como paixão. Mas, como já disse por aqui, ter fé é condição de humanidade. Quem afirme algo em contrário estará blefando.

 

     Creio firmemente, pois, em que o Estado é necessário, que se compõe e se fortalece no embate entre as idéias (para o que é necessário conhecê-las) e em que um acordo de fato racional possa e deva ser alcançado em benefício do bem estar de todos nós. Para o que é preciso ter claros os nossos limites, tanto os individuais e os coletivos, quanto os geopolíticos e econômicos. Quem afirme algo em contrário estará blefando.

 

     E, se creio (ideologicamente) que sou democrata, não poderei me manifestar preconceituosamente nem permitir preconceitos de qualquer ordem – porque tanto “democracia preconceituosa” quanto “preconceito democrático” são contradições em termos. O que não significa que deva me obrigar a ser tolerante com tudo e com todos. 

 

     Creio ainda em que tudo de que depende o Estado que dizemos querer alinhavar (não é por isso que estamos nas ruas? Mas como seria ele, afinal?) é da responsabilidade da consciência de todos nós. E da consciência das “lideranças” que muitos de nós vamos seguindo como ovelhas, sem querer parar para pensar sequer uma vez, muito menos duas vezes. E quem afirme algo em contrário estará blefando.

 

     Recomendo, portanto, alguma atenção ao vídeo indicado abaixo, que deve ser escutado até o fim, uma vez que ao discurso e à postura que ele divulga nenhum “ativista”, radical ou não, e nenhum canal da “Imprensa livre” vem permitindo espaço. Por puro e absolutamente explícito preconceito. Preconceito ideológico. Porque lhes convém blefar. Porque democratas não são. Quem afirme algo em contrário… estará blefando!

 

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=LcClBBNeczc                

  

 

  

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     O País está em convulsão há duas semanas. E pretendia-se que assim ele permanecesse pelo menos até o dia 26, quando da votação da PEC 37 – votação que o Vice-Presidente e Presidente interino da Câmara dos Deputados, do PT-PR, defendeu que fosse adiada para o 2º semestre. No dia 27, permanecerá esta ou, à falta desta, aparecerá outra razão qualquer para que o País continue em convulsão: a Copa, a punição dos responsáveis pelo Mensalão, o estado das Escolas e dos serviços de saúde, a falta disso ou daquilo… a corrupção…

 

    E um vídeo – http://www.youtube.com/watch?v=v5iSn76I2xs – corre na “rede social”. Nele, não alguém de cara limpa, com nome, endereço, telefone e CPF, mas uma sorridente máscara com bigodes de Salvador Dalí e uma pera mais ridícula ainda no queixo nos diz que “temos que saber por onde começar um novo Brasil”. Para que isso se faça, são levantadas cinco “causas diretas e sem polêmicas de cunho religioso ou ideológico, sem bandeiras partidárias ou subjetividades… causas de cunho moral que são unanimemente aceitas” e mobilizarão muita gente a fazer protestos. O vídeo termina com um verso do Hino Nacional: “verás que um filho teu não foge à luta”.

 

    Somos hoje informados, porém, de que “o MPL não vai convocar novas manifestações”. Isso porque “houve [“houve”, não mais] uma hostilidade com relação a outros partidos por parte de manifestantes, e esses outros partidos estavam desde o início compondo a luta contra o aumento e pela revogação”. Mas não só por isso:“Nos últimos atos pudemos ver pessoas pedindo a redução da maioridade penal e outras questões que consideramos conservadoras. Por isso suspendemos as convocações”, afirmou o líder Douglas Beloni. (noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/06/21/apos-hostilidade-a-partidos-e-pauta-conservadora-mpl-nao-convocara-mais-atos.htm)

 

    E Rousseff foi à televisão falar às massas. E disse o que disse.

 

    Alguns amigos meus, reais e virtuais, andaram zangados comigo, preferindo fazer de conta que não me conhecem… se lhes desse bom dia olhavam para o outro lado. É porque não me mostrei, nem um pouco, entusiasmada com as democráticas manifestações que se fazem em nossas ruas e com a projeção do resultado delas. Pelo contrário, estou com as minhas barbas inteiras de molho. Mas escutei Boechat me dizendo que não estaria proibida “de fazer alguma coisa que minha consciência não me proíba primeiro”. O que quer dizer que não estarei proibida de fazer o que minha consciência me ordene. E venho mostrando por que estou com as barbas de molho. Mas, em vez de ficar só cutucando quem está muito animado com essa festa toda, o que não nos leva a lugar algum, vou tentar agora explicar mais explicadinho qual, na minha avaliação, é o erro de perspectiva que os “revolucionários” de classe média A, B, C, D, F … Z  parecem não perceber quando somam, um a um, seus 20 centavos de plena razão para protestar.

 

***

    O Movimento Passe Livre foi definido por seus criadores em 2005, em “documento aprovado em paralelo ao 5º Fórum Social Mundial”, como “apartidário, mas não antipartidário“. Mas o Movimento Passe Livre apoia “movimentos revolucionários que contestam a ordem vigente“. Então, o que ele pretende não é exatamente impor prioridades a quaisquer Governos, alterar suas decisões ou trocar de Governo – é alterar a ordem vigente.

 

    Nas ruas, até agora, no meio do tumulto em que não há qualquer unanimidade, encontramos gente de diferentes tendências, inclusive partidárias. E encontramos vândalos e cretinos absolutamente sem noção de coisa alguma – que são caso de Polícia ou de Psiquiatria, não de qualquer consideração política; mas não é absurdo algum considerar que possam estar prestando serviços a alguém a troco de uma cerveja. Encontramos também os libertários por convicção, que não emprestam valor algum à idéia de Pátria ou de Nação – são, portanto, internacionalistas por convicção – e têm muita fé em que, algum dia, ninguém mandará em ninguém. Se “o Brasil” se espreguiçou ou não, pouco lhes importa. E encontramos os que não são cretinos nem são vândalos e que, em um recurso livre, eu chamaria de “anarquistas-graças-a-deus” (sem que se exija muita fidelidade ao livrinho de Gattai, só porque o nome é bonitinho e encerra um paradoxo que vem a calhar), tenham ou não tenham fé no sobrenatural sob qualquer definição. São anarquistas “de orelha”, não “de coração”. Entre estes últimos, poderemos encontrar alguns liberais radicais, que também não emprestam valor algum à idéia de Pátria ou de Nação – são, portanto, internacionalistas por convicção – e têm muita fé em que, algum dia, alguma organização que demonstre extrema competência mandará em todo mundo. De preferência, que seja uma que esteja bem próxima a eles mesmos. E, se “o Brasil” se espreguiçou ou não, pouco lhes importará também.

 

    Exceto o primeiro, os demais “grupos” – que não são exatamente grupos sociais, mas vários indivíduos que compartilham alguns desgostos e algumas expectativas, não todas as idéias que têm do mundo – seriam, em tese, “anti-autoridade” (até prova em contrário ser flagrada na prática). E gostariam de eliminar a hierarquia que não seja “livremente aceita”, “substituir o privilégio e a autoridade do Estado” pela “livre e espontânea organização do trabalho” e de outros quefazeres mais. Todos, de um jeito ou de outro, acreditam na “ação direta” (em que é preciso prescindir de qualquer intermediário entre o indivíduo defensor da liberdade e seu objetivo) e acreditam na “propaganda pela ação” (“um ato insurrecional … pode penetrar até as camadas sociais mais profundas e atrair as forças vivas da Humanidade para a luta…” – Cafiero & Malatesta – 1876) e delas se valem quando e o quanto podem. Mas eles só se confundem nas manifestações coletivas.

 

    Nessas manifestações, libertários convictos e taciturnos, respaldados pela “legitimidade dos protestos” (ou seja, pelo pressuposto de que protestar é exercer a liberdade de expressão e manifestação de acordo com a lei), não se limitam a uma “desobediência civil” pacífica, mas partem para o que é chamado de ação direta violenta contra o Estado (que inclui embates físicos, saques, boicotes, sabotagens, greves gerais com piquetes, apedrejamento de prédios e pessoas etc. – o que se traduz, no frigir dos ovos, em vandalismo. Então, somam-se aos vândalos e aos cretinos).

 

    Os “anarquistas-graças-a-deus” são gente boa, alegre, da paz, que não gosta de violência nem de pagar impostos, confunde Estado com Governo, acha possível que o indivíduo e o povo se tornem responsáveis mútua e espontaneamente, sem qualquer coerção, gente que cola, dependura e até tatua na pele o símbolo do Anarquismo entre outros desenhos e frases de efeito, e só quer caminhar, dar milho aos pombos, tomar um picolé, oferecer flores a todos, inclusive à Polícia, voltar pra casa, cantar o “Imagine” do Lennon embaixo do chuveiro, tomar uma sopinha quente e assistir a um bom filme. Indo às ruas e fazendo barulho, crê estar “combatendo a incompetência, a corrupção e a impunidade” do Governo que se instalou no Estado e “lutando por um Brasil melhor”. Mas, em geral, não tem a mais mínima idéia do que seja um Estado, nem a de para que serve ele ou porque existe, idéia essa que até justificaria que essa gente, se a tivesse, fosse contra ou a favor dele – e talvez seja o caso de editar-se (com honestidade, por favor!) rapidamente um “que é Estado?” em quadrinhos, assim como “O Capital” foi publicado, para favorecer-lhe um mínimo básico de compreensão necessária para que possa pretender, além de festa, fazer Política.

 

    Todos, porém, já deveriam ter, pelo menos, compreendido que quem vê cara não vê coração, e que ação direta é ação direta – violenta ou não violenta, não será outra coisa senão ação direta. Será tumulto. E que a propaganda pela ação, dependendo de seu porte, poderá ser o mais eficaz caminho não em direção à liberdade, mas a que se imponha ao Estado o pior e o mais autocrático e corrupto Governo, que poderá até ser de direita, mas não necessariamente de direita será – poderá ser (e em geral é) de esquerda confessa. Assim a História nos diz. E isso ocorre porque quem produz tumulto só produz tumulto e nada mais. E porque ninguém, que esteja atarefado de responsabilidades e/ou tenha uma expectativa de mínimo bem-estar, agüenta tanto tumulto voluntariamente por mais de cinco minutos. Só quem nada tem a fazer. Assim sempre foi e assim sempre será.

 

    No movimento atual, só existe um único ponto de convergência – a convicção de que nossos Governos (federal e estaduais) atuais são ruins. Eles são ruins? Não. Não mesmo. São péssimos! Mas não apenas estes Governos são péssimos como estamos à mercê de péssimos Governos desde que manifestações coletivas exigiram “diretas já”. Quando “o povo brasileiro” foi às ruas exigir “diretas já” ele estava dormindo? Agora acordou? Só agora? E “diretas já” foram exigidas para quê? Para eleger Governos livremente. E “o povo brasileiro” elegeu livremente todos os últimos Governos. Não elegeu bons Governos por quê?  

 

    O protesto chamado para que houvesse redução no preço do transporte público foi feito. E o pretendido foi obtido. É evidente que o preço do transporte público não é o único problema que o País enfrenta. Mas, quem fosse bem intencionado deveria procurar, pelo menos a partir de agora, discutir esse e os demais problemas gordos nacionais e oferecer-lhes alguma solução. Quem fosse esperto procuraria agora se organizar, não em torno de nomes, mas em torno de idéias, e usar o espaço aberto pelas manifestações de inconformidade para divulgá-las e discuti-las. Quem tem idéias? Quem quer ter idéias? Quem quer discuti-las? Alguém tem alguma idéia a discutir ou basta-nos que nas ruas esteja “o povo brasileiro” a protestar?

 

    Rousseff até pode ser “incompetenta”, mas Lula e Dirceu são bastante espertos, o PT incompetente não é, tanto assim que chegou ao poder, e a pressão para a entrada triunfal desse Partido em cena – “para não deixar que a Direita e a Globo tomem conta” do movimento – não me deixa mentir. Muito menos incompetente é o marqueteiro que ditou o discurso feito ainda agora por Rousseff na TV. Que faria o PT em um movimento que começa a caracterizar-se por ser contra o Governo federal, ou seja, contra o PT?

 

    Bem, se ainda haverá Movimento Passe-Livre ou não e se o PT estará presente ou não nas ruas, nesse movimento ou não, ainda não sabemos, pois isso depende da direção do MPL e da direção do Partido, que é disciplinado. Mas já nos havia sido dito que “O Movimento pelo Passe Livre procurou o MST para ajudar na manifestação de amanhã [21/06], para evitar os vândalos e o desvirtuamento. O MST topou ajudar.” (www.conversaafiada.com.br/brasil/2013/06/20/– texto de Ruy Falcão ilustrado com uma montagem fotográfica que exibe uma faixa: “Estudantes de 2013 fazem como fizeram os estudantes de 1964 !!! Também são usados na marcha com Deus e a família pela democracia!!!!”).

 

    O certo é que quem não é muito esperto e/ou não é muito bem intencionado continuou hoje nas ruas. E sempre encontrará um bom motivo ou um bom pretexto para não deixar esmorecer a violência. E um bom pretexto será bom pretexto para qualquer coisa. Inclusive para o Governo.

 

    Quem, não sendo vândalo nem cretino, decidir permanecer nas ruas, para engrossar o movimento que lá está, deverá considerar ainda que pode ser… pode ser… que “o povo brasileiro” representado pelas lideranças do “MPL”, auxiliadas pelas do “MST” e outras lideranças mais, tivesse alguma remota intenção de tomar as Casas Legislativas e demais próprios públicos, e se auto-intitular responsável por uma “gestão democrático-popular” de fato – por isso tentou invadi-los. Com o que provocaria a intervenção da Força de Segurança Nacional e, talvez, das FFAA. Que não são sopa. O Itamaraty, ontem, chamou os Fuzileiros para garantir a integridade do prédio. De faz de conta ou de verdade, caso isso se repita com outra Instituição estatal, ouviremos, imediatamente, a “voz rouca das ruas” de Paris, de Londres, de Madri, de Nova Iorque, de Caracas, de Istambul etc. etc. etc. em apoio a “o povo brasileiro”. E um mar de organizações não governamentais, a partir do comando já dado pela ONU, a exigir do Governo a apuração da responsabilidade dos agentes do Estado nas infrações aos Direitos Humanos e sua punição. Que virão. 

 

    Deu para entender como as coisas estão se avolumando e se alinhavando? Ou ainda não?

    Se os pacíficos “anarquistas-graças-a-deus” continuarem nas ruas se manifestando em ladainhas a qualquer “santo” que lhes apareça e prometa milagres, tal como o Movimento do Passe-Livre, sem saber quando delas poderão sair porque não sabem qual seria a solução a dar para tantos problemas, acreditando que essa solução de daria por encanto com o impeachment de Rousseff, ou com a eleição de Barbosa ou outro nome presumidamente íntegro qualquer, ou querendo apenas que o Estado se encolha à sua insignificância, ou apostando em que o movimento, com exclusividade, seja o Estado ele mesmo ou o possa substituir, é porque estão considerando cômodo, agradável e divertido servir como massa de manobra e bucha de canhão aos anarquistas por convicção… aos petistas… às lideranças dos demais Partidos nacionais… às organizações internacionais… à Rede Globo… ao interesse dos Estados e do capital estrangeiros… ao Governo atual…  

 

    Tudo bem. A máscara mudou, mas faz um bocado de tempo que muita gente aceita ir às ruas fantasiada de palhaço. Se “a voz do povo é a voz de Deus”, como muitos “anarquistas-graças-a-deus” e outros tantos acreditam, “a alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo”. Quando o circo pegar fogo, quem estiver na arquibancada batendo palmas há de se queimar.

 

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    Seja o que for, como for, na verdade, posso até me ter excedido em considerações, mas juro que minha primeira intenção era estar aqui só para mostrar que Campinas também é Brasil… e também é “cultura nacional”. O que pode ser conferido logo abaixo. Considere-se que a redução do preço do transporte em Campinas – que estava fixado, há meses, em R$3,30 – foi anunciada antes da manifestação começar nas ruas da cidade. Essa redução não foi de 20 centavos – foi de 30 centavos. Como quem paga a condução de minha funcionária sou eu, devo confessar: até que gostei…

 

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CORREIO POPULAR

– 20/06/2013 – 19h08

Tropa de choque e manifestantes entram em confronto

Agressores estavam com sacolas com bombas, demonstrando que estavam preparados para o confronto  A situação na Prefeitura de Campinas está cada vez mais tensa, com um confronto entre manifestantes e a Tropa de Choque da PM. Mais de 50 pessoas, que estão com rostos cobertos com camisetas ou máscaras, jogam rojões e pedras contra policiais.

Esses agressores estavam com sacolas com bombas, demonstrando que estavam preparados para o confronto. Eles já haviam se desentendido com outros participantes da manifestação, que querem um ato pacífico. A polícia revida com bombas de gás e atira com balas de borracha.

Outros participantes da passeata, que não querem violência, estão subindo a Benjamin Constant em direção à Glicério.

 

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– 20/06/2013 – 19h34

Grupo quebra radares e semáforos no Centro de Campinas

Após os confrontos nas escadarias da Prefeitura, grupo quebrou radares e semáforos na Anchieta

Durante os confrontos que ocorreram na frente da Prefeitura de Campinas, um grupo destruiu um radar e outro está sendo derrubado. Eles também estão tentando destruir um semáforo para pedestres. Um ponto de ônibus foi incendiado na frente da Prefeitura.

 

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20/06/2013 – 19h47

Ônibus são depredados na Amoreiras e João Jorge

Grupo destruiu cinco ônibus durante o protesto: muitos manifestantes estão indo embora.

Cinco ônibus foram depredados por grupos mais exaltados de manifestantes. Os ataques ocorreram nas avenidas João Jorge e no corredor das Amoreiras. Quatro ônibus convencionais e um articulado tiveram os vidros quebrados ou arrancados e foram recolhidos para as garagens.

 

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– 20/06/2013 – 20h08

Minimercado Extra é saqueado por vândalos

Tropa de choque se direciona aos vândalos e tenta restabelecer a ordem em frente à Prefeitura

Vândalos invadiram e saquearam o minimercado Extra, que fica na Avenida Anchieta no Centro de Campinas, na noite desta quinta-feira (20). O saque ocorre em meio as manifestações violentas que acarretaram na tentativa de invasão da Prefeitura, que fica na mesma via. Até carrinhos do supermercado foram levados.  Uma loja de noivas e todos os pontos de ônibus que ficam próximos ao Palácio de Jequitibás também sofreram vandalismos.  Uma placa foi derrubada e pedaços de ferros estão sendo usados como arma.  A tropa de choque se direciona ao grupo de vândalos e tenta restabelecer a ordem em frente à Prefeitura.

Com informações do repórter Fábio Gallacci, da ANN

 

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Vândalos vão para praça e fazem barricada com fogo

Vândalos fazem uma praça de guerra no Centro e em parte do Cambuí na noite desta quinta-feira

20/06/2013 – 21h43

Vândalos fazem uma praça de guerra no Centro e em parte do Cambuí na noite desta quinta-feira (20) em Campinas. A cavalaria da Polícia Militar desceu por volta das 21h45 a Avenida Benjamin Constant, no Centro, em direção à Avenida Anchieta (onde está localizada a Prefeitura). Na Rua Boaventura do Amaral, próximo à Praça Carlos Gomes, que está destruída, os vândalos fizeram uma barricada com fogo para tentar manter a polícia distante. O helicóptero Águia da PM está sobrevoando o local. Na rua General Osório há quebra-quebra e corre-corre.

Com informações da repórter Cecilia Polycarpo, da AAN 

 

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– 20/06/2013 – 22h03

Tropa de choque e cavalaria se encontram contra vândalos

Policiais vão em direção ao grupo que segue aterrorizando o Centro de Campinas no final desta noite 

A Tropa de Choque e a Cavalaria da Polícia Militar encontraram-se e avançam agora, às 22h03, na Avenida Anchieta, em direção ao grupo de vândalos que segue aterrorizando o Centro de Campinas nesta quinta-feira (20).

A manifestação, que começou pacífica, e que alcançou a quantia de 40 mil pessoas, segundo informações da Polícia Militar, está agora com cerca de duas mil. 

Com informações da repórter Cecilia Polycarpo, da AAN 

               

  

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 
 

 

 

     Hoje, porque amanheci muito inspirada, cometi um soneto que chamei de “soneto de transfiguração”. Inspirei-me em Vinícius de Moraes. Se minha obra for considerada um plágio, não me importarei muito. Nesses tempos de total liberdade, igualdade e fraternidade, assumo, por conta própria, os mesmos direitos de que gozam as celebridades acadêmicas. Não fiquem tão curiosos – vou transcrevê-lo logo abaixo. Mas, em seguida, inspiração já posta em rimas ou plágio já feito, fiz um giro rápido – incompleto, portanto – pelas páginas dos meios de comunicação. Deu para sentir o clima que se faz em volta de mim.

 

    Conscientes de sua função, os que consideramos ou os que se consideram, eles próprios, “intelectuais orgânicos” se manifestam. Como sempre se manifestam em momentos de inércia ou de agitação social. E nos dizem coisas interessantes tal como sempre nos disseram. 

 

    Hélio Schwartsman, verdade seja dita, hoje, 19 de junho, estava surpreendentemente sensato. Ele nos diz (www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2013/06/1297338-entre-a-sabedoria-e-a-loucura.shtml): “Entre as principais patologias do pensamento de grupo destacam-se a radicalização, a supressão do dissenso e a animosidade. Movimentos terroristas, caça às bruxas e brigas de torcida são, afinal, fenômenos de massa. Multidões podem ainda ser manipuladas por demagogos e geram desastres históricos com seu comportamento de manada. Políticos, com seu aguçado senso de sobrevivência, aprenderam a cultivá-las e temê-las.”

 

    Gilberto Dimenstein, que “integra uma incubadora de projetos de Harvard”, como sempre manteve-se atento à biruta do bairro: “A informação capaz de provocar mais irritação nos brasileiros ainda não foi viralizada – imagina quando for. Pesquisa Datafolha publicada hoje revela a queda expressiva do prestígio das instituições entre os paulistanos – o que certamente revela, em maior ou menor grau, uma tendência nacional. (…) Quanto empregos deixam de ser gerados porque os empresários são sufocados por tantos impostos e burocracia? Quanto o país deixa de crescer por causa dos gastos gigantescos com o funcionalismo público e poucos investimentos? Quanto perdemos em melhorias sociais por causa da incapacidade de os governos trabalharem em rede e com foco, otimizando os recursos? (…) O dia em que cada cidadão tiver em mente (e no coração) que fica trabalhando esses cinco meses por ano para ter serviços ruins, em meio a tanto desperdício, a irritação vai ser muito maior do que vemos hoje. Mas é só uma questão de tempo.“  (www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/2013/06/1297521-imagina-quando-eles-descobrirem.shtml)  

 

    Élio Gáspari (www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2013/06/1297394-o-monstro-foi-para-a-rua.shtml), que não desiste de nos contar suas histórias sobre a História do Brasil, falou e disse o que pode ser mais ou menos assim resumido: o fato é o fato e contra fatos não há argumentos – portanto, dane-se a teoria porque teoria, minha gente, não se baseia em fatos. É esperto esse rapaz… Ele diz: “… JK morreu num acidente de automóvel e o monstro levou-o no ombros ao avião que o levaria a Brasília. Lá ocorreu a maior manifestação popular desde a deposição de João Goulart. Em 1984 o general Ernesto Geisel estava diante de uma fotografia da multidão que fora à Candelária para o comício das Diretas Já. (…) Demorou uma década, mas o monstro prevaleceu. O oposicionista Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral e a ditadura finou-se. O monstro voltou. O mesmo que pôs Fernando Collor para fora do Planalto. (…) É natural que junho de 2013 desencadeie uma produção de teorias para explicar o que está acontecendo. Jogo jogado. Contudo, seria útil recapitular o que já aconteceu. Afinal, o que aconteceu, aconteceu, e o que está acontecendo, não se pode saber o que seja.” Mas, se não se pode saber, para que servirá recapitular o que já aconteceu desde mil novecentos e antigamente? Para encher a tela e o papel?

 

    Em algumas festas de arromba, como esta que estamos vendo e vivendo em nosso País, alguns tantos evitam dançar ou cantar e preferem se divertir vestindo-se de preto e cobrindo-se com lençóis brancos. Seus vultos podem ser vistos esvoaçando na semipenumbra que deveria bem servir aos namorados. E quem os vê corre a avisar aos demais que há assombrações no jardim. Se alguém puxar o lençol, verá um ser de carne e osso dando risadas. E dará risadas não só porque assustou todo mundo. Assustando, desviou, de todo mundo, a atenção devida ao que deveria ser visto e não é sequer percebido. Isso é, de fato, de muito mau gosto, mas acontece.

 

    Há os que apontam assombrações de todo tipo, inclusive as do tipo “terrorismo de Estado”. Há também os ventríloquos, que se satisfazem com emprestar voz, vida e sabedoria aos sapos, aos anõezinhos de cerâmica e às corujas. Poderiam ser chamados de irresponsáveis, mas nem todos são. Sentem-se e são muito responsáveis – pela divulgação e a afirmação de idéias suas ou alheias.

 

    O mais interessante neste giro feito hoje em nosso esplêndido jardim foi o que li em http://www.viomundo.com.br/denuncias/no-centro-de-sao-paulo-manifestante-dizia-foda-se-o-brasil-nacionalismo-e-coisa-de-imbecil.html de responsabilidade de Rodrigo Vianna. Ele narra o que viu na manifestação do “passe-livre” em São Paulo. O texto é longo, por isso o “resumo” também será: “A chegada ao viaduto do Chá foi surpreendentemente rápida. Trabalhadores e lojistas tinha ido embora mais cedo, deixando o centro de São Paulo estranhamente vazio às seis horas da tarde. (…) Êpa… De repente, o grupo dos mascarados se exalta e avança sobre os portões da Prefeitura. Voam pedras, arrancadas do calçamento do centro antigo. Pedras portuguesas. Jovens mascarados arremetem contra os homens da Guarda Civil Metropolitana. Um deles usa camiseta branca justa, bota em estilo militar e age com a volúpia típica dos provocadores que conhecíamos tão bem nos anos 80 – quando a Democracia ainda engatinhava. (…) A turma mais moderada grita: ‘sem vandalismo’. Os mascarados devolvem: ‘sem moralismo’. (…) Um grupo segura uma bandeira brasileira e queima. Um rapaz grita: ‘foda-se o Brasil, Nacionalismo é coisa de imbecil’. E aí tenho certeza que há um caldo de cultura perigoso por aqui. Um Brasil fraco, um Estado nacional sob ataque, não será capaz de melhorar a vida do povo. Isso interessa para os conservadores e para seus aliados nos Estados Unidos. (…) chega um grupo novo, mais de cem pessoas. Trazem uma faixa amarela, com a frase ‘Chega de Impostos – Mooca’. O bairro da Mooca é um reduto da classe média – em geral, conservadora. A palavra de ordem é ‘Fora, Dilma’. (…) Penso com meus botões: essa turma foi pra rua pra pedir serviços públicos de qualidade e, de repente, está pedindo também menos impostos, menos Estado. E queimando a bandeira do Brasil. O que é isso? (…) sintoma de uma sociedade que incluiu jovens pelo consumo, sem politização. (…) Desde 2010, dizíamos nos blogs que essa equação do lulismo poderia não fechar. Despolitização? Ou pior que isso: um pé no fascismo? O discurso que nega a Política é a melhor forma de deixar a avenida aberta para uma Política autoritária. (…) A esquerda organizada, hoje tive certeza, precisa disputar as ruas. Lula precisa reaparecer e botar o bloco na rua. (…) A massa lulista – aquela massa forte das periferias das capitais, e do Nordeste – essa massa não está nas ruas. (…) não ficaria surpreendido se, desse processo todo, nascesse não ‘uma nova política’. Mas um governo (mais) conservador, que botasse o Brasil de novo ‘nos trilhos’ da submissão aos EUA, jogando fora os tênues avanços da Era Lula.”

 

    O provocador de camiseta branca justa e bota em estilo militar, que teria agido com a volúpia típica dos que teriam sido conhecidos nos anos 80, quando a Democracia ainda engatinhava, já foi identificado (noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/06/19/homem-que-depredou-prefeitura-e-identificado-pela-policia-e-esta-sendo-procurado.htm) com direito a gozações em outro sítio que mais bem especifica sua aloprada vida pregressa. Por outro lado, que me desculpem os que atribuem nossa desordem a teóricos defuntos: o cidadão que escreveu isso e mais um pouco não os leu, não – deve ter lido, sim, e com muita e muita atenção, o texto intitulado “DOCUMENTOS SECRETOS“ (operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/22498/). Que também deveríamos ler, porque mostra uma face da realidade que não consideramos, tão preocupados que estamos com apenas caçar fantasmas. Mostra uma face que não será a única face da realidade. Mas o rapaz leu, recitou “uni-du-ni-tê” e, carente de toda e qualquer teoria, pensa com seus botões que fez a opção corretamente politizada.  

 

    Mas, tudo bem: como disse Gáspari contando suas histórias, “o que aconteceu, aconteceu, e o que está acontecendo…”  Não, não é que “o que está acontecendo não se pode saber o que seja” – é que ninguém quer saber. O que está acontecendo é que não conseguimos ainda dar um único passo no sentido de sair da atmosfera sufocante da Guerra Fria tal como ela se firmou na periferia e continuamos sufocados. E, como disse Schwartsman em sua surpreendente sensatez de hoje, “multidões podem ainda ser manipuladas por demagogos e geram desastres históricos com seu comportamento de manada. Políticos, com seu aguçado senso de sobrevivência, aprenderam a cultivá-las e temê-las”. O que está acontecendo é que “passe-livre” não é sequer nome adequado a uma reivindicação de redução do preço das passagens a zero – e as lideranças do movimento bem sabem disso e pretendem “passe-livre” de fato para todos em qualquer tempo e lugar a qualquer preço (e eu deveria até achar bom, pois poderia mais plagiar à vontade). O que está acontecendo é que o PCC e o Comando Vermelho ainda não viram vantagem alguma em tomar a si a direção desse movimento. Mas, como disse Dimenstein, sempre atento à biruta do bairro, “é só uma questão de tempo”. O que está acontecendo é que, enquanto nos dedicamos a caçar fantasmas, e só a caçar fantasmas, não nos organizamos porque não sabemos mais o que é honra, altivez ou soberania. E o País só vai levando a breca.

 

    Enfim… que se danem as teorias. Mesmo porque teorizar dá muito trabalho, é tão chato quanto “produzir comida tendo de enfrentar os peles-verdes, os peles-vermelhas e os caras de pau”, algumas teorias também nos podem assombrar, outras são muito enrugadas e pouco atraentes, e teorias novas não surgem onde todos se recusam a criar fatos novos, tal como começar a pensar seriamente no bem do Estado brasileiro, sem buscar modelos viciados no primeiro ou no último mundo, e, portanto, recusam-se a relacioná-los com outros fatos que despontam nas ruas ou no horizonte. Enquanto isso, as mais novas palavras-de-ordem do movimento que nas ruas está são também velhas de doer, e foram, hoje à noite, levantadas bem alto para que nenhum inglês possa dizer que não as viu e não sabe de onde vêm: são “passe-livre”, “reforma agrária” e “reforma urbana”. O único problema que elas resolvem é o da Constituição dita “cidadã”, que, “lideranças”, avocando poderes, rasgam, de alto a baixo. A palavra-de-ordem que se esconde vestida de preto sob esses lençóis brancos que tanto assustam tanta gente que, mesmo assim, insiste em ir às ruas, é uma só: “dane-se o Estado”. De que adianta alguém cantar o Hino nacional e se enrolar na Bandeira brasileira se ninguém sabe nem quer saber a que eles se referem?

 

Pois bem. Agora, ao meu soneto:

 

Soneto de Transfiguração 

 

De repente, o riso fez-se do pranto,

Barulhento e colorido como um rito.

E das bocas abertas fez-se o grito

E de rojões e pedras fez-se o espanto.

 

De repente, do marasmo fez-se o vento

Que, aos ônibus, alastrou alguma chama.

E do ignorado fez-se o ressentimento

E da turba inglória fez-se a fama.

 

De repente, não mais que de repente,

Fez-se uno o que é dessemelhante

E fez-se impávido o que é obediente. 

 

Fez-se do nada um ser surpreendente.

Fez-se virtuosa uma aventura errante.

De repente, não mais que de repente.

 

Sub censura…

              

 

  

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Newton, amigo meu de infância, já me dizia, confesso, bem antes que eu lhe dissesse:

“DOIS CORPOS NÃO OCUPAM AO MESMO TEMPO O MESMO LUGAR NO ESPAÇO”.

Esse enunciado podia ser repetido em voz alta, era bem aceito na vizinhança e na família, pelos mais velhos e pelos mais jovens. Por causa dele, ninguém nos mandava sair da sala.

Nos últimos tempos, porém, ele vem sendo muito contestado no trânsito, tanto pelos carros nas ruas quanto pelos indivíduos dentro dos ônibus.

Mas o que nós dois, Niltinho e eu, continuamos ainda discutindo é só se esse enunciado mais serviria à Física, à Metafísica, à Política… ou à politicagem…

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(…)  “Como cidadão, acho que quem deveria financiar o transporte público é o transporte individual. Além de melhorar a mobilidade, incentivando quem tem carro a usar o transporte público, já que a gasolina seria mais cara e as tarifas mais baratas, ainda existem os benefícios ecológicos do processo”, disse Haddad sobre a proposta. (…) “Eu quis apresentar os dados para que todos saibam o que vai acontecer caso a cidade de São Paulo opte por revogar o aumento”, afirmou.

– o resto da notícia pode ser lido em

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/06/18/haddad-sinaliza-reducao-da-tarifa-em-sp-secretario-propoe-imposto-sobre-a-gasolina-da-bomba.htm

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
 
 
 

     Ninguém mais suporta o Governo de Rousseff – que vale tanto quanto o de Lula, que substituiu o Governo de Fernando Henrique – que pouco valia, e substituiu um Governo impeachmentado que valia ainda menos, e substituiu o Governo de Sarney – que nada valia, e substituiu o Governo de Figueiredo – do qual ninguém gostava, nem os contra nem os a favor, nem mesmo ele próprio, o Presidente, porque estava lá para isso mesmo, para ninguém gostar.

 

    Com isso gastamos quase quarenta anos de nossas vidas.

 

    E este foi o resultado de nossa convicção patriótica de que fazer política se resume a fazer campanha nas ruas, votar e eleger. Depois dormir, dormir… Talvez sonhar. Assim nos limitamos a eleger qualquer um que aparecesse nos dando uma cantada ou cantando de galo nos palanques do terreiro. Pouco importava se cantasse absolutamente desafinado, pois perdemos no tempo o nosso diapasão, ou se cantasse sem partitura, no improviso. Poderíamos virar o disco, trocando seis por meia dúzia. Isso nos bastou porque nos viciamos no embalo de quem nada nos diz e a considerar que tudo o que poderíamos dizer já foi ouvido.

 

    Assim também, de táticas e de estratégias políticas, que exigem objetivos definidos e planejamento, nada sabemos. Nem queremos saber. Não nos interessam.

 

    Mas há quem saiba chegar ao que pretende. Quem de táticas e estratégias saiba um bocado. E não vacile em apropriar-se da vida alheia.

     A novidade tática dos que vêm cantando de galo em nossos ouvidos foi despir-se das penas e partir para um canto de sereia. E, para divulgá-lo, lançou-se um vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=jPo6Bg8u5ss&feature=share 

 

    Esse vídeo soma uma entrevista, um contracheque e algumas imagens do cotidiano dos Policiais às imagens do nosso cotidiano e as dos últimos protestos nas ruas; pede emprestado o fundo musical de “Requiem For A Dream” (filme norte-americano que tem um roteiro simplesmente medonho) e como legenda ganhou um “poema” escrito na gramática do ENEM:

“Chamado à Polícia – o GIGANTE acordou – Caros amigos policiais, /o povo saiu às ruas. /Nós lutamos por direitos./ Nós lutamos por respeito./ Nós somos muitos./ Somos uma multidão./ Mas antes de tudo, / nós somos você. / Somos brasileiros,/ vestimos a mesma farda. / Aqueles que ordenam que nos reprima,/ São os mesmos que te reprimem. / Nós não estamos contra vocês./ Respeitamos sua profissão./ Reconhecemos seu heroísmo./ Seu juramento não é para governantes ou partidos./ Seu juramento é para a pátria./ Somos todos uma só nação./ o GIGANTE acordou/ E precisa de vocês. /ABAIXEM as ARMAS/ Levantem nossa bandeira.”

 

    O vídeo é dedicado aos Policiais Militares que hoje ainda tentam conter a baderna e o quebra-quebra, mas “precisariam” de compreender que “estão do lado errado”.  E o poeminho é sedutor… Talvez irresistível.

 

    Se os PM estão do lado errado, todos os que não estão “se manifestando” também estarão. Podemos então, todos, ir às ruas, a apoiar “o lado certo”.

 

    Pois muito bem: e qual seria “o lado certo”?

 

    Se de táticas e de estratégia nada sabemos nem queremos saber, o certo, mesmo, ainda que não o tenhamos percebido, é que temos nada e ninguém diferente do que já temos. Sendo assim, nada e ninguém diferente poderá substituir quem está no Governo. Mas, se os Policiais Militares forem seduzidos e obedecerem aos comandantes do “abaixo tudo e qualquer coisa”, a baderna engrossa, o mundo nos aplaude e o Governo balança. E só balança.

 

    Que teremos com isso? Teremos outro “Pacto de Moncloa”? Bem, poderíamos, pelo menos, tentar “adivinhar” quem, depois de tudo, seria chamado às ruas para defender a “ordem pública”.

 

    É muito difícil? Não, não é, não.

 

    Mas, então, é isso. Ou seria mais alguma coisa?

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     O transporte é caro, pesa no bolso do trabalhador e do estudante, não oferece qualquer conforto, nada disso se contesta e nada disso entrará, aqui, em discussão. Por enquanto, apenas registre-se:

 

    – da petição “Presidenta Dilma: Venha a público e defenda o nosso direito de se [sic] manifestar nas ruas do Brasil”, de iniciativa de Olívia de Castro e Marília Persoli :  “A imprensa e a polícia tentam nos classificar como vândalos, mas não é verdade. É uma desculpa para usar uma força policial violenta e brutal. A grande maioria de nós é contra a violência, só queremos um país livre para exercer a nossa cidadania” – www.change.org/pt-BR/peti%C3%A7%C3%B5es/presidenta-dilma-venha-a-p%C3%BAblico-e-defenda-o-nosso-direito-de-se-manifestar-nas-ruas-do-brasil

 

    – de Olívia de Castro (que foi atriz em Coletivo de Galochas e estudou na USP): “no Quarto Ato contra o aumento das passagens do transporte público (ênfase no “público”, por favor), milhares de pessoas se reuniram em frente ao Teatro Municipal. Os ânimos de uma juventude aprendendo a fazer política estavam fortes. Todos unidos em palavras de ordem, sempre reforçando o caráter pacífico da manifestação” – www.facebook.com/oli.de.castro1?fref=pb&hc_location=friends_tab

 

    – de Marília Persoli (que trabalhou na Bienal Internacional de Arte de São Paulo e também estudou na USP): “A polícia serve o Estado????????? Esse Estado não me representa! Abaixo a repressão! O povo tem direito (e agora, mais do que nunca, o dever!) de se expressar!” – www.facebook.com/marilia.persoli?group_id=0

 

 

    Até aqui, isso que foi dito, dito foi; o que não foi dito, não foi. Digamos que tenha sido dito que o que é, é; e o que não é, não é.

    Passemos então ao que diz Marco Antonio Villa, Bacharel e Licenciado em História, Mestre em Sociologia, Doutor em História eProfessor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, em texto publicado em http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes

 

    “Sobre o tal “Movimento Passe Livre”, vale destacar dezesseis pontos:

    1. não é o que pode ser chamado de movimento social, sociologicamente falando;”

    Mas não seria um movimento social por quê? Podemos chamar qualquer manifestação dos conflitos sociais, desde que organizada, exteriorizada e continuada, de movimento social. Um movimento social não será necessariamente representativo da “luta de classes”. Não necessariamente visará a transformar as estruturas, nem necessariamente será suficientemente amplo e capaz de transformá-las. Mas sempre visará a alterar dada articulação de poderes. Na chamada ”Sociedade Civil”, o conjunto de organizações que não se reconhecem no Estado, ao qual é teoricamente dado o direito, quando não exigido o dever, de contrapor-se ao Estado, os interesses e as insatisfações se manifestam por meio de pressões e protestos políticos. Essas pressões e esses protestos são, independentemente da dimensão e do resultado, movimentos sociais, sociologicamente falando.

 

    “2. é um ajuntamento de pequenos grupos ultra-esquerdistas sem qualquer importância política;”

    O protesto orquestrado, que de espontâneo nada tem, que se manifestou principalmente em duas capitais a pretexto da redução do preço das passagens, extrapola os limites dessa reivindicação. O motivo dos tumultos provocados nas ruas são outros e muitos mais. E há uma articulação, mesmo que imperceptível, mesmo que incipiente, que já poderá ser, no mínimo, farejada por um sociólogo, entre as diferentes organizações que dele participam – que não poderão ser tratadas como apenas “pequenos grupos ultra-esquerdistas”, muito menos como “sem qualquer importância política”. Essa articulação, inclusive supranacional, justifica, por exemplo, a Imprensa nacional publique que Baris Gonilsr, um dos líderes das manifestações na Turquia, manifesta sua “solidariedade para com os brasileiros. ‘Quero que os jovens de São Paulo saibam que eles não estão sozinhos. A causa deles é justa e eles devem, sim, se manifestar por seus direitos. Estamos todos juntos (…) Aqui, toda vez que eles vinham com mais violência, a gente reagia com paz. Isso acabou enfraquecendo o governo, e é por isso que nós vamos vencer. Espero que o mesmo aconteça no Brasil’ ” (noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2013/06/14/). E também justifica o acúmulo dessas manifestações de insatisfação com outras que têm por motivo ou mero pretexto qualquer coisa, como a greve dos metroviários, o protesto dos sem-teto em Brasília, o dos “índios” em diferentes pontos do território, o das igrejas cada vez mais assistencialistas, o em favor de uma “autonomia legislativa, tributária, judiciária e administrativa dos estados”  etc. etc. Tudo para que o Estado cada vez mais se debilite e não possa, nunca mais, em tempo algum, mesmo que “sob nova direção”, sequer pensar em tentar promover a reabilitação da Sociedade nacional.  

 

    “3. tem uma prática típica de grupos fascistas, são eleitoralmente inexpressivos;”

    Grupos fascistas não terão uma prática exclusiva de grupos fascistas. Qualquer grupo radical (ou qualquer organização radical) terá uma prática semelhante e equivalente, seja eleitoralmente expressivo ou não. A influência política de qualquer grupo (ou qualquer organização) radical poderá ser bastante expressiva. E Política não se resume a momentos de eleição. Ou não deveria se resumir…

 

    “4. como a eterna crítica ao capitalismo – que vive uma ‘crise terminal’, falam isso desde o final do século XIX – não se materializa na ‘revolução’, necessitam construir um móvel de luta para não perder o apoio das ‘suas bases’;

    “Bases” políticas servem para eleger candidatos. E para apoiar políticas públicas. Mas servirão também a outros objetivos. Quanto à crítica ao capitalismo, ela não é exclusiva de grupos radicais. Ou não deveria ser. Se “o capitalismo” em teoria é um sistema que atendeu à evidência do capital, se “o capitalismo” evoluiu, driblando as suas “crises” e atendendo à evolução do capital, se o sistema teórico evoluiu, as práticas capitalistas, econômicas e políticas, estarão teoricamente sempre sujeitas a uma série de críticas. E sempre estiveram. Na prática, especialmente, mas não exclusivamente, quando “os ânimos de uma juventude aprendendo a fazer política estavam fortes. Todos unidos em palavras de ordem”… que nada mais são que… palavras de ordem. Criticar o capitalismo é um exercício teórico bastante válido, não apenas “coisas da juventude”. Se no capitalismo houvesse críticos inteligentes e bem intencionados, essas críticas levariam a que as imperfeições da prática capitalista fossem dirimidas a cada “crise”, especialmente levando-se a demografia em consideração. Como não há tais críticos, há apenas os que “têm fé” no capitalismo, as críticas, corretas ou absurdas, serão feitas livremente apenas por aqueles que “não têm fé” no capitalismo. Tudo se transforma em fé de mais ou fé de menos. E, como muitas das críticas são pertinentes e nada se faz para que os problemas sejam solucionados, as correntes teóricas ditas contrárias ao capitalismo (muitas delas bastante capitalistas na prática…) ganham força. À toa. Ou não tão à toa.

 

    “5. o desemprego e a crise econômica – presentes na Europa – aqui são irrelevantes, portanto a ‘mobilização’ tem de buscar outro móvel de luta;

    O desemprego no Brasil será qualquer coisa, exceto irrelevante – e é apenas disfarçado por meio de esmolas governamentais. Nem por isso a situação nacional se refresca, pois nada se altera estruturalmente. E o desemprego, que se soma ao subemprego, no Brasil, é estrutural. Resolvê-lo exige mudanças estruturais. Já a crise européia não chegou ao País como qualquer “marolinha”. Chegou de forma atípica, sim, mas chegou, e se demonstra em todos os níveis de consumo, em todos os setores da produção e em todos os estudos econômicos minimamente sérios.  

 

    “6. a passagem de ônibus virou um eficaz instrumento para as lideranças desses grupelhos dar satisfação às suas inquietas ‘bases’, cansadas de ouvir discursos revolucionários, negadores da democracia (chamada depreciativamente de ‘burguesa’), sem que tivessem o que chamam de prática revolucionária;

    Por que o Estado não deveria arcar com uma “bolsa-transporte” se com tantas outras “bolsas” já arca? Um “cansaço” provocado por discursos pseudo-revolucionários não eliminou a prática chamada “revolucionária”, a que repudia a democracia formal (chamada depreciativamente de “burguesa”, mas bastante conveniente a Partidos políticos que se dizem de “operários” – inclusive a “operários intelectuais” – desde sempre). Pelo contrário, alimentou-a, embora recentemente o tenha feito não mais sob a proteção de um Estado que teve a expectativa da vitória do comunismo em dimensão internacional e simplesmente faliu. É uma prática pseudolibertária, anarcóide, que visa a condenar o Estado em todas as suas manifestações. Sem outro objetivo. Se, nos Estados sólidos, serve aos grupos minoritários como forma de pressão, nos mal-desenvolvidos serve apenas para mais desestruturá-los. É também facilmente assimilável por qualquer indivíduo, mesmo aquele que não assuma qualquer tendência dita socialista ou qualquer outra, mesmo aquele que se pretenda “apolítico”. Por outro lado, a pretensão à liberdade individual absoluta sempre foi uma das principais razões da violência praticada contra uma Sociedade. Mas, se “cidadania” for compreendida como condição oposta à condição de cidadão (que pressupõe um Estado) e como liberdade individual absoluta, tal como vem sendo (um País livre é outra coisa), qualquer manifestação no sentido de preservar qualquer ordem será vista como repressão, como uma agressão, “uma desculpa para usar uma força policial violenta e brutal” por qualquer um que só queira “um país livre para exercer” não a nossa, mas a sua “cidadania”.

 

    “7. para estes grupelhos, o vandalismo é um excelente instrumento de propaganda. Eles se alimentam do saque, da violência e da destruição do patrimônio público e privado;

    Chamar de “grupelhos” os que incentivam conflitos, manifestações e o vandalismo manifestado já há algum tempo e reeditado em nova brochura nos últimos dias é mais ou menos o mesmo que pretender apontar um batedor de carteira como mais presente na Sociedade e mais danoso a ela que as organizações narcotraficantes e a dos que fazem a apologia da liberação das drogas. E é um excelente instrumento de propaganda. A anarquia não se alimenta apenas de saques, violência e destruição do patrimônio público e privado – ela também se alimenta do pouco caso que dedicamos aos inimigos da coisa pública. Na verdade, a ninguém mais apetece respeitar o patrimônio nacional, freqüentemente depredado, faz tempo, muito menos respeitar a Bandeira, freqüentemente ultrajada, faz tempo, e pichada durante as manifestações recentes; e uma das palavras de ordem hoje na internet e que, por certo, estará nas ruas é “o vandalismo veste farda” (www.facebook.com/notaderodape). Uma interessante sugestão, porém, de um universitário de nome Thiago Alcarpe, poderá ser encontrada em página que convida a que as janelas sejam cobertas de lençóis brancos para que “todo mundo” veja o apoio dado ao “movimento a favor do transporte público de qualidade e contra o aumento de tarifa” (www.facebook.com/events/281102965366442/?hc_location=stream): “Usem a bandeira brasileira como manto em volta do corpo, qualquer ato contra uma pessoa que esteja com a bandeira sobre o corpo é um ato contra a bandeira nacional. Isso é crime conforme o art. 44º do Decreto-lei nº 898, de 29 de setembro de 1969: ‘Destruir ou ultrajar a bandeira, emblemas ou símbolos nacionais, quando expostos em lugar público. Pena: detenção, de 2 a 4 anos.’ Os policiais provavelmente não vão respeitar isso devido à seu péssimo treinamento e pouco amor à pátria. Isso vai fazer eles se atacarem, pois vão ser feitas fotos com policiais atirando contra a bandeira, atirando spray de pimenta e bombas. Mesmo se nesse momento a imprensa não ficar a nosso favor, vai atrair a atenção da imprensa internacional. Não apenas pelo fato do ataque à bandeira, mas também porque o dever de policias/bombeiros e médicos é servir a sua pátria”  (em transcrição literal). Por que, de repente, um Decreto dos tempos “ditatoriais” terá sido agora tão bem lembrado? Que representa a Bandeira nacional senão o Estado? Embrulhar-se nela para garantir a liberdade de quebrar vidraças, pichar paredes e parar o trânsito é sinal de respeito? É sinal de algum afeto que se encerra em um peito juvenil? Ou é escracho e é desafio? Como um Policial Militar deveria entender essa atitude e a ela reagir?

 

    “8. o poder público não sabe agir dentro da lei para conter os fascistas. Ou se omite, ou age como eles (ou da forma como eles querem);

    Esses “fascistas” serão “fascistas” porque utilizam uma prática truculenta, típica de grupos fascistas? Tudo bem, usemos o termo entre aspas. Sendo a lei feita com vistas exclusivamente ao interesse privado, quando não individual, ela mesma permite que o poder privado (quando não o individual) usufrua do que seria público. Foi assim que o poder público transformou-se neste País em poder privado e isso não é de hoje. Nenhum poder privado saberá agir como poder público, em circunstância alguma. E, se não violento em seus métodos, será violento em seus resultados. Poderíamos dizer que será um poder “fascista”. Agindo “dentro da lei”, como esse poder agirá para conter os “fascistas”?  

 

    “9. agir com energia, dentro dos limites legais, é a forma correta de conter os fascistas;

    Agir dentro dos limites legais seria a forma correta de conter qualquer coisa. Definir os contornos corretos dos dispositivos legais é que são elas. Houve um tempo em que compreendíamos que o monopólio da violência legítima seria exercido pelo Estado (que não se confunde com o Governo). Hoje a violência policial é considerada “fascista”. No entanto, porque a lei não ampara o poder público, embora ampare o poder privado no qual o poder público se transformou, porque agir com energia poderá ser interpretado como agir com violência, porque ninguém mais respeita coisa alguma, porque é bonito viver perigosamente, e porque o Estado nada e ninguém mais representa, nem energia nem violência serão capazes de conter o ímpeto e a fúria dos que se julgam mais justos que qualquer noção civilizada de justiça. Valeria aqui o comentário: “Pois então, senhores governadores, proíbam a presença de PMs em manifestações. Mandar os policiais pra tentar manter (ou retomar) a ordem pra quê? Eles levarão a culpa pelo que fizerem de errado e também pelo que não fizerem.” (www.facebook.com/pages/Roberta-Trindade/)

 

    “10. e o óbvio: é nestes momentos que as lideranças políticas são testadas.

    No Brasil não há lideranças políticas fora das Organizações não-governamentais. Há apenas “lideranças” eleitorais. Essas “lideranças” serão testadas nas próximas eleições. Com isso todos estão preocupados. E com apenas isso. Embora a Política não se resuma a momentos de eleição… ou não devesse se resumir…

 

    “11. É evidente a tentativa de emparedar o governador do estado. O prefeito – sempre omisso – não está na linha de fogo;

    Ninguém quer emparedar o Governador do estado (de São Paulo). Nem Governador algum. O movimento nas ruas quer emparedar a autoridade que o Governador do estado representa. E o Prefeito (de São Paulo) não está na linha de fogo por razões óbvias – pertence ao Partido ao qual o Partido do Governador faz oposição, o Partido que tem nas mãos o Governo (e o poder) do Estado nacional. Rousseff já não está sendo chamada a vir a público defender o direito “da gente” se manifestar nas ruas do Brasil? Para que arriscar uma eleição arriscando um mau passo?

 

    “12. Não há qualquer relação destas manifestações com aquelas dos anos 1960, 1970 (quando vivíamos no regime militar), das Diretas ou do impeachment do Collor (1992). Hoje vivemos em um regime de amplas liberdades;

    Há uma infinidade de relações entre as atuais manifestações e as de 1960, 1970, das Diretas e do impeachment de Collor. Relações de semelhança e de dessemelhança. A primeira delas é uma síndrome de “vítima da ditadura” daqueles inconformados com o resultado de suas estafantes “lutas” passadas e sempre atuais; outra, a performance adequada às fotos editadas pela Imprensa para comover os libertários “do mundo”; outra mais, as bandeiras difusas, que carregam reivindicações amplas, gerais e irrestritas, do que exatamente não se sabe muito bem; outra ainda, a baderna pura e simples que desponta no horizonte; e ainda mais uma, a irresponsabilidade dos atos que arrastam quem quer e quem não quer sujeitar-se a emoções radicais; e por aí vai a lista que poderia ensejar uma produtiva reflexão sociológica. Um prato cheio!

 

    “13. A liberdade de manifestação é garantida pela Constituição, assim como a de ir e vir. Os fascistas são contra as duas. Tem ódio da Constituição, que para eles é ‘burguesa’ e liberdade de ir e vir é contra o ‘Estado socialista’ que eles defendem (Coréia do Norte, Cuba, etc);

    Fascistas defenderiam o Estado socialista (Cuba, Coréia do Norte)? Desde quando? Ou fascista será todo e qualquer um que defenda um Estado? Meio teoricamente complicado, isso, não? Já liberdade de manifestação e liberdade de ir e vir se incluem no capítulo das liberdades individuais. Nunca se confundiram com liberdade de ação. Recorrendo a um exemplo meio “clássico”, quem defenderia a liberdade de gritar “fogo!” se e quando quisesse no meio da multidão em um recinto fechado, só para que pudesse exercer seu presumido direito à liberdade? E ódio também não é uma exclusividade de fascistas ou de “fascistas”. Anarcóides também têm muito ódio, e manifestam um ódio talvez muito maior porque, para os anarcóides, não lhes sobra espaço nem papel nem tinta nem disposição para fazer uma lista de itens e de gente contra os quais não tenham ódio. Um ódio visceral. Anarcóides são apenas “contra”, não importa contra quê. Em nome da “liberdade”, nada respeitam. Nem estruturas, nem hierarquia, nem inteligência, nem saberes. Tudo se limita a uma questão de opiniões. “Contra” ou “a favor”. E se percebem quaisquer opiniões “a favor”, serão “contra”.

 

    “14. Se tivessem sincero desejo de se manifestar, não faltam praças em SP;

    As praças são do povo. Em uma Sociedade bem organizada e bem atendida, as praças estarão em festa, não estarão abrigando protestos justos ou injustos e descabidos. O passe-livre, assim como a bolsa família, alguém o pagará; se o Estado o concede é porque para isso terá recursos, e, se recursos ele tem, é porque a Sociedade lhe forneceu ou lhe permitiu criar, do jeito certo ou do jeito errado, esses recursos. Quando a Sociedade (não a Sociedade “civil”, mas a Sociedade como um todo) é injusta, desorganizada e mal acudida, ela verá vários grupos se manifestando, uns contra outros, cada um deles reivindicando, justa ou injustamente, atenção exclusiva a seus próprios interesses. As praças do povo se transformarão em praças de guerra. Com toda a sinceridade…    

 

    “15. O ‘movimento’ está desesperadamente procurando um cadáver;

    Isso, sim, é uma verdade. Nada mais contundente e simbólico que um cadáver. E o movimento, que movimento sem aspas é, terá esse cadáver, mais dia, menos dia, de um jeito ou de outro. É só esperar para ver. Os “heróis” da Imprensa, metendo-se entre Policiais e manifestantes, são fortes candidatos. Talvez o movimento tão desesperadamente procure um cadáver para que nossa Doutrina jurídica possa ser jogada definitivamente no lixo e bem logo substituída por decisões espertas do Tribunal Internacional de Direitos Humanos. Não duvido.

 

    “16. E como bem disse um comentário, este movimento não vale vinte centavos.

    Isso também é verdade. Esse movimento não vale vinte centavos. Vale bem mais. Muito e muito mais. Já tem um preço; mais valorizado ou mais desvalorizado, amanhã, terá preço bem maior, inflacionado, preço ainda incalculável, que hoje é absolutamente desconsiderado.

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Que mandem os fuzis pra bem longe, a passear no bosque.
Se as carabinas enguiçam, emperram, soluçam, menos mal. Mas imagino que o próximo passo será providenciar também a sua substituição. Por arcos e flechas? Bordunas? Não. Etnicamente corretos, é bem verdade, alguns são meio… pesados. E muito sofisticados. Requerem certa habilidade. E muita habilidade, como bem sabemos, não está no DNA da Polícia. Ou não era pra estar…
Taí: as carabinas poderão ser substituídas por sarabatanas. Ou por estilingues. São de fácil manuseio e manutenção.
Hum… pensando bem… pensando bem… essas coisas também são perigosas. Melhor será munir a tropa de varinhas de condão.
Mas… e se escapar, de repente, uma ordem qualquer vinda de não se sabe bem onde que possa ser entendida como tendo sido permitido transformar meliante em sapo? Ah, coitadinho…
Então, não. Não vale arriscar. Direitos humanos são direitos humanos. E os jovens!?! Os jovens merecem nossa proteção. Não é porque alguém é bandido que deixa de ser jovem…
E aí? Como ficamos? Ora, aposto que borrifar água benta ninguém ainda experimentou. Pode dar certo… Tanta coisa tem dado tão certo por aqui… É distribuir frasquinhos nas Delegacias e…
E o resto?
Bem, o resto é fantasia. Assim já não declarou certa atriz nesse nosso circo…?
 
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Posted: 13th junho 2013 by Roberta Trindade in Sem categoria

Por determinação da chefe de Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, delegada Martha Rocha, as delegacias distritais não terão mais fuzis – que começaram a ser devolvidos nesta terça-feira, dia 11 de junho, e serão substituídos pela carabina Taurus CT-40. As especializadas também serão atingidas, sendo obrigadas a fazer a devolução de 60% do armamento pesado.

Somente contabilizando essas unidades, serão 149 fuzis entregues. As mais afetadas são a Divisão de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA), que perderá 32 fuzis, e a Divisão de Homicídios (DH), que ficará sem 28. Logo atrás, a Divisão de Capturas e Polícia Interestadual (DC-Polinter) e a Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas (DRFC) – que devolverão 25, cada – seguidas pela Divisão Anti-Sequestro (DAS), que terá que entregar 26 fuzis.

“Eles tiram os fuzis de todas as delegacias e deixam apenas alguns com as especializadas. Só que aí a gente é escalado pra dar apoio a essas delegacias em ações em áreas de risco e vamos mesmo sem ter o devido armamento. Sem falar que nós também precisamos realizar diligências em morros e favelas e precisaremos de apoio”, desabafou um policial lotado na Delegacia de Combate às Drogas (Dcod), especializada que perdeu 12 fuzis.

Já usei a CT 40 e posso dizer com propriedade que foi a arma que mais deu pane. De cada 30 disparos, 20 davam pane”, revelou um outro inspetor, da Divisão de Homicídios da Baixada (DH-Baix), unidade que devolverá 11 fuzis.

Em dezembro de 2008, o então diretor-geral de Apoio Logístico da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, coronel Erir Ribeiro Costa Filho – hoje comandante geral da corporação – sugeriu em relatório a substituição dos fuzis da PMERJ e da PCERJ por carabinas Taurus CT 30. Foram utilizados R$ 4,6 milhões na compra das carabinas – 500 para a Polícia Civil e mil para a PM.

Na ocasião, o então chefe da P-1 (Seção de Pessoal e de Assuntos Internos) do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e instrutor de tiros e armamento, major Ricardo Soares, passou cinco dias na fábrica da Taurus e aprovou a troca.

Um ano e meio depois, as carabinas foram devolvidas à Taurus. De acordo com um laudo feito pela PM, as armas apresentavam um problema no estojo do carregador e engasgavam após uma sequência de disparos.

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

    Este é o registro de um dos primeiros momentos da manifestação realizada em São Paulo, capital, na noite de ontem, 11/06:

 

  PRIMAVERA 11
 
 

    Cada vez mais animado para esquentar este fim de outono, alguém já chamou esse movimento muito bem orquestrado de “treinamento para a Primavera brasileira”…

 

    O jornalista Luís Nassif, que já não dorme de tão preocupado com o desenvolvimento onírico nacional, afirmou que esses “jovens vão às ruas e nos mostram que desaprendemos a sonhar”. Entende ele, pois, que “esses jovens” devam ser incentivados. E publicou em seu blogue um longo texto de um certo Andre Borges Lopes, intitulado “AOS QUE AINDA SABEM SONHAR” em evidente alusão à antologia beatlelógica dos últimos tempos, que nos diz o seguinte:

    “O fundamental não é lutar pelo direito de fumar maconha em paz na sala da sua casa. O fundamental não é o direito de andar vestida como uma vadia sem ser agredida por machos boçais que acham que têm esse direito porque você está “disponível”. O fundamental não é garantir a opção de um aborto assistido para as mulheres que foram vítimas de estupro ou que correm risco de vida. O fundamental não é impedir que a internação compulsória de usuários de drogas se transforme em ferramenta de uma política de higienismo social e eliminação estética do que enfeia a cidade. O fundamental não é lutar contra a venda da pena de morte e da redução da maioridade penal como soluções finais para a violência. O fundamental não é esculachar os torturadores impunes da ditadura. O fundamental não é garantir aos indígenas remanescentes o direito à demarcação das suas reservas de terras. O fundamental não é o aumento de 20 centavos num transporte público que fica a cada dia mais lotado e precário. O fundamental é que estamos vivendo uma brutal ofensiva do pensamento conservador, que coloca em risco muitas décadas de conquistas civilizatórias da sociedade brasileira. O fundamental é que sob o manto protetor do “crescimento com redução das desigualdades” fermenta um modelo social que reproduz – agora em escala socialmente ampliada – o que há de pior na sociedade de consumo, individualista ao extremo, competitiva, ostentatória e sem nenhum espaço para a solidariedade.”

 

    E esse texto assim termina:

    “Sempre vai haver quem prefira como modelo de estudante exemplar aquele sujeito valoroso que trabalha na firma das 8 da manhã às 6 da tarde, pega sem reclamar o metrô lotado, encara mais quatro horas de aulas meia-boca numa sala cheia de alunos sonolentos em busca de um canudo de papel, volta para casa dos pais tarde da noite para jantar, dormir e sonhar com um cargo de gerente e um apartamento com varanda gourmet. Não é meu caso. Não tenho nem sombra de dúvida de que prefiro esses inconformados que atrapalham o trânsito e jogam pedra na polícia. Ainda que eles nos pareçam filhinhos-de-papai, ingênuos em seus sonhos, utópicos em suas propostas, politicamente manobráveis em suas reivindicações, irresponsavelmente seduzidos pelos provocadores de sempre. Desde a Antiguidade, esses jovens ingênuos e irresponsáveis são o sal da terra, a luz do sol que impede que a humanidade apodreça no bolor da mediocridade, na inércia do conformismo, na falta de sentido do consumismo ostentatório, nas milenares pilantragens travestidas de iluminação espiritual. Esses moleques que tomam as ruas e dão a cara para bater incomodam porque quebram vidros, depredam ônibus e paralisam o trânsito. Mas incomodam muito mais porque nos obrigam a olhar para dentro das nossas próprias vidas e, nessa hora, descobrimos que desaprendemos a sonhar.”

 

    Quem tiver disposição para ler o que se inclui entre aquele começo e este fim, corra a http://www.advivo.com.br/node/1400276

 

    Hoje, poderá ser encontrada na página principal do UOL uma chamada a um comentário no mínimo surpreendente, que poderá ser atribuído ou a uma ingenuidade descomunal ou a uma simples e rasteira má-fé: “muitos ingredientes que estão fervendo no caldeirão. Um espetáculo do crescimento que ficou na promessa, passagens caras e tudo errado, são os componentes das manifestações que aconteceram nestas duas semanas. Junte-se a isso uma polícia que definitivamente não é a britânica e pronto, está feita a confusão. (…) há um mérito tremendo nisso tudo: (…) Essa garotada está fazendo o que todos deveríamos fazer: ir pra rua (…) os meninos estão fazendo a parte deles pacificamente. A baderna é o retrato. (…) é a manifestação óbvia de um sentimento represado. E tem a raiva. E motivos pra raiva não faltam” (http://blogdoorlando.blogosfera.uol.com.br/2013/06/12/manifestacoes-protestos-vao-muito-alem-de-r020/) É o que nos diz Orlando Pedroso, que é artista gráfico e ilustrador

 

    Eu cá não sei bem quem poderá ter-se preocupado com perguntar a opinião desse Orlando, ou perguntar a um Luís Nassif ou, muito menos, a esse seu companheiro de armas Andre Borges Lopes que é o que eles preferem ou não. Nem imagino que importância teria o que pudessem preferir.

    Sei, muito bem sabido, o que eles e alguns outros mais conseguem.  E conseguem bem mais que apenas parar o trânsito.

    Conseguem o que está nas fotos tiradas na noite de ontem, nas que ponho aqui ou em mais algumas que se encontram em http://noticias.uol.com.br/album/2013/06/03/aumento-de-tarifa-do-transporte-coletivo-gera-protestos-pelo-pais.htm)

 

    Sei também que não faz falta olhar para dentro de nossas próprias vidas para descobrir que desaprendemos a sonhar. É fato que já não sonhamos. Faz tempo. Nem podemos sonhar. Talvez já nem mesmo aquele sujeito valoroso que trabalha das 8 da manhã às 6 da tarde e encara mais quatro horas de aulas meia-boca, que tão pouco tempo terá para pregar o olho, ainda consiga sonhar com seja lá o que for.

 

    Por outro lado, para que percebamos por que é que desaprendemos a sonhar, basta-nos ler, além de ver as fotos, os didáticos textos produzidos por certos “intelectuais” de nossa Imprensa. E assim também perceberemos por que é que, se sonhos já não podemos ter, podemos estar tão bem servidos de pesadelos.

 

    Deixei, assim, o “conforme eu dizia” para o fim. Conforme eu dizia… à falta de boa Escola, os meios de comunicação, sejam formais ou informais, são quem nos “educa” e nos estimula a pensar e a agir…                

 

PRIMAVERA 1 PRIMAVERA 2 PRIMAVERA 3 PRIMAVERA 4 PRIMAVERA 5 PRIMAVERA 6 PRIMAVERA 7 PRIMAVERA 8 PRIMAVERA 9 PRIMAVERA 10  

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Interessante.
Parece que alguém já “suspeitou” de que há partes do território brasileiro que estão fora do controle do Estado.
Não diria que isso seja um grande avanço; mas é menos mal… melhor que nada.
Interessante seria também saber se a personalidade que as visitará é o Papa Francisco, do Vaticano, ou é o companheiro Pancho, um dos líderes da comunidade latino-americana. E se fará isso em excursão turística, com atividades radicais incluídas no pacote, ou em missão diplomática.
Porque turista, a gente sabe, chega muito curioso, interessado em conhecer a “cultura local” – e, quando chega aqui, todo turista se amarra em uma favela. Já uma zona de conflito requer negociação; por vezes, requer arbitragem. Talvez seja o caso…
Por nada, não, só por curiosidade. Para tentar compreender a razão do “itinerário” do ilustre visitante.
Quem assim o programou? Por quê? Para quê?
 
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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Índios e fazendeiros de Mato Grosso do Sul concordam num ponto: a paz no Estado tem preço, a ser pago pelos governos federal e estadual.”
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Conforme eu dizia” parece começo de conversa de velha ranheta. Quem sabe se não é só isso o que sou?
Mas nem só uma velha ranheta deverá saber que preço é preço e valor é valor.
Se essa “paz” tem um preço, por mais que esse preço tenha sido calculado pelos ruralistas, ele nada significa senão rendição.
E é um preço que um Estado rendido deverá pagar. Essa “paz” que tem preço significa abandonar mais um pedaço do território nacional e deixá-lo à mercê dos caprichos de quem não tem noção de coisa alguma, sequer de que come nas mãos de terceiros.
Amanhã estaremos todos nós pondo um preço em tudo o que já se fez neste País. E um preço em todos aqueles que, em nome dele, fizeram algo.
Qual será o nosso preço, então? Quem o calculará? Quem o pagará?
Conforme eu dizia… num dia desses – e ninguém parece ter gostado do que eu disse –, aquela idéia de que “é chato esse negócio de tentar produzir comida tendo de enfrentar os peles-verdes, os peles-vermelhas e os caras de pau” poderia virar moda. E a moda poderia pegar.
Pois parece que pegou…
E qual é o problema? Nenhum… Não é isso?
 
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Notícias: Ruralistas querem R$ 1 bilhão para desocupar as áreas 
 
Índios e fazendeiros de Mato Grosso do Sul concordam num ponto: a paz no Estado tem preço, a ser pago pelos governos federal e estadual.
No Estado onde ao menos 320 índios foram mortos nos últimos dez anos, ruralistas calcularam o valor para deixar as áreas: R$ 1 bilhão por 72 mil hectares em 65 fazendas –área equivalente à metade da cidade de São Paulo.
“Não custa metade de um estádio de Copa do Mundo, desses de segunda categoria que ele [o governo federal] está fazendo. Um daqueles resolveria a questão”, diz Francisco Maia, líder da Associação dos Criadores de MS e da Frente Nacional da Pecuária.
Só a reforma do Maracanã, no Rio, custou R$ 1,2 bilhão. O valor serviria de indenização pela terra e pelas benfeitorias. Em Sidrolândia, principal área de conflito em MS, um hectare de terra com pastagem já formada custa até R$ 12 mil, segundo a consultoria Informa Economics FNP.
Já um hectare de terra agrícola de alta produtividade no município chega a R$ 19 mil.
Em ofício ao governo em 2010, a Procuradoria em MS dizia que não indenizar produtores titulados seria “absoluta incoerência” e “injustiça”. Muitos fazendeiros têm títulos das terras, muitas com registro de produção agrícola desde o fim da Guerra do Paraguai (1864-1870). Os documentos foram concedidos por governos que queriam povoar a área. “Todas as terras são legais”, afirma Maia.
Para o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), braço da Igreja Católica, é preciso um entendimento dos governos para indenizar os produtores. “Os governos federal e estadual podem muito bem encontrar solução para compor as origens desses recursos”, diz o secretário-executivo do Cimi, Cleber Buzatto.
O Planalto costuma evocar o artigo 231 da Constituição para se dizer impedido de pagar pelas terras. O texto diz que a União não pode comprar terras de ocupação tradicional de povos indígenas.
Anteontem, o ministro José Eduardo Cardozo disse que irá discutir a possibilidade de comprar terras: “Vamos debater todas as teses que sejam possíveis do ponto de vista jurídico”.
 
 
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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     Antes, uma introdução ao tema.

 

    O meu Tricolor, tantas vezes campeão, do qual me confesso devota incondicional, publicou em sua página do Facebook um mapa-múndi com diversos pontos destacados mais o seguinte texto: “TRICOLOR EM TODA TERRA: Além do nosso país do coração, tricolores de todo o mundo marcam presença nesse aniversário do Fluminense Football Club aqui no Facebook! E vocês? Deixem a sua saudação tricolor diretamente do seu país!” Muita gente simpática, uma gente tricolor de coração no mundo inteiro, deixou ali sua saudação. 

 

    Marcel Claude também está no Facebook. E também pede saudações supranacionais. Marcel Claude não é uma celebridade esportiva nem é um cientista louco francês – assim como Michelle Bachelet e outros mais, ele é candidato à Presidência do Chile nas eleições que se farão no próximo Novembro. Do Chile, aqui, em nosso bairro. É o representante do Partido Humanista.

 

    Humanismo por humanismo, durante esta última semana, alguns Deputados chilenos protocolaram “um projeto de lei que prevê a aplicação da Lei de Anistia a todos os civis e militares condenados por crimes de violação aos direitos humanos ocorridos durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990)”. Justificaram esse projeto alegando que “a palavra ‘anistia’ vem do termo grego ‘amnesis’, que significa ‘esquecer o passado’. Esse importante instrumento jurídico serve especialmente para situações revolucionárias, nas quais se faz necessário e conveniente que os poderes do Estado renunciem temporariamente à sua faculdade de julgar e castigar determinadas condutas delitivas, visando interesses superiores, como a ordem nacional e a paz social”. Apesar de que o argumento seja tão óbvio e tão universal, no Chile, a Lei da Anistia está “vigente, mas juízes usam tratados internacionais para condenar violadores dos direitos humanos”. O projeto dos Deputados chilenos foi “descoberto” pela Imprensa local e internacional, que fez “um barulho muito maior do que os seus autores talvez esperassem” [1]. Humanismo por humanismo, pois, resta saber a quem dada ordem serve; ou a quem interessa dar a ordem e a quem possa interessar o tumulto.

 

    Voltando ao candidato interessado em colocar-se com conforto em La Moneda, seu Programa de Governo, que anuncia ser capaz de “criar uma sociedade libertária”, expõe-se em “8 eixos transversais” (eixos por eixos, eles bem poderiam ser chamados de “monumentais”, tanto faz…). As palavras iniciais são: “A experiência histórica nos demonstrou que a concentração de poder estatal, assim como a concentração do capital, atenta contra a liberdade das pessoas e violenta os Direitos Humanos. Basta una rápida olhada [ao passado recente] … para constatar como a concentração de poder corrompe a sociedade.” Palavras que devem estar soando como música nos pavilhões de alguns ouvidos. O grito de campanha “Todxs [sic] a la Moneda con Marcel Claude” estende-se por “onde haja um chileno e por todo o mundo…”, para que o caminho mais seguro possa ser tomado… ou continuado para que o Chile seja destruído por inteiro e o mais breve possível riscado do mapa (e quem duvidar disso que confira se não é exatamente o que o candidato pretenderia [2]).

 

    No Facebook [3], saberemos que “está sendo articulada uma importante rede de apoio a Marcel Claude [composta] de chilenos residentes em diferentes países da Europa e, da mesma forma que no Chile, isso nasce da vontade e da convicção cidadã. Trabalhamos de maneira totalmente independente e autônoma e já conseguimos manter vínculos entre três países para dar mais coesão a esta campanha”. Há grupos formados na Suíça, na Suécia e na Alemanha; outros estão em processo de formação (seriam “Austria, Francia, Italia, Espania [sic], Noruega, Potugal [sic], Holanda, Finlandia, Belgica, Dinamarca, Irlanda y Rusia”). Essa “tarefa” deverá ser realizada por “todos os chilenos”, não importando onde estejam, pois “o tempo e a distância não são obstáculos para alcançar objetivos comuns!!!!” (assim mesmo, com esses 4 pontos de exclamação). E ninguém perguntou a esses chilenos residentes em diferentes países, especialmente na Europa, se eles pretendem voltar a viver no Chile ou, pressupondo que sim, por que razão ainda não o fizeram.

 

    Pois bem. Que tem uma coisa a ver com outra e, principalmente, que têm essas coisas todas a ver conosco? Por que trago isso tudo à baila? Explico. De uma torcida se espera muito ardor; não se espera, porém, muita coerência ou muita reflexão. Qualquer um, de qualquer nacionalidade, em qualquer lugar do mundo, poderá ser simpático a qualquer time esportivo (ou mesmo a qualquer única “celebridade” no esporte) e torcer pelo destaque de seus feitos, sejam quais forem as cores de sua bandeira. Com isso, o mundo em nada se altera. Já os objetivos de um time esportivo nunca serão os mesmos objetivos de um país qualquer e os problemas que possam uns e outros enfrentar nunca serão os mesmos, serão muito diferentes – mesmo porque entre times esportivos o jogo é um e entre países o “jogo” é outro, e nada “esportivo” este será. Os “objetivos comuns” dos chilenos que se põem em apoio a um candidato com um programa “libertário” podem perfeitamente ser identificados com os objetivos de alguns muitos brasileiros, tenham ou não tenham ainda um candidato de sua preferência concorrendo à nossa Presidência. E os métodos utilizados para alcançá-los não diferem muito de um país a outro. No Brasil, teremos eleições no próximo ano e, até agora, mesmo após anos e anos de desgoverno, não se vê nem se ouve qualquer proposta ou qualquer programa partidário sendo discutido. Embora os prováveis candidatos, inclusive o que venha a ser eleito, já estejam em campanha. Nesse processo, o papel dos meios de comunicação seria fundamental, e seria fundamental porque, à falta de boa Escola, esses meios, sejam formais ou informais, são quem nos “educa” e nos estimula a pensar e a agir.

*** 

 

    Agora, vamos ao grão.

    Algumas devoções e algumas aversões são tão gratuitas que não devem entrar, nem mesmo atravessadas, no rol das considerações de quem possa pretender pensar o Estado brasileiro com alguma seriedade. Sendo gratuitas, algumas serão inócuas, outras serão nocivas. E não digo isso porque minha consciência, avessa a quaisquer propostas “libertárias”, seja muito atrevida ou muito caprichosa.  Ela apenas reclama definições precisas e posturas conseqüentes. Por isso, tanto me surpreendem certas palavras que leio na Imprensa a respeito de nós mesmos e dos demais.

 

    Entre os jornalistas, há os que bem escrevem, são considerados “não comprometidos” com o Governo atual e não cansam de apontar seu dedo a nossos problemas. Como escrevem sobre Política, é de se supor que não escrevem para nos divertir, mas, sim, para nos informar – quando não para nos orientar. O rol desses problemas que nos afligem é bastante longo, e comentá-los preencherá muitas e muitas páginas em branco com muito êxito, sem dúvida alguma, muitas delas muito bem escritas. Apontar esses problemas, porém, não nos ajuda a resolvê-los. Nem nos ajuda a querer resolvê-los. Muito menos significa agir ou reagir. É apenas apontar. E reclamar. Apontando-os, não mais que os apontando, mesmo que corajosamente, mesmo que exaustivamente, que esperam os jornalistas? Aumentar nossa capacidade de nos queixar e o volume de nossos queixumes? Que os problemas se acumulem, mais se agravem, tudo logo se arrebente e alguém (?) se predisponha a nos acudir no próximo campeonato? Quem?

 

    Nossos problemas não mais pedem ser apontados, pois nos saltam aos olhos e nos ferem a carne. A qualquer um que esteja minimamente consciente do vulto e da gravidade de nossos problemas internos e externos (que não se resumem à distribuição de bolsas e cestas básicas, a tentar alcançar um assento no Conselho de Segurança ou à eventual defesa do pré-sal dos ataques de quem exatamente ninguém sabe) causará muita angústia constatar o tempo e o espaço preciosos que a Imprensa desperdiça sem que um sentido correto possa ser atribuído às causas desses problemas e sem que qualquer direção correta seja sugerida para ocupar o pensamento e orientar as atitudes de tantos quantos possam pretender reagir buscando soluções. O que apenas dificulta, quando não impede, que qualquer reação consistente seja concebida. E, não sendo antes concebida, nenhuma reação poderá ser alinhavada. Muito menos qualquer projeto alternativo poderá ser aventado.

 

    Se há um tempo de semear e um tempo de colher, estamos agora em tempo de adubar boas sementes que restem, encruadas, em terra já lavrada, o que não pode ser confundido com um tempo de provocar mais confusão entre os confusos. Sendo assim, por mais que me esforce, não consigo compreender, por exemplo, que é o que justificaria um jornalista que se tem demonstrado extraordinariamente sagaz e corajoso no espaço de que goza para esclarecer o público, de repente nos sugerir, mesmo que por ira santa, mesmo que por brincadeira, que “Chega! Vamos fugir daqui! Deixemos o Brasil para os Peles-Vermelhas da Funai, os Peles-Verdes da Marina e os padres de tacape. Que as vastas solidões se inundem de sapos e pererecas coaxando eternidade afora! (…) O que está desarrumado é o Brasil. (…) Vamos embora deste lugar, gente! (…) é chato esse negócio de tentar produzir comida tendo de enfrentar os peles-verdes, os peles-vermelhas e os caras de pau.” (Reinaldo Azevedo em 01/06/13 [4]). Que pretenderá com isso? Estimular o leitor? Qual leitor? Estimular a quê? A refletir em para que haveria de querer suas pernas?

 

    Quantos de nós, muitos aos quais competência não faltava, nem faltou covardia, já não nos abandonaram por iniciativa própria, por serem seduzidos ou por serem induzidos a imaginar que “lá fora” tudo será, sem demandar qualquer esforço, mais bonito, mais ameno, mais perfeito e mais justo, inclusive as ambições não só individuais como nacionais, sem considerar que a solução de seus problemas haveria de criar mais um problema, a todos nós que aqui ficamos, ou agravá-los todos? Devemos agora todos “fugir daqui”, ir “embora deste lugar” porque “é chato” ter que pensar em arrumar o que foi desarrumado ou o que nunca bem arrumado foi? Espalhados pelo mundo, saberemos opinar mais adequadamente a respeito de qual projeto será mais adequado ao nosso vasto território? Não seremos, muitos mais e mais ainda, levados a crer – uma vez que a tendência já se impõe entre nós – em que uma solução política e ecologicamente correta seria a de que esse território fosse inundado de sapos e pererecas e assim permanecesse eternidade afora? Por quanto tempo duraria essa eternidade? Por quanto tempo, com nossa ausência e nosso descaso, sendo inundadas de sapos e pererecas, essas vastas solidões permaneceriam sendo vastas e sendo solidões? Ou isso pouco nos deve importar?

 

    A influência do pensamento de Reinaldo Azevedo sobre determinados círculos intelectuais é considerável. Não sendo eu uma idiota, compreendo perfeitamente que a sugestão absolutamente idiota que nos deu terá sido irônica. Mas, se tão poucos de nós são capazes de perceber uma obviedade, quantos de nós serão capazes de compreender uma ironia? Por outro lado, se “o Brasil está desarrumado”, qual o correto arranjo que a ele deveremos dar? Algum? Nenhum? Se os problemas não mais são desconhecidos, e por ninguém mais são desconhecidos, a solução continua sendo um mistério. É como se não houvesse. Talvez porque deva ser entendida como sendo apoiar algum “salvador da Pátria” que desponte graciosamente entre os candidatos à Presidência, mesmo que estejamos absolutamente ignorantes de seus projetos e do que possam eles significar.  

 

    Outro que goza de bom número de leitores é Nivaldo Cordeiro. Se não por quaisquer outros motivos, por este mesmo o que ele nos diz merece nossa atenção. Quando correto, merece aplauso; quando errado, merece crítica. Se há palavras que com nada colaboram, embora muito signifiquem, outras palavras nada significam e com muitos colaboram – embora não exatamente conosco. Um exemplo, este sem que qualquer sombra de ironia lhe perpasse: que significaria declarar “abomino qualquer intervenção do Estado na vida das pessoas e na economia, além do imprescindível para manter a ordem pública”? Essa frase se encontra em seu blogue, na seção “quem sou” [5]. Pensem um pouco. “Imprescindível” é algo absolutamente subjetivo. E “ordem pública” não é conceito algum, é apenas uma idéia amorfa que, apesar de insinuar rigidez, não guarda qualquer vínculo com qualquer estrutura definida. Nada ou quase nada, pois, essa frase significa, exceto ideologia discursiva, no sentido mais rasteiro das palavras, que nada nos acrescenta.

 

    Em artigo recente, no entanto, “Uma falsa visão de Estado” [6], várias afirmações de Nivaldo Cordeiro merecem ser destacadas. Porque são corretas. Uma delas seria, referindo-se à atualidade internacional: “Essa crise coloca a questão do que virá no lugar, provavelmente uma alternativa liberal clássica, a única conhecida fora do totalitarismo comunista. Mas é uma questão em aberto.” Por que destacá-la? Porque manifesta aversão ao “totalitarismo comunista”? Não. O “totalitarismo comunista” é apenas um dos inúmeros perigos que corremos. A afirmação merece ser destacada porque tudo o que venha após uma crise será uma questão em aberto. Assim sempre foi e assim sempre será, e, assim sendo, não apenas estará em aberto a forma como as Nações das tradicionais e das novas grandes Potências, todas elas com séculos e séculos de história nas costas,  tentarão escapar do totalitarismo de todas e quaisquer vertentes. A cada crise, uma alternativa para tratar a coisa pública estará, por certo, aberta também ao Estado brasileiro (e à Nação brasileira), e saberemos – ou não, mais uma vez – escapar do colonialismo com óbvias tendências totalitárias travestido de qualquer coisa de qualquer cor e seja como for que se apresente.

 

    No mesmo artigo, Nivaldo Cordeiro nos dirá ainda: “Temos sido escravos de alguns economistas e sociólogos defuntos, que determinam uma maneira de pensar o Brasil mais das vezes distorcida e, mesmo, errada. (…) O certo é que a forma estatal brasileira é assemelhada com a forma internacional forjada no pós-guerra e nada tem a ver com o patrimonialismo português de outrora. Isso é um reducionismo inaceitável e contrário à realidade dos fatos históricos. O Estado Brasileiro é primo irmão dos Estados Europeus e primo distante do norte-americano. A corrupção (…) é epifenômeno, que acontece em toda parte e não é propriedade patrimonialista”. Dizendo isso, muito nos diz, porque nos induz o pensamento a buscar apoio nos fatos, não em devoções gratuitas ou em bobagens ideológicas ou nem sequer ideológicas. Mas, como compreenderão essas frases os já tendentes (que são alguns muitos) a “construir uma sociedade libertária”? E quais economistas e quais sociólogos plenos de vida terão hoje razão? Que dizem eles?

 

    Se é que pretendemos ser alguma coisa no mundo e se queremos conhecer, reconhecer e fazer a boa Política, devemos, antes, tentar nos libertar dos chavões – quaisquer chavões – que penetram, faz tempo, no oco das cabeças, inclusive e principalmente das ditas acadêmicas. Deveremos também procurar perceber as razões que motivaram tantos estudiosos a escrever tantos bons livros a respeito do liberalismo em suas origens – o “liberalismo clássico”. A falta de inteligência, com certeza, não foi uma delas. Nenhum deles foi, no entanto, entre nós discutido. Nenhum deles pôde ser por nós bem aproveitado, ou porque nenhum deles foi, sequer, lido ou porque todos eles foram tão mal lidos e tão mal criticados pelos “pragmáticos da hora” a ponto da palavra “liberal” chegar a ser (não sem respaldo na prática aviltada assim também denominada) entendida e utilizada como uma ofensa grave. Eu própria a evito o quanto posso e, quando não posso, quase sempre a coloco entre aspas (porque quase sempre merecerá aspas).

 

    Se, porém, continuarmos a cair na conversa pseudopolitizada tanto “de esquerda” quanto “de direita” – uma conversa estúpida que nos diz que devemos torcer para dar certo, que nos incentiva às aversões e às devoções gratuitas, ao abandono da terra pátria, ao salve-se quem puder, ao desmantelamento das estruturas estatais que nos são necessárias à sobrevivência e também apelida o Estado de vilão da História visando apenas a nos levar à anarquia que necessariamente leva ao mau governo, a nada mais; uma conversa que adotamos sem tentar compreender o que causa o desvirtuamento da finalidade das estruturas e do próprio Estado – não saberemos compreender a que veio esse Estado, nem a que ele nos pode e deve levar, nem como deve ser estimado, nem o quanto nos é imprescindível. E, crise após crise, não encontraremos alternativa alguma.

 

    Na expectativa teimosa de que o Estado brasileiro venha de fato a ser mais bem compreendido e possa ser, pelo menos por alguns de nós, levado mais a sério antes que todos decidamos “ir embora” e ele próprio, Estado, desapareça, divulgo aos que me lêem as recentes palavras de Nivaldo Cordeiro que me pareceram corretas. Estão em um artigo bem fundamentado, e demonstram conhecimento infinitamente superior ao que, em geral, é exibido em tantos comentários tolos que vêm merecendo acrítica divulgação.

 

    Mas, para bem as ler, é preciso saber ler. E querer saber.

 

    Em seguida, é preciso querer tentar descobrir que é o que nos falta, no quadro de nossas reais possibilidades e potencialidades, para que possamos tentar arrumar, em todos os sentidos, especialmente o náutico, esse vasto Brasil desarrumado que (ainda) temos nas mãos. E querer pôr mãos à obra. Este é o desafio que uma campanha para “criar uma sociedade libertária” que vem sendo promovida a todo vapor, de Leste a Oeste, de Norte a Sul, de baixo para cima, de cima para baixo em nosso território nos vem oferecendo. E o País reclama que seja assumido.

 

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[1]operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/29279/deputados+governistas+criam+projeto+para+anistiar+agentes+da+ditadura+no+chile.shtml

[2]todosalamoneda.cl/wp-content/uploads/2013/05/8ejes.pdf

[3]www.facebook.com/pages/Todxs-a-la-Moneda-Chilenos-en-el-Exterior/524062977640166

[4]veja.abril.com.br/blog/reinaldo/

[5] www.nivaldocordeiro.net

[6]http://nivaldocordeiro.net/blog/2013/05/21/uma-falsa-visao-do-estado/

 

Uma falsa visão do Estado

Temos sido escravos de alguns economistas e sociólogos defuntos, que determinam uma maneira de pensar o Brasil mais das vezes distorcida e, mesmo, errada. É o legado do esforço que os brasileiros fizeram para se libertar de Portugal. Nesse esforço – legítimo – foi criada uma palavra de ordem que, depois, os ativistas intelectuais de esquerda identificaram como sendo atraso a herança portuguesa. Não ao acaso Guimarães Rosa, nosso maior escritor, escreveu sua obra máxima numa linguagem que, se ainda é português, é bom próxima de um dialeto, quase ininteligível mesmo para brasileiros.

No livro Grande Sertões, Veredas Guimarães Rosa alcançou o ideal da Semana de Arte Moderna, que veio associar tudo que era contrarrevolucionário ao que vinha da herança lusitana.

Nas ciências política aconteceu fenômeno equivalente ao das letras. Segundo essa visão, de Portugal herdamos o patrimonialismo, essa chaga perpétua que dominaria o Estado brasileiro, para a infelicidade geral da nação. Refiro-me a isso porque hoje li no jornal O Estado de São Paulo o artigo de Francisco Ferraz (O paradigma estrutural do Estado hegemônico). O autor afirma que há um fio condutor desde a Colônia, em que impera o patromonialismo herdado.

Francisco Ferraz está errado. Seu artigo carece de uma definição essencial: o que é a modernidade e o que é o Estado moderno. Quem fará a definição dos termos corretamente é Eric Voegelin, em sua obra monumental. Mas essencialmente a modernidade é a ruptura que ocorre no século XV e XVI, com o Renascimento e a Reforma. Voegelin inclusive vai detectar elementos islâmicos na gênese do Estado moderno, o que não pretendo aprofundar aqui.

O Estado moderno é essencialmente a forma jurídica assumida pelo Estado no qual o elemento laico e o sagrado estão unidos, como realizou Lutero nos países onde influenciou. Tudo em contrário com o que houve na ordem medieval, onde o poder da Igreja era separado e contrabalançava o poder dos príncipes. Esse foi o primeiro passo para o gigantismo e foi nos tempos da Reforma que o Mercantilismo prosperou. O Estado virou uma gigantesca máquina política, econômica e com propósitos de fazer a engenharia social onde ia. Aqui entre nós também, com as culturas de cana, a mineração,  a exploração agropecuária dos tempos coloniais. Tudo concessão do rei.

Em resumo, todos os Estado hoje existentes são filhos dessa construção moderna, o que não significa que não haja mutações e agravamentos desde então. Se no mercantilismo tínhamos na essência os monopólios, hoje os temos novamente. Então não é isso que diferencia o Estado de hoje, no Brasil e no mundo, do Estado de antanho.

O mesmo pode ser dito do autoritarismo. Se naquela época não havia propriamente instituições democráticas, em muitos Estados hoje também não, como a China. Ou o Brasil de Vargas e do período militar. Também não é isso que muda.

O que muda, então? Francisco Ferraz deixa nas entrelinhas que seria uma versão liberal. O liberalismo de Adam Smith de fato foi a recusa do Estado Total (como chamo, Ferraz chama de “hegemônico”, um termo impreciso). Mas o liberalismo vingou bem pouco tempo em pequena parte, na Inglaterra e nos EUA. E, de fato, é ele mesmo o paradigma alternativo, mas sua vigência na história foi breve.

O que se viu no século XX foi e emergência de formas de Estado Total em toda parte. Nos EUA e na Europa do pós guerra, formas mistas de liberalismo e coletivismo, a versão Fabiana do socialismo. Vimos o Estado se agigantar inexoravelmente.  Não é privilégio brasileiro. Para nossa sorte, o legado de Vargas e do regime militar retardou entre nós a implantação do socialismo, que está alcançando seu auge com o governo do PT.

Querer que a forma adotada pelo PT seja a mesma do período colonial não é crível. O Estado socialista é de outro naipe: pretende ser o redentor das classes oprimidas e um administrador racional da coisa pública. No processo, cassa a liberdade econômica e política. Estamos vendo no momento a crise terminal do modelo socialdemocrata na Europa e no resto do mundo. Essa crise coloca a questão do que virá no lugar, provavelmente uma alternativa liberal clássica, a única conhecida fora do totalitarismo comunista. Mas é uma questão em aberto.

O certo é que a forma estatal brasileira é assemelhada com a forma internacional forjada no pós-guerra e nada tem a ver com o patrimonialismo português de outrora. Isso é um reducionismo inaceitável e contrário à realidade dos fatos históricos. O Estado Brasileiro é primo irmão dos Estados Europeus e primo distante do norte-americano. A corrupção apontada por Ferraz é epifenômeno, que acontece em toda parte e não é propriedade patrimonialista.

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
 escola para quê 
 
Muito em breve, o Governo Federal estará lançando uma nova campanha educativa na Imprensa, nas ruas, nas praças, nas Escolas de Brasil de todos:
“SEM VERGONHA, CARA! SENDO ESCRAVO, SOU FELIZ!”
Por que não? Há algo que o impeça?

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Proibido proibir – Ruy Castro – 07/06/2013 – 03h30 RIO DE JANEIRO –
Quando se trata de discutir a liberação das drogas no país, há uma constante: os médicos são contra; os advogados, a maioria dos políticos, os sociólogos e os amadores, a favor. No caso destes, um dos argumentos é o de que o Estado não pode proibir o cidadão de ingerir o que for ou de fazer o que quiser com o próprio corpo. Bem, se é assim, vamos revogar a lei seca, que proíbe o cidadão de beber e dirigir, e as leis antitabaco, que o proíbem de fumar até no Maracanã. Supondo que tais legalistas estejam certos, não faltam exemplos para provar que o Estado não pode interferir na liberdade das pessoas. Vamos a alguns. O cidadão não pode ser proibido de usar drogas, mesmo que não tenha meios de sustentar seu consumo e, para isso, depois de tomar todo o dinheiro dos pais, passe a vender tudo de valor da família –joias, eletroeletrônicos, prataria, louça, objetos de decoração, roupas e até panelas– para aplacar a ira do traficante. Um amigo meu, músico, teve sua insubstituível coleção de discos vendida pelo filho. Precisou também abandonar a profissão, que o obrigava a viajar e a deixar a mulher sozinha com o rapaz, sujeita a agressões. Uma jovem não pode ser proibida de usar drogas, mesmo que para isso, idem, tenha de vender o que estiver à sua volta e, quando não houver mais nada, se prostituir para sustentar sua dependência. Os indígenas brasileiros não podem ser proibidos de usar drogas, como já acontece nos Estados que fazem fronteira com os principais fornecedores de pasta-base de cocaína, Colômbia e Bolívia, e em que a recente chegada do crack às tribos antecipa um matar e morrer em massa. Enfim, os 7 milhões de usuários assumidos de drogas no Brasil precisam ter os seus direitos e liberdade garantidos contra os demais 193 milhões que não querem ver seus filhos destruídos.
 
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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

Nos últimos dias de Maio findo, um porta-voz do Planalto levou oficialmente ao conhecimento público o acidente que ocorreu com o PIB matrícula PT-1.7.1.2013. Pelo menos 143 milhões de brasileiros civis e militares integrantes do “SE TORCER PODE DAR CERTO” – Força de Paz (*) das Nações Unidas em ação mundo afora – estavam a bordo, mas de nada souberam; mais ou menos outros 47 milhões de brasileiros assistiram de longe, mas nada viram.

 

O traste foi fabricado conforme o modelo “Sucatão”, aquele que serviu à Presidência da República de 1986 a 2005, desde a gestão Sarney até a de Lula da Silva. Ao decolar, tendo por suposto destino o Primeiro Mundo e como missão trazê-lo inteiro para que preserve a riqueza de nossas matas e nosso território indígena, já a alguns metros do solo, por volta dos 0,6% no 1º trimestre, em coordenadas de Brasília, uma de suas turbinas explodiu.

 

Pensando poder evitar um acidente de maiores proporções, o piloto (que foi obrigado a ler o manual técnico) desligou os motores e tentou desviar de obstáculos concretos e abstratos enquanto cortava o combustível. Com a pista à sua frente, percebeu que nem o trem de pouso funcionava. O traste arrastou-se “de barriga” – vazia –, até que perdeu velocidade e parou no capim, meio enviesado com o rabo empinado, como se vê na foto.

 

PIB BRASILEIRO (CLIQUE NA IMAGEM)

 

Equipes de segurança foram acionadas e, entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Mas o espaço permanece fechado a aterrissagens e a decolagens, não havendo qualquer previsão de quando o traste será retirado de onde está – onde já não mais perde velocidade, mas ganha potência negativa. E ganhar é sempre bom. Assim, portanto, ele deverá permanecer até que uma MP seja encaminhada ao Senado Federal com 7 dias de prazo para discussão, que o Congresso Nacional decida se ele pode ou não ser reparado e que seja votado um novo orçamento.

 

As razões do procedimento adotado pelo piloto do PIB matrícula PT-1.7.1.2013, tentando fechar torneiras contra ordens expressas da Brigadeira-Comandanta-em-Chefe que não admite retorno sem vantagem, serão devidamente apuradas. O SUPER-BNDES-X, combustível cuja fórmula é mantida sob segredo de Estado, vem sendo inspirado, como sabemos (?), na sensibilidade do pré-sal. E composto na guitarra. Ele é destinado a lotar bolsas-família no interior e bolsas-bolivarianas no exterior, estreitando e azeitando as boas relações do Governo. Tudo indica que o piloto insurgente será afastado das funções e obrigado a executar tarefas municipais sócio-educativas.

 

E nada indica que haja planos de que o Fuleco Caxirola, tal como também pode ser chamado esse traste ou qualquer outro, seja aposentado, dado como troco a algum chefe africano democrata e popular, oferecido em leilão à iniciativa privada ou vendido em ferro-velho. Possivelmente ainda seja convocado, em algum momento mais crítico, a compor o banco de reservas desse nosso time de várzea que é campeão na categoria. O responsável por esta cobertura dos fatos, vítima e testemunha viva dessa tortura toda, acredita que isso se deve a que o Governo precise de manter alguma coisa que minimamente aparente poder voar evitando o risco de que vá pelos ares.

 

Íntegra da notícia (**) porque alguma coisa minimamente íntegra o nosso País precisa de ter e poder mostrar.

De nosso colaborador no mainstream internacional

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 (*)   pesquisadores do CNPq ainda buscam definir se isso seria um paradoxo ou uma impossibilidade lógica. 

(**) publicada originariamente em “IDADE NÃO É .doc” – boletim mensal editado pelo Grupo Andrews_1964 / Junho de 2013

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Contrabandos, bandos, a coisa pública, as figuras públicas…

Há momentos, sim, em que as figuras públicas, como todos nós, que não o somos, devem cuidar de seus assuntos privados. Serão momentos privados. Momentos de privacidade. Momentos em que aquilo que fazemos e as figuras públicas fazem não afeta nem perturba a coisa pública. Nem pode afetar ou perturbar.

O comportamento adotado na privacidade e esses momentos de privacidade desfrutados em espaços privados não afetam ou perturbam necessariamente a reputação das figuras públicas. Nem os interesses privados das figuras públicas, se privados eles são, se como assuntos privados são tratados, afetarão ou perturbarão necessariamente a coisa pública.

O trato da coisa pública, no entanto, depende do comportamento das figuras públicas.

Assuntos privados, de interesse privado, tratados em instituições públicas, se afetando o interesse público, perturbarão necessariamente a coisa pública.

E o comportamento público das figuras públicas em espaços públicos poderá afetar não só a própria reputação das figuras publicas como também afetar a coisa pública… cujo trato depende desse comportamento.

Ou nada afetará coisa alguma?

Nem mesmo alguma coisa perturbará qualquer coisa?

O tempora o mores…

 

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http://colunaesplanada.blogosfera.uol.com.br/2013/05/29/com-manobra-no-senado-dilma-afaga-bancos-em-lei-que-prejudica-devedor/

Com manobra no Senado, Dilma afaga bancos em lei que prejudica devedor

Leandro Mazzini – 29/05/2013 07:15  – Atualizada Quarta, 13h03 –

 A mesma mão que pressionou a baixa do juro foi a que afagou os bancos, numa manobra discreta que passou pelo Senado.

Desde 15 de Maio, a Lei 12.810 sancionada pela presidente Dilma tirou direitos do cidadão ao mudar texto do Código de Processo Civil (CPC).

Agora, quem entrar em litígio com o banco sobre financiamento ou empréstimo, é obrigado a continuar a pagar as prestações, até a decisão da sentença – mesmo que a instituição esteja errada.

Pelo novo Parágrafo no Artigo 285-B, o cidadão deve destacar de parte do contrato quais os valores que pretende incluir em litígio, mas é obrigado a continuar a pagar os outros valores pré-acordados. Antes da mudança,  o cliente tinha o direito de suspender totalmente o contrato ou depositar em juízo, até a decisão judicial.

A mudança do CPC foi incluída em emenda pelo relator, senador Romero Jucá (PMDB-RR), na MP 585/2012, que não tinha nada a ver com este assunto, convertida em lei. A MP liberou R$ 1,95 bilhão a estados e municípios exportadores para compensações pelas perdas de arrecadação da Lei Kandir.

O chamado ‘contrabando’ na MP passou ‘despercebido’ pelo Senado. Venceu o lobby da poderosa Federação Brasileira dos Bancos, que representa as instituições financeiras que mais lucraram na História do País.

Há um imbróglio jurídico nessa questão do ‘contrabando’ patrocinado por Jucá. O artigo 62 da Constituição, Parágrafo 1º, Item b, proíbe que se mude CPC por Medida Provisória. A brecha para a manobra ocorreu, porém, porque a MP foi convertida em lei na tramitação.

Procurados insistentemente pela coluna desde Sexta, nem o senador, tampouco o Palácio do Planalto e a FEBRABAN se pronunciaram.

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(…)

 (BAR)LIVARIANOS

Oficiais de alta patente da Venezuela têm sido vistos em badalados bares e restaurantes de Brasília nas últimas noites. A missão-chope é um mistério.

(…)

 SOCO OLÍMPICO

Foi parar no The New York Times ontem a notícia do soco que o prefeito do Rio, Eduardo Paes, deu num músico, em restaurante da cidade, após ser xingado pelo artista.

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PS – e, para que conste:

 

 MOMENTOS DE PRIVACIDADE(CLIQUE NA IMAGEM)

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NOSSA GENTE

28-05-2013
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Esta é a nossa gente. De Norte a Sul, de Leste a Oeste.
 
Esta é a nossa gente, que nos dá exemplo, que nos dá orgulho. Assim ela é – brava, ordeira, capaz, inteligente. E assim sempre ela foi. Uma gente que não precisa de que alguém lhe ensine caminho algum.
 
A nossa gente é esta, não outra, não aquela gente “democrata” da boca pra fora, que bate panelas e bate carteiras no Poder, nos palanques, nas ruas ou nas salas de aula. Não aquela gente “diplomada”… em conversa fiada.
 
 
Essa é a nossa gente.
 
E a este brasileiro, um exemplar de nossa gente, porém, que tão bem sabe das coisas que nos são necessárias, que tão bem sabe dizer delas e tão bem sabe fazê-las, nenhuma Universidade brasileira ou estrangeira estará preocupada com dar de graça qualquer título de bacharel ou de doutor honoris causa.
 
Pensando bem, ele não precisa disso. Pensando melhor ainda, nós não precisamos disso.
 
Tanto ele quanto nós, todos nós de nossa gente, só precisamos de dar valor à vida e à capacidade de nossa própria gente.
 
Nada mais.  O resto é decorrência.
 
 
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PÁTRIA

25-05-2013
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 “Vereis amor da pátria, não movido de prêmio vil, mas alto e quase eterno;

que não é prêmio vil ser conhecido por um pregão do ninho meu paterno.”

Luís de Camões, em “Os Lusíadas”, Canto I

 
 
 

     Não nos bastasse um “hino do Mercosul” – teratológico em todos os sentidos, inclusive o idiomático, de que nada mais direi porque já disse um bocado, mas transcrevo abaixo (*) –, eis que militantes da internacional-qualquercoisista-pela-paz-mundial brindam nosso País e outros mais, tão periféricos em termos de poder real quanto este nosso, com mais alguns versinhos politicamente corretos para que os cantemos e sigamos a canção nas Cimeiras ou sei lá eu onde ou quando (talvez alguém, por aqui, preocupado com agradar os turistas bem nascidos, tome a iniciativa de aproveitá-los nos desfiles de blocos por ocasião de nosso Carnaval de Primavera  – aquele que, de uns tempos pra cá, passou a ser celebrado em Setembro, durante aquela que, um dia, no passado, foi chamada de “Semana da Pátria”):

 

HINO DA LUSOFONIA

Refrão (//): PÁTRIA LUSÓFONA. PÁTRIA MESTIÇA. PÁTRIA DO MAR.

No passado foi o encontro de culturas e de povos. O futuro será outro repleto de tempos novos. // É nossa a Lusofonia. Vem do Mar a Unidade. Na Língua pulsa a Alegria de sermos Comunidade. // Desde Angola ao Brasil, de Cabo Verde à Guiné, de Moçambique a Portugal, de Timor a São Tomé, // desde Goa até Macau, desde Malaca à Galiza, pelo mundo, como nau, por todo o Globo desliza. //”

 

    Ó raios! Esses malditos só podem nos estar gozando!

 

    Que pátria seria essa? Pátria de quem? Façam-nos o favor! Desde que este mundo é mundo, berimbau nunca foi gaita. E pão sempre foi pão, enquanto queijo sempre foi queijo.

 

    O mar nem nos fez nem nos deu Pátria alguma. Nem Pátria de alguém será. Se temos uma Pátria, os nossos a fizeram, uma Pátria eles nos deram, deram suas vidas por ela e nós a mantivemos. Só a teremos se a tivermos mantido. Nem a língua portuguesa – a lusofonia – é ou deu-nos qualquer Pátria. Nem qualquer “Comunidade” esperta será Pátria de quem quer que seja. Muito menos o significado de qualquer dessas palavras restringe, abarca ou substitui o significado da palavra Pátria. Pátria é Pátria. Nem é um monte de gente com algum interesse em comum nem é qualquerfonia; muito menos será qualquercoisa.

 

    Pátria é algo muito amplo, profundo, elevado, complexo, mais que perfeito, mais que concreto, que, no entanto, exige certa capacidade de abstração para ser compreendido. E, como tudo aquilo que, hoje em dia, neste mundo, requeira qualquer abstração maior que a necessária para lamber um picolé, mais fácil é que seja descartado de nossas considerações. Descartar dá menos trabalho que manter. Ou parece dar.

 

    Pátria é algo a que vamos aprendendo, a cada dia mais irresponsável e inconseqüentemente, ainda que a cada dia mais inconscientemente, a não dedicar a mais mínima importância. Quando nos pertence, será aquilo a que certo discurso – discurso absolutamente cacofônico, manso ou exaltado, que não esconde o quanto é vazio, que é enunciado desde que o mundo fez-se este mundo – tenta nos induzir a tratar com indiferença, quando não a repudiar. Enquanto que, quando pertence a outros tantos, alguns outros tantos, é permanentemente glorificado, de todas as formas e com todas as palavras e com todos os recursos possíveis e imagináveis. Pátria é aquilo cujo desconhecimento nos impele a uma fé cega, surda e muda no poder “sagrado” de um mercado mundial e em uma “justiça impoluta” que uma “governança” qualquer, que alguns querem ver universal, possa nos impor; portanto, ao suicídio nacional coletivo nos impele.

 

    Se acaso soubéssemos todos o que Pátria é, poderíamos ter perfeita consciência do exato grau de importância que um idioma bem estruturado e respeitado como valor nacional é capaz de assumir em qualquer luta por direitos que queremos sejam também nossos – pois estes serão ou deverão ser os mesmos bons direitos que os demais reivindicam; e/ou ter consciência, caso seja esse idioma aviltado e utilizado com intenções reversas, do exato grau de eficácia que, como um não-idioma, ele assume em detrimento de nossos deveres para com os nossos, nossos porque iguais a nós, com um mesmo destino projetado em nosso território nacional e até mesmo fora dele. Ao perder-se a noção do que seja uma Pátria, as responsabilidades cívicas desaparecem, qualquer outro valor, por mais baixo que seja, poderá mais alto se alevantar, qualquer um, investindo-se em “árbitro do universo”, em “providência divina”, poderá apontar a qualquer “terra prometida” e qualquer interesse vil poderá justificar pretensões a direitos e a liberdades por mais vis que também estes possam ser. 

 

    Consciência patriótica não se encontra em gramáticas e dicionários de um idioma comum a vários povos, em seus sotaques diferentes ou em quaisquer coincidências ou dessemelhanças pinçadas em quaisquer grupos mais ou menos restritos ou amplos. Encontra-se apenas muito e muito unida à consciência da História de um povo. História essa que é o que faz, de um bando de gente, alegre ou triste, efetivamente um povo. Consciência patriótica não se confunde com “alegria” alguma, mesmo porque, antes de tudo, é algo que deve ser levado a sério. Muito a sério. Tanto a nossa quanto a dos demais.

 

    Exatamente porque não a temos, nós – nós lusófonos por nossa própria História, não lusófonos “de alegres”, à toa, por acaso ou por opção sonora –, todos nós ou muitos de nós – que muito mal compreendemos a nossa linguagem e muito mal nela nos expressamos, que consideramos que nos basta mal e mal compreender as demais linguagens, inclusive as meramente técnicas, e acatar como “verdades absolutas” o que nelas possa ter sido produzido e dito, ou possa nem ter sido mesmo dito ou, muito menos, produzido, que mal e mal entendemos e, mesmo assim, reproduzimos aos quatro ventos essas “verdades absolutas” –, não emprestamos importância alguma à lusofonia. Não a respeitamos e permitimos que se façam “alegres” confusões com ela, com qualquer coisa que ainda nos possa restar e com tudo isso e o céu também. Como se tudo fosse um brinquedo barato.

 

    Pátria é uma realidade da qual esse “patriótico hino da lusofonia” – que só faz marola se desliza pelos mares sem direção, com muitos de nós a cantar e a suar nos remos e com ninguém atento na gávea – pretende nos afastar. Pátria é uma idéia-força que esse novo “alegre” réquiem – em louvor a sei lá quem ou quê, tão poético e emocionante quanto possa ser a imagem de uma bela e inerme caravela no meio da calmaria oferecendo-se a ir a pique, cercada de cruzadores que dela se aproximam a todo vapor e a bombardeiam incessantemente – tenta dissolver. Dissolver em nossa consciência, bem entendido.  

 

    “O futuro será outro repleto de tempos novos” ? Divertido, isso. “Alegre”…

 

    Resta saber se, nesses “tempos novos”, estarão outros e não os mesmos antigos mares, que desde sempre conhecemos, os mesmos ventos, que desde sempre nos empurraram ou a mesma calmaria, que desde sempre nos paralisou, antecipando tempestades.

 

    Pois bem: das demais, não sei, mas a minha Pátria – a que se concebeu inteira e plena na batalha de Guararapes, alinhavou-se a cada impulso à soberania e se costurou ponto a ponto, em inúmeros dolorosos conflitos por anos e anos a fio, nas mãos de gente de todas as cores – com nada se confunde. Não que, sozinha, eu tenha algum poder, mas por cima dela só passa quem quiser e puder passar por cima do meu cadáver. Em amplo e em estrito sentidos. 

 

    Já dos demais, que não se reconhecem em suas Pátrias, não as reconhecem ou delas se envergonham, também não sei. Nem me interessa saber. Que mergulhem fundo na ilusão dos “tempos novos”. Mas quem nos garante que esses tempos serão mais corretos e menos árduos que os atuais? E quem levará a sério e confiará em uma gente que só quer saber de “novidades”? Quem a salvará? A “providência divina”?

 

    O que diz essa gente não terá qualquer importância. Nem para mim, nem para quem quer que seja que tenha um pingo de discernimento. No tudo que diz querer, nada que nos seja consistente e razoavelmente viável essa gente quer erguer, e nada ela quer ser. O que sei é que, por nos dar a entender que só quer sair caminhando e cantando alguma coisa, qualquer coisa, em “liberdade” e com muita “alegria”, ela nos é muito nociva – enquanto canta e caminha, vai confundindo, desunindo, desmontando, desbaratando, destruindo tudo o que encontra pela frente. Porque para isso vem sendo treinada, porque essa é sua função, porque a nada mais dá importância.

 

    Mais dia, menos dia, de um jeito ou de outro, porém, essa gente há de ser contida nos limites de sua insignificância. Se não pela consciência, por todas as evidências. O nosso problema, imenso – problema esse que mais se avoluma a cada vez que, “alegres”, atrás dela saímos caminhando e cantando –, e nossa tarefa, árdua – para que com ela não sejamos confundidos, acorrentados e jogados à vala comum –, serão, então, um só: reunir e colar nossos cacos, e tentar novamente nos organizar e nos impor como povos conscientes de nosso passado e de nossas próprias responsabilidades quanto ao nosso presente e ao nosso futuro.

 

    Enfim… que mais fazer agora senão voltar a explicar, em bom Português, e insistir nisso, muitas e muitas vezes, sem descanso, que só nos resta tentar resistir enquanto é tempo (se é que ainda é tempo)?

              

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(*) – quem ainda não conhece que tome um antiácido antes de ler, por precaução, porque é de chorar de dor de estômago – bem mais que ao ler a “letra” de um tango rasgado.

Dêem-se os créditos: Letra e música: Dra. Gloria Hounau – Tradução (com direito a opção): Ricardo Mascaro

 

HINO DO MERCOSUL – Os países do sul unidos, por razões tão fundas reunidos. Hoje a união regional em razão ancestral, em razão cultural em Mercosul vai se encontrar. Mercosul, Mercosul, Mercosul, união triunfal. Mercosul, Mercosul, Mercosul, nasceu para ganhar. Nas terras do açai, das uvas, do café, (1) do petróleo e do cereal semeadores, pecuaristas e mineiros trabalhando pela paz. Dessa selvas, o sol, desses gelos nevados, (2) dessas pampas úmidas nasceu. Dessas terras vermelhas e das montanhas Mercosul ao mundo se abriu. Os amigos do sul se achegam a trabalhar pela paz, pela união, pela glória em seu lugar. Os países em fim reunidos trabalhando pela paz. Mercosul, Mercosul, Mercosul, união triunfal, Mercosul, Mercosul, Mercosul, em união triunfal.”

Opção: (1) da prata, do café; (2) desses picos nevados                

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     “Afinal apareceu uma coisa diferente no Brasil, coisa que de certo modo quebra a monotonia cotidiana: guerrilheiros em Caparaó”. 

 

     Essas palavras foram “colhidas” na internet.

 

     Na internet encontramos um monte de coisas. Úteis ou inúteis. Interessantes ou idiotas. Aproveitáveis ou nocivas. Sérias ou divertidas. A internet é um depósito dessas coisas todas, sempre aberto a qualquer um, sem que exija qualquer critério de seleção. Temos, na internet, os nossos arquivos, o nosso correio particular, diferentes jornais e revistas do mundo inteiro, alguns livros, alguns filmes, o Google, o youtube, o facebook… e… não, definitivamente, não, nem por isso a internet será um instrumento de qualquer Cultura… que Cultura de fato seja. Não, mesmo. Mas é um instrumento que, por permitir a comunicação (quase) gratuita, permite que sejam disseminados e consolidados certos “cultivos”; ou, dizendo de melhor forma, permite que quaisquer idéias que justifiquem quaisquer atitudes sejam semeadas. E cultivadas. Quanto maior a facilidade e a menor complexidade do cultivo maior será a colheita e maior será o consumo. Temos, assim, ao nosso alcance, e ao alcance de qualquer um, uma internet… “de resultados”…

 

     Aquelas palavras que colhi, que nos induzem a qualificar o cotidiano como monótono quando ele está em paz, quando nada o perturba ou agita, são de Carlos Drummond de Andrade e foram publicadas em “O Estado de Minas” no mês de abril de 1967, quando internet ainda não havia. Serviram, quarenta anos depois, em 2007, de introdução ao documentário dirigido por Flávio Frederico que, conforme o comentário postado no youtube (www.youtube.com/watch?v=qGlbHfG8aGA), contém depoimentos que esclarecem “a memória que os guerrilheiros faziam de si mesmos enquanto parte do seu presente, e que presente é esse que identificam (durante o filme, afirmam que participavam de uma continuidade política que vinha antes do golpe de 64, e que tinha relações com movimentos sociais externos, como no caso a revolução cubana)”. 

 

     Já em “profissão militar”, uma das páginas encontradas no facebook (www.facebook.com/pages/Profiss%C3%A3o-Militar/352325294779538?ref=stream), colhi a imagem abaixo, postada com o seguinte comentário: “Vi esse post por aí…  A frase era “Prefiro TER QUE voltar a ver estas…”  Modifiquei um pouco a frase.  Para mim faz mais sentido assim!

 

preferência 

 

     Ter uma preferência não indica necessariamente ter inteligência, refinamento ou discernimento. Indica apenas ter uma preferência. E o verbo preferir dá oportunidade a que se cometam muitos erros. Errado, por exemplo, estará o título de outra página, aliás, de muito bom coração, repleta de fotos e figurinhas, no facebook – a “prefiro bicho do que gente”. A preferência expressa é muito simpática, sim, pois indica que, com carinho e atenção, até mesmo com respeito, devam ser tratados os animais… exatamente porque são confiáveis. Merece respeito todo aquele que se demonstra confiável. Quem não se demonstra confiável não o merece. Mas as palavras, usadas de forma errada, correm o risco de ser somente interpretadas como uma bordoada em nossa linguagem.

 

     O erro ou o acerto de “sentido” encontrado na redação anterior da frase que acompanha as imagens em “profissão militar” não estaria na regência do verbo preferir, como se vê. Mas nada sutil é a diferença entre as duas frases – pelo contrário, é bastante considerável. A primeira implicava um ser obrigado a (“ter que”) voltar a ver no Poder estrelas que nele já estiveram e dele se afastaram; a segunda implica aceitar, de bom grado ou indiferentemente, aquelas estrelas no Poder. Apenas perceberá a diferença quem conhecer a linguagem, e quem acreditar que o pensamento possa e deva ser bem expresso em palavras. O que não requer amar estrelas ou tentar ouvi-las para que possam ser bem entendidas.

 

     Vários outros comentários se acrescentaram a esse primeiro a respeito de ditaduras, democracias fulanos, beltranos, sicranos etc. etc. Muitos deles exaltados, com muitas letras formando palavras que, juntas em frases, muito ou nada nos diriam. Eu, aqui, de acordo com minhas preferências – pois cada um se ressentirá do autoritarismo como bem o pressentir, bem o compreender, bem o preferir ou bem o aceitar (ou não) –, digo que a frase estaria mais adequada ao nosso cotidiano que, faz tempo, vem sendo um bocado monótono, caso fosse corrigida para “Preferiria voltar a ver estas estrelas (as 4 do Generalato das 3 Armas nobres) a governar o meu Brasil a ter que ver esta (a estrela vermelha do PT) a fazer o que vem fazendo para destruí-lo” – “preferir” estará no futuro imperfeito e “fazer”, reparem, estará preposicionado, a exemplo do que “governar” exigiu.

 

***

     Filigranas?

     Não, não são filigranas. As palavras, como as imagens e os fatos, têm significado. Poucas, muito poucas, porém, serão plenas de significado e de sentido, ou mesmo terão algum significado ou algum sentido quando isoladas. As palavras, as imagens e os fatos não são quaisquer símbolos em si e por si mesmos. Ganham sentido e significado quando em uma relação com outras palavras e/ou imagens e fatos que lhes possam ser relacionados. Ou quando são restritivamente relacionados. Assim, por vezes ganham sentidos e significados absolutos, e poderão tornar-se símbolos, caso o desejemos e/ou permitamos. O arco-íris, por exemplo, que é um só, nenhuma significação possuía exceto a decorrente de ser um belo fenômeno atmosférico… até que sua beleza e sua universalidade nos foram surrupiadas por certo grupo de indivíduos com interesses específicos que não mais nos permite o direito desfrutá-las, nem mesmo permite que sejam apontadas às crianças nas Escolas senão lembrando um único recado – o de que devemos ser não só tolerantes com os componentes desse mesmo grupo como desse grupo ser entusiastas e/ou participantes. Portanto, a imagem de um arco-íris não mais se refere simplesmente a “o” arco-íris e, onde quer que hoje seja apontada, exigirá adjetivos, preposições… Já às estrelas, também por exemplo, que são inúmeras, poderemos emprestar qualquer significado – o que não quer dizer que todas elas, por alguma razão, não possam alguma vez ser vistas como associadas ao PT.

 

     Poucos, muito poucos, são também os que se preocupam com observar significados e sentidos, assim como são poucos os que se preocupam com observar as flexões possíveis das palavras, sua regência, especialmente a de nossos verbos, ou qualquer regra de linguagem. A tendência vem sendo cada vez mais desestruturar a língua portuguesa, mesmo a coloquial que nada tem de “elitista”, por puro pouco caso, e cada vez mais incentivar sua desestruturação, substituindo-a por “ícones”, por “sons” e por vários dialetos locais rudimentares apelidados de “populares e democráticos” que apenas transpiram ignorância absoluta.

 

     Seria possível, no entanto, pelo menos desconfiar de que haja certa intenção específica nesse “pouco caso”. Intenção que boa não será. Quem fala e escreve errado necessariamente ouve, lê e vê errado, compreenderá tudo e qualquer coisa da forma errada, refletirá da forma errada e, conseqüentemente, agirá de forma errada. E errado é o que faz mal. Até poderá saber soletrar e assinar o próprio nome, e melhor seria que nem soubesse, pois, mal letrado, nem saberá ler, nem escrever, nem ver, ou seja, nada saberá identificar, mas acreditará que sabe e disso não duvidará. E, acreditando e não duvidando assim, errado, nem será capaz de, sequer, encontrar erros no que faz ou no que é feito.

 

     Caso ninguém experimentasse tanta aversão a ler textos longos, aqueles com mais de 100 palavras – como este, por exemplo… –, caso todos observassem não só a regência nominal e verbal como as demais regras da linguagem e outros tantos protocolos e regras mais, necessários à boa comunicação, caso todos observassem o sentido das palavras em sua relação com as demais e as frases em sua relação com as imagens e, principalmente, com os fatos de fato, a reprodução inconseqüente de muita bobagem que hoje é dita, ouvida, vista e lida poderia ser evitada. Ou, pelo menos, poderíamos ter algumas discussões bem proveitosas. E muitos mitos “incontestáveis”, que se extraem do lixo que não é apenas oral, mas também é escrito e pode ser ilustrado com imagens verdadeiras ou forjadas, que vem sendo espalhado pelo território nacional com grande ajuda da internet, estariam adequadamente classificados no rol das burrices e das mentiras perversas que esvoaçam em nosso País pretendendo pousar e se aninhar em nossas cabeças, esvaziando-as de conteúdo, não no rol das “verdades absolutas”.

 

     Por outro lado, temos em nossa população muitos intelectuais. Intelectuais devem gostar de ler. E temos muitos poetas. Nem todo intelectual é um poeta e nem todo intelectual gosta de poesia. Poetas, sim, gostam de poesia. Se não gostassem, não seriam poetas. Mas não só poetas gostam de poesia. Para quem sabe, quer e gosta de ler além da poesia, aquela frase de Carlos Drummond de Andrade, um poeta, um intelectual, mostrar-se-ia em explícito e absoluto antagonismo com qualquer expectativa de paz social que tanto é alardeada por tantos de nós, reconhecidos (ou não) como intelectuais e, às vezes, até como poetas. Não tivesse sido escrita por um Carlos Drummond de Andrade, não fosse Carlos Drummond de Andrade reconhecido como um intelectual, como um poeta, e imediatamente afirmaríamos que aquela frase, estampada como introdução a um filme que pretende ser didático, teria sido muito estúpida e muito infeliz.

 

     Não encontrei o texto de Drummond na íntegra, mas algo dele foi lembrado em www.dirigida.com.br/news/pt_br/tamanho_da_letra_estado_de_minas/redirect_11972777.html, onde se lê: “Constatando o fracasso do levante – ‘vencido pelos ratos, antes do combate com as tropas’ –, o escritor mineiro não deixa de valorizar a tentativa: ‘Aqueles camaradas magros, barbudos, enfraquecidos, que desciam da montanha e se esgueiravam entre sombras, intrigavam os moradores das margens do Manhuaçu. Até a polícia acorda nessas ocasiões. E polícia acordando, o Exército vai ver o que é que há. Foi. Os guerrilheiros presos, e a Serra do Caparaó, ao que tudo indica, não será mais agora-outrora uma versão mineira de Sierra Maestra. Mas aconteceu. Esse nome de guerrilheiros soa a nossos ouvidos com um timbre de herói moderno, que às vezes tem sorte, e muitas outras entra pelo cano. Mas, sem dúvida impressiona mais do que o guerreiro, tão velho e gasto este último que até o Ministério da Guerra mudou de nome, pela reforma administrativa’, finaliza Drummond.”

 

     Que valor exatamente teria ou ainda terá a “tentativa” que “de certo modo” quebrou nossa “monotonia cotidiana”, que terá sido vencida “pelos ratos antes do combate” e que o poeta, poeticamente, tanto valorizou? Estúpida e infeliz, porque absolutamente inconseqüente, por mais poética que nos possa parecer, será não apenas aquela primeira frase de Drummond como as demais aqui transcritas, ou talvez o texto inteiro publicado em 1967; e também será, especialmente, estúpida e infeliz a valorização da valorização do poeta das intenções de quem se imagina um “herói moderno” porque “às vezes” teve “sorte, e muitas outras” entrou “pelo cano”, dependendo se foi ou não capaz de acordar a Polícia e motivar a curiosidade do Exército. Que não se importe o Exército se algo acordou a Polícia? Que durma a Polícia, para que os delinqüentes sempre tenham sorte e não entrem pelo cano? Ou para que os ratos tomem conta de nosso pedaço?

 

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     Já a declaração postada em “profissão militar” pôde sugerir aos emprenhados pelas orelhas – convictos de que a “arbitrariedade” da Polícia ou do Exército nos proporcionou, no passado, uma “ditadura” – que estava sendo dito que uma “ditadura militar” seria preferível ao atual regime supostamente “democrático”. Assim como as palavras isoladas pouco dizem, e apenas terão significado quando postas em uma frase, uma imagem, uma frase ou um fato apenas ganham significado quando em relação a um processo. Quem não atenta ao processo não saberá compreender ou interpretar qualquer palavra, qualquer frase, qualquer imagem ou qualquer fato.

 

     Não exatamente à toa ou por acaso, ainda por exemplo, o Senador Jarbas Vasconcelos – que nunca “teve que” exilar-se do País, que não pode alegar que tenha sofrido torturas, que, em 1966, foi um dos fundadores do Partido de oposição ao regime de 1964, que foi eleito Deputado estadual em 1970, Deputado federal em 1974 e foi candidato a Senador em 1978 disputando vaga que se preencheria por voto direto – declarou, em entrevista publicada em um blogue (http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2013/05/16/jarbas-vivemos-uma-situacao-pior-que-ditadura/) que: “Eu assisti pela televisão a um debate de altíssimo nível entre duas figuras de reputação ilibada. Um responde a um processo no Supremo Tribunal, o outro está condenado, em primeira instância, por formação de quadrilha”. E não exatamente a bem de toda a verdade, acrescenta: ”Vivemos hoje uma situação pior do que a que atravessamos na época da ditadura [quando] (…) havia dois partidos: Arena e MDB (…) Em determinados momentos, a Arena ficava meio encabulada de massacrar o MDB. Agora é diferente. Eles fazem o que querem. Anunciam claramente o que vão fazer. E fazem.” E argumenta: “Então a gente é massacrado e tem que ficar calado? Na ditadura não adiantava recorrer ao Supremo. Agora, pelo menos nesse aspecto, é diferente.

 

     O Senador – do PMDB, Partido da base aliada ao Governo do PT, que tem em seus quadros o nosso Vice-Presidente e que até hoje não foi capaz de sequer alinhavar qualquer arremedo de projeto nacional – reclama hoje de que suas preferências não estão sendo levadas em consideração no Congresso Nacional. Mas, ao traçar um paralelo com o regime anterior (absolutamente desnecessário dada a evidência da nossa atual monotonia cotidiana), esquece-se de que os responsáveis por aquele regime nunca afirmaram que ele não era um regime de exceção, tanto assim que ele se autodissolveu; esquece-se também de que o bipartidarismo alegado abrigava seis sublegendas, organizadas internamente como verdadeiros Partidos, cujos participantes, em sua maioria, acomodaram-se em posição de “esquerda” e de “centro-esquerda” tão logo novos Partidos foram criados após a “abertura”. E ainda se esquece de que a única função de qualquer Tribunal é apenas julgar – e aceitar julgar – estritamente conforme a Constituição e os Códigos em vigor. A quem antes “não adiantava recorrer ao Supremo”? E “não adiantava” por quê?

 

     Os que tanto falam em “ditadura militar” para justificar as “liberdades” e os “direitos humanos” concedidos pelo novo regime se esquecem de que o inegavelmente rígido sistema estabelecido em 1968 deveu-se a um processo que foi iniciado bem antes de 1935 exatamente por aqueles que não acreditavam em quaisquer liberdades ou direitos humanos (ou assim o demonstravam com atitudes cruéis e cruentas praticadas no mundo inteiro), e de que o “regime militar”, reconstitucionalizado em 1967, dissolveu-se em 1° de Janeiro de 1979, quando os Atos Institucionais perderam validade e o Congresso votou uma série de emendas constitucionais. Esquecem-se de que o mesmo processo continuou até 1985, quando houve eleições indiretas para a Presidência da República, e prosseguiu, em 1986, quando foi eleita a totalidade de um Congresso que, logo em seguida, transformou-se, por ato do Presidente – indireto! – José Sarney, em Constituinte, e elaborou a Carta promulgada em 1988; esquecem-se de que a anistia aos indesejados durante o período de Presidentes militares, anistia que permitiu que esses indesejados voltassem ao território nacional a fazer, livremente, sua eterna demagogia que, por ser eterna, faz-se até hoje, foi concedida quando um Presidente militar estava no Poder; esquecem-se de que tudo isso aconteceu exclusivamente porque os Oficiais militares assim o permitiram, quando não o desejaram expressamente, alguns deles acreditando, ingenuamente, em que o Brasil pudesse já ter tomado jeito; esquecem-se de que os Presidentes de muitos Estados, de Nações respeitáveis, não são eleitos diretamente pelo povo, aliás, muitos deles, talvez os mais democráticos, ainda têm reis e rainhas a representá-los; esquecem-se de que os Oficiais militares foram os que nos garantiram a República no que muitos chamam hoje de “golpe militar” etc. etc. Esquecem-se disso tudo e de muito mais, ou nada disso conhecem, porque nada leram ou porque, se algo leram ou ouviram, nada souberam compreender.

 

***

     O que pretenderiam sugerir aquela frase, indicando uma preferência, e aquelas quatro imagens, sendo o significado de uma delas (em tese) oposto e conflitante com o significado das outras três, publicadas em “profissão militar” – porque este é o limite do que poderiam sugerir – é, pois, apenas o seguinte e nada mais: as três Armas nobres, por conterem em seus quadros especialistas em diferentes assuntos, teriam (em tese) muito claro o que é necessário fazer para que o nosso País fosse confiável, respeitável e respeitado. Não que hoje o tenham claro de fato, apesar de que o devessem ter. Mas, para o País como um todo, para qualquer civil bem intencionado, inclusive para o bom Exército de ontem, de hoje e de sempre, mesmo que as sucessivas Presidências militares pós-1964 não se configurassem como reflexo de um regime ideal, teriam sido elas preferíveis a algo semelhante ao estado atual – um estado perverso que, à época daquelas Presidências, foi evitado e por um bom tempo pôde ser postergado; um estado em que o nosso País hoje se vê, entregue não só aos ratos como às baratas, sua direção confiada àqueles que se agarram ao Poder como “heróicas” sanguessugas, confiada a um Partido que pretende ser único dono da verdade e não sofre qualquer pressão contrária que lhe exija, sequer, que se sinta “meio encabulado de massacrar” qualquer oposição, e, por isso mesmo, sempre terá muita ”sorte” e nunca “entra pelo cano”; estado esse que alguns indivíduos e/ou alguns grupos (que promovem danças da chuva e priorizam Carnaval, favelas, futebol, sexo, drogas e alegadas experiências de ditas “celebridades artísticas e políticas” e falsas vítimas de tortura ou de exílio voluntário, ávidos por, a qualquer preço, ver seus sonhos de aventuras principalmente financeiras transformados em realidade e/ou por impor seus interesses particulares sobre os interesses comuns) descrevem, demagogicamente, como um grande e louvável esforço por transformar e ultrapassar a imagem de um Brasil cada vez mais decorativo e mais inútil aos brasileiros (usando aqui, pelo avesso, as palavras com que uma livraria virtual (www.livrariaoperamundi.com.br) recomenda a leitura de “Brazil [sic, com “Z”], um País do Presente”, livro recentemente lançado que “tenta ajudar o leitor a entender como os americanos [sic] enxergam esse novo Brasil que, aos olhos do mundo, vai finalmente deixando de ser uma promessa eterna”…).

 

     O que as imagens e a frase postadas em “profissão militar” põem de manifesto é, portanto, uma divergência de rumos, de objetivos, de identidade, de valores, de consciência, de caráter, não de temperamento, personalidade ou profissão, e quem bem lê e bem vê assim as verá e as lerá. Uma divergência que nasce do exercício de avaliação das necessidades e das prioridades nacionais. É um alerta ao perigo do resultado de um processo que tentou ser, mas não pôde ser interrompido em 1964 ou em 1968, e vem sendo alimentado lautamente por toda uma “sensível” e “romântica” gente que suspira de emoção ao ter notícias das ações “heróicas” dos que quebraram a nossa “monotonia cotidiana” em 1967, dos que insistiram em nada mais fazer que apenas justificá-las nos anos seguintes e mais insistirão nisso até que tenham nas mãos o Poder absoluto. Uma gente “sensível” e “romântica” que não só “legitima” essas ações como as “legaliza”, tal como pretende ou apenas aceita “legitimar” e “legalizar” muitos outros delitos e crimes que vêm sendo cometidos contra a Sociedade nacional. Seria esse processo, levado adiante por esses “heróis modernos”, louvável por ser um processo “socialista”? Ou é apenas um processo criminoso que precisa de ter um fim?

 

     A essas questões todas não se limita um quadro bem mais amplo que exige, para ser avaliado, um pouco mais de abstração que a exigida para assistir a filmes de aventuras ou para folhear gibis com figurinhas, quadro que, infelizmente – em virtude da exaltação atual não só das Armas nacionais como das demais profissões de Estado, Diplomacia inclusive, como adequadas a ambições aventureiras e/ou mercenárias, como oportunidades de ganhar mundo, de obter projeção e desfrute individuais e ascender socialmente – a ninguém mais, ou, pelo menos, não à nossa maioria, nem mesmo a qualquer pequeno grupo com potencial de organização, vem interessando avaliar ou sequer considerar. Seriam considerações que, por exigirem constância, por certo poderiam ser consideradas muito… monótonas

 

     Mesmo que atribuir o regime anterior exclusivamente aos Oficiais militares seja uma enorme ignorância; mesmo que atribuir um caráter antidemocrático a um Oficial militar pelo simples fato de que este é um Oficial militar seja não menos que uma estupidez descomunal; mesmo que discutir uma oposição construída perversamente entre “civis” e “militares” em termos de um caráter pessoal que possa ser decorrente de uma profissão ou de uma função seja uma estupidez maior ainda, uma estupidez própria de quem não só não sabe ler ou ver como não quer ver ou ler porque não quer saber, muitos de nós são os que preferem saber apenas das ficções que lhes dizem de rebeldes sem causa (ou cuja “causa” esteja em seu próprio bolso), de “heróis” cujo heroísmo apenas nas asas da imaginação possa ser encontrado, de ações e intenções romanceadas que sejam capazes de quebrar a monotonia cotidiana de quem por elas se interessar. E muitos são os que preferem saber dessa ficção apenas se e quando transformada em imagens, que dispensam palavras. 

 

     Hoje, por aqueles que nada sabem porque nada querem saber e porque não lêem, e não lêem porque não sabem ou não querem saber ler, pôde ser condenada como “ditatorial” a “voz de comando” militar ouvida em 1964 – um brado heróico que aglutinou militares e civis nem sempre competentes, mas minimamente conscientes da importância de serem levados adiante a ordem e o progresso inscritos em nossa Bandeira; brado retumbante que buscava evitar a desordem e o retrocesso nacionais e ordenava punir arruaceiros, aventureiros e terroristas contra os quais travou-se em nosso território uma verdadeira guerra sem que outros mais, que não fossem Soldados e Comandantes de diferentes Pátrias, Nações e Estados, nela se envolvessem; “voz de comando” que ecoou aos quatro ventos, mas perdeu-se na brisa mansa de um supranacional bom-mocismo politicamente correto e na brutalidade da tempestade de areia que nos soterra num mesmo deserto de idéias, sendo substituída por uma “palavra de ordem”, primitiva como um uivo, que nenhuma abstração ou compromisso exige e que se resume a “cada um por si e todos por nada e coisa nenhuma”, dita correta porque dita “civil”.

 

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     Atenta às “artes”, a mesma Imprensa que está na internet e nos induz a prestigiar os “ex-guerrilheiros e ex-terroristas de ontem” – os que procuraram e conseguiram quebrar a nossa monotonia cotidiana com uma tentativa que “sem dúvida impressiona mais do que” a ação contrária do Exército nacional “guerreiro, tão velho e gasto” que não só “o Ministério da Guerra mudou de nome” como entregou seu corpo e sua alma a um bicho disforme e inútil denominado Ministério da Defesa – procura nos induzir a aplaudir como “heróis” os que hoje ainda tentam, seja como for, quebrar seu terrível tédio existencial exclusivamente individual. E, assim, ao mesmo tempo em que o período dos Presidentes militares é condenado como “ditadura” que teria sacrificado jovens brasileiros idealistas, podemos ler, por exemplo, que “pelo menos 12 brasileiros, a maioria ex-integrantes do Exército do Brasil, fazem parte da 2ª e da 3ª companhia do 2º Regimento Estrangeiro de Paraquedistas (2ºREP) da Legião Estrangeira, tropa que integra o Exército da França e é especializada em combate em áreas de montanha e combate anfíbio”; e o entusiasmo manifesto com essa “aventura radical” nada monótona, que permite perceber um bom salário e conhecer “muitos lugares pelo mundo”, deve-se a que, “quando você está atirando ou sendo alvo de tiros, entra na adrenalina”, sendo até “engraçado estar sob fogo“. Nessa “aventura”, bem mais emocionante que distribuir cestas básicas, mergulham jovens que não se realizam aqui no Brasil, que gostam do difícil, que querem mais perigo e vivenciar uma guerra real, que se reconhecem sem limites e acreditam que isso tudo, inclusive sendo bucha de canhões, sejam eles franceses ou sejam da ONU, com certeza, vale a pena (g1.globo.com/mundo/noticia/2013/05/na-legiao-estrangeira-ex-soldados-do-brasil-combatem-rebeldes-no-mali.html). 

 

     Em suma, não perdemos somente a noção do Bem e do Mal, a noção de identidade, a noção de unidade nacional ou a noção do perigo – perdemos também a noção do ridículo. E, se a perdemos, com que propósito alguém haveria de querer levantar e discutir as razões que nos levaram a esse estado de tão baixo nível? Como? Com quem? Para quê? Com que palavras? Em que língua? Para tentar encontrar soluções? Para quem? Muito embora esse exercício, não exatamente “heróico”, mas, por certo, árduo, muito árduo, por ser tão “diferente”, talvez até pudesse quebrar a nossa melancólica monotonia cotidiana… Mas, convenhamos, seria extraordinariamente cansativo…

 

     Muito bem acomodados em nossas confortáveis poltronas, além de acompanhar as excitantes discussões no Congresso que elegemos em absoluta liberdade e as notícias do número de homicídios e estupros diários nas ruas de nossas cidades, infinitos, poderemos escolher entre assistir a um “Caparaó” ou assistir a um “Beau Geste”, ou a qualquer aventura parecida, tanto faz. As ações nos emocionarão, não importando a trama ou suas razões. Entraremos na adrenalina, mesmo que por osmose. Poderemos sofrer, gritar, chorar, sorrir e, mais que tudo, torcer. Não duvido de que, muito logo, a Petrobrás e o BNDES ponham recursos à disposição de nossos criativos novelistas e cineastas para que produzam uma aventura romanceada qualquer tendo por pano de fundo a Inteligência e as extraordinárias habilidades brasileiras no Haiti – o que quebraria não só a monotonia cotidiana como a melancolia de alguns. Ou, desde já, poderemos assistir a um “show de química” e aprender, com alguém experiente e fardado como um verdadeiro Soldado, por escrito, porque nada se ouve em virtude da baderna sonora na “classe de aula”, a receita de como fazer uma bombinha caseira em um vídeo, divulgado pela Faculdade de São Bernardo do Campo (www.youtube.com/watch?v=x8kGJ3MYCMk), que termina em azul, serpentinas coloridas e o nome dos “professores responsáveis”.

 

     Tudo vale a pena quando o único objetivo da vida for… quebrar a monotonia.               

 

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     De longe, muito de longe, só ouvindo apitos e só vendo muita fumaça, pondero o seguinte, dois pontos,

há quem resuma nossa História nacional a uma série de “quarteladas”. As atitudes civis e militares observadas em 31 de Março de 1964, assim como as atitudes civis e militares subseqüentes, são fatos de nossa história decorrentes de um Movimento político que produziu alguns resultados. Há como comparar esses resultados com os resultados de alguns outros momentos de nossa história e da história de outros povos, especialmente a de nossos vizinhos, e comparar a nossa curta história com a longa história de outros povos. Assim, das duas, uma – ou as interpretamos como uma intervenção desejada e necessária em um Governo podre que nos pretendia apodrecer por completo (Governo que não se limitava à figura de um Presidente demagogo) ou as interpretamos como mais uma “quartelada”.

 

    31 de Março de 1964 foi uma “quartelada”?

 

    Então tudo o que está dito em dois textos que me chegaram qualificados de “interessantes” e mantenho transcritos abaixo merece ser amplamente divulgado e deve ser considerado correto, pois estará tão correto quanto correta está a história dos nossos “santos libertários” e dos nossos “ex-guerrilheiros” contada por eles mesmos. E será tão “interessante” quanto. É uma “história”… de uma “quartelada”.

 

    31 de Março de 1964 foi uma intervenção necessária no Poder Central?

 

    Então tudo o que está dito abaixo deve ser guardado em uma gaveta ou na memória apenas para que não nos esqueçamos de quem é Claudio Humberto, de quem é Carlos Chagas, não nos esqueçamos do que pensam, pensaram, fazem e fizeram eles, do quanto se valeram ou se valem e frustraram-se ou frustram-se em suas funções etc. etc.

 

    Além de Cláudio Humberto e Carlos Chagas, outra das viúvas de Jango, Élio Gáspari, também comentava, em Dezembro do ano passado, o episódio em que Meira Mattos, então Coronel, deparou-se com Adauto Lúcio Cardoso na Câmara Federal  (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/84149-o-stf-deve-se-lembrar-de-adauto-lucio-cardoso.shtml), para nos dizer que: “…o Congresso, foi fechado em duas ocasiões porque defendeu a sua prerrogativa de julgar parlamentares. Engrandeceu-se. … Se o Supremo decidir que os mensaleiros devem perder o mandato, cria-se um desequilíbrio entre os Poderes da República que só tem a ver com as delinquências dos mensaleiros num aspecto pontual. … Amanhã, outro Supremo poderá encarcerar outro Chico Pinto. … O Poder Judiciário de hoje nada tem a ver com o poder revolucionário do coronel. Sua tropa é a da opinião pública. Hoje, como em 1966, o que está em questão é a independência do Congresso, em cuja defesa Adauto foi a um extremo simbólico.”

 

    Não exatamente “interessante”,  mas bastante sugestivo, não lhes parece?

 

    Pois nada de “interessante” há, tampouco, em ver que os mesmos que afirmam que uma atitude radical foi necessária no passado (muitos deles “ex-fardados”) – e, mais grave ainda, chegam a supor ou a sugerir que, hoje, atitude semelhante poderia estar sendo novamente necessária – divulgam textos produzidos por 3ºs que “explicam” que o movimento civil-militar de 1964 nem foi justo nem foi necessário porque a Lei não o permitia, e só foi possível porque a voz dos “valentes guerreiros” da Imprensa e do Congresso Nacional, dedicados guardiães incansáveis da “ordem constitucional”, foi desconsiderada. Ou seja, divulgam, inconseqüentemente, textos e mais textos que “explicam” a História do Brasil como uma sucessão de “quarteladas” entremeadas de tentativas virtuosa e virtualmente democráticas frustradas lideradas por modelos exemplares de probidade administrativa e responsabilidade cívica.

 

    Esse trem desarticulado, que hoje periga ver-se desembestado, descarrilado em cada vez mais demagogia e atirando-se ao abismo, deve ser, urgentemente, contido, para que não siga adiante. Por mais que venha apitando e soltando fumaça. Pelo menos, para que não siga adiante sob nossa própria condução e usando como combustível a lenha já seca acumulada em nosso próprio quintal.

 

    Façam-me um favor, aliás, façam um favor a todos nós e a vocês próprios: definam de uma vez por todas a que “tropa” vocês pertencem ou em que “tropa” vocês preferem se colocar; escolham em que acreditar, escolham de uma vez por todas em que devem ter fé, o que devem defender, quem mais devem respeitar ou ter por modelo, se Meira Mattos, Adauto Lúcio Cardoso ou Francisco Pinto; resolvam se, depois de 1964, viu-se uma “lambança” ou a “lambança” era o que se via antes e o que hoje novamente se vê; se o Congresso de 1966 “humilhado por dezenas de cassações de adversários do regime militar” demonstrava-se mais ou menos “emasculado” que o atual em que Rousseff não tem adversários ou que a Constituinte de 1986, e se um Congresso Nacional teria e hoje tem ou não teria e hoje não tem algum direito a “cruzar os braços”; se o Poder teve por “dono” algum Presidente militar ou tinha “dono” antes e agora também tem; se o “matreiro” Auro de Moura Andrade enganou o “truculento” e “arbitrário” Castello Branco e impôs-se ao “pouco caso” da maioria dos Chefes militares ou agiu de acordo com as intenções do Movimento de 1964 que estes teriam garantido. Decidam de uma vez por todas como devem pensar e agir para que haja um mínimo de coerência nisso tudo, e parem de ajudar a provocar mais confusão no pedaço!

 

  

 

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From: Sent: Wednesday, May 08, 2013 12:58 PM

UM POUCO DA HISTÓRIA DO MOVIMENTO DE 1964 ( Interessante)

http://www.claudiohumberto.com.br/artigos/?id=357745

http://www.claudiohumberto.com.br/artigos/carloschagas.php

 

O DIA EM QUE OS MILITARES FECHARAM A CÂMARA

Por Carlos Chagas

Ano que vem completam-se 50 anos da deflagração do movimento militar que passou a governar o país nas duas décadas seguintes. Cada vez mais distantes, aqueles tempos fazem parte da memória nacional, hoje impossível de caber nessas maquininhas diabólicas responsáveis por seus milhões de usuários conhecerem tudo o que é supérfluo e desimportante, mas nada de nossa História.

Vale lembrar certos episódios no mínimo para que nós, velhos, não os esqueçamos, sem a mínima esperança de que os jovens possam conhece-los.

Castello Branco, o primeiro general-presidente, aliás, marechal, mandou invadir o Congresso, em outubro de 1966. Por um passe de mágica fundado nos Atos Institucionais, havia transformado Câmara e Senado em final de mandato numa peculiar Assembléia Nacional Constituinte. Dezenas de deputados haviam sido cassados desde a deposição de João Goulart, mas aos que sobraram o governo impunha a missão de ordenar o cipoal de atos, emendas, leis, decretos e imposições do regime, responsáveis pela desmoralização completa da Constituição de 1946.

Assim, no final de seu mandato, Castello pretendeu passar o Brasil a limpo, com uma nova Constituição. Consultou juristas amigos e ouviu deles que uma nova Constituição, para ser legítima, deveria provir de uma Assembléia Nacional Constituinte, eleita livremente. Discordou de imediato, pois com seu governo impopular, uma eleição livre levaria os adversários do regime a formar maioria e a redigir uma Constituição contrária aos militares. Um “jurila”, misto de jurista com gorila, logo deu a solução: a outra forma do poder constituinte originário exercitar-se seria os detentores do poder editarem o seu texto, sem participação política nem popular. O marechal também se insurgiu: “não faço isso, não sou ditador”.

Diante do impasse, como estávamos e ainda estamos no Brasil, veio a fórmula milagrosa: “por que não transformar esse Congresso desgastado, que nós dominamos, em Assembléia Nacional Constituinte?”

Bingo. Mais um Ato Institucional e pronto, até com data marcada para os “constituintes” se reunirem: de dezembro a janeiro, só que com uma exigência. O governo enviaria a eles um ante-projeto de Constituição, que poderiam alterar o quanto quisessem, mas se não concluíssem a tarefa até 17 de janeiro, todas as discussões e debates teriam sido inócuos, passando a valer o texto oficial. Por coincidência, era o pior possível, bastando dizer que não continha o capítulo dos Direitos Humanos.

Estávamos ainda em outubro de 1966 e o então presidente da Câmara, Adaucto Lúcio Cardoso, fiel seguidor do regime militar, procurou o presidente da República com um pedido: que não fossem mais cassados deputados. Como futuros “constituintes” deveriam ter liberdade para votar. Desnecessário explicar que até então não se passava um mês sem que grupos remanescentes de parlamentares tivessem seus mandatos cassados.

Castello Branco aceitou a sugestão, mas os radicais incrustados a seu lado protestaram. A Câmara estava pressionando e aprisionando o governo, que dispunha de todos os poderes para cassar quem quisesse. O presidente resistiu alguns dias mas logo cedeu às imposições dos generais e coronéis, cassando quatro deputados que lhe faziam insossa oposição.

Adaucto sentiu-se traído e não tomou conhecimento das cassações. Continuou dando voz e voto aos indigitados companheiros, até sugerindo que se mudassem para a enfermaria da casa, pois se pusessem o pé na rua seriam presos. Estava arranhada a autoridade do presidente da República e do regime. Algo aconteceria.

E aconteceu. Jornalistas do país inteiro e até do exterior juntaram-se aos de Brasília, passando todos a dar plantão de 24 horas na Câmara. Esperava-se a invasão armada. No alto de uma das torres do anexo, funcionários e deputados esquadrinhavam o horizonte, quando de madrugada começaram a ver estranha movimentação na Esplanada dos Ministérios. Centenas de soldados com capacete, cantil e espingarda davam corridinhas e logo deitavam-se no gramado, avançando sempre. Tanques e caminhões também se aproximavam.

De repente, apagaram-se todas as luzes do palácio do Congresso, cortada que foi a energia. Um deputado sonolento tentou lavar o rosto, e saiu do banheiro com a notícia: a água também estava cortada.

Cercadas todas as entradas, o sol nascia quando o coronel que chefiava a tropa soprou um apito e deu a ordem de invasão. O grito da soldadesca era “civis fora!” e foram empurrando todo mundo. No andar do plenário, bem defronte à escada de acesso, cercado de jornalistas, Adaucto Cardoso, cabeça branca, um metro e oitenta de altura, vê o comandante da invasão chegando em acelerado. Indaga com seu vozeirão: “alto, quem vem lá?” Os dois se conheciam de longa data, mas o coronel, perfilando-se por um momento, responde: “eu sou o poder militar. E o senhor, quem é?”

Veio a tréplica, certamente ensaiada, porque as palavras do presidente da Câmara foram quase as mesmas que o Andrada, presidente da Constituinte em 1823, dissera ao oficial que o fora prender: “eu sou o poder civil! Curvo-me à truculência do poder militar!”

Logo depois os deputados, funcionários e jornalistas foram obrigados a deixar o Congresso, identificando-se antes. A Câmara estava fechada, com o Senado já em recesso…

 

 

07/05/2013 | 00:00 A CONSTITUINTE ATRASOU O RELÓGIO PARA CUMPRIR O SEU DEVER Autoria: Carlos Chagas

 

A CONSTITUINTE ATRASOU O RELÓGIO PARA CUMPRIR O SEU DEVER

Por Carlos Chagas

Em dezembro a singular Assembléia Nacional Constituinte começou a funcionar. Era o Congresso em final de mandato, humilhado por dezenas de cassações de adversários do regime militar. Por um passe de mágica, o Ato Institucional número 4, Câmara e Senado, reunidos, teriam até 17 de janeiro para redigir uma nova Constituição para o país. Perdendo o prazo, passaria a valer um texto preparado pelo ministro da Justiça, Carlos Medeiros, a pedido do presidente Castello Branco. Para se aferir o potencial de truculência do ante-projeto, basta verificar que não continha o capítulo dos direitos e garantias individuais.

A primeira reação daquele Congresso emasculado foi de cruzar os braços. Não aceitar tamanha imposição e deixar que os donos do poder assumissem total responsabilidade pela lambança.

Mesmo assim prevaleceu a opinião de um grupo de liberais, daqueles que apoiavam o regime mas tentavam a longa caminhada até uma democracia longínqua. Daniel Krieger, Pedro Aleixo, Afonso Arinos, Aliomar Baleeiro, Paulo Sarazate, Gilberto Marinho e outros decidiram-se pela tarefa de elaborar uma Constituição moderna, sem os instrumentos de exceção. Mesmo dando prevalência ao Poder Executivo, inspirada pela Constituição da França, do general Charles De Gaulle, a nova carta poderia constituir-se num grande passo para o restabelecimento da democracia. Castello Branco deixaria a presidência da República em março do ano seguinte,com seu sucessor já escolhido, o marechal Costa e Silva, tido como radical. Melhor seria limitar seus poderes.

Presidia o Congresso o senador Auro de Moura Andrade. Fato inusitado em nossa crônica política, os parlamentares começaram a trabalhar como nunca. Não chegavam a Brasília às terças-feiras para ir embora às quintas. Moravam aqui, sem sábados nem domingos. Quando vieram as festas de Natal, ignoraram Papai Noel. Com rapidez, foram sendo elaborados os diversos títulos, capítulos e artigos. Aquela Constituição não teria legitimidade, feita debaixo do arbítrio do governo. Nem representatividade, pois não provinha de constituintes eleitos para redigi-la. Mesmo assim, pairava no plenário a ilusão de que um texto escorreito e democrático superaria seus vícios de origem.

Também não houve celebrações pelo Ano Novo, para deputados e senadores. Trabalhavam como nunca, sob o denominador comum de estarem fazendo o melhor. Ou o menos pior.

Do lado de fora do Congresso, havia pouco caso por parte da maioria dos chefes militares. Se os políticos estavam tentando reduzir-lhes o poder de moldar as instituições conforme suas concepções, eles que se preparassem, porque acima da Constituição estava a Revolução, como definiam o regime. Castello Branco, contrariando a maioria de seu pano de fundo, interessava-se tanto pelos trabalhos que o SNI instalara microfones no plenário da Câmara e nas salas das comissões. O presidente da República tomava conhecimento, ao vivo, de todos os debates e discussões.

Um ponto para o marechal deve ser registrado, porque quando alguns auxiliares vinham queixar-se de que a nova Constituição proibia atos de exceção e era liberal demais, ele contraditava sustentando que a Constituinte detinha a prerrogativa de decidir como quisesse. Além do que, a ampla maioria era da Arena, partido do governo, liderado por seus fiéis seguidores. No fundo, o primeiro presidente do ciclo militar ansiava por não passar à História como ditador, sua imagem poderia ser de alguém que constitucionalizou o país.

Os dias passaram com pressa olímpica, mas fazer uma Constituição demanda tempo. E tempo acabou não havendo. Na manhã do dia 17 de janeiro, Auro de Moura Andrade reuniu os líderes e lamentou o esforço para ele perdido. Tinha passado a noite fazendo contas e verificou que faltavam ser votados alguns capítulos. O prazo dado pelo palácio do Planalto terminaria á meia-noite e, pelos seus cálculos, seria impossível votar tudo.

O desânimo tomou conta dos liberais quando o matreiro senador paulista completou: “mas eu tenho uma solução, se vocês me apoiarem”. Diante da concordância, acionou a campainha chamando o chefe dos contínuos, perguntando-lhe: “José, que horas são?”

“São nove horas da manhã, Excelência.”

“O senhor está maluco? Não está vendo que são nove horas da noite de ontem?” “São as horas que o senhor quiser, Excelência.”

“Então vá lá no plenário e atrase todos os relógios em doze horas…”

Ninguém protestou e Constituição de 1967 foi votada no tempo exato da exigência contida no AI-4. Muita gente perguntou e ainda pergunta como os militares aceitaram aquela fraude democrática, em especial o presidente Castello Branco, que além dos microfones ligados com o Congresso, dispunha de montes de espiões assistindo a Constituinte. Atribui-se a ele um comentário, quando o primeiro dos auxiliares, o general Golbery do Couto e Silva, informou sobre o atraso de doze horas nos relógios: “deixe ficar assim. Afinal, o projeto deles é muito melhor do que o meu…”           

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Falta caráter, falta moral, falta decência, falta honestidade, falta vergonha, falta consciência… mas quem disse que faltam disposição e oportunidades neste nosso grande e generoso País?
 
Qual crise, qual nada!
 
De pequenas empresas nascem grandes negócios… e vice-versa.
 
Assim funciona uma economia aquecida. Como deve ser.
 
Ou não?
 
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Ribeirão Preto – 05/05/2013 – 02h45
Em feira agrícola, garota de programa chega a cobrar R$ 5.000
Pode ser R$ 250 a hora. Se for o dia todo, há desconto e o pacote sai por R$ 2.000. Para a semana, o preço atinge R$ 5.000.
O “produto” em questão são garotas de programa que aproveitaram a Agrishow (Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação), em Ribeirão Preto (313 km de São Paulo), para lucrar.
Com o volume de homens e o potencial financeiro, as prostitutas viram na feira uma chance para bons negócios e dizem que o movimento foi intenso.
Sâmia (nome fictício), 32, foi contratada para uma noite. O cliente gostou e fechou acordo para ficarem juntos até este domingo (5).
“Ele propôs uma semana por R$ 5.000. Resolvi aceitar”, disse ela, que ficou no hotel do cliente.
A universitária Natália, 23, tem as fotos na internet, assim como Sâmia. Para passar o dia com ela, basta pagar R$ 2.000.
“Viro a namorada. Vou a restaurantes e a shoppings.” Indagada se o preço não é alto, ela disse que o “nível é diferenciado.”
Já Daiane, 20, há um ano no ramo, topa ficar um dia com o contratante por R$ 700. Na Agrishow, ela disse que aproveitou a feira para fazer um trabalho extra, distribuindo panfletos aos visitantes de uma empresa presente no evento.
(JOÃO ALBERTO PEDRINI)
 
 
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

  

    Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho…

– Guimarães Rosa em momento de invejável lucidez

 

 

 

 

    (a pretexto de um comentário lido no Facebook: “No elevador ouvindo alunos de Letras: ‘tipo assim’, ‘as moeda’. Espero que não sejam professores dos meus filhos e sobrinhos.”)

 

    Sem pretensões a demonstrar aqui qualquer pseudo-cientificidade tão distante de meu muito pouco e muito empírico saber, eu diria que um dos muitos mitos que vêm fazendo dos cânones do “progresso” (??) um complexo instrumento de absoluto retrocesso é o da possibilidade de que tenhamos 2 registros ou 2 códigos mentais, um para a comunicação escrita, outro para a comunicação oral. Talvez alguém possa acreditar que tenhamos também um 3º registro ou código que utilizamos apenas para pensar. Ou vários registros ou códigos que correspondam a linguagens diferentes, que seremos capazes de isolar perfeitamente ao nos dirigir a pessoas mais cultas ou menos cultas, ao ouvir, ler, escrever ou falar em diferentes idiomas estrangeiros, ao tocar diferentes instrumentos musicais etc. etc.

 

    Assim, quem procure falar Português corretamente em todas e quaisquer ocasiões – ou procure fazer qualquer outra coisa tal como deve e precisa de ser feita, contas exatas, por exemplo… – poderá ser, pelos “progressistas”, apontado como purista, como pedante ou até mesmo como reacionário.

 

    O mesmo mito incluirá o pressuposto de que podemos fragmentar nossos processos mentais, isolando-os todos e cada um deles de forma a produzir coisas diferentes que nenhuma conexão guardem entre si e/ou que nada tenham a ver com nossas convicções a respeito de qualquer assunto, com nosso passado, com nossas ambições, com nossas projeções etc. etc. também por exemplo.

 

    A mente, no entanto, é um todo, um todo íntegro e totalmente articulado. O que nos permite, à falta de um elemento mais adequado, recorrer a metáforas, a analogias ou a outro elemento qualquer que, embora muitas vezes não o seja, pareça-nos similar ao que se mostra necessário e/ou ser seu substitutivo e nos “quebre o galho”. De “quebra-galho” em “quebra-galho”, porém, cada vez menos buscamos o mais adequado e cada vez mais tenderemos a substituí-lo por qualquer coisa que signifique qualquer coisa.

 

    Daí que… em que direção estará indo o nosso “avanço”, o nosso “progresso”?

 

    O saber, o cuidado e os demais elementos presentes no processo de pensar (e no de refletir, por suposto) serão sempre os mesmos saber, cuidado e demais elementos presentes no processo que nos permite querer externar o pensamento (e promover a reflexão, por suposto); portanto, serão os mesmos elementos presentes no processo de comunicação, independentemente do grau de facilidade nele encontrado por cada indivíduo. E também estarão presentes no processo de criação, de produção material etc. etc. São, todos eles, processos em e de um único sistema mental.        

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
http://youtu.be/WfWUT1t0Mmw
 
O conteúdo deste vídeo é interessante.
 
É uma cobrança. Uma cobrança interessante, que não deveria vir apenas de uma única voz, mas… vem; que não poderia ser apenas uma exceção no Congresso, mas… é.
 
Interessante, porém, não é só o que nos diz quem se dispõe a cobrar atitudes conseqüentes, ou seja, a cobrar o que deveria ser, todos os dias, por nós todos, cobrado.
 
Nem é só o final do vídeo, que, de verdade, é… comovente.
 
Interessante é também que – com tantas barbaridades insanas sendo expostas, a todas as horas de todos os dias, livre e detalhadamente nos diferentes meios de comunicação (jornais, televisão, web…) como realidade ou como ficção – para abrir este vídeo o Google exigiu que minha idade fosse comprovada.
 
É que alguém terá determinado que ele não deveria ser visto pelos muito jovens…
 
Por certo porque os poderia confundir.
 
Jovens precisam de ser tratados com muito cuidado e muito carinho! Algum deles que visse o vídeo poderia ficar meio abalado, duvidar de suas convicções, tender a adotar um outro modelo que não fosse do da cartilha oficial do terror politicamente correto… e aí… … aí, né?
 
Complicado, isso.
 
 
Aliás… por falar em jovens… em crimes… em terror… em aventuras… em lutas… em romantismo…
 
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/04/1270037-adolescente-confessou-ter-ateado-fogo-na-dentista-diz-policia.shtml

27/04/2013 – 18h07

Adolescente confessou ter ateado fogo na dentista, diz polícia

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA  – Atualizado às 21h34.

Um adolescente de 17 anos confessou, segundo a polícia, ter ateado fogo no corpo da dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza, 46, morta durante um assalto na última quinta-feira em seu consultório em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

Além do jovem, que completará 18 anos em junho, a polícia deteve outros dois suspeitos de participação no crime, por volta das 3h deste sábado (26) na favela Santa Cruz, na divisa de Diadema e São Bernardo.

Os outros dois presos são Victor Miguel Souza Silva, 24, que teve um retrato falado divulgado na tarde de ontem, e Jonatas Cassiano Araújo, 21, que havia sido filmado pelo sistema de segurança de um posto de combustíveis. Ele usou um carro de sua mãe, um Audi, no assalto.

Um quarto suspeito está foragido. Ele é Tiago Jesus Pereira, de 25 anos, e também aparece em um retrato falado divulgado ontem.

Todos confessaram participação no assalto, segundo a polícia. Mas a responsabilidade por atear fogo foi assumida pelo menor de idade. Também foi apreendida uma pistola usada no crime.

Outros dois menores de idade que estavam com os suspeitos foram apreendidos — mas que não participaram no assalto.

Cinthya Magaly Moutinho de Souza, 46, foi abordada pelos assaltantes na última quinta, quando atendia um paciente em seu consultório. Dois integrantes do grupo ficaram no local e outros dois saíram para sacar dinheiro da conta bancária da dentista. Mas só conseguiram R$ 30.

O adolescente, segundo Elizabeth Sato, diretora do DHPP (departamento de homicídios), admitiu ter ateado fogo à dentista por ter “ficado irritado” ao saber que ela só tinha R$ 30 na conta.

Ela afirmou que ele e Victor jogaram álcool e ameaçaram a vítima com um isqueiro enquanto parte do grupo buscava um caixa eletrônico. A dentista estava amarrada, com as mãos para trás, quando foi queimada viva.

O jovem de 17 anos, de acordo com Sato, já teve passagem pela Fundação Casa (antiga Febem), para onde foi levado hoje novamente.

A polícia investiga a participação da quadrilha em outros assaltos. Nesses outros roubos, os criminosos também portavam uma pistola prateada e usaram um Audi preto na fuga.

A delegada disse que os suspeitos têm um advogado, mas não revelou seu nome nem contato. (PEDRO IVO TOMÉ)

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http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/ribeiraopreto/2013/04/1269975-lamentavelmente-mais-um-menor-diz-alckmin-sobre-suspeitos-de-matar-dentista.shtml

27/04/2013 – 15h00

‘Lamentavelmente mais um menor’, diz Alckmin sobre suspeitos de matar dentista

JOÃO ALBERTO PEDRINI – ENVIADO ESPECIAL A BARRETOS – Atualizado às 15h21.

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) afirmou na tarde deste sábado, durante visita a Barretos (a 423 km de São Paulo), que lamenta o envolvimento de um adolescente no assassinato da dentista Cinthya Magaly Moutinho de Souza, 46, queimada durante um assalto em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

“Lamentavelmente mais um menor [está envolvido], a gente tem visto menores em crimes extremamente hediondos. Mais um menor, mas a polícia agiu rápido”, disse o governador se referindo ao crime, que segundo ele é “gravíssimo, que chocou a todos nós”.

Alckmin disse que o ECA (Estatuto da Criança e Adolescente) não dá resposta a crimes mais graves cometidos por adolescentes. Segundo o governador, “a impunidade estimula o delito”. “É inconcebível que quem tem 17 anos e 11 meses cometa crimes hediondos e não passa de três anos na Fundação Casa”, afirmou.

“O ECA é uma boa lei para proteger o direito da criança e do adolescente, mas não dá respostas a crimes muitos reincidentes e crimes hediondo, homicídio qualificado, latrocínio, extorsão mediante sequestro, estupro, estupro de vulnerável”, disse Alckmin.

O CRIME

A morte da dentista aconteceu na tarde da última quinta-feira no consultório dela. Os criminosos entraram no estabelecimento e, ao menos, um deles levou o cartão dela até uma loja de conveniência para fazer saques. Ele, porém, voltou ao ver que ela tinha apenas R$ 30 na conta.

Como a dentista não tinha mais dinheiro para entregar aos criminosos, eles jogaram álcool e a incendiaram. Cinthya chegou a ser socorrido, mas morreu ainda no local. O corpo dela foi enterrado na tarde de ontem no cemitério Vila Euclides, no centro de São Bernardo do Campo.

Entre os presos pelo crime estão Jonatas Cassiano Araújo, 21, e Vitor Miguel dos Santos da Silva, 24, além de um adolescente. Os três foram detidos na madrugada de hoje na favela Santa Cruz, na divisa de Diadema e São Bernardo.

A polícia agora investiga a participação da quadrilha em ao menos outros três casos. Nesses outros roubos, os criminosos também portavam uma pistola prateada e usaram um Audi preto na fuga.

PROJETO

Alckmin entregou um projeto ao Congresso, há cerca de duas semanas, defendendo penas mais rígidas para menores infratores amplia para até oito anos a punição para jovens que cometerem delitos graves.

O projeto cria o chamado Regime Especial de Atendimento. A internação de até oito anos será determinada por um juiz, após avaliação técnica multiprofissional, observado o contraditório e a ampla defesa.

São exigidos três critérios para a aplicação dessa pena ao menor: se o ato infracional for equivalente aos crimes hediondos; se o jovem iniciar o cumprimento da medida de internação com mais de 18 anos, ou completar essa idade durante o seu cumprimento.

Também fica previsto que poderá ser inserido em Regime Especial de Atendimento o maior de 18 anos que participar de motins ou rebeliões em estabelecimento educacional com destruição do patrimônio público ou manutenção em cárcere privado de servidores ou colaboradores da unidade, se não for submetido à prisão provisória.

Atualmente, a internação máxima prevista pelo estatuto é de três anos, mas uma pessoa pode ficar internada até os 20 anos e 11 meses, se ela for pega na véspera de completar 18 anos.

 
 
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

A “Canção Nordestina” composta por Geraldo Vandré (que nem só com anedotas do tipo “para não dizer que não falei de flores” fez a sua carreira) foi gravada em 1965 e nunca arrebentou nas paradas de sucessos.

 

E pôde ser praticamente esquecida.

 

Seus versos tristes são lindos: “Que sol quente, que tristeza… /Que foi feito da beleza /tão bonita de se olhar? /Que é de Deus e a Natureza? /Se esqueceram, com certeza, /da gente deste lugar. /Olhe o padre, com a vela na mão, /está chamando pra rezar. /Menino de pé no chão /já não sabe nem chorar. /Reza uma reza comprida /pra ver se o céu saberá… /mas a chuva não vem, não. /E esta dor no coração… ai… /quando é que vai se acabar? /Quando é que vai /se acabar?” 

 

A melodia, tão linda quanto os versos, consegue algo difícil de se imaginar possível: consegue ser ainda mais triste que eles.

 

Quem – entre tanta gente que pôde continuar caminhando e cantando com tanta “vontade política”, com tanta certeza na frente, com tanta história na mão, com tantas lágrimas nos olhos e tanta sensibilidade na ponta da língua sempre que se viu ou ainda se vê, sem medo de ser feliz, em campanha eleitoral – poderia essa canção, ou toda a tristeza que ela carrega, ou toda a desgraça a que ela se refere, ter alguma vez comovido?

 

Quem, hoje, as ossadas retorcidas que se vêem na imagem abaixo poderão comover?

 

Essa hipocrisia criminosa apelidada de “Política”…  ai… quando é que vai se acabar?

 

Mas como poderia ela se acabar?

 

 

Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Destaque-se a notícia divulgada a respeito das atividades do ex-Presidente Lula da Silva:
 
“… assinou na segunda-feita (22) nos Estados Unidos um contrato com o jornal norte-americano “The New York Times” para escrever uma coluna mensal que será distribuída pela publicação. … a coluna não deve ser publicada em veículos brasileiros…”
 
Ah, como é conveniente poder ter acesso à Imprensa estrangeira e, principalmente, como é interessante, fundamental, mesmo, saber ler bem lido um texto bem escrito no idioma de Shakespeare…
 
Que seria de nós caso isso não nos fosse possível?
 
Se não damos a importância devida a tudo o que é, de fato, importante, não teremos oportunidade de saber que jornalismo pode ser coisa muito séria.
 
E não teremos a necessária certeza de que, antes que possamos nos considerar bem informados, há pensamentos, palavras e obras muito valiosos que precisamos de conhecer. Esses, infelizmente, só mesmo os grandes jornais muito conscientes e muito responsáveis publicam e divulgam…
 
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Ex-presidente Lula terá coluna mensal no “New York Times”

Do UOL, em São Paulo – 23/04/201312h27  >  Atualizada 23/04/201313h36 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 67, assinou na segunda-feita (22) nos Estados Unidos um contrato com o jornal norte-americano “The New York Times” para escrever uma coluna mensal que será distribuída pela publicação. Segundo o UOL apurou, a coluna não deve ser publicada em veículos brasileiros por exigência do próprio Lula.

Página especial sobre o governo do petista

O petista se reuniu com Michael Greenspon, diretor-geral do serviço de notícias do jornal norte-americano, e foi decidido que o texto será distribuída pela agência do “New York Times”.

A coluna tratará de “política e economia internacional, além de iniciativas para o combate à fome e à miséria no mundo”, de acordo com informações divulgadas pelo Instituto Lula.

O “New York Times” já ganhou 112 prêmios Pulitzer e tem seis escritórios, incluindo a sede, na cidade de Nova York. Além disso, possui 14 escritórios espalhados pelos EUA e outros 24 pelo mundo.

O serviço de distribuição do jornal fornece notícias para portais, jornais e publicações do mundo todo, incluindo o Brasil e o UOL. Entre seus colunistas estão o vencedor do Nobel de Economia, Paul Krugman e o jornalista e três vencedor do Pulitzer, Thomas Friedman.

Entrevista ao “Times”

Em entrevista dada ao jornal em agosto do ano passado, Lula falou sobre apoio à candidatura de Dilma em 2014 e o mensalão. “Dilma é minha candidata e se Deus quiser, ela será reeleita”, disse na época ao repórter Simon Romero.

Ele classificou o julgamento do mensalão como um dos “sofrimentos mais graves” do político e um dos “maiores escândalos de corrupção” do Brasil. “Mais de 30 políticos, incluindo alguns dos principais assessores de Lula, como José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil, estão implicados em um escândalo chamado ‘mensalão'”, disse ao jornal.

Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

     Pois é… Vivo aqui me repetindo, insistindo em que neste País ninguém mais tem a mínima noção do que seja um Estado e que ninguém quer ter.

 

    Mas fiquem tranquilos, porque não vou aqui levantar quaisquer questões teóricas e muito e muito chatas. Levanto apenas as questões que se colocaram em um texto que recebi (e mantém-se abaixo).

 

    E só as comento porque fiquei, eu cá, imaginando por que razão um tão valoroso camarada, militante da ONG Tortura Nunca Mais, ter-se-ia colocado, em argumentos incontestáveis, tão bravamente contra o que chamou de “A Guarda Pretoriana de Dilma Rousseff”, classificando-a como uma inconstitucional Polícia do Executivo. Difícil não achar estranho, pois o Governo Rousseff é reconhecido como sendo de esquerda e, por acaso, ou nem tão por acaso assim, vem emprestando autoridade ampla geral e irrestrita àquela ONG, cujos militantes vêm gozando de liberdade também ampla, geral e irrestrita…  

 

    Compreender esse porquê, de cara, só pela leitura do título do texto, ou pela leitura dele mais o primeiro parágrafo, seria um bocado difícil.

    Mas ficou fácil depois de ter lido o texto por inteiro.

 

    É porque  a recém-criada “Companhia de Operações Ambientais” da Força Nacional de Segurança terá executado uma “operação de guerra que invadiu terras, inclusive áreas de caça das aldeias indígenas do povo Munduruku “  … Esse contingente militar de repressão poderá ser usado contra populações … que lutam pelo direito a serem ouvidas sobre os impactos … nas suas próprias vidas e no direito à existência digna, tal como já está ocorrendo com os ribeirinhos e indígenas do rio Tapajós.”

 

    Viram só? Deu pra entender. Ficou fácil. Fácil, fácil.

 

    O razão do exaltado libelo não é bem a criação de uma Força de Segurança extra (que, mal ou bem, por ser Polícia, até poderá evitar o desgaste das FFAA… caso a hierarquia de Comando seja mantida em eventuais operações conjuntas) – é a perturbação dos sagrados direitos de caça do povo Munduruku e os inconvenientes impactos na vida dos ribeirinhos e indígenas do rio Tapajós causados pela  construção de hidrelétricas, pelo menos 7 delas”! Vejam só o absurdo! Isso, em territórios que, por princípio, são da União, mas… foram invadidos (em “incursão militar”!)… pela União… que bem poderá querer invadir outros tantos territórios… da… UNIÃO…!

 

    Além de que, ponderemos, essa nova divisão operacional dentro da Força Nacional terá por atribuições: apoiar ações de fiscalização ambiental, atuar na prevenção a crimes ambientais, executar tarefas de defesa civil, auxiliar na investigação de crimes ambientais, e, finalmente, ‘prestar auxílio à realização de levantamentos e laudos técnicos sobre impactos ambientais negativos’É grave, isso. É muito grave. Não, não é possível contemporizar. Tudo isso é, realmente, de uma violência absolutamente injustificada! Absurda! Merece muito mais que um texto. Merece um vídeo colorido no youtube! Com fundo musical! Merece uma coleção de depoimentos de celebridades que efetivamente entendam desses problemas todos! Merece uma manifestação do Femen! Merece, aliás, amplo repúdio internacional!

 

    Por acaso seria de esperar que um destemido militante de tão atenta ONG não se lançasse furiosamente contra uma Força militar que pudesse, alguma vez, ser empregada “em qualquer parte do país … sem a necessidade de qualquer autorização judicial por especificas razões de Estado quaisquer? Está certo, ele! Tudo seja feito em nome da “nova ordem internacional” e da… paz mundial!

 

    Ainda bem que consegui compreender. Ufa! É que nem sempre compreendo muito bem as coisas.

 

    Mas ainda me resta, agora, tentar adivinhar por que cargas d’água recebi tão nobre opinião e tão fundamentada denúncia sem que lhes fosse acrescentada qualquer crítica – pelo contrário, acrescentaram-se ao envio apenas insinuações que as avalizam.

 

    Seria para que as pudesse divulgar sem comentários? Porque elas são corretas, são honrosas?

 

    Bem, além de que alguém saísse lucrando com essa divulgação – e esse alguém, com certeza, nem seria eu nem seriam os meus – por que outra razão eu a deveria facilitar, exatamente?

 

    Pensar não é muito fácil, eu sei, é mesmo um bocado difícil; mas vou tentar pensar um pouquinho mais nesse assunto… Prometo!

 

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Sent: Saturday, April 20, 2013 5:17 PM Subject: Fw: A nova guarda pretoriana de Dilma Rousseff
  
 
Você sabe que qualquer Ministro do governo federal passou a ter competência para solicitar o emprego de efetivos da Força Nacional de Segurança onde quer que ele julgue necessário, independentemente da vontade do governador do estado? Conheça “a nova guarda pretoriana da presidente”.
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A nova guarda pretoriana de Dilma Rousseff
Alteração do decreto de criação da Força Nacional é inconstitucional e quebra pacto federativo, na medida em que confere ao Poder Executivo força policial própria
Por João Rafael Diniz (*)
 
Instituída por César Augusto, primeiro dos grandes imperadores de Roma, a Guarda Pretoriana foi um corpo militar especial, destacado das legiões romanas ordinárias, que serviu aos interesses pessoais dos imperadores e à segurança de suas famílias. Era formada por homens experientes, recrutados entre os legionários do exército romano que demonstrassem maior habilidade e inteligência no campo de batalha. No seu longo período de existência (mais de três séculos) a Guarda notabilizou-se por garantir a estabilidade interna de diversos imperadores, reprimindo levantes populares e realizando incursões assassinas em nome da governabilidade do império.
Passou quase despercebido mas, há algumas semanas, a Presidência da República publicou no Diário Oficial o decreto n.º 7.957/2013, que, dentre outros, alterou o decreto de criação da Força Nacional de Segurança Pública. A partir daí, o Executivo passou a contar com sua própria força policial, a ser enviada e “aplicada” em qualquer região do país ao sabor de sua vontade.
Numa primeira análise, chamou a atenção de alguns jornalistas e profissionais da causa ambiental a criação da “Companhia de Operações Ambientais da Força Nacional de Segurança Pública”. Essa nova divisão operacional dentro da Força Nacional terá por atribuições: apoiar ações de fiscalização ambiental, atuar na prevenção a crimes ambientais, executar tarefas de defesa civil, auxiliar na investigação de crimes ambientais, e, finalmente, “prestar auxílio à realização de levantamentos e laudos técnicos sobre impactos ambientais negativos”.
Não é preciso lembrar que uma das notícias mais importantes da semana passada foi o envio de tropas militares da Força Nacional de Segurança Pública para os municípios de Itaituba e Jacareacanga, no sudoeste paraense. O objetivo da incursão militar, solicitada pelo ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, é exatamente “apoiar” (leia-se: garantir pela força) o trabalho de 80 técnicos contratados pela Eletronorte para os levantamentos de campo necessários à elaboração do Estudo de Impacto Ambiental dos projetos de barramento do rio Tapajós, para fins de aproveitamento hídrico (construção de hidrelétricas, pelo menos 7 delas).
Inconstitucionalidade
A criação dessa companhia especial, seguida da operação de guerra que invadiu terras, inclusive áreas de caça das aldeias indígenas do povo Munduruku, acabou por obscurecer outra pequena alteração efetuada pela Presidência no ato de criação da Força Nacional (decreto 5.289/2004), mais especificamente sobre a legitimidade para solicitar o auxílio dessa tropa.
O art. 4º do decreto original tinha a seguinte redação: “Art. 4º A Força Nacional de Segurança Pública poderá ser empregada em qualquer parte do território nacional, mediante solicitação expressa do respectivo Governador de Estado ou do Distrito Federal.
Após a alteração, passou a vigorar assim: “Art. 4º A Força Nacional de Segurança Pública poderá ser empregada em qualquer parte do território nacional, mediante solicitação expressa do respectivo Governador de Estado, do Distrito Federal ou de Ministro de Estado.”
A partir de agora, qualquer ministro pode solicitar o emprego da Força Nacional para defender os interesses do governo federal, sem a necessidade de qualquer autorização judicial, nem mesmo aquiescência do governo do estado.
A inclusão dessas cinco palavras mágicas ao final do artigo 4º acabou por subverter por completo a razão de ser do decreto e, de quebra, burlou as determinações da Constituição Federal sobre a repartição de responsabilidades entre os entes da Federação (municípios, estados e União), o que pode ser considerado inclusive como quebra do pacto federativo. A partir de agora, qualquer ministro de Estado (todos eles subordinados à Presidência) pode solicitar ao Ministério da Justiça o emprego da Força Nacional de Segurança Pública em qualquer parte do país, para defender os interesses do governo federal, sem a necessidade de qualquer autorização judicial, nem mesmo aquiescência do governo do estado em questão.
Para entender melhor a gravidade da situação, é preciso ter em mente que a Força Nacional de Segurança Pública não é uma polícia, mas um “programa de cooperação federativa” (art. 1º do decreto), ao qual podem aderir livremente os governos estaduais, e cujo objetivo é a “preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas e do patrimônio” em situações excepcionais em que as polícias militares dos estados necessitem, e peçam, o apoio de tropas vindas de outros estados. Isso porque a Constituição Federal determina que a responsabilidade por “polícia ostensiva e a preservação da ordem pública” é das polícias militares dos estados, subordinadas aos respectivos governadores (art. 144, §§ 4º e 5º). À União restam duas possibilidades: intervenção federal no estado (art. 34), ou decreto de estado de defesa (art.136), ambas situações excepcionalíssimas de garantia da segurança e integridade nacionais, em que serão acionadas as Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica).
A chave para compreender a mudança é que, até o mês passado, era preciso “solicitação expressa do respectivo Governador de Estado ou do Distrito Federal” para motivar o envio da Força Nacional de Segurança Pública a qualquer parte do país, por tratar-se essencialmente de um programa de cooperação federativa entre estados e União.
Agora não mais. A recente alteração do art. 4º do decreto 5.289/2004, transformou a Força Nacional de Segurança Pública na nova Guarda Pretoriana da presidente Dilma Rousseff. Retirou das mãos dos estados a responsabilidade pela polícia ostensiva e preservação da ordem pública, nos locais em que os ministros entenderem ser mais conveniente a atuação de uma força controlada pelo Governo Federal. Esse contingente militar de repressão poderá ser usado contra populações afetadas pelas diversas obras de interesse do Governo, que lutam pelo direito a serem ouvidas sobre os impactos desses projetos nas suas próprias vidas e no direito à existência digna, tal como já está ocorrendo com os ribeirinhos e indígenas do rio Tapajós.
Não por acaso, essa profunda alteração no caráter da Força Nacional foi levada a cabo sem maiores alardes, no corpo de um decreto que tratava de outros assuntos. A inconstitucionalidade do ato é evidente, viola uma série de regras e princípios constitucionais além de atentar contra o próprio pacto federativo, um dos poucos alicerces da jovem república brasileira.
(*) João Rafael Diniz é advogado e membro do grupo Tortura Nunca Mais – SP
http://reporterbrasil.org.br/2013/04/a-nova-guarda-pretoriana-de-dilma-rousseff/               

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

    Se sei que, mantendo aberto o computador, encontro nos telejornais notícias apenas repetidas, se sei que os programas de entrevistas e os documentários nacionais são vergonhosos, que as telenovelas são estúpidas, que a maioria dos filmes oferecidos são mais antigos que Matusalém, são repetidos à exaustão ou, em geral, são aulas de introdução ou de aperfeiçoamento em criminalidade e pornografia, se sei que… … por vezes me pergunto por que não jogo meu televisor no lixo.

 

    E pondero: talvez justamente para, nas raras vezes em que me predisponho a encarar uma programação estúpida, poder constatar o quanto ela continua sendo estúpida. E para também constatar uma das razões, que são muitas, pelas quais acontece o que vem acontecendo em meu País e, assim, poder mais entender o que nele acontece.

 

    De vez em quando, no entanto, muito e muito de vez em quando, encontro algo interessante, que não só me distrai como me serve como termo de comparação – como, por exemplo, o NCIS, que aqui já recomendei, não pelo enredo, que nada tem de especial, mas pela postura – invejável – dos personagens.  

 

    Recomendaria também outra série, que me vem, de fato, surpreendendo.

 

    Trata-se de “Government”, uma instigante série dinamarquesa que diz das vísceras do poder (e não se saberá bem o porquê desse título adotado pela televisão brasileira, uma vez que não nos chega dublada em inglês e o título original é “Borgen” = castelo). Nela tropecei ao passar pela GLOBOSAT, não porque tivesse lido qualquer sinopse que a propagandeasse de um jeito “politicamente correto”, mas porque, apesar de não tolerar bate-papos de boteco, sou uma notívaga inveterada e buscava uma distração qualquer não muito estúpida antes de me deitar após uma jornada árdua.

 

    Essa série já havia sido exibida em horário nobre no ano passado, mas, na ocasião, dela não tomei conhecimento. Repete-se agora exatamente à meia-noite. Sorte nossa que ainda não foi refilmada ao estilo norte-americano, com atores glamorosos, cenários luxuosos, tiroteios e cenas eróticas entremeados de correrias desenfreadas de automóveis que destroem tudo o que encontram pela frente – o que muitas vezes acontece com as boas séries de origem européia. Diz de um Governo cuja cabeça é a Primeira Ministra eleita por uma coalizão no Parlamento, após aquele que a antecedeu no cargo ter sido destituído por efeito de uma denúncia de uso, em proveito particular, de… cartões corporativos – aqueles… que existem para ser usados exclusivamente para cobrir despesas feitas em missões de Governo. Nesse processo, o Partido Moderado, com um programa ambicioso, voltado ao futuro, com o firme propósito de que o País pudesse oferecer à população, por exemplo, o mais aperfeiçoado sistema educativo já porventura concebido, substituiu o Partido Trabalhista. No discurso de posse, a Primeira Ministra apelará à unidade nacional que lhe foi, segundo ela mesma diz, suficientemente demonstrada nas ruas após o país ter sido vencedor em um campeonato de futebol…

    Quaisquer “coincidências”, porém, hão de parar por aqui.

 

    A cada dia, cobrindo intervalos aleatórios, de dias a um ano ou mais, o enredo se torna mais tenso e mais denso. E nos evidencia que Política nem é ciência nem é arte, é somente Política; e Política, definitivamente, não é para amadores, sejam mal ou bem intencionados. Mas posso crer que nem todos os que assistiram a essa série antes ou que agora a assistem aproveitam os assuntos levantados como os deveriam aproveitar: para poder mais compreender onde, quando e como bem colocar os ditos interesses pessoais, interesses de Estado, interesses de Governo e de Partido, interesses jornalísticos, democracia, direitos humanos, compromissos supranacionais, Forças Armadas etc. etc. em seu raciocínio.

 

    Claro está que cinema é pura fantasia. Assim como as mais sofisticadas criações políticas que conhecemos, pelo menos desde Platão, ou desde o Antigo Testamento, não corresponderam, jamais, a qualquer realidade. Mas nada, absolutamente nada alguém será capaz de produzir ou de apreciar fora do quadro de suas próprias referências. Assim sendo, a série terá tido um extraordinário sucesso na Dinamarca e na Dinamarca terá sido criada por alguma razão. E, nessa sua reapresentação na TV brasileira, já deve estar pela sua metade. Mesmo assim, vale a pena tentar acompanhar o que resta, desconsiderando, por favor, o reducionismo distorcido de alguma suposta “sinopse” bem a gosto do “jornalismo” nacional tal como a que abaixo transcrevo.

 

    Particularmente, até onde pude vê-la, ela me vem ainda muito gratificando porque, uma vez mais, posso constatar que responsabilidade, sensibilidade e, especialmente, feminilidade não se manifestam em estereotipadas insinuações pseudomaternais, palavras e argumentos manhosos, lágrimas em público, iras santas, seios nus ou ginga nos quadris. Mas talvez eu possa me convencer de que aprecie e considere adequado um comportamento objetivo e comedido apenas porque um certo gene que carrego se revelou, de repente, dominante, e me permitiu “redescobrir” uma “ancestral identidade” nórdica… É, talvez…

 

     Mas essa explicação seria, de fato, possível ou mesmo suficientemente inteligente? Não, com absoluta certeza, não! Mesmo porque, no que se refere a pequenos dramas do cotidiano, gosto muito dos filmes ingleses. Genética nada tem a ver com isso. Nem, muito menos, etnia. E nem uma nem a outra terá algo a ver com muitas e muitas atribuídas características individuais ou grupais que “nossas autoridades” usam e abusam alegar nos palanques ensinando o povo a pensar e que nada mais são que uma desculpa frouxa para justificar suas reais intenções.

 

    Tudo bem, os norte-americanos são o que são, os ingleses são o que são, os dinamarqueses são o que são etc. etc. e nós somos o que somos. Mas, por mais que a série dinamarquesa nos pareça muito interessante, não deixa de ser muito triste ver que ela nos permite constatar, também mais uma vez, que, se algo de muito podre existe nesse nosso mundo, esse algo tão podre não estará exatamente no longínquo reino da Dinamarca. Estará, sim, neste reino que nós mesmos vamos erguendo e ampliando na medida exata dos passos em que caminhamos, sempre escolhendo, nós mesmos, o sentido e a direção.

 

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PS – Só por curiosidade:

http://denmark.dk/pt

1. “O sistema político na Dinamarca tem uma estrutura multipartidária, sendo que vários partidos podem estar representados no Parlamento ao mesmo tempo. Os governos dinamarqueses são muitas vezes caracterizados por serem de minoria, apoiados por um ou mais partidos. Isto significa que a política dinamarquesa está baseada no consenso. Desde 1909, nenhum partido tem tido a maioria no Parlamento.”

 

2. “O tradicionalmente elevado grau de homogeneidade e consenso na sociedade dinamarquesa está estreitamente ligado a vários eventos históricos: a influência doutrinária da Igreja Nacional Luterana, a uniformidade da população em geral originada pelo absolutismo, a industrialização tardia, e a incapacidade dos partidos políticos em conseguirem uma maioria absoluta própria, tornando o compromisso uma condição da vida política.”

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 http://jointicias-tv.blogspot.com.br/2012/04/globosat-hd-estreia-serie-government.html

3. “Sinopse” – “Na série, conhecemos Brigitte Nybor, primeira mulher a se tornar primeira-ministra na Dinamarca, que deve conciliar os deveres de uma mãe divorciada e as obrigações políticas que influenciam em [sic] sua vida privada [???]. Politicamente, ela luta para ter o respeito de adversários e aliados no Parlamento, mas conta cada vez menos com a cooperação do Governo. Importantes questões para a sociedade dividem os adversários e aliados, forçando-a a entrar em assuntos cada vez mais frágeis [???]  e recebendo uma crescente pressão que a leva a duvidar de sua capacidade [???] de se manter no poder. No decorrer dos episódios também conhecemos seu cínico [???]  Relações Públicas Kasper Juul (Pilou Asbæk) e a ambiciosa e idealista [???] jornalista Katherine Fønsmark (Birgitte Hjort Sorensen).”

 

4. veja.abril.com.br/blog/temporadas/series-anos-2010-2019/borgen-mais-uma-serie-dinamarquesa-estreia-na-globsosat-hd/ 

mais um comentário a respeito da série, este um pouco mais razoável, embora também tendencioso. 

               

 

  

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Faz tempo que a gente sabe disso porque um dia já nos foi dito e todo mundo repetiu de cor e salteado:caminhando e cantando e seguindo a canção, aprendendo e ensinando uma nova lição” etc. etc. etc…
 

E é isso! Está certo! Mas não custa repetir.

 

Portanto… aí vai a LIÇÃO DE HOJE: como criar gráficos e influenciar pessoas

 

Comecemos com um exemplo bem simples – o de como foi graficamente apresentada ao eleitorado analfabeto venezuelano a diferença entre os 50,66% de votos obtidos por Maduro e os 49,07% obtidos por Capriles:  

 

PORCENTAGENS

 

Como nos diz O GLOBO, “Gráficos são feitos para ajudar a entender os números”.

 

Caramba! Não é que essa Imprensa branca, gorda e de olhos azuis não perde uma única chance de ridicularizar os bolivarianinhos inspirados, competentes e bem intencionados?

 

Assim não dá, assim não dá…

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http://oglobo.globo.com/mundo/o-curioso-grafico-da-tv-estatal-venezuelana-sobre-eleicao-8116993#ixzz2Qaby5zmy

PORCENTAGENS 2 

 

 

Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

     “Olho por olho, dente por dente” já foi, algum dia, o enunciado de uma regra social. Traduz-se, na prática, em poder “fazer justiça pelas próprias mãos”. Não mais que um resquício dessa regra institucionalmente já superada entre nós é o argumento pseudopsicológico levantado com ares de cientificismo, hoje em dia bastante recorrente, de que roubar e/ou matar se justificam quando o indivíduo que roubou e/ou matou sofreu carências na infância, tendo sido criado na miséria material e sem a atenção emocional que lhe era devida.

    As regras e os protocolos são o que orienta o comportamento de qualquer indivíduo em qualquer Sociedade. Não prescindirá de regras e protocolos sequer quem busque, de fato, apenas viver em paz ou quem queira exercer, sem medo, o “direito de ser feliz”. Por isso mesmo, alguém, qualquer um, sempre há de sugerir e de procurar justificar um novo protocolo, que permita reinterpretar ou desconsiderar a regra antiga, ou uma nova regra quando tenha algum poder e pretenda, em seu próprio benefício, mas não necessariamente em benefício de todos, transformar a mentalidade dos indivíduos que o cercam e que compõem a Sociedade. Nova regra essa que exigirá novos protocolos.

    Na discussão a respeito de qualquer nova regra ou qualquer novo protocolo, eles poderão ser apoiados por aqueles todos que por eles se sentissem beneficiados. E poderão ser criticados por todos aqueles que se sentissem prejudicados. Dependendo do poder, inclusive ou principalmente do poder de propaganda e o de pressão de cada um desses indivíduos interessados ou de seus grupos (imagens e notícias, discursos e declarações publicadas etc.), a nova regra se imporá ou não sobre a Sociedade. Se transformada em lei, deverá ser regulamentada. Após o que as atitudes e até mesmo as intenções de todos aqueles que a desobedeçam poderão ser interpretadas pelos Tribunais.

    As regras sociais impositivas ordenam a Sociedade. E toda ordem implica uma hierarquia. Nem sempre essas regras traduzem uma boa ordem, muito menos traduzem, necessariamente, justiça. Mas, onde não há regras, não haverá ordem, nem ordem boa nem ordem má – haverá apenas a desordem, nada mais.

    E democracia não é uma regra. É apenas uma utopia. Algo desde sempre virtual que acreditamos ser (ou ter sido algum dia) real e, por isso, acreditamos que devemos buscar aperfeiçoar. Ou devemos alcançar. E, se é que existirá alguma regra democrática, a única será a que nos obriga a ter respeito ao contraditório e nos obriga também ao seu exercício. Apesar das maiorias. Apesar das minorias. A palavra democracia poderá até mesmo incluir-se em uma Constituição, mas isso não a transformará em um sinônimo de “Estado de Direito”. Por isso existe a expressão “Estado Democrático de Direito”, que qualifica a expressão “Estado de Direito” que, simplificado ao nada, tendemos a compreender como sendo apenas equivalente ao Estado que tenha suas autoridades eleitas de uma forma ou de outra pelo voto, não necessariamente o voto direto. Haverá também a expressão “Estado Democrático e Popular”, que vem qualificando um Estado nem sempre regido por um Direito exatamente “moderno” (aquele que, subentende-se, regeria as relações em um “Estado moderno”…) e pretenderá significar algo específico: que as autoridades são eleitas pelo povo, seja qual for o processo que leve a isso, em exclusivo benefício do povo, seja como for que esse benefício possa ser interpretado. O que apenas vem levando o povo, por sua ignorância, a eleger, pró-forma, autoridades cada vez mais autoritárias que o mantêm cada vez mais ignorante e mais alienado.

    Mas o que sobra de útil disso tudo é só o seguinte: anarquia é anarquia. Nem democracia nem Estado de Direito nem Estado Democrático de Direito nem Estado Democrático e Popular se confundirão com a anarquia, ou seja, com um estado social em que a autoridade não exista ou não seja respeitada – se e quando uma sociedade desgovernada pudesse corresponder a um Estado…

    Democracia é também, portanto, democracia – outra coisa não é, embora o que seja exatamente ninguém saiba definir exceto por sucessivas definições do que não pareça ser democracia. Democracia não se resume a leis ou a falta de leis, nem a multidões gritando em praça pública, nem a multidões elegendo representantes, pois eleições dependem da propaganda dos elegíveis e o exercício da democracia dependerá, no mínimo, da lisura dos eleitos e do discernimento de quem vota. E, se conhecimento depende de contatos e de experiências, tanto lisura quanto discernimento, assim como responsabilidade, dependem apenas da conformação mental do indivíduo, independentemente do tempo e do espaço de amadurecimento.

    Portanto, não é que a liberdade de todos e a de cada um possa ou deva sempre acatar ou desautorizar o governo ou sempre desconsiderar uma autoridade ou a lei, ou sempre submeter-se a elas sem resistência, mas, sim, é que os processos de constituição da autoridade e os de defesa do indivíduo, da Sociedade e do Estado devem ser cuidadosamente elaborados e, uma vez definidos, devem ser respeitados e muito bem cuidados, inclusive para que possam ser preservados, permitindo, assim, aperfeiçoar-se o processo dito democrático.

    Por outro lado, encontrar ameaças onde elas não existem ou não vê-las onde elas existem também não se confunde, tampouco, com exercer democracia – não será outra coisa qualquer senão esquizofrenia. Já promover a desordem pela desordem e a impunidade pela impunidade poderá ser não mais que… patifaria.

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    A chamada feita para a coluna de Helio Schwartsman na página do UOL era a seguinte: “mudança só pioraria judiciário”.

    Esse colunista nos dirá, demonstrando-se muito preocupado com os critérios que informam as leis: “Como sempre ocorre quando um menor comete um homicídio bárbaro, cerca de dois terços da população erguem a voz para pedir a redução da maioridade penal. … É claro que os 18 anos encerram algo de arbitrário. Se quiséssemos fugir aos caprichos do legislador e adotar uma regra informada pela ciência, teríamos, na verdade, de empurrar o limite para além dos 20 anos, que é quando amadurece o córtex pré-frontal, área do cérebro responsável por tomar decisões complexas e controlar a impulsividade”.

    Em seguida a essa explanação científica em sua aula de “moral e cívica” ao seu leitor, fará perguntas: “Já que a arbitrariedade é inescapável, por que não ouvir o apelo da população e reduzir a maioridade? Se o jovem de 16 anos já pode votar e fazer sexo, por que não haveria de responder criminalmente por seus atos? … Supondo que a maioridade baixe para 16, o que faremos quando um garoto de 15 matar alguém? Reduziremos o limite para 14, ou 10? O direito moderno começa a se distinguir melhor da velha vingança quando considerações racionais passam a preponderar sobre as emoções, por mais justas que sejam.

    Muito bem. A arbitrariedade seria “inescapável”, segundo Schwartsman. Mas seria “inescapável” por quê? Somente será “inescapável” se toda regra for arbitrária. Porque “inescapáveis” serão as regras que os indivíduos criam quando em Sociedade. Daí subentende-se que toda regra social impositiva – toda lei –, mesmo a considerada mais democrática, será caprichosa e abrigará uma arbitrariedade. Tal como o próprio conceito de justiça, seja mais racional ou mais emocional, será arbitrário. E também o conceito de crime será arbitrário. E esse arbítrio estará pautado – e justificado – única e exclusivamente no conceito de moral que a Sociedade adote e faça valer. Ou não?

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    Provavelmente ou possivelmente por bem saber disso tudo, no Judiciário, o Ministro Joaquim Barbosa andou distribuindo uns “chega pra lá” em forte e bom som.

    Foi, por isso, muito criticado por Jânio de Freitas. 

    Segundo este outro colunista, “O fundo de moralismo ao gosto da classe média assegura às exorbitâncias conceituais e verbais do ministro a tolerância, nos meios de comunicação, do tipo ‘ele diz a coisa certa do modo errado’ — o que é um modo moralmente errado de tratar a coisa errada. Não é novidade como método, nem como lugar onde é aplicado.”

    Ou seja, em sua opinião, que é uma opinião particular que faz-se pública incorporando o poder da Imprensa, “o fundo de moralidade ao gosto da classe média” é “moralmente errado” e a Imprensa não deverá ter qualquer “tolerância” com as atitudes de Joaquim Barbosa que promete provocar “uma crise com ingredientes institucionais caso… progrida nas investidas desmoralizantes que atingem o Congresso e os magistrados” (leia-se “aquela gente atrasada, retrógrada, conservadora”…). E assim termina ele o que seria também uma aula de “moral e cívica”: “Afinal, quem quer viver em democracia tem o dever de repelir toda manifestação de autoritarismo, arbitrariedade e prepotência. É o único dever que o Estado de Direito cobra e dele não abre mão.”

    No Executivo, por sua vez, o Governador de São Paulo “anunciou nesta quinta-feira (11) que encaminhará em 15 dias ao Congresso Nacional um projeto de lei que propõe tornar o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) mais rígido em relação a adolescentes envolvidos em casos de violência considerados graves e reincidentes.”  Contra o que o Ministro da Justiça imediatamente gritou: “é inconstitucional!

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    Pois farei eu, agora, as perguntas. A quem caberia declarar a inconstitucionalidade de alguma coisa? A um Ministro de Governo que ocupe a pasta da Justiça? À Imprensa? Ao povo consultado em uma enquete? Essa é a regra? Desde quando?

    E, no caso, pouco nos importa quem seja hoje o Governador de São Paulo. Ele estará investindo contra o Congresso, que tão bem deve ter legislado, e contra Magistrados que tão bem vêm aplicando a matéria legislada? Estará exorbitando de suas funções? Estará sendo autoritário? Sendo arbitrário? Sendo prepotente? Estará tratando a coisa certa de modo errado? Estará cedendo ao moralismo ao gosto da classe média? Ou vendo a coisa errada de um modo moralmente errado?  Certo estará o Governo da União que, presumidamente ciente da realidade nacional, diz que quer, nas palavras do Secretário-Geral da Presidência (e aqui o verbo “querer” é bastante elucidativo), “dar ao jovem alternativas de trabalho, cultura, lazer, formação profissional; uma possibilidade que não seja o crime”?

    Seria o crime uma “alternativa”? Serão criminosos todos aqueles que não têm trabalho, lazer, cultura e formação profissional porque não lhes sobra “alternativa”? Acaso um trabalho, a cultura, o lazer e a formação profissional seriam antídotos eficazes contra qualquer ímpeto e/ou qualquer projeto criminosos? Acaso todo e qualquer jovem que saia da Fundação Casa aos 21 anos e se veja sem trabalho, sem cultura, sem lazer, sem formação profissional (e com uma ficha imaculada apesar de ter roubado e/ou matado!) não mais verá o crime como uma “alternativa” a considerar? Quem garante? A bênção do Governo? O seu “querer”? O fato de não haver instalações adequadas à retirada dos criminosos do convívio com a Sociedade? O fato de que recursos que poderiam estar sendo destinados ao aprimoramento dos presídios sejam destinados à construção de estádios de futebol? A alegada boa intenção do Governo ou a boa intenção que possa ser atribuída a um criminoso? Que “alternativas” de trabalho e lazer percebem haver ao seu redor os jovens de 16 anos que “aprendem a ser gente” ao “votar e fazer sexo” livremente por serem donos de seus narizes e conscientes de suas opções conforme a cartilha distribuída pelo Governo, tendo por modelo os que são drogados e os que, sem receber qualquer punição, comercializam as drogas e/ou as exaltam, os que agridem os professores, os que ameaçam e cospem em qualquer um que tenha uma opinião divergente, os que invadem, picham e destroem propriedades privadas e públicas, inclusive as Escolas em tese encarregadas de lhes dar “cultura e formação profissional”?  

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    O dever que o Estado “nos cobra e dele não abre mão”, porque dele não pode abrir mão e porque de nós pode e deve cobrar, não é que esperemos, inermes e apáticos, submissos à “autoridade” da opinião dos arautos da liberdade e do bem estar de criminosos em detrimento da liberdade e do bem estar do nosso conjunto de todos, que algum deles nos venha ensinar com quem devemos ser ou não ser tolerantes e que o acatemos sem críticas. Democraticamente, devemos um pouco mais que isso ao nosso Estado, para que ele pelo menos se pareça minimamente com um Estado de Direito, aquele que nos garanta regras claras, entre elas a liberdade de opinião e a de associação. Devemos ter consciência do Estado. Devemos assumir nossos deveres. Isso é o mínimo que o Estado nos cobra de fato, porque nos pode e deve cobrar.

    Assim sendo porque assim é, “quem quer viver em democracia” compromete-se, firmemente, com aplicar-se em desmoralizar qualquer atitude, qualquer intenção e qualquer discurso que, sob o argumento de poder “repelir toda manifestação de autoritarismo, arbitrariedade e prepotência”, apenas contribua com desestruturar o nosso Estado. “Quem quer viver em democracia” não aplaude o processo que nos institucionaliza uma liberdade ampla geral e irrestrita, que inclui a de mentir, a de roubar, a de matar e a de propagar a anarquia social.

    E, se todos nós fizéssemos sempre bem feito o que é de fato nosso dever fazer, nenhuma razão e nenhum sentido teriam as perguntas levantadas por Helio Schwartsman; nem os argumentos de Jânio de Freitas; nem as desculpas esfarrapadas de nossos Governos cujas intenções reais desde sempre ignoramos; nem nossos medos; nem nossa revolta; nem nossas eternas dúvidas; nem…

    Teriam?  Não, não teriam!

 

 

 

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http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1261526-governo-dilma-e-contra-endurecer-pena-para-menor-infrator.shtml

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/04/11/apos-morte-de-estudante-alckmin-quer-pena-mais-rigida-para-adolescentes.htm

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2013/04/11/ministro-da-justica-diz-que-reducao-da-maioridade-penal-e-inconstitucional.htm

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/1261210-maioridade-penal.shtml

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e os personagens de grande importância na história do mundo surgem, por assim dizer, duas vezes. E se esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Karl Marx em “O 18 Brumário de Napoleão Bonaparte

 

Taí, gente! Pense direitinho! E não é que esse cabra até que poderia estar certo?

 

Personagens na história do mundo são personagens na história do mundo.

 

Grande importância é grande importância.

 

E fatos são fatos.

 

Se, na primeira vez, eles surgem como tragédia, quando surgem na segunda vez, elegância para quê?

 

 NA PRIMEIRA E NA SEGUNDA

 

 

 

 

Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

      Há alguns dias, enviei aos amigos uma “reportagem” (*) que, fosse eu uma “celebridade”, mereceria, no máximo, ter inspirado um filme a Buñuel ou ser exibida, emoldurada, ao lado de um quadro de Dali… e incluir-se em uma enciclopédia non sense. Ela divulgava a “notícia” da repercussão, na classe média argentina, da eleição do Papa Francisco.

    Exceto as fotos e as declarações em castelhano, que transcrevi entre aspas, descontextualizadas, mas exatamente conforme a Imprensa as divulgou em diferentes datas, todo o resto ali era potoca. Uma absoluta e… requintada… potoca.

    Pouca gente percebeu minha intenção.

    Como já disse aqui, a Fé é um fenômeno inalienável em qualquer análise social que pretenda ser minimamente séria (a fé do analista, inclusive; em sua análise, inclusive…). Ela me interessa profissionalmente, porque a Política e suas motivações me interessam. Com um humor desde sempre muito suspeito, porém, minha intenção ao enviar aquela “notícia” era, evidentemente, fazer pilhéria – e ela até pôde divertir alguns; era também, no entanto, destacar como podemos ser desrespeitados pela Imprensa com notícias fabricadas nas redações, bombardeados com mentiras e idiotices, muitas vezes sendo iludidos por “informações” que não contêm a mais mínima importância pública ou a mais mínima verdade factual nem obedecem a qualquer lógica – mas que julgamos serem procedentes e muito importantes porque partimos do “princípio” de que a Imprensa é responsável, é proba e a ela apenas interessa nos manter bem informados.

    Isso não é real. Definitivamente não é real, não existe, é no máximo… “surrealismo”. Mas não deixa de ser, também, manipulação. E, caso não duvidemos, sempre, do inteiro teor das “noticias” a que temos acesso, qualquer que seja a sua alegada fonte, se não buscarmos conferir, de todas as formas, a veracidade da “informação” recebida, ela nos servirá de referência e o resultado disso nos poderá ser muito cruel. Recorrendo, porém, a um mínimo de discernimento, em quase todos os dias poderemos verificar como os fatos noticiados, quando e se fatos são de fato, podem ser distorcidos em um discurso desavergonhadamente mentiroso que, desavergonhadamente, poderá ser desmentido logo em seguida, no mesmo discurso, ou por fotos que o estejam ilustrando – bastará um simples olhar atento a elas –, ou por fatos outros, que puderam ser omitidos ou camuflados nesse discurso, ou por outros discursos subseqüentes, por vezes publicados no mesmo espaço do primeiro.

    Querem um exemplo? Atentem às notícias, às fotos e às legendas que as acompanham, leiam a homilia proferida por Francisco, o novo Papa, nesse 19 de Março, ontem, dia de São José, e atentem aos comentários feitos a respeito dela. 

    É impressionante. É estúpido. É doentio. É verdadeiramente algo de arrepiar os cabelos, de horrorizar qualquer criatura bem intencionada ver que os meios de comunicação de massa, formais e informais, ao fazer a cobertura da proclamação de um Chefe de Estado, que, ademais, é Chefe da Igreja com maior número de adeptos no mundo, tanto se preocupem com comentar seus trajes, se e como são ou não são bordados em quais e quantas cores e desenhos, se seus sapatos são pretos ou vermelhos, se sua cruz é de ouro ou de prata, se tomou banho e trocou de roupa ou não antes de apresentar-se ao público, como se estivessem cobrindo o desfile de uma socialite em um coquetel de lançamento de uma coleção de estação de uma griffe famosa ou o dos destaques de uma Escola de Samba. E que, desses “fatos” observados, imediatamente ilações “verdadeiras” possam ser sacadas.

    Com esse tipo de “reportagem-testemunha da história”, os poucos encarregados da informação e comunicação de massa descrevem o novo Papa como mais uma “celebridade” tal como descreveriam qualquer uma das “celebridades” proclamadas conforme valores e referências deles mesmos. Pior: transformam em “celebridades” também seus parentes próximos e distantes, seus vizinhos recentes e remotos, colegas de escola, quem teria sido sua namorada de infância etc. etc. Não contentes com isso, pretendem ainda – quando nenhuma outra informação de fato alguém possuirá a não ser algumas opiniões controversas, alguns trajes e alguns gestos, mais protocolares ou menos protocolares conforme a situação, que lhes foram expostos – ser capazes de traçar (e de julgar!) o caráter dessa “celebridade”. E traduzem suas palavras dando-lhes o sentido que bem entendem dar.

    Pelos donos da verdade absoluta, não a Jorge Mario Bergoglio, mas a Francisco será atribuído um perfil avesso ao perfil de seu antecessor, que se traçou apoiado naquelas mesmas “evidências” – desconsideradas não só as circunstâncias subjetivas como as objetivas, inclusive as de temperamento, de formação, saúde, idade etc. E, assim como uma terrorista sem qualquer qualificação para ocupar a Presidência da República pôde transformar-se, pelas artes impressas, em uma democrática “mãe dos brasileirinhos” e respeitável “estadista” (e dá até um frio no estômago saber que ela disse “Deus é brasileiro!” em entrevista ao sair do Vaticano…), Jorge Mario Bergoglio, um jesuíta antes acusado, pela esquerda mundial inteira, de ter colaborado com uma ditadura desumana (o que foi amplamente divulgado por todos os meios) pode ser transformado em um Francisco franciscano – ou seja, o vulgo é induzido a crer ter-se ele convertido, de repente, de alegre ou pela “pressão das massas”, em um passe de mágica durante ou após o Conclave que o elegeu Papa, à “causa dos pobres e oprimidos” – a que, segundo os valores aplicados por esses mesmos meios de comunicação em seus “justos” julgamentos, ele teria antes podido desprezar tal como Bento XVI os teria desprezado.

    Molda-se, assim, sob os critérios tidos como insuspeitos, não só “o Papa que queremos” como seu discurso e seu guarda-roupa, antecipando-se o que dele é esperado e dele será exigido – e ai desse Papa se fugir ao modelo “ideal”…

    Eu me pergunto se o mundo inteiro, pelo menos o “nosso mundo”, o que somos obrigados a conhecer, tornou-se estúpido de repente ou ficou, de repente, demente. Porque, que está estúpido e se mostra demente, isso ele está e assim se demonstra. E talvez assim estúpido esteja e demente se demonstre em virtude da cretinice e da insanidade flagrantes daqueles que teriam por função instruir a população dos fatos – mas, nem por isso, das intenções, o que uma Imprensa mal letrada e mal intencionada faz com total liberdade e absoluta irresponsabilidade.

    Que sejamos nós menos dementes e menos estúpidos, que cuidemos de filtrar informações de fato relevantes entre as que nada significam, as que apenas se destinam a disseminar idéias dementes e estúpidas ou se destinam a nada mais que preencher espaço em branco nos folhetins.

    E façamos votos de que, ao querer aproximar-se das massas e protegê-las, o Papa Francisco não pretenda agitá-las como um demagogo, substituindo homilias por comícios contra a ordem nacional, e, ao chamá-las a procissões em direção à fé que possa querer defender, não se comporte como um reles padre de passeata;

    façamos votos também de que nenhum inocente nos possa apontar que, nu em pêlo, desfila pelas ruas do mundo alguém que poderíamos ou deveríamos respeitar;

    façamos votos ainda de que o novo Papa, essa figura pública em tese respeitável, respeite a sua Igreja e possa defendê-la com coragem e determinação, às claras, como um bom soldado da Companhia de Jesus a deve defender e como, presume-se, Jorge Mario Bergoglio sempre a tenha defendido;

    façamos votos, por fim, de que ninguém se descuide de sua segurança pessoal em suas exibições públicas, para que não seja, em breve, antes mesmo de que tenha a oportunidade de nos esclarecer, a todos, a que veio e a que está – o que ninguém ainda sabe ao certo –, assassinada na primeira esquina por dementes mal intencionados, permitindo que seja transformada, tal como muitas já o foram por razões inconfessadas, em mais um falso mártir de estúpidas pseudo-causas políticas ou religiosas. 

 

 

 

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(*) 15/03/2013 – DA REPERCUSSÃO, EM  TERRITÓRIO ARGENTINO, DA ELEIÇÃO DO PAPA  FRANCISCO

 

 

     Argentinos  fazem panelaço contra governo de Cristina Kirchner

 

     PANELAZO

 

    Milhares  de argentinos se reuniram na noite desta quinta-feira na Praça de Maio, em  frente à sede do governo, batendo panelas para protestar contra o rebaixamento  do Bispo de Buenos Aires. 

    de nosso correspondente especial em Buenos Aires

 

    Os manifestantes, revoltados, não levaram à praça cartazes ou  símbolos de Partidos políticos. Muitos agitavam bandeiras do país. 

    Todos, porém, sem exceção, queixavam-se das restrições que vêm  sendo impostas ao justo orgulho nacional argentino, da falta de segurança para  exercer seus poderes divinos e do desrespeito dos Cardeais, no último Conclave  do Vaticano, que rebaixaram à condição de Papa ninguém menos que o Bispo de  Buenos Aires.

    Ao cair da noite, a manifestação ocupava toda a praça, já  mundialmente famosa por ter-se transformado em espaço cultural aberto a  festivais de música popular e exposições de arte urbana.

    Os manifestantes foram convocados através de redes sociais logo  após ter sido publicada uma carta de La Kirchner àquele que agora é chamado de  Papa Francisco, comemorando sua eleição.

    As palavras da governante – “En mi nombre, en el del Gobierno  argentino y en representación del pueblo de nuestro país, quiero saludarlo y  expresarle mis felicitaciones con ocasión de haber resultado elegido como nuevo  Romano Pontífice de la Iglesia Universal” – foram interpretadas como  expressão perfeita e acabada de uma inadmissível atitude de submissão às  pretensões imperialistas vaticanas.

    O jornal El Clarín, em sua edição on line, destacou ainda o  deslize do Governo ao desconsiderar a hierarquia da Igreja Universal e os 130  mil adeptos da Teologia da Prosperidade, que lotaram o Estádio de Futebol Racing  Club de Avellaneda em 2010, sob chuva e temperatura abaixo dos 5°C, em dia de  cura, libertação, prosperidade, salvação das famílias e mudança de  vida.

    Outros panelaços menores aconteceram nessa quinta-feira em bairros  de classe média, informou a TV local.

    ‘Estamos  cansados da forma como o governo e o mundo nos vêm tratando’,  disse um jovem de 21 anos antes de acrescentar, com a voz embargada pela emoção:  “Assim como o resultado do referendo nas Malvinas, o resultado da eleição  nesse Conclave não tem valor legal! E não o aceitamos como  legítimo!

    Membros do Partido Justicialista, em desacordo com a manifestação da Praça de Maio,  fizeram passeata nas alamedas do cemitério da Recoleta levando faixas nas quais,  em grandes letras azuis, viam-se palavras de ordem tais como “!Cristina para adelante, Néstor para  atrás!”, “Vamos  ganando” e “Requiescant in  pace”.

     Um  deputado da FpV (Frente para la Victoria) presente no local chamou o repórter  para registrar sua opinião: “Es  cierto que hay algunos compañeros de organizaciones de derechos humanos que  están molestos porque hay una cuestión vinculada a su [do Papa Francisco]  participación en la dictadura … una actitud, un compromiso y una conducta  durante la dictadura que dista mucho de lo que se lo acusa. … Siempre  coincidimos mucho más con él de lo que disentimos”.

 colaborou VaniaLCintra

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

  

     Um sistema é uma idéia. Uma idéia funcional. Nada mais que isso. Um sistema é uma construção lógica, um instrumento para pensar. Um sistema não constitui uma realidade, é apenas algo que facilita a observação das articulações que se dão entre elementos de um conjunto aleatório. Falar em “sistemas”, no entanto, tem sido muito fácil. Inventar ou reconhecer um “sistema” no conjunto de meia dúzia de elementos é mais fácil ainda. Já compreender que requereria um sistema para que fosse reconhecido como um sistema de fato é meio difícil. Compreender a que sistema se vinculam e como a este se vinculam elementos aparentemente incompatíveis entre si, que o mesmo sistema unificará em um mesmo conjunto, é ainda mais complicado.

 

     Um sistema será, portanto, um conjunto de elementos que obedecem a um mesmo princípio, que justificará tudo aquilo que nesse conjunto se inclua. Ou o conjunto se articula sob um princípio explicativo único, uma única lógica, uma única razão, ou não será sistema algum, será apenas um conjunto de elementos reunidos por qualquer motivo. E, sobre o assunto, a lição de Condillac é magistral e insuperável. Um princípio, diz ele, é um fato bem constatado − não será uma abstração, porque, se assim pudesse ser, cada um se creria no direito de definir princípios à sua maneira, o que supõe que a verdade dependeria dos caprichos de nossa linguagem; nem será uma hipótese, porque aquilo que é apenas engenhoso não é simples, e certamente a verdade é muito simples. Mas que ninguém se preocupe que não vou aqui transcrever uma tese…  Quero apenas dizer de coisa muito próxima a nós todos, diria que quase palpável. 

 

     No conjunto das relações todas que se produzem em uma Sociedade, assim como há uma linha que delimita a esfera do econômico, há também linhas que delimitam as esferas do jurídico e a do educacional, a do familiar etc. Embora essas esferas – que também são idéias não fatos, tal como o sistema é uma idéia – nos pareçam quase concretas em seus efeitos, as linhas que as contornam são tão tênues que por vezes ninguém as percebe. Principalmente porque a linha que delimita a esfera do político – e essa é uma linha tratada com “cerol” – entre todas as demais linhas se embaralha, e, por vezes, estas se rompem. E, quando isso acontece, nem sempre ou quase nunca se forma um conjunto mais integrado ou mais harmonioso. Embora também embaralhadas, as tensões entre os conteúdos dessas esferas permanecem. E observem que a Política não é um princípio, é apenas uma das manifestações da vida em Sociedade e, portanto, dependerá de um princípio.

 

     Destaco essa evidência para poder comentar a longa entrevista concedida por Joaquim Barbosa a “correspondentes estrangeiros” (1) – entrevista que a Associação dos Magistrados Brasileiros, a dos Juízes Federais do Brasil e a dos Magistrados da Justiça do Trabalho consideraram “preconceituosa, generalista, superficial e, sobretudo, desrespeitosa” (2). Antes, porém, destaco também o que, dessa entrevista, mais nos poderá, creio eu, a todos importar – e não será o julgamento do Mensalão.

      

     ***

     Diz Barbosa: “… um caso que envolve um só réu, uma só pessoa … estava esperando julgamento há mais de dez anos. O caso da Ação Penal 470 tinha 40 réus e a imprensa xingou o Supremo, me esculhambou dizendo: “Sete anos! Isso é um absurdo! Como é que dura sete anos?”. Mas não fala uma única palavra quando se trata de casos como esse. Aí é que está o absurdo: julgar um caso simples e levar 10 anos. … nosso sistema penal é um sistema muito frouxo. É um sistema totalmente pró-réu, pró-criminalidade. Essas sentenças que o Supremo proferiu aí de dez anos, doze anos, no final elas se converterão em dois anos, dois anos e pouco de prisão, porque há vários mecanismos para ir reduzindo a pena. E, por outro lado, esse sistema frouxo tem vários mecanismos de contagem de prazo para prescrição que são uma vergonha. São quase um faz de conta. … se o Estado não tiver condições de apresentar uma ação penal contra alguém que é acusado até, digamos, cinco anos, aí o Estado não tem mais direito. Eu acho perfeito esse tipo de prescrição. Mas não, aqui no Brasil foram inventando mecanismos ao longo dos anos. O próprio Judiciário! … Quem constrói as prisões, quem tem o poder para construir, para manter as prisões, não é o Judiciário. É o Poder Executivo. Em geral, o Poder Executivo não dá a mínima. Não dá a menor atenção. Os governantes brasileiros não dão importância a esse fenômeno tão nosso que é esse sistema prisional caótico. … Não há sistema penal em países com o mesmo nível de desenvolvimento do Brasil tão frouxo, que opere tanto pró-impunidade. Há um desequilíbrio do discurso aqui no Brasil. Há todo um discurso garantista … que domina a mídia: a grande mídia, a mídia especializada. E esse discurso garantista é inteiramente pró-impunidade, embora com uma outra roupagem, com um outro discurso. … o Poder Judiciário entrou na cena política de vez. A própria competência que o STF tem da Constituição já faz com que ele atue na cena política. … Especialmente depois da criação dessa TV Justiça … Além do mais, o Brasil é o país que tem per capita, o maior número de faculdades de Direito. Todo mundo estuda Direito neste país. Então o interesse é muito grande. … O que se vê no Congresso é a incapacidade de tomar decisões que são próprias de qualquer Legislativo. No Legislativo brasileiro, por uma tradição que se fortaleceu muito durante o regime militar, e também por força da fragilidade da oposição dentro do Parlamento, há essa dificuldade de se tomar decisões que exijam um quórum mais qualificado, como a derrubada de um veto. Acredito que não haja uma maioria no Congresso para derrubar um veto presidencial. … eu mesmo não participei dessa decisão sobre a Lei da Anistia. E provavelmente aqui, hoje, já haja uns quatro ministros que não participaram. Imagine daqui a quatro anos. Quase uma maioria absoluta do tribunal não terá participado dessa decisão. Ou seja, teoricamente é possível. Agora, eu não estou dizendo que isso vai acontecer. … O que eu disse é que, no plano judicial, aqui nesta Suprema Corte, é possível sim que – sei lá – a médio prazo, alguma decisão que não necessariamente incida sobre a Lei da Anistia, mas que tenha incidência sobre o que dispõe essa Lei de Anistia pode mudar, sim, o conteúdo daquilo que foi decidido há três anos. As coisas são muito dinâmicas aqui. … como os temas que são decididos aqui são tão vastos que não me surpreenderia se, num outro processo, tópicos especiais, importantes daquela decisão venham a ser modificados. Isso é muito comum aqui…. O senhor é americano? … Vocês só não ficam sabendo (risos). Mas é igualzinho aqui.

 

     *** 

     Volto, agora, ao que disse no início: sendo vista a Sociedade, esta sim, como um amplo sistema de múltiplos elementos e múltiplas atividades, que, em tese, deveriam ser mutuamente complementares para que houvesse harmonia, e de múltiplas relações, sejam mais ou menos estreitas ou esgarçadas, será sempre muito difícil falar de qualquer uma delas como se fosse uma manifestação isolada ou pertinente a apenas dado grupo de indivíduos ou dadas circunstâncias, por mais que algumas dessas relações e atividades se encaixem ou pertençam em exclusivo a um determinado âmbito – exatamente porque o contorno desse âmbito, como o dos demais, nunca será muito nítido.

 

     Mas, nisso tudo, há algo que devemos ter por certo: no âmbito da política, da economia, da justiça, da escola, da família etc. etc., nada é mais assustador ao indivíduo que a possibilidade de perder o status e/ou a liberdade. Portanto, no que se refere ao respeito devido às regras sociais, não existirá “medida sócio-educativa” mais eficaz que o receio de ir parar atrás das grades. O temor da cadeia pública ultrapassa a emoção, a inteligência e também a moral – porque a cadeia pública fere a carne, não só a alma. Ela marca, bem mais indelevelmente que uma tatuagem ou uma cicatriz. Provoca dor, não apenas perdas materiais. E nada como o apelo aos cinco sentidos em seu conjunto mais o emocional para produzir efeitos no comportamento. De certa forma, por mais moderna e mais cômoda que nos possa parecer, a privação da liberdade é a privação da própria vida. Para o bem ou para o mal, ela ensina. Talvez ela não ensine exatamente quem foi ou quem está afastado do convívio em Sociedade, mas seguramente ensinará quem não está. Todas as demais “medidas sócio-educativas” não passam de demagogia. Porque não afastam o criminoso do convívio em Sociedade, não são exemplares. Muito menos serão eficazes.

 

     Errar é humano, já nos disseram muitos, e quem age e, muito mais, quem julga aquele que agiu estará sempre sujeito a cometer erros, inclusive de perspectiva. E nem sempre quem se vê preso mereceu tal castigo e nem sempre é, de fato, danoso à Sociedade. Mas só quem não tem boa índole, exatamente por não ter boa índole, será capaz de apelar ao argumento estúpido de que é justo um indivíduo não respeitar o próximo ou, principalmente, a coisa pública quando não for respeitado. Se assim for, será justo roubar quando alguém tiver fome ou não tiver emprego ou outro meio de subsistência qualquer, ou quando considerar que seu salário não é suficiente, ou quando desviar recursos alegando ser necessário uma ”distribuição de renda” e por aí vai…; e será também justo matar quando justo for roubar, pois a razão que impele ao crime contra a Sociedade será a mesma. E o problema maior é que a linha de contorno das esferas da fome e da vontade de comer também é muito tênue.

 

     Qualquer Sociedade precisará de regras, de protocolos, de regulamentos assim como precisam disso tudo os indivíduos. Regras, protocolos, regulamentos – e Leis – não são princípios filosóficos: são apenas regras, protocolos, regulamentos e Leis. A normatização formal e/ou informal dos comportamentos é o que garante aos indivíduos os direitos essenciais à sua sobrevivência. Ou os privam de supostos “direitos” que somente seriam obtidos por meio da usurpação dos direitos fundamentais dos demais. Sendo racionais, as regras, protocolos, regulamentos e Leis permitirão, ao par disso, que as atividades sociais consideradas lícitas sejam reconhecidas como também racionais e pertinentes, e que as relações entre indivíduos e seus grupos se façam, se não com certo conforto, com o mínimo de conflito que possa levar a uma situação de “todos contra todos”. Assim sendo, frases famosas – como as de Rousseau, por exemplo: “o homem nasce livre, mas por todas as partes se encontra a ferros” ou “quem quer que se recuse a obedecer à vontade geral deve ser compelido pelos seus concidadãos a obedecê-la. O que nada mais é do que dizer que poderá ser necessário obrigar um homem a ser livre”, para não citar “o homem é naturalmente bom, o que o corrompe é a Sociedade” – pinçadas em almanaques, que enfeitam teses acadêmicas de curto alcance e são tão comemoradas, são absolutamente vazias de sentido caso não seja considerado que todo e qualquer indivíduo vive em Sociedade e não seja considerado o Bem Comum. Além de que “vontade geral”, que em Rousseau é a vontade soberana, não é sinônimo de “vontade da maioria” tal como muitos que nunca leram Rousseau possam interpretar, nem, jamais, poderá se confundir com esta.

 

     Já a liberdade do indivíduo, sendo absoluta, não garante e, muitas vezes, não permite o equilíbrio social e o bem estar de todos e o de cada um – que, este último, é relativo à sua identidade individual, portanto, às suas escolhas e preferências. Se a democracia formal (que não é, mas) poderia ser confundida com um princípio que regeria as relações sociais mais adequadas à maioria, a liberdade não será princípio algum, e muito fácil será compreender por quê: porque a liberdade de um conflita com a liberdade do outro. Os regimes ditos democráticos, apurados ao longo do tempo (e, provavelmente, a muito se apurarem ainda), incluem entre aqueles direitos à sobrevivência não só o direito ao trabalho digno e ao salário igualmente digno, como o direito à Saúde, à Escola, à opinião etc. etc. (que não se confundem com o assistencialismo demagógico) e também o direito à estabilidade e ao equilíbrio social, pois não é possível viver de sobressaltos. Que estes direitos sejam assegurados pela Lei, porém, não significará que a liberdade de todos esteja assegurada