Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

Ob in Freude, ob in Not, Bleiben wir getreu bis in den Tod” (seja na alegria, seja no pesar, seremos fiéis até a morte) – de “Alte Kameraden” (Velhos Camaradas), marcha de Carl Teike, composta na Prússia em 1889, que costuma ser executada nas Academias Militares do mundo inteiro, especialmente ao fim do curso.

 

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      A guerrilha organizada em todo o sub-continente Sul-americano por inimigos do Estado nacional tumultuou o Brasil em dada época, provocando mortes de civis e militares e prejuízos materiais. Contra ela o Exército Brasileiro e as demais Armas se mobilizaram. E um regime de exceção se impôs por necessário, para que a população pudesse prosseguir vivendo sem experimentar os horrores de uma guerra civil. Confundindo novos métodos de ação adotados pela dita “esquerda” com a pacificação do País, os militares se recolheram aos Quartéis e, antes de entregar o poder novamente aos civis, permitiram uma anistia generalizada e o retorno ao território nacional dos que se auto-exilaram no exterior ao perderem seus cargos e/ou direitos políticos por terem cometido ações terroristas ou por terem fomentado uma agitação irresponsável.

 

      A guerrilha, porém, passou a contar com farta literatura fantasiosa e romantizada a justificá-la, o que deixou latentes suas alegadas razões ainda que não se ponha em ação. Sensibilizando os incautos, os “ex-guerrilheiros” puderam ser eleitos pelo voto direto, fazendo do Estado brasileiro o que bem entenderam sem que suas atitudes e suas intenções, tanto as do passado quanto as voltadas ao futuro, fossem questionadas – enquanto o porquê da anterior intervenção militar pôde ser sistematicamente omitido de nossa História, e vem sendo, no presente, pervertido por alguns e absolutamente esquecido por outros. 

 

      Alguns brasileiros, não muitos, indignaram-se com a invenção de uma Comissão de notáveis reunida às expensas do próprio Estado cujos “trabalhos” se destinavam a engordar essa literatura, divulgando uma “verdade” que condenasse a repressão aos “ex-guerrilheiros” e “ex-terroristas” como tendo sido criminosa. Alguns brasileiros, poucos, indignaram-se com o resultado dessa pantomima armada, que proclamou como “torturadores” 377 militares de várias patentes, entre eles os Presidentes da República e o Patrono de uma das três Armas do Estado. Alguns brasileiros, bem mais poucos, uns três ou quatro, acreditando que a Comissão “cumpriu seu papel”, indignaram-se apenas com a inclusão de seus familiares ou algum antigo conhecido que fosse considerado uma boa alma naquela lista. É o caso de Dona Claudia Maria Madureira de Pinho, que acusa uma injusta menção ao nome de seu pai entre os que teriam sido responsáveis por “crimes contra a humanidade” por lhe ter sido atribuído o combate aos “revolucionários”. Trocando em miúdos, o que lhe ocorreu levantar contra a leviandade daquela Comissão (seria apenas “leviandade” ou essa Comissão teria um claro propósito?) pode ser resumido em um único parágrafo:

 

“Eu, que sou sua filha, vou contar quem foi papai – o que ninguém mais poderá fazer. Posso afirmar que papai, que nasceu pobre, de mãe analfabeta, e só matou um único alemão na Batalha de Montese, não cometeria crimes contra a humanidade, pois só entrou nas Forças Armadas porque achou que poderia ter futuro. Talvez papai não devesse ter acreditado no Exército. Papai foi preso e arriscou uma corte marcial por se recusar a separar os soldados brancos dos negros em seu pelotão durante paradas. Um preso político, que almoçava com papai na Vila Militar, ao ser libertado foi visitá-lo. O período da ditadura foi difícil para papai e para mim porque, quando papai implorava que eu ficasse em casa porque tinha medo de que eu desaparecesse e ele não conseguisse me localizar, eu o desobedecia e ia engrossar as passeatas contra o Governo. Entre os melhores amigos de papai estavam vários militares cassados pela ditadura. Mas quando Geisel e Frota quiseram acabar com o horror dos porões, depois de Vladimir Herzog ter sido assassinado dentro de sua cela no DOI-Codi, chamaram papai para comandar o Centro de Informações do Exército. Papai viajou de quartel em quartel tentando impedir a barbárie praticada por quem não era militar de fato e por ordens não podia ser contido. Então, papai, que mantinha um pedido de saída para a reserva pronto na gaveta, explicou a Geisel e a Frota que não tinha perfil adequado ao cargo porque sua vida no Exército Brasileiro, que abrigou alguns dos homens mais abjetos em suas fileiras, havia sido toda baseada no respeito à Convenção de Genebra.”  

 

      Como é que é?

 

      Bem, festa é festa. Essa festa não é nossa, e nela sempre caberá mais um, desde que dance conforme a música. Mas, se, definitivamente, essa festa não é nossa, a quem de nós esse samba do crioulo doido deveria comover? E por que os atos e as decisões estritamente individuais de alguém que tenha sido nomeado “torturador” por meia dúzia de trapaceiros deveriam nos interessar em especial? O General Antonio da Silva Campos, se alcançou o posto que ostentava, idiota não seria e algum espírito de caserna deveria ter demonstrado e ter mantido, mesmo após ter passado para a Reserva. Sentir-se-ia hoje gratificado por essa “defesa” pública feita por sua filha? Por quê? Porque teria sido ele o único injustiçado entre seus camaradas ao ser proclamada a “verdade” da tal Comissão? Que verdade essa Comissão proclamou, afinal? Há alguma verdade a respeito de alguém no documento por ela divulgado? Ou haveria, por acaso, muitas verdades a respeito de muitos e mentiras apenas a respeito de outros poucos incompreensivelmente contemplados?

 

      Muitos brasileiros se admiram ao tomar conhecimento das “contradições” dos que hoje estão no Governo fazendo uso do poder que lhes foi delegado para locupletar-se particularmente da forma como bem entendem. Todos nós nos esquecemos de observar, no entanto, as “contradições” dos que os combatem ou dizem combatê-los. Não percebemos a que ponto de desrespeito por nossa própria História nós chegamos, a que ponto alcançam a nossa absoluta falta de consciência e a nossa tolerância com a miséria moral ao fim de tantos anos sob o jugo da dita “esquerda”.

 

      Mesmo os que viveram as tensões e as angústias nos Quartéis e no seio das famílias de Oficiais militares no período pré e pós 1964 podem compreender perfeitamente que os mais jovens tenham uma impressão equivocada do que ocorreu no passado e do que hoje ocorre – e sabem que é impossível competir com a propaganda dessa dita “esquerda”, especialmente quando se vêem aparelhadas tal como estão a Imprensa, a Educação, a Cultura em geral. Será igualmente impossível, porém, aceitar que os filhotes da chamada “abertura” não tenham uma idade determinada e que qualquer criaturinha que seja filha de um General que tenha ocupado uma função de tamanha responsabilidade durante o regime de exceção venha publicamente dizer o que nos disse Dona Cláudia.

 

      Se ela não consegue bem compreender o que moveu seu pai em vida ou considera o que ele tenha feito insuficiente para de sua memória se orgulhar, que não invente histórias da carochinha tentando desculpá-lo do que ela mesma acredita ter sido errado ou do que ela mesma sinta vergonha sabe-se lá por quê; e tente, sim, resolver-se com a ajuda de um psicanalista. Mas que não envolva alguém mais em seus dramas pessoais. Que vá insultar o Exército Brasileiro e os nossos Soldados assim no quinto dos infernos! E que no quinto dos infernos vá também pastar quem considere muito nobre essa demonstração de “amor filial” e demais atitudes semelhantes.

 

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Texto que vem sendo divulgado por correio eletrônico e talvez tenha sido publicado em algum lugar que não é citado:

“Pela memória de meu pai
Papai não cometeu crimes contra a humanidade. Tentou evitá-los. Foi escolhido para o cargo para isso. Por seu perfil. Era a missão. Acreditava na instituição do Exército
Pouco após o assassinato de Vladimir Herzog dentro de sua cela no DOI-Codi, em São Paulo, o presidente Ernesto Geisel e o ministro do Exército, Sílvio Frota, convocaram meu pai ao Planalto. Desejavam que assumisse o comando do Centro de Informações do Exército, o Ciex. Precisavam de alguém que acabasse com o horror dos porões. Papai, o general Antonio da Silva Campos, não queria o cargo. Em família o pressionamos para que passasse à reserva. Era uma ordem, ele a acatou. (Mantinha o pedido de saída para a reserva pronto na gaveta.) Por conta desta passagem de pouco mais de um ano pelo comando do Ciex, seu nome foi listado entre os 377 responsáveis por crimes contra a humanidade da Comissão da Verdade.
O que leva um nome a ser colocado como responsável por crimes contra a humanidade em um relatório oficial? Ele é citado três vezes no documento, todas de forma vaga. Mas está na lista. Os membros da comissão sequer descobriram o ano em que nasceu ou aquele em que morreu. Puseram seu nome entre os responsáveis pelo pior de todos os crimes que um ser humano pode cometer sem, ao menos, ter o respeito, a decência, de buscar saber de quem se tratava.
A Geisel e Frota, naquele dia, papai argumentou que não tinha o perfil. Que sua vida no Exército havia sido toda baseada no respeito à Convenção de Genebra. ‘Quem aceita tocar num fio de cabelo de um preso’, lhes disse, ‘ainda mais torturar, é um ser doente.’ Não eram militares de fato. Eram pessoas ‘a quem nenhuma ordem é capaz de conter’. Como de fato nenhuma ordem conteve. Durante aquele ano do Ciex, que passou viajando de quartel em quartel tentando impedir a barbárie, perdeu dez quilos.
Papai nasceu em família pobre. Sua mãe, imigrante portuguesa, foi uma empregada doméstica que jamais aprendeu a ler. Entrou nas Forças Armadas porque ali poderia estudar, encontrar futuro. Se fez voluntário para combater o fascismo durante a Segunda Guerra. Foi preso e arriscou corte marcial porque se recusava a separar soldados brancos de negros em seu pelotão durante paradas. Contava a história do único homem que soube ter matado, um soldado alemão, na Batalha de Montese. Lance de sorte: sacou mais rápido, disparou. Seguindo as regras, retirou do corpo o cordão de identificação que seria enviado para as forças inimigas e manuseou sua carteira. Lá, encontrou a foto de uma mulher e de um bebê. No meio de um tiroteio, nunca se sabe se uma bala feriu ou matou. Mas, naquele momento, ele soube. Os pesadelos com aquela imagem o perseguiriam pelo resto da vida.
Entre seus melhores amigos estavam vários militares cassados pela ditadura. Dentre eles, o brigadeiro Rui Moreira Lima. Estão, como papai, mortos. Não podem vir à frente e depor em seu nome, contar quem foi Antonio da Silva Campos. Mas eu, sua filha, posso.
O período da ditadura foi difícil para nós. Eu ia às passeatas pedir a volta da democracia, ele implorava que ficasse em casa. Tinha medo de que, se desaparecesse, não conseguiria me localizar. Ainda tenente-coronel, no fim dos anos 1960, foi responsável direto por um preso político, na Vila Militar. Almoçava com ele. Talvez ainda esteja vivo. Foi libertado e retornou para visitar meu pai.
Papai não cometeu crimes contra a humanidade. Tentou evitá-los. Foi escolhido para o cargo para isso. Por seu perfil. Era a missão. Acreditava na instituição do Exército. Talvez não devesse. De fato comandou o Ciex em 1976 e 1977. Mas, por honestidade, por integridade, no mínimo por uma questão de decência, antes de listar seu nome entre alguns dos homens mais abjetos que passaram pelas forças militares brasileiras, deviam se informar sobre quem foi.
Mas não fizeram, sequer, uma busca no Google.”

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Claudia Maria Madureira de Pinho é filha do general Antonio da Silva Campos, citado pela Comissão da Verdade como responsável por crimes contra a Humanidade

 

 

 

  

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

O aparelho de Estado é muito mais resistente do que se pode imaginar e, com êxito, é capaz de organizar, nos momentos de crise, forças fiéis ao regime muito além do que a profundidade da crise deixaria supor. Antônio Gramsci – relatório de agosto de 1926 ao Comitê Central

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“Numa sessão que durou mais de 18 horas, o Congresso Nacional aprovou no fim da madrugada o projeto de lei que altera a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2014, permitindo a revisão da meta de resultado fiscal deste ano. Jamais, antes, foram alteradas metas de ano em curso. … o governo Dilma …para escapar do crime de responsabilidade pediu uma verdadeira anistia. … Foram 240 votos a favor, na Câmara, e 39 no Senado; com as galerias fechadas, o que não aconteceu nem mesmo durante a ditadura militar.”

http://polibiobraga.blogspot.com.br/2014/12/congresso-fica-de-cocoras-e-aprova-nova.html

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    Vale perguntar: se estamos em uma democracia, a tão duras penas conquistada (segundo alguns) e tão celebrada, e se as regras dessa democracia, que devem ser observadas, estão sendo estritamente cumpridas (o regimento do Congresso inclusive), por que o regime anterior, findo oficialmente há uns bons 30 anos, precisa ser citado sempre e cada vez que se queira criticar qualquer decisão política tomada por aqueles que foram eleitos diretamente pelo povo para que o mesmo povo representassem? Por cacoete? Por vício? Por falta de argumento, de recurso mais adequado? E por que aquele regime anterior teria sido uma “ditadura”? Que substituiu essa “ditadura” que mais e melhor pudesse representar o interesse do povo brasileiro? Como se comporta o processo político nacional desde que de uma “ditadura militar” o País ter-se-ia livrado sem que o Governo de então, estando de posse do aparelho de Estado, manifestasse qualquer resistência?

 

     Disputas políticas são enfrentamentos ideológicos – ou não serão disputas políticas, serão apenas entreveros em torno de minudências, serão incentivos à formação de fã-clubes, serão desordens provocadas por mera demagogia, serão caprichos sem qualquer significado político que apenas desvirtuam, desgastam e enfraquecem as vontades coletivas. Serão não mais que uma insanidade.

 

     Posições políticas não são, pois, fruto de opções estéticas nem se confundem com estas. Muito menos serão fruto de sensibilidade poética. Posições políticas que signifiquem alguma vantagem política são conquistas reais e são posições de poder, são posições de combate que devem ser defendidas com constância, com empenho e irredutivelmente. Porque derivam de uma finalidade estratégica. E com essa finalidade devem ser coerentes.

 

     É preciso, é, aliás, imprescindível que, constantemente, os objetivos imediatos sejam ajustados estrategicamente ao objetivo final não só a cada batalha perdida como a cada batalha ganha. Nas “Casas do Povo”, onde estão os “representantes do povo”, travando combates semelhantes aos de uma guerra – e, muitas vezes, serão o prólogo de uma guerra -, haverá sempre um vencido e um vencedor. O resto é massa de manobra. Isso, caso haja “representantes do povo” que representem de fato o interesse do povo – a infinidade de interesses que esse povo possa manifestar – não apenas se representem, eles próprios. Sendo assim, o combate político não será um piquenique no campo ou um festival da canção popular. O combate político é uma “guerra de posições”.

 

     Não se enfrenta uma guerra por inércia, por vaidades ou pelo prazer de enfrentá-la. Nesses combates parlamentares, a manifestação de entusiasmo nas galerias ou as atitudes intrépidas nas ruas do povo já “representado” nos assentos do Congresso – tal como a Democracia civilizada requer – serão de muito pouca serventia. Muitas vezes, pelo contrário, essa agitação é provocada por quem aposta no tumulto puro e simples para obter pequenas vantagens irrelevantes à coisa pública.

 

     Para enfrentar uma guerra com um mínimo de chance de vitória é preciso saber por que enfrentá-la, é preciso ter uma razão consistente, uma boa tropa, grande ou pequena, muito bem disciplinada, é preciso agir com inteligência e criar algumas táticas alternativas de combate. Sem um desses elementos, confia-se apenas na sorte, que não costuma brindar com freqüência os que despertam ao meio-dia, e a expectativa deverá ser não outra que o fracasso das investidas e a derrota.

 

     Se algum combatente não sabe disso, qualquer bom comandante saberá. Ou deveria saber. Quem não souber disso, ou, mesmo que saiba, não atente a isso, que não se meta a querer comandar batalhas políticas ou, muito menos, a querer comandar a Política.

 

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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Congresso fica de cócoras e aprova nova “Lei de Irresponsabilidade Fiscal”. Dilma escapa do crime de improbidade administrativa.

. Numa sessão que durou mais de 18 horas, o Congresso Nacional aprovou no fim da madrugada o projeto de lei que altera a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2014, permitindo a revisão da meta de resultado fiscal deste ano. Jamais, antes, foram alteradas metas de ano em curso. O que acontece é que o governo Dilma gastou demais em, ano eleitoral, registrou déficit monstruoso e para escapar do crime de responsabilidade pediu uma verdadeira anistia.

 . A pressão sobre a base governista incluiu a promessa de liberação de emendas parlamentares que somaram valores médios de R$ 740 mil por deputado e senador. Uma chantagem explícita.

. Foram 240 votos a favor, na Câmara, e 39 no Senado; com as galerias fechadas, o que não aconteceu nem mesmo durante a ditadura militar.

. A aprovação da anistia equivale a uma verdadeira Lei de Irresponsabilidade Fiscal. Ela poderá beneficiar governadores e prefeitos desordeiros que gastam loucamente e agora estão sem controle.

. Os governistas praticamente não usaram a tribuna e permitiram que os oposicionistas deitassem e rolassem em acusações de todo gênero contra Dilma e o PT.

http://polibiobraga.blogspot.com.br/2014/12/congresso-fica-de-cocoras-e-aprova-nova.html

 

 

 

  

 

 

 

 

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EM MEMÓRIA

27-11-2014
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

          1935

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     No dia 15 de Novembro, nossa República completou 125 anos. Nenhuma notícia de qualquer comemoração cívica oficial se viu ou se ouviu, fosse federal, estadual ou municipal. Apenas os que se consideram “lideranças de Oposição” convocaram, durante os dias precedentes, a metade do povo com que essa “Oposição” contou em votos para que ela se fizesse presente em peso nas ruas do País inteiro a reclamar “o fim da corrupção”. Essa metade é a que se diz insatisfeita com o Governo e quer derrubá-lo. Nada de novo. Pretender derrubar governos e reclamar da corrupção são cacoetes nacionais bem mais antigos que a República.

 

      A resposta foi pífia – contaram-se menos de 3 mil pessoas em São Paulo, mil em Porto Alegre, 200 no Rio, 150 em Brasília, um pouco mais ou um pouco menos nas demais capitais…  – e, por certo, essa “multidão” não motivou quem teria feito “o ‘diabo’ para vencer” as eleições e alguns supõem que fosse capaz de “infiltrar seus agentes nas passeatas para destruí-las de dentro” a comprometer o feriado que, ainda por cima, era um sábado. Assim, foi relativamente fácil protestar “de forma ordeira e pacífica” tal como era recomendado – o que seria, no mínimo, um paradoxo considerando-se que os ânimos foram hiper-exaltados no decorrer da campanha eleitoral recente realizada nos termos mais baixos que já puderam ser concebidos; considerando-se os sucessivos escândalos que, já há algum tempo, a Imprensa permite que venham à tona em detalhes; considerando-se que as atitudes do Governo vêm sendo a razão não mais do sobressalto, mas, sim, da revolta de grande parte do povo; considerando-se que o Governo vem sendo alvo constante de insultos desferidos pelo povo que mais habita a internet que as ruas.

 

      Além das acaloradas discussões observadas entre os próprios reclamantes a respeito da forma como seria permitido protestar, apenas um doutor advogado que “não sabia” do protesto cruzou com ele usando camiseta vermelha estampada com figurinhas carimbadas, além de uma foice e um martelo, e levou umas bandeiradas de alguém mais exaltado. Mais uma vítima da tortura e da truculência da direita raivosa que ganhou seu momento de intempestiva e estupefaciente glória…

 

      Pensando bem, melhor foi que pouca gente tenha comparecido à manifestação, porque quem se veste de vermelho e carrega foices e martelos não apenas nas camisas, mas nas suas mãos ainda que não os saiba usar, que sai às ruas na hora em que bem entende sair exigindo “reformas estruturais como urbana, agrária, tributária e a democratização dos meios de comunicação, além da realização de uma constituinte para reforma do sistema político”, é a outra metade do povo – a que nunca parece muito disposta a reclamar o que reclama “de forma ordeira e pacífica”.

 

      Quatro dias depois, no dia 19, logo em seguida ao Dia da República, veio o Dia da Bandeira Nacional. A nossa Bandeira. Nenhuma notícia de qualquer comemoração cívica oficial se viu ou se ouviu, fosse federal, estadual ou municipal. Nem sequer os que se consideram “lideranças de Oposição” convocaram, durante os dias precedentes, a metade do povo com que essa “Oposição” contou em votos para que se fizesse presente em peso nas ruas do País inteiro a reclamar fosse o que fosse. Aquela metade que se diz insatisfeita com o Governo. Nada de novo. Faz tempo que os símbolos nacionais nada significam, somente são lembrados em disputas esportivas e… nas eleições, que não deixam de ser uma disputa esportiva…

 

      Entre os panfletos “webianos” ou “internáuticos” que convocavam a metade do povo para aquele protesto ordeiro e pacífico do dia 15 estava o que transcrevo abaixo. Já em suas primeiras linhas nos deparamos com uma desavergonhada mentira que se presta a uma franca e risonha doutrinação ideológica contra o devido respeito aos que, algum dia, exaltaram os valores republicanos: “… a Proclamação da República, que derrubou o Regime da Monarquia, foi urdida, exclusivamente, dentro dos quartéis. Não contou, portanto, com o apoio popular, que resultou surpreso com a decisão dos militares.”

 

       Dizer que as camadas populares não se mobilizaram no sentido de exigir em armas a proclamação da República é uma coisa – e é verdade. Dizer que um apoio resultou surpreso é apenas uma bobagem, não tem qualquer sentido lógico. Dizer que a proclamação da República tomou de surpresa o povo é outra coisa. E será mentir. Seja quem for que diga isso, não sendo um absoluto ignorante, estará mentindo deslavadamente. E terá um objetivo ao mentir. A troco de que mentiria, não sei e pouco importa – mente. Não sugiro que alguém mergulhe de cabeça nos livros de História do Brasil da noite para o dia, de hoje para amanhã, mas qualquer um que se dispusesse a, pelo menos, abrir a Wikipédia – que é o atual “pai dos burros” – encontraria o seguinte:

 

Durante a Guerra do Paraguai, o contato dos militares brasileiros com a realidade dos seus vizinhos sul-americanos levou-os a refletir sobre a relação existente entre regimes políticos e problemas sociais. A partir disso, começou a desenvolver-se, tanto entre os militares de carreira quanto entre os civis convocados para lutar no conflito, um interesse maior pelo ideal republicano e pelo desenvolvimento econômico e social brasileiro. Dessa forma, não foi casual que a propaganda republicana tenha tido, por marco inicial, a publicação do manifesto Republicano em 1870 (ano em que terminou a Guerra do Paraguai), seguido pela Convenção de Itu em 1873 e pelo surgimento dos clubes republicanos, que se multiplicaram, a partir de então, pelos principais centros no país. Além disso, vários grupos foram fortemente influenciados pela maçonaria (Deodoro da Fonseca era maçom, assim como todo seu ministério) e pelo positivismo de Auguste Comte, especialmente, após 1881, quando surgiu a igreja Positivista do Brasil. Seus diretores, Miguel Lemos e Raimundo Teixeira Mendes, iniciaram uma forte campanha abolicionista e republicana. A propaganda republicana era realizada pelos que, depois, foram chamados de “republicanos históricos” (em oposição àqueles que se tornaram republicanos apenas após o 15 de novembro, chamados de “republicanos de 16 de novembro”). As ideias de muitos dos republicanos eram veiculadas pelo periódico A República. Segundo alguns pesquisadores, os republicanos dividiam-se em duas correntes principais: os evolucionistas, que admitiam que a proclamação da república era inevitável, não justificando uma luta armada; os revolucionistas, que defendiam a possibilidade de pegar em armas para conquistá-la, com mobilização popular e com reformas sociais e econômicas. Embora houvesse diferenças entre cada um desses grupos no tocante às estratégias políticas para a implementação da república e também quanto ao conteúdo substantivo do regime a instituir, a ideia geral, comum aos dois grupos, era a de que a república deveria ser um regime progressista, contraposto à exausta monarquia. Dessa forma, a proposta do novo regime revestia-se de um caráter social revolucionário e não apenas do de uma mera troca dos governantes.”

 

      Pronto. Só isso já seria mais que suficiente para, pelo menos, pôr em dúvida a bobagem que foi dita. E mais que suficiente para que não fossem ditas (ou “ensinadas”) tantas bobagens. Não nos surpreende, porém, que, às vésperas de uma esperada manifestação popular, seja não inventada, mas reiterada a mentira de ter sido a República “urdida exclusivamente dentro dos quartéis”. Porque, hoje em dia, todo texto que pretenda dizer da Política, ainda que apenas a tangencie, aproveitará qualquer pretexto para tentar desmoralizar e conspurcar a participação dos setores militares nos fatos passados. E por que isso se faz, mesmo que em detrimento do respeito à inteligência e ao valor de outros setores da Sociedade? Porque, entre nós, em meio aos radicais ortodoxos, surgiu um tipo muito específico de radical que promete ter vindo para ficar – o radical democrata.

 

      Democrata ou não democrata, todo radical será intolerante. E perigoso, muito perigoso. O que é capaz de fazer um radical caso seja tratado com tolerância ninguém poderá prever. Mas não só isso. É de se notar também que a postura do radical é soberba. O radical não duvida da sua verdade, o radical é um… “fundamentalista” por sua própria natureza. Portanto, necessariamente será incoerente no trato dispensado à realidade. Assim sendo, o radical democrata cocoricará como um galo rouco que se equilibra em cima do muro e será capaz de dizer qualquer coisa, com nexo ou sem nexo, contra ou a favor, verdade ou mentira, para comprovar e justificar a sua fé radicalmente democrática – como se, com isso, garantisse a salvação de sua alma política. E tentará convencer o mundo de que a sua, e somente a sua, é a verdadeira fé.

 

       Em seu radicalismo democrático, aquele texto nos dirá também que os militares brasileiros atenderam ao clamor das ruas ao intervir em 1964, no que estariam corretos; e que, em 1968, perderam a razão. Inequivocamente “de forma ordeira e pacífica”, clamando por uma intervenção militar, muita gente foi às ruas em 1964. Aquela gente percebia que o princípio republicano se punha em risco. Aquela gente sabia que poderia contar com um baluarte da República contra os que a ameaçavam.

 

      Seria possível perguntar à metade do nosso povo, a que está insatisfeita com os rumos hoje tomados pelo País (à outra metade será inútil perguntar pelas mesmas radicais razões que a movem): a situação no Brasil hoje é pior ou é menos grave do que era em 1964? Sim ou não? Por quê? Por que não deixamos rolar a festa, uma vez que muita gente também foi às ruas pedir “diretas já” para Presidente da República (quando eleições diretas preenchiam os demais cargos públicos) e a governante atual foi reeleita democraticamente, pelo voto direto? Por que tanta gente “deveria” agora ir às ruas para protestar democraticamente, “de forma ordeira e pacífica”, contra a corrupção e contra o Governo PT-Rousseff? Que é, exatamente, aquilo que o povo “deveria” defender nas ruas no dia do aniversário da sua República? O impedimento da governante? Isso seria o bastante para que se evitasse no País algo semelhante ao que é relatado no segundo texto transcrito abaixo, que nos diz do processo que levou a Síria à situação em que hoje se encontra? Como esse povo defenderá a República se nem sequer reconhece e respeita sua Bandeira? Que doce solução alguém sugere contra a ameaça de que se amplie o caos que em muitos pontos da realidade nacional já se fez e corrói inclusive as nossas primordiais Instituições?  

 

      A República proclamada anteontem deu no que deu ontem e no que está dando hoje. É uma caricatura de República, com uma lista de mazelas que vai “desde a roubalheira impune, o abuso de poder, o autoritarismo, ao desejo de controlar a imprensa e muitas outras”. Deu no que deu e dá no que dá não porque tenha sido resultante de algum “golpe militar”, mas porque ninguém, exceto o Exército de ontem e uns poucos mais que respeitavam as Instituições do Estado, cada um de seu jeito, levou-a de fato a sério. E, hoje, a sério ninguém mais a leva. À aversão ao exercício da função de manutenção da lei a da ordem, função que compete constitucionalmente às Forças Armadas do Estado, corresponde o desprezo dedicado aos símbolos nacionais, com equivalente peso e dimensão. As Forças Armadas “não devem” e “não podem” ser convocadas a unir-se ao povo para defender a República porque esse povo “deve” repudiá-las exceto quando são utilizadas em substituição à Defesa Civil que o povo não encontra por que organizar. Além de que, expurgado da vida política do País graças a gestões “radicalmente democráticas”, o Exército de hoje não mais é o Exército de ontem, e, assim como as demais Armas, não mais se mostra disposto a sair dos Quartéis sequer em defesa do princípio republicano adotado pelo Estado brasileiro – com o que se auto-imola, pois para manterem-se as leis e as ordens emanadas de qualquer governo bastam as Polícias. O resto é o resto. Muitas vezes esse resto não passará de hipocrisia. Quando não for apenas festejo. Quando não for má-fé. E o que nos sobra disso tudo é nada.

 

      Quem for minimamente inteligente (não será necessário ter um QI 180…) que tire suas conclusões. E poderá levar tão a sério os radicais da cretinice que se quer “democrática” – aqueles que, entre outras sugestões de semelhante teor, insinuam que podemos nos considerar invasores de nossa própria terra, aquela que foi conquistada palmo a palmo por nós mesmos – quanto os demagogos radicais da “democracia” vêm levando a sério a nossa República e nossas expectativas republicanas.

 

      Sem qualquer organização, sem qualquer solução sequer esboçada que pudesse ser dada à confusão que no País já foi muito bem armada, e propositadamente armada, sem contar com o respaldo das Armas do Estado (ou desdenhando desse respaldo, inclusive do que possa ser dado às pretensões do Governo eleito a se manter no Poder custe o que custar, e a agir de forma ainda mais voluntariosa, digamos, do que já vem agindo), com mais de 50 mil “guerreiros” (?) que só sabem choramingar contra a sorte fragmentados em mil grupelhos, com trocentas e tantas mil “lideranças” em permanente conflito que só sabem enunciar promessas de que nos levarão a uma “Terra Santa”, vale o risco de protestar por protestar, só para ver a festa rolar? Muita gente achou que não.

 

      Estará certa ou estará errada toda essa gente?  

 

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MANIFESTAÇÕES PARA O DIA 15 DE NOVEMBRO

 XIV – 022/14 – 13. 11. 2014

 SÁBADO 15/11

 Ao longo dos últimos dias entraram dezenas de mensagens, vindas de todos os cantos do país, contendo informações e pedidos para que todos aqueles que se sentem indignados com os rumos de nosso país, que não deixem de sair às ruas, neste sábado, 15 de novembro, data em que o país comemora (?) a Proclamação da República, para protestar contra o péssimo governo Dilma-petista.

1º GOLPE MILITAR

 Antes de tudo, porém, é preciso esclarecer que, independente da data escolhida para ir às ruas e protestar, a Proclamação da República foi o primeiro Golpe Militar que o país sofreu desde o ano de 1500, quando foi descoberto (ou invadido) pelos portugueses.

 Vale dizer que a Proclamação da República, que derrubou o Regime da Monarquia, foi urdida, exclusivamente, dentro dos quartéis. Não contou, portanto, com o apoio popular, que resultou surpreso com a decisão dos militares.

 INTERVENÇÃO MILITAR

 O curioso é que a grande maioria dos brasileiros só lembra do Golpe Militar de 31 de março de 1964, o qual, a bem da verdade, gostem ou não, naquele momento não passou de uma INTERVENÇÃO MILITAR, urdida e deflagrada a pedido do povo, que lotava as ruas com insistentes manifestações contra o Comunismo.

ATO INSTITUCIONAL 5

 O Golpe, propriamente dito, vale frisar, só veio a acontecer no Brasil em 13/12/1968, quando o general Costa e Silva baixou o Ato Institucional número 5 (AI-5), o qual conferia poderes extraordinários ao Presidente da República e suspendia várias garantias constitucionais.

 EXTENSA LISTA DE MOTIVOS

 Bem, voltando ao tema -Manifestações de Rua-, prometidas para o dia 15/11, onde a lista de motivos para tal mobilização, como bem escreveu recentemente o pensador (Pensar+) Rodrigo Constantino, além de necessária e muito bem-vinda, é bem extensa: vai desde a roubalheira impune, o abuso de poder, o autoritarismo, ao desejo de controlar a imprensa e muitas outras.

REAÇÃO DO GOVERNO

 O governo, como Constantino refere na sua coluna digital (Veja), teme gente nas ruas. O PT, por sua vez, sabe, perfeitamente, que perdeu o monopólio das manifestações. Por isso tenta desqualificar essas milhares de pessoas que espontaneamente se manifestam. Quer associar essa gente toda a “movimentos golpistas” ou antidemocráticos, reacionários que não aceitam as regras do jogo. Na verdade o que acontece é o contrário! Justamente por desejarem as regras do jogo é que protestam contra o PT, que fez o “diabo” para vencer. Querem investigações para comprovar a lisura do processo, e querem punições para os corruptos.

 TODO CUIDADO É POUCO

 Todo cuidado, portanto, é pouco. Sabemos, conclui Rodrigo Constantino, do que essa turma é capaz. Podem até mesmo infiltrar seus agentes nas passeatas para destruí-las de dentro, acusando-as de demandar golpe militar ou algo do tipo. Não! As manifestações devem clamar pelo respeito aos valores republicanos e democráticos, pelo fortalecimento de nossas instituições, e não sua substituição.

 Que todos lotem as ruas nesse feriado de nossa República, de forma ordeira e pacífica, com uma mensagem de resgate de uma democracia sólida. Que protestem contra essa “República de Bananas” que o PT vem instalando em nosso amado Brasil!

http://www.pontocritico.com/

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 SÍRIA: A HISTÓRIA DO CONFLITO EM 8 PONTOS

12 novembro 2014

Quase 200 mil sírios morreram no conflito entre forças leais ao presidente Bashar al-Assad e a oposição. O sangrento conflito destruiu bairros inteiros e forçou mais de nove milhões de pessoas a deixar suas casas. Esta é a história do conflito até agora, em seu quarto ano, em oito pequenos capítulos.

1. Protestos se tornam violentos

Protestos pró-democracia tiveram início em março de 2011 na cidade de Deraa, ao sul, após a prisão e tortura de adolescentes que pintaram mensagens pedindo a derrubada do governo no muro de uma escola. Após forças de segurança abrirem fogo contra manifestantes, matando dezenas deles, outros tomaram as ruas.

Manifestações se espalharam pelo país pedindo a renúncia de Assad. A violência usada pelo governo para reprimir a oposição aumentou a determinação dos manifestantes. Em julho de 2011, centenas de milhares de pessoas protestavam em todo o país contra o regime.

Opositores recorreram às armas, primeiro para se defender de forças de segurança e, depois, para expulsá-las de áreas locais.

2. Guerra civil

A violência cresceu e o país se viu numa guerra civil: brigadas de rebeldes foram formadas para enfrentar forças do governo na luta pelo controle de cidades e de regiões no interior do país. Os combates chegaram à capital, Damasco, e a segunda maior cidade síria, Aleppo, em 2012.

Até junho de 2013, a ONU estimava 90 mil mortos no conflito. No entanto, em agosto de 2014, este número tinha mais que dobrado, para 191 mil mortos.

Leia mais: Mortos em conflito na Síria já superam 191 mil, diz ONU

O conflito é mais do que uma guerra entre aqueles que apoiam e se opõem a Assad: tornou-se uma batalha de teores sectários, colocando a maioria sunita contra a minoria xiita alauíta do presidente, e envolveu os países vizinhos e as grandes potências ocidentais.

A ascensão de grupos jihadistas, incluindo o autodenominado ‘Estado Islâmico’, deu ao conflito uma dimensão maior.

3. Crimes de guerra

Uma comissão da ONU que investigou supostas violações de direitos humanos cometidas desde março de 2011, disse ter evidências de que ambos os lados cometeram crimes de guerra – incluindo assassinato, tortura, estupro e sequestros.

Estamos vivendo no limite da vida. Estamos sempre nervosos, estamos sempre com medo – Mariam Akash, cujo marido foi morto por um atirador

Forças do governo e rebeldes também foram acusados pelos investigadores de imporem sofrimento à população civil – como bloqueio do acesso a alimentos, água e serviços médicos – como método de guerra.

Na cidade de Aleppo, cerca de 2 mil pessoas morreram por bombas de barril – recipientes com óleo, explosivos e estilhaços – jogadas pelo regime em áreas controladas pelos rebeldes desde dezembro do ano passado. A ONU diz que, em alguns casos, reuniões de civis foram atacadas deliberadamente, constituindo massacres.

O grupo ‘Estado Islâmico’ também é acusado pela ONU de liderar uma campanha de medo no norte e no leste da Síria. Militantes decapitaram reféns e realizaram assassinatos em massa de membros de forças de segurança e minorias religiosas.

4. Armas químicas

Centenas de pessoas morreram em agosto de 2013 após foguetes com o agente nervoso sarin terem sido lançados contra diversos distritos rurais nos arredores de Damasco. Potências mundiais condenaram o ataque e disseram que este só poderia ter sido realizado pelo governo sírio. O regime e a Rússia, aliada de Damasco, culparam os rebeldes.

Leia mais: Sírios sentem-se esquecidos um ano após ataque químico

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, havia dito que o uso de armas químicas cruzaria uma “linha vermelha”.

Diante da possibilidade de uma intervenção militar americana, Assad aceitou a remoção completa ou destruição do arsenal químico sírio supervisionada por uma missão conjunta da ONU e da Organização para a Proibição de Armas Químicas. A destruição de agentes químicos e munições foi finalizada um ano depois.

Apesar da operação, a organização disse ter documentado o uso de agentes químicos, como cloro e amônia, em ataques do governo contra áreas controladas pelo governo entre abril e julho de 2014.

5. Crise humanitária

Mais de 3 milhões de pessoas deixaram a Síria desde o início do conflito, a maioria mulheres e crianças. É um dos maiores êxodos de refugiados na história recente. Os países vizinhos são os mais afetados, e Líbano, Jordânia e Turquia enfrentam dificuldades para acomodar o fluxo constante de refugiados. O êxodo teve uma forte alta em 2013 com a piora na situação na Síria.

Leia mais: Síria é ‘maior crise humana da nossa era’, diz ONU

Acredita-se que outras 6,5 milhões de pessoas, a metade crianças, tenham sido internamente deslocadas na Síria, levando o total de desalojados a mais de 9,5 milhões, metade da população do país. Cerca de 10,8 milhões de pessoas precisam de ajuda humanitária dentro da Síria, e 4,6 milhões vivem em áreas cercadas ou de difícil acesso.

Em dezembro de 2013, a ONU lançou um apelo com a meta de arrecadar US$ 6,5 bilhões (R$ 16,6 bilhões) para distribuir ajuda médica, alimentos, água, abrigo e serviços de saúde e educação.

6. Rebeldes e ascensão de grupos islâmicos

A oposição armada cresceu e há mais de mil grupos comandando cerca de 100 mil combatentes. Agora, moderados seculares foram superados em tamanho por militantes islâmicos e jihadistas, cujas táticas brutais causaram preocupações em todo o mundo e geraram confrontos entre rebeldes.

Capitalizando no caos na região, o ‘Estado Islâmico’ – grupo extremista que cresceu a partir da Al-Qaeda no Iraque – assumiu controle de grandes partes do Iraque e da Síria. Muitos de seus combatentes na Síria estão envolvidos em uma “guerra dentro da guerra”, enfrentando rebeldes que se opõem às suas táticas e forças curdas.

Leia mais: Análise: Hesitação dos EUA na Síria abriu caminho para extremistas na região

Em setembro de 2014, uma coalizão liderada pelos EUA lançou ataques aéreos dentro do Iraque e da Síria em uma campanha para “reduzir e destruir” o ‘Estado Islâmico’.

No campo político, grupos rebeldes também estão divididos – com alianças rivais brigando por supremacia. A mais prominente é a Coalizão Nacional Síria da Oposição e das Forças Revolucionárias, apoiada por diversos países do Ocidente e do Golfo Pérsico.

No entanto, a liderança do grupo é rejeitada por outros, incluindo a influente aliança Frente Islâmica, deixando o país sem uma alternativa nacional convincente ao atual regime sírio.

7. Esforços de paz

Com nenhum dos lados capaz de derrotar o outro, a comunidade internacional chegou à conclusão de que apenas uma solução política poderá por fim ao conflito na Síria. No entanto, diversos planos da Liga Árabe e da ONU falharam.

A decepção causada pela falta de ação do Ocidente criou uma terra fértil para extremistas fazerem recrutamentos, que dizem àqueles que perderam parentes que eles são a única esperança

Em janeiro de 2014, os EUA, a Rússia e a ONU realizaram uma conferência na Suíça para implementar o Comunicado de Genebra de 2012, um acordo com apoio internacional que incluía a criação de um governo de transição na Síria baseado no consentimento mútuo das partes.

As conversas fracassaram em fevereiro depois de apenas duas rodadas. O então enviado especial da ONU, Lakhdar Brahimi, culpou a recusa do governo sírio de discutir as exigências da oposição e o interesse em lutar contra “terroristas”, um termo usado por Damasco para descrever grupos rebeldes.

O novo enviado da ONU, Staffan de Mistura, também propôs a criação de “zonas livres”, onde cessar-fogos locais seriam negociados para permitir o acesso de ajuda em áreas cercadas.

8. Além da Síria

O que começou como mais um protesto da Primavera Árabe contra um líder autocrático se transformou numa guerra com vários jogadores regionais e do mundo.

O Irã e a Rússia apóiam o governo do presidente Assad e dão ao regime uma vantagem que tem ajudado-o a realizar avanços significativos contra os rebeldes. Assad também tem apoio do grupo islâmico xiita libanês Hezbollah.

A oposição sunita tem apoio de Turquia, Arábia Saudita, Catar e outros países árabes, além de EUA, Grã-Bretanha e França. O crescimento de milícias radicais islâmicas entre os rebeldes, no entanto, e a chegada de jihadistas sunitas de diversos países forçou uma redução do apoio internacional e regional.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141112_siria_explainer_hb 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

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A DERROTA

27-10-2014
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

      O Brasil está dividido. O resultado das eleições nos demonstra isso com todos os números. E nada mais que isso esse resultado nos demonstra.

 

      Mas o Brasil não foi dividido pelo PT. Muito menos o PT seria capaz de nos dividir para nos vencer. Nem essa capacidade, que exigiria alguma sofisticação de seus dirigentes, o PT possui. O PT é nada – é o ódio irracional de Chauí à classe média, é o dialeto chulo de Lula, os números confusos de Rousseff, as lágrimas fáceis e o gorjeio desafinado de Suplicy, a “estratégia” às avessas de Garcia – é o refúgio dos medíocres, e só venceu as eleições presidenciais pela terceira vez consecutiva porque o Brasil já estava dividido. E porque os que se colocaram contra o PT, contra quem compõe ou contra quem apóia o PT, nada representam – são apenas um monte de gente que, pelas mais absolutamente diferentes razões, inclusive as mais antagônicas, apostou no candidato de outro Partido.

 

      O Brasil continuará dividido, com PT ou sem PT. Porque um discurso de posse, fosse de quem fosse, por mais conciliatório que nos parecesse ser, não seria suficiente para juntar seus cacos e colá-los uns aos outros. Porque o que dividiu a nossa gente, permitindo fosse possível dar continuidade ao nada que o PT representa, foi a política eleitoreira, pouco séria, que em nosso País se cultiva. Que nós cultivamos. Há décadas. Foi o culto à performance das “celebridades”, a exaltação de falsos mitos libertários, a reverência aos covardes como fossem heróis, a escola troncha que adotamos, a autocomiseração vadia, a indiferença e o desprezo a nós mesmos que nos permite acreditar em histórias muito mal contadas porque nos soam mais “universais” que a verdadeira. Foi a irresponsabilidade com que tratamos de nossos assuntos, que só nossos são.

 

      É preciso que compreendamos que, estando dessa forma dividido o Brasil, não foi Aécio o vencido, não foi vencido o PSDB – o Brasil foi o derrotado. Mais uma vez. E que quem venceu não foi o PT, nem foi a Rousseff – venceram a politicagem, a ignomínia, a malandragem. Como já era de se prever que venceriam. Esses “personagens” que vivem entre nós venceram uma eleição que foi disputada com discursos semelhantes, com posturas semelhantes, que nada de novo trouxeram ao nosso povo dividido.

 

      O Brasil está dividido, sim, mas não está morto. Se o velarmos, de estúpidos, como se morto ele estivesse, desperdiçaremos os quatro anos que temos pela frente fazendo nada, em vez de reanimá-lo. Temos quatro gordos anos para pensar a Política com seriedade, sem bairrismos, sem prepotência oca, sem ufanismos tísicos, sem pruridos teóricos, sem fricotes retóricos. Com os pés no nosso chão firme. Com o olhar voltado ao nosso horizonte. Pensando em nós como um todo, sem o que nada seremos.

 

      E assim poderemos impedir que seja definitivo o estrago que o PT, mais uma vez no Executivo, mais ainda nos fará. Que talvez tão grande não fizesse o PSDB, mas isso não tínhamos e nem teremos a menor chance de saber.

 

      Caso não tivermos consciência dos erros que cometemos diariamente contra nós mesmos, veremos, em 2018, a repetição do mesmo resultado que ontem nos foi oferecido. E mais outra e outra vez esse resultado será o mesmo, até que o Brasil, mesmo que seu coração ainda esteja pulsando, possa ser retirado do velório em que hoje se encontra e seja enterrado definitivamente. Quem foi exaltado nas ruas, ontem, na festa da vitória daquela que despiu o vermelho e vestia o “branco da paz” senão um Lula também fantasiado de babalorixá?

 

      Fazer Política não é se fazer bonito para sair bem na foto tentando agradar a gregos e troianos. Fazer Política não é recitar versos às vésperas de eleições pedindo ou prometendo “mudanças” – que “mudanças”? Fazer Política não é bater panelas nas ruas, nem é quebrar vidraças ou incendiar ônibus e gritar histericamente o nome da tal Ética. Fazer Política não é procurar os malfeitos dos adversários para denunciá-los e escandalizar as almas sensíveis. Fazer Política não é acenar com fantasias salvacionistas, com promessas messiânicas, com a “essência democrática” que haveria em reformas referendadas por uma maioria que de nada tem noção.

 

      Fazer Política é pensar na Política com muita seriedade. Permanentemente. É querer pensar em fazer a boa Política. É situar-se no Brasil como um bom brasileiro e situar o Brasil no mundo como o nosso Estado, o dos brasileiros. É saber que ter poder é necessário, é querer ter poder. Fazer Política é esclarecer, não confundir. É impedir que inimigos ocupem o vácuo que permitimos seja criado por não sabermos quem somos ou não respeitarmos o que temos. Ou por não acreditarmos no que vemos. É acreditar que existem inimigos, sim. É definir os inimigos como inimigos. É não ser tolerante, em nenhuma hipótese, com os que reconhecemos como nossos inimigos. É levá-los a sério. É levar a sério a necessidade de que armemos nossas defesas. É não só querer curar o mal que nos possa ter sido feito como também prevenir e evitar que o mal se faça. É reagir com dignidade ao discurso conciliatório do nada com o coisa nenhuma, é demonstrar asco inequívoco ao tapinha nas costas que selaria o compromisso de aceitarmos que se faça qualquer coisa de nós em proveito de curtos e estreitos interesses. Fazer Política é fazer que o Brasil de fato nos represente, não uma região, não uma província, não um Partido, não um indivíduo que adote, da boca para fora, um discurso ensaiado de teor muito semelhante ao que caracterizou o discurso dos adversários, tentando nos deixar ainda mais perplexos e mais mansos.

 

      O PT não nos representa. Isso é uma verdade escandalosamente verdadeira. Nem nos representa o PT, nem nos representa a coligação de Partidos que foi vitoriosa nas eleições graças às “baixarias” que vimos durante a campanha eleitoral e tanto sensibilizaram os menos informados. Mas bem pior que o PT ter ganho as eleições é alguns voltarem a afirmar que têm vergonha de ser brasileiros. Nada mais adequado às pretensões de nossos inimigos que esse tipo de declaração, que até poderia ser interpretada como um rompante superficial, resultante de uma esporádica decepção, uma reação infantil a uma derrota, mas é do mais profundo das entranhas que ela é extraída. E foi exatamente com esse sentimento que esses alguns, muitos, foram às urnas a depositar suas apostas.

 

      Fazer Política é reagir com altivez a uma adversidade, é encontrar na derrota o estímulo para mais se preparar para a próxima batalha, é sanar erros, é traçar planos.

 

      Organizem-se, pois, as bancadas de fato representativas do interesse nacional no Congresso, organizem-se os Juristas que conheçam a boa doutrina e tenham algum discernimento do que seja um sistema Judiciário, organizem-se os que têm por função combater nas fronteiras os nossos inimigos, organizem-se os cidadãos que têm alguma consciência de como o mundo se comporta e de que nós não poderemos ser a exceção sem que sejamos esmagados. Organizem-se suas idéias, seus atos, suas expectativas. Para que, além de se mostrar tão dividido, o País não se rompa definitivamente, não se fragmente em múltiplos pedaços dele mesmo que serão, todos eles, representativos do nada que tanto o PT quanto os que estão contra o PT hoje representam.

 

      Se não representássemos o nada, quem se atreveria a nos dizer que Política poderá ser concebida como nenhum embate permanente de idéias e ideais? Quem nos sugeriria que um resultado como o que tivemos ontem pudesse ser o primeiro passo para uma conciliação de todos com tudo e qualquer coisa? Que pacificação nos ofereceria que venceu as eleições da forma como venceu, governando da forma como governou?

 

      Política é coisa séria. Não é festa, não é futebol, não é brinquedo. Política é Política, e nada mais. O que não for Política, será qualquer coisa, mas Política não será. No dia em que compreendermos isso, estaremos no bom caminho. E estaremos unidos. Seremos um poder de fato contra os nossos inimigos, entre os quais o pior é a inércia intelectual. Venceremos seja quem ou o que for que estiver contra nós. E teremos por que nos orgulhar de nós mesmos.

 

      Até lá, não. Até lá, nada.  

 

 

 

  

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

       Um artigo de Rodrigo Constantino publicado hoje (http://oglobo.globo.com/opiniao/todos-unidos-contra-pt-14236082) nos diz de “um gigantesco campo ideológico” que se formou em torno da candidatura de Aécio Neves porque haveria “uma prioridade mais urgente e comum a todos, que é impedir o Brasil de se tornar a próxima Argentina ou Venezuela”.

 

       É um artigo curto e, diria, “primoroso”. E não apenas por deixar de manifesto a obviedade ululante de que “o PSDB nunca foi um partido de direita, e sim de centro-esquerda”. Ele bem esclarece que essa “centro-esquerda” prima em “costurar acordos com base programática e construir pontes para ligar diferentes grupos em torno de um objetivo comum”, tal como o fez Tancredo, de quem Aécio Neves seguiria os passos. E, citando Marina Silva em sua carta de apoio ao tucano – “Chegou o momento de interromper esse caminho suicida e apostar, mais uma vez, na alternância de poder sob a batuta da sociedade, dos interesses do país e do bem comum” – justifica e insiste em investir fichas no mito sujo e esfarrapado de que a democracia se caracteriza por permanentes novas apostas e é sinônimo de necessária “alternância de poder”.

 

       Não, não é assim. Democracia é outra coisa.

 

       Pois bem. Faltam dez dias para a eleição de quem comandará o nosso País. Hoje, 16/10, haverá um 2º debate entre os presidenciáveis.

 

       Dez dias, em um processo tumultuado como o atual, com múltiplas intercorrências tipicamente emocionais, é muita coisa. É uma eternidade. Em dez dias, muita coisa nos poderá surpreender, muita coisa poderá ser alterada. Para o bem ou para o mal.

 

       Eu, particularmente, não acredito em pesquisas e sempre preferi me fiar em meu faro. Não acreditei nos números – pura propaganda, que confundiu muita gente – quando eles indicavam uma inexplicável ascensão meteórica de Marina que se explicava a troco de nada. A temperamental candidata do PSB apresentou no 1º turno o que era de esperar da união entre seus fiéis seguidores mais os eleitores dos partidos que formavam a coligação que apoiava seu nome, não o número que as pesquisas anunciavam poucos dias antes. Isso me confirmava que o que Marina pudesse representar em termos de transferência de votos seria irrelevante. Eles se distribuiriam conforme simpatias secundárias que os dois candidatos mais votados já tivessem angariado, conforme as tendências que já se mostravam meio óbvias desde o início das campanhas. Apesar de que os institutos de pesquisa sempre possam arrumar qualquer desculpa para os erros apresentados ao público (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1533195-9-definiram-voto-no-dia-do-1-turno.shtml).

 

       Agora, já não mais sou eu quem diz. O seguinte comentário foi publicado ontem a respeito da mais recente pesquisa do Datafolha: “O apoio de Marina Silva (PSB) ao presidenciável Aécio Neves (PSDB) pode estar mais atrapalhando do que ajudando” ((http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1533127-apoio-de-marina-a-aecio-pode-mais-atrapalhar-que-ajudar-diz-datafolha.shtml ). Mas Marina continua sendo tratada por Aécio (ou pelo PSDB) como se fosse uma liderança suprapartidária inconteste, que arrastaria multidões.

 

       Falemos então apenas de “objetivos comuns”. Pois bem, também. A primeira condição a que não haja qualquer “objetivo comum” é haver “de tudo” em uma “enorme coligação” de “sindicalistas, evangélicos, ambientalistas, liberais, conservadores e social-democratas” etc. etc. e tal… apoiando qualquer coisa que seja no País. Nesse murundu emaranhado infernal de pequenos interesses haverá em conjunto desordenado apenas o oba-oba dos que estão, por qualquer razão, seja lá qual for, insatisfeitos. Ou seja, nada haverá como objetivo e talvez nada haja, portanto, efetivamente em comum. E, se o único objetivo comum for “apostar na alternância de poder”, tudo bem – hoje votaremos no PSDB, amanhã, outra vez no PT. E tudo estará democraticamente correto… Nada a reclamar.

 

       Pois é. Já declarei por várias vezes que votei em Aécio e declaro mais uma vez que nele mesmo votarei uma vez mais. O que nem me impede de ser crítica com relação aos protocolos do PSDB, nem de observar o quanto esses se assemelharam, desde sempre, aos do PT. É uma pena, porém, que tanta gente considere qualquer crítica à campanha do candidato apontado como nosso “salvador” como uma ofensa pessoal – como se as cores do seu time ou a honra da mãe estivesse em jogo – em sinal inequívoco de uma forte predisposição às fantasias.

 

       Voto em Aécio Neves sem qualquer ardor cívico; aliás, voto com muito enfado. Mas isso tanto faz como tanto fez, porque eu sou ninguém. O fato é que não havia alternativa no 1º e muito menos há alternativa nesse 2º turno. E que, sendo ele eleito, teremos pela frente muitas oportunidades de conferir o que fará e/ou deixará de fazer. Já o que fará Rousseff bem sabemos. É, pois, uma aposta… em que o azar determinará o resultado.

 

       Se, neste momento, no entanto, o que importa é que Aécio seja eleito – não para que se faça uma “alternância de poder”, não para levar qualquer “centro-esquerda civilizada” à Presidência, mas talvez apenas porque a alternativa à sua eleição é mais que cruel -, seria muito interessante que tentássemos ampliar a discussão a respeito do debate que foi promovido pela Rede Bandeirantes. Sem paixão. Deixando quietas as bandeirinhas coloridas que agitamos e o regaço que nos acalenta por uns instantes e prestando um pouquinho de atenção tanto no comportamento dos candidatos quanto nas circunstâncias sob as quais o debate se fez.

 

       Aécio não é um pão-de-queijo qualquer, não é um idiota, é simpático, é bem educado, é de tradicional família mineira que conta com vários membros envolvidos na política local e nacional, tem uma boa postura física, uma imagem limpa, um sorriso bonito, uma voz agradável, nem monótona nem falsamente dramática, e um discurso muito bem articulado. Com essas características todas, será bem capaz de cativar todos aqueles que estão mais do que cansados das baixarias explícitas, muitas delas hediondas, que vêm substituindo o exercício da atividade pública nesse nosso pedaço.

 

       E, nessa altura do campeonato, pouco importa o grau de inocência e candura de Aécio. Importaria que Aécio insistiu, por diversas vezes, durante o tempo em que esteve no ar, inclusive ao ser entrevistado antes do “debate”, em que o importante seria falar do futuro, não do passado. Falar de propostas, de projetos. Portanto, de objetivos, de meios, de recursos. Ou não? 

 

       Projetos e propostas não se confundem com promessas vagas, por mais atraentes e amplas que nos pareçam. E governar é, realmente, “desenhar sem borracha” como disse Josias de Souza. Portanto, é preciso que o eleitor não se sinta, no dia seguinte, como tendo sido enganado. Ou nada será democrático. E porque uma campanha eleitoral, principalmente para cargos executivos, precisa ser, ao máximo, objetiva. Não se preside um País a contento avaliando seus problemas subjetivamente. As avaliações que os eleitores fazem dos candidatos, no entanto, necessariamente serão subjetivas. Apenas essas avaliações.

 

       Onde se escondeu a objetividade que Aécio prometeu imprimir ao debate?  De quais propostas e de quais projetos se falou? Que foi o que se debateu? Nada. Absolutamente nada.

 

       Rousseff usou e abusou de seu tempo a discursar para seu público cativo – petistas militantes e a massa ignorante. Nada acrescentou ao discurso de sempre, que desqualifica tudo o que não tenha o carimbo do PT. Aécio se colocou na retranca, dando chutaços para o meio de campo onde Rousseff recebia a bola e a segurava entre seus joelhos gordos, dava cambalhotas sem soltá-la e impunha ao “debate” as regras de Lula, que são também as suas próprias regras – as que serão apenas capazes de reger um campeonato de cuspe à distância. Rousseff falou do passado, falou de Fernando Henrique, da gestão de Aécio governador, falou de Minas Gerais, falou até mesmo na “ditadura”, falou de aeroportos, de quem roubou mais e quem roubou menos, de quem mente mais e quem mente menos e nada mais. Aécio também. Não conseguiu, portanto, sequer fazer o jogo a que se propunha, muito menos fazer gols. Não se empenhou nisso ou não soube recuperar a bola e sair jogando. Portanto, nem sequer ameaçou a zaga do PT. E nada de novo conseguiu dizer aos minimamente ilustrados, que são o seu eleitorado.

 

       Peessedebetes e tietes de Aécio dirão que, oh, sim, ele foi formidável. Teria parecido formidável porque não é idiota, é simpático, é bem educado, tem uma imagem limpa, um sorriso bonito, uma voz agradável e um discurso bem articulado. Se eu, porém, tivesse algum entusiasmo por sua candidatura (não tenho), estaria muito frustrada, e diria que, a cada bloco de perguntas/respostas, levou uma rasteira. O que vimos foi Aécio enrolando-se nas teias de que Rousseff lançava, muito segura de que suas abobrinhas fazem estrondoso sucesso, e, supreendentemente, sem tropeçar sequer nos verbos e nos plurais, tal como costuma fazer. 

 

       E exatamente por isso estamos nós conversando aqui sobre isso e apenas isso, nada mais.

 

       Ouviu-se uma infinidade de adjetivos mas não se ouviu nem se viu “debate” algum – o que nos foi oferecido foi apenas mais uma troca de desaforos, não uma troca de idéias. Infelizmente. Uma briga de moleques no pátio de um colégio, ou, como costumo qualificar esse tipo de conversa fiada, uma briga de comadres, comadres que trocam farpas ao se encontrarem no cabeleireiro e, ao se despedirem, trocam beijinhos, porque tanto faz como tanto fez, uma vez que são comadres.

 

       Já conforme a informação que nos chega em http://www.defesanet.com.br/hangout/noticia/17120/HANGOUT—Comunicado-DefesaNet/, Segurança e Defesa Nacional não serão exatamente um objetivo de qualquer um dos dois candidatos.

 

       Não sei quem conversa com quem nas ruas e poderá ter tido outra impressão. Eu, particularmente, estou farta disso tudo. Isso não é campanha eleitoral que se preze ou se apresente. Mas não só eu – muita gente mais está muito farta disso. Mesmo que as convicções e as expectativas de Josias de Souza nada tenham a ver com as minhas expectativas e minhas convicções políticas, foi-me forçoso concordar com ele. O que vi e ouvi foi um espetáculo que nada nos acrescentou. Infelizmente. E eu não poderia tê-lo relatado de forma mais detalhada e mais precisa que a encontrada em seu artigo de ontem: “Debate presidencial foi briga de pátio de escola”. 

 

       Tomara que esse espetáculo realmente deprimente não se repita hoje no debate da SBT.

 

 

 

  

 

 

 

 

 

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CIRANDANDO…

13-10-2014
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

Hoje, com a benção de Nossa Senhora Aparecida, é um dia glorioso para a nossa campanha. Recebo com muita honra e responsabilidade o apoio de Marina Silva. A partir de agora somos um só corpo, um só projeto” – Aécio Neves

eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/10/12/somos-um-so-corpo-um-so-projeto-diz-aecio-sobre-apoio-de-marina.htm

 

 

      Há momentos na vida em que ficamos torcendo para que a análise de situação e as projeções que fizemos se mostrem muito erradas. Constatar que estavam corretas não nos trará alegria alguma. Só nos dará raiva.

 

      Venho dizendo, há algum tempo, que Aécio Neves precisa ser eleito. Absolutamente avessa a tudo o que se demonstra inútil, votei em Aécio no 1º turno. Sim. Por uma única razão: elegê-lo parecia abrir uma brecha, estreita que fosse, a que se alterassem os compromissos que nos vêm levando a um mergulho fatal ao fundo do poço em velocidade vertiginosa, e a que tivéssemos um tempo para projetar e discutir os resultados dos novos compromissos, os que pudessem já ter sido alinhavados nos bastidores, com alguma seriedade e alguma profundidade.

 

      Com a morte de Eduardo Campos, Marina parecia decolar rumo ao 2º turno. Investi meu verbo (certo que apenas o meu verbo…) na candidatura de Aécio, mesmo porque não havia alternativa – em termos de propostas, ser tolerante com as de Marina Silva significaria apenas pretender trocar o PT1 pelo PT2, ou seja, o PT que está no poder pelo PT dos excluídos do PT que está no poder; e, se alguns foram “auto-excluídos”, tanto faz – o que vale é o que pensam e o que fazem, não as oportunidades de dizer, de querer ou de fazer que tiveram ou deixaram de ter. Ser PT não se define com pertencer a um Partido político – ser PT é um estado de espírito, é manter uma determinada visão de mundo que tudo compromete.

 

      Quando a situação se inverteu, os jornais nos disseram que Marina condicionava seu apoio a Aécio a que, no programa de governo deste, fossem incluídas as propostas de alguns “segmentos da sociedade” que nela votaram. Então, eu disse que, caso Aécio merecesse o apoio declarado de Marina, saberíamos um pouco mais de Aécio…

 

      Nunca disse que acreditava que o PSDB + aliados, fossem estes de primeira ou de última hora, seriam capazes de fazer um governo minimamente satisfatório. Ser PSDB também não se resume a pertencer a um Partido político – é também assumir um estado de espírito, é também ter uma visão de mundo que tudo compromete. E já me cansei de dizer que de nada adiantará alguém se dedicar a torcer para que dê certo alguma coisa que tem tudo para dar errado. Porque não vai dar certo, vai dar errado.

 

      A mim, Aécio não entusiasma, nem um pouquinho. Mas não exatamente me decepciona, nem, tampouco, surpreende. Aécio faz apenas o que seria de esperar que ele fizesse. É interessante notar que não foi Marina quem, por conveniência e por investimento em seus projetos, aceitou exigências de Aécio – foi Aécio quem complementou seu vago “plano de governo” com as específicas propostas de Marina, depois que esta permaneceu, por dias, em cima do muro. Portanto, Aécio nem mesmo precisou dizer um “esqueçam o que escrevi”… Em termos de propostas, sem muito se aprofundar, declarando-se amalgamado em “um só corpo, um só projeto” com Marina, Aécio une agora a fome com a vontade de comer – o que parece agradar a muitos cidadãos-eleitores.

 

      O meu maior receio não é o dia da eleição – é o dia seguinte ao da posse. Nesse troca-troca entre os mesmos que representam o mesmo (nanicos incluídos), esse dia seguinte é bem capaz de nos mostrar muita gente já começando a sonhar com… a volta de Sarney à Presidência! Porque o tempo de Sarney poderá parecer a muita gente bem menos pior que o que veio depois e que o que ainda está por vir e já se prenuncia.

 

      Duvidam disso? Pensam que estou brincando? Não estou, não… Nada impede que insistamos na nossa constante ciranda-cirandinha dos últimos tempos. A cada vez que constatamos que o anel que nos deram era de vidro e se quebrara e que o amor que nos tinham era pouco e se acabara, demos meia-volta e/ou volta-e-meia procurando quem nos prometia “ética na política” e “mudança de rumos”. Por que não faremos o mesmo no futuro? Seja quem for que estiver a postos na ocasião terá grande chance de ser apontado como o nosso salvador, como a solução dos nossos problemas todos que nós mesmos nos recusamos a enfrentar e a solucionar empenhando nossas presumidas inteligência e capacidade de trabalho. Preferimos “encostar”. Isso, em todos os níveis sociais e em todos os ambientes culturais. Além de que tudo nos deve parecer possível quando sabemos que a população que se informa das falcatruas, das negociatas e demais crimes comuns e não tão comuns, cometidos contra ela mesma, também se informa, antes de tentar somar dois com dois e de formar a sua opinião, do resultado das contas que “celebridades” já fizeram e do que estariam essas “celebridades” pensando de tais crimes e de quem os cometeu; que, a cada novo capítulo desta novela, perderá a memória de tudo ao que pôde assistir no dia anterior; que, quanto ao mais, acreditará que tudo prosseguirá da melhor forma possível… “se Deus quiser”… “com as bênçãos de Nossa Senhora Aparecida”…  ou o que o valha.

 

      É doloroso ter que admitir, mas o fato é que o Brasil não mais existe. Não mais existe na consciência dos que, por efeito de um registro civil, são brasileiros. Querer fazer-lhe remendos é querer tentar costurar as nuvens. O Brasil é um “lugar” no mundo. Um “lugar” de negócios, um “lugar” de investimentos, um “lugar” para passar férias ou curtir o carnaval. E não há espaço na cabeça do eleitor para que conste mais que isso. Nem há espaço para que conste mais que isso nos programas partidários e na cabeça dos candidatos. O que faz do Brasil um “lugar” onde a demagogia barata rola solta e rende muito. E faz absolutamente vã qualquer expectativa de que, algum dia, ponhamos minimamente em ordem nossas idéias. Pensando bem… quais idéias temos para pôr em ordem? E também faz vã a expectativa de que, em sua insignificância política e em sua soberba, essa unanimidade festiva de “centro-esquerda” (?) que continuamos a levar a Brasília com nossos votos quase sempre muito entusiasmados possa nos permitir respirar por alguns instantes. Ela nos cerca por todos os lados e sufoca por completo. Tudo isso é muito doloroso ter que admitir. E ter que aceitar que, à falta de consciência, à falta de organização, à falta de projetos globais-nacionais, seremos sempre gratos aos acenos feitos a vantagens setoriais. Aos que insistem em querer pensar o Brasil a sério – que não se confunde com querer “passar o Brasil a limpo” – não se oferecem opções.

 

      Mesmo assim, e apesar de que o que penso ou deixo de pensar a respeito disso tudo nunca importou e não importará a quem quer que seja, prometo que não vou agora sair dizendo por aí “Dilma não nos representa. Nenhum voto em Aécio”. Porque me incomodaria muito ver meu pensamento confundido com o pensamento de Luciana Genro… Portanto, fiquem tranqüilos os amigos que, no 2º turno, reafirmo, votarei em Aécio. Apesar de que esteja consciente de que estarei votando também nas propostas do PT2. E, desta vez, esse meu voto só poderá ser justificado a mim mesma caso me afirme convencida de que será bastante não arriscar manter essa turma do PT1, a que se abancou no Planalto, por mais tempo fazendo das suas. O que me horroriza, por ser inútil. Mas viram só como, dizendo isso, até pareço ser menos antipática? Legal!

 

       No frigir dos ovos, apenas este é o objetivo de muita gente. A turma que está no poder é o que vem, de fato, incomodando muita gente – apenas isso, nada mais. Como se de nada mais dependesse o Brasil poder se recompor, como se nada mais importasse, fosse necessário ou conveniente exceto afastar dos instrumentos e dos meios de poder aqueles que diretamente participam do governo atual.

 

      Então, vamos embora, vamos logo tratar de cirandar, já que o tempo urge, já que essa banda desafinada que nos faz dançar conforme a sua música nunca substituirá a partitura que tem à sua frente, nem nos permitirá instante algum de, sequer, silêncio. E já que, disso, ninguém reclama. Em seguida, se virmos que o anel que nos foi dado era de vidro e se quebrou, se percebermos que o amor que nos tinham era pouco e se acabou, volta-e-meia nós sempre poderemos dar… A vida é bela e desfrutar dessa beleza toda só depende de… de que, mesmo? Ah, sim, de nossa “vontade política”… Não é isso?

 

      Cirandando…

 

 

 

  

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

ou BASTA DE PT… ONDE?

 

 

 

 

     A questão agrária é um nó górdio em qualquer projeto de qualquer um que tenha por expectativa fazer do Brasil um País que viva em paz de forma decente e justa. Nunca, na história deste País, antes ou depois de que qualquer coisa possa ter acontecido, quem quer que fosse que tivesse um mínimo de discernimento manifestar-se-ia contra uma reforma agrária. Nem mesmo os Presidentes militares e quem os apoiou foram contra uma reforma agrária – fato de que, ao que tudo indica, todo mundo já se esqueceu.

(www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L4504.htm; www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/L4947.htm)

 

     Embora tenha garantido, nos últimos tempos, terras a quem as deixa ao deus-dará, arrancando-as das mãos calejadas de quem nelas produzia, o nosso Congresso não se preocupou com fazer reforma agrária alguma. Muito menos nos últimos 30 anos.

 

     Até hoje, a reforma agrária mora na cabeça dos indignados, nos planos dos mais e dos menos sensatos, que não saem do papel, e na garganta dos agitadores exaltados. O que temos no campo é uma violência desregrada, as invasões, as mortes, as concessões, os votos de cabresto… De reforma agrária, que é bom, nada. Nem sombra.

 

  boné MSTO MST diz que quer uma reforma agrária. Que mais quer o MST?

 

     A matraca de Marina Silva também diz que quer uma reforma agrária. E apóia o MST.

 

     O bumbo de Luíza Erundina do PSB, não menos radical que o de Luciana Genro do PSOL, não apenas agora a acompanha como desde sempre diz que quer uma reforma agrária. E que apóia o MST. Agora, o bumbo avisa que, no 2º turno, quem terá seu apoio é “nem Aécio nem Dilma. Nós não dissemos o tempo inteiro, na campanha, que queríamos mudança? Não propúnhamos o tempo inteiro o fim da polarização? … Nós temos que ser minimamente coerentes. Sem o que, não vale a pena“.

(www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2014/10/1528652-nem-dilma-nem-aecio-temos-que-ser-minimamente-coerentes-diz-erundina.shtml)

 

     Que é o que “vale a pena”? Que mais quer Luíza Erundina? Que mais quer o PSB?

 

     A filarmônica e o coral dos “pensadores de várias origens e atividades, poetas, atores, professores universitários, escritores e líderes de ONGs” afinam os instrumentos e os gogós para executar a partitura dodecafônica composta especialmente para celebrar o momento: “Antes de terminar o domingo da eleição, um grupo de intelectuais que no primeiro turno apoiaram Aécio Neves e Marina Silva divulgou um curto manifesto de defesa da união entre os dois. Gestado nos dias anteriores, a nota poderia ter o mesmo texto, mudando os personagens de posição, qualquer dos dois que passasse ao segundo turno.”

(www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1527996-intelectuais-apoiadores-de-marina-divulgam-carta-a-favor-de-aecio-neves.shtml)

 

     Os “pensadores de várias origens e atividades, poetas, atores, professores universitários, escritores e líderes de ONGs” dizem, faz tempo, que querem uma reforma agrária. E apoiam o MST. Que mais querem “pensadores de várias origens e atividades, poetas, atores, professores universitários, escritores e líderes de ONGs”?

 

arte em movimento

 

      Reforma agrária, se levada a sério, é coisa muito séria. Exigirá investimento em infraestrutura e muita ordem no pedaço. Qual seria a diferença entre o que quer o MST e uma reforma agrária que acudisse com justiça e eficiência às necessidades do “povo do campo” (se assim podem ser denominados os ainda arraigados e os já desarraigados do campo e da atividade agrícola, pondo-se em contraste com o tal “povo da floresta”)?

 

     Marina, sabemos quem é, e sabemos o que quer. E o que não quer.

 

     Hoje, quando “oficializaria o apoio ao tucano em Brasília… desistiu da viagem em cima da hora” (!). Até o momento, por sua omissão, demonstra apenas que direta ou indiretamente apóia Dilma Rousseff do PT – que diz ou pelo menos dizia que quer uma reforma agrária e apóia o MST. A omissão de Marina significa a indução ao voto nulo ou em branco – que significa um voto a menos contra Rousseff.

(www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1529731-marina-adia-declaracao-de-apoio-a-aecio-no-segundo-turno.shtml)

 

     Quais são, afinal, as propostas de Marina?

 

     “Marina Silva (PSB) bateu o martelo sobre as condições que determinarão seu apoio a Aécio … o tucano precisa fazer um aceno à esquerda, principalmente aos movimentos sociais. … Marina definiu que a reforma agrária e o comprometimento com os índios e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra figuram entre as prioridades para que seu apoio a Aécio seja público. … precisa ser “convencida” de que a candidatura do PSDB firmará compromissos com segmentos da sociedade que votaram nela em 2010 e em 2014. … ‘Marina não vai ao encontro de Aécio. Ele que precisa ir ao encontro dela’ … que dê sinais públicos de que fará flexões à esquerda. … Marina … exigirá que o tucano se comprometa pessoalmente com temas como a demarcação de terras indígenas, mantendo o poder da Funai, e a reforma agrária, com assentamentos populares.

(www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1529226-marina-quer-aceno-tucano-a-mst-e-indios-para-apoiar-aecio.shtml)

 

     Quando resolver proclamar quem é que apoiará nesse 2º turno, saberemos se é de fato a rainha da cocada preta ou só pensa (como alguns pensam) que é.

 

     Mas qual é, afinal, o programa de Aécio Neves (aecioneves.com.br/diretrizes.php ) ? Aécio apresentou alguma proposta para resolver a questão agrária?

 

     “‘Vejo absoluta convergência com aquilo que pensamos e com aquilo que queremos para o Brasil. Se vocês avaliarem os nossos programas vão encontrar muito mais pontos de convergências do que pontos divergentes’, afirmou Aécio referindo-se às propostas de Marina.

(www.psdb.org.br/aecio-afirma-ter-absoluta-convergencia-com-propostas-de-marina-para-o-brasil/)

 

     Caso Aécio mereça o precioso apoio de Marina, é que as propostas dos “segmentos da sociedade que votaram” na sempiterna candidata foram incluídas em seu programa de governo. E esses “segmentos da sociedade” nele poderão votar. Ou votarão em Rousseff. Muitos estarão seguros que tanto faz. Tanto faz? Talvez sim, talvez não. Mas, com isso, saberemos um pouco mais de Aécio.

  

     E que é o que muda com tudo isso? Nada. Manter-se-ão inalterados a violência no campo, as mortes, a injustiça, a fome, a seca, os votos de cabresto, o inchaço artificial das cidades e das “populações indígenas”… a possibilidade que sempre tivemos de dizer que desmiolados e/ou radicais são “os outros”… E, talvez, em nós, porque somos teimosos, manter-se-á a expectativa de que, algum dia, seja interrompido esse barulho infernal de uma nota só, apesar de que não seja uníssono porque todos os timbres são desafinados; e a de que, recolhendo-se à sua insignificância política, a unanimidade festiva de… “centro-esquerda” (?) que um dia levamos e continuamos a levar a Brasília com nossos votos sempre muito entusiasmados nos dê alguns instantes de sossego para pôr minimamente em ordem nossas idéias.

 

 

 

  

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

Em termos gerais, é imperativo desmontar a ‘herança maldita’ … Reverter o clima de desmoralização que tomou conta do país … a aceitação passiva da incompetência e da falta de responsabilidade, a condução ideológica e amadorística da política … e a tibieza no combate à corrupção … seguidas mostras de obtusidade, no melhor estilo terceiro-mundista … uma opção preferencial por regimes populistas e ditaduras” (1)

 

 

 

      Tudo bem. Muito bonito, isso. Herança por herança, Rousseff, por evidente, e todos os demais noves fora, ninguém mais herdeiro daquilo que de pior existe no PT que a sonhática Marina Silva, que “chorou ao ser questionada … sobre as críticas que recebeu do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem foi aliada por 24 anos”, com quem muito aprendeu, inclusive “que a esperança iria vencer o medo”, o que vem repetindo em sua campanha, e contra quem nada quer fazer, conforme ela própria pôde afirmar (2).

 

      Portanto, nestas eleições, se é que pretendemos imprimir alguma mínima aura de sanidade ao nosso voto, o que nos sobrará como também mínima expectativa de “desmontar a herança maldita” do PT é Aécio Neves, e ninguém mais. Desde que nos empenhemos, todos, nisso. Marina é herdeira direta do caráter messiânico-demagógico petista, por mais que entre em conflito por bagatelas com os demais herdeiros.

 

      Mas… por falar em heranças… haveria, por acaso, “mostras de obtusidade, no melhor estilo terceiro-mundista” mais evidentes que o parágrafo único do artigo 4º da Constituição de 1988, que nos obriga a “buscar a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações” e a, por decorrência, praticar “uma opção preferencial por regimes populistas e ditaduras”? Haveria, por acaso, “herança” mais “maldita” que essa?

 

      Quem nos legou esta herança? Quem, por nós, em nosso nome, a aceitou? Quem se lembra dela e se dispõe a discutir o ônus que nos acarreta, os resultados que implica? Esta não seria uma “prioridade inescapável”? Que é o que mantém nossos governos visceralmente vinculados aos governos de nossos vizinhos, a seus valores e a seus objetivos? Este não seria um tema de relevante importância, que deveria ser levantado em uma campanha eleitoral, para que opinássemos a respeito dele, uma vez que nos afeta diretamente, todos nós? Por que não aparece? Por que é omitido?

 

      Entra eleição, sai eleição… e quem acusa como obtusos porque obtusos de fato foram – e são – os responsáveis por herdarmos essa construção fantasmagórica monumental carregada de minas prontas a explodir, transposta de um terreno pantanoso em que proliferam insetos transmissores de doenças infectocontagiosas, de cujas paredes pendem correntes que nos atam pelas mãos, pelos pés e pelo pescoço? Quem se opõe aos que nos convenceram de que deveríamos viver sob o teto de uma cabeça-de-porco, escancarássemos as portas e as janelas ao que de mais retrógrado subsiste em volta de nós, abdicássemos do exercício pleno de nossa soberania, colocássemos nossas ambições legítimas na ilegalidade e mantivéssemos o cérebro mergulhado na mais absoluta escuridão?

 

      E quem nos vem sugerindo tentar “desmontar” essa “herança maldita” – a constitucionalidade de uma “fraternidade ideológica” absoluta e absolutamente obtusa, em conformidade com os interesses de quaisquer “personagens” que eventualmente assumam o governo nos vários e diferentes países do continente, que nos condena, portanto, a permanecer como “um país à deriva” por todo o sempre – e atirá-la ao lixo, que é o lugar de onde nunca deveria ter saído?


      Excetuando uns três ou quatro muito pouco lidos e quase não ouvidos, francamente, não conheço. Nem na Academia, nem no Congresso, nem na Indústria, nem no Comércio, nem na Bolsa de Valores, nem na Imprensa, nem na feira-livre, nem…


      De lero-lero, meus amigos, se nós fôssemos inteligentes, já teríamos percebido que estamos lotados até a tampa. Ao que tudo indica, ainda não percebemos. Falta-nos, então, comer muito e muito feijão nessa história toda. Neste momento, pois, apesar de que seja indigesto, requentemos o que se nos coloca disponível e foi mantido na geladeira nos últimos tempos – por isso, não azedou como o que ferve nas panelas petista e assemelhadas. Para que evitemos morrer à míngua e – quem sabe? -, com um pouco mais de cuidado, possamos pelo menos protelar uma fatal disenteria.

 

 

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(1) Três personagens e um país à deriva

A ordem em que os três principais candidatos à Presidência da República têm aparecido nas pesquisas parece-me ser o inverso de suas capacidades e do que deles se pode esperar de positivo para o Brasil.

Dilma Rousseff chegou ao Planalto como atriz num dos muitos enredos maliciosos que Lula é capaz de conceber. Com seus próprios recursos ela dificilmente se elegeria vereadora em Porto Alegre ou em Belo Horizonte. Lula “vendeu-a” como uma exímia conhecedora da máquina pública e a grande gestora de projetos que daria continuidade às “grandes conquistas” de seu próprio governo.

Tendo já cumprido um segundo mandato, Lula não iria se desgastar numa luta interna, muito menos emprestar sua popularidade a um candidato político. Queria um candidato que lhe devotasse uma fidelidade canina, o melhor “poste” que pudesse encontrar.

Na campanha e nos debates, ela quase nada precisaria falar; dos votos encarregar-se-iam Lula e os marqueteiros. Foi assim que o Brasil viveu um dos maiores paradoxos eleitorais de que se tem notícia. Nas democracias, candidatos sabem que suas chances de sucesso dependem de se tornarem conhecidos do maior número possível de eleitores. Com Dilma, deu-se o oposto: seu sucesso deveu-se à quase total clandestinidade em que ela se manteve.

Sob muitos aspectos, Marina Silva é o oposto de Dilma. Não creio que ela se prestasse a uma farsa eleitoral. Suas ideias parecem-me se constituir, parte por elaboração própria, parte por uma saudável utilização dos órgãos auriculares.

Apesar dessas qualidades, tinha certeza que o status de favorita que ela chegou a atingir não se sustentaria. Resultara de uma situação extraordinária que se diluiria. O desaparecimento de Eduardo Campos e a comoção dele decorrente catapultaram-na para a segunda posição.

O súbito aumento do apoio a Marina deveu-se à simpatia com que ela passou a ser vista por eleitores que, de outra forma, não a veriam como opção; à reativação e a uma tentativa de canalização mais positiva do manancial de votos contra Dilma e Serra que ela mobilizara em 2010; e à sensação de que ela passara a encarnar uma concepção idealizada de política com possibilidade real de chegar ao Planalto.

Ao envolvê-la numa aura de vencedora, os elementos mencionados proporcionaram-lhe a indispensável interlocução com grupos sociais que até a morte de Campos a viam como problema. Facilitaram a substituição da acanhada plataforma de 2010 por uma mais ampla e realista, respaldada por economistas competentes.

As últimas pesquisas mostram Aécio Neves na terceira posição. Admitindo que as intenções de voto em Dilma e as de votar em branco ou nulo estão mais ou menos consolidadas, Aécio precisa “tomar” de Marina só mais alguns pontos para ultrapassá-la. Difícil é; impossível, não. Se for ao segundo turno, terá o mesmo tempo de TV que Dilma e será visto como uma alternativa real ao oficialismo petista.

Na segunda (29), os agentes econômicos reagiram à melhora de Dilma nas pesquisas avisando que a reeleição será um desastre. As ações da Petrobras despencaram 10%. Corteses como são, Lula e Dilma deveriam pedir desculpas à analista do Santander cuja demissão exigiram por ter tido a “ousadia” de fazer uma previsão nessa mesma linha.

Se eleito, Aécio Neves terá prioridades inescapáveis. Em termos gerais, é imperativo desmontar a “herança maldita” deixada por Lula e Dilma. Reverter o clima de desmoralização que tomou conta do país desde 2003, a aceitação passiva da incompetência e da falta de responsabilidade, a condução ideológica e amadorística da política econômica e a tibieza no combate à corrupção.

Urge restabelecer o império da lei, a validade dos contratos, o valor das instituições e a independência entre os Poderes. Na política externa, Lula e Dilma deram seguidas mostras de obtusidade, no melhor estilo terceiro-mundista. Mas foram além: praticaram ativamente uma opção preferencial por regimes populistas e ditaduras, sabe Deus se como fruto de alguma convicção ou só no juvenil afã de marcar posições antiamericanas.

BOLÍVAR LAMOUNIER, 71, doutor em ciência política pela Universidade da Califórnia, e sócio-diretor da Augurium Consultoria. Seu livro mais recente é “Tribunos, Profetas e Sacerdotes: Intelectuais e Ideologias no Século 20” (Companhia das Letras)

-www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/10/1526290-bolivar-lamounier-tres-personagens-e-um-pais-a-deriva.shtml

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(2) www1.folha.uol.com.br/poder/2014/09/1515516-marina-chora-ao-falar-de-lula-e-se-diz-injusticada.shtml  

 

 

 

  

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

QUADROS DE UMA EXPOSIÇÃO : suíte composta por Modest Mussorgsky em 1874 na cidade de São Petersburgo, depois Leningrado, depois Petrogrado, depois Petersburgo, hoje Peter para os íntimos, às margens do rio Neva, na região do Mar Báltico. Inspirada nas pinturas de Viktor Hartmann, reúne dez movimentos que sugerem o folclore russo e são encadeados por um tema comum – “Promenade” (passeio). O piano soa austero, em contraste com o estilo radiante em voga na época.

 

QUADROS DE UMA EXPOSIÇÃO… 140 anos depois : suíte inspirada em instantâneos do cotidiano. Composta em Campinhos de Mato Grosso – na Trilha dos Goiases do Planalto de Piratininga -, depois Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso, depois Vila de São Carlos, hoje Campinas só. Em virtude de acanhadas motivação, criatividade e habilidade, reúne apenas oito movimentos que mantêm um tom nublado, fosco e empoeirado em contraste com o vibrante estilo da constante e sempre atual temporada aberta à caça de bruxas e de votos. Sugerindo o folclore brasileiro, eles são encadeados sob tema semelhante (ou não, depende de interpretação – o nome é o mesmo) ao que encadeia sua homônima precedente: “Promenade” (contradança em que os pares trocam de lugar e retornam às posições anteriores a cada oito compassos). O berimbau, que deve soar tão austero quanto um berimbau pudesse alguma vez ter soado, foi o recurso sonoro utilizado. O piano até foi procurado, mas não mais pôde ser encontrado – assim como os demais instrumentos todos, já havia sido levado embora, mas ninguém viu e ninguém sabe como. Recomenda o compositor que ninguém se sinta tentado a apreciar todos os quadros de uma sentada só, uma vez que ele próprio reconhece que a exposição é tediosa e fatigante.

    

 

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1º movimento – AOS VENCEDORES, A QUIRERA.

 

     No Grande Prêmio Planalto Central/2014, a ser disputado em Outubro próximo, concorrerão exemplares pertencentes a haras muito modernos, muito bem instalados em território nacional. Nenhum deles puro sangue, nenhum deles campeão, nenhum deles de bom porte, mas alguns, pelo aspecto curioso, já apresentados a platéias internacionais aficionadas do turfe, que muito os aplaudiram. Desde já, nessa longa e preguiçosa tarde desperdiçada no jóquei clube nacional, prepara-se o páreo. Comentaristas especializados fazem seus prognósticos que jornais e TVs divulgam entusiasmados. As pules são de valor bastante elevado, estão reservadas a muito poucos, e as multidões apenas acompanharão com o olhar os que cruzarem a faixa final.

 

     Enquanto ainda não estão bufando e raspando com as patas o chão dos boxes esperando ser dada a largada, os competidores desfilam a passo, junto ao alambrado da pista, exibindo suas crinas e suas caudas bem escovadas, com as que procuram seduzir os que os observam. Impacientes, são orientados e controlados por rédeas curtas nas mãos de jóqueis-marqueteiros nem sempre muito hábeis – de vez em quando, vê-se um tropeção, de vez em quando, um coice. Entre os vários pangarés que fazem o mesmo, relincham alguns muares, uma ágil zebra sprinter, uma égua fundista apontada como a favorita e um garanhão milheiro, cujo pedigree caipira supõe atributos de campeão.

 

     Como as apostas ainda não estão fechadas, os palpites dançam ao sabor dos ventos. De repente, acendem-se todos os holofotes. E corre de boca em boca o anúncio de uma “barbada”. Um burburinho abafado acompanha a corrida aos bookmakers. A “barbada” é a zebra, nem branca nem preta, que vai perdendo as listras à medida que as apostas se avolumam, e “deve” ganhar, mesmo que correndo a trote e por fora. Isso, porque sob suas patas ágeis abriria uma suposta 3ª via, nem de grama, nem de areia, nem pesada, nem leve, que ninguém sabe exatamente definir de onde até onde iria ou que diabos poderia significar. Corre um boato, e alguns apostadores o têm como verdade, de que certa escuderia que com ela vem flertando poderá aprontar um forfait. Não surpreende, mas faz que o número de apostas nas patas do milheiro despenque, embora o de placês aumente.

 

     Como de hábito, disputado em sentido anti-horário, será um páreo estranho, esse, com concorrentes pertencentes a categorias tão díspares embora sejam todos de uma mesma família bio-ideológica. Será um páreo muito estranho e complicado. Mas, seja quem for o vencedor, o certo é que ele voltará às baias de seu proprietário tão logo termine a corrida, para um bom banho e um balde cheio de quirera de milho que lhe reporão o frescor e a energia. O que sobrar dessa quirera será levado ao guichê central e rateado entre os que apresentarem as pules premiadas. Porque, inteiro, sabemos que nada mais resta. E as multidões? As multidões tirarão um cochilo enquanto esperam pelo próximo páreo.

 

 

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2º movimento – FREUD E AS CATEDRAIS

 

Getúlio nunca citou o brigadeiro Eduardo Gomes nem foi por ele citado. O mesmo se passara entre o general Dutra e o brigadeiro. O general Juarez Távora fez campanha até raivosa, e Juscelino se ocupou dos seus planos para fazer ‘50 anos em 5’, sem referência direta entre eles. Jânio fez campanha de fortes insinuações contra tudo o que lembrasse o governo Juscelino, representado na candidatura do general Lott, mas nunca o fez de modo explícito e nominal. Ditadura militar por 21 anos é, na cultura política, o mesmo que a demolição acelerada de uma edificação construída durante séculos, como as velhas catedrais.

www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2014/09/1515753-uma-campanha-indigna.shtml    

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     No mundo todo, há tempos que Freud vem explicando tudo. No mundo todo. Se explicou ou não explicou de fato, não importa – explicaria. Menos no Brasil. No Brasil, Freud nada explicará. O que explicará tudo e mais um pouco no Brasil de hoje, de ontem, de sempre é a “ditadura militar”. Essa “ditadura militar” poderá explicar inclusive tudo o que possa ter ocorrido antes mesmo de que fosse introduzida pelos donos das nossas verdades como característica de um período de nossa História recente.

 

     É trágico, mas não deixa de ser divertido, abrir os jornais do País esperando encontrar as notícias mais atuais e comentários a respeito delas, e vê-los pesados, repletos de dramatizações intempestivas e considerações lunáticas a respeito do que teria ocorrido há 30 anos… caso tivesse ocorrido. A tal da “ditadura militar” explicará inclusive a absoluta falta de projetos, propostas e programas dos Partidos políticos todos, o decorrente clima de salão de barbeiro de subúrbio que impera nas campanhas dos candidatos, e, talvez o mais importante, a descompostura, inapropriada ao cargo, que vem sendo exibida por pretendentes à Presidência. Por mais sofisticada que pareça a alguns, se essa explicação tão simplória não decorre de ignorância, só pode decorrer de muita má-fé e muita falta de respeito com o leitor, com o eleitor, com os cidadãos brasileiros. E ela é tão lugar-comum que chega a nos provocar urticária e dor no estômago, tamanha é a consciência que nos assalta de nossa absoluta impotência perante tanta cretinice explícita.

 

     Venhamos e convenhamos: ainda que o período dos Presidentes militares, apelidado pelos poetas, seresteiros e namorados de “ditadura militar”, pudesse explicar alguma coisa que hoje ocorra, justificar, ele não justificaria, exceto os objetivos perseguidos à época que, vê-se, não foram alcançados; além de que, uma vez que combateram idéias, e apenas as idéias que hoje se demonstram na plenitude de sua sordidez, os governos representados por indivíduos que tinham nomes, que passaram pela Presidência entre 1964 e 1985, que não eram “um bando de generais” animando suas “tropas revolucionárias” em uma “republicola” sul-americana qualquer, não explicariam, em absoluto, essa fixação atual em elevar personalidades a ícones do bem e do mal e em exaltá-las ou combatê-las por aquilo que somente elas mesmas pudessem ser e representar. É interessante nos lembrar de que, naqueles 21 anos, foram cinco nomes, ou oito, contando com os do Governo da Junta que assumiu em 1969, em contraste com os cinco nomes, ou seis, contando com o de um vice que substituiu um impichado, que as tão propaladas e celebradas liberdade e democracia nos permitiram experimentar nos últimos 30 anos. O único fator que unia as idéias dos cinco primeiros era consciência de que o Brasil deveria ser colocado acima de tudo.

 

     Os que insistem em continuar combatendo, até hoje, aqueles governos dos Presidentes militares não exibem estatura intelectual e moral sequer para nominá-los. Insistem em chamá-los de “ditadura militar” na exclusiva intenção de se locupletar, se não financeiramente, pelo menos em projeção. Autopromovidos a paladinos das liberdades, apenas tentam desesperadamente reduzir um doloroso embate político, levado ao extremo, que resultou em baixas sofridas em ambas as frentes, a um espetáculo movido pela doce índole emocional de alguns e por deficiências neurológicas de outros indivíduos diretamente envolvidos. Não permitem que o País supere o período porque não lhes convém largar o osso. O que só Freud explicará. Ou nem mesmo Freud explicaria.

 

     Essa tendência a promover campanhas indignas é, pois, tão nova quanto as novas catedrais que são erguidas com areia da praia e quanto a pintura das paredes de algumas outras que, dinamitadas impiedosamente, puderam ter seus alicerces trincados de forma comprometedora desde bem antes de 1988.

 

 

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3º movimento – A IRRACIONALIDADE DO ILÓGICO    

 

A candidata do PSB diz que é vítima de uma ‘indústria de boatos e mentiras’, que tem o objetivo de ‘fazer terrorismo’ com os eleitores. … Emocionada, disse ser quase impossível acreditar que o petista esteja fazendo isso … ‘Quero fazer coisas em favor do que lá atrás aprendi, inclusive com ele [Lula], que a gente não deveria se render à mentira, ao preconceito, e que a esperança iria vencer o medo. Continuo acreditando nessas mesmas coisas’, afirmou. … Desde que subiu nas pesquisas, Marina está sob ataques do PT, partido ao qual foi filiada de 1985 a 2009. … Aliados afirmam que o petista ainda se constrange ao criticar a ex-companheira de partido mas ponderam que a disputa eleitoral é mesmo ‘bastante cruel’.

www1.folha.uol.com.br/poder/2014/09/1515516-marina-chora-ao-falar-de-lula-e-se-diz-injusticada.shtml

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E lá vem Dilma e sua propaganda deformando a cor, a cara, a imagem, a história e as intenções de Marina, adulterada como representante de banqueiros e um perigo para o prato de comida dos pobres. E lá vem João Pedro Stedile, do MST, ameaçando invadir tudo, todo dia, se ela vencer. É a implosão da Marina real e a construção da Marina ‘de direita’. Será que os eleitores brasileiros somos tão imbecis, caímos como patinhos em qualquer lorota? … Se Lula saiu de um casebre do interior de Pernambuco, Marina emergiu de um seringal do Acre. Se Lula fez curso de torneiro mecânico, Marina teve de lavar chão para formar-se em história. Se Lula se tornou o grande líder sindical no Sul Maravilha, Marina impõe-se na órbita do ambientalista Chico Mendes.

www1.folha.uol.com.br/colunas/elianecantanhede/2014/09/1516543-me-engana-que-eu-gosto.shtml

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Dilma está dizendo que a brutalidade é mesmo da natureza do jogo, avaliação que, em larga medida, remete a personagem de agora àquela militante do passado, quando grupos terroristas se organizaram contra a ditadura militar. Ou por outra: não havia, de fato, “coitadinhos” naquele embate. … Dilma pede licença para matar. Nem que seja uma reputação.

veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/dilma-pede-licenca-para-matar-ou-petista-promete-mais-quatro-anos-iguais-aos-ultimos-quatro-se-reeleita-ou-destruir-para-conquistar-conquistar-para-destruir/

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 costura e borda

 

     Conforme sempre digo, e também sempre repito, não porque sinta qualquer prazer mórbido nisso, Osmarina da Silva, a Beata do Xapuri, alçou vôo carregando no bico as intenções de voto de muita gente graças às asas que a mídia lhe emprestou. Ela será “a melhor” candidata a ser levada a administrar o País porque será “a menos pior” – este é o mote da propaganda. A “mais pior” seria "a outra"…

 

     As razões que levam a que seja considerada “a menos pior” pouco importam. Serão porque a ex-seringueira é ainda mais líder e mais santa do que poderia ser líder e santo o ex-torneiro mecânico que a apadrinhou; porque, por tudo isso e mais um pouco, recebeu prêmios da ONU, da ONG internacional WWF, da Sophie Foundation, da Fundação Príncipe Albert II de Mônaco; porque foi citada em The New York Times como "ícone do movimento ambientalista"; porque a Revista Época a incluiu na lista das 100 personalidades mais influentes do Brasil e a BBC Brasil na lista dos 10 brasileiros que foram notícias no mundo; porque cozinhou em forno e fogão, costurou, bordou, lavou, passou a ferro e a fogo; porque, como afirma, vem sendo martirizada pelo PT ou porque seja de fato uma coitadinha. Até mesmo um Reinaldo Azevedo bastante esperto parece que já se deixou cair nesse conto do vigário.

 

     Em suma, Osmarina “deve” ganhar a Presidência porque “deve”. E as razões pouco importam porque não nos devem importar. Cuidemos, pois, para que se mantenha a reputação de Osmarina. E a elejamos caso queiramos ver mais um “coitadinho” no poder.

 marina - empate

 

     A “lógica” que se encontra em escolher ou incitar alguém a escolher o/a “menos pior” candidato/a à Presidência não será a melhor lógica – mas não será, tampouco, a pior ou a “menos pior”. Porque lógica é a expressão da racionalidade e não há qualquer racionalidade em uma escolha desse tipo. Oferecer ao “menos pior” a administração de nosso País, de olhos fechados, de mão beijada, sem acenar com qualquer objetivo estratégico, não é qualquer tática, não é perder uma batalha para ganhar qualquer guerra – é apenas render-se ao inimigo por inércia ou por absoluto vazio mental, é o que pode ser considerado como o mais absolutamente antilógico e contrário à própria natureza da Política (e à da guerra, por suposto). 

 

     Então, por que insistimos nisso, eleição após eleição? Bem, muitos caminhos e muitas razões são os que levam não só a Roma como também ao Planalto Central; mas me arriscaria a dizer que, no caso, uma dessas razões talvez seja a de que, nas Escolas, já nos ensinavam que “deveríamos” escolher entre “o certo” e “o errado” e, para facilitar a escolha, as questões passaram a ser apresentadas com respostas prontas. Sempre haveria aquela que seria “a certa” entre algumas muito erradas, mesmo que, bem ponderados os termos, ela fosse apenas a menos errada. E bastava marcar um X na menos errada que seria possível “acertar”, mesmo que por meio da eliminação das respostas que nos parecessem ainda mais erradas. O que tornava qualquer prova dificilíssima para qualquer um que se atrevesse a pensar um pouco além do que fosse o permitido. Muito provavelmente não só nas Escolas, mas também em casa isso nos seria exigido, pois também nas Escolas se educaram os que nos educaram em casa. E, quanto mais errado o mundo nos parecesse, mais “certo” nos parecia escolher o que fosse menos errado.

 

     Vai daí que por aí fomos, em nosso alegre desprezo por tudo o que pudesse ser minimamente lógico e racional, e chegamos hoje a um ponto em que podemos ouvir que a “questão do clima é complicada porque o mundo é redondo”, ou que “quatro para treze dá sete”, ou que situação em tal ou qual região do mundo exigiria “uma releitura da história repaginada… a nível de continente globalizado” ou que uma das “qualidades” do Brasil é ter “220 povos que falam 180 línguas”… que já não nos espantamos. Porque desistimos de raciocinar. Se podemos escolher, raciocinar não nos fará falta alguma.

 

     É assim como acontece com os filmes que nos são exibidos. Se nossa única intenção for gastar o tempo que temos no cinema comendo pipocas, sempre haverá um filme “menos pior” que mereça a nossa escolha, ainda que, sendo “mais” ou sendo “menos pior”, o que pior será apenas o pior. E vai daí que, permanentemente escolhendo o “menos pior”, esforçando-nos em argumentos mirabolantes para justificar a nós mesmos que o ilógico será lógico – o que, pela lógica, ainda que mínima, será absolutamente injustificável -, não exigindo racionalidade alguma das escolhas que fazemos, pensando apenas em evitar o “mais pior”, o que exige, de fato, alguma arte, o resultado foi que nos habituamos a considerar aceitáveis os comportamentos ilógicos e irracionais. E corremos o risco de nos aprimorar, todos nós, cada vez mais, cada vez mais rapidamente, em demonstrar dessa equação. Porque, eleição após eleição, o “menos pior” se mostra, progressivamente, cada vez menos diferente e cada vez mais próximo do pior.

 

     É que a vida deve imitar a arte?

  

      O filho do...      Marina no cinema 

 

 

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4º movimento – A MÁQUINA, A MATÉRIA E A FORMA

 

     Um vídeo me chega à tela exibindo uma máquina de esmagar e triturar material descartado, tudo e qualquer coisa. E me chega com o seguinte comentário – essa máquina seria “a solução, para o fim dos deputados, senadores, vereadores e a turma do STF !!!” Seria, portanto, “a solução” que poderia ser dada aos candidatos à Presidência da República…

 

     Para alguns, esmagar e triturar os poderosos representantes de nossos Poderes poderia ser o fim adequado a ser dado a todos eles, “a solução”, literalmente, daquilo que alguns outros, que não sabemos quem são, nos ordenam, desde onde ninguém sabe, que consideremos inútil ou pernicioso. Mas, atenção: toda essa matéria de que Deputados, Senadores, Vereadores, Juízes, Prefeitos, Governadores, Presidentes são feitos, por mais sangue e gordura que espirre quando triturada e esmagada, perderá a forma, mas poderá ser, toda ela, imediatamente reciclada. Com esse mesmo lixo tóxico será fabricado, então, o que consideraremos muito útil, que poderemos considerar muito bonito, que não haveremos de querer destruir e até poderemos querer levar para casa… ou enviar ao Planalto Central.

 

     Forma é forma, matéria é matéria. Enquanto não apenas a matéria com que lidamos no Congresso, nos Tribunais e no Executivo, mas a matéria toda com que precisamos contar para que alcancemos a nossa tão desejada "redenção" for porosa, maleável, absorvente, tolerante, poluente, e aceitar manter a mesma presumida utilidade, ela não se prestará a moldar coisa sólida alguma que preste. E nada de novo ou luminoso surgirá em nosso horizonte enquanto o entupirmos de modelos que nos sejam sugeridos desde fora, supostas 1ªs, 2ªs, 3ªs … 10ª vias inclusive, isso pouco importa. Esses modelos mágicos que tanto nos entusiasmam adaptam-se, na prática, por sua natureza inconsistente, ao que há de pior nos velhos modelos, mantidos, na teoria, por doutos senhores que administram casas de farinha onde se fabrica a nossa mentalidade atual. Têm como resultado que desrespeitemos nossa História, que nos desprezemos, que nos estapeemos mútua e constantemente, que definhemos, que nos fragmentemos, que não definamos nossas próprias ambições e não façamos nossas próprias escolhas – ambições e escolhas que, se corretas forem, ou seja, se nos forem adequadas, necessariamente não estarão de acordo com as ambições e as escolhas de ninguém mais. Mesmo porque nada existe de novo nas "novidades" sacadas do bolso da algibeira de quem quer que seja que rumine seus próprios problemas seculares sem conseguir resolvê-los.

 

     Será bastante destruir as formas que imaginamos ser o fator de nossos incômodos e nossos aborrecimentos, de nossos problemas e nossos impedimentos? Não já nos basta termos destruído em nossa inteligência e em nossa consciência a essência da finalidade primordial de todas elas, o para que e o porquê de terem sido criadas, muitas vezes sem ao menos experimentá-las em sua inteireza ou sem tentar esgotá-las? Ou, como “justiceiros” ou assassinos de aluguel, só queremos exterminar alguns indivíduos? Se somos nós mesmos quem elege os Deputados, os Senadores, os Vereadores, os Presidentes, se é nosso Estado quem referenda a “turma” do STF, quem nos garante que nós mesmos já não mergulhamos de cabeça, faz tempo, naquela máquina de triturar e esmagar tudo e qualquer coisa?

 

     Qual seria a moral (ou a “ética”, como alguns preferem), no frigir dos ovos, dessa história toda… e de toda a História – a nossa, inclusive, que é a que nos deveria importar de fato? Democracias, ditaduras, violências, liberdades… Quando nos foi permitido querer compreender que este País é nosso e só nosso deve ser, que ele é diferente, que somente de nós depende colocar essa diferença em nosso benefício? Quando nos foi permitido tentar construir algo sólido e sadio para a nossa coletividade que só nossa é, só nossa deve ser, que somente de nós depende, na qual nós mesmos nos incluímos e ninguém mais? Quando isso nos será permitido?

 

 

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5º movimento – MAIS DO MESMO

 

Uma pergunta bem formulada é aquela em que o professor usa somente as palavras necessárias para expor a questão, vai direto ao assunto, pergunta uma coisa de cada vez, é objetiva, leva o aluno a pensar, a buscar novos caminhos … O uso de exemplos serve para iniciar concretamente um estudo, complementar palestras ou exposições orais, dar oportunidade aos alunos de rever conhecimentos e compará-los em situações reais e treiná-los para aplicar corretamente o que lhes foi explicado. … Sugestões verbalmente conduzidas, materiais visuais, auditivos, ideias emergentes do treinando, por exemplo, constituem eventos e objetos estímulos, e seu interjogo se denomina situação-estímulo. … Ensinar é, fundamentalmente, controlar a situação-estímulo.

www.webartigos.com/artigos/habilidades-do-professor-em-sala-de-aula/20767/

 

quem é o pior

 

      É de arrepiar o couro do mais bem ou mal intencionado de nós a 10ª questão que – a pretexto de provocar uma reflexão a respeito do sofrimento “de um determinado povo” que, no Oriente Médio, encontra-se em permanente conflito com outro povo que ali teria chegado “invadindo, tomando terras, assassinando…” -, ao que nos informam, constava, entre outras tantas de teor nem sequer suspeitado, de uma prova de Geografia que deveria avaliar o discernimento, o saber e a capacidade de raciocínio dos alunos que hoje freqüentam a oitava série do Colégio Andrews (que, aliás, eu mesma freqüentei em tempos menos áridos, os meus, os dele e os de nosso País…). É importante que nos lembremos de que, em média, esses alunos terão uns 13 anos de idade. 

 

     Por ser um bom professor, esse, de Geografia, imprime às suas aulas motivação, atualidade,dinamismo (muito explícitos no desenho que acompanha a questão da prova…) e a “interdisciplinaridade” recomendada por especialistas de renomada reputação internacional. E faz uma pergunta a respeito da História, exigindo que a turma “explique o que é sionismo e a diáspora”, o que deveria fornecer subsídios para que respondessem aos demais itens da questão, que seriam: “que povo mais sofre os impactos das ações de Israel?”; “qual a importância do território no conflito entre judeus e este povo que mais sofre os impactos acima?” e, literalmente, “quem será pior? Judeus ou Nazistas?

 

     Tempo… … … Muito bem, soou a “sineta” da hora do recreio, tempo esgotado.Das duas, uma: ou os alunos estavam muito seguros de qual resposta deveria ser dada à última das questões mencionadas (ter uma opinião formada é outra coisa) por ser a “mais politicamente correta” segundo as convicções do professor, aquele que é uma autoridade e permitirá ou não que “avancem”, que “progridam” na vida etc. etc… ou… uni-du-ni-tê… o escolhido foi…

 

     Por quê? Pois bem, vamos lá. Conforme está posto na prova dada aos alunos, sendo “o pior” os nazistas, “o melhor” serão os judeus. Eles todos, pouco importa quem sejam, onde estejam, que desejem ou que comportamento tenham – seja o que for, seja como for, tudo será “o melhor”. E, se os judeus são “o melhor”, só mesmo os nazistas, que serão “o pior”, poderiam imaginar usar de violência contra algum judeu. Quem usar, será nazista.

 

     Bem, que cada judeu fosse igual a cada judeu pensavam os nazistas. Judeus seriam judeus, ora, e ponto final. Não havendo os mais e os menos judeus, não haveria os mais e os menos inteligentes, os mais e os menos capazes, os mais e os menos corretos, os mais e os menos agressivos, os mais e os menos refinados entre os judeus. Porque não. Ser judeu seria pertencer a determinada “categoria”, implicaria possuir um caráter determinado, impresso pela genética, ter um comportamento determinado, impresso por uma cultura e/ou uma religião específicas, tendências específicas absolutamente diferenciadas daquelas que pudessem ser encontradas nos demais indivíduos da espécie humana. No entender dos nazistas, “os judeus”, por serem judeus, não mais que por isso, atrapalhavam o progresso e a felicidade do povo ariano. Eram “o mal”. E, por isso, deveriam ser confinados, exterminados… Inclusive os que já nem se lembravam de que eram judeus, que acreditavam que fossem alemães, franceses…

 

     Mas, se os alunos nunca ouviram falar em Nazismo ou, já tendo ouvido, apenas puderem situá-lo no tempo e no espaço ou nem mesmo isso, se souberem que Israel vem bombardeando violentamente a faixa de Gaza, se não conhecerem o poder dos mísseis que são lançados nem souberem dos túneis abertos pelo Hamas para provocar o terror em Israel, se não encontrarem razão alguma para que Israel hostilize qualquer um dos seus vizinhos próximos ou distantes e se o sofrimento evidente do povo palestino os sensibilizar profundamente como sensibilizaria qualquer alma presumivelmente piedosa assim como sensibiliza as que estão em nosso Governo… a escolha do que poderia ser “o pior” poderá recair sobre os judeus. “O melhor”, então, será quem? De acordo com o enunciado da questão, se não são os judeus, seriam os palestinos, os muçulmanos, os cristãos, os moicanos, os esquimós, os bolivarianos, os vegetarianos, os corintianos? Não, “o melhor” será um nazista…

 

     E, como não se tratava de uma prova de múltipla escolha, mas sim de uma questão cuja resposta exigiria uma “reflexão”… e como à questão se acrescenta o desenho de dois soldados, ambos com os símbolos de seus Estados no uniforme, ninguém mais, ameaçando, ambos, indefesas crianças, tendo ao fundo alguns escombros… essa resposta poderia ser “são todos iguais – os nazistas, os judeus… tanto faz um como tanto fez qualquer outro, todos eles são a desgraça da Humanidade porque todas as pessoas do mundo devem ser tolerantes e solidárias com todas as pessoas do mundo, porque o Estado é autoritário, é opressor e é terrorista, porque as fronteiras deverão ser eliminadas, porque os exércitos devem ser destroçados, porque as leis são truculentas e impedem as liberdades, porque os homens deverão viver na harmonia característica de sua própria essência primordial blablablá-blablablá… e quem não for tolerante e solidário com o mundo todo é uma ameaça às pacíficas culturas ancestrais, é escravocrata, é invasor de terras indígenas, é um machista, é um porco chauvinista e merece ser condenado, estripado, morto e enterrado”.

 

     Os pais dos alunos do Colégio Andrews, cuja Direção afirma “que este episódio isolado não corresponde nem reflete o sentido pretendido… em seu Projeto Educativo, sempre voltado para a paz e o bom convívio entre os povos”, não foram tolerantes nem solidários com o professor de Geografia. Estariam eles certos? Estariam errados? O Colégio o demitiu. (oglobo.globo.com/sociedade/educacao/colegio-andrews-demite-professor-de-geografia-por-questao-que-compara-judeus-nazistas-13906531)

 

     Convenhamos: o preconceito é uma estupidez, em qualquer de suas manifestações, mas um mundo sem preconceitos é uma utopia. Porque ninguém consegue exterminar a estupidez da face da terra. Em geral, o que se consegue na “luta contra o preconceito” é apenas substituir uma idéia preconceituosa por outra, tão preconceituosa quanto a anterior e talvez mais estúpida, mais cruel, discriminatória, segregativa. Isso quem nos diz é a nossa própria experiência decorrente de uma legislação supostamente anti-preconceito.

 

     Então, o que apenas nos sobra é pensar no seguinte: com quem, caso uma propaganda perversa qualquer não desvie o nosso raciocínio, nós, os brasileiros todos, os que nascemos brasileiros e os de qualquer origem que optamos por ser brasileiros, os que temos o direito de querer nos sentir brasileiros, os que temos nossa história construída entre as fronteiras desse território brasileiro, devemos ser tolerantes e solidários quando o que estiver em jogo for a Política nacional, a interna e a externa, ou seja, quando está em risco não apenas a nossa soberania como a nossa própria preservação e nossa própria sobrevivência? A quem devemos ceder nossa inteligência e nossos recursos para que todos os que precisam (?) se convencer disso se convençam de que nos dedicamos empenhadamente a nos manter sempre voltados para a paz universal? Quem nos quer inermes, tolerantes e solidários? Tolerantes, solidários com quem? Inermes frente a quem? De quem, prioritariamente, nós, um povo formado por indivíduos de todas as origens possíveis e imagináveis, podemos e devemos evitar o sofrimento ao nos dedicarmos ao bom convívio entre os povos? Sobre quem devemos evitar que recaiam os impactos de nossas ações?

 

 

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6º movimento – OS VERDES MUROS DOS JARDINS DA PAZ

 

Série lançada pelo Greenpeace na web traz duras críticas aos presidenciáveis. … Intitulada “Camarim dos candidatos” … os principais candidatos a presidente da República são representados por bonecos articulados. … Dilma Rousseff (PT) vira “Dilma Ruchefa”; Eduardo Campos e Marina Silva são representados por gêmeos xifópagos, chamados “Eduardo dos Campos” e “Marina da Selva”. Já o candidato do PSDB, Aécio Neves, foi rebatizado de “Aécio das Neves”. Na paródia, sobrou até para o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, aqui chamado de “Lola”. … a ONG dedicará parte do programa a criticar a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que … será tratada como ‘crente’, sempre subordinada a Campos, que terá o apelido de ‘zoiúdo’

www.bahiatodahora.com.br/noticias/greenpeace-critica-marina-silva

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     Além de escolher, só algo mais vem sendo preciso: escrachar. Escrachar é preciso, viver não. Portanto, escrachemos. Escandalizemos os espíritos de boa vontade e os de má vontade. Tiremos uma foto do que já está inteiramente degradado ou em irreversível processo de degradação, de tudo o que mostre miséria e imundície no “meio ambiente”. Não nos esqueçamos de nos colocar em primeiro plano e de sorrir. Apesar de tudo, a vida é bela. E haveremos de querer, por certo, mostrar-nos muito bonitos nessa foto, para contrastar com todo o resto. Ou vertamos lágrimas. Elas também são bonitas, refletem à qualquer luz que lhe seja lançada. Em seguida, publiquemos no Facebook

 

     A foto sairá melhor ainda se for tirada de cima do muro. Quanto mais alto for o muro, mais impressionante será a foto. Mesmo que esse não seja exatamente o melhor lugar para tentarmos ajeitar a nossa coluna vertebral na melhor postura, a mais imponente, a mais correta e a menos incômoda, equilibremo-nos e vamos! Não será por toda a vida. Mais dia, menos dia, alguém puxa, alguém empurra, a chuva incomoda, um marimbondo pica, a fome rosna, além de que ninguém consegue se manter por muito tempo sem perceber que, empoleirado a repetir preceitos como um papagaio, estará bancando o paspalho, e pulará. O problema é bem escolher para que lado do muro pular.

 

     Em vez enfrentar tanto risco, o que, aliás, pode ser muito divertido, que tal começarmos a pensar seriamente em dar solução às nossas próprias ilusões e fantasias para que possamos dar solução aos nossos problemas, aqueles que nós podemos resolver? Sejamos conseqüentes; exijamos de nosso "líderes" que nos apresentem projetos conseqüentes, não os que apenas nos pareçam bonitos ou novos – velhos projetos que nos parecem feios poderão se revelar como sendo os mais prementes e mais necessários; exijamos que nos projetem os resultados de suas promessas de palanque quando articulados com o resultado de outros projetos, os deles mesmos, particulares, e os de gente mais poderosa que nós porque é gente que acredita na Política e no Poder; exijamos que projetem e nos enunciem aqueles resultados que nós sentiremos na pele, não os que qualquer "espírito superior" nos cochiche a pé do ouvido como sendo os que devem ser desejados. Para que possamos avaliá-los com a responsabilidade que nos deveria ser exigida por nós mesmos, por ninguém mais. Pensemos em qual poderia ser o elemento capaz de catalisar essa verdadeira mudança, uma mudança de perspectiva e de expectativas – que nada destruiria, porque destruir o indestrutível é impossível e o mal é indestrutível porque a estupidez é inexterminável, portanto o mal só poderá ser controlado ou contornado, mas anularia as perspectivas e as expectativas atuais que provocam, estas, sim, que a nossa Política se transforme nessa gosma fedorenta que nos intoxica, nos dá tombos, nos lambuza, nos quebra as pernas…

 

     Sem que nos preocupemos com coisas que possam nos parecer tão comezinhas quanto essas, que parecem nem sequer merecer nossa preocupação, os projetos e os programas que ouvirmos dos palanques, enunciados por ONGs ou por Empresas comerciais e financeiras, agora, em época de eleição, por Partidos políticos, mesmo por quem tiver pureza na alma e amor no coração, serão apenas "alegres" como o discurso dos bêbados e os sonhos dos visionários; e, tal qual bêbados e visionários, poderemos interpretá-los da maneira como bem entendermos interpretar.

 

     No fundo, no fundo, propostas e programas tão grandiloqüentes, “politicamente corretos”, que nos vêm sendo propagandeados, são nenhum, são apenas incentivos a que continuemos levando adiante uma situação que nos condena a nos satisfazer com xingar a mãe do guarda, com nos expor ao ridículo e com rir das piadas bobocas e de muito mau gosto, quando não produzi-las, a respeito de nós mesmos.

 

     O deboche – e o escracho é nada mais do que deboche – é o meio mais rápido, mais fácil e mais eficaz que podemos encontrar para criticar qualquer coisa e qualquer um. Só não é meio de produzir alguma crítica que de fato sirva para alguma coisa além de… debochar.

 

 

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7º movimento – ASCENSÃO E QUEDA DO INTERESSE COLETIVO

 

As pessoas que o governo Lula tirou da pobreza decidirão com seu voto o resultado das urnas em 5 de outubro … Trata-se de uma classe social de novos consumidores e chave do ponto de vista eleitoral. Seu poder aquisitivo, além de fazer disparar o consumo interno, poderoso motor da economia, revolucionou, na última década, o perfil do brasileiro médio. Este chega à universidade, tem acesso à tecnologia, conta em banco, acesso ao crédito, compra roupas de marcas, investe em um carro, e muitos já têm sua casa própria. … Um conserto em casa ou um gasto mal calculado significa entrar em números vermelhos em um dia a dia no qual não pode pagar quase nada à vista.

eleicoes.uol.com.br/2014/noticias/2014/09/27/el-pais-nova-classe-media-e-chave-nas-eleicoes-presidenciais-do-brasil.htm

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Após 24 anos representando São Paulo no Senado, Eduardo Suplicy (PT) considera sua atividade na Casa digna de Pelé. ‘Se você fosse técnico e Pelé estivesse jogando muito bem, você iria se desfazer dele?’, pergunta.

www1.folha.uol.com.br/poder/2014/09/1523296-se-pele-ainda-jogasse-bem-voce-iria-se-desfazer-dele-pergunta-suplicy.shtml

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O que se diz, em geral, é que a expectativa marinista de governar com bons nomes de qualquer partido, com Serra ao lado de Suplicy, acaba sendo insustentável. Haveria aqui – mais do que nas suas crenças evangélicas – um componente religioso na postulação de Marina. Os homens (e mulheres) de boa vontade, não importando seus compromissos e filiações de classe, podem militar pelo interesse coletivo. Esse tipo de esperança deixa desconfiado todo analista político. Quem quer que tenha passado por um curso de sociologia, ou tenha folheado alguma coisa de Marx, sabe que os interesses de classe falam mais alto do que as intenções de fazer um governo ‘bom para todos’.

www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelocoelho/2014/09/1513307-marina-pros-e-contras.shtml

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      Tentemos compreender não exatamente o argumento, mas a premissa do argumento do último texto acima transcrito, sem entrar em méritos e deméritos de qualquer um dos nomes citados. Qual poderia ser? Só pode ser mais ou menos a seguinte: o Brasil é um País extraordinariamente privilegiado.

 

     Nenhum outro País, mesmo os mais desenvolvidos, já contou com tão grande número de tão bons analistas esportivos, por exemplo, especialmente os dedicados ao esporte das multidões. E, há algum tempo, praticamente todos os bons brasileiros, mesmo que nunca tivessem chutado uma bola, sentiam-se em perfeitas condições de chutar palpites e de substituir, com vantagens, qualquer técnico que pudesse ter sido designado para orientar seu time do coração ou mesmo a nossa Seleção.

 

     Bastou, porém, que o ingresso nas Faculdades fosse ampliado para que, em qualquer delas, pipocassem novas vocações correlatas. E muitos imediatamente compreenderam que uma análise política, que deve ser uma análise crítica, não apenas uma crítica, será de nível superior à análise esportiva e à crítica feita por esporte. Todos os que tiveram a oportunidade de passar por um curso de Sociologia passaram a poder descrever os chutes com mais precisão. Sem o risco de serem apontados como responsáveis por um 7X0, que seria responsabilidade exclusiva da “classe dominante”.

 

     Se ninguém indicou ou procurou ler qualquer compêndio de Sociologia nos cursos de Sociologia, o que por certo foi considerado ultrapassado e desnecessário, saber alguma coisa de Marx foi mais rápido, menos entediante e mais eficaz, pois, além de fornecer suficiente conhecimento “filosófico” – a certeza de um “dever ser” –, animava muito mais a torcida. Algum axilar conhecimento adicional dos títulos dos principais seguidores desse grande mestre que, com a certeza de que “assim seria se assim fosse”, ensinou como levar em ziguezague a bola nos pés à porta do gol – e todos se tornaram especialistas em análise política.

 

     Foi assim que a Sociedade se entupiu de Peters Pans e de Fadas Sininhos a distribuir fartamente o pó de pirlimpimpim, muitas vezes obtido no comércio misturado a outros pós mais pesados, para que milhões pudessem voar à Terra do Nunca e combater com seus dribles o Capitão Gancho da injustiça social. São milhões de revolucionários hoje no Brasil. Porque a boa “filosofia” deve ser revolucionária, e a boa “história”, assim como a chamada “Ciência Política” ensina, revolucionária é. Por quê? Porque é, ora. Porque “deve ser”. O resto é o resto. Inclusive a realidade.

 

     Transformar uma realidade que nos pareça injusta corrigindo seus vícios não será tão difícil assim. Bastará querer e cercar-se das condições de poder. Transformar a realidade em outra realidade, porém, por mais que imaginemos que estamos com a bola toda, ninguém conseguirá, muito menos o conseguirá com elementos só encontrados em um “dever ser”. O “dever ser” é uma utopia, e utopias são ficções, são criações do espírito, são histórias da carochinha para ser contadas do alto dos palanques, mesmo se esses palanques estiverem no bico de uma pena ou no teclado de um computador. E qualquer utopia que parta do pressuposto de que o interesse coletivo não existe, que existirá apenas o interesse “de classe”, será mais ainda que suspeita – caso se afirme como “realizável”, não servirá sequer como indicação a qualquer idéia de combate contra um estado de injustiça social.

 

     Mesmo sem ter freqüentado qualquer curso de Sociologia, qualquer um que some dois com dois e encontre quatro – serão poucos no País em que “quatro para treze dá sete” – há de pelo menos desconfiar não só de que uma “classe” será um coletivo, como também de que qualquer coletivo não terá qualquer vontade, qualquer inteligência ou qualquer comportamento independente da vontade, da inteligência, do comprometimento e do comportamento observados nos indivíduos que o compõem. E desconfiará que o interesse atribuído a uma “classe social”, qualquer uma, apenas poderá ser entendido como o interesse que indivíduos têm em manter ou ampliar o seu grau de fruição dos bens produzidos pela Sociedade (ou os importados…). Poderá desconfiar também de que esse interesse permeia todas as classes, será comum a todas elas; e de que, muito embora os indivíduos o experimentem, as classes sociais não experimentam, jamais, em tempo algum, o fenômeno da ascensão social. Determinadas políticas públicas poderão favorecer o interesse dos indivíduos, o de muitos deles, o de todos eles ou apenas o de alguns, nunca os de uma “classe”.

 

     Em dados momentos, porém, raros momentos, mas são momentos que estão na realidade, será perfeitamente possível perceber que a consciência de cada um de que todos dependem de todos em determinado território fará que um interesse supra-individual induza a coincidência de atitudes de grande parte desses indivíduos. Em determinado sentido. Em benefício do interesse do todo, ou seja, do… interesse coletivo.

 

     Daí a que os indivíduos que se incluam em uma “classe” porque tenham o mesmo grau de fruição ou não-fruição dos bens produzidos pela sociedade, pensem, creiam, queiram a mesma coisa em conjunto e caminhem sempre como um bloco coeso, há um abismo. A menos que tenham sido todos lobotomizados por processos inerentes ao movimento de suas contas bancárias. Que é o que nos autoriza a esperar que um gari que ganhou na loteria comece a pensar, a querer e a se comportar de maneira igual ou semelhante à que pensam, querem e se comportam os que se tornaram igualmente ricos porque cometeram alguma falcatrua? (noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2014/09/23/gari-londrino-ganha-r-175-mi-na-loteria-e-vai-trabalhar-no-dia-seguinte.htm)

 

     Ninguém se “filia” a uma “classe”. Nenhuma “classe” entre as que possamos idealmente fragmentar a Sociedade exigirá “compromissos” de supostos “filiados”. “Classe” é um recurso que utilizamos quando queremos sistematizar alguma coisa, para o que é necessário organizar seus elementos mentalmente. “Classe social” é uma abstração, não existe na realidade. Cada uma das classes em que a Sociedade possa ser dividida poderá ser também dividida em grupos de interesse que por sua vez poderão ser sucessivamente divididos em outros tantos até que, ao tentar dividir mais uma vez, apenas reste o indivíduo. Até Marx sabia disso, embora seus seguidores não façam questão de saber. Os interesses de cada grupo que se observam no interior das “classes”, ainda que sejam primordialmente ou apenas também econômicos, não serão um único, nem mesmo necessariamente serão conflitantes com o interesse de outras “classes”. Mas aí o sistema que possamos tentar montar se complicará muito… será difícil explicar.

 

     Será, então, muito mais fácil enxugar tudo isso em poucos títulos. Para quê? Na maior parte das vezes, para nada. Ou para produzir uma “análise política”. Ou para brincar de fazer “revolução” em nome do interesse de um ente considerado superior a todas e quaisquer organizações sociais efetivamente constituídas na realidade, que será denominado como “a humanidade”. Tanto faz.

 

     Não deixa, pois, de ser muito interessante e divertido observar, da perspectiva sociológica, os “sociólogos” tentando reduzir os conceitos sociológicos ao que encontram nos livros de Marx que costumam folhear nos fins de semana chuvosos e transformá-los em dogma disciplinar. Como somos milhões de “revolucionários de carteirinha”, sobra quase ninguém para contestar. E menos gente ainda para tentar fazer alguma coisa útil, tal como se preocupar com um bom governo, que desperte o interesse coletivo, que governe em benefício do nosso interesse – o dos brasileiros no coletivo.

 

 

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8º movimento – ORGULHOS E PREJUÍZOS – SEM PRECONCEITOS

 

IBOPE data folha 

 

     Há uns tempos, o asco que me assaltava em época de eleições (e nos intervalos entre as eleições) era tamanho, que, apesar de ser absolutamente avessa a qualquer coisa que sequer cheirasse a “apolitismo”, eu sempre anulava meu voto. Esta seria uma postura política válida, de denúncia, acreditava eu. E tenho absoluta certeza de que não foi porque agi dessa forma que o PT ganhou a Presidência por três vezes consecutivas, ou que o PSDB, antes, pôde ganhar por duas.

 

     As razões e os argumentos dos candidatos em campanhas não se alteraram, continuam quase os mesmos, apenas se aperfeiçoaram, e nunca haverá na história deste País situação eleitoral tão medonha quanto a que agora enfrentamos. Mas, se o meu asco a ninguém sensibiliza, talvez nem mais a mim mesma, resolvi equacionar os problemas que saltam aos meus olhos de um jeito diferente. Resolvi também apostar como todo mundo vem apostando. Não em algum “líder” do nada para o coisa nenhuma, não no “menos pior” entre os tantos que se apresentam, mas na única candidatura que me permite manter a esperança – que poderá vencer o medo de ter que enfrentar, em um 2º turno, uma disputa entre a Gorda e a Magra – de que levemos bordoadas mais leves no início de um próximo governo, antes que ele se assente mais confortavelmente, e, menos atordoados, tenhamos a possibilidade de começar a querer pensar em nosso País de maneira mais séria para evitar os mesmos impasses a cada quatro anos. Talvez tenhamos uma pausa na discurseira que entope nossos ouvidos e nos embota o cérebro, e nos ocorra pensar, apesar dos pesares, em tomar vergonha definitivamente; em esboçar para nós mesmos um roteiro menos pastelão, menos bangue-bangue, mais tecido firme e menos paetê, menos sonhático (será que o Houaïss já acrescentou esta palavra?), menos orgulhoso de coisa nenhuma, com mais juízo, mais decente, menos burro… Quem sabe?

 

     Votarei, então, em Aécio. Porque “todo brasileiro tem orgulho de lembrar que um dia teve no poder um presidente como Fernando Henrique Cardoso" como quer certo empresário paulista? Não. Que orgulho poderia sentir ao lembrar que Fernando Henrique Cardoso chegou ao poder? Por que sentiria orgulho? Voto em Aécio porque é quem poderá desarticular o continuísmo daquilo que o PT representa, continuísmo que se dará seja com a Gorda seja com a Magra na Presidência. E porque, conforme reforça essa idéia o “venerável” José Serra, “o PSDB não tem vocação para colocar fogo no País” (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/09/1523376-o-psdb-nao-tem-vocacao-para-colocar-fogo-no-pais-diz-jose-serra.shtml).

 

     A continuar a tendência que essas pesquisas do Ibope e do Datafolha insinuam, talvez… quem sabe? Mas Aécio poderia dar um basta ao processo de exaustão de nossas instituições e de diluição da nacionalidade que o próprio PSDB promoveu, poderia representar o fim da demagogia de “centro-esquerda” cujo espectro abarca todas as agremiações eleitorais exceto as radicais, poderia destruir ou aposentar a máquina que engole e tritura o nosso Estado? Não. Talvez nem avente tal pretensão, herdeiro direto da “virtuosa” escola política do velho Partido Social Democrático que é. Apenas por algum tempo desestabilizará essa máquina, ao desestabilizar alguns dos interesses excessivamente estabilizados daqueles que hoje dela usufruem. Porque esses interesses atuais não terão como se manter amparados sem contar essa máquina ou não terão meios de se justificar. O que não fragilizará as engrenagens articuladas há muitos e muitos anos e muito bem lubrificadas por aqueles que substituíram a soberania nacional pela integração supra-nacional impondo-nos a ditadura do pensamento “politicamente correto”, os que adubaram essa histeria contra o Estado nacional que hoje se vê, que não permite que ele se ponha bem constituído e bem regrado, e apenas se preste a distribuir nossos recursos que são esbanjados conforme os delírios dos governos A ou B ou C determinem que sejam.

 

     Em uma breve e pequena brecha, aberta pela cessação da efervescência do conflito das diferentes vertentes do “politicamente correto”, residirá a oportunidade que nos poderá ser oferecida. Teríamos uma oportunidade para tomar de assalto o Estado? Não, nada disso – esse Estado já quase nem existe. Sabemos que não suportará golpes de qualquer espécie. De consagrar alguma liderança consistente? Quem? Com que projeto? Apenas a oportunidade de começar a querer pensar em nosso Estado com certa autonomia, com certa racionalidade sadia. E quando a gente começa a fazer isso, é difícil querer parar… porque a gente vê resultados. Resultados muito gratificantes.

 

     Mas, e se, no 2º turno, a disputa se der, mesmo, entre a Gorda e a Magra?

 

      Nesse caso, nem uma nem outra terá o meu voto. O meu, não. Nem que a vaca tussa. Nem que dos céus caiam relâmpagos de ira santa. Porque nem sequer uma troca dos seis por aquela meia dúzia será feita. E não estou falando de indivíduos, não – estou falando de perspectivas, de idéias, de expectativas. Retrocedo porque me tenho apreço. Porque não faço escolhas com o fígado nem com o coração – faço-as exclusivamente com a minha cabeça. E porque asco tem limite, mas tolerância também tem. Se não, a tolerância se transforma em cumplicidade. Porque – conforme já havia dito o Vinícius de Moraes, muitos e muitos anos antes que outro agora o pudesse plagiar e já prevendo que “uns anos mais” neste nosso País se veriam “cem milhões só de Pelés e de violões“ – “eu não tenho nada a ver com isso” e muito menos quero ter. O meu grau de civilização, que não deve ser o “menos pior” (entenda isso como queira quem quiser entender), não me permite ceder a essa cumplicidade. Porque, se Rousseff passou muito da conta, esbanjou asnices, Osmarina promete conseguir sobejá-la, portanto, é demais. Porque, se ninguém, entre os que poderiam tomar, toma qualquer providência contra tudo isso, é que, estando “menos pior” o que poderia estar pior, estará tudo muito bom para todo mundo. Então, para que votar? Apenas para que mais um voto justifique a justificativa do injustificável? Não voto, não. E essa postura política, que é válida, poderá inclusive ser compreendida como sendo a mais elegante, “pro-ativa” e democrática possível, de adesão integral à vontade e às expectativas de nossa maioria quase absoluta…

 

      Ou não?

 

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      Acordes finais  riten. pianissimo

      Da capo

 

 

  

 

 

 

 

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FALANDO SÉRIO

31-08-2014
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

DE COISAS POUCO SÉRIAS E DE COISAS MUITO SÉRIAS QUE ACONTECEM E QUE NÃO ACONTECEM DURANTE A CAMPANHA PARA AS PRÓXIMAS ELEIÇÕES

 

 

 

 

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O gato preto cruzou a estrada, passou por debaixo da escada… Bailam corujas e pirilampos entre os sacis e as fadas. E, lá no fundo azul, na noite da floresta, a Lua iluminou a dança, a roda, a festa.” – “O Vira” de João Ricardo & Luli (Secos e Molhados).

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      É fim de semana, eu bem sei disso, fazer nada é muito bom, descansar é preciso, também disso estou sabendo, mas peço licença, muitas desculpas e me atrevo a me intrometer nisso tudo com mais um texto muito longo e indigesto que só interessará a quem sabe que viver também é preciso e que viver é lutar – inclusive nos sábados, nos domingos e nos feriados. Porque o tempo é muito curto e muito rápido.

 

      Muito bem, vamos lá. Vamos em frente, porque depois de nós virá muita gente.

 

      Por mais criativos que sejamos – e a criatividade bem que nos pode ser útil em alguns momentos, mas não em todos e qualquer um – para que possamos refletir seriamente em alguma coisa é preciso que essa coisa esteja bem fincada na realidade ou com ela tenha algum vínculo. Caso contrário não produziremos qualquer raciocínio útil, muito menos produziremos algum raciocínio político útil – produziremos emoções, inventaremos histórias, brincaremos de faz de conta, daremos asas a nossas fantasias sem perceber que, por vezes, passando de certos limites, elas se transformam em alucinações. Por outro lado, é fato notório, e faz tempo que esse fato se vem comprovando, que nós, o povo brasileiro de todas as regiões e de todos os níveis sociais, sofremos de uma inexplicável e visceral atração por coisas muito estranhas, racionalmente inexplicáveis. Conforme sempre digo, somos apenas aprendizes, uma vez que de nada somos precursores, e, assim, é bem provável que essa seja uma tendência “antipolítica” (?) radical ocidental à qual aderimos de alegres. Mas o fato é que, especialmente em certos guetos considerados iluminados, aceitar a realidade sempre nos foi muito difícil – quase que a rejeitamos por completo, como se, com isso, ela se pudesse resolver. E, não mantendo os pés no chão, freqüentemente nos lançamos a vôos imaginários fantásticos para, em seguida, verificar que teriam sido apenas mais um tropeço que resultou em mais um tombo.

 

      Mesmo assim, não perdemos a mania insana, suicida, de flertar com espectros que imaginamos mover-se à sombra das árvores em noite de Lua nova, ouvimos no barulho do vento nas folhas e nas frestas das vidraças velhas fórmulas “mágicas” sussurradas como se fossem também muito novas, inclusive aquelas, muito perversas, que nos incitam a manter a fé na “força do pensamento positivo”. A esses espectros emprestamos existência real e empenhamos a alma acreditando que sejam capazes de esconjurar nossas mazelas. Muito embora sejamos plenamente capazes de ver que, à luz do dia, eles desaparecem e não são capazes dar solução a qualquer problema real, faz tempo que somos absolutamente incapazes de agir e de reagir como adultos bem equilibrados, de avaliar a dimensão e a gravidade de qualquer transtorno que porventura nos ameace, de tentar resolvê-lo, nós mesmos, com consciência, e de assumir responsabilidades. Mas nos iludimos porque queremos nos iludir.

 

      Estamos às vésperas de uma eleição para a Presidência da República. A campanha de todos os candidatos rola em torno de uma única palavra: “mudanças”. Expressa ou veladamente, inclusive a dos absolutamente inexpressivos em termos de eleitorado, sem qualquer chance de vitória – que, nas atuais circunstâncias mais atrapalham do que ajudam e que, se propostas razoáveis enunciam, mais e melhor fariam se pretendessem um cargo legislativo. E a disputa real se dá entre três nomes, apontados por seus Partidos e apoiados por outros tantos que têm, cada qual, seu próprio programa, bem feito ou mal feito, minimamente pertinente ou não às nossas necessidades, tanto faz. Todos os candidatos “querem mudanças”. De que para que exatamente seriam essas mudanças, pouco nos importa, não sabemos e temos raiva de quem sabe – nós todos também “queremos mudanças”. Até parece que assistimos a uma propaganda comercial da Lusitana, a que roda enquanto o mundo gira. À palavra “mudanças” – que substituiu no imaginário de alguns setores aquela outra, “revolução”, que também a muitos de nós parecia mágica – atribui-se o dom de produzir algum milagre também por efeito dela mesma, a palavra, nada mais.

 

      O importante agora e sempre será escolher em quem votar “sem errar”. Desde que, porém, “respeitando a vontade do povo brasileiro”, ou seja, de acordo com nossas tendências visionárias e místicas, passou a constar necessariamente do currículo exigido dos candidatos a sua fé de mais ou a sua fé de menos em forças sobrenaturais, sejam elas quais forem, do curupira aos deuses da Babilônia, até o mais descrente dos descrentes dirá ao povo que apenas dessas forças depende o nosso futuro, futuro esse que também só a elas pertence. Com o que a responsabilidade dos dirigentes eleitos e também a dos eleitores desaparecem por completo do rol das variáveis a considerar.  

 

      Alguns dias depois do acidente ocorrido em Santos, já no dia 18, eu comentava no facebook que o mais interessante naquele momento estava sendo acompanhar o processo de canonização do neto de Arraes imediatamente desencadeado pela mídia após sua morte, da qual seria beneficiária uma Marina Silva declaradamente evangélica já então travestida por seus asseclas de virgem vestal encarregada de manter um fogo sagrado. Esse processo se desenrolava apresentando não milagres já realizados, mas aqueles que o teriam sido caso aquele que se colocava como azarão no páreo, o 3º colocado nas pesquisas, conseguisse fazer o também milagre, em benefício próprio, de ser eleito. E houvesse “histórias do se” para embalar os crentes.

 

      Uma tendência à divinização dos azares do cotidiano, tanto dos extraordinários quanto dos mais que corriqueiros, observa-se em todas as campanhas atuais, mas com muito mais ênfase e eficácia na insistente, aliás, a bem dizer “tradicional” campanha de Marina Silva em prol de si mesma, desde sempre desvinculada dos programas das legendas nas quais encosta e, agora, adequada à sua reiterada tentativa de alcançar a Presidência. A candidata, cuja personalidade bastante complicada sem ser intrigante já tive a pachorra de comentar (www.minhatrincheira.com.br/os-ungidos-e-seus-rebanhos/), ao que tudo indica depois de conversar com seus assessores, os gênios das florestas do mundo inteiro, saiu-se, durante o velório de Eduardo Campos, com esta pérola: “Essas coisas acontecem em nome de algo maior” (www.brasil247.com/pt/247/brasil/150449/Marina-essas-coisas-acontecem-em-nome-de-algo-maior.htm).

 

      Nessa mesma linha, um texto mais recente na Folha de S.Paulo graciosamente pontificou: “há semelhanças entre Marina Silva e Itamar Franco, que, contrariando expectativas, se tornou o homem certo na hora certa. Não só Deus, também a história e a política muitas vezes escrevem certo por linhas tortas.” (www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/182153-itamarina.shtml). Com o que tudo já estará resolvido. Para que nos preocupar? Com quê? O nosso destino se encontra escrito nas estrelas… Às vezes, quem as lê se engana na leitura, mas… Que o resto seja também apenas festa.

 

      O patusco fenômeno também podia ser encontrado em alguns comentários contrários à eleição da candidata, que apenas lamentavam a morte de Eduardo Campos porque este teria sido o candidato mais iluminado, o único adequado a resolver nossos problemas todos. Na mesma Folha de S.Paulo, um texto lamentoso nos dizia que “Campos reunia em si traços de ambas as facções [PT e PSDB]. Era um gestor moderno, capaz de dialogar com o empresariado sem tratá-lo como ladrão e, também, pela própria herança familiar, um político tocado pela desigualdade social. … Marina é uma incógnita. Fora Deus, não tenho ideia de que alianças faria. É uma terceira via arriscada, por demais radical. Em nome do que os Arraes representaram, ou poderiam representar para o país, a Rede, o PSB, o PT e o PSDB bem que podiam ter a coragem de promover uma aproximação partidária. A ausência trágica de Campos deveria contribuir para livrar o debate do revanchismo. Isso sim, seria uma mudança importante, uma grande virada política. A prova de que os vermes não nos corroem em vão.” (www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/181757-os-vermes.shtml). Muito bem. Se Campos fosse eleito, teríamos a conciliação. Mais conciliação. Conciliação de que com quê? Ou de quem com quem? Dos radicais ladrões de cavalos com os xerifes radicais? Das trapalhadas com as marmeladas? Para quê? Para que a gosma que hoje define a Política nacional continuasse sendo mais esparramada? Em benefício de quê? Em benefício de quem? Por que não criamos, então, um Partido único?

 

      O resultado do IBOPE, recém divulgado, e o do Datafolha, ainda mais recente, refletem muito bem a patuscada. E sejamos justos com os que identificamos como nossos adversários: realmente, conforme nos diz um artigo recente de Josias de Souza (josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2014/08/26/tese-de-que-comocao-impulsiona-marina-e-falsa/), Marina não “sobe graças à comoção que a morte de seu ex-companheiro de chapa ateou no eleitorado“. Não, mesmo. Marina alça vôo com as asas que a mídia lhe empresta. Comovido ou não comovido, o eleitorado supersticioso de Marina, de alta ou baixa renda, educado na “doutrina que se caracteriza por privilegiar a importância ética, psicológica ou metafísica da vontade em relação às disposições intelectuais humanas” que, segundo as palavras de um dicionário, resume-se na palavra “voluntarismo”, apenas aposta na farelice mágica que teria o poder de espantar qualquer mau-olhado. Voluntarismo não é sinônimo de força de vontade, que permite que superemos nossos vícios, e não se confunde com qualquer virtude. Mas explica por que foi possível à candidata declamar com sua vozinha estridente em palanque televisivo um poema composto a respeito das eleições de 2010, quando se colocou em 3º lugar no Acre, onde se lançou na Política:  “É muito difícil ser profeta em sua própria terra” … “Não fui filha de políticos tradicionais, nem de empresários. Não tinha condições de pagar rádios, mídias para que falassem bem de mim” … “Não é culpa dos acrianos é culpa das circunstâncias” (www.infomoney.com.br/mercados/eleicoes/noticia/3543898/jornal-nacional-marina-silva-fala-sobre-divergencias-com-vice-explica).

 

      A imagem franzina Marina dificilmente sugeriria a de uma profetiza dos caminhos que levam à Terra Prometida – mas só lhe falta à campanha uma foto com suas echarpes esvoaçando ao vento e um cajado na mão; e não só a população ignorante compra a idéia de que as águas turvas que nos hoje afogam serão obedientes e se afastarão a um virtuoso gesto seu, como grande parte da “intelectualidade” semiletrada nacional, hábil construtora de mitos, dos locutores de noticiários no rádio e na TV aos analistas políticos nos grandes jornais, dos provectos entrevistadores aos animadores de auditório, além de boa parte dos nossos atores, cantores, humoristas, escritores e até mesmo um astronauta… adotou-a como filha dileta, acalanta-a no colo, exibe-a como o Rei Leão exibiu seu pimpolho aos habitantes da selva e dela tem falado é muito, e muito bem. Dessa forma, não espanta que se tenha criado “um clima de quase favoritismo da candidata do PSB que está refletido na alta do Ibovespa nos últimos dias. Assim, o mercado está “comprando” a candidatura de Marina apesar do seu passado petista e de esquerda, das dificuldades que teria para formar uma base de apoio parlamentar como presidente e de possíveis conflitos entre sua postura ambiental e os interesses do agronegócio e o andamento mais célere dos projetos de infraestrutura e energia” (blogs.estadao.com.br/fernando-dantas/por-que-o-mercado-comprou-marina/)  

 

      “Coisas acontecem”, sim, mas nem sempre e não necessariamente “em nome de algo maior”. Nem mesmo “algo maior” será necessariamente algo novo ou, muito menos, algo melhor. Eduardo Campos não estava em um real campo de batalha como os que os Soldados enfrentam, nas guerras cruentas entre os Estados. Esses, sim, podem alegar que morrem para nos salvar, porque, pondo em risco suas próprias vidas, buscam – ou crêem buscar – garantir a liberdade de seus povos contra aqueles que os querem submeter. Nada nos diz, porém, muito menos algo nos confirma que a morte de Campos terá acontecido em nome de coisa maior, melhor ou diferente. Campos morreu porque morreu, e, para que alguém morra, basta que esteja vivo; Campos não se deixou morrer para nos redimir como se ele mesmo acreditasse que sua morte pudesse ser redentora. E, quando vivo, não poderíamos saber como teria sido o seu governo, caso, em uma hipótese remota, fosse eleito. Qualquer especulação seria mera especulação. O mesmo podemos dizer a respeito “do que os Arraes representaram, ou poderiam representar para o país”. Que teria sido, além da agitação provocada pelo avô do candidato falecido, que pôde, esta sim, ser observada e conferida, e, assim, pôde ser controlada?

 

      Morto Campos, a única “coisa” que “aconteceu” na realidade além de sua morte foi que seu nome viu-se imediatamente substituído como representante de uma sigla partidária cujo “programa” já era mais que suspeito. Foi substituído por Marina, ex-seringueira, ex-sindicalista, que entrou no PT quando quis candidatar-se a cargo público, e depois saiu do PT; que entrou no PV e depois, para criar a sua própria legenda sob a qual os que a acompanhavam nesse movimento estariam “todos juntos … com pessoas de outros partidos, com pessoas de nenhum partido“,  saiu do PV, afirmando que era “hora de ser ‘sonhático’”, não mais “de ser pragmático” (g1.globo.com/politica/noticia/2011/07/nao-e-hora-de-ser-pragmatico-diz-marina-silva-ao-anunciar-saida-do-pv.html); que, não o conseguindo, conchavou com o PSB e hoje vem sendo exposta nas vitrines das boas lojas do ramo e nos tabuleiros dos camelôs como máximo ícone tupiniquim da aversão à Política. E Marina pôde nos dizer que “coisas acontecem” bem sabendo do que bem sabemos todos nós: que a mídia, sempre se querendo fazer de “providência divina”, esforça-se ao máximo para que determinadas coisas aconteçam e outras não.

 

      E a única “coisa” que, na realidade, “aconteceu” com Marina Silva, que filiando-se ao PSB não conseguiu, por esse expediente, ser indicada como cabeça de chapa, foi ter ela recebido um golpe do acaso – com ele, galgou, naturalmente, a uma candidatura à Presidência da República, nada mais. Não por ser a pessoa certa que, no momento certo, estivesse no lugar certo, mas apenas por puro acaso. Isso na realidade.

 

      Na realidade, também, a candidata que Zé Dirceu aponta como sendo “Lula de saias”; que substitui a expressão velhaca e desgastada do “nosso timoneiro” por um ar de ingenuidade que, somado à sua silhueta delgada e ao seu coquinho, faz que mais se assemelhe à Olívia Palito das histórias em quadrinhos criadas para nos distrair; cujas frases “carismáticas” parecem inspirar-se exatamente naquelas típicas do marinheiro Popeye (os nossos vizinhos dirão “marinero”) – “Eu sou o que sou e isso é tudo o que eu sou!“, “Sou forte até o fim com espinafre pra mim!“, “Já agüentei o que pude, não agüento mais!“…; que promete levar a desfilar nas passarelas do País inteiro as “novas” criações de pessoas (que serão mais importantes que as instituições) tais como Erundina, Eduardo Suplicy, Pedro Simões, Eduardo Gianetti, André Lara Resende e outros tantos estilistas do mesmo calado; que é incapaz de coincidir em qualquer consideração a respeito de qualquer assunto com seu próprio companheiro de chapa, o candidato a vice (www.infomoney.com.br/mercados/eleicoes/noticia/3543898/jornal-nacional-marina-silva-fala-sobre-divergencias-com-vice-explica); que assustava e agora “tranqüiliza” e “conforta” o mercado (politica.estadao.com.br/noticias/geral,delgado-linha-economica-de-marina-confortara-mercado,1551705) … continua sendo a mesma Marina Silva de sempre, com o mesmo discurso descoordenado, atada aos seus mesmos projetos pseudo-universais e aos seus mesmos compromissos internacionais que caracterizaram suas campanhas anteriores a cargos menores. Nada maior, nada melhor, nada diferente. 

 

     Se a híbrida candidata nos diz que “não desiste do Brasil”, não desistirá porque de repente compreende o que seja de fato aquilo com o que está pretendendo lidar ou porque mantém as mesmas ambições, as mesmas pretensões e as mesmas razões que a fizeram pular de galho em galho durante sua vida pública conforme suas próprias conveniências (e a de misteriosas forças do universo, em sentido estrito e amplo), e a fizeram candidatar-se das outras vezes e também desta vez, dependurando-se sucessivamente em diferentes Partidos políticos com os quais sempre conflitou, pois o seu Partido de fato é o “Partido de Marina”, nenhum outro? Ela não desiste do Brasil ou não admite que o Brasil desista dela?

 

      Aceitar a realidade é algo muito difícil para a maioria das pessoas de muito boa vontade. Muito mais fácil será aceitar a fantasia. Na fantasia, o reflexo dos atributos de Marina serão outros, bem outros quinhentos mil réis. Marina, que é mulher, é mestiça, é simpatizante de tendências libertárias, é eco-participativa, que só na adolescência superou o analfabetismo, que deu a volta por cima da pobreza e dos problemas de saúde, que cultiva um olhar duro e firme ao mesmo tempo que seu físico dá impressão de fragilidade e evoca o sofrimentos dos mártires, que é capaz de ser flagrada em sorrisos abertos exibindo dentes impecáveis, que é temente ao Criador, e, segundo suas próprias confissões públicas, foi iluminada por algo como um relâmpago que apareceu em sua mente, reunirá em sua única pessoa tudo o que de mais puro e mais bem intencionado poder-se-ia reunir. Para quem gosta criar, de representar e de acompanhar novelas, Marina será o modelo perfeito de heroína – idealista, proba, desambiciosa, generosa. Pouco importará que a herdeira de um grande Banco (Neca Setúbal – Itaú) seja uma das principais doadoras de um Instituto, registrado em nome da candidata, que lhe permite faturar algo como R$ 41 mil mensais que empresas e entidades diversas investem em suas palestras tão esclarecedoras (“Em 2014, por causa das eleições, Marina assinou só um contrato de R$ 132,6 mil para apresentações em quatro países da América do Sul” – www1.folha.uol.com.br/poder/2014/08/1508623-marina-ganhou-r-16-milhoes-com-palestras-em-tres-anos.shtml). O noticiário diário preencherá as lacunas decorrentes do desinteresse generalizado pela Política não só acentuando a violência cotidiana que atribuirá à revolta e ao ódio generalizados da população contra tudo e contra todos como também destacando as bravatas da candidata. Apostando todas as suas fichas no 40-vermelho, induz a população a escolher o candidato mais vermelho. E, assim, a vitória-régia que pretende florescer em todas as águas tumultuadas e furiosas do território nacional lança raízes das praias às montanhas, do Sertão até os Pampas. O resultado disso, a lógica tostines se encarrega de explicar: Marina será a mais badalada porque é a preferida e será a preferida porque é a mais badalada.

 

      Mas, apesar de que aceitar a realidade seja algo muito difícil para a maioria das pessoas de muito boa vontade, entre todas essas “coisas” que “acontecem” e outras que não acontecem, de algumas poucas podemos ter, ainda, alguma certeza:

 

      1. a de que não temos a mais mínima idéia de que País teremos seja quem for o eleito em Outubro. E não teremos como e com que comparar porque não sabemos que País queremos. Talvez saibamos o que não queremos, um que seja padrão Burundi, tudo bem, mas até disso eu duvido. Pois nossa cultura vem sendo jogada às baratas, com nossa aquiescência, todos os dias, cada dia mais um pouco, em benefício do que mais incivilizado e rudimentar existe sobre a face da Terra. Nem sequer a nossa linguagem soubemos ou queremos preservar (e alguém já comentou: “até as letras nós deixamos que nos sejam roubadas!” – cf. educacao.uol.com.br/noticias/2014/08/20/senado-discute-fim-do-c-ch-e-ss-na-lingua-portuguesa.htm);

 

      2. a de que as manifestações de rua que foram conclamadas, com todo o transtorno que provocaram, não resultaram em qualquer organização além daquela que as conclamou. Quem estava clamando por “mudanças” não conseguiu ver realizada uma única sequer. Porque mudanças que nos sejam adequadas e úteis apenas se realizarão com muita organização, elas exigem estrutura, não desestrutura, não gritaria, desaforos e vandalismo, exigem esclarecimento e serenidade, implicam a promoção de um debate constante inteligentemente pautado para que não nos transformemos em massa de manobra de mal intencionados;

 

      3. a de que o Brasil não é um Estado que tenha nascido por combustão espontânea – ele tem uma história que precisamos respeitar. Ele não é o nosso quintal nem é o quintal de seja lá quem for, e, não o sendo, não poderá prosseguir sendo administrado como se fosse um acampamento cigano, uma taba indígena, uma província da tal América Latina inventada pelo “realismo fantástico”, um município ou um subúrbio do “mundo globalizado”; é um País que conta com milhões de analfabetos e outros milhões de semiletrados – não poderá, pois, ter privilégios e negócios escusos particulares e/ou públicos ou compromissos com interesses comerciais e econômico-financeiros supranacionais legitimados através de plebiscitos freqüentes só porque uma democracia direta alguma vez foi experimentada por poucos cidadãos muito bem formados da antiga Grécia e a consideramos muito bonita;

 

      4. a de que o Brasil é um Estado Nacional em um mundo essencialmente político composto por Estados Nacionais. Deve exibir e exercer a sua soberania como os demais a exibem e exercem – em questões eminentemente políticas, não nas de compadrio; tem instituições que precisam ser fortalecidas, não adaptadas, não atamancadas; deve cuidar para que a Educação eleve de fato cada vez mais o maior número de cidadãos, não nivelando todos no mais baixo grau de cada um, ainda que isso nos possa parecer mais tolerante e muito democrático, e não obrigando a que as crianças do meio urbano se mantenham em regime de semi-internato sem necessidade, vulneráveis a uma catequese municipalista ou ainda mais obtusa, enquanto as do meio rural ou não têm Escolas ou a têm para aprender como invadir propriedades; deve cuidar para que a Saúde seja levada a sério com medidas saneadoras dos rios, das praias, dos bairros clandestinos e dos demais  espaços públicos, com enfermagem de qualidade, hospitais bem equipados e pesquisa bem orientada além de médicos bem formados, não apenas supostamente dedicados ou carinhosos. O Brasil tem um território repleto de recursos naturais e culturais que clama por infraestrutura adequada, que deve ser defendido com unhas e dentes por suas Forças Armadas, que estão em petição de miséria, que está repleto de recursos humanos, indivíduos que deverão ter segurança suficiente oferecida por uma Polícia bem educada mas também muito bem equipada para que os brasileiros possam transitar livremente por esse território, não apenas os narcotraficantes, os guerrilheiros vizinhos e os “embaixadores da paz”. Ele é o nosso Estado, a casa primordial de nossa gente, e todos e cada um de nós devemos tentar salvá-lo das garras dos que manifestam objetivos alheios a nós mesmos, ainda que possam alegar compromissos com uma supostamente “nova” e “mais correta” ética universal que regeria uma desejável governança mundial supostamente impoluta;

 

      5. a de que tudo isso nos é necessário. Por quê? Porque não temos alternativa. Este é o único pedaço que de fato e de direito nos pertence, onde poderemos ter nossos direitos de fato garantidos. O resto do mundo já foi loteado, cada parcela tem seu dono e todas elas são muito bem guardadas contra os que possam ser seus eventuais inimigos e não exatamente para o desfrute irresponsável dos eventuais “amigos”. Ou ninguém mais quer saber do que se passa lá fora? Esta também é a realidade, por menos bonita ou menos justa que ela nos pareça. E, por mais parlapatões que possamos ser, não teremos, jamais, poder capaz de alterá-la;

 

      6. a de que, sendo ou não sendo uma verdade absoluta (o que, de verdade, não vem absolutamente ao caso) que o futuro depende de uma escrita prévia de “Deus”, ou da “História” ou até mesmo da “Política”, que esse futuro depende de quem “escreve certo por linhas tortas”, que se faz conforme uma vontade ignota e superior a tudo e a todos que solenemente dispensará nossos cuidados (tal como nos sugere a moça que assina o artigo citado no começo disto aqui), se desejamos fazer parte de algum futuro ou mesmo apenas gozar de algum futuro que nos possa ser concedido, será preciso procurar programá-lo e saber lidar com ele, ou seja, procurar saber como administrar os imprevistos da melhor forma.

 

      Então, pensemos um pouco: com a reeleição de Rousseff que “coisa” poderá “acontecer”? Que “mudará”? Nada. Aprofundar-se-ão as condições que nos estão impostas e a “mudança” será apenas de grau. E a eleição de Aécio, que “coisa” a eleição de Aécio faria “acontecer”? Que “mudaria”?  

 

      Utilizando uma analogia com o que inspira as metáforas tão ao gosto daquele que inventou que Rousseff era uma estadista, colocando-a na função de “guardar o lugar” que o bolivarianismo lhe poderá garantir perpetuamente a partir de 2018, aquele mesmo que Marina até hoje chama de “presidente”, diria eu que se alteraria a composição do time que entrasse em campo, apesar de que seja um time que já tão bem conhecemos. Não mudaria o País, nem o povo, nem a ganância dos gananciosos, nem as regras do jogo já determinadas pelo Congresso, portanto, não mudaria muita coisa. Não estou falando de Aécio, do caráter de Aécio, das idéias de Aécio, da família de Aécio – não conheço Aécio, o indivíduo, nem me importará conhecer. Porque Aécio não nos poderá governar sozinho. O Partido pelo qual Aécio se elegerá é exatamente aquele que facilitou, com sua própria irresponsabilidade e sua própria demagogia, por oito longos anos, as condições para que atingíssemos o deplorável estado atual da Política nacional. O vice de Aécio é tão ex-terrorista quanto Rousseff e Dirceu. As alianças do PSDB, assim como as das demais agremiações que lançaram seus candidatos, são realizadas com os mesmos Partidos e os mesmos indivíduos que os compõem, os que já determinam hoje os rumos da Política nacional. Fosse ele sério de fato, composto apenas por indivíduos de fato sérios, teria um programa sério, faria gestões sérias e o País já teria tido a chance de hoje ser bem diferente. E nessa realidade se fazem as promessas eleitorais.

 

      A eleição de Aécio nos permitirá, porém, um tempo. Porque o atropelado processo que nos vem acumulando apenas perdas sobre perdas, fracassos sobre fracassos, há muito desencadeado, há de interromper-se por um breve intervalo, há de fazer uma pausa para se rearticular e se reabastecer. E tudo aquilo de que mais precisamos hoje é de tempo. De que forma o aproveitaremos? Isso depende apenas de nós. Não temos, mas se tivéssemos algum poder de fato, poderíamos exigir, tão logo o novo time respirasse um pouco após a corrida das eleições, que ele tirasse fora as suas e recolhesse as nossas camisas cor “de burro quando foge” já encharcadas de nossos sangue, suor e lágrimas tão inutilmente desperdiçados na arquibancada, e não só vestisse como começasse a distribuir a todos uma camisa limpa, verde-e-amarela de verdade, sem manchas negras, vermelhas, marrons de lama ou seja lá de que estranha cor fossem essas manchas porque manchas são. Mas, desde que, aproveitando o calor pós-eleitoral, continuássemos a nossa campanha – não meramente em louvor ao que os Neves representam ou “poderiam representar para o país”, não mais a dos candidatos eleitos ou derrotados, não a serviço de agremiações profissionais eleitorais, suas lideranças, suas idéias loucas ou inconsistentes, suas vaidades e seus interesses particulares, não em benefício de corporações ou especialíssimas “comunidades”, procurando mais e mais nos esclarecer das nossas reais necessidades, do efetivo potencial e das possibilidades reais de nosso País, assim como dos seus reais impedimentos – e desde que nos empenhássemos em nos organizar em nosso efetivo benefício, o que já deveríamos ter tratado de fazer desde sempre, estaríamos produzindo um salto de qualidade em nosso afã político. Desde que nos organizando, insisto, sob condições e interesses efetivamente nacionais com um mínimo de articulação necessária. 

 

      Por isso, não mais que por isso, para os mais pretensamente lúcidos de nós, eleger Aécio Neves parece ser o único caminho que nos permite a esperança, ainda que pequena, de obtermos um País diferente e melhor. Porque os compromissos assumidos pelo Governo dos que eventualmente retornarem a Brasília serão necessariamente outros; porque, mesmo não sendo os ideais, serão diferentes dos que agora nos vêm levando a um mergulho fatal ao fundo do poço em velocidade vertiginosa; porque, alinhavados nas promessas de bastidores, ainda não terão sido bem costurados, e porque teremos oportunidade de discutir seus resultados com efetiva seriedade, com efetiva profundidade. A eleição de Aécio é a única “coisa” que, “acontecendo”, nos permitirá manter, por algum tempo mais, alguma esperança de poder mudar os rumos que o País tomou nos últimos anos, que só nos conduzem ao nada – o que nos será negado caso Rousseff, a autoritária candidata dos “companheiros” do Partido autoritário que se quer perpetuar no poder, tomando posse do Estado, ou Marina Silva, a candidata ungida dos promotores de quermesses de bairro, ou o candidato de qualquer de suas linhas auxiliares igualmente autoritárias e/ou festeiras sejam eleitos e prossigam fazendo das suas.

 

       Antes, pois, que os atuais compromissos já assumidos mais se consolidem, tornem-se pétreos e mais nos causem danos, a eleição de Aécio apenas nos permitirá um tempo a mais, que poderemos aproveitar ou não, bem ou mal, mas nos estará disponível. Um tempo a mais não para conciliar com o inconciliável, mas para respirar sem pressões, para discutir e articular nossos projetos, nossas expectativas, nossas idéias, que vêm sendo sufocadas e abortadas pelas “faltas” grosseiras cometidas por aqueles que, com auxílio de juízes e bandeirinhas, puseram a bola debaixo do braço e a levaram pra casa nos deixando a ver navios (ou a ver marinas), e nunca foram punidos como todos os malfeitores públicos ou privados deveriam ser. A eleição de Aécio permite que o processo rumo ao abismo se interrompa por um breve momento que nos poderá ser crucial, predispondo-nos não para assistir a uma prorrogação, mas para que reunamos condições para iniciar um outro jogo que possa ser diferente.

 

      Portanto, mesmo que deixemos a campanha de quem for rolar ao gosto da maioria, compreendamos, nós, que, além de não ser hora de tentar ver no neto de Arraes um mártir redentor e de não ser hora de tentar ver em Marina uma guardiã do fogo sagrado, muito menos será hora de ver no neto de Tancredo um santo guerreiro que matará o dragão, pois o dragão o leva pela coleira – é hora apenas de tentarmos aproveitar a oportunidade que este último nos oferece mesmo que a contragosto. É hora de deixarmos os interesses pequenos de lado, de começar a encarar o nosso País com seriedade, com vontade, com decisão, com realismo, com coragem. Nas mínimas atitudes, nos mais tênues pensamentos. Sem desistir, nós mesmos, do Brasil pela simples razão de que não devemos desistir de nós mesmos, que somos de fato o Brasil, e do que nosso é. Ou nunca mais teremos essa oportunidade, pois o tempo voa, e o resultado dos critérios de representatividade determinados pelo bolivariano Decreto 8.243 parido por Dilma Rousseff, que goza do grande entusiasmo de Marina Silva, nada mais nos permitirá fazer.

 

      Deixemos, portanto, de lado também a fé cega em qualquer resultado “avassalador”, como foi anunciado pela mídia, que já tenha sido ou possa vir a ser publicado em favor da candidata do PSB em pesquisas de opinião. Deixemos de lado as torcidas que, se fossem em um jogo de futebol, em uma disputa entre Escolas de Samba, em uma eleição para Miss Brasil, até daria para considerar interessantes, embora elas estejam mais animadas por aqueles diretamente nelas interessados, sejam “sonháticos” ou pragmáticos, que pela população. Deixemos de lado o desânimo que nos queira abater por não vermos claramente a luz no fim desse túnel que precisamos atravessar com muita determinação. Sendo o destino político nacional o que está em jogo, entusiasmo, desânimo ou desespero são apenas espetáculos muito feios, absolutamente irresponsáveis, de uma imensa pobreza de espírito, de uma tristeza infinita… que haverá de apenas divertir aqueles que o assistem bem sentados no resto do mundo.

 

      O importante é que não podemos permanecer, em nenhuma hipótese, nem mais um único segundo sequer, tão ignorantes do que seja a Política real tal como nos temos demonstrado, confundindo Estado com Governos ou com governantes, com Partidos ou com militantes. Se é que somos capazes de vencer as ondas de apatia de mais uma ressaca pós-eleitoral, se é que queremos de fato alguma mudança, esta, e apenas esta, é a mudança que devemos desejar, que nos poderia beneficiar: uma mudança em nossa percepção, uma mudança em nossa disposição, uma mudança em nosso comportamento.

 

 

  

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

desordem

 

     Eu cá não gosto de ouvir palavrões. Não são exatamente música aos meus ouvidos. E não os uso, seja contra o que for. Mas há quem não se importe com eles. Digo sempre o que quero dizer, mas sem usar palavrões. E isso não se explica pelo fato de que eu seja uma exceção muito estranha entre todos os que fazem as regras ou porque eu seja de muito antigamente. “Antigamente” os palavrões também podiam ser ditos e ouvidos, inclusive nas ruas dos melhores bairros, inclusive nas Escolas, inclusive nas casas de famílias muito tradicionais e supostamente muito bem educadas. A explicação se encontra no fato de que, no meio muito e muito reduzido em que vivo e sempre vivi, os palavrões são desnecessários e apenas atrapalhariam a comunicação, porque eles causam emoções desnecessárias e reações inúteis – procuramos usar frases inteiras, com muitas palavras, procuramos bem articulá-las, para que elas bem exprimam idéias, não apenas sirvam para extravasar emoções incontidas, por mais que sejam justificáveis. As emoções, sendo emoções e nada mais, precisam ser controladas. Para que as idéias ganhem em conteúdo e possam mais avançar.

 

      Por outro lado, após acompanhar a demonstração de selvageria nos “escrachos” contra antigos agentes do Estado brasileiro promovidos, estimulados ou bem tolerados pela esquerda que, com tanto ardor, apóia Rousseff e/ou “ex”-guerrilheiros ou revolucionários de araque, afirmaria que essa gente toda que agora resolve pedir do povo muita elegância e muito refinamento não só não tem razão alguma como continua demonstrando, mais uma vez, que não tem a mais mínima noção do que seja conseqüência. Esses indivíduos ou grupos todos deveriam hoje estar sendo considerados, por qualquer um de bom senso, bem mais daninhos em todos os sentidos que a dita “oposição” que xingou a Presidente da República. A dita “oposição”, porém, resolveu dar demonstrações de que a eles se iguala.

 

      Quem xingou Rousseff no Itaquerão nada fez de bom ou de útil. Quem xingou Rousseff, ao contrário dos vigilantes do bom mocismo politicamente correto, não se encontra organizado, imagina que a vida se reduz a cada um por si e por suas próprias “liberdades” e um “líder” por todos, não sabe o que pode ou deve exigir de um Governo. Nenhuma situação de crise ou de risco resolveu ou tentou ajudar a resolver. Acredita em contos de fada como se fossem a realidade, grita contra tudo e contra todos, dependendo do estímulo que lhe é dado a cada momento, sem saber a favor de que exatamente deveria estar realmente lutando com todas as suas forças. No Itaquerão, apenas adotou a “baixaria” como padrão aceitável de participação política, quando não desejável, e fez um escarcéu vazio de objetivos, oferecendo ao mundo um espetáculo “de massa” não apenas de extremo mau gosto, que combinou perfeitamente com o medonho espetáculo da abertura oficial da Copa, como, pior, de absoluta irracionalidade.

 

      Rousseff não é apenas Rousseff – diga o que diga, faça o que faça, Rousseff hoje representa o Estado brasileiro entre os que representam os demais Estados. O Estado brasileiro somos nós. Estado que a maioria de nós mesmos quer mais é que se lixe e desapareça, considerando que não nos faz falta. Rousseff representa o Estado brasileiro porque assim o permitiu quem imagina que “faz Política” gritando palavrões e externando emoções. Permitiu porque nunca soube o que deveria querer.

 

      Devemos afastar Rousseff e seu Partido do poder? Devemos. Com inteligência, unindo forças e vontades, da forma mais racional possível, em torno daquele que se mostrar mais perto de derrotá-los. Mas buscando definir que é exatamente o que queremos ser, sem nos limitarmos a querer trocar seis por meia-dúzia.

 

      Nesse quadro, que tem a ver o mundo com nossos problemas internos? Nada. O mundo todo, no entanto, ao nos ver xingando a Presidente, cuja figura política, por si mesma, já é de um ridículo mais que suficiente, deve ter apenas dado boas risadas. Como sempre vem fazendo. De nós. Porque nós mesmos lhe damos os pretextos e os motivos. E damos de sobra.

 

      Que deixemos de dar. É mais que hora de tomar juízo. Definitivamente. 

 

 

  

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

      Amanhã, ao som de um apito soprado no meio de um gramado, começará um jogo esportivo. Mas muita coisa mais poderá começar. O Brasil entrará em campo com seu time de futebol. Para jogar bola, e nada mais. O Brasil estará também nas arquibancadas. Para ver jogos de futebol. E nada mais. O Brasil – ninguém mais. Com suas cores verdadeiras, as da Bandeira nacional. E estaremos, todos, torcendo para que, dia de jogo após dia de jogo, a rede adversária se veja entupida de nossos gols.

 

      Estaremos, sim. Porque o Brasil, que não é “Brazil” algum, que é nosso e só nosso é, não pode ser esquecido, em momento algum, muito menos poderá ser por nós desprezado e humilhado só porque o Governo brasileiro é o que é. O Brasil é o Brasil, e o Brasil deve ser a nossa paixão, sendo o futebol apenas uma das inúmeras formas possíveis de externá-la.

 

      Que a partir de amanhã sejamos não apenas 90, mas 200 milhões em ação gritando alucinadamente “PRA FRENTE, BRASIL!”, e – por que não? – cantando aquela mesma marchinha que cantávamos com tanta alegria em 1970. Quem a cantou não se esquece dela. Quem não a cantou, ouça-a aqui e guarde sua melodia e seus versos na memória – ainda é tempo de corrigi-la, ou seja, de atualizá-la: https://www.youtube.com/watch?v=i-ujgqVaY88

 

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Duzentos milhões em ação, pra frente, Brasil do meu coração!

Todos juntos, vamos! Pra frente, Brasil!  Salve a Seleção!

De repente, é aquela corrente pra frente,

parece que todo o Brasil deu a mão,

todos ligados na mesma emoção – tudo é um só coração!

Todos juntos, vamos! Pra frente, Brasil! BRASIL!

Salve a Seleção!

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      Poucas canções nos disseram tanto, de forma tão simples, tão bonita, tão alegre, tão autêntica, tão nossa. E nenhuma outra foi capaz de substituí-la, muito menos a substitui hoje aquela coisa esquisita que alguém determinou que deveria ser o “nosso hino” na COPA/2014. Quem determinou? Nós determinamos? Aquela coisa deveria ser nosso hino por quê? Quantas coisas esquisitas mais, e ainda mais esquisitas, que nada nos dizem, “devem” ser nossas? Quem determina isso?

 

      O resto é o resto. É, de fato, o principal, mas o resto a gente resolve na hora de resolver. Basta querer. O resto a gente resolverá acreditando que tudo o que é nosso pode e deve ser resolvido por nós mesmos. E a alegria de ver o Brasil no pódio, erguendo a taça como hexacampeão, em nada há de interferir. Muito menos em nossa vontade.

 

      PRA FRENTE, BRASIL! Não pra trás. Para trás, nunca mais. Porque, apesar de que os “nossos” Governos não NOS venham merecendo – esses Governos de faz de conta que nós mesmos elegemos por nos termos convencido, em um dia maldito e muito triste qualquer, de que devíamos nos sentir para sempre derrotados e de que não merecíamos coisa melhor – NÓS, os brasileiros, que nos representamos a nós mesmos, merecemos tudo de bom e o céu também. Merecemos até mesmo ser muitas e muitas vezes campeões do futebol. Por que não? Quem disse que não?

 

      Que amanhã seja o primeiro dia do resto de nossas vidas buscando apenas vitórias em todos os campos, dos campos de futebol aos Política, passando pelo da Economia e por todos mais. E nunca mais seremos derrotados. Por coisa alguma. Por seja quem for.

 

      PRA FRENTE, BRASIL !!!

 

BANDEIRA 2

 

 

  

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

      Se o Brasil ganhar a Copa é porque a terá ganho no apito? O Felipão sabe disso? Todos os integrantes da comissão técnica sabem disso? Ou todos entraram nessa de inocentes? Porque, se todos sabem disso, não mais precisam se preocupar com os jogos. Que corram a tomar uma cerveja na esquina.

 

      Essa campanha negativa estúpida não nos parece ter sido detonada por alguém muito mal intencionado, por alguma torcida de qualquer outra seleção bem ou mal cotada como possível vencedora que pretenda previamente justificar a sua derrota ou por quem pretenda justificar os tumultos que aproveita para provocar atribuindo-os à revolta popular em virtude da estupidez do governo atual em querer nos trazer ao território a responsabilidade pela realização dessa Copa?

 

      E se o Brasil perder a Copa? É porque a terá perdido no apito? Por que não?

 

      Por que acreditar que os jogos que se realizarão com uma bola rolando no campo terão resultados já pré-estipulados? Com tanta gente torcendo tanto para que o Brasil perca, apenas corremos o risco de desmotivar “nossos” jogadores (que, assim como “nossos” políticos profissionais, ninguém consegue saber por que merecem ser tão regiamente remunerados, mas ninguém se mostra muito preocupado com isso), corremos o risco de perder a Copa para qualquer timeco perna de pau apenas por falta de serenidade em campo, e continuaremos correndo o risco de ganhar de presente esse mesmo desgoverno por mais 4 anos – e, talvez, com tanto tumulto que armamos nas ruas, estejamos correndo um risco maior, o de ganhar a perpetuidade dele, por um golpe muito bem dado em nome da “ordem”.

 

      Se ninguém em nosso País gostasse de futebol, ninguém mais falaria em futebol. E tudo estaria resolvido. Se todo mundo gosta de futebol, por que todo mundo deverá torcer contra a seleção brasileira, que carrega as nossas cores, que está vinculada ao nosso Hino e à nossa Bandeira, e nunca foi ou pôde ser vinculada a qualquer Governo? Para quê? Para purgar qualquer “dívida histórica” que nos seja atribuída? Em benefício de quem? De quê?

 

      Além de que, enquanto isso, outros “jogos”, cujos resultados são de extrema importância para nós todos, continuam sendo disputados em outros campos, os da Política real, nacional e internacional, e nem tomamos conhecimento deles ou dos conchavos que possam estar sendo realizados. Onde anda a nossa consciência?

 

      Não precisamos justificar o Governo Rousseff, nem o PT, nem a demagogia dos demais, nem aceitar de bom grado o agravamento de nossos problemas crônicos ou os problemas adicionais que a Copa do Mundo nos tenha trazido. Sejamos contrários a tudo isso. Firmemente contrários. Mas não confundamos futebol com Politica. Nem Política com futebol. Apesar de que, em ambos os campos, torcer para dar certo é igualmente inútil quando não existe efetiva capacidade e efetivas condições de competência.

 

      Torcer contra a nossa seleção é nada mais que querer exibir ao mundo inteiro o quão estúpidos somos enquanto povo e quão estúpidos podemos ser e podemos querer continuar sendo. É apenas mais abrir mão do que, como nosso, consideramos. E enquanto nos policiamos para não gritar “GOL”… olhem só aí o que vai acontecendo…

  

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Mudança de regime por decreto

29 de maio de 2014 | Notícia – O Estado de S.Paulo

A presidente Dilma Rousseff quer modificar o sistema brasileiro de governo. Desistiu da Assembleia Constituinte para a reforma política – ideia nascida de supetão ante as manifestações de junho passado e que felizmente nem chegou a sair do casulo – e agora tenta por decreto mudar a ordem constitucional. O Decreto 8.243, de 23 de maio de 2014, que cria a Política Nacional de Participação Social (PNPS) e o Sistema Nacional de Participação Social (SNPS), é um conjunto de barbaridades jurídicas, ainda que possa soar, numa leitura desatenta, como uma resposta aos difusos anseios das ruas. Na realidade é o mais puro oportunismo, aproveitando os ventos do momento para impor velhas pretensões do PT, sempre rejeitadas pela Nação, a respeito do que membros desse partido entendem que deva ser uma democracia

A fórmula não é muito original. O decreto cria um sistema para que a “sociedade civil” participe diretamente em “todos os órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta”, e também nas agências reguladoras, através de conselhos, comissões, conferências, ouvidorias, mesas de diálogo, etc. Tudo isso tem, segundo o decreto, o objetivo de “consolidar a participação social como método de governo”. Ora, a participação social numa democracia representativa se dá através dos seus representantes no Congresso, legitimamente eleitos. O que se vê é que a companheira Dilma não concorda com o sistema representativo brasileiro, definido pela Assembleia Constituinte de 1988, e quer, por decreto, instituir outra fonte de poder: a “participação direta”.
 
 
Não se trata de um ato ingênuo, como se a Presidência da República tivesse descoberto uma nova forma de fazer democracia, mais aberta e menos “burocrática”. O Decreto 8.243, apesar das suas palavras de efeito, tem – isso sim – um efeito profundamente antidemocrático. Ele fere o princípio básico da igualdade democrática (“uma pessoa, um voto”) ao propiciar que alguns determinados cidadãos, aqueles que são politicamente alinhados a uma ideia, sejam mais ouvidos.
 
A participação em movimentos sociais, em si legítima, não pode significar um aumento do poder político institucional, que é o que em outras palavras estabelece o tal decreto. Institucionaliza-se assim a desigualdade, especialmente quando o Partido (leia-se, o Governo) subvenciona e controla esses “movimentos sociais”.
O grande desafio da democracia – e, ao mesmo tempo, o grande mérito da democracia representativa – é dar voz a todos os cidadãos, com independência da sua atuação e do seu grau de conscientização. Não há cidadãos de primeira e de segunda categoria, discriminação que por decreto a presidente Dilma Rousseff pretende instituir, ao criar canais específicos para que uns sejam mais ouvidos do que outros. Ou ela acha que a maioria dos brasileiros, que trabalha a semana inteira, terá tempo para participar de todas essas audiências, comissões, conselhos e mesas de diálogo?
Ao longo do decreto fica explícito o sofisma que o sustenta: a ideia de que os “movimentos sociais” são a mais pura manifestação da democracia. A História mostra o contrário. Onde não há a institucionalização do poder, há a institucionalização da lei do mais forte. Por isso, o Estado Democrático de Direito significou um enorme passo civilizatório, ao institucionalizar no voto individual e secreto a origem do poder estatal. Quando se criam canais paralelos de poder, não legitimados pelas urnas, inverte-se a lógica do sistema. No mínimo, a companheira Dilma e os seus amigos precisariam para esse novo arranjo de uma nova Constituição, que já não seria democrática. No entanto, tiveram o descaramento de fazê-lo por decreto.
Querem reprisar o engodo totalitário, vendendo um mundo romântico, mas entregando o mais frio e cinzento dos mundos, onde uns poucos pretendem dominar muitos. Em resumo: é mais um ato inconstitucional da presidente Dilma. Que o Congresso esteja atento – não apenas o STF, para declarar a inconstitucionalidade do decreto -, já que a mensagem subliminar em toda essa história é a de que o Poder Legislativo é dispensável.

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,mudanca-de-regime-por-decreto,1173217,0.htm

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A PRESIDENTA DA REPÚBLICA, no uso das atribuições que lhe confere o art. 84, caput, incisos IV e VI, alínea a, da Constituição, e tendo em vista o disposto no art. , caput, inciso I, e no art. 17 da Lei nº 10.683, de 28 de maio de 2003, DECRETA:

Art. 1º Fica instituída a Política Nacional de Participação Social – PNPS, com o objetivo de fortalecer e articular os mecanismos e as instâncias democráticas de diálogo e a atuação conjunta entre a administração pública federal e a sociedade civil.

Parágrafo único. Na formulação, na execução, no monitoramento e na avaliação de programas e políticas públicas e no aprimoramento da gestão pública serão considerados os objetivos e as diretrizes da PNPS.

Art. 2º Para os fins deste Decreto, considera-se:

I – sociedade civil – o cidadão, os coletivos, os movimentos sociais institucionalizados ou não institucionalizados, suas redes e suas organizações;

II – conselho de políticas públicas – instância colegiada temática permanente, instituída por ato normativo, de diálogo entre a sociedade civil e o governo para promover a participação no processo decisório e na gestão de políticas públicas;

III – comissão de políticas públicas – instância colegiada temática, instituída por ato normativo, criada para o diálogo entre a sociedade civil e o governo em torno de objetivo específico, com prazo de funcionamento vinculado ao cumprimento de suas finalidades;

IV – conferência nacional – instância periódica de debate, de formulação e de avaliação sobre temas específicos e de interesse público, com a participação de representantes do governo e da sociedade civil, podendo contemplar etapas estaduais, distrital, municipais ou regionais, para propor diretrizes e ações acerca do tema tratado;

V – ouvidoria pública federal – instância de controle e participação social responsável pelo tratamento das reclamações, solicitações, denúncias, sugestões e elogios relativos às políticas e aos serviços públicos, prestados sob qualquer forma ou regime, com vistas ao aprimoramento da gestão pública;

VI – mesa de diálogo – mecanismo de debate e de negociação com a participação dos setores da sociedade civil e do governo diretamente envolvidos no intuito de prevenir, mediar e solucionar conflitos sociais;

VII – fórum interconselhos – mecanismo para o diálogo entre representantes dos conselhos e comissões de políticas públicas, no intuito de acompanhar as políticas públicas e os programas governamentais, formulando recomendações para aprimorar sua intersetorialidade e transversalidade;

VIII – audiência pública – mecanismo participativo de caráter presencial, consultivo, aberto a qualquer interessado, com a possibilidade de manifestação oral dos participantes, cujo objetivo é subsidiar decisões governamentais;

IX – consulta pública – mecanismo participativo, a se realizar em prazo definido, de caráter consultivo, aberto a qualquer interessado, que visa a receber contribuições por escrito da sociedade civil sobre determinado assunto, na forma definida no seu ato de convocação; e

X – ambiente virtual de participação social – mecanismo de interação social que utiliza tecnologias de informação e de comunicação, em especial a internet, para promover o diálogo entre administração pública federal e sociedade civil.

Parágrafo único. As definições previstas neste Decreto não implicam na desconstituição ou alteração de conselhos, comissões e demais instâncias de participação social já instituídos no âmbito do governo federal.

Art. 3º São diretrizes gerais da PNPS:

I – reconhecimento da participação social como direito do cidadão e expressão de sua autonomia;

II – complementariedade, transversalidade e integração entre mecanismos e instâncias da democracia representativa, participativa e direta;

III – solidariedade, cooperação e respeito à diversidade de etnia, raça, cultura, geração, origem, sexo, orientação sexual, religião e condição social, econômica ou de deficiência, para a construção de valores de cidadania e de inclusão social;

IV – direito à informação, à transparência e ao controle social nas ações públicas, com uso de linguagem simples e objetiva, consideradas as características e o idioma da população a que se dirige;

V – valorização da educação para a cidadania ativa;

VI – autonomia, livre funcionamento e independência das organizações da sociedade civil; e

VII – ampliação dos mecanismos de controle social.

Art. 4º São objetivos da PNPS, entre outros:

I – consolidar a participação social como método de governo;

II – promover a articulação das instâncias e dos mecanismos de participação social;

III – aprimorar a relação do governo federal com a sociedade civil, respeitando a autonomia das partes;

IV – promover e consolidar a adoção de mecanismos de participação social nas políticas e programas de governo federal;

V – desenvolver mecanismos de participação social nas etapas do ciclo de planejamento e orçamento;

VI – incentivar o uso e o desenvolvimento de metodologias que incorporem múltiplas formas de expressão e linguagens de participação social, por meio da internet, com a adoção de tecnologias livres de comunicação e informação, especialmente, softwares e aplicações, tais como códigos fonte livres e auditáveis, ou os disponíveis no Portal do Software Público Brasileiro;

VII – desenvolver mecanismos de participação social acessíveis aos grupos sociais historicamente excluídos e aos vulneráveis;

VIII – incentivar e promover ações e programas de apoio institucional, formação e qualificação em participação social para agentes públicos e sociedade civil; e

IX – incentivar a participação social nos entes federados.

Art. 5º Os órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta deverão, respeitadas as especificidades de cada caso, considerar as instâncias e os mecanismos de participação social, previstos neste Decreto, para a formulação, a execução, o monitoramento e a avaliação de seus programas e políticas públicas.

§ 1º Os órgãos e entidades referidos no caput elaborarão, anualmente, relatório de implementação da PNPS no âmbito de seus programas e políticas setoriais, observadas as orientações da Secretaria-Geral da Presidência da República.

§ 2º A Secretaria-Geral da Presidência da República elaborará e publicará anualmente relatório de avaliação da implementação da PNPS no âmbito da administração pública federal.

Art. 6º São instâncias e mecanismos de participação social, sem prejuízo da criação e do reconhecimento de outras formas de diálogo entre administração pública federal e sociedade civil:

I – conselho de políticas públicas;

II – comissão de políticas públicas;

III – conferência nacional;

IV – ouvidoria pública federal;

V – mesa de diálogo;

VI – fórum interconselhos;

VII – audiência pública;

VIII – consulta pública; e

IX – ambiente virtual de participação social.

Art. 7º O Sistema Nacional de Participação Social – SNPS, coordenado pela Secretaria-Geral da Presidência da República, será integrado pelas instâncias de participação social previstas nos incisos I a IV do art. 6º deste Decreto, sem prejuízo da integração de outras formas de diálogo entre a administração pública federal e a sociedade civil.

Parágrafo único. A Secretaria-Geral da Presidência da República publicará a relação e a respectiva composição das instâncias integrantes do SNPS.

Art. 8º Compete à Secretaria-Geral da Presidência da República:

I – acompanhar a implementação da PNPS nos órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta;

II – orientar a implementação da PNPS e do SNPS nos órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta;

III – realizar estudos técnicos e promover avaliações e sistematizações das instâncias e dos mecanismos de participação social definidos neste Decreto;

IV – realizar audiências e consultas públicas sobre aspectos relevantes para a gestão da PNPS e do SNPS; e

V – propor pactos para o fortalecimento da participação social aos demais entes da federação.

Art. 9º Fica instituído o Comitê Governamental de Participação Social – CGPS, para assessorar a Secretaria-Geral da Presidência da República no monitoramento e na implementação da PNPS e na coordenação do SNPS.

§ 1º O CGPS será coordenado pela Secretaria-Geral da Presidência da República, que dará o suporte técnico-administrativo para seu funcionamento.

§ 2º Ato do Ministro de Estado Chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República disporá sobre seu funcionamento.

Art. 10. Ressalvado o disposto em lei, na constituição de novos conselhos de políticas públicas e na reorganização dos já constituídos devem ser observadas, no mínimo, as seguintes diretrizes:

I – presença de representantes eleitos ou indicados pela sociedade civil, preferencialmente de forma paritária em relação aos representantes governamentais, quando a natureza da representação o recomendar;

II – definição, com consulta prévia à sociedade civil, de suas atribuições, competências e natureza;

III – garantia da diversidade entre os representantes da sociedade civil;

IV – estabelecimento de critérios transparentes de escolha de seus membros;

V – rotatividade dos representantes da sociedade civil;

VI – compromisso com o acompanhamento dos processos conferenciais relativos ao tema de sua competência; e

VII – publicidade de seus atos.

§ 1º A participação dos membros no conselho é considerada prestação de serviço público relevante, não remunerada.

§ 2º A publicação das resoluções de caráter normativo dos conselhos de natureza deliberativa vincula-se à análise de legalidade do ato pelo órgão jurídico competente, em acordo com o disposto na Lei Complementar nº 73, de 10 de fevereiro de 1993.

§ 3º A rotatividade das entidades e de seus representantes nos conselhos de políticas públicas deve ser assegurada mediante a recondução limitada a lapso temporal determinado na forma dos seus regimentos internos, sendo vedadas três reconduções consecutivas.

§ 4º A participação de dirigente ou membro de organização da sociedade civil que atue em conselho de política pública não configura impedimento à celebração de parceria com a administração pública.

§ 5º Na hipótese de parceira que envolva transferência de recursos financeiros de dotações consignadas no fundo do respectivo conselho, o conselheiro ligado à organização que pleiteia o acesso ao recurso fica impedido de votar nos itens de pauta que tenham referência com o processo de seleção, monitoramento e avaliação da parceria.

Art. 11. Nas comissões de políticas públicas devem ser observadas, no mínimo, as seguintes diretrizes:

I – presença de representantes eleitos ou indicados pela sociedade civil;

II – definição de prazo, tema e objetivo a ser atingido;

III – garantia da diversidade entre os representantes da sociedade civil;

IV – estabelecimento de critérios transparentes de escolha de seus membros; e

V – publicidade de seus atos.

Art. 12. As conferências nacionais devem observar, no mínimo, as seguintes diretrizes:

I – divulgação ampla e prévia do documento convocatório, especificando seus objetivos e etapas;

II – garantia da diversidade dos sujeitos participantes;

III – estabelecimento de critérios e procedimentos para a designação dos delegados governamentais e para a escolha dos delegados da sociedade civil;

IV – integração entre etapas municipais, estaduais, regionais, distrital e nacional, quando houver;

V – disponibilização prévia dos documentos de referência e materiais a serem apreciados na etapa nacional;

VI – definição dos procedimentos metodológicos e pedagógicos a serem adotados nas diferentes etapas;

VII – publicidade de seus resultados;

VIII – determinação do modelo de acompanhamento de suas resoluções; e

IX – indicação da periodicidade de sua realização, considerando o calendário de outros processos conferenciais.

Parágrafo único. As conferências nacionais serão convocadas por ato normativo específico, ouvido o CGPS sobre a pertinência de sua realização.

Art. 13. As ouvidorias devem observar as diretrizes da Ouvidoria-Geral da União da Controladoria-Geral da União nos termos do art. 14, caput, inciso I, do Anexo I ao Decreto nº 8.109, de 17 de setembro de 2013.

Art. 14. As mesas de diálogo devem observar, no mínimo, as seguintes diretrizes:

I – participação das partes afetadas;

II – envolvimento dos representantes da sociedade civil na construção da solução do conflito;

III – prazo definido de funcionamento; e

IV – acompanhamento da implementação das soluções pactuadas e obrigações voluntariamente assumidas pelas partes envolvidas.

Parágrafo único. As mesas de diálogo criadas para o aperfeiçoamento das condições e relações de trabalho deverão, preferencialmente, ter natureza tripartite, de maneira a envolver representantes dos empregados, dos empregadores e do governo.

Art. 15. Os fóruns interconselhos devem observar, no mínimo, as seguintes diretrizes:

I – definição da política ou programa a ser objeto de debate, formulação e acompanhamento;

II – definição dos conselhos e organizações da sociedade civil a serem convidados pela sua vinculação ao tema;

III – produção de recomendações para as políticas e programas em questão; e

IV – publicidade das conclusões.

Art. 16. As audiências públicas devem observar, no mínimo, as seguintes diretrizes:

I – divulgação ampla e prévia do documento convocatório, especificado seu objeto, metodologia e o momento de realização;

II – livre acesso aos sujeitos afetados e interessados;

III – sistematização das contribuições recebidas;

IV – publicidade, com ampla divulgação de seus resultados, e a disponibilização do conteúdo dos debates; e

V – compromisso de resposta às propostas recebidas.

Art. 17. As consultas públicas devem observar, no mínimo, as seguintes diretrizes:

I – divulgação ampla e prévia do documento convocatório, especificando seu objeto, metodologia e o momento de realização;

II – disponibilização prévia e em tempo hábil dos documentos que serão objeto da consulta em linguagem simples e objetiva, e dos estudos e do material técnico utilizado como fundamento para a proposta colocada em consulta pública e a análise de impacto regulatório, quando houver;

III – utilização da internet e de tecnologias de comunicação e informação;

IV – sistematização das contribuições recebidas;

V – publicidade de seus resultados; e

VI – compromisso de resposta às propostas recebidas.

Art. 18. Na criação de ambientes virtuais de participação social devem ser observadas, no mínimo, as seguintes diretrizes:

I – promoção da participação de forma direta da sociedade civil nos debates e decisões do governo;

II – fornecimento às pessoas com deficiência de todas as informações destinadas ao público em geral em formatos acessíveis e tecnologias apropriadas aos diferentes tipos de deficiência;

III – disponibilização de acesso aos termos de uso do ambiente no momento do cadastro;

IV – explicitação de objetivos, metodologias e produtos esperados;

V – garantia da diversidade dos sujeitos participantes;

VI – definição de estratégias de comunicação e mobilização, e disponibilização de subsídios para o diálogo;

VII – utilização de ambientes e ferramentas de redes sociais, quando for o caso;

VIII – priorização da exportação de dados em formatos abertos e legíveis por máquinas;

IX – sistematização e publicidade das contribuições recebidas;

X – utilização prioritária de softwares e licenças livres como estratégia de estímulo à participação na construção das ferramentas tecnológicas de participação social; e

XI – fomento à integração com instâncias e mecanismos presenciais, como transmissão de debates e oferta de oportunidade para participação remota.

Art. 19. Fica instituída a Mesa de Monitoramento das Demandas Sociais, instância colegiada interministerial responsável pela coordenação e encaminhamento de pautas dos movimentos sociais e pelo monitoramento de suas respostas.

§ 1º As reuniões da Mesa de Monitoramento serão convocadas pela Secretaria-Geral da Presidência da República, sendo convidados os Secretários-Executivos dos ministérios relacionados aos temas a serem debatidos na ocasião.

§ 2º Ato do Ministro de Estado Chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República disporá sobre as competências específicas, o funcionamento e a criação de subgrupos da instância prevista no caput.

Art. 20. As agências reguladoras observarão, na realização de audiências e consultas públicas, o disposto neste Decreto, no que couber.

Art. 21. Compete à Casa Civil da Presidência da República decidir sobre a ampla divulgação de projeto de ato normativo de especial significado político ou social nos termos do art. 34, caput, inciso II, do Decreto nº 4.176, de 28 de março de 2002.

Art. 22. Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Brasília, 23 de maio de 2014; 193º da Independência e 126º da República.

DILMA ROUSSEFF

Miriam Belchior

Gilberto Carvalho

Jorge Hage Sobrinho

Este texto não substitui o publicado no DOU de 26.5.2014

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

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GOOOOOL!!!

24-05-2014
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

“… o ódio político não é um sentimento, uma paixão, nem mesmo ódio. É uma pura, vil, obtusa palavra de ordem.”

Nelson Rodrigues – Os idiotas da objetividade

 

 

      Há uns dez dias, mais ou menos, eu deixava, em minhatrincheira.com.br, um texto intitulado “A vitória da propaganda”. Nele, eu dizia que “porões” se transformara “em palavra-ícone, muitas vezes até chique para ser usada em rodas ‘intelectualizadas’, … à qual podem ser atribuídos efeitos mágicos, fazendo-a capaz de substituir vários parágrafos ou até páginas e páginas de bons argumentos ou fatos… que seduz aficionados de emoções radicais e roteiros cinematográficos… que hipnotiza todo mundo … tão usada, sem se desgastar, que muita gente de pouca idade ou de pouco siso suporá que, antes de 1988, o País inteiro seria nada mais que uma cadeia de ‘porões’ interligados, uma ‘rede’ de ‘porões’. A palavra faz a festa. E embriaga e paralisa todo mundo, física e intelectualmente”.

 

      Em sua crônica de hoje, Josias de Souza, a pretexto de falar de futebol e de criticar o tenebroso discurso de Lula da Silva e a atual tenebrosa “perversidade da desconexão entre gastos e prioridades”, pontifica: “Ao injetar política num evento que deveria ser apenas esportivo, Lula ressuscita outro período tenebroso da história nacional. Uma fase em que o torcedor torcia com uma ponta de sentimento de culpa, sabendo que o triunfo da seleção faria a festa do general de plantão no Planalto. O paradoxo foi levado às fronteiras do paroxismo em 1970, ano em que o sucesso da seleção de Pelé nos gramados do México ajudou a ditadura a abafar os gritos que soavam nos porões do Brasil.”

 

      GOOOOOL!!!  Chutou do meio do campo e a bola foi parar dentro da rede! Pronto! Ganhou o dia! 

 

      Todo e qualquer amante do futebol será sempre um torcedor do time de sua preferência. Nem sempre, mas em geral, o torcedor é um fanático. O fanático é sempre ridículo porque é irracional. No futebol, não vê erros dos jogadores de seu time, não vê impedimentos, não vê faltas nem golpes baixos, não vê mão na bola. Em sua imaginação de torcedor, a bola deve rolar redonda, sem se desgastar, sempre no campo adversário. Por ser fanático, não percebendo o quão ridículo é, o torcedor utilizará qualquer argumento sacado do raso de seu cérebro para mais alimentar o seu fanatismo, fanatismo que traz problemas a ele mesmo, talvez especialmente problemas emocionais.

 

      No jogo político, porém, o fanático, além de ridículo, faz danos não apenas a si próprio como aos demais. Não vê perversidade, não vê mentira, não vê lixo, não vê manipulação, não vê desonestidade nos argumentos dos arautos da fé de sua facção. E vai tocando a bola. Por isso foi que Josias de Souza não pôde deixar de falar nos “porões”. Porque é fanático. E, assim como acontece com os cronistas esportivos comentando um jogo de futebol, antes, durante ou depois dele, nem mesmo um bom estilo jornalístico conseguirá esconder seu fanatismo e evitar-lhe o ridículo.

 

      Exceto o abismo que separa a seriedade do Governo Médici da farra solta que caracteriza os Governos Lula/Rousseff, haveria algo a ver entre o primeiro e os atuais ídolos da arquibancada? Há nada. Absolutamente nada. Quem torceu envergonhado em 1970, torceu envergonhado porque resolveu torcer envergonhado. Ou resolveu dizer que torcia envergonhado. Naquela Copa, só ouvi aqueles que Nelson Rodrigues tão bem definiu como “cretinos fundamentais” e como “idiotas da objetividade” afirmando que não torciam pelo nosso tricampeonato ou que por ele torciam envergonhados – alguns saltaram fora do País e, lá de fora, amparados pela Anistia Internacional, torceram desavergonhadamente contra ele e contra nós, outros ficaram treinando como verter lágrimas de crocodilo para exibi-las quando os “heróis da resistência” retornassem anistiados, pois quem não chora não mama.  

 

      Tenho que reconhecer, porém, que alguma coisa de muito óbvio e de muito sensato Josias de Souza conseguiu escrever hoje e com essa alguma coisa concordo em gênero, número e grau: “Os verdadeiros ‘fantasmas do passado’ são feitos de oportunismo e empulhação. Os amantes do futebol não merecem semelhante agressão.

 

      Falou e disse!

 

(Cf. em http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2014/05/24/politizacao-da-copa-conduz-torcedor-para-1970/)

 

 

 

  

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

PROJETO DE RESOLUÇÃO Nº , DE 2014 (Da Srª Jandira Feghali) Declara a ilegitimidade das eleições indiretas para Presidente da República no Colégio Eleitoral do Congresso Nacional. A CÂMARA DOS DEPUTADOS resolve: Art. 1º Declarar ilegítimas as eleições presidenciais indiretas realizadas no âmbito do Colégio Eleitoral do Congresso Nacional e, em decorrência, a ilegitimidade dos mandatos dos presidentes militares delas resultantes. Art. 2º Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação. http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1241587&filename=PRC+246/2014

 

O Exército nunca reconheceu a morte de Rubens Paiva em suas dependências. … Os procuradores acusaram o Exército de “sonegar informações a respeito da participação de militares em ações da repressão ditatorial…” http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,mpf-denuncia-cinco-militares-por-morte-de-rubens-paiva,1168692,0.htm 

 

“Sonegar informação é crime e será investigado por que não foram prestadas as informações corretas”, afirmou Sergio Suiama. http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,procuradoria-acusa-exercito-de-sonegar-informacoes-sobre-crimes-na-ditadura,1168777,0.htm

 

***

 

      Ontem, eu lia, com muito interesse, um muito interessante artigo de Sergio Suiama, “Identidades e Diferenças”. Esse artigo, publicado no sítio virtual da Procuradoria da República, teria tido por objetivo “investigar o modo de produção da violência contra todos aqueles que não se comportam ou não atendem os padrões definidos pela maioria”; sua hipótese de trabalho era “a de que essa violência acontece em três tempos logicamente distintos, a saber: a) a construção ideológica da figura do outro a partir de critérios pretensamente universais e abstratos; b) a desvalorização desse outro construído; e, finalmente, c) a prática de atos de violência física ou simbólica contra ele”. (http://www.prsp.mpf.gov.br/prdc/area-de-atuacao/dsexuaisreprod/Artigo%20Identidades-%20Diferencas.pdf).

 

      Sergio Gardenghi Suiama é Procurador da República em São Paulo. Ele acha muito esquisito que a identidade de cada um “seja algo construído a partir das relações que se estabelecem nas sociedades humanas”; ele acha muito errado que nos habituemos a chamar de bandido, estrangeiro, louco, homossexual, índio ou negro quem seja bandido, estrangeiro, louco, homossexual, índio ou negro; mais errado ainda será que como tais os reconheçamos. Não entendi por que  branco, mestiço, mulher, homem, criança, idoso, honesto, alto, baixo… e outras tantas “construções ideológicas da figura do outro a partir de critérios pretensamente universais” e tão “abstratos” quanto os que determinam as demais “construções” mencionadas não constam dessa lista, mas… tudo bem… O importante será não perder de vista o objetivo. “O erro” – diz Suiama – “está justamente em resumir a complexidade do sujeito à cor da sua pele, ao seu sexo ou ao local de seu nascimento”. No que concordo com ele. Aliás, se tratamos do indivíduo, não de Sociedades ou de grupos, será importante atentarmos à sua extrema complexidade, e ponhamos complexidade nisso. E, então, ele cita Jurandir Freire Costa que nos dará a solução a esse problema: “A maneira que temos de sair da engrenagem é desfazê-la, e não reformá-la preservando os termos de sua definição e deixando-a intocada na base”.

 

      Lendo seu artigo com bastante atenção, com a atenção que merece, cheguei à conclusão de que Sergio Suiama deverá ser absolutamente contra a lei de cotas, o que também sou, ou perderá coerência; mas, diferente de mim, não poderá sequer sentir cheiro de Soldado que terá um tique-tique nervoso. Por quê? Ora, porque os nossos Soldados sempre se demonstraram maníaco-depressivos no afã de proteger a nossa gente da gula das demais e no de manter nossas as nossas coisas nacionais, especialmente as nossas boas coisas nacionais, como as instituições do nosso Estado e as fronteiras do nosso território, esse “local de nascimento” nosso e de toda a nossa gente.

 

      Por sua vez, em uma entrevista dada a alguém que ganhou uma bolsa para estudar Química (isso mesmo, Química – não Política, não Sociologia, não Psicologia ou Psicanálise) na UFLA (Lavras-MG), o psicanalista Jurandir Freire Costa citará Richard Rorty, que seria um “filósofo  pragmático”, que com muita Filosofia nunca esteve a fim de lidar, mas ensinou a muita gente que gostou de aprender que “histórias tristes sobre padecimentos concretos muitas vezes são um melhor caminho para modificar o comportamento das pessoas que citar regras universais” – frase lapidar que se tornaria academicamente antológica, além de que pudesse servir a que muitos, dentro e fora da Academia, passassem a se dedicar exclusivamente a pesquisar, com muito empenho, onde encontrar quem estivesse disposto a contar histórias muito tristes, verdadeiras ou não, “sobre padecimentos concretos” (?) – ou talvez também sobre padecimentos abstratos… -, para que “o comportamento das pessoas” fosse modificado . (http://www.ded.ufla.br/generoesexualidade-ei/imagens/jurandyr.pdf)

 

      Foi lendo essa entrevista – porque sou curiosa, mas, de verdade, nunca li Richard Rorty ou sequer li muito a respeito dele, pois, pelo pouco que li, considerei que poderia ser demais para minha saúde, que eu muito prezo – que fiquei sabendo que esse filósofo, que não queria ser filósofo mas gostava um bocado de conversas filoso-fiadas consideradas politicamente corretas, disse-nos também que “quando trocamos de vocabulário, trocamos de problemas e, com a troca, algumas coisas da realidade, que antes pareciam absolutamente importantes, passam a não ter mais importância.”

 

      Caramba! Prestem atenção nisso! Isso é muito importante! Muita gente não sabe e eu mesma não sabia disso! Sempre acreditei em que quanto mais amplo fosse o vocabulário, mais exatamente poderia ser definido um problema e, portanto, em que, indiretamente, ampliar o vocabulário auxiliasse a resolver problemas; mas nunca pensei que o que quer que fosse, que pudesse ter sido definido como um problema ou como uma questão importante, deixasse de ser compreendido como um problema ou como uma questão importante fossem quais fossem as palavras (o vocabulário) utilizadas para definir o que quer que fosse como sendo uma questão importante ou como sendo um problema. Fiquei agora sabendo que não é bem assim que as coisas acontecem. Pude aprender, portanto, a importância do que é realmente importante, essencial, talvez vital para evitarem-se e/ou resolverem-se problemas: é mudar o nome das coisas. E talvez também o nome da gente. É possível… 

 

      E, aí, né?, tendo aprendido que não é bem tal como eu antes pensava que as coisas acontecem, pude entender que, porque a gente, entre outras coisas mais,  resolveu chamar de “preconceituoso” quem não está nem aí se for ou não for “sociomoralmente identificado em sua aparência pública por suas preferências eróticas”, os problemas morais e demais problemas decorrentes observados na Sociedade passaram a ser outros, diferentes daqueles que nós tínhamos observado antes, desde sempre, que deixaram de ser problemas; entendi que, a gente passando a chamar de “fascistas” todos aqueles que não abram mão de uma identidade brasileira, nada mais, sem qualificativos, e pretendam defender o que consideram ser seu e de sua gente, a gente pode acusar o Exército Brasileiro de “sonegar informações”, de não ser “transparente” tal como exige a supranacional cartilha “politicamente correta”, pode sugerir que ele seja criminoso, que cometa intencionalmente atos nocivos à Sociedade brasileira, e pode propor que esse nosso Exército, enquanto instituição nacional, da qual a integridade do Estado depende, seja “investigado”, pois o que era importante deixou de ser importante, e outras coisas, diferentes, passaram a ser muito importantes – tais como querer e poder arrebentar aquilo que pelas boas a gente quisesse arrebentar, tais como querer e poder prender quem a gente achasse por bem prender; e, assim, também pude entender por que foi que tanta gente e tanta coisa a gente pôde querer deixar correr solta… 

 

      E entendi mais um monte de coisas que antes me pareciam absolutamente incompreensíveis. Entre elas, entendi também por que a Resolução nº 4 de 2013 do Congresso Nacional pôde tornar “nula a declaração de vacância do presidente da República feita pelo então Presidente dessa instituição, Senador Auro de Moura Andrade” em 1964; e entendi por que, assim sendo, Jandira Feghali et allii PCdoB podem agora apresentar um projeto de resolução à Câmara dos Deputados propondo que seja declarada a “ilegitimidade das eleições indiretas para Presidente da República no Colégio Eleitoral do Congresso Nacional” e dos mandatos presidenciais delas decorrentes. Com o que não só a eleição dos Presidentes militares como também a eleição de Tancredo Neves/José Sarney no Colégio Eleitoral do Congresso Nacional em 1985 se tornam ilegítimas… e ilegítimo será o mandato de Sarney. Com o que, também, de 1964 a 1990 – quando tomou posse Collor de Mello, eleito com todos os seus Ls pelos brasileiros muito conscientes e ávidos por exercerem seu inalienável direito ao voto direto para a Presidência da República -, todos os atos de caráter público cometidos pelos Presidentes da República, sanções de leis inclusive, o que atinge decisões legislativas, assim como suas consequências, não mais serão válidos, pois terão sido ilegítimos. Legal!

 

      Pude entender ainda – e mais entendi uma vez que é possível proclamar-se agora que, por 26 anos, durante o período de 1964 a 1990, este nosso “local de nascimento” não teve Governo – por que a terra que imaginávamos ser nossa, povoada por nossa gente, administrada por nossas instituições, defendida por nossos Soldados pôde ser, após 1990, por muitos, inclusive pelos Presidentes eleitos pelo voto direto do povo plenamente consciente de seus direitos, considerada como terra de ninguém,  disponível a quem se aventurasse a conquistá-la, ocupá-la e servir-se dela; e por que pode ser ela, hoje, considerada por todos, inclusive por nós mesmos, como uma terra de ninguém.

 

      Todas essas coisas e tantas outras coisas mais não aconteceram e não acontecem porque somos, em nossa maioria, absolutamente idiotas, solenemente ignorantes, ou porque tivéssemos ficado todos loucos de repente. Não. Todas essas coisas, e tantas outras coisas mais, só aconteceram e só acontecem porque o nosso vocabulário foi alterado… 

 

       Mas, se eu soubesse, antes, de tudo isso que agora eu sei, se soubesse que regras universais nada valem, que algumas coisas da realidade perdem totalmente a importância quando trocamos de vocabulário, poderia, eu também, ter-me preocupado com me comportar estritamente dentro da lei… Que lei? Não, não aquela que conhecíamos como sendo a nossa Lei, a que sempre respeitamos, a que chamávamos de Lei, mas aquilo que, no nosso novo vocabulário, hoje devemos chamar de lei – as novas regras de exceção, que determinam que, para sobreviver em nossa importantíssima e extrema complexidade individual, devemos ir vivendo e aprendendo… “vivendo e aprendendo a jogar, nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas… aprendendo a jogar“… O que, no novo vocabulário, deve significar “ensinando a pensar”… Por que não? Legal! 

 

 

 

  

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

      Entre as muitas datas a comemorar neste nosso mês de Maio estava o “Dia da Vitória”. 

 

 Selo URSS vitória   Este selo, impresso em 1946, na URSS, comemorava a derrota imposta aos nazistas, um ano antes, pelos… … teriam sido os nazistas vencidos pelos “Aliados”? Para alguns, não – para os soviéticos e seus fãs de auditório, os nazistas foram derrotados pelo Exército Vermelho. E os “socialistas” celebraram essa vitória no dia 9 de Maio, um dia depois de que os “capitalistas” o fizessem. Por quê? Porque a Imprensa ocidental publicou, um dia antes, o que deveria ter esperado para publicar na data que havia sido combinada. Pois uma data para anunciar e festejar “a” vitória havia sido combinada entre todos os responsáveis por ela. E a Imprensa descumpriu o combinado. Mas a Imprensa, bem sabemos, é… “soberana”…

 

     Pois bem. À 2ª Grande Guerra, que foi uma guerra que envolveu quase que o mundo todo, sucedeu a Guerra Fria, que foi uma guerra que envolveu quase que todo mundo.

 

      Em ambas as guerras, a propaganda – que é um Poder dos que têm Poder – no rádio, no cinema, no teatro, nas ruas, nos versos das canções… encarregava-se de “informar” o vulgo quem seriam os “bons” que enfrentavam os “maus”, e quem seriam os “maus” que estariam contra os “bons”. Em ambas as guerras, o Brasil esteve presente. Nosso País se fez presente, em ambas as guerras, por idealismo, sim, e comportou-se com extraordinário valor. Em ambas as guerras, muitos de nós perderam a vida. Em ambas as guerras, as razões que moviam as legiões eram as razões dos Estados-Potência (questões de “espaço vital” – território e/ou influência político-econômica). De ambas as guerras, o nosso País, por ser periférico ao “sistema” de Poder mundial, participou como coadjuvante. Mas participou também, diplomática e militarmente, tática e estrategicamente, com inequívocas intenções de aproveitar brechas não apenas na Política como na Economia Internacionais – que significam Poder, Poder real, de fato, e caminham na dependência da vontade dos que têm Poder real, de fato.

 

      Durante a 2ª Grande Guerra, por mais que as razões das Potências que se confrontavam se assemelhassem, havia um algo mais em uma delas – o racismo elevado às últimas conseqüências e à mais abominável violência – que, para um País miscigenado desde sua origem, como é o nosso, definiria, de cara, quem seria o “demônio”, embora a definição de quem fosse o “anjo” pudesse e até devesse continuar em aberto. Ao ameaçarmos aderir ao Eixo, conseguimos romper o monopólio europeu e norte-americano na produção de aço. Ao fim da guerra, muitos de nós mantinham a expectativa de que recebêssemos – nem que fosse só por gratidão pela nossa participação – parte dos investimentos que vieram a beneficiar apenas aqueles que haviam sido derrotados. Frustraram-se. Mas o Zé Carioca consolidou seu espaço na Disneylândia… e houve quem ficasse muito feliz com isso.

 

     Éramos ingênuos? Não. Éramos patriotas, idealistas, sim; e, os idealistas, é muito fácil levar na conversa. Descartado, sem mais delongas, do rol – elaborado pela maior potência da época, a que mais se beneficiou da guerra – dos que “deviam” ou “precisavam” se desenvolver e descartados os benefícios financeiros ambicionados, o nosso País periférico, que se uniu, na primeira hora, aos que formaram a ONU, durante a Guerra Fria continuou buscando afirmar-se e ter voz efetiva no cenário internacional. Procurava realizar o potencial de Poder que parecia lhe ter sido prometido pelo Destino. E, para tanto, cuidávamos de nos ordenar da melhor forma e correr atrás do prejuízo, logrando, eventualmente, alguns bons resultados. Mas tanto as regras do “sistema” de Poder, formado de arranjos entre as Potências de fato, como as intenções das Potências de fato nunca foram muito fixas nem muito claras e confiáveis. 

 

      A 2ª Grande Guerra teve fim, e um Tribunal ad hoc julgou e condenou ao inferno aqueles que exacerbaram em atitudes de desrespeito ao princípio de igualdade entre os Homens por sua própria natureza. Tais atitudes lhes eram exclusivas? Não. Nem com essa condenação desapareceram por encanto da face da Terra. Mas costumam ser bem mascaradas sob rótulos diversos, até mesmo sob o de “libertação dos oprimidos” pelo preconceito ou coisa que o valha. Quanto à chamada Guerra Fria, que se manteve como guerra por razões especificamente econômicas e políticas, especificamente geopolíticas, seria o caso de nos perguntarmos se ela conseguiu, de fato, ter um fim, ou, do aspecto “filosófico”, só mudou de nome, de lugar, e alguns de seus personagens se transfiguraram, permanecendo bem acesos os “pressupostos teóricos” que a justificaram.

 

      A propaganda, e nada mais que a propaganda, continua hoje “informando” o vulgo da mesma forma que antes o “informava”. Propaganda da qual a “visão de mundo” do comum dos mortais continua dependendo. E continua dividindo, em nosso País periférico, multidões absolutamente desarraigadas, que obedecem a ordens dos mais poderosos “anjos” e “demônios” que são pela própria propaganda criados e recriados, desviando a atenção do que deveria ser pensado a sério – o Estado brasileiro. Essas “informações”, que são transmitidas ao vulgo em quantidade que por vezes o soterra, servirão de parâmetro para que ele, vulgo, julgue os que antes se envolveram e os que hoje se envolvem na Política nacional; e para que ele condene os… ora, os condenáveis!

 

      Hoje em dia, a nossa História anterior a 1988 se vê condenada porque, por uma especial conjugação de pressões externas e convulsões internas, não conseguimos fazer do nosso País “do futuro” o nosso País do presente. O Tribunal ad hoc que se vê criado para condenar a nossa História é a Imprensa, que é “soberana”, a “nossa” Imprensa, em processo que ela mesma há de chamar de “popular” e “democrático”… Isso podemos acompanhar no que vem sendo publicado desde sempre a respeito de grandes feitos e dos grandes vultos dessa nossa árdua História que comove ninguém, apesar de que muitas histórias da carochinha consigam muita gente comover; e pudemos acompanhar, mais recentemente, no que foi publicado especialmente durante todo o mês de Março, que se estendeu pelo mês de Abril… e continua, neste Maio, sendo matéria “quente”… resultando em que, no último dia 8 – o dia comemorado pelos Aliados como sendo o “da vitória” contra a manifestação dos mais infames arbítrio e ignorância de que temos notícia no mundo contemporâneo, dia este que, por aqui, já não mais encontramos razões para comemorar –, fosse aprovada, sem qualquer alarde, a revisão da Lei da Anistia pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado brasileiro. Foi o dia de uma batalha decisiva à vitória da propaganda, de seus comandos e de seus exércitos.  

 

      As “informações” que  Randolfe Rodrigues, um Senador do estado do Amapá eleito pelo chamado Partido da Solidariedade (a quem, exatamente, não se sabe), recebeu desde sua infância em Garanhuns-PE, nada mais que elas e apenas elas, foram o que o induziu a que apresentasse um projeto de Lei que “permite que militares e civis responsáveis por graves violações de direitos humanos durante o período da ditadura militar sejam punidos”. Seriam “informações” a respeito do que ocorreu bem antes, muito antes, de que o Senador Randolfe Rodrigues fosse concebido com aquela expressão de “ingenuidade” que a ninguém convence. Se estávamos em guerra durante o período denominado como “ditadura militar”, isso pouco nos importaria considerar: o inimigo não poderia ter sido tratado como um inimigo – ele seria um parceiro de jogos! E, para que os combates, ou, melhor, as “partidas” fossem esquecidas, as “informações” sobre esse período deveriam resumir-se a uma única palavra à qual seria atribuído um significado pleno, dramático, mítico: a palavra “porões”. E nada mais se faria necessário.

 

      “Porões” seriam lugares misteriosos, úmidos, mal iluminados, imundos, repletos de coisas enferrujadas e inúteis, freqüentados por ratos, morcegos, tarados e fantasmas… Imagine-se o pavor que provoca a mera alusão a tais “porões” quando a eles são vinculadas as palavras “ditadura” e, especialmente, “militar”… É de arrepiar! E imagine-se a repulsa que alguém que seja apontado como direta ou indiretamente próximo a militares, à tal “ditadura” e tais “porões” inspira. “Porões” vem sendo a palavra mais mastigada e saboreada mesmo por quem nunca viu um porão na vida. Ou principalmente por quem nunca viu um porão na vida, nem viu uma ditadura, nem conheceu militar algum. Transformou-se em palavra-ícone, muitas vezes até chique para ser usada em rodas “intelectualizadas”, palavra à qual podem ser atribuídos efeitos mágicos, fazendo-a capaz de substituir vários parágrafos ou até páginas e páginas de bons argumentos ou fatos; palavra-tema que merece pesquisas acadêmicas, que seduz aficionados de emoções radicais e roteiros cinematográficos; palavra rendosa, que dá crédito aos Governos e os anima a conceder bolsas de estudo, que hipnotiza todo mundo. A palavra é tão usada, sem se desgastar, que muita gente de pouca idade ou de pouco siso suporá que, antes de 1988, o País inteiro seria nada mais que uma cadeia de “porões” interligados, uma “rede” de “porões”. A palavra faz a festa. E embriaga e paralisa todo mundo, física e intelectualmente.

 

      Se as “informações” que recebemos a tal não se reduzissem e não nos paralisassem nem nos deixassem asfixiados e tontos, estaríamos hoje preocupados com o futuro de nosso Estado, estaríamos valorizando seu passado institucional, fosse qual fosse a história oficial; e não haveria quem, levianamente, fizesse de conta que guerra não é guerra, não haveria quem preferisse ignorar – quando não justificar – as atrocidades todas que foram cometidas, a céu aberto, por terroristas em suas aventuras guerrilheiras, os desvios todos cometidos por pseudo-intelectuais em aventuras jornalísticas e acadêmicas, em nosso próprio território. E não haveria quem os elegesse, nem quem elegesse seus devotos, os defensores de seus nichos de poder que se transformam em verdadeiros santuários.

 

      O que nos demonstra que o terror intelectual – modalidade de terror que hoje se pratica com desenvoltura em alguns meios prestigiados pela Imprensa e pela Academia – é bem mais violento, mais eficaz, mais sutil e mais corrosivo que qualquer ameaça física é que as atividades jornalísticas e as atividades acadêmicas, que se perpetuam nelas mesmas, não permitem que as atividades guerrilheiras contra a ordem do Estado, que foram substituídas pelas do narcotráfico ou nesta se incorporaram, sejam combatidas com algo mais que meia dúzia de bons conselhos. E que, agindo como paus-mandados de alguns imbecis com individual “sede de vingança” (?) ou apenas por estúpida esperteza e por submissão ao interesse e aos caprichos de Organismos Internacionais, os nossos Congressistas legislem à sua vontade em seu próprio benefício ou em benefício de outrem sem considerar o interesse do Estado brasileiro.

 

     Não é, exatamente, que tenhamos um Estado que “está onde não deve e não está, não de modo eficiente ao menos, onde deve”, como nos dirá Reinaldo Azevedo. A questão é muito pior. E muito mais grave. Nós já não temos um Estado, nem sequer sabemos o que seja um Estado, e isso já faz um bocado de tempo. Facilitado pela política alienada que se implantou no País a pretexto de ser “democrática” (?), um grupo de irresponsáveis, “gigantesco e tentacular”, invadiu o Executivo, o Legislativo e o Judiciário e governa a Sociedade inteira, esse monte de gente que não sabemos, nem ela própria sabe muito bem, por que se diz brasileira. A propaganda chama aquele grupo de “Estado”. E a Sociedade quase inteira acredita que de fato o seja. E, por isso, acreditará na propaganda de que “o Estado” esteja “de mais” em setores onde não deveria estar e “de menos” em segurança, em educação, em saneamento e urbanismo etc.

 

     O nosso Estado não está “de menos” nesses setores – ele apenas não está. E não está em qualquer setor que seja da vida nacional – nem está no petróleo, nem na energia, nem na água, muito menos estará no setor bancário. Ele apenas desapareceu. Não estará sequer no Haiti ou no Congo, onde estão uma tropa e Generais brasileiros, onde a ONU está, onde estão os Soldados da ONU. Estado é algo que, um dia, já tivemos. Hoje não temos mais. Nem sequer temos a expectativa de formá-lo novamente. Porque não temos mais a mínima idéia do que seja um Estado. Nem mesmo os que teriam por exclusiva função e por missão defendê-lo.

 

      E, com tanta propaganda de que a agressão que se fazia ao nosso Estado durante a Guerra Fria era uma “resistência” dos “bons” contra os “maus”, um movimento puro, desinteressado, romântico… “lírico, quase idílico, que considerava um pedaço de céu azul como uma força civilizadora…” (e isso aqui entre aspas, que é bonito, não é meu, é do Eça…) – tal como possam o hoje Senador Randolfe Rodrigues, ainda de cueiros na década de 1970, e muitos outros iludidos imaginar que deveria ser “a luta sonhada e desejada pelos exilados – propaganda essa que nunca foi de fato combatida, nem mais sequer foi contestada a partir da Lei da Anistia, é perfeitamente compreensível que haja quem hoje considere que a guerrilha fosse um programa alegre, adequado às férias com a família, ou até mesmo a uma lua-de-mel, que a “ditadura militar” atrapalhou com sua… “irracional truculência”… E que o regresso ao lar-doce-lar dos guerrilheiros-terroristas e demais fugitivos que lhes dedicavam simpatia deveria ser celebrado, para todo o sempre, com oferendas de empadinhas de palmito e beijinhos de coco, todo mundo lhes agradecendo de joelhos as inocentes e boas intenções, cantando “parabéns pra vocês” e contribuindo, com acendrado espírito cívico, para que a festa nunca, nunca mais, terminasse. Que gracinha…

 

      Querem saber de uma coisa? Ignorância, tudo bem. É triste, no entanto, é superável, ou pode ser contornável. Falta de caráter, tudo bem também. Não tem cura, no entanto, é controlável. Mas… gracinha? Gracinha eu não perdôo, não. Gracinha é deboche. Gracinha é imperdoável. 

 

 

  

 

  

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 – ou… Por que é preciso saber Português?

 

 

 

 

      Em https://www.youtube.com/watch?v=FZbDUfpQtJs&feature=player_embedded vê-se e ouve-se um trecho da entrevista de Lula à RTP.

 

      Ao ser perguntado, em dado momento dessa entrevista, sobre os efeitos do envolvimento dos envolvidos no Mensalão, Lula dirá, com todas as letras, que “não se trata” de gente de sua confiança. A Imprensa, com isso, fez um auê. Auê este que seria muito injusto, de acordo com os intérpretes de Lula a ele mais chegados, porque a frase teria um “sujeito oculto” – esse “sujeito” seria “o assunto”: “Não se trata (o assunto) de gente da minha confiança“.

 

      Haveria, então, uma “sutil diferença“. Uma diferença tão sutil, mas tão sutil será essa diferença, que quem não for petista não a encontrará – a diferença entre o nada e o coisa nenhuma.

 

      Pois bem: apesar de que possa ter dito nada, se Lula, como sempre, disse o que quis dizer, e se até os intérpretes de Lula dizem que Lula disse alguma coisa, o que ele disse, ele disse, sim. Que teria dito Lula?

 

      Em bom Português, o verbo “tratar” poderá ser transitivo direto (ex: faço questão de tratar mal quem aposta na ignorância do povo) e pode ser pronominal (ex: Esquerda e Direita nunca sequer se trataram). Quando dizemos, porém, “trata-se de” ou “não se trata de”, o verbo tratar será transitivo indireto (pede complemento preposicionado). Nem sequer admitirá voz passiva. Acompanhado da partícula “se”, esse “se” ganha o nome de “índice de indeterminação do sujeito”. Portanto, na frase com a qual Lula nada disse, mas com a qual algo foi dito, o sujeito será indeterminado.

 

      Um sujeito indeterminado não é um sujeito oculto. É indeterminado. E a diferença é nada sutil. O “assunto”, que foi levantado durante a entrevista que está gravada, não poderá, jamais, em tempo algum, ser um “sujeito oculto” na frase de Lula; e o que Lula chamou de “gente de minha confiança” será um objeto indireto.

 

      Por outro lado, se o assunto de que se tratava era o Mensalão – assunto escandaloso, que em “trapalhadas” envolveu diretamente muita gente do PT que, de fato, muita gente do PT pretenderia manter oculta para todo o sempre; se tratar do Mensalão implicará, é óbvio, tratar dos que nele estão envolvidos; se Lula afirma categoricamente que “não se trata” de gente de sua confiança… tratar-se-ia de que gente?

 

      É bem possível que alguns sujeitos envolvidos indiretamente no Mensalão tenham permanecido ocultos no processo… ele mesmo, Lula… quem sabe? Nós não sabemos… Mas sabemos que tudo isso é muito complicado…  E o que se retira disso tudo é que essa gente toda não merece confiança alguma, nem mesmo a dela própria.

 

      Tudo isso é muito complicado, sim, mas a língua portuguesa não é complicada, não. Não é, não. Não adianta querer enrolar… Dizeu, tá dizido!

 

      Entrevista na íntegra: http://www.rtp.pt/noticias/index.php?

 

 

 

  

  

 

 

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BOI DE PIRANHA

01-05-2014
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

       Não sou muito chegada às ficções, às aventuras fantásticas, muito menos aos romances policiais, menos ainda às histórias da carochinha, nas quais as bruxas são boas, os príncipes se transformam em sapos, os sapos se transformam em príncipes… Mas, em outubro próximo, teremos eleições, e coisas tão estranhas andam acontecendo nos últimos tempos que querer acompanhar as notícias é como ser obrigada a acompanhar, em capítulos, os roteiros de filmes repletos de feitiços, mistérios e terrores. Com direito a efeitos especiais para ninguém pôr defeito. A antiga “página policial”, que nos era dada, em geral, nas últimas folhas dos jornais, já não mais existe por desnecessária – as matérias antes a ela pertinentes se exibem na folha de rosto. Homicídios, roubos e furtos, de pequena ou grande monta, são o que, já faz tempo, de mais importante a Imprensa encontra para distrair nossas almas entediadas e vazias de ambições. E o pouco que nos digam os títulos, os artigos de fundo se encarregam de minuciosamente justificar.   

 

      A notícia mais empolgada e, para alguns, mais empolgante da semana passada foi a do falecimento do Coronel Paulo Malhães, que recentemente havia prestado depoimento à Comissão da Verdade. O Coronel teria sido um torturador. Fosse ou não fosse, ninguém a ele se refere como fosse um “ex”-torturador – mesmo que os vizinhos o admirassem como um homem “carinhoso, excelente pessoa, simpático e boa, um cara exemplar”. À custa da propaganda bem dirigida, todos os que o conheciam passaram, da noite para o dia, a recordar-se dele com “um embaralhado de sentimentos”; e alguém até diria que ficou “arrasada por aquele homem tão gente boa, que você gosta, que te trata bem, ter feito aquelas coisas terríveis.”

 

      A notícia dessa morte vem competindo ferozmente por espaço nas folhas impressas e nas telas com a da morte de um dançarino. Na portada do UOL um artigo com título e conteúdo líricos era anunciado: “Lugar bom para o torturador Paulo Malhães era a cadeia, e não o caixão” – e nem esse artigo nem outro qualquer nos esclarecerá qual seria o melhor lugar para o bando de terroristas que por todos são considerados “ex”-terroristas e hoje nos governa. Deve ser o Governo…

 

      O fato é que o “caso Malhães” insiste em permanecer como matéria “quente”, em suíte contínua. Se muito interessados no desdobramento desse caso, poderemos saber que Wadih Damous declarou que “as controvérsias em torno da morte do coronel Malhães alimentam suspeitas em torno do laudo médico no qual a causa da morte é descrita como ‘edema pulmonar, isquemia do miocárdio, miocardiopatia hipertrófica, evolução de estado mórbido [doença]’”. Este, que não será um caso comum “pelo passado dele e pelo o que ele representou … tinha de ter tido um acompanhamento federal. Não pode ser tratado como mera tentativa de assalto“. No entanto, Wadih Damous, que é um dos donos absolutos das verdades mais que absolutas na atualidade, não só as doutrinárias como as fáticas e as médicas, já solucionou o caso: não chegou a dizer que não existiria qualquer crime nesse mistério, mas imediatamente declarou que não existe mistério algum nesse crime – ele “sabe” que se trata de uma “queima de arquivo“. Muito agudo. Embora a Polícia Civil afirme que não há indícios que sustentem essa tese.

 

      Para exibir evidências que justificam a metodologia adotada no desvendamento desse mistério, Rosa Cardoso, José Paulo Cavalcanti Filho e Pedro Dallari participaram de reunião no Palácio Guanabara com o Secretário da Casa Civil do Rio, Leonardo Espíndola. Uma dessas evidências será o fato de que “entre as primeiras pessoas que souberam da morte do coronel Malhães está o também coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do Destacamento de Operações de Informações”, que, aos 31 exatos minutos antes de que a Imprensa desse o “furo de reportagem”, tê-la-ia informado em sua página pessoal. Muito estranho, realmente muito suspeito e, ao mesmo tempo, sem dúvida, bastante esclarecedor, que Malhães e Ustra, contemporâneos de caserna e acusados de semelhantes abominações, tivessem conhecidos em comum ou, inclusive, que as famílias de ambos tivessem contato… não é, mesmo? Também acho…

 

      O Coronel Malhães, disseram, teria sido asfixiado em sua casa na Baixada Fluminense. Nessa mesma casa, naquele mesmo momento, estavam também sua mulher e um funcionário. Que estão vivos. A ação portanto tinha um objetivo determinado. Imediato ou mediato. Matá-lo? Talvez sim, talvez não. Apenas assustá-lo? Remexer em seus pertences?  Sua coleção de armas foi roubada. Dizem. A Polícia Federal, chamada ao caso pela Comissão de Direitos Humanos do Senado, arrastou “três computadores, mídias digitais, agendas e documentos secretos da ditadura militar”. Dizem. “Uma série de documentos foram confiscados”. Dizem.

 

      Os Senadores aprovaram que fosse feita “diligência no Estado para acompanhar as investigações” e também trataram de “ser recebidos pelo ministro da Justiça”. Randolfe Rodrigues, do PSOL do Amapá, já avisou que a Comissão de Direitos Humanos não concorda “com o ‘tratamento’ dado pela Polícia Civil do Rio ao caso da morte de Malhães”; ele mesmo se mostra muito indignado com a possiblidade de que seja apresentada uma “confissão de caseiro como espécie de encerramento do caso”. Não se contenta com uma “versão rápida”: “Não aceito que esse caso seja tratado desta forma. … Seja qual for a razão da morte dele, foi negligência total. Por isso não podemos nos omitir mais do que outras instituições já se omitiram. Temos que acompanhar este caso”. Por sua iniciativa, foi criada uma comissão específica para esse realizar acompanhamento, composta por ele mesmo, Randolfe, João Capiberibe, do PSB também do Amapá, e Ana Rita do PT do Espírito Santo. Na opinião autorizada de Randolfe, Malhães morreu por omissão do Estado brasileiro e “existem elementos que não podem ficar só por conta da Polícia Civil do Rio.”

 

      Em suas preocupações, Randolfe se vê muito bem acompanhado. Com não permitir que a Polícia Civil do Rio se encarregue de sua função também concorda a mãe de DG, o dançarino da TV GLOBO que levou um tiro em fuga – contratou detetives norte-americanos para apurar o ocorrido e pretende levá-lo à Anistia Internacional… Pensando bem, se a Polícia Civil do Rio vale nada, não seria o caso do esforçado Senador sugerir que o mesmo fosse feito nesse caso tão “estranho” de que ora se encarrega?  

 

***

      Tudo bem. Em novembro de 2011, foi sancionada lei que criava a Comissão da Verdade que teria como objetivo “promover o esclarecimento circunstanciado dos casos de torturas, mortes, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres” e “casos de graves violações de direitos humanos” ocorridos entre 1946 e 1988, e determinava ser “dever dos servidores públicos e dos militares” colaborar com isso. Rousseff, uma das “ex”-terroristas no Poder, instalaria aos prantos a Comissão em Maio de 2012 já em meio a movimentos “intelectuais” de esculacho e escracho a Oficiais militares que serviram à Ordem nos anos mais recentes desse intervalo. Rousseff afirmava em discurso que aquele ato era “a celebração da transparência, da verdade de uma Nação que vem trilhando os caminhos na democracia, mas que ainda tem um encontro marcado consigo mesma. … A sombra e a mentira não são capazes de promover a concórdia…. O Brasil merece a verdade”, disse a presidente, “as novas gerações merecem a verdade … a força pode esconder a verdade, a tirania pode impedi-la de circular livremente, mas o tempo acaba por trazê-la à luz. Hoje esse tempo chegou“.

 

      O discurso foi feito na presença dos presidentes que a antecederam “nesses 28 anos benditos”: José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, cada um deles “responsável por esse momento histórico de celebração”, cada um deles tendo dado “sua contribuição para esse marco civilizatório, ponto culminante de um processo iniciado na luta pelo povo brasileiro, pela anistia, pelas eleições diretas, pela Constituinte, pela estabilidade econômica, pelo crescimento“.  

 

      A paixão sempre atrapalha o discernimento. Digamos que Rousseff pretendesse, com pureza d’alma, dizer a sua verdade aos ouvintes, uma verdade que a sua é, o que não duvido. Quem sou eu para duvidar? Mas há outras verdades a considerar. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, comentaria: “Eu acho que a presidente falou por todos nós, é um dia importante para o Brasil, com esse espírito de reconhecer a verdade, guardar na memória e ao mesmo tempo abrir as portas para uma reconciliação. Aqui é uma questão de Estado, não é política“. Um pouco difícil será entender o que possa ser “uma questão de Estado” sem que seja uma questão política. Mas não será difícil entender que o que a Anistia tentou resolver a Esquerda não permitiria, a qualquer custo, que fosse resolvido. E, para tanto, mostrava-se reconciliada e unida. Não permitirá. Isso nos restaria claro, e muito claro, suficientemente claro.   

 

       Mas, ora, falar de celebração, estabilidade econômica e crescimento é um bocado conveniente a um governo que pretenda ser reeleito. A aprovação do Governo Rousseff era inconteste naquele momento, em todas as regiões do País, em todas as camadas sociais. De repente, porém, as coisas começaram a se complicar, a ficar confusas e um pouco difíceis. Mais ainda justo no ano em que se completariam 50 após 1964, jubileu que os vencidos exaustivamente celebrariam (?) tentando demonstrar o “nazi-fascismo” que inspirava o Movimento que depôs João Goulart (já estamos em Maio e acabo de receber a comunicação da realização, nos dias 5, 6 e 7, das JORNADAS BRASIL-ALEMANHA –  “Por ocasião dos 50 anos do Golpe militar de 1964, a PUC-SP realiza um ciclo de debates no qual se discutirão aspectos importantes das políticas alemã e brasileira como o acordo Nuclear Brasil-Alemanha assinado em 1975, as políticas para grandes eventos e as relações da Alemanha com a ditadura brasileira”… A programação está em http://www.pucsp.br/jornadas-brasil-alemanha-50-anos-do-golpe-de-1964).

 

***

      De repente as coisas se complicaram? Deixemos o Mensalão, que já é matéria “fria”, de lado. Há uns dez dias, lembrava João Mellão Neto em artigo em O Estado de S.Paulo, que em 2011 a Petrobrás “era motivo de grande orgulho para todos nós, brasileiros. … No balanço referente a 2012, a Petrobrás despencou no ranking, ocupando atualmente um desonroso 120.º lugar. E o lucro? O que houve ninguém viu, o que se sabe é que sumiu… O mistério não é tão difícil de entender: da gestão do então presidente Lula para cá, tem sido notória a apropriação de recursos da empresa para fins outros que não a exploração exclusiva de petróleo.” (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,petrobras-de-escandalo-e-escandalo,1155520,0.htm)

 

      Que bom! Pelo menos um mistério terá sido solucionado. E a solução foi encontrada em fatos, não em suposições. A ninguém ela poderia ter surpreendido. Há quase um ano, em 24/06/2013, Fabiano Portilho já comentava em “O Fim de Lula e Dilma: Escândalo Bilionário na Petrobras é Maior que o Mensalão” – “A compra da refinaria de Pasadena, no Texas, pela Petrobras é o grande escândalo que o PT vinha abafando, mas acabou chegando ao Tribunal de Contas da União e com largas chances de aterrissar na Justiça Criminal.” Os fatos e os personagens da história já conhecemos: “O estranho negócio, que causou prejuízo de pelo menos US$ 1 bilhão à empresa e seus acionistas, tem como protagonistas pessoas muito próximas a Lula e, sob a ótica do escândalo, tem todos os ingredientes necessários para superar com folga o Mensalão do PT. No olho do furacão estão Guido Mantega, ministro da Fazenda e atual presidente do Conselho de Administração da Petrobras; José Sérgio Gabrielli de Azevedo, ex-presidente da estatal petrolífera e atualmente secretário no governo Jaques Wagner; Almir Guilherme Barbassa, diretor financeiro da empresa e presidente da Petrobras International Finance Co., a caixa de Pandora da empresa; Nestor Cerveró, diretor financeiro da BR Distribuidora; e Alberto Feilhaber, funcionário da Petrobras durante duas décadas e há alguns anos trabalhando na Astra Oil, uma das empresas do grupo que atraiu a Petrobras para a refinaria de Pasadena e depois largou a bomba nas mãos dos brasileiros”.

 

      Já se apontava nesse artigo que “o escândalo ganha contornos maiores e mais perigosos porque à época do negócio, que pode acabar em tribunal de Nova York a pedido de investidores internacionais, a presidente do Conselho de Administração da Petrobras era Dilma Rousseff.“ E se acrescentava o óbvio: “Acontece que nenhum ser humano minimamente lógico e dotado de inteligência, a ponto de ser guindado a cargos de direção em uma empresa como a Petrobras, aceita um negócio lesivo, como a compra da refinaria texana, sem que haja um plano diabólico por trás.” (http://www.portali9.com.br/noticias/denuncia/o-fim-de-lula-e-dilma-escandalo-bilionario-na-petrobras-e-maior-que-o-mensalao)

 

      Certo. Nenhum ser humano minimamente lógico e dotado de inteligência aceitará um negócio lesivo sem que haja um plano diabólico por trás. Nenhum. Pois alguém aceitou. E quem aceitou? Caramba! Foram os “ex”-terroristas! Um negócio lesivo a quem? Caramba! Ao Estado brasileiro, a todos nós! Se aceitaram, qual plano diabólico estaria por trás? Pouco importa. Porque tudo está meio confuso, e vai ficando cada vez mais difícil explicar, desvie-se a atenção do público. Se a Esquerda deve permanecer unida, para que o PT, contra o resto da Esquerda, triunfe glorioso nas eleições que se aproximam será preciso que ele cruze o Rubicão, enfrente uma guerra e saia dela como governante absoluto da República, transformando-a em um Império da Verdade. Alea jacta est. Jogue-se também, portanto, um boi de piranha naquelas águas de Março, com o que se evitará que o Partido e seus componentes sejam apontados como traidores e enterrados na poeira da História. E ninguém há de reclamar. Várias tentativas são feitas e todas são mal sucedidas. À falta de “quem matou” Jango, Juscelino ou Odete Roitman, nomes de projeção nacional, invista-se em “quem matou” Rubem Paiva.

 

***

      É quando um Coronel, reformado, 76 anos, saúde debilitada, ex-coordenador do Centro de Informações do Exército no Rio (CIE) durante o regime dito militar, apontado como fisicamente bastante parecido com Saddam Hussein (o que vinha a calhar), será procurado por uma advogada da Comissão da Verdade-RJ e um jornalista, sendo instado a comparecer a uma audiência no Arquivo Nacional, onde chegou em cadeira de rodas. Tendo feito uma ressalva, a de que deveria ser ouvido reservadamente, terminou por aceitar falar na presença da Imprensa, “desde que repórteres não fizessem pergunta”.

 

      O Coronel Malhães poderia ter ficado calado, poderia ter-se recusado a responder a qualquer questionamento ou a qualquer acusação ou mesmo qualquer insinuação dos ínclitos integrantes da Comissão da Verdade, além de que qualquer resposta que lhes desse não necessariamente faria prova contra si mesmo. Segundo a Imprensa, “em ambas as declarações, ele confirmou ser ele o responsável pelo desaparecimento de Rubens Paiva”. A respeito do que foi publicado de seu depoimento, no entanto, diria que “foi mal interpretado nas entrevistas aos jornais O Dia e O Globo, quando falou ‘por meio de parábolas’.”

 

      Para bem compreender uma parábola será necessário um mínimo de inteligência. A conclusão da Comissão da Verdade foi, nas palavras de um de seus integrantes, José Carlos Dias, a de que “o coronel foi evasivo em várias respostas”. Mesmo assim, “o caso Rubens Paiva” estaria “esclarecido”, uma vez que, ainda que ele tenha dito que não participou da missão, isso “não importa, porque ele reconheceu que houve a missão“.

 

      Não, nenhum ser humano minimamente lógico e dotado de inteligência aceita um negócio lesivo sem que haja um plano diabólico por trás. O Coronel Malhães aceitou um negócio lesivo. Lesivo a ele mesmo e a seus camaradas de caserna. Não estando em missão, não considerou o risco indireto de que também pudesse ser lesivo ao País. O Coronel Malhães teria um plano, por certo. Farto da ficção com que os escribas comissionados da Nova República insistem em cobrir a História real e suas verdadeiras razões, transformando em personagens fantásticos os que dessa História participaram, resolveu dar fim a, pelo menos, parte dela. E confessaria: “Eu só disse que fui eu porque eu acho uma história muito triste quando a família diz que leva 38 anos querendo saber o paradeiro do corpo. Não sou sentimental, não. (Falei) Para não começar uma guerra para saber onde estava o corpo”, disse ele.

 

      É… A paixão sempre atrapalhará o discernimento…

 

      Tudo bem, também. Logo em seguida, já em Abril, tendo cumprido o papel de boi de piranha que lhe foi destinado pelas novas instituições nacionais e por ele mesmo foi aceito, o Coronel Paulo Malhães estará morto. Com o assalto à sua casa, poderá ter morrido inclusive de susto. Mas, em um país no qual os mortos se transformam em mais importantes que os vivos, por interesse exclusivo dos mais vivos entre esses vivos, o assunto ainda renderá muito. Além de que Wadih Damous foi tão categórico que nem eu mais duvido disso – foi “queima de arquivo”!

 

      E, se é que de fato foi, só uma pergunta nos poderia restar: a quem interessaria “queimar” esse “arquivo” que já havia sido tão escancarado e tão remexido, há tão poucos dias? A quem interessaria remexer em documentos que guardasse? A quem mais poderia interessar que “agendas e documentos secretos da ditadura militar”, que, dizem, estariam na casa do Coronel, viessem à luz? Só posso imaginar que apenas àqueles a quem a palavra de Malhães não bastou. Porque queriam mais. E, como minha imaginação é um bocado fértil, não duvido, tampouco, de que a intenção seja a de que tais documentos possam ser reorganizados e recheados da forma mais “correta” e mais efetivamente pertinente a uma certa “verdade” que, a qualquer custo, precisa ser demonstrada – nem que seja como o são as demais “verdades” que nos são reveladas, com recurso a uma “compatibilidade criativa”, a exemplo da “contabilidade” que nos vem sendo apresentada.   

 

      Mas isso é assunto que só importaria aos muito vivos. E a ninguém mais interessará sequer especular. Todo mundo já está para lá de farto com tudo isso. Não está, não? Eu estou. E não sou sentimental. Qualquer dia desses, saio, eu mesma, às ruas dizendo que quem matou Ulisses Guimarães fui eu. E dei fim ao corpo para que não fosse reconhecido. Mas também matei Mario Kosel e aquela mais de uma centena daqueles que alguns imaginam que perderam a vida nas mãos da esquerda santa. E matei Carlos Lacerda. E matei Felinto Müller. E matei Castelo Branco. E matei Getúlio Vargas. E também Gregório Bezerra. E por que não Tiradentes? Matei, sim! Eu matei.  

 

      Com este meu depoimento público, de extrema e incontestável relevância, resolvidos os mistérios todos, talvez deixemos os mortos em paz, talvez consigamos pensar apenas em coisas sérias e realmente dignas de nossa atenção hoje em dia; e talvez possamos, por fim, começar a querer dar alguns passos à frente.

 

 

 

  

  

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

       Um Filósofo, Professor de uma das mais conceituadas Universidades do País, que goza de espaço privilegiado em jornal de considerável circulação e não costuma ser muito estúpido em suas manifestações, levantou há alguns dias (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2014/04/1443306-por-uma-direita-festiva.shtml) uma bandeira e uma plataforma políticas: é preciso criar-se uma “direita festiva”

 

      Por quê? Ele explica: porque “o maior desafio para um jovem estudante liberal no Brasil é pegar mulher”; porque não “pode haver paraíso melhor para se conhecer meninas ‘donas do seu corpo’ ” que “os cursos como psicologia, letras, ciências sociais, pedagogia e afins” (estaria o curso de Filosofia entre esses “afins”?) – eles são um “celeiro de meninas que curtem papo cabeça e política”, mas são “todos de esquerda”; porque “quando liberais se reúnem há uma forte escassez de mulheres, o que é sempre um drama. E quando junta muito homem falando papo cabeça sem mulher por perto, todos ficam com cara de Sheldon [os não iniciados podem ser esclarecidos em http://pt.wikipedia.org/wiki/Sheldon_Cooper]. Sem mulheres, tudo fica chato em algum momento. Como resolver um problema sério como esse?

 

      Segundo o Filósofo, esse sério problema se resolveria ao ser criada uma “direita festiva”, ora! Simples assim.

 

      Eu diria que esse cidadão muito se equivoca. Não faz falta criar-se uma “direita festiva”: a nossa “direita festiva” já existe, e não é muito difícil encontrá-la. Ele mesmo, o nosso cronista-filósofo, é a prova disso, ao vivo e em cores; ele mesmo se demonstra como um dos mais legítimos representantes dessa nossa “direita festiva” que se manifesta assiduamente nos Partidos políticos, nos palanques, nos veículos de comunicação de massa e em nossas salas de aula, de diversas formas. Mas até a festividade tem limites. Então, eu diria também que ou ele bebeu antes de escrever aquela… bobagem (?), ou pirou de vez, ou foi cooptado pela esquerda e tratou de desmoralizar todos aqueles que são apontados como sendo “de direita” – e assim o são por opor-se frontalmente à demagogia de uma esquerda que é e nunca deixou de ser festiva, nada séria, mesmo e principalmente nas atitudes e nos discursos dos mais radicais “companheiros”.

 

      De um jeito ou de outro, esse cidadão destrambelhou. Perdeu completamente a compostura. Estará se achando engraçadinho? É de assustar! Muito embora o voluntarismo seja uma “filosofia” bastante freqüentada tanto pela dita direita quanto pela dita esquerda (conferir o muxoxo magoado de um “analista político” quando “suas verdades” não se comprovaram como verdades verdadeiras tal como gostaria que se comprovassem em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/2014/04/1444577-a-verdade-e-suas-versoes.shtml), exceto em Lula da Silva, em Rousseff e em Chauí, nunca vi tanta asnice festiva acumulada em tão poucos parágrafos.

 

      Em suma: como a esquerda festiva chegou ao poder, como na oposição se destaca uma direita festiva, como aqueles que são conservadores no mais elevado sentido do termo não se revelam, não se organizam e não se impõem, é possível compreender por que esse nosso País se desmancha sob nosso olhar complacente – porque “A” gloriosa festiva, em suas alas de esquerda, de direita ou de centro, sempre terá sido e será, em todos os tempos, “a tendência hegemônica” na Política. E também poderemos compreender por que a boa direita, a saudável, a consciente, preocupada, bem intencionada, nacional, não se organiza – não se organiza exatamente porque os festivos todos tomaram conta do pedaço e a sufocam com suas “filosofias” quando não também com suas “psicologias”, sem lhe permitir qualquer espaço de manobra.

 

      Quando, no facebook, comentei a respeito desse texto tão “filosófico”, alguém, que estúpido também não é, pulou em sua defesa: ”Pondé está certo. Como o mal falado Freud, a questão TAMBÉM é sexual.” Pelo visto, o texto terá também um forte conteúdo… “psicanalítico”… a considerar… Contestei: “É, né? Você acha que é… Pondé acha que é… Então deve ser… E o vinho? Estava bom?” A resposta foi: “A situação é ridícula, não a exposição da situação. Sobre o vinho, difícil não estar bom.”

 

      Realmente, é a situação que é muito ridícula – a situação, não a exposição. Expor-se a essa situação não é ridículo – é apenas deprimente. A situação, não a exposição, é ridícula a começar porque é não mais que ridículo que alguém se preocupe com que varões jovens ou velhos tenham facilidade ou dificuldade em “pegar mulher“. Ridículo também será um Filósofo, um Professor Universitário, que jovem já não é, discorrer a respeito de conceituais dificuldades para “pegar mulher“. E mais ridículo ainda é isso ter sido feito por escrito, no espaço de uma coluna de um jornal de grande circulação.

 

      Aliás, para “pegar mulher” ou pegar qualquer coisa, bastará qualquer imbecil jovem ou velho, liberal ou não, interromper qualquer hipotético “papo-cabeça” que o entretenha e dispor-se a pagar que nem precisará assoviar em qualquer das inúmeras esquinas da vida. Na Universidade, inclusive, a oferta dos serviços é farta e variada (conf. p.ex. em http://www2.uol.com.br/vyaestelar/garotas_de_programa_de_classe_alta.htm), e tem sido também justificada – inclusive e principalmente pelos ditos liberais, que são, sem dúvida alguma, bastante coerentes – pelo alto custo dos cursos, sejam esses cursos quais forem. Nada disso é bom, não, não é, assim como nada bons serão muitos dos vinhos “de marca”. E deprimente, não ridículo, é também ver o lixo em que a Universidade brasileira se transformou. E ver que, com isso, ninguém se preocupa.

 

      Além de que, se a ironia bem articulada pode ser considerada um sinal de inteligência, o deboche é nada mais que ridículo, qualquer que seja o estágio de evolução de uma “‘vibe’ darwiniana“. É de um deboche explícito toda essa situação. Mais que deboche, porém, mais que desaforo, mais que uma ofensa inequívoca, é muita ignorância alguém encher a boca para afirmar que “as meninas destetam [?? – SIC] economia, essa ‘ciência triste’, porque atrapalha a alegria de viver”.

 

      O que falta de fato à nossa direita, se direita ela de fato for, é exigir, dela mesma, mais decoro, é cuidar de ser um pouco mais séria e minimamente mais respeitosa com quem merece, por princípio, algum respeito – nós mesmos. É dobrar a língua quando falar do que é nosso, porque nosso é. Além de que nenhuma proposta e nenhuma prática de fato “de direita” (por oposição à cretinice das propostas e das práticas vigentes) conseguirá criar-se neste País caso a direita se predisponha a disputar adeptos com a esquerda usando as mesmas armas e a mesma “filosofia” cujo expoente máximo consagrado entre nós foi Jece Valadão.  

 

      Por fim, quem pugna pública ou reservadamente por uma “direita festiva” para resolver um problema que liberais estejam enfrentando para pegar mulher” não poderá reclamar do comentário feito pela “esquerda-caviar”, que festiva e só festiva é, encastelada na Revista Piauí (http://revistapiaui.estadao.com.br/blogs/herald/celebridades/ponde-anuncia-celibato). Não poderá, não. Porque faz por merecer. Que papelão!

 

 

 

  

  

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

      É divertido, é divertidíssimo acompanhar a velha guarda dos ditos socialistas enrolando o rocambole de idéias recheado de goiabada cascão que vem sendo produzido, para venda no varejo, desde que ela ficou de mal com o PT. E ela só ficou de mal com o PT porque o PT é muito guloso e monopolizou as atividades no atacado, trazendo-lhe prejuízos incalculáveis. Afinal, uma boa indústria precisa ser bem administrada sem que se queira ir com muita sede ao pote.

 

      É ainda mais divertido porque está ficando cada vez mais difícil saber que vem a ser, exatamente, o tal Socialismo e quem seriam, exatamente, os tais socialistas. Enrolando-se nesse mesmo rocambole, tentando justificar-se como a vanguarda e como um baluarte histórico da moralidade, da democracia e do… progresso, cada um por si e “a esquerda” por todos, uns lambuzam os outros querendo que engulamos, em seco, as cascas, os caroços e até mesmo alguns ossos.

 

      Por exemplo, Caio Gorentzvaig, que foi candidato a deputado federal em 2010 pelo PPS(ex-PCB)-SP, era, até 2009, proprietário da Triunfo Petroquímica; e só agora acusa a Petrobrás de ter vendido sua participação naquela empresa (que teria sido “estranhamente expropriada”) para a Braskem (Grupo Odebrecht) por R$ 118 milhões, quando ele mesmo, Gorentzvaig, oferecia R$ 355 milhões (https://www.youtube.com/watch?v=wvCluNRVcsg). Não há algo aí que parece meio… esquisito…?

 

      Já Fernando Gabeira, entre outras coisas em tantos outros momentos, nos dirá em seu artigo “O farmacêutico do ar” (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-farmaceutico-do-ar,1152251,0.htm), o seguinte:

 

As coisas andam esquisitas. Ou sempre estiveram, não sei. … Estamos em ano eleitoral e Dilma, nesse cai-cai. É compreensível que as esperanças se voltem para Lula como salvador de um projeto em ruínas. Mas como salvar o que ele mesmo arruinou?O esgotamento do projeto do PT é também o de Lula, em que pese sua força eleitoral. Ele terá de conduzir o barco num ano de tempestades…. Que importância tem a demarcação rígida de terrenos, se estamos diante de fatos morais inaceitáveis, como a corrupção na Saúde, o abalo profundo na Petrobrás, a devastação da nossa vida política? … É um consolo estar nas nascentes do São Francisco, ver as águas descendo para a Cachoeira Casca Danta [sic]: o lindo movimento das águas rolando para sentir a mudança permanente. Sei que essa é uma idéia antiga, de muitos séculos. Mas para mim sempre foi verdadeira. É o que importa. … Uma das grandes ilusões da ditadura militar foi interromper a democracia supondo que adiante as pessoas votariam com maturidade. A virtude do processo democrático é precisamente estimular as pessoas a que aprendam por si próprias e evoluam. …  De certa forma, são vítimas da megalomania, do ufanismo, de todas essas bobagens de gente enrolada na Bandeira Nacional comprando refinarias no Texas, deixando uma fortuna nas mãos de um barão belga …

 

      Quem nos trouxe, enrolados na Bandeira Nacional, a tantos “fatos morais inaceitáveis, como a corrupção na Saúde, o abalo profundo na Petrobrás, a devastação da nossa vida política”? Quem seria responsável por eles? A “ditadura militar”, que teria interrompido “a democracia supondo que adiante as pessoas votariam com maturidade”? Ah… sempre desconfiei daquela tal de “ditadura”… deve ter sido por culpa dela que Ulisses Guimarães, por exemplo, um de seus mais destacados, argutos e fervorosos oponentes, atravessou o período sem se levantar um só minuto sequer de sua cadeira no Congresso (tendo sido, aliás, reeleito por onze mandatos consecutivos desde 1951, até que morreu em 1992… – e, surpreendentemente, ninguém ainda levantou a hipótese quase tese a comprovar-se de que ele teria sido assassinado…). Ele só não se levantou daquela cadeira porque o momento não era democrático… antes, sim, ele era; depois, voltou a ser; mas durante um tempo a democracia foi interrompida. Pelo visto, Ulisses continuava a ser eleito (mas como ele era eleito?) porque as pessoas que votavam nele (mas elas votavam? Ué…!) e em outros tantos da oposição tão simpática às liberdades, igualdades e fraternidades socialistas não o faziam com maturidade… e, por isso mesmo, porque o processo não era virtuoso, elas nada aprenderam e não evoluíram. Aqueles foram, sim, de fato, anos de chumbo… Dá para entender por que chegamos onde chegamos.

 

      Dá pra entender e é um bocado divertido… tudo isso é muito divertido… E Gabeira é um gozador. Um demagogo, um artista, quase um poeta. Sempre foi. Nada contra os poetas, desde que possamos ler o que escrevem e ouvir o que dizem como apenas poesia, e desde que se dediquem a fazer bons poemas, não má política; e nada contra os artistas, profissionais ou amadores, desde que não façam de uma tanga de crochê, da folha da maconha, da produção da coca, da torcida por um apagão generalizado etc. etc. uma bandeira “revolucionária”. Gabeira oferece espetáculos, os mais recentes, não resta dúvida, bem mais estéticos que os anteriores e bem menos estúpidos que os espetáculos oferecidos pelos seus ainda companheiros de aventura; com o que vai ganhando aplausos da platéia que se considera intelectualmente “refinada” e, por isso, não se preocupa com “a demarcação rígida de terrenos“… Aliás, se isso nunca foi levado a sério, por que agora deveria ser?

 

      A velha guarda dos socialistas nos surpreende, todas as semanas, preocupadíssima com o nosso País, com discursos lindos, cheios de graça – não só com discursos pintados de muito verde, amarelo, azul e branco como inclusive com alguns discursos que poderiam ser atribuídos a autênticos “guerreiros” liberais, da ala mais radical… E, assim, “a esquerda” (??), por mais que apronte das suas, poderá continuar a ser considerada como a vanguarda e como um baluarte histórico da moralidade, da democracia e do… progresso…  e continuar se (e nos) lambuzando ao pôr a mão na massa para enrolar seu rocambole.

 

       “As coisas andam esquisitas”? Não, elas não andam mais “esquisitas” do que sempre andaram. Eu cá bem sei disso. Elas sempre foram muito “esquisitas” e continuam tão “esquisitas” como sempre estiveram. Só não vê isso e só não sabe disso quem não quer ver nem saber. Mas, como a água lava tudo, deixemos “o lindo movimento das águas rolando para sentir a mudança permanente”…  Essa verdade secular é o que nos deve importar, nada mais.

 

      Assim, cabe-nos apenas consumir rocamboles que nos inflam sem nos nutrir e que, já suficientemente balofos, continuamos a comprar empacotados, sem regatear, nas lanchonetes das esquinas da vida. A nós cabe continuar prestigiando os talentos culinários e a extraordinária e inesgotável criatividade político-literária nacionais. E já não é muito? Para que nos preocuparmos com algo mais que isso?

 

 

 

  

  

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

ou

QUANDO OS FINS JUSTIFICAM A NOSSA VÃ … “FILOSOFIA

 

  

nós que nos amávamos 2

 

 

      É muito triste, mas é interessante observar a compulsão generalizada, que ataca, tal como uma virulenta epidemia, todos os que nasceram antes, durante ou logo depois de 1964, levando a cada um a “necessidade” febril de contar a todos, em frenesi maníaco-depressivo, a “sua história” vivida ou imaginada durante o período do regime dito “militar”. Deveria também eu querer contar a minha? Não é das mais alegres…

 

      Interessante também é que, com isso, substitui-se a pesquisa dos fatos por uma pesquisa de depoentes aflitos por divulgar a sua versão dos fatos. O que lhes dará importância histórica – e talvez até lhes traga um reconhecimento internacional. E, com isso, obtém-se não apenas um disse-que-disse festivo como o que se faz em uma feijoada de bairro, mas também uma pseudo-história do País, uma colcha colorida que nos deverá cobrir por completo, montada por justaposição, com o acréscimo lateral de retalhos desalinhavados e desarticulados, de cores destoantes, bordados com traições, ódios, ressentimentos, desconfianças, arrependimentos, emoções estritamente individuais, particulares. Opiniões. Os fatos reais simplesmente desaparecem. Desaparecem, portanto, as razões de fato. Portanto desaparece também a necessidade de discernimento e desaparecem as relações entre causas e conseqüências. Desaparece o que poderia costurar esses retalhos todos e, assim, se essa colcha que nos cobre for puxada por qualquer de suas pontas, ela se desmontará. Por isso, ninguém se atreve a tocar nela.

 

      Foi interessante ler, há uns dois dias, no “depoimento” de um ex-Embaixador e ex-Ministro da Fazenda que nos conta a “sua” particular “história de 1964”, que “os americanos de então não se pareciam aos trogloditas da era Reagan ou de Bush filho. Remanescentes da Presidência Kennedy, crentes na Aliança para o Progresso, partilhavam com Johnson a fé no ativismo social das leis contra a segregação, dos programas de saúde e assistência aos pobres da ‘Great Society’. Mas [e o grifo aqui é meu] eram soldados da Guerra Fria, dispostos a pagar, nas fatídicas palavras de Kennedy, qualquer preço e confrontar qualquer adversário para assegurar a liberdade.” [1]

 

      Esse “mas” será a chave da compreensão do discurso. De que nos fala o sr. Rubens Ricúpero? Estará ele nos informando a respeito da psicanálise íntima do estranho ser norte-americano ou nos estará falando de razões de Estado – as mesmas razões que justificariam o ofício do Diplomata e a função do Ministro? Em que pensava ou em que achava e ainda acha que deveria pensar o sr. Rubens Ricúpero, para quem a coincidência entre a Guerra Fria e os acontecimentos em 1964 no Brasil teria sido apenas “fatalidade”, quando, por exemplo, “era conselheiro da embaixada do Brasil em Washington (EUA)”?  

 

      Se essa coincidência foi uma “fatalidade” é que não se deveu a causas políticas. Foi uma… “fatalidade”… Deveu-se, então, a alguns desarranjos no humor da Natureza, por certo… E não terão, tampouco, existido causas políticas, em que o poder e as liberdades estivessem em jogo em nosso País, para que se desse “a polarização e a radicalização da sociedade brasileira” – que não terão sido provocadas, segundo suas próprias palavras, pelos “americanos” (e “americanos” são “eles”, nós não somos americanos… Que seríamos, então?).

 

      E o discurso prossegue: em 1964, “com o acirramento do conflito ideológico mundial [,] um fenômeno nacional” nos fez “perder 20 anos de democracia”.

 

      Pensemos um pouco: se não houvesse a Guerra Fria e se nada a ela se vinculasse, que extraordinário fenômeno nacional teria ocorrido em 1964? Por que ocorreria? E, tendo ocorrido, por que a sociedade brasileira se dividiu? Pelas boas? Com o resultado dessa divisão que degenerou em um enfrentamento – ou seja, em um conflito armado entre inimigos, raios!, mesmo que ele não se tenha alastrado por toda a sociedade – com a vitória de quem aparentemente o venceu teríamos perdido, de fato, 20 anos de democracia? Apenas 20? Aqueles tais 20 que não foram bem 20, em que as eleições para Presidente da República eram indiretas e as demais instituições todas seguiam funcionando? Perdemos porque a esquerda que foi contida não era esquerda, era o Bem, que combatia o Mal que os “americanos” representavam? Ou o que já perdemos são 30 anos – exatamente aqueles 30 que vieram após 1985, quando a dinastia da então oposição voltou ao trono? Se tanto nos amávamos, por que a divina esquerda, que se abancou, “soberana”, no poder há 30 longuíssimos anos, ainda nenhum – e eu disse nenhum! – de nossos problemas estruturais resolveu, dedicando-se apenas a destruir o que foi feito, a impedir soluções eventualmente aventadas durante o regime dito “militar”, a manter e cultivar problemas que apenas se agravam sobre os quais outros mais se acumulam? Nossas instituições hoje funcionam? Às mil maravilhas? Francamente, mesmo que não tenhamos quaisquer escrúpulos, mesmo que o que seja bom tentemos faturar e o que seja ruim tentemos esconder, se todas as parabólicas do universo podem, por acaso, transmitir o nosso discurso, será interessante demonstrar um mínimo de inteligência. Ou de coerência.

 

      Outro que nos quis “esclarecer” com sua opinião particular, e sempre nos espanta com o que poderia ser sua “ingenuidade filosófica”, esse, ontem, foi o sr. Jânio de Freitas. Diz ele que, para que o “brado uníssono de ‘ditadura nunca mais’” se transforme em realidade, “o ensino das escolas militares precisaria passar por reformulação total. A do Exército, mais que todas. Nas escolas militares brasileiras não se ensinam apenas as matérias técnicas e acadêmicas apropriadas para os diferentes ramos da carreira militar. Muito acima desse ensino, as escolas militares ocupam-se de forjar mentalidades. … As escolas militares não preparam militares para a democracia.” [2]

 

      Bem, se fosse uníssono esse brado, Nelson Rodrigues, gato escaldado e ressabiado, haveria de nos dizer o puséssemos, com nossas barbas, de molho. Não é uníssono porque há muitos que desejam exatamente uma ditadura, apesar de que “não aquela”. Quais seriam, porém, na imaginação e nos versos do sr. Jânio de Freitas, as finalidades do ensino de matérias apropriadas aos diferentes ramos da carreira militar? As Escolas militares deveriam preparar seus alunos para quê? Para que serviria a carreira militar e por que teria essa carreira tantos ramos? Se as Escolas militares, que militares são, ensinam matérias técnicas e acadêmicas apropriadas para os diferentes ramos da carreira militar, elas não mais as deveriam ensinar? Deveriam concorrer com as Faculdades de Serviço Social? Que mentalidades deveriam se preocupar com forjar? Mentalidades assistencialistas? Devemos manter Escolas militares por quê? Para que devemos tolerar – desejar nunca! – que haja Oficiais militares entre nós? Até quando?

 

      E nosso jornalista acrescentará mais uma condição para o sucesso do processo “democrático” que deve se antecipar em “uníssono”: a de “que se propague a noção de soberania, tão escassa nos níveis socioeconômicos que influenciam a condução do país.” Isso porque, diz ele, citando o artigo de Ricúpero, “no governo Castello Branco, os ‘reformistas’ conduzidos por Roberto Campos sujeitavam aos americanos [sic] até a revisão do currículo escolar. Se a imaginação conseguir projetar a mesma conduta para o sistema financeiro privado, por exemplo, pode-se ter uma ideia dos obstáculos que a construção do desenvolvimento brasileiro enfrenta.”

 

      Se, para resolver nossos assuntos internos (e externos), buscamos, até hoje, exemplos no exterior e os conselhos dos considerados muito sábios técnicos estrangeiros, sejam eles do Leste, do Oeste, do Norte ou do Sul, é porque nos julgamos e nos mostramos, aos demais e a nós mesmos, absolutamente incompetentes e incapazes de equacioná-los e resolvê-los por nossa própria conta, nosso próprio risco, nossas próprias iniciativa e inteligência. Nenhuma outra razão o justificaria. Não haverá qualquer receita pronta estrangeira que seja menos danosa ou seja mais adequada a ser adotada em nosso País para educar a nossa gente. Todas elas carregarão “soluções” de acordo com a visão e o interesse, com as “verdades” do estrangeiro, e impedirão que se forme qualquer boa visão nossa a respeito de nós mesmos. Conclusão elementar, esta, que decorre de elementares noções de divisão de poderes no mundo e de geopolítica. Mas não será necessário que sejamos muito estudiosos e nos debrucemos noite adentro sobre documentos abertos ou sigilosos – sejamos apenas um pouco curiosos e um pouco conseqüentes, pelo menos: nossas Escolas, hoje, depois de tantas reformas, são “nossas”? Apresentando o resultado que nos apresentam, elas estão de acordo com nossas necessidades? Ou são fruto da inspiração de organizações internacionais e de acordos interestatais, tais como os celebrados no âmbito do Mercosul, que interferem em nossa legislação, em nossos objetivos e em nossa mentalidade?

 

      Mas fé é fé. Sabemos disso. E o sr. Jânio de Freitas, ao que tudo indica, quer que creiamos nele e que creiamos em que ele crê firmemente em que o capitalismo é coisa de gringo, assim como os filmes de faroeste, apesar de que a conduta do “sistema financeiro privado” possa ser espontaneamente nacional. Complicado, isso. E quer que creiamos que ele crê em que soberania é assunto que se resolve com aguda esgrima verbal entre canapés de caviar e uma taça de poire ou de champanhe e/ou alguns palavrões e algumas anedotas entre pastéis de queijo e caldo de cana.

 

      Conforme ele mesmo proverbia, “o certo é que a história não faz gentilezas”. Sabemos disso, também. Aprendemos não nos livros, mas na própria carne, dia após dia. Mas, também ao que tudo indica, tanto os militares quanto os diplomatas brasileiros, que há alguns anos já gozam em sala de aula de um excesso de “filosofia” de quintal e mais ainda lhes querem fornecer, muito logo não mais atentarão a esse provérbio ou o porão seriamente em dúvida. Não será deles a culpa…

 

      Não. E nem o sr. Jânio de Freitas nem o sr. Rubens Ricúpero é um ignorante. Nem um nem outro é burro. Muito menos algum deles é ingênuo. Eles, como muitos outros, do alto de suas torres de marfim, citando-se uns aos outros, apenas se consideram merecedores do exclusivo direito de manter convicções “uniformes, planas, infensas à reflexão, e, por aí já está claro, ideológica e politicamente direcionadas”. E de tentar nos convencer com os argumentos de seus “depoimentos”. Ou tentar nos obrigar a aceitá-los como sacrossantos, calando a “heresia” de seus adversários.

 

      Ou seja, eles apenas nos consideram todos burros. Estupidamente burros. E talvez o sejamos, de fato. Porque só uma burrice que chegue às raias da insanidade mental explicará por que nos mantemos impávidos, desfrutando de, “há tantos anos, tão igual solidariedade e defesa dos atos” dessa esquerda chinfrim, sub-literária, mal intencionada, que se impôs nas Escolas e no governo de nosso País em nome das “liberdades”, em atos que “para a lei e para a democracia, são criminosos, muitos de crimes hediondos e de crimes contra a humanidade.” Tal como, condenando e destruindo obras concluídas ou fazendo empacar os projetos iniciados durante o governo dito “militar”, valer-se da fome, da sede, do isolamento em locais insalubres, da miséria, da ignorância e das eternas expectativas da população, distribuindo esmolas, promessas e pacotes de expediente como medidas de segurança, para inchar as urnas eleitorais de votos em seu próprio benefício, por exemplo.

 

      Talvez, em 1964, os norte-americanos tivessem aqui tentado, sim, como afirma o sr. Rubens Ricúpero, “reconstruir um país desde o zero”. Se tentaram, não deu certo. Mesmo porque seria muito difícil ter dado certo, estando o nosso País, como dizem que estava, “nas mãos dos militares” brasileiros, que conheciam e respeitavam a nossa História. A intenção hoje, no entanto, seja lá de quem for, talvez seja destruí-lo até o nada. Pelo menos, é o que tudo nos indica. Quem se dispõe a defendê-lo? Quem se dispõe a nos defender?

 

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[1] http://www1.folha.uol.com.br/colunas/rubensricupero/2014/03/1433372-minha-historia-de-1964.shtml

Minha história de 1964

31/03/2014    

Além de Marcos Sá Correa, autor do furo jornalístico da operação “Brother Sam”, devo ser dos raros brasileiros que queimaram pestanas sobre os documentos secretos da Biblioteca Lyndon Johnson, em Austin, Texas. Na época, em 1975, eu era conselheiro da embaixada do Brasil em Washington (EUA).

Naquele clima de tímida abertura do general Geisel e incipiente relaxamento da censura, estourara como bomba a revelação, pelo “Jornal do Brasil”, de que o governo americano tinha preparado um plano de contingência para apoiar logisticamente os militares rebeldes, caso houvesse luta prolongada em abril de 1964.

Dias depois da publicação, recebi instruções sigilosas para verificar em Austin o que mais continha de comprometedor o arquivo secreto do presidente Johnson. Como a parte espetacular já havia sido divulgada pelo jornal, concentrei-me nos meses de preparação do golpe e, sobretudo, na colaboração que se seguiu.

Despachei ao Itamaraty quilos de documentos. Até hoje não sei se alguém chegou a ler a maçaroca ou se os papéis se juntaram ao mar morto de arquivos nunca lidos.

O que me impressionou de saída foi a intimidade que se criou entre funcionários americanos chefiados pelo embaixador Lincoln Gordon e a equipe tecnocrática incumbida de planejar o governo Castelo Branco, dirigida por Roberto Campos.

Os EUA estavam de fato empenhados em converter o Brasil numa espécie de vitrina de sucesso da experiência anticomunista inspirada nos melhores padrões das instituições ianques.

Talvez tenha sido uma das primeiras tentativas de “nation building”, de engenharia social para reconstruir um país desde zero. Chegava-se à ingenuidade de discutir em telegrama qual seria o salário das professoras primárias!

Os americanos de então não se pareciam aos trogloditas da era Reagan ou de Bush filho. Remanescentes da Presidência Kennedy, crentes na Aliança para o Progresso, partilhavam com Johnson a fé no ativismo social das leis contra a segregação, dos programas de saúde e assistência aos pobres da “Great Society.”

Mas eram soldados da Guerra Fria, dispostos a pagar, nas fatídicas palavras de Kennedy, qualquer preço e confrontar qualquer adversário para assegurar a liberdade.

Na sua “História da Guerra Fria”, André Fontaine vê no golpe brasileiro a primeira manifestação de uma tendência: o apoio dos EUA a movimentos armados contra governos simpáticos à União Soviética.

Logo depois da derrubada de Goulart, ocorreria o incidente do Golfo de Tonquim, começo da trágica escalada da Guerra do Vietnã. No ano seguinte, a intervenção na República Dominicana, o golpe contra Ben Bella na Argélia e o massacre de 300 mil comunistas na Indonésia dariam sequência à série, que culminaria no golpe argentino de 1966 e no dos coronéis gregos de 1967.

Não foram os americanos que provocaram a polarização e a radicalização da sociedade brasileira. Quis, porém, a fatalidade que coincidisse com o acirramento do conflito ideológico mundial um fenômeno nacional que, em condições diversas, talvez não nos tivesse feito perder 20 anos de democracia.

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[2] http://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2014/04/1433958-nunca-mais.shtml

Nunca mais?

01/04/2014

Ninguém imaginou que o capitalismo voltasse a imperar na imensidão que perdera, mais de 70 anos antes, para o comunismo da União Soviética e seus domínios posteriores.

Os horrores da chamada Primeira Guerra Mundial, de 1914-18, e as providências para a preservação da paz disseminaram a crença fervorosa de que as nações e a própria humanidade entravam em nova era. Os embates de interesses e poderes só se dariam e se solucionariam em conferências, e nunca mais em campos de batalha. Passados apenas 20 anos, começava a Segunda Guerra Mundial, a das bombas atômicas sobre cidades.

Os exemplos gritantes do mundo alheio, citáveis ao infinito, têm ecos por aqui, para confirmar que a história faz uso de regras universais, não de desarranjos particulares.

O Getúlio ditador foi derrubado em 1945 pelos militares da FEB, lê-se ainda nos livros sobre o período, que voltaram da guerra impregnados das convicções democráticas, absorvidas no convívio com os americanos. Em 1954, Getúlio, presidente por legítima eleição, recusou-se com o suicídio a ser derrubado pelo golpe militar. Eram os mesmos militares guardiães da democracia. Outra vez inspirados pelos americanos, sob o comando do embaixador Berle Jr.

Imposta ao golpismo a posse de Juscelino, eleito com legitimidade, seguiram-se cinco anos em que a dissolução quase pacífica de dois levantes militares consolidara o sentimento de estabilidade institucional e democrática. Não havia mais ambiente para golpes, no país que crescia e se projetava com a pujança sintetizada em sua nova capital. E assim foi –por oito meses. Em agosto de 61, na renúncia de Jânio Quadros, o golpismo militar recusa a posse do vice João Goulart, sendo derrotado pela rebelião gaúcha do governador Brizola.

O golpe de 64 foi a retomada vitoriosa do golpe derrotado em 61, que, por sua vez, tentara continuar o golpe incompleto, em 54, contra o getulismo, suas teses nacionalistas e de menor desigualdade social. Lá estavam, cabelos brancos e barrigudos por trás das armas, aqueles militares jovens e de meia-idade que chegaram da Itália como vanguarda do “Exército pela democracia”.

O cinquentenário de 64 mostra-se como um brado uníssono de “ditadura nunca mais”. Talvez seja assim. Mas só poderá ser se consumadas duas condições.

O ensino das escolas militares precisaria passar por reformulação total. A do Exército, mais que todas. Nas escolas militares brasileiras não se ensinam apenas as matérias técnicas e acadêmicas apropriadas para os diferentes ramos da carreira militar. Muito acima desse ensino, as escolas militares ocupam-se de forjar mentalidades. Uniformes, planas, infensas à reflexão, e, por aí já está claro, ideológica e politicamente direcionadas. São produtos criados ainda para a Guerra Fria.

É por isso que se vê, há tantos anos, tão igual solidariedade e defesa dos atos e militares que, para a lei e para a democracia, são criminosos, muitos de crimes hediondos e de crimes contra a humanidade.

As escolas militares não preparam militares para a democracia.

Outra condição é que se propague a noção de soberania, tão escassa nos níveis socioeconômicos que influenciam a condução do país. Em seu artigo na Folha de ontem, o embaixador Rubens Ricupero contou de documentos por ele vistos, na Biblioteca Lyndon Johnson, em que os “reformistas” conduzidos por Roberto Campos, no governo Castello Branco, sujeitavam aos americanos até a revisão do currículo escolar. Se a imaginação conseguir projetar a mesma conduta para o sistema financeiro privado, por exemplo, pode-se ter uma ideia dos obstáculos que a construção do desenvolvimento brasileiro enfrenta.

Nunca mais? Pode ser. Ou: depende. O certo é que a história não faz gentilezas.

 

 

 

  

  

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

“Os militares oferecem uma imagem perfeita de como os fascistas vêem o mundo.” (Christian Caryl – [1])

 

“…são os críticos da esquerda radical, que odeiam os liberais e conservadores, quem mais se assemelha ao fascismo. São nacionalistas… “ (Rodrigo Constantino [2])

 

 

 

       Como é que é? Eu li isso aí direitinho?  Será? Terá sido, mesmo, escrito isso aí?

 

      Que é isso, caramba? Onde estamos? Os críticos de esquerda são nacionalistas? Desde quando? A esquerda radical é nacionalista? Desde quando? Todo nacionalista será um fascista “porque” é um nacionalista? Liberais todos e conservadores todos serão essencialmente democratas, e nem um liberal nem um conservador será nacionalista “porque” ser nacionalista é ser fascista e ser fascista é coisa de gente de esquerda? Quem seria e que seria um internacionalista? Um internacionalista não poderá ser de esquerda? O interesse internacional, “porque” não é o interesse nacional, portanto, “porque” não é fascista, nunca manifestará qualquer proximidade com qualquer governo totalitário e nunca o beneficiará? “Porque” as ONGs e as igrejas não são nacionais, mas são ou pretendem ser supranacionais, serão essencialmente democratas os que delas participam? Nenhum de seus representantes teria, jamais, apoiado os fascistas ou apoiado a esquerda ou aos que os apoiam ter-se-ia misturado? Se os sindicatos, os clubes e a imprensa subordinam-se ao governo isso acontece “porque” o Estado poderá ser entendido como “a manifestação lógica da vontade de uma nação de afirmar e defender seus direitos coletivos”? São nacionalistas os que pretendem a “unidade latino-americana”? São nacionalistas os que nos submetem a pressões “filosóficas” internacionais e desprezam a nossa boa Doutrina jurídica, deturpando a natureza da Constituição e a finalidade de nossas Leis e nossos Códigos? Todo e qualquer Estado nacional seria fascista? Por quê? “Porque” alguém disse que é, então passou a ser? Então, o Estado nacional é fascista “porque” é? E todo aquele que defenda o seu Estado será um fascista? Por quê? “Porque” é? E, então, militares, porque são militares, e porque defendem o Estado, serão fascistas? Por quê? “Porque” são?  

 

      Caramba! Que confusão dos infernos! A produzir mais confusão… e mais calor dispersivo!

 

      Nenhum erro consertará outro erro. Assim como nenhum erro justificará ou “legitimará” que se cometa outro erro qualquer. Assim sendo, e sendo a discussão a respeito de “Filosofia Política”. não por acaso, de repente, eu me lembrei de Rousseau. Seria Rousseau um fascista? Prestemos atenção, porque a leitura do texto abaixo pode ser interessante – não é suficiente, mas ajuda um bocado a pensar: 

 

  “… cada indivíduo pode, como homem, ter uma vontade particular contrária ou dessemelhante à vontade geral que possui na qualidade de cidadão. O interesse particular pode falar-lhe de maneira totalmente diversa da que lhe fala o interesse comum (…) sua existência absoluta, e naturalmente independente, pode fazê-lo encarar o que deve à causa comum como uma contribuição gratuita, cuja perda será menos prejudicial aos outros que o pagamento oneroso para si (…) O caso da dissolução do Estado pode-se dar de duas maneiras: primeiramente, quando o príncipe não mais o administra conforme as leis, e usurpa o poder soberano. Então, acontece uma mudança considerável: é que, não mais o governo, mas o Estado se restringe. Quero dizer que o grande Estado se dissolve, e que se forma um outro no seio daquele, apenas composto dos membros do governo, e que nada mais é em relação ao resto do povo senão o senhor e o tirano.  (…) O mesmo sucede também quando os membros do governo usurpam separadamente o poder, que só devem exercer em conjunto, e que não constitui menor infração das leis, e produz ainda maior desordem. Têm-se então, por assim dizer, tantos príncipes quantos magistrados, e o Estado, não menos dividido que o governo, perece ou muda de forma. Quando o Estado se dissolve, seja qual for o abuso do governo, toma o nome de anarquia.”  –

 

      Por preguiça, para não traduzir o que já foi traduzido, colei esse texto de uma publicação na web. Até mesmo a leitura de um texto publicado deve ser atenta, pois ao ser traduzido poderá confundir o leitor. Aqui eu precisei, com recurso ao original francês, corrigir o texto acima. Mas deu pra entender o “tamanho” do que está dito nele? Não foi retirado de uma página de qualquer manual de “psicologia” de quintal – ele está em “O Contrato Social”, leitura básica, fundamental, obrigatória para quem quer se aventurar a pensar a Política, ou seja, a quem queira pensar no Poder com alguma seriedade e o mínimo risco de errar e se esborrachar. Evitando assim, correr o risco de fazer que muitos outros se esborrachem.

 

      Estado não é, definitivamente, um palavrão. Trazendo as coisas aos nossos dias, o Estado contemporâneo, que garante o cidadão, que garante as liberdades e os demais direitos do cidadão, que o cidadão tem o dever de garantir, ou seja, de conservar vivo e atuante, é um Estado nacional. Estado seria governo? Seria um Partido? Seriam “as massas” desorientadas? Se estivermos contra um governo, contra um Partido que tenha posto o Poder no bolso, contra a ação de “as massas” desorientadas, necessariamente estaremos contra o Estado ou deveríamos estar contra ele?

 

      Que mais, além do Estado, justificará ou “legitimará” um governo? Que poderes terá qualquer governo senão aqueles que lhe são conferidos pelo Estado? Os que um Partido lhe confere? Os que “as massas” desorganizadas lhe conferem para que tudo mais se desorganize e ninguém mais conte com direitos porque ninguém mais se reconhece como estando “legitimamente” sujeito a deveres? O Estado é o Estado. Deve servir a ele mesmo, a ninguém mais. E ao Estado, a ninguém mais, deverá um governo servir. Ou seja: quando o Estado é nacional, quando é nacional o governo, ambos deverão servir a uma Sociedade Nacional que esteja politicamente organizada com vistas ao interesse nacional. E o interesse do Estado deve ser colocado pelos cidadãos acima dos interesses particulares, sim, por todos eles, sim, inclusive por aqueles que exercem profissões liberais, sim, acima de seus interesses particulares, sim! Ou o dito Estado não será um Estado, será outra coisa qualquer. Pode ser uma “ação entre amigos”. E o dito cidadão não será cidadão algum – será apenas um indivíduo, um sujeito de 2ª categoria, a se arrastar, desarraigado, pelo mundo afora, eternamente condenado a pedir desculpas por existir e a pedir licença para nesse mundo entrar espremendo-se por uma brechinha que os donos das bancas no Mercado se esqueceram de tapar.

 

      Quem leu muita coisa poderá saber de alguma coisa. Mas ficará sem saber de um monte de outras coisas se não tiver lido os clássicos, ou se apenas abriu os livros para poder dizer que leu, se leu por ler, sem prestar atenção ao que já foi pensado e já nos foi dito por quem pôde observar como as coisas se fazem. Achará que tudo é novidade, que toda suposta novidade terá apoio na História e deverá ser considerada e divulgada tal como foi inventada e enunciada como novidade por não sabemos quem, e confundirá facilmente governo com Estado e os alhos com os bugalhos. Para quê? Por quê?  No interesse de quem? A quem interessa que a anarquia (de esquerda? de direita? que importa?) se imponha em território brasileiro? A quem interessa que o Brasil seja governado por quem brasileiro não é, por quem não se preocupa com os brasileiros, embora possa jurar de pés juntos que muito se preocupa com a tal da “Humanidade” e não com apenas rechear seu próprio bolso ou com o sucesso dos negócios do seleto grupo com o qual se identifica?

 

      Divulgar notícias e comentários sobre os fatos, comentar os fatos, posicionar-se com relação a eles é uma coisa. É fazer Política. Não é apenas um direito – é um dever do cidadão. Divulgar considerações pretensamente “filosóficas” de qualquer um como sendo “a verdade” política é bem outra – é só tentar fazer confusão, ou aumentar a confusão! É errar. É tentar justificar erros. E justificar um erro será apenas insistir nesse erro e dar mais poderes aos que erram.

 
      Não por acaso, também, portanto, eu ouvi, ontem, sendo várias vezes repetido no Painel da GloboNews, que “a Economia lida com os fatos e Política lida com a interpretação dos fatos”… Se as palavras não foram exatamente estas, o sentido delas era exatamente este.  Já não seria mais que hora da Política brasileira começar a lidar com os fatos, deixando as “interpretações” de lado?

 

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[1]

http://oglobo.globo.com/pais/moreno/posts/2014/03/20/quando-chamar-alguem-de-fascista-528253.asp
Quando chamar alguém de fascista – CHRISTIAN CARYL
Palavras são armas. E, quando você mira num inimigo político, a palavra “fascista” equivale a um obus. Na era pós-Auschwitz, acusar alguém de “fascista” é uma das mais devastadoras acusações.
Raramente a palavra experimentou um retorno como o que vemos hoje. O maior acelerador hoje é a crise na Ucrânia. Vladimir Putin e a mídia estatal russa adoram descrever os revolucionários em Kiev como “fascistas” (termo firmemente rejeitado pelos defensores dos protestos que derrubaram o presidente Viktor Yanukovich). O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, usa “fascistas” para os manifestantes que têm saído às ruas para pedir sua demissão. (Madonna respondeu aplicando a mesma palavra a Maduro.) Turcos de esquerda que se manifestam contra o premier Recep Erdogan denunciam seu “fascismo”.
Na Ásia, comparar países com a Alemanha nazista tornou-se um jogo de salão. Os norte-coreanos chamam o premier japonês, Shinzo Abe, de “Hitler asiático”. Os chineses acusam Abe de “venerar nazistas orientais” por suas visitas a um controvertido santuário da Segunda Guerra Mundial. Hillary Clinton não empregou a palavra para Putin, mas comparou a ocupação da Crimeia à tomada dos Sudetos por Hitler.
Quando as pessoas usam uma palavra tão carregada com tal facilidade é tempo de um choque de realidade. Há consenso entre historiadores e cientistas políticos sobre como defini-la.
1. Começa com a quimera da pureza racial.
Historicamente, o fascismo nasceu das ansiedades do fim do século XIX, quando radicais de direita em países europeus começaram a se ver como parte de “nações” orgânicas, que enfrentavam ameaças existenciais diante das poderosas novas ideologias do socialismo e do capitalismo. Para eles, teorias abstrusas pareciam confirmar a ideia de que minorias “inferiores” (judeus, eslavos) conspiravam para atacá-los. O colapso das monarquias dominantes e do sistema tradicional de valores na Primeira Guerra Mundial abriu um vácuo que os fascistas correram a preencher.
E no mundo de hoje? Há muitos racialistas xenófobos por aí. Mas apenas o racismo não faz de você um fascista.
2. O Estado reina supremo.
“Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado.” A frase é de Benito Mussolini, uma das primeiras pessoas a falar com aprovação de “totalitarismo”. Fascistas acreditam no Estado porque o veem como a manifestação lógica da vontade de uma nação de afirmar e defender seus direitos coletivos. Assim, sindicatos, clubes e a imprensa deveriam ser subordinados ao governo. Noções como “direitos humanos” nada significam fora da moldura da “comunidade popular”. Os fascistas têm pouco em comum com, por exemplo, supremacistas brancos americanos, profundamente desconfiados de qualquer tipo de governo. Fascistas e anarquistas ocupam lados opostos do espectro político.
3. Um único homem forte dá as ordens.
Foi o fascismo que nos deu a noção de um líder todo-poderoso, carismático — o Duce ou o Führer — que pessoalmente encarna os anseios da nação. (O comunismo também tinha seu Grande Timoneiro e seus Jardineiros da Felicidade, mas mesmo esses personagens sobre-humanos ainda estavam supostamente seguindo os ensinamentos de um certo filósofo judeu alemão.) Muitos autocratas pós-1945 — vem à mente o argentino Juan Perón — aprenderam com esses modelos.
É digno de nota que os movimentos de protesto na Ucrânia ou na Venezuela não lutam para instalar um líder em particular. Eles querem democracia — o oposto do poder de um só homem.
4. Fascistas põem os militares acima de todos.
Os fascistas celebram as massas — mas apenas quando elas são rigidamente organizadas em torno das necessidades do Estado. Os militares oferecem uma imagem perfeita de como os fascistas veem o mundo. Visitantes à Alemanha nazista notavam a pletora de uniformes: para os não iniciados, era difícil diferenciar motoristas de ônibus e outros funcionários de membros das forças armadas. E política externa agressiva, expansionista, tem sido marca registrada de muitos regimes fascistas, embora não todos. A Espanha de Franco e Portugal de Salazar são talvez os melhores exemplos de regimes fascistas clássicos que preferiam manter um perfil discreto.
5. Fascistas zombam da racionalidade.
As raízes do fascismo clássico estão no período romântico — uma estirpe aparente na ênfase fascista na emoção, na vontade e na unidade orgânica e sua rejeição aos valores do Iluminismo —, no individualismo e no pensamento crítico. A ligação pode ser feita com os “decadentes” do fim do século XIX, como o poeta italiano Gabriele d’Annunzio, que celebrava a morte, a violência e a destruição dos “valores burgueses”. Os fascistas sempre veem a nação como ameaçada e sua tomada do poder é retratada como um renascimento nacional que varrerá a decadência e a fraqueza.
6. Partidos fascistas se veem como “terceira via”.
Hitler e Mussolini viam suas versões do “nacional-socialismo” como a única alternativa válida a todas as outras ideologias políticas. Rejeitavam violentamente o socialismo e o “capitalismo burguês”, enquanto diziam se apropriar das melhores características de cada um. Por exemplo, absorveram ideias marxistas de revolução e uma abrangente engenharia social, deixando de lado a divisiva luta de classes. Também tentavam preservar os aspectos competitivos do capitalismo (o que, para eles, assegurava a “sobrevivência dos mais aptos”), enquanto afirmavam o controle estatal sobre setores estratégicos da economia. É verdade que alguns fascistas tentavam incorporar a Igreja Católica em seu sistema ideológico. Mas Hitler, um zeloso anticlerical, sonhava com o dia em que as massas pendurariam o Papa pelos calcanhares na Praça de São Pedro.
Publicado no Globo de hoje. Christian Caryl, pesquisador no Legatum Institute, é editor do Laboratório de Democracia da revista “Foreign Policy”, para a qual escreveu este artigo.

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http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/sem-categoria/o-uso-indiscriminado-do-termo-fascista/
20/03/2014  às 12:15 \ Fascismo, Filosofia política, Sem categoria
O uso indiscriminado do termo “fascista” – RODRIGO CONSTANTINO
Todo liberal e conservador está acostumado: quando o oponente marxista fica sem argumentos, o que ocorre sempre, ele puxa da cartola a acusação fulminante: fascista! A esquerda latino-americana, ela mesma muito similar ao fascismo em diversos aspectos, adora acusar os adversários ideológicos de fascistas. Mas isso não faz o menor sentido.
Mussolini, que foi socialista em sua juventude, tinha pontos de vista que fariam vários esquerdistas “modernos” vibrarem de emoção. Por outro lado, como mostrei em meu último artigo no GLOBO, Marx e Engels eram imperialistas arianos e racistas, o que seria suficiente para que qualquer marxista, tivesse lido Marx ou gozasse de honestidade intelectual, acusasse o próprio mentor e guru de fascista.
Hoje, um artigo publicado no GLOBO, de Christian Caryl, faz um resumo razoável do que é o fascismo, expondo justamente o abuso que fazem do termo de maneira indevida. Seguem alguns trechos:
“Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado.” A frase é de Benito Mussolini, uma das primeiras pessoas a falar com aprovação de “totalitarismo”. Fascistas acreditam no Estado porque o veem como a manifestação lógica da vontade de uma nação de afirmar e defender seus direitos coletivos. Assim, sindicatos, clubes e a imprensa deveriam ser subordinados ao governo. 
[…] Foi o fascismo que nos deu a noção de um líder todo-poderoso, carismático — o Duce ou o Führer — que pessoalmente encarna os anseios da nação. (O comunismo também tinha seu Grande Timoneiro e seus Jardineiros da Felicidade, mas mesmo esses personagens sobre-humanos ainda estavam supostamente seguindo os ensinamentos de um certo filósofo judeu alemão.) Muitos autocratas pós-1945 — vem à mente o argentino Juan Perón — aprenderam com esses modelos.
É digno de nota que os movimentos de protesto na Ucrânia ou na Venezuela não lutam para instalar um líder em particular. Eles querem democracia — o oposto do poder de um só homem.
[…] Os fascistas celebram as massas — mas apenas quando elas são rigidamente organizadas em torno das necessidades do Estado.
[…] Os fascistas sempre veem a nação como ameaçada e sua tomada do poder é retratada como um renascimento nacional que varrerá a decadência e a fraqueza.
[…] Hitler e Mussolini viam suas versões do “nacional-socialismo” como a única alternativa válida a todas as outras ideologias políticas. Rejeitavam violentamente o socialismo e o “capitalismo burguês”, enquanto diziam se apropriar das melhores características de cada um.
[…] É verdade que alguns fascistas tentavam incorporar a Igreja Católica em seu sistema ideológico. Mas Hitler, um zeloso anticlerical, sonhava com o dia em que as massas pendurariam o Papa pelos calcanhares na Praça de São Pedro.”
Com isso em mente, fica mais claro que, no fundo, são os críticos da esquerda radical, que odeiam os liberais e conservadores, quem mais se assemelha ao fascismo. São nacionalistas, autoritários, enxergam o estado como entidade quase divina, adoram o culto à personalidade de um líder caudilhesco e populista, e gostariam muito de ver todos os padres da Igreja “ultrapassada” pendurados em praça pública.
Quem é fascista: Maduro ou o ex-presidente chileno, Sebastián Piñera, um empresário liberal? Pois é. Recomendo, para fechar, o excelente livro de Jonah Goldberg, Fascismo de Esquerda, para não deixar mais dúvida de como, apesar de toda a retórica contrária, parte da esquerda, a ala radical, possui extrema afinidade com os ideais fascistas.
Rodrigo Constantino

 

 

  

  

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

      Não se conta mais com a ajuda dos dedos das mãos o número de passeatas recentemente conclamadas e realizadas em diferentes capitais do País. Vira e mexe um grupo ocupa ou vários deles ocupam uma avenida interrompendo o trânsito e reivindicando qualquer coisa. Quase sempre serão manifestações que fogem ao controle da racionalidade, e uma violência gratuita contra tudo e qualquer coisa poderá ser observada. “Os brasileiros estão exercendo seus direitos de cidadão!”, dirão alguns.

 

      Pois bem: eu cá sou e sempre fui muito esquisita, bem sei… e talvez por isso mesmo não acredite em que passeata alguma resolva qualquer um de nossos problemas. Aliás, nunca acreditei em que passeatas pudessem ter qualquer objetivo sensato. Passeatas, quando pacíficas, são festas de confraternização. Nunca se sabe como, onde ou quando terminam. Quando não pacíficas, serão apenas desordem. E Política a gente faz com a cabeça, não com os pés. Ou apenas meteremos os pés pelas mãos. Além de que quem deve marchar é soldado, porque soldado não cansa e sabe ou, pelo menos, deve saber que, ao marchar, não deve discutir com quem mandou que marchasse em determinada direção; e também sabe ou, pelo menos, deve saber que vai preso pro Quartel quando mostra que tem uma cabeça de papel.

 

      Se, em 1964, quem marchou em uma imensa passeata cansou logo em seguida e chutou (com os pés) tudo pro alto, chutando – quando quem tinha a Política na cabeça e a cabeça na Política tomou as rédeas do processo – até mesmo da própria cabeça a lembrança de por que aquela passeata havia sido realizada, outras muitas passeatas, de gente completamente sem cabeça, convocadas antes e depois daquela de 64, deram nisso que hoje está aí. Para quem gosta, um prato cheio. Mas, tudo bem, gosto não se discute.

 

      A respeito da marcha convocada para hoje, 22 de março, cuja intenção seria a reedição da marcha de 64, dizia, hoje mesmo, o Correio Braziliense: “Na visão da historiadora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) Carla Ferrete a reedição da marcha demonstra a retomada de interesses conservadores e antidemocráticos. ‘…revela que na nossa sociedade existem grupos que se organizam e que podem revelar um crescimento preocupante de antidemocráticos … São vozes que vem de diferentes lugares, que questionam o jogo democrático e, portanto, defendem soluções para os nosso problemas fora da democracia … É a fala de quem deu o golpe em 1964, que foi dado em nome da democracia e em nome da liberdade. Temos que tomar cuidado com esse tipo de discurso, muitas vezes usado por governos autoritários’.” (1)

 

      “Pois bem” de novo. Ao abrir, hoje também, o Facebook, encontrei um recado grosseiro, em palavras atribuídas a Emma Goldman, recado que considero muito estúpido e que foi divulgado pelo “AnonymousBrasil”:

EMMA GOLDMAN  Emma Goldman, lituana, nascida em 1869, radicada nos EUA, escritora, planejou o assassinato de um industrial, induziu muita gente a se recusar a acatar o alistamento militar tornado obrigatório em 1917, animou outras tantas revoltas contra o Estado, incentivou em presença a Revolução Bolchevique, publicou “Minha Desilusão na Rússia”, viveu na Inglaterra, no Canadá e na França, publicou “Vivendo Minha Vida”, uma autobiografia, apoiou em presença os anarquistas na Guerra Civil Espanhola e morreu em 1940. E foi solenemente esquecida. Uns trinta anos mais tarde, seus artigos e livros foram relançados, e camisetas foram impressas com sua imagem e suas frases mais candentes. Não, por certo, para chamar a qualquer passeata pela família, ou com Deus, ou pela liberdade. Com absoluta certeza.

 

      E, então, aí vai outro “pois bem”: eu, que vivo a minha vida, não a de Emma Goldman, nem a que ela ou a que quem quer que seja teria gostado que eu vivesse, posso até vir a querer participar ativamente em uma guerra por suas boas razões, mas não vou marchar, porque não marcho, não autorizo que alguém me mande marchar e não tenho autoridade para mandar alguém marchar. Não me custa, no entanto, tentar alertar, a respeito do que possa estar rolando, os que gostam e os que não gostam de fazer passeatas; tentar alertar os que, sendo convocados a delas participar, não duvidam da pertinência da proposta, da eficácia da ação, da coincidência de intenções de todos os que delas participam e da lisura dos que a elas convocam; e alertar os que não duvidam da lisura daqueles que, do alto dos palanques, muito já se valeram de passeatas e agora as desmobilizam porque “o mundo é outro completamente diferente” (2).

 

      Alerto porque o mundo segue igual ao que sempre foi. Alerto para que ninguém faça confusão ou fique surpreso com os rumos que possam tomar a passeata que foi muito comentada com muita antecedência e hoje foi realizada, também a outra, que foi convocada para enfrentá-la e não mereceu comentários, e outras tantas mais. Alerto para que ninguém tenha muita expectativa, nem boa, nem má, e ninguém se incomode com fazer muita marola à toa, nem contra, nem a favor, muito pelo contrário. Passeatas são passeatas, nada mais que passeatas. Mas também alerto para que ninguém mais diga que o desprezo pelo voto popular, inclusive o absoluto desprezo pelo voto popular impresso no discurso dos desde sempre demagogos, deve-se à Política feita à “sombra dos quepes” nacionais. Porque isso é burrice. Ou é ignorância. Ou é descarada má fé.

 

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(1) “A SOMBRA DOS QUEPES” » Manifestação será reeditada

http://impresso.correioweb.com.br/app/noticia/cadernos/politica/2014/03/22/interna_politica,121156/manifestacao-sera-reeditada.shtml

Grupos ultraconservadores realizam hoje à tarde a Marcha da Família. Expectativa é reunir 5 mil pessoas

ANA POMPEU – Publicação: 22/03/2014 04:00

Do lado oposto ao movimento de memória, justiça e verdade que pretende esclarecer os detalhes da ditadura cívico-militar iniciada no país em 1964, grupos ultraconservadores reeditam hoje a Marcha da Família com Deus Pela Liberdade. Será uma comemoração às cinco décadas da passeata, que, naquele ano, rebateu a mobilização empreendida pelo presidente João Goulart. Eles sairão da Praça da República até a Praça da Sé, pela Barão de Itapetininga, em São Paulo. A expectativa é que outras capitais também promovam passeatas semelhantes.

A manifestação percorrerá o mesmo trajeto de 19 de março de 1964, quando versões históricas apontam que meio milhão de pessoas marcharam contra o comunismo, convocadas principalmente pelo então governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Pesquisadores e estudiosos do período estimam o público em 200 mil. Hoje, com base em imagens da época, calcula-se que foram pouco mais de 100 mil pessoas. A organização do ato pretende reunir cerca de 5 mil pessoas, a partir das 15h.

Ao contrário de algumas especulações, uma das organizadoras do ato, Cristina Peviani, 51 anos, a marcha não pede a instituição de uma ditadura. “Estão falando que a gente está querendo uma ditadura militar. De forma alguma se trata disso. É uma homenagem ao aniversário de 50 anos de uma data histórica muito bonita”, explica. Ela argumenta que atualmente o país vive tempos difíceis. “O marxismo está aí, estamos vivendo no comunismo. Precisamos evitar a cubanização do Brasil”, aponta. Celso Brasil, 56 anos, também faz parte da organização da Marcha da Família. Ele classifica o movimento como conservador por excelência. “Queremos conservar as cores da nossa bandeira, para que ela não se torne vermelha”, exemplifica.

De acordo com ele, o Brasil passou por um momento de desenvolvimento e fortalecimento com o regime militar e hoje está em declínio. “Estamos nos mobilizando no contragolpe da ditadura gramscista, como em 1964”, diz. Celso Brasil explica que existem, entre eles, pessoas que defendem a intervenção militar e outra vertente que levanta a bandeira da intervenção constitucional. “Temos instrumentos legais para isso”, afirma. Para os organizadores, a repressão como é colocada hoje só existiu para uma parcela da população. “A mão de ferro era contra os terroristas, não contra o cidadão de bem. Prepararam a juventude para acreditar numa ditadura. Queremos resgatar a verdadeira história”, acrescenta Brasil.

Na visão da historiadora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) Carla Ferrete a reedição da marcha demonstra a retomada de interesses conservadores e antidemocráticos. “Não é a mesma marcha, a de 1964. Estamos em um contexto diferente, mas revela que na nossa sociedade existem grupos que se organizam e que podem revelar um crescimento preocupante de antidemocráticos”, afirma. Para a professora, o movimento usa de instrumentos inerentes à democracia para sugerir o autoritarismo.

“São vozes que vem de diferentes lugares, que questionam o jogo democrático e, portanto, defendem soluções para os nosso problemas fora da democracia”, diz. Carla Ferrete acredita ainda que, o mesmo discurso usado para justificar a Marcha da Família foi usado no passado, o que precisa de uma análise aprofundada. “É a fala de quem deu o golpe em 1964, que foi dado em nome da democracia e em nome da liberdade. Temos que tomar cuidado com esse tipo de discurso, muitas vezes usado por governos autoritários”, completa.

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(2) http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2014/03/21/fhc-critica-marcha-da-familia-e-diz-que-populacao-nao-quer-mudar-o-regime.htm  

 

 

  

  

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

8 de Março      

 

      Sábado último, há uma semana exata, no dia 08 de Março, foi comemorado “o Dia Internacional da Mulher”.  

 

      Sou uma mulher. Sei que sou. E, se você também é uma mulher, você soube que esse foi “o dia de” o dono do armazém lhe dar um bombom, o frentista do posto de gasolina lhe oferecer uma florzinha, o seu chefe ou o seu patrão lhe dirigir um sorriso. Foi “o dia de” todos perceberem que você existe. Foi “o dia de” todos lhe darem os parabéns. Por quê? Porque você é mulher. Mesmo que você, até por ser mulher, não tenha amanhecido lá muito disposta a se manifestar muito encantada com tudo isso…

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi “o dia de” você ter tido alguma esperança de não mais receber em sua caixa de correio aquela montanha de ofertas muito especiais de lojas que você nem conhece, que lhe foram especialmente dirigidas durante mais de uma semana ou quase um mês por você ser mulher, mesmo que de nada do tudo que lhe foi oferecido você estivesse ou esteja precisando… 

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi “o dia de” você prestar atenção à cretinice e à violência domésticas, às das ruas, às das Escolas, às das leis, que vitimam as mulheres. Porque você é mulher… Ainda que, todos os dias, você possa e tenha podido perceber que a mesma violência e a mesma cretinice também vitimam os homens, as meninas, os meninos, os animais… 

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi o dia de” você mergulhar na fossa de cabeça porque alguém percebeu que ninguém percebe – nem mesmo aqueles que a vêem como uma “santa” e que um comportamento de “santa” esperam de você ou mesmo lhe exigem – o quanto você é esforçada, o quanto você sempre se esforçou, o quanto merece ser respeitada… por ser mulher…

 

      Foi “o dia de” você demonstrar que percebeu que não é suficientemente protegida, devidamente admirada, legalmente mimada, legitimamente paparicada por ser mulher… 

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi “o dia de” você, por ser mulher, exigir de seu companheiro que fosse para o banheiro limpar as orelhas das crianças, em seguida que fosse para a cozinha fazer o jantar e lavar as panelas e os pratos, que levasse o lixo à calçada, que passeasse com o cachorro… – e foi “o dia de” você se surpreender com que ele expressamente demonstrasse um imenso enfado com ter que fazer tudo isso; ou, por ter sido “o dia de” todos se lembrarem de que você é mulher, o seu companheiro a convidou para passear e jantar fora de casa e surpreendeu-a com um belo presente… surpreendendo-se com você não ter, até mesmo por ser mulher, amanhecido lá muito disposta a se manifestar muito disposta…

 

      Foi “o dia de” você escutar da Presidente de sua República não só que este nosso atual “é o século do Brasil … é, sem dúvida, o século das mulheres!” como também que a mulher brasileira tem a sensibilidade de perceber que, abrindo um negócio próprio, ela pode administrar melhor sua vida e a de sua família”. E foi “o dia de” você pôr fé nisso tudo. Afinal, a Presidente da República é uma mulher, em princípio tão mulher quanto você é. E é a Presidente da República. Sábado, dia 08 de Março, foi, então, “o dia de” você ficar contente por poder ser tão mulher, por poder ser tão sensível, por poder ser tão brasileira. Mesmo que, no dia seguinte, você voltasse a duvidar de que tudo isso mais uma Bolsa-família devesse deixá-la tão contente.  

 

      Foi “o dia de” você compreender que seu trabalho, qualquer que seja ele, pode ser muito mal feito – mas você não pode ser mal remunerada. Porque você é mulher. E foi “o dia de” você compreender que, se nada mais ou nada de melhor tiver a oferecer, a exibir ou a fazer, um bom preço, que, em geral, é visto como se acompanhasse uma boa causa, justificará que você exiba seu corpo em qualquer lugar, que o ofereça a quem quer que seja, e que você o use de qualquer jeito, exercendo o inalienável direito de fazer dele o que bem entenda, inclusive o direito de alugá-lo… Poderá ser um bom negócio. Alguém o há de querer. Porque você é mulher.

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi “o dia de” você, por ser mulher, identificar-se com um monte de gente com quem você não se identifica tanto assim ou nem um pouco se identifica, nem sequer alguma vez se identificou ou poderá se identificar; então, foi “o dia de” ser cobrada por se mostrar tão pouco participativa e tão pouco solidária, e por não se sentir até mesmo meio culpada por não se ter identificado…

 

      Foi “o dia de” você, por ser mulher, levar um raspe em regra das feministas radicais, radicalizadas e mal humoradas de plantão porque era “o dia de” você manifestar sua profunda revolta pela condição da mulher em todos os séculos dos séculos e em todos os cantos da Terra – e você, por ser mulher, por ser sábado, por ser véspera de domingo, por seja lá o que tenha sido, não amanheceu muito disposta a se manifestar lá muito revoltada…

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi “o dia de” você protestar pela igualdade… Pela igualdade de quem? Para que qualquer indivíduo, por ser reconhecido como mulher, mesmo que não queira ser ou mesmo que apenas queira ser mulher, possa ser igual a você? Para que você, por ser mulher, possa ser igual a quem?

 

      Foi “o dia de” você lutar pela liberdade… Pela liberdade de quem? Para que qualquer indivíduo, por ser reconhecido como mulher, mesmo que não queira ser ou mesmo que apenas queira ser mulher, possa se sentir tão livre quanto você? Para que você possa se sentir tão livre quanto quem?

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi “o dia de” quem, mesmo? Para quê? Foi “o dia de” você agradecer a quem? Aplaudir quem? Defender as idéias de quem? As expectativas de quem? Enunciadas por quem? Para quem? Em benefício de quem? Por quê? Por que sábado, dia 08 de Março, terá sido “o dia de”, por ser mulher, você sentir, fazer ou aceitar alguma coisa contra e apesar de sua própria consciência e se comportar fora de sua rotina?

 

      Pode ser que você saiba a resposta. Eu cá não sei e talvez nunca venha a saber. Para mim, todos os dias são iguais, têm o mesmo significado e o mesmo valor. Vivo cada um deles depois do outro. E tudo o que sinto, que quero e que faço em cada um desses dias se acrescenta ao que senti, quis e fiz na véspera, na antevéspera… e se acrescenta a tudo o que, no seu dia-a-dia, todas as mulheres e todos os homens sentiram, quiseram e acharam por bem ou por mal fazer antes de mim, assim como a tudo o que eles todos ainda fazem, querem e sentem. E tudo me traz conseqüências. E traz conseqüências a todos os demais. Boas ou más, para o bem ou para o mal. Não preciso, pois, por ser mulher, de que alguém me conceda, por decreto ou convenção, “o dia de” fazer o que acho que devo ou o que alguém acha que devo fazer; nem admito que alguém o faça.

 

      E você, mulher? Você precisa disso? É isso, mesmo, o que você quer?

 

      Se é isso o que você quer, receba agora de mim, mesmo que atrasados, desculpe-me, os parabéns pelo “seu dia”. No próximo ano e em muitos outros mais, à sua frente, você poderá, outra vez e sempre, comemorá-lo. E, nesse exato dia, poderá se enternecer e se alegrar, poderá se enfurecer, poderá protestar contra todos e mais alguns, poderá ouvir os discursos de quem diz que as mulheres unidas jamais serão vencidas e bater palmas a quem diz que luta por você… E poderá chamar todas as suas conhecidas e as absolutamente desconhecidas a fazer o mesmo – a comemorar, a se alegrar, a se enternecer, a se enfurecer, a protestar, a ouvir, a bater palmas… conforme o modelo determinado e referendado por seja lá quem for. No dia seguinte, você poderá voltar à sua rotina. Com a alma lavada.

 

      Se não é isso o que você quer – se é algo diferente, algo mais ou muito mais que isso –, por que celebra ou permite, sem reclamar, que seja celebrado “o dia da mulher”, engolfando-se nele, você mesma?

 

      Se não é isso o que você quer – se é algo diferente, algo mais ou muito mais que isso –, que é exatamente o que você quer?

 

      Se não é isso o que você quer – se é algo diferente, algo mais ou muito mais que isso –, que foi o que você fez ontem? Que foi o que você fez durante a última semana? Que é o que está você fazendo hoje? Que pretende fazer amanhã… na próxima semana… no próximo mês… no próximo ano… na próxima década…? 

  

 

 

  

  

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

VaniaLCintra – Socióloga, Mestre em Integração da América Latina (USP) e Doutora em Relações Internacionais (PUC-SP)

 

 

 

 

 

 

Afirmar que um homem se dá gratuitamente constitui uma afirmação absurda e inconcebível; tal ato é ilegítimo e nulo, tão só porque aquele que o pratica não se encontra no completo domínio de seus sentidos. Afirmar a mesma coisa de todo um povo é supor um povo de loucos: a loucura não cria direito”.[1]

 

 

       Todas as vezes em que pretendemos alterar algo mais ou menos estruturado, começamos por confundir e destruir os conceitos a seu respeito. Do que nasce a dúvida da pertinência de sua existência. Por vezes, seremos surpreendidos com o renascimento, ainda mais fortalecido, do fenômeno que gostaríamos de ver morto e enterrado.

 

      Desde a constituição das Nações Unidas, no final da 2ª Grande Guerra, a partir de quando podemos acompanhar os movimentos da Guerra Fria, um grande esforço poderia ser observado no sentido de tentar abalar o conceito de Estado nacional. A Guerra Fria, travada entre os EUA e a URSS, exigia o alinhamento dos demais países a uma dessas superpotências. Foi muitas vezes explicada como um conflito ideológico entre capitalismo e o socialismo que, ao ser projetado na corrida armamentista, proporcionando o acúmulo de um imenso arsenal de armas nucleares, e em sua extensão à quase totalidade mundial, o que promoveu “alianças regionais” em apoio a ambas as potências, demonstrou cabalmente seu caráter eminentemente estatal ou “imperial”; esse caráter era mais ainda revelado pela insofismável disputa poder entre as duas superpotências por meio de influência política e econômica mascarada de “ideológica” em todo o mundo. A Guerra Fria envolveu em suas razões os processos de descolonização/libertação nacional e os chamados “países não alinhados” mantinham-se apenas fora do conflito “quente”, dos quais os mais significativos foram a crise de Suez, as guerras da Coréia (1950-1953) e do Vietnã (1962-1975), e “quase quentes”, tais como a crise causada pela pretensão cubana de instalar uma base de mísseis soviéticos e muitas das demais crises na América Central e do Sul. Tentavam resolver da melhor forma suas questões sociais internas à sombra do conflito ideológico e questões econômicas que dependiam da Política externa. A tentativa de escapar da dicotomia da Guerra Fria fez que muitos países procurassem armar-se de poder nuclear, inclusive e principalmente como poder simbólico, de dissuasão.

 

      Paralelamente a esse processo, com o fim da 2ª Grande Guerra, já plantada a partir da ONU a idéia de “regionalismo” que ganhava corpo em estudos acadêmicos como solução aos conflitos, os adeptos da idéia de paz mundial sob uma “governança mundial” empenhavam-se em abalar e fragilizar os Estados Nacionais – mesmo que o avanço das superpotências não pudesse ser escamoteado – para o que os conceitos de Pátria, Nação, Cultura, Tribo, Comunidade começaram a ser confundidos uns com os outros. Com o ato simbólico da destruição do Muro de Berlim após a evidência do processo de ruína econômico-financeira da URSS, ao mesmo tempo em que a Alemanha se reunificava, superando rapidamente os impasses da reunificação e a China se fortalecia, países da União Européia assinavam o Tratado de Maastricht em 1993, dando a atender que a “globalização/regionalização” era um processo irreversível. Durante a última década do século XX, vimos ainda o redesenho das fronteiras na região os Bálcãs e hoje assistimos ao conflito na Ucrânia. Vê-se, assim, que guerras locais continuaram e continuam se fazendo entre Exércitos regulares ou irregulares, acudindo os interesses ou à revelia de Estados ditos Soberanos. Em nome de quê?

 

      Parodiando Rousseau, diríamos que afirmar que um Estado se dá gratuitamente constitui uma afirmação absurda e inconcebível; tal ato seria ilegítimo e nulo, tão só porque aquele que o praticasse não se encontraria no completo domínio de seus sentidos. Afirmar a mesma coisa de uma Nação é supor um conjunto de indivíduos loucos: a loucura não cria direito.

 

      Um Estado é fato que se faz da relação entre dois elementos materiais, ou em outros termos, é um fato determinado sobre dupla base material: um grupo com vontade própria, que esboça expectativas quanto ao seu porvir, que tende a expandir-se mediante ações coerentes com essas expectativas, e um território sobre o qual essas expectativas se constroem como realidades. Criar um Estado exige um grande esforço. Exige luta, mesmo que não cruenta. Mantê-lo, mais ainda. Por seu poder, os Estados determinam a ordem mundial, agindo segundo a ordem hierárquica em que se traduz a relação de poder em que se encontram uns com os outros. Os Estados são poderes centralizados e burocratizados[2] e como tais são reconhecidos como poder nacional. Para bem compreendê-los como nacionais, será necessário entender o que é a Nação

 

      Essa não é tarefa de somenos importância. É necessário, para cometê-la, insistir no caráter essencialmente político do Estado. Com isso será possível evitar-se, no estudo da Política interna, que se confundam a vontade e as determinações do Estado Nacional com as vontades e as determinações daquelas organizações ou grupos que representam forças materiais quaisquer, produtivas ou improdutivas, organizadas desta ou daquela forma, ou com as vontades e determinações de grupos administrativos organizados e cujo poder é obtido por delegação.

 

      No estudo da Política externa, essa idéia do que é o Estado permitirá que identifiquemos as vontades presentes nos Acordos e Tratados realizados em momentos específicos, que criam direitos e compromissos, visando à produção de determinados fatos e efeitos na sociedade − é o caso das Nações Unidas, da União Européia, da OEA, do Mercosul etc. Da mesma maneira permitirá que identifiquemos as vozes de outros atores presentes nas relações internacionais, entes jurídicos subordinados a ou em associação com algum poder soberano, do mesmo modo visando a produzir determinados fatos e efeitos pela pressão sobre outros Estados. Só assim, na Política quer interna, quer externa, será possível ter-se a exata noção do alcance dos atos de um Estado.

 

      O que permite o reconhecimento da autenticidade do Estado Nacional, ou seja, da sua legitimidade, não é a ordem jurídica, mas o poder que o constitui. O Estado Nacional poderá ser um Estado unitário ou um Estado federado [3], quer tenha sido criado por força centrípeta, quando a razão nacional é fator de unidade (é o caso dos EUA), ou pelo controle de uma força centrífuga, fragilizando a unidade nacional anterior factual e moralmente (é o caso do Brasil). No caso, as unidades federadas, que denominamos internamente como “estados” (o do Rio de Janeiro, por exemplo) são espaços físicos e administrativos sem Soberania e com autonomia relativa. Esses não são de fato Estados, pois não surgem da manifestação da vontade e da força nacional, mas da evidência da debilidade delas e/ou de sua fragmentação – quando desfazem uma unidade, nascem do interesse e do poder particular de grupos da sociedade nacional. Sem qualquer outra razão que justificasse logicamente o federalismo, demonstrou-se a debilidade da Nação brasileira ao ter ela permitido, em dado momento lógico, a fragmentação de sua unidade, como se concedesse a independência aos diversos “estados” (antes províncias) que imediatamente se formaram, e que, em outro momento lógico imediatamente subseqüente, puderam se unir em processo semelhante ao norte-americano.

 

      A razão do Estado é a razão da Nação que o constituiu. E a vontade do Estado é a vontade de quem o preserva e o mantém. Não sendo uma pessoa, de carne e osso, o Estado diz e faz apenas o que a Nação, se viva e potente, determina que ele diga e faça. Qualquer outro entendimento dessa questão recairá em conceitos frouxos que atribuem qualidades humanas a um ente que não é e não poderá comportar-se como ser humano ou ter sensibilidade ou consciência humanas. O Estado é a forma de organização determinada pela Nação que o constituiu. Surge da vontade e da força de um grupo que se transforma em Nação quando tem vontade e reúne força para constituir um Estado. Assim chamamos modernamente de “Estado” nada mais nada menos que o resultado da ação de um grupo que, organizado no território, constitui-se, a si mesmo, como Nação e decide agir, constituindo-o em ação correspondente ao ato de vontade. No momento em que é criado, o Estado “absorve” da Nação a vontade que se manifesta no coletivo, a vontade soberana e o soberano interesse, juntamente com a força coletiva e soberana que a Nação demonstrou possuir ao constituí-lo.

 

      Esses são momentos lógicos, não determinados por atos rituais ou obedientes a uma receita pronta. Mas são esses momentos lógicos que explicarão os atributos reconhecidos em um Estado Nacional. Observe-se que não é mais o Monarca quem sobe ao trono e declara que ele é ou representa o Estado. A Nação age em seu próprio nome e em seu próprio interesse. Também não se trata de uma “representação”, mas de uma identidade real. Assim como não há possibilidade de haver dois soberanos em um único território impondo-se às mesmas pessoas e coisas, a Soberania do Estado absorve e elimina a Soberania que originariamente era da Nação até o momento em que ela, Nação, de fato o constitui. E o constitui de fato, antes que de direito. Assim compreendemos que a tendência à expansão própria do Estado é também, e antes que tudo, uma tendência nacional absorvida pelo Estado. Isso porque a Nação tende a crescer, pois, caso contrário, definha e morre. Esse crescimento traz poder à Nação, e esse poder é imediatamente transferido ao Estado.

 

      É necessário, portanto, que se defina o que é a Nação, o que de imediato definirá a razão nacional, para que não lhe atribuamos e não atribuamos ao Estado características que possam não conter – inclusive características que seriam próprias dos Governos, das sociedades, de qualquer entidade, não do Estado Nacional. E para que não emprestemos ao Estado Nacional uma realidade que não lhe pertence ou não o traduz. 

 

      Dirá Malberg (vide nota 3), que, nas “diversas formações políticas às quais, por costume estabelecido, se dá o nome de Estado”, comprova-se que seus elementos constitutivos se reduzem essencialmente a três: um certo número de homens, um território e “o estabelecimento, no seio da Nação, de um poder público que se exerce autoritariamente sobre todos os indivíduos que formam parte do grupo nacional[4]. Um Estado, diz ele, é

 “uma comunidade humana. […] uma forma de agrupamento social […] que se sobrepõe  a todos os agrupamentos particulares de ordem doméstica ou de interesse privado, ou inclusive de interesse público local, que possam existir entre seus membros […] família, tribo, gens […]; as comunidades estatais se formaram englobando todos os indivíduos que povoavam um território determinado em uma corporação única, fundada sobre a base do interesse geral e comum que une entre si, apesar das diferenças que os separam […] corporação essa superior e geral, que constituiu desde então um povo, uma Nação”.

 

      Perceba-se que “englobar” não significa convencer, mas subordinar. O Estado é a Nação politicamente organizada, não a “representa”. Um Estado não poderá ser visto, jamais, como um elemento politicamente dependente. Se sua Economia, a Economia nacional, é considerada dependente de um ou de vários interesses econômicos extraterritoriais em associação com interesses particulares de grupos específicos da sociedade nacional, isso não significa que sua Política o seja ou deva ou possa ser. Um Estado só é politicamente dependente quando a Nação se vê subordinada. Apesar de que um Estado não poderá ser visto, jamais, como dependente, portanto como subalterno, a sociedade nacional pode ser subalterna, sim, e isso se verifica quando há a coincidência de interesses da maioria dos indivíduos que compõem os diferentes grupos nacionais e a maioria desses com os interesses supranacionais. E a legislação, produzida internamente pelo Estado através dos representantes da sociedade, permite a esses grupos uma energia e uma identidade dissociadas da energia e da identidade nacionais. A Nação seria, assim, “a substância humana do Estado” [5].

 

      Dirá ainda Malberg, em seguida, que uma primeira definição de Estado, “ainda que resulte conforme os fatos, não pode satisfazer plenamente ao jurista” porque “a ciência jurídica não tem somente por objeto comprovar os fatos que originam o direito, senão que tem por principal empenho definir as relações jurídicas que se derivam desses fatos”. A definição se limita a indicar os elementos que concorreram para engendrar o Estado e o confunde com seus elementos ou com alguns deles. “Pretendeu-se identificar o Estado com a massa de indivíduos que o compõe […] considerando o poder público e a organização que o origina como elemento capital do sistema estatal” e com as pessoas investidas de dito poder [6], levando-se em conta que, além da Nação, no território estatal há outros homens que, “considerados individualmente, levam o nome de nacionais ou também cidadãos, no sentido romano da palavra civis, termo que designa precisamente o vínculo social que […] reúne todos os membros da Nação num corpo único de sociedade pública”.

 

      Desde já, observando os fatos, nem a definição nem a posterior crítica que lhe é feita deveriam satisfazer quem vê o problema da perspectiva sociológica, pois podemos entender que Nação não se confunde com sociedade pública nacional − o “povo” a que se refere Malberg, a quem o Estado concede a condição de cidadão. E que o conjunto de indivíduos e de grupos que vivem no território do Estado nem sempre tem interesses que coincidem com os da Nação – o que não quer dizer que os interesses de todos não possam ou não devam coincidir. Apesar disso, o poder do Estado se faz sentir sobre toda a sociedade nacional, que o deve acatar. Cabe aqui lembrar a lição de Durkheim em “As regras do método sociológico” ao definir que seria um fato social: “um fenômeno só pode ser coletivo se for comum a todos os membros da sociedade ou, pelo menos, à maior parte deles, portanto, se for geral. Certamente, mas, se ele é geral, é porque é coletivo (isto é, mais ou menos obrigatório), o que é bem diferente de ser coletivo por ser geral. Esse fenômeno é um estado do grupo, que se repete nos indivíduos porque se impõe a eles. Ele está em cada parte porque está no todo, o que é diferente de estar no todo por estar nas partes.” A sociedade nacional é a totalidade dos indivíduos organizados em torno de seus interesses particulares no território nacional. Já o interesse da Nação é voltado ao público nacional, ou não será o interesse nacional. Por isso ela, Nação, efetiva e única “substância humana do Estado”, constitui o Estado para que ele, Estado, aja, em território público nacional, voltando sua ação para o interesse público nacional. O território é um bem nacional, público, não originariamente um bem estatal. A Nação o conquistou e o tomou para si, fazendo-o seu. O Estado o recebe da Nação no momento de sua constituição. Para preservá-lo e dar-lhe destino adequado. Por isso também a Política que determinou a possibilidade de surgimento e existência de um Estado não se confunde com, nem se submete à Economia, esfera de atividades que deve ser assistida pela Política para que não se transforme em exclusiva esfera de conflitos particulares, uma esfera privada, e provoque conflitos mais graves que apenas a Política, com seus recursos, não poderá dirimir.

 

      Hermes Lima, em artigo publicado nos Cadernos do Nosso Tempo, em 1955, nos dizia que “Metade da população brasileira não está incorporada a uma estrutura de produção e de trabalho que lhe permita viver decentemente[7].  E explica por que isso acontece, parecendo-nos colocar o entendimento da questão como a vemos:

Verificaremos […] que, entre os Estados politicamente independentes, alguns há mais independentes do que outros, porque enquanto certos dentre eles são Estados industrialmente adiantados, economicamente poderosos, outros são Estados industrialmente atrasados, economicamente fracos. § Ora, o nacionalismo constitui valor político-cultural que toma sentido concreto das condições político-sociais dominantes em certo povo ou Estado. Não possui, portanto, o nacionalismo apenas uma versão, porém várias versões[8].  

 

      Mais adiante, depois de dizer que na condução da Política externa o Brasil “Precisa perder o teor reverencial pelas grandes civilizações e pelas grandes potências, temor que é produto de uma visão cultural do mundo em que a contribuição de nossa realidade não se incorpora, mas antes é consciente e inconscientemente repelida[9] afirmará que “A atmosfera política indispensável a semelhante empresa é a do nacionalismo, porque as tarefas mais urgentes de tamanho empreendimento, as prioridades de sua realização, o ritmo de suas obras, tudo depende primordialmente de nós brasileiros, da urgência por nós sentida na batalha contra o atraso técnico e industrial[10]. E acrescenta que

Ao pensar no progresso em função do qual se devem fazer os investimentos a política nacionalista levanta logo seu critério próprio para medir esse progresso: até onde modificou para melhor as condições de vida do povo, até onde representou um passo essencial na transformação da estrutura econômica tradicional de modo que ela pudesse oferecer perspectivas mais amplas de produção e consumo [11]

 

      A Nação, tal qual a vemos, não inclui a totalidade da sociedade nacional que poderá conter grupos de interesses organizados de forma relacionada diretamente ao interesse externo ou internacional e grupos absolutamente marginalizados. Esses grupos todos deverão ser igualmente assistidos e orientados pelo Estado. Caso contrário, esses interesses particulares e a marginalidade em relação ao Estado, a permitida a alguns ou a imposta a outros, que os caracterizam, todos, poderão assumir uma dimensão que supere em muito o esforço voltado ao interesse público. Quando isso acontece, o Estado − e o interesse nacional, que é um interesse público em seus limites territoriais − coloca-se em risco, podendo ser “morto” naquele sentido que Rousseau apontou, sem que uma única vida se ponha em risco.

 

      Todas essas relações entre a Nação e a sociedade nacional são compreensíveis graficamente, se traçarmos uma circunferência representando o território, objeto da vontade nacional, conquistado pela ação da força ou da negociação. No espaço delineado vive uma sociedade. Constituída a ordem jurídica ao constituir-se o Estado em território considerado suficiente, ela terá exatamente esse raio de ação. As funções de defesa contra agressões externas estarão localizadas nesse limite. Isso não implica que todos os indivíduos e grupos que vivem nesse território tenham uma vontade e um interesse que possa ser denominado nacional.

 

      Dentro dessa primeira circunferência, tracemos uma segunda, com raio menor, não necessariamente concêntrica à primeira, cujo raio representa a ação nacional. Quanto mais denso esse centro for e quanto mais ao centro, encontramos o gérmen do Estado, a decisão de independência, a vontade de poder. Mas essa não é uma vontade de poder particular. É uma vontade de poder público soberano em relação a outras vontades de poder. É uma vontade soberana que não admite vontades superiores. É uma vontade de ordem e administração autônoma em relação a outras vontades de ordem inferior e/ou exterior, cuja administração poderá não reconhecer freios. A tendência nacional será ampliar o raio dessa circunferência ao máximo, embora o limite dessa expansão seja a primeira circunferência − pois é fronteira do território nacional. Essa ação de expansão se dá incorporando indivíduos e grupos, interesses individuais e grupais, ao interesse público. Quanto mais se alonga o raio de ação nacional, mais recobre o território e mais o centro do qual ele parte se aproxima do centro da circunferência maior − a que representa a sociedade que se articula no território nacional. E mais se integra a sociedade à razão nacional. Ao revés, quanto menos se amplia a ação nacional, mais a Nação se vê acuada, deslocada, até que, de um ponto, desapareça. Nesse momento, o Estado, que se vinha trincando aos poucos como um cristal golpeado, rompe-se de vez. Internamente, é a situação que podemos chamar de anomia. Externamente, é uma situação de vulnerabilidade à expansão de vontades nacionais exteriores.

 

      O processo pelo qual a Nação, representada pelo círculo menor que se expande, aumenta, dá-se pela incorporação de grupos que habitam o território mas não têm vivo e atuante o sentimento do que seja público. Não é esse um processo em que os “incorporados” perdem sua identidade e em nada contribuem para aquele grupo, a Nação, que os incorpora. Para bem compreender o que temos em vista, nada melhor que recorrer às lições da Sociologia. Os grupos pode ser vistos como um “nós”, que, segundo Gurvitch, resulta da interação entre a consciência dos indivíduos que o compõem e deles com aquilo que na Sociologia francesa se chamou de “consciência coletiva” (que não é exatamente uma “consciência” no sentido da consciência individual, pois o corpo coletivo não tem consciência). No processo de interação dos grupos dá-se a coalescência segmentar. Como podemos defini-la ou bem compreendê-la? Nos dicionários encontramos que coalescência é “fenômeno de crescimento de uma gotícula de líquido pela incorporação à sua massa de outras gotículas com que entra em contato”. Se por gotículas entendermos os valores, poderemos dizer que no processo de interação, em lugar de termos um acréscimo de valores aos demais valores, teremos uma mudança, uma “fusão” de cada valor em outro. Como se diria na Química, uma “combinação”, não uma “mistura”. Com isso, têm-se novas normas e padrões de comportamento que incorporam, superando, os anteriormente vigentes em cada grupo. Ora, para que a incorporação de outros grupos à Nação possa dar-se sem que o grupo Nação perca sua identidade e seu caráter, é necessário que a solidariedade que une seus membros seja mais firme que aquela que reúne os demais grupos em torno de seus valores. Pormenor significativo, que já encontramos em Gramsci, é que a visão do mundo de uma Nação deve aparecer intelectualmente superior à visão do mundo dos demais grupos.

 

      Em um dicionário especializado, tal como é o Dicionário de Política de Norberto Bobbio, encontraremos uma visão do que seja a Nação completamente diferente dessa aqui exposta: “Nação nada mais é do que a ideologia do Estado burocrático centralizado”. Assim sendo, “a superação desta forma de organização do poder político implica a desmistificação da idéia de Nação. Existem fundamentos concretos para esta desmistificação”. Um desses “fundamentos concretos” seria, segundo o autor, a “atual evolução do sistema de produção na parte industrializada do mundo” que, ampliando o âmbito da interdependência para além das fronteiras nacionais apontaria “com uma evidência cada vez mais direta para a necessidade de se organizar o poder político em níveis continentais e conforme modelos federativos”. Por isso, por esse “fundamento concreto”, seria “previsível que a história dos Estados nacionais esteja chegando ao fim”, em processo em que se revigoram “nacionalidades espontâneas” que o Estado nacional “abafa ou reduz a meros instrumentos ideológicos a serviço do poder político”, transformando “a ideologia nacional em única detentora dos autênticos sentimentos gregários”.

 

      Para o autor do verbete [12], “uma teorização consciente da Nação como fundamento natural do poder político, isto é, da fusão necessária entre Nação e Estado” apenas poderia ser encontrada em meados do século XIX, quando qualquer outro sentimento de pertença, as lealdades e as identificações territoriais regionais e locais

foram praticamente eliminadas em função da superior referência à Nação e, por outro lado, as mesmas filiações ideológicas ou religiosas, que se apresentam como universais pela sua própria essência, foram, na prática, subordinadas à filiação nacional e, conseqüentemente, perderam sua própria natureza mais profunda. É prova disso, desde o início do século XIX até os nossos dias, a história dos movimentos liberal, democrático e socialista, cujo ápice foi a falência do internacionalismo socialista, quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, e da própria religião católica, cujos sacerdotes abençoam os exércitos nacionais, isto é, os instrumentos da violência nas relações internacionais, traindo assim, em nome da Nação, a vocação ecumênica da Igreja”.

 

      Prossegue o verbete Nação no citado Dicionário esclarecendo que “Nação não passa de uma entidade ideológica, isto é, do reflexo na mente dos indivíduos de uma situação de poder”, é “uma entidade ilusória, à qual não corresponde grupo algum, concretamente identificável”; ela é “pensada como sendo uma realidade social orgânica”, mas seria tão somente uma “ideologia de um determinado tipo de Estado, visto ser justamente o Estado a entidade a que se dirige concretamente o sentimento de fidelidade a que a idéia de Nação suscita e mantém”. O processo que levará à existência desse sentimento é colocado historicamente “pela extensão forçada a todos os cidadãos do Estado de alguns conteúdos típicos da nacionalidade espontânea (por exemplo, a língua)” ou pela “imposição da falsa idéia” de que alguns desses conteúdos seriam “comuns a todos os cidadãos (por exemplo, os costumes)”.  Decorre daí que a identidade nacional seria algo artificialmente imposto pelo poder de alguém sobre alguma identidade não ideológica que a precederia: o monolingüismo não será “algo original nem espontâneo, e sim, pelo menos em parte, um fato político, fruto da imposição a todos os membros de um Estado, pelo poder político” e os costumes − a maneira de viver − mais se assemelham entre os habitantes de “regiões próximas, embora pertencentes a Nações diferentes que limitam entre si” que os “de regiões geograficamente situadas nas extremidades opostas da mesma Nação; e assim por diante”.

 

      Podemos perceber um certo viés na descrição do fato Nação quando se confrontam as citações. Sentimentos tais como o de pertença e o de lealdade, identificações territoriais ou religiosas, sejam locais, regionais ou universais por “sua própria essência”, que marcariam o revigoramento de “nacionalidades espontâneas”, que poderão ser vistos como ideológicos, mas não são vistos como perniciosos ou não tão perniciosos como perniciosa parece ser a pertença ao Estado-Nação. Desde já, aliás, é interessante destacar o enfoque dado à idéia de Nação – a Nação se distinguiria das demais idéias que organizam os grupos em sociedade pelo fato de ser um fenômeno ideológico enquanto identidades outras não o seriam, seriam “reais”, ou seja, não-ideológicas, não seriam objetos construídos mentalmente, mas em uma suposta concretude. Por que seriam não-ideológicas? Porque seriam contra o poder político do Estado-Nação…

 

      Assim, as características comuns tais como língua, costumes, religião, território e aquele “e assim por diante” não seriam justificativas suficientes à formação de uma Nação que, pelo que nos diz o autor, apenas é “autêntica” caso se baseie em fatores “autênticos”, que não serão políticos – o que nos diz que fatores políticos não são autênticos… Por outro lado, também nos é dito que “a idéia de ‘laços naturais’ sugere, de imediato, a idéia de raça”.

 

      Pelo menos no Brasil, cuja população desaparece em não sendo considerada mestiça, um mínimo de lucidez acadêmica impedirá que o conceito de “raça” seja levantado como base para definir-se a Nação. Portanto, mesmo que isso possa ter ocorrido com algum ajuste em qualquer época alguma vez ou permanecer ocorrendo em certos grupos radicais em lugar geográfico – “o que é comprovado pelo testemunho das definições que os dicionários oferecem deste termo”, tal como insiste o autor do verbete comentado acima -, no Brasil, a raça, denominada “etnia”, que é um sinônimo de raça, vem apenas servindo na atualidade quer como pretexto da fundação de pequenas pseudo-nações dissociadas da Nação brasileira, quer como fundamento de lutas sociais, como um dos típicos “instrumentos ideológicos a serviço do poder político” embora com sinal trocado − um fundamento avesso à nacionalidade, à integridade territorial e ao poder nacional [13]. Para justificá-lo, teríamos que encontrar a razão de uma unidade nacional em outros aspectos, não os políticos, sim os “espontâneos”, ou seja, outros aspectos “da natureza”. Quais seriam?

 

      E qual aspecto da vida social brasileira, desde o nascimento do Estado brasileiro, poderia ser classificado como decorrente de fatores não políticos? Ou, indo mais além, como teriam surgido a uniformidade de costumes e a unicidade de idioma entre indivíduos organizados em sociedades quaisquer, fosse qual fosse a sua origem étnica, a não ser através de pressões de um grupo menor no sentido da expansão da sua unidade, grupo esse que foi ampliando a pouco e pouco, por quaisquer métodos, sua área de influência e seu poder ao integrar outros grupos ao seu interesse? Porque cultura não só também como principalmente é poder. E como se teriam mantido pequenos grupos organizados dessa ou daquela forma cultural, mesmo sob o domínio e sofrendo a pressão de outros grupos mais fortes e mais organizados sob a forma de um Estado? Esses grupos mantêm sua identidade por uma consciente resistência política − como é o caso das nacionalidades renitentes no território europeu − ou por estarem totalmente abandonados pelo Estado, o que os impede de participar plenamente da vida nacional, ao não terem sido plenamente integrados a ela − como e o caso das “nações” indígenas no território brasileiro. De onde nascem os costumes que afrontam a ordem nacional − como é o caso dos grupos marginais, principalmente urbanos, mas também rurais, muitas vezes considerados “revolucionários” − senão da própria marginalidade em que vivem?

 

      No mínimo, muito confusa nos parece essa definição de Nação oferecida por um Dicionário especializado que tem como organizador tão renomado estudioso e como público a Academia. Além de confusa, eminentemente ideológica, tão ideológica quanto pretende caracterizar o conteúdo do termo que busca definir e combater.

 

      Bem, vimos acima que a “extensão forçada a todos os cidadãos do Estado de alguns conteúdos típicos da nacionalidade espontânea (por exemplo, a língua)” seria uma violência. Que dizer do que nos lembra Hobsbawm – que o Esperanto, ainda protegido por alguns regimes derivados do internacionalismo socialista, seria um resquício da tentativa de unificação lingüística universal…?

 

      Segundo Hobsbawm, as concepções de Estado-Nação e de Nação fazem parte da ideologia liberal

porque o desenvolvimento das nações era inquestionavelmente uma fase do progresso ou da evolução humana que ia do pequeno ao grande grupos, da família à tribo […], à Nação e, em última instância, ao mundo unificado do futuro no qual, para citar o superficial, portanto típico G. Lowes Dickinson, ‘as barreiras da nacionalidade que pertencem à infância da raça irão dissolver-se e fundir-se no brilho da ciência e da arte. § […] Uma única língua mundial, sem dúvida coexistindo com línguas nacionais reduzidas ao papel doméstico e sentimental dos dialetos, estava nos planos tanto do presidente Ulysses S. Grant quanto de Karl Kautsky[14].

 

      Mas é caso de perguntar: para quais concepções e que métodos de unificação universal teriam migrado o internacionalismo econômico tanto liberal quanto socialista? Note-se que, na definição acima, propositadamente omitida em nossa transcrição, encontrava-se referência a “região” como “fase do progresso ou da evolução humana”, colocada, talvez por lapso, imediatamente após a tribo e antes de “nação”. É de ver que uma “região” não se inclui, definitivamente, entre as categorias que poderiam caracterizar a família, a tribo e a Nação como organização.

 

      Ora, a justificativa ao surgimento de uma Nação, elemento político por excelência, não se limita ao conteúdo de uma cultura local ou regional, nem o esgota, apesar de que as culturas também sejam determinadas por ações e objetivos nos quais se pode diagnosticar uma essência eminentemente política, ou seja, um caráter de organização e de poder. Evidentemente, todo homem tem uma cultura e dela se pressente como parte, antes de assim se sentir.

 

      Uma vez que é a Nação quem empresta ao Estado o caráter unificador e expansionista, que supera as relações de organização de quaisquer grupos, tribos ou associações corporativo-profissionais, ela se caracteriza exatamente por conceber, como fruto do processo de desenvolvimento dessas relações restritas anteriores, uma outra forma de organização mais adequada às circunstâncias políticas e às pressões políticas mundiais. Exatamente a atualização da cultura produziu um novo “desenho para viver” – se como “acumulação de mecanismos engenhosos para alargar as capacidades inatas preexistentes” ou não, isso já se faz um outro assunto, um assunto a ser discutido em termos morais, filosóficos, não em termos de Política, de poder.

 

      Mais interessante será observar que a fragmentação da Nação em favor dessas estruturas menores às quais se pretende reconhecer um status de Nação se faz em também em favor dos regionalismos. A Nação à qual corresponde um Estado é um elemento político, que se inclui em sua plenitude política como elemento de fato na política mundial. As Nações às quais correspondem os Estados, e que hoje em dia são as únicas que podem ser chamadas de Nações, não são a origem das sociedades que se instalam e se articulam no território denominado nacional. Elas se constituem no seio das sociedades pela consciência da identidade de objetivos entre os indivíduos, não da identidade de classe, de costumes, crenças religiosas ou coisas que os valham, e constituem Estados. As Nações se constituem por ato de vontade, mas também correm o risco de se dissolver, e sua dissolução provocará a dissolução, talvez não aparente, mas real do Estado; as Nações agem e produzem efeitos, produzem fatos tanto internamente ao Estado, preservando-o de ações deletérias internas à sociedade, quanto em seu comportamento em relação a outros Estados nacionais, protegendo-o de ações intervencionistas de outros Estados. Ao se constituírem, as Nações tendem a crescer, aglutinando outros elementos ao seu núcleo. Esse caráter expansionista é que permite que benefícios e oportunidades se expandam com certa isonomia sobre todos os componentes da sociedade nacional. Esse caráter expansionista é também o caráter que os nacionais emprestarão aos Estados que constituem. E apenas se revestirá de um conteúdo plenamente ideológico caso consideremos todo o conteúdo e todos os efeitos da Política como um conteúdo plenamente ideológico e como efeitos plenamente ideológicos. Mas para isso é necessário que também consideremos qualquer ponto de observação como ideológico. O que não está exatamente errado. E, mesmo assim, será necessário definir a Nação como de fato ela é ou parece ser, não porque ela situe o indivíduo no território ou na cultura, uma vez que a sociedade é capaz de produzir esse efeito, mas porque lhe permite a consciência de que pertence, em comunhão com outros indivíduos, a uma realidade política da qual não poderá ser excluído, ou seja, a um poder do qual não poderá não participar, uma vez que essa realidade e esse poder também lhe pertencem. Por isso é tão importante que Nação não seja confundida com sociedade nacional. As diferenças parecem óbvias, mas não são, e muitos são os que, por temer a pecha de “não politicamente corretos”, evitam tratar dessa diferença, causando mais confusão na compreensão da Política interna aos Estados e principalmente na Política internacional. E produzindo efeitos que, aos poucos, apenas levam a um totalitarismo de fato sem retorno.

 

      Já a dificuldade em lidar com o termo produzirá posturas defendidas com muito ardor, mas que demonstram sua fragilidade, tais como as que inspiram a demagogia nas Nações Unidas que, negando o racismo como princípio, adota o caráter étnico como razão das diferenças, do direito às diferenças (aos diferentes “desenhos para viver”, como quer Geertz [15]), e da diferença entre os direitos dos homens (o conhecimento dependerá sempre da existência de modelos simbólicos da realidade, objetivos e externos). Na verdade, apenas encontramos o elemento político a justificar tudo o que é e vem sendo dito.

 

      Vejamos, por outro lado, até que ponto pode alcançar o elemento político a dirigir vontades em nome da historicidade e da espontaneidade que autenticaria as formações supra-nacionais: “O ‘ser nacional’ − nos diz o argentino J.J. Hernández Arregui − nesta primeira redução do significado mal delimitado do conceito, é a pátria”, que é um conceito genérico, “poliédrico e não primário”. Pátria é uma categoria histórica. Na história o “ser nacional” irrompe “como atividade social existente e desgarrada”. Como somente o homem é capaz de ter recordações, a Pátria será

ao mesmo tempo, um fato psicológico, vivida como experiência individual, e um fato social, enquanto consciência coletiva de um destino. Mas, como dissera Napoleão, ‘o destino é a política’ […] O ser nacional é, ao mesmo tempo, um povo cultural ou uma comunidade nacional de cultura” […] que tenderá a “desdobrar-se no conceito mais compreensivo de “nação”… realidade jurídica circunscrita no espaço e no tempo, como uma estrutura política própria […] A Nação é um fato verificável, pois sem território não existe Nação; é um fato institucional, pois sem normas sociais aceitas pelo grupo não há vida social; é um fato histórico, com sua gênesis e desenvolvimento, pois expressa a origem e permanência no tempo do grupo institucionalizado, e a continuidade das gerações cujos frutos são mantidos na recordação dos vivos pelo legado dos mortos, representado, em primeiro lugar, pela língua, ‘existência e sangue do espírito’ e, depois, pela aprovação supraindividual de valores semelhantes, passados e presentes, com os quais a comunidade nacional reconhece a si mesma como unidade de cultura.” [16]

 

      Reconhecerá Hernández, referindo-se especificamente em seu trabalho aos países de colonização ibérica, que

O fracionamento da América Latina é uma edificação artificial da Europa do século XIX, no essencial, não desejada no momento da emancipação pelos povos hispano-americanos […] Contrariou-se, assim, o sentimento hispano-americano destes povos que, salvo nos grupos imigrantes derradeiros, permaneceram estranhos a uma ‘latinidade’ irreal. A latinidade não existe, como não existe Ocidente

 

     Mas a Espanha, diz ele, vive na América e respira através da continuidade das gerações históricas nos seus povos anônimos, no posterior imigração ibérica e seus filhos, que também não são espanhóis mas hispano-americanos”. Sentimos a América espanhola como “nossa”. Esse sentimento encerra uma realidade passada, presente e atual, não consumida na esfera da Política mundial, mas sempre rediviva na consciência ancestral américo-espanhola que reúne condições de uma Nação integral que substituirá o “nacionalismo falaz das repúblicas sem existência própria, auxiliado por fora […] pela consciência histórica da Nação latino-americana”. [17]

 

      Qual será a “unidade de cultura” que caracteriza a pátria identificada por Hernández? Esse “ser nacional” − diz ele − “descansa sobre um sistema homogêneo de símbolos artísticos, idiomáticos, religiosos, míticos, étnicos que lhe dão coerência cultural” […] É também a América Espanhola o que se observa nos escritores do tipo de […] Machado de Assis, Jorge de Lima[18]. Portanto, sem o Brasil – que, “pelas suas quedas d’águas, é dono de um dos potenciais hidrelétricos principais do mundo, a que devem somar-se as suas jazidas de petróleo”, reconhece esse nosso entusiasmado prosélito da grandeza e da glória da pátria hispano-americana –, “a unidade da América Latina é impossível. E esta unidade terá que ser compartilhada com a Argentina”; apesar de que o Brasil seja “exemplo da mentira das raças[19].  Talvez fosse o caso de colocar um ponto de exclamação ao final dessa frase “de palanque”.

 

      Para justificar todo esse discurso do “patriotismo”, o nosso autor delibera que existiria um nacionalismo “das massas”, cuja “unidade” recobre o subcontinente, e um outro nacionalismo “das elites”, que vêem as fronteiras. Mas “nos próximos anos a ebulição “alcançará uma temperatura irresistível. E isto é um prognóstico mais válido que as embromações de uma lição instigada, adulterada e hipócrita[20] .

 

      Pois bem, esta obra de franca propaganda político-ideológica foi publicada em bom Português, no Brasil, em 1971. A data da publicação é importante, consideradas as circunstâncias da Política e da Economia brasileira à época. Além de negar características próprias à população brasileira, aliás, de negar sua cultura portuguesa − e esta, por certo, não será uma mentira qualquer − que a diferenciasse do restante dos países sul-americanos, de desconhecer na colonização brasileira um caráter absolutamente diferente da colonização espanhola, de sequer manter algum respeito ao conflito que sempre houve e ainda permanece vivo entre as duas “metrópoles”, Portugal e Espanha, um outro argumento que nos traz será também interessante: a América Latina não seria uma Nação, masum conjunto de regiões supostamente soberanas”, ao mesmo tempo que a questão nacional deve ser definida como “parte indivisa da situação mundial”: é a questão de uma “grande Nação inacabada pela pressão anglo-saxônica durante o século XIX”; e o “ser nacional” não seria, portanto, “outra coisa senão a luta entre a América Latina e a Inglaterra e os Estados Unidos: a consciência revolucionária das massas frente à questão nacional e latino-americana”. Mas nos parece mais interessante ainda, do ponto de vista dos “fenômenos culturais espontâneos” ou “herdados”,  a forma como Espanha − que a oligarquia hispano-americana teria negado − é definida por esse nosso autor:

O difícil é compreender − tão mesquinha é a causa − por que as oligarquias nativas, depois da emancipação, em lugar de preservar suas origens, denegriram sistematicamente a Espanha a partir do século XIX, para romper dessa maneira, não com a Espanha, que já não constituía um perigo, mas com elas mesmas, do ponto de vista das origens nacionais”, diz Hernandez. “Das nações da Europa, nenhuma, como a Espanha, atingiu de tal maneira os cumes do esplendor universal”; “é o povo mais organizado da Europa. Um enigma para os europeus”; só lhe cabe “a calúnia ou a admiração. Não existem alternativas. Entre todos os povos da Europa, culturalmente ele é o mais adestrado, talvez numa medida que não se integra totalmente no espírito europeu”. Ridicularizam-na “como um leprosário de mendigos, gozadores, fanfarrões e nobres decaídos, ou a exaltam com os arrebóis estivais de um romantismo sufocante. Em ambos os casos, o contorno da Espanha é sempre espanhol, ou seja imutável. A definição da cultura espanhola é a indefinição de sua composição étnica e de seu amálgama com civilizações que na Espanha perderam o que lhes era inerente. … é o único país autóctone da Europa, com exceção, talvez da Rússia, também uma cultura misturada e ao mesmo tempo profundamente nacional”.[21]

 

      Não por acaso chamamos atenção a essa definição. Exceto o respeito, quase ufanismo, nada justifica os adjetivos que são colocados por quem pretende parecer isento às ideologias e brindam Espanha. Da mesma forma como o pouco conhecimento das peculiaridades brasileiras pôde entortar uma história de 500 anos e as circunstâncias por ela produzidas em território brasileiros, e como talvez a cobiça de seus recursos naturais puderam ser camuflados sob um discurso “de classe”, as ambições de Espanha sobre o território português não se acusa, tampouco, embora envolvendo, na atualidade, nomes ilustres, tal como o de José Saramago, na tentativa de convencer a população portuguesa das vantagens de uma anexação ao país vizinho. Acreditamos que, como ilustração, vale reproduzir o pensamento de Mário Soares, em artigo publicado no Diário de Notícias, Lisboa, de 04/03/ 2008: “Portugal e o futuro”.

Portugal é um Estado-Nação. Quer isto dizer que a Nação coincide em absoluto com o Estado, ao contrário do que acontece com a nossa vizinha Espanha, que é um Estado com diversas nações, isto é: com territórios bem demarcados, línguas próprias, histórias e costumes diversificados. […]§ Em Portugal, com uma realidade unitária bem diferente da espanhola, nunca se pôs uma tal questão. […]§ Vem isto a propósito da identidade de Portugal, como Estado-Nação, desde 1140, que é três séculos anterior a Espanha, como tal, só assim chamada depois do casamento dos Reis Católicos, Fernando e Isabel, e da conquista do Reino de Granada, aos mouros (1482). Portugal – reconheça-se – tem uma identidade fortíssima que resistiu à ocupação espanhola (1580-1640) – sobretudo no Brasil e noutras regiões do Império – e se manifesta ainda hoje, sobretudo nas diásporas portuguesas espalhadas pelos cinco continentes. […] A nossa história, que se desdobra por tantas regiões do mundo e deixou marcas em todos os continentes, é incomparável. […] E não é agora por a Europa estar em crise – e o mundo a entrar em recessão – ou por sentirmos, é verdade, “um difuso mal-estar” que os órgãos de comunicação social ampliam, que nós vamos perder a confiança em nós próprios e no destino português!”

 

      Cabe também lembrar aqui, portanto, o que diz Clausewitz a respeito da guerra, além de que ela é a continuação da Política por outros meios, cuja lógica é aplicável a qualquer situação de disputa:

“[…] o desarmamento do inimigo é o objetivo de qualquer ato de guerra […] pelo menos, em teoria, isto tem que ser necessariamente assim. § Para que o adversário se submeta à nossa vontade, é preciso colocá-lo numa situação mais desfavorável do que o sacrifício que lhe exigimos. Todavia, a desvantagem de sua situação não deve ser naturalmente ser transitória ou, pelo menos, aparentá-lo; caso contrário, o adversário esperaria um momento mais favorável e não cederia. […] A pior das situações para um beligerante é aquela em que este se encontra completamente desarmado. Daqui resulta que o desarmamento ou a derrota do inimigo − seja qual for a palavra que se escolha − deve constituir sempre o objetivo da ação militar” . [22].

 

      Ora, submeter o adversário à nossa vontade é uma pretensão política em sentido estrito. E desarmá-lo será também despi-lo de suas prerrogativas, desprovê-lo de meios. Não foi uma guerra o que desarmou o Brasil. No entanto, é público e notório que as Forças Armadas brasileiras estão em situação de falência, assistindo pacientemente ao reaparelhamento de seus vizinhos, esperando por uma iniciativa governamental. Isso não se deu da noite para o dia, mas foi o resultado de um longo processo de substituição de valores nas consciências brasileiras. Podemos supor que a maioria da população não tivesse noção dos perigos que correm os Estados desarmados. Mas imaginar que isso ocorresse nos setores dirigentes é algo inadmissível, principalmente, nos altos escalões militares. Por outro lado, como lembra Oliveiros S. Ferreira:

“[…] as Forças Armadas estão, paulatinamente, deixando de preocupar-se com os problemas que, resolvidos, poderiam mudar o posicionamento do Brasil no concerto das nações: a pesquisa científica nas áreas sensíveis e a construção do Dispositivo Estratégico de Dissuasão […] indispensável […] para que o País possa de fato sentir-se em segurança. Isso porque, por um lado, as transformações que se estão operando nos países vizinhos poderão criar, a médio prazo, situações embaraçosas para a segurança nacional, e, por outro lado, porque a necessidade de manter acelerado ou mesmo constante o ritmo do desenvolvimento econômico e social fará que a economia brasileira dependa, cada vez mais, da energia que os vizinhos na Américas do Sul nos fornecem. O busílis não está em que recebamos energia vinda de países vizinhos; ele reside em que esses países não têm um grau de estabilidade política que possa trazer uma razoável dose de tranqüilidade a quem cuide dos problemas de Segurança e Desenvolvimento do Brasil – se é que, depois da promulgação da Constituição de 1988, e tendo a preocupação dos bem-pensantes se centrado em novos conceitos de defesa, haja ainda quem cuide seriamente desses assuntos censurados pelos cultores das ações politicamente corretas.”[23]    

 

      Voltemos, pois, para concluir, ao conceito de Nação, que implicará vínculos com os de Estado, de sociedade nacional, de poder nacional e com o indivíduo nacional. São vínculos de espécies e níveis diferenciados. Como vimos antes, não há Nação sem Estado ou sem a expectativa de formar um Estado. E um Estado sem Nação não será um Estado. A Nação cria o Estado, que não se cria por si, ou seja, ela constitui o Estado no momento em que encontra vontade e interesse e reúne poder para tanto. Essa constituição do Estado corresponde à tendência à ambição por independência, da natureza dos indivíduos, que se transfere aos grupos dos quais ele faz parte, e se organiza no âmbito de um grupo determinado voltado ao interesse coletivo público. A voz da Nação é quem tem poder, pois ela se autoproclama capaz de prover-se, defender-se, desenvolver-se e reproduzir-se ao constituir o Estado nacional, que imediatamente assume esse poder e essas funções. Não “em nome de” a Nação, mas porque nele ela se projeta. A Nação está na sociedade nacional, dissemos acima. Se ela está na sociedade nacional significa que ela não é mais ampla que a sociedade nacional – mas, sendo do “tamanho” ideal, ela estará na totalidade da sociedade nacional. 

 

      É nesse sentido que se coloca a lição de Oliveira Viana:

[…] os pressupostos funcionais de uma estrutura democrática moderna, de tipo Estado-Nação, há de ter o seu assento principal num “complexo cultural”, que deve ser anterior e preliminar à instituição deste tipo de Estado […] que é a capacidade de cada cidadão de subordinar, ou mesmo sacrificar, os seus egoísmos naturais e os seus interesses pessoais (de indivíduo, de família ou de clã) aos interesses gerais ou coletivos dos grupos ou comunidades maiores, a que ele pertence (aldeia, comuna, província, Nação) [24].

 

      Esse sacrifício do egoísmo natural individual será sentido como sacrifício apenas por quem não se compensa e se alegra com os seus resultados. Não por quem considera a Nação como seu berço e como seu único elo possível com o futuro, como sua própria projeção.

 

      Entendemos que cada momento da evolução de uma nacionalidade, desde que o seja e o assuma, dependerá de cada momento anterior dessa evolução, e das ações humanas combinadas com meio físico e o meio político tanto interno quanto circundante, a cada momento; ou seja, dependerá de ações adequadas (ou inadequadas) a um meio favorável (ou adverso), mas dependerá basicamente dessas ações, da direção que elas tomam e das considerações que as definiram; ou seja, dependerá dos motivos que as permitiram ou exigiram, não apenas do meio em que se encontra, de um caráter de grupo ou do seu passado. E cada uma dessas ações reverterá em resultados que serão imediatamente incorporados às condições que ações posteriores hão de enfrentar. Compreendemos ainda que o alargamento do raio de ação nacional não necessariamente fará o gérmen da nacionalidade não aprofundar-se, sem esgarçá-la – não há por que vir esse gérmen à superfície, tornar-se vulnerável ao pisoteio de todos e qualquer um.   

 

      Ora, ao nacional definitivamente não importa uma definição de seu caráter antropológico, psicológico ou econômico ou a de sua identidade pela soma e/ou a subtração de adjetivos; apenas importa saber se a nacionalidade, enquanto fato sociológico, ou seja, fato político em sentido estrito, pôde ver-se refletida em atitudes e em expectativas, e se isso se deu de fato em função do seu desempenho em seu próprio benefício e na defesa de sua existência e unidade. Isso, sim, refere-se a um “caráter nacional”, seja brasileiro, seja de qualquer outra origem territorial. O “caráter nacional”, portanto, não é qualquer índole nacional, uma vez que no nacional não se incluem indivíduos de um mesmo e único tipo. É o caráter de um valor em si, pois o nacional é um valor, que se imprime ou não se imprime nos indivíduos. A consciência do significado desse valor produz o reconhecimento de uma identidade que se cria da convivência integrada da população, seja qual for a estrutura a que essa população obedeça. Em suma, o nacional, assim como a Nação, assim como o Estado, ou é, ou não é; existe ou não existe. E são opções políticas em sentido estrito o que o definem.  O nacional refere-se a uma consciência de interesse e é uma postura pública do público, representa uma esfera pública, nunca se poderá referir a qualquer dimensão privada. Equacionar o nacional de qualquer outra forma e atribuir o adjetivo nacional à índole manifestada eventualmente por alguns indivíduos, estendendo-a a todos os indivíduos ou a todos e quaisquer grupos constituídos pelo comum interesse privado de alguns indivíduos será, numa analogia grosseira, como pretender determinar a consistência e a velocidade do molusco pela espessura da sua carapaça ou imaginar poder conhecer a lógica das formigas pelo aspecto externo do formigueiro ou coisa parecida. Tão absurdo quanto inútil.

 

      Interessa-nos de perto, pois, apenas o que pôde ser dito e ser feito no sentido de reprimir, estimular ou tentar moldar a mentalidade da população nacional a uma dada expectativa, e no sentido de projetar e utilizar a potencialidade do território nacional, sua posição geográfica e seus recursos naturais e humanos ao universo político competitivo internacional tal como este se apresenta. Mas, ao dizer “mentalidade nacional”, é importante que insistamos em esclarecer desde já que não se trata aqui de atribuir à mentalidade dos indivíduos brasileiros em bloco qualquer característica específica devida à etnia, à colonização, localização regional ou continental, qualquer aptidão inata, qualquer traço psicológico, qualquer tendência que os diferencie dos indivíduos de outros povos, ou de atribuir, à população brasileira ou aos grupos mais ou menos amplos eventualmente formados por brasileiros, características biológicas ou psicológicas que os diferenciasse das demais populações nacionais ou dos grupos mais ou menos amplos eventualmente formados por indivíduos de outras nacionalidades.

 

      Sendo isso o importante e o interessante, será interessante e importará lembrar que, ainda que não para todas as consciências brasileiras, o escape providencial para o impasse criado pela existência das duas grandes potências parece ter sido encontrado nas oportunidades oferecidas pelas Nações Unidas; não só a participação em uma Assembléia Geral sem qualquer poder impositivo, mas especialmente a adesão a programas que se vinculavam a processos definidos sob a iniciativa ou a orientação da UNESCO e da CEPAL, a primeira de início apenas dedicada aos cuidados com o “patrimônio cultural da humanidade” e só em seguida voltada às políticas educacionais e de desenvolvimento, a segunda agindo no sentido do reconhecimento de uma unidade latino-americana (depois ampliada ao Caribe) que nos determinasse a uniforme maneira de ser, fazer, sentir, agir e nos articular e no sentido da integração dos Estados em um “bloco regional”. Como bem nos pôde esclarecer Deutsch:

a Organização das Nações Unidas está tentando conseguir seu objetivo principalmente através do trabalho da Assembléia, do Secretário geral e do Conselho de Segurança. Grande parte do trabalho de adaptação é exercido pelo Conselho Econômico e Social (ECOSOC) e importantes esforços no sentido do desempenho da função integradora são feitos através da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). A tarefa de manutenção dos padrões parece estar sendo deixada em larga medida aos governos e nações membros[25].

 

      É possível avaliar o vulto da influência da UNESCO nas políticas públicas em território brasileiro, sem muito esforço investigativo, em suas páginas na internet [26].

 

      Podemos ainda recorrer a uma outra imagem, que nos parece conforme a natureza essencialmente política dos Estados: a que seria esboçada como se o Estado fosse um sólido de três faces mais ou menos porosas, permeáveis, de cores diferentes, contidas em si entre as arestas que as conectam por tensão superficial, e que estão expostas a contatos permanentes com o exterior e sujeitas a diferentes influências: a cultural, a econômica e a militar/diplomática; essas faces delimitam uma quarta face que representa sua base. A substância desse corpo em forma desse prisma piramidal é essencialmente humana, mais ou menos uniforme, mais ou menos flácida, imperfeitamente amalgamada, e recobre um ponto de firme fibra interior que lhe transmite, diríamos, luz, ou energia, e que se projeta através dessas superfícies a outros corpos no espaço onde se dão as relações internacionais. Esse ponto de fibra firme é a Nação. Sobre o território, que a base do prisma representa, em um ponto qualquer, ele se encontra, e essa base é também de onde também se erguem as laterais descritas figuradamente acima, formando um vértice no ponto em que se tocam. O interior desse sólido é denso ou rarefeito em todos ou em alguns pontos, preenchido pela sociedade nacional, onde se dão as relações nacionais, tanto mais influenciadas pelas relações internacionais quanto mais se aproximam das faces externas, que podem romper-se, rompendo-se a tensão, por fatores externos e internos, e tanto mais influenciadas pela Nação quanto mais dela se aproximam. Já a projeção da luz que emana da Nação, luz que, por sua vez, nem sempre se faz clara ou nem sempre se faz pura por todo o conjunto nacional, ao ser refletida por cada uma dessas laterais sobre o solo, ou a base desse sólido, poderá nos dar a idéia de qual dos fatores de poder do Estado representado por esse sólido é o determinante nessas relações internas. Se estiverem em equilíbrio, o Estado terá uma figura “sadia” e refletirá uma cor “sadia”, cor essa fruto da mistura feita daquelas cores em seu interior, e que também o revestirá, transpirando pelos poros do sólido para que assim seja refletida ao exterior. E esse reflexo poderá ser mais fosco ou mais brilhante, e nem sempre pareça agradável a quem o vê. Se estiverem em desequilíbrio, ou seja, se uma das cores laterais estiver saturada, ela se sobreporá às demais, apagando-as do território − o Estado estará debilitado, às vezes mutilado. Isso porque nem ele é uma realidade estritamente cultural, nem é estritamente poder econômico, nem estritamente poder militar ou diplomático, funções que são, essas duas,  de defesa e de expansão em relação ao exterior. As três áreas apóiam-se reciprocamente e significam a defesa interior, a do território e da população nacional que conforma a sociedade nacional e a da ordem interna que essa sociedade determina. Qualquer das áreas sendo privilegiada em detrimento de qualquer outra fará que o sólido se coloque como uma figura disforme, não equilibrada, encurvando suas linhas e permitindo que se vejam apenas à sombra muitos setores indispensáveis à suas atividades e ao exercício de suas plenas funções. Mas algo é insofismável − apagando-se a “luz’ que emana do ponto crítico denominado Nação, o Estado se desfaz. E desaparece a sua razão de ser e de agir.

 

      A partir desta figura, poderíamos esboçar um quadro que representasse o “universo” de múltiplas figuras desse mesmo tipo que se colocam desordenadamente no espaço das relações internacionais, umas maiores, com maior poder de atração, outras menores, absorvendo corpos menores ainda, diferentemente estruturados, cujo comportamento já obedecerá a outras condicionantes, absorvendo partes desgarradas de qualquer uma delas ou perdendo-as − e assim absorvendo ou perdendo territórios e recursos materiais e humanos. Todos esses corpos obedecem ao movimento geral de expansão ou retraimento que pode representar a História universal, ou seja, ao conjunto e à sucessão inexorável de fatos provocados pelas relações internacionais rumo a algum lugar, não se sabe bem qual, movimento que também, em conjunto com o “poder gravitacional”, ou seja, de atração e absorção de cada um dos corpos, é capaz de mantê-los em equilíbrio inercial e evita que se choquem uns com outros. O aumento de volume repentino de qualquer um deles ou qualquer de suas “faces” (ou seja, da importância cultural, econômico ou diplomático/militar relativa) necessariamente representará um impulso, uma força, que causará alterações e algum desequilíbrio nesse universo, sem, no entanto, afetar-lhe o princípio da ordem.

 

      As explicações do “caráter brasileiro”, ou do “caráter dos brasileiros”, no entanto, decorrentes de uma metodologia que permite a fragmentação do todo, adequada a esse objetivo e, em seguida, a determinação das características de um ou alguns fragmentos, e a recomposição do todo sob algumas determinantes “de encomenda” encontradas nos fragmentos, “caráter” aqui entendido como índole, que seria responsável pela situação política (na sua feição interna) e econômica (na sua feição externa) do País, foram, durante anos, e ainda são voz corrente; penetraram na consciência de largas camadas sociais, puderam ser sofisticadas pelo contágio de inúmeras padronizações biológicas, antropológicas, psicológicas e mesmo consideradas sociológicas, e ainda persistem nas discussões políticas e nos debates acadêmicos; persistem naquela estranha seara híbrida de disciplinas sem contornos definidos, em explicações conflitantes, mas sem confronto, cada uma delas em franca associação com outras tantas, em virtude de que todas são precárias e insuficientes, e em virtude da adoção dos critérios considerados mais científicos a cada momento − apesar de que algumas das alegadas razões serem em si mesmas despropositadas, e outras, meros argumentos baseados em teorias não convincentes. A fragmentação do País metodologicamente arranjada em diferentes grupos de acordo com suas origens étnicas ou circunstâncias socioeconômicas não deixou de levar a definições estereotipadas do caráter desses grupos e muitas vezes elevá-lo a “nacional”. Quando muito, esse caráter será tribal. A retórica acadêmica, as “linhas de pesquisa” definidas de acordo com o avanço das ciências − uma posição distante do objeto de estudo no qual deveria se incluir como parte, sempre exigida e imposta pelos protocolos acadêmicos, procurada pelo pesquisador como sendo a postura “correta”, e, portanto, também a mentalidade que elas conformam e a política que as acompanham − predeterminam e moldam o futuro do País ao definir que “tendências de caráter”, consideradas certas em alguns grupos ou erradas em outros, apontadas como evidentes ou como sufocadas por poderes diversos, explicariam, com exclusividade ou subsidiariamente, os fatos do passado ou os do presente; ao mesmo tempo, as explicações constroem esse presente por negatividade, pelas impossibilidades que, em sendo acatadas como corretas, permitem antecipar e justificar.

 

      É possível constatar, talvez, que três tendências preponderantes, às vezes superpostas, às vezes travando disputas estéreis no sentido de comprovar quem, entre os pares, é mais ou é menos coerente com análises mais clássicas, podem ser encontradas na produção das Ciências Sociais sobre a realidade contemporânea (sempre permitindo espaço suficiente para não raras exceções): 1. fragmenta-se a sociedade nacional em comunidades de comportamento padronizado e caracterizado por supostas tradições étnicas que permitiriam uma também suposta solidariedade grupal, retornando-se assim às considerações sobre “tendências inatas” às etnias e ao “espírito das nações” e suas virtualidades já anteriormente apontadas como deficientes; 2. descobrem-se insuspeitadas evidências e invenções democráticas no cotidiano de populações às quais é atribuída uma subcultura caracterizada por atitudes e valores espirituais diferenciados da cultura da sociedade nacional; 3. identificando com as “classes estruturais”, definidas através da sua descrição no processo de industrialização do XVIII/XIX europeu, as expectativas particulares, individuais ou de grupo restrito, consideradas aleatoriamente indicativas de uma vontade de mudança ou da manutenção dos padrões sociais, permite-se que uma visão dicotômica da sociedade nacional oriente as “análises” e que, ao Estado, sejam atribuídas atitudes que produziriam efeitos pelos quais ele não é e não vem sendo responsável − embora seja responsável por outros tantos que não são considerados. Tal procedimento poderia, em suas proporções e no extremo, justificar também um recurso a categorias puras de guerreiros e camponeses para explicar a modernidade e o capitalismo, o que jamais corresponderá à História real. Mas cria-se assim um terreno “científico” redutível ao debate entre correntes que admitem a estrutura, considerada conhecida, de uma evolução, e as que preconizam uma evolução, considerada previsível, de uma estrutura. E ninguém avança.

 

      Consideremos ainda que definir o Estado brasileiro unicamente como um produto da mediocridade do projeto de uma única classe econômica já denota a presunção da incapacidade ou da ausência de vontade política da sociedade nacional e principalmente da Nação, sem a qual o Estado inexistiria. Mesmo que acreditássemos piamente que o Império Britânico ou a Maçonaria ou as forças do inferno tivessem manipulado integralmente o processo político brasileiro que resultou no grito de Independência, negar a existência de uma vontade especificamente nacional em território brasileiro é desejar torcer todos os fatos. Poderíamos, desde já, questionar, no entanto, qual teria sido o entendimento do interesse nacional, que levou à formação do Estado brasileiro e que poderia se traduzir na vontade política da sociedade brasileira. Não poderia a alegada mediocridade do projeto nacional ter tido fulcro na convicção de que a Economia se sobrepõe à Política, e na de que ajustes constantes da produção às decisões de Mercado, decorrentes das decisões políticas e econômicas das grandes potências, fossem convenientes ao projeto particular de determinados setores (não um único setor) amplos da sociedade? E que essas idéias tortas pudessem ter permanecido sendo adubadas ao longo dos séculos, como se fossem adequadas às condições nacionais e, portanto, a sociedade brasileira quase que como um todo nelas cresse, e cresse, por coerência, que deveria comportar-se como uma sociedade de perpétuos colonos, sendo ao fim essas condições aceitas como “naturais” e inelutáveis?

 

      Algumas análises da realidade não conseguem se livrar de um rígido dualismo, que por vezes se revelam em maniqueísmo, específico das concepções estruturalistas que, quando não são exclusivamente econômicas, serão também “filosóficas”. Vê-se que não é a capacidade do estudioso, mas sim a escolha (ou a imposição) do método o que, nelas, mesmo nas tentativas de fugir-se das armadilhas do evolucionismo rasteiro, comprometerá tanto o objetivo quanto o resultado dos trabalhos, muitas vezes levando a interpretação dos fenômenos e dos fatos sociais a uma redução simplista em que as abstratas oposições agem como elemento explicativo do passado e das projeções possíveis.

 

      Sinteticamente, o quadro de referências que trouxemos à discussão caracteriza como:

 

-. poder − a força propulsora dos movimentos sociais e a que determina as relações sociais em qualquer espaço ou tempo histórico;

 

-. sociedade − uma associação qualquer cuja organização se faz sob um estatuto determinado que regulamenta o alcance da vontade e do poder de ação de todos os elementos individuais e grupais que a compõem; 

– 1. sociedade nacional − a formação que se dá através do jogo de interesses orientado por uma ordem jurídica nacional, ou seja, pelo conjunto de  leis positivas determinadas pelo exercício de poder dos grupos de interesses que nela se formam. As sociedades nacionais são nacionais porque encontradas no território nacional. Admitem diferentes grupos cuja razão será de diversas ordens – políticas, econômicas, religiosas, lúdicas etc.; os indivíduos que compõem tais grupos não assumem compromissos exclusivos com qualquer deles, sendo-lhe permitido participar de diferentes grupos em diferentes momentos. O vínculo que se forma entre esses grupos ou indivíduos e os grupos a que pertencem dependerá de uma escala própria de valores e interesses;

– 2. sociedade internacional − uma ficção filosófica, pseudo-jurídica, que não se deve a qualquer analogia, mas à expectativa de um fictício estatuto com poder eficaz em âmbito internacional, que a todos os elementos ordenasse. Em sendo o princípio da ordem internacional um princípio hierárquico, e em sendo o conjunto de normas que se denomina como Direito Internacional criado pela vontade de sujeitos cujos direitos são considerados equiparados através do reconhecimento eqüitativo e universal da sua Soberania, em sendo a Soberania exercida de fato, inclusive reconhecida e nomeada expressamente nos Acordos e Tratados internacionais, a ordem jurídica internacional não corresponde a qualquer “sociedade” internacional e  não tem poder de eficácia exceto pela vontade dos Estados. É, portanto, uma incoerência semântica, portanto um absurdo lógico, atribuir-se o nome de “sociedade” a um conjunto de entes soberanos que se relacionam a cada momento criando compromissos não previstos em qualquer estatuto prévio. Esses entes soberanos não obedecem senão à sua própria vontade, levada à ação por seus instrumentos diplomáticos, apesar de se relacionarem com prioridade através de Acordos, Tratados e convenções que não têm outra função que evitar que essa vontade seja realizada pelas armas e de forma irrefreável, provocando danos até mesmo ao interesse geral do próprio Estado-sujeito de maior poder. A “sociedade” internacional nem existe de fato, nem existe de direito, nem faz o direito positivo, muito menos faz a ordem, constando apenas, retoricamente, dos sistemas teóricos ordenados a partir da concepção de uma articulação possível entre indivíduos e grupos de diferentes espécies, nacionais e internacionais, que os abrigassem todos, abstraindo a vontade e o poder dos Estados que entre eles se colocam de permeio. Assim, apenas existirá uma “sociedade internacional’ se e quando o desejo de alguns indivíduos, que nesse desejo abrigam o de ver um mundo regido por uma única vontade, tornar-se uma realidade internacional; não é sequer embrião dessa sociedade a atual instituição denominada Nações Unidas, uma vez que seu estatuto, exclusivamente seu, não internacional, reza que a Soberania dos Estados deve ser respeitada; 

 

-. Nação − um grupo que se destaca da sociedade e que se organiza e se desenvolve em dado território qualquer, cuja razão será o desejo de independência de fatores externos e de autonomia decisória sobre as relações que se dão nesse território no sentido de interesses coletivos. A Nação é a voz do interesse geral de dada sociedade, portanto, é a vontade geral, que é soberana, a de que fala Rousseau. Quando os órgãos da administração do Estado dizem e fazem o que determina essa voz e essa vontade, suposta no interesse do Estado que dirige as relações de todos com todos, atendem ao interesse geral; quando a desconsideram, desconsideram o interesse do Estado, desconsideram o interesse nacional, usurpam as funções do Estado. Os Governos nacionais são nacionais porque são Governos indicados pela sociedade nacional − não porque seus indivíduos sejam necessariamente extraídos do grupo caracterizado como Nação;

 

-. Estado − o resultado do objetivo, da ação e do poder desse grupo denominado Nação, cuja razão, por sua parte, será exercer o poder que a Nação lhe confere de acordo com objetivos dados como nacionais: ampliar o grupo que lhe deu origem, organizar a sociedade nacional, exercer a posse e a defesa do território que delimita igualmente como nacional no interesse da mesma Nação, impedir que as relações que determina como válidas se deteriorem, enfim: manter-se. Essa é a razão e o único compromisso que um Estado assume ao ser constituído e que lhe poderá ser exigido, pois em sendo Soberano não se lhe admitem outros compromissos quaisquer com quaisquer outros;

 

-. ordem − toda ordem permite a projeção de uma estrutura que decodifica as relações entre os elementos da ordem. A estrutura é a disposição das partes de um todo. Por vezes, a estrutura é concebida, equivocadamente, como a razão da ordem, quando é apenas o seu reflexo. Toda ordem obedece a um princípio que a provocou. Por ser o indivíduo um ente autônomo, capaz de tomar decisões e praticar ações independentemente da decisão e da ação de outros indivíduos, e por ser da natureza humana a vida comum, em grupos, e que esses grupos possam ser decompostos em grupos menores de cada vez mais estreitas afinidades, as relações humanas, mesmo as mais íntimas, são necessariamente relações de conflito de vontades, e são relações de poder, mesmo que o poder esteja subentendido na harmonia das vontades ou que a vontade manifesta seja a de não exercê-lo; esse conflito de vontades tende, pois, a solucionar-se por lugares hierarquicamente determinados nessas próprias relações, por ínfimo que seja o grau entre os escalões que se formam no processo dessa solução e por diferentes composições entre os indivíduos em diferentes momentos, de acordo com suas capacidades e aptidões. Assim, a ordem em que os homens todos vivem, em que se encontrem em contato com quaisquer de seus semelhantes, é determinada por um princípio de hierarquia, cuja razão é “da natureza” da inteligência humana. O homem organiza o mundo e todas as coisas e todos os valores hierarquicamente em sua mente, empresta importância relativa a quaisquer elementos que se lhe apareçam pela frente, inclusive aos pensamentos dos outros homens, e dessa forma os articula em relações. As origens desse fato − que é fato − cabe à Psicologia investigar, não à Sociologia. À Sociologia cabe o esforço de o constatar, verificar em que grau o mesmo mecanismo se transfere às “personalidades” coletivas e quais efeitos produz; e evidenciar as relações que se fazem nesse processo.

– 1. ordem nacional – é a que se faz sobre o território nacional, e se refere às relações que se fazem nesse território entre os elementos individuais e grupais. É observada nos costumes e detalhada pelo corpo de leis emitidas pelo poder do Estado, as quais se obedecem por seu poder de eficácia e de validade, caso contrário, será gerada uma medida de coerção considerada legítima e previstas no mesmo corpo de leis;

– 2. ordem internacional − é a que se faz entre as vontades e o poder dos Estados nacionais, em obediência ao mesmo princípio de hierarquia. Nela, as potências se enfrentam na busca de seus objetivos determinados por sua vontade. Se, em algum momento, não houver um mínimo acordo entre quaisquer dessas vontades com relação a um objeto, haverá conflito de vontades, que resultará ou não em ações coativas e coercitivas sobre uma ou várias delas conforme acordos anteriores que o poder real dos Estados logrou alinhavar;

 

-. sistema − uma abstração, não uma realidade; construção intelectual qualquer, que obedeça a qualquer princípio, e que pretende representar qualquer estrutura que se atribua à organização de qualquer objeto que seja observado pelo homem. Um sistema nem é a ordem, nem traduz a ordem, portanto, não traduz a sua estrutura − ele apenas traduz a ordem vista pelo homem que quer ver e quer traduzir a ordem que ele mesmo pressente e supõe seja real. Haja vistas a quantos diferentes sistemas já foi possível criarem-se sobre a ordem do universo, por exemplo;

 

-. ideologia − um “sistema” de idéias das quais os homens não têm consciência de que são uma “representação” da realidade; ou, melhor dizendo: o conjunto articulado e hierarquizado que se faz mentalmente das idéias todas que temos a respeito dos fatos reais, de suas causas e de suas conseqüências, cuja coerência é dada por um conjunto outro, limitado, de valores que os indivíduos comungam com outros indivíduos. Uma ideologia jamais será um produto individual, mas um homem sem ideologia seria, da mesma forma como Geertz, antropólogo, classifica um homem sem cultura (vide nota 15), não apenas uma abstração, mas uma abstração impossível por absurda. Nem se pretenda que o homem comum considere que o “sistema” de idéias que lhe traduz o mundo seja considerado, por ele mesmo, como “ideologia” ou sequer reflita sobre isso. Mas ela se refletirá na coerência das idéias expostas a respeito dos valores e interesses todos e na coerência entre as atitudes com relação a essas idéias. E, apenas quando enunciada, total ou parcialmente, enquanto “sistema”, essa ideologia se traduz em instrumento de ação política. Nesse momento, evidenciam-se a coincidência e/ou a discordância entre valores que possam ser cultivados e exaltados por diferentes grupos e a efetiva diferença que possa haver entre ideologias. A Cultura como um todo, e a cultura nacional será ideológica por sua própria natureza, assim como toda a Política, seja mais ou menos abrangente, tem nela a sua razão. A moral é também ideológica, o que não permite confundir a ideologia, sistema de idéias, com cultura da sociedade, o conjunto da produção social, ou com a moral particular do indivíduo; nem, muito menos, com manifestações e preferências estéticas de qualquer grupo de indivíduos organizados ou não. Isso dito, resta claro que o termo ideologia neste trabalho não se reduz a posições celebradas durante a Guerra Fria.

 

      Nas sociedades, em todas elas, não há possibilidade de constituir-se o Estado sem que a vontade “geral”, aquela que é capaz de traduzir o mínimo de interesse geral de sobrevivência e defesa, em tendo poder para tal, assim o determine. Portanto, não será qualquer vontade da sociedade − a da totalidade da população nacional, ou seja, a da totalidade dos indivíduos e dos diferentes grupos que convivem no território nacional − o que determina o surgimento do Estado. Muitas vezes, as vontades diversas encontradas na sociedade nacional, em grupos de interesses específicos, estarão em franco desacordo e em conflito com a vontade do grupo que pode ser denominado Nação e que assume a função de criar e manter o Estado. Esses conflitos de vontades e de interesses serão dirimidos pelo Estado, pela autoridade que lhe foi concedida ao ser constituído, através do seu ordenamento jurídico, e, em âmbito internacional, por acordos entre Estados que perfazem o ordenamento jurídico internacional. A abstração denominada “Soberania popular” é apenas um sinônimo eufêmico de anomia e da decorrente anarquia, ou seja, de ausência de leis, de normas ou de regras de organização, o que necessariamente recairá na ordem, ou seja, recairá mais dia, menos dia, na hierarquia, apenas reorganizando o mesmo no mesmo.

 

      Só a vontade nacional é capaz, se necessário, de romper em seu benefício esse círculo vicioso. Na determinação da autonomia de ação e da liberdade de decisão de uma sociedade — um grupo social amplo e complexo — em relação aos demais, assim como na sua administração, a constituição de um Estado é condição sine qua non. Concebido o Estado apenas como abstração, como um “ente moral”, não como fato social, que tem causa e produz conseqüências, perde-se no horizonte a quais necessidades ele atende. A Teoria do Estado estabelecerá que os elementos fundamentais desse fato que é o Estado são uma população, que ocupa dado território, e instituições voltadas à administração de ambos, que a ambos congrega, e que se definem como Governo. Como o território não tem vontade, e como a população se manifesta em e por seu Governo, isso leva a que se veja o Estado como sendo este último, ou sua ação e suas funções apenas como o resultado da ação e das funções do Governo, que são funções às quais se atribui que sejam ocupadas por uma “elite dominante”. E faz que dele se exija com exclusividade a “racionalidade” de políticas que correspondam à função de coordenação. Como nos ensina Hermann Heller, “Enquanto as lutas dos partidos e das classes não destruam o Estado, sua unidade de vontade, mesmo precária às vezes, estará firmemente assegurada. Mas se não se admite a existência de uma volonté générale, realmente presente e representada, não é possível captar nem o conceito do direito, nem o do Estado. Pelo contrário, no instante em que a observamos, aparece claramente desenhado o sujeito da Soberania[27].

 

      Esquecendo-nos disso, também nos esquecemos de que a instituição do Governo de um Estado sobre seu território e sua população não é coincidente, mas posterior à sua constituição do Estado, e os elementos desse Governo são extraídos da população. Caso não o sejam, não será um Estado, mas uma colônia. A “irracionalidade”, que se manifestará na ineficiência e na ineficácia do desempenho das funções de Governo, também se manifesta no curto alcance que esse Governo estabelece a seus objetivos, muitas vezes sem atentar aos objetivos que são de Estado porque são da natureza do Estado. E a percepção dessa “irracionalidade” poderá se transportar ao Estado mesmo, podendo ser traduzida como ineficiência e ineficácia dele próprio, abstraindo-se a qual população corresponde, enquanto organização de uma sociedade nacional. Com isso em vista é que afirmamos que os problemas decorrentes de não-potência que são enfrentados pelo Brasil nas suas relações com os demais Estados não se devem ao fato de haver, no “sistema internacional”, uma ou diversas outras potências mais fortes, nem foram ou são criados esses problemas pela pretensão de outros Estados a um maior poder sobre o poder nacional – o que é de sua natureza. Esses problemas se avultam, acumulam-se por má administração de problemas anteriores, muitos deles seculares, por conta das camadas dirigentes, as elites governantes — as que se apoderam do poder de Estado independentemente da origem social de seus integrantes — que agem, no entanto, apoiadas pelos setores dirigidos.

 

      Como também Heller nos explica:

“O conceito da natureza que pode ter importância para a atividade estatal não deve ser tomado em sentido demasiado estrito, nem também separado de maneira taxativa do da cultura. A natureza primária ou absoluta, isto é, virgem de todo contato com qualquer forma ou norma humana tem, para o conhecimento científico do Estado, uma importância relativamente muito mais reduzida que a natureza secundária ou relativa, assim entendendo aquele material físico que apresentam o homem e a sua terra em uma determinada etapa cultural. Este material físico, em relação com a cultura atual cujo impulso e formação se transmite pela educação, é natureza, mas em relação com a natureza primária como a secundária são unicamente material e possibilidade da cultura e do Estado; estes hão de ser sempre realizados renovadamente mediante a atividade criadora do homem.[28]

 

      E assim o Estado brasileiro refletiu-se na Cultura, assim ele serviu à Economia; assim também pôde aquela face terceira, a diplomático/militar, fundamental à sua consistência enquanto fato político nacional com projeção internacional, ser rompida de dentro para fora, sem violência, sem invasões, sem pólvora, eliminando-se a pouco e pouco no imaginário nacional, no da sociedade e no de suas elites políticas, a consciência de que necessariamente Diplomacia e Forças Armadas são e devem ser estamentos, não classes − ou nada são − e assim devem ser mantidos de forma a cumprir funções determinadas que o esforço do indivíduos e os compromissos que se exigem assumir para manter seu status de classe não permite. Isso independentemente de ser o Estado um fenômeno “de classes”, sim, mas que, em seus rudimentos, impôs-se como um fenômeno especificamente de classe-média − o Estado nacional moderno, que continua sendo o Estado nacional contemporâneo e manteve suas defesas ordenadas tal como o Estado anterior as concebeu.  Não é que esses estamentos sejam “a” Nação, ou um grupo que mais a devesse representar ou representasse com exclusividade os interesses do Estado, mas sim porque a representam como missão, não apenas como função, e por isso são o primeiro baluarte do Estado − apesar de que a Cultura e a Economia também o sejam − e são, do aspecto das relações internacionais, o primordial para que ele possa de fato desenvolver sua vocação, ou seja, possa atender de forma racional − eficiente e eficaz − suas funções necessárias, aquelas para as quais foi constituído. Para que possa assumir a sua Razão. Em paz… e em nome da paz…

 

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[1] ROUSSEAU, Jean-Jacques – Do Contrato Social /Ensaio sobre a Origem das Línguas – Ed. Nova Cultural Ltda São Paulo, 1999, pág 62

[2] E por burocracia nada mais se poderá entender que uma estrutura complexa de funcionários que organizados em departamentos obedientes a uma hierarquia e a um regulamento rígidos,  administram a coisa pública.

[3] “existe atualmente uma numerosa categoria de Estados que não podem ser considerados como soberanos: são os que entram na combinação estatal conhecida com o nome de Estado federal.” […] ”Quanto à confederação, esta não é soberana […] A não Soberania da confederação e a Soberania dos Estados confederados se manifesta particularmente em que a confederação não tem o poder de determinar sua própria competência; assim que não pode aumentar suas atribuições estendendo o círculo dos objetivos e fins postos em comum pelo tratado de confederação” [1]MALBERG, R. Carré de – Teoría General del Estado – Fondo de Cultura Económica, México, 2001, pág 98 e 102

[4] MALBERG, cit  pág  26

[5] i,i pág 22

[6] i,i págs 26/27

[7] HERMES LIMA – A significação do Nacionalismo –  in Pensamento Nacionalista e os Cadernos de Nosso Tempo − Câmara dos Deputados/UNB, 1981- Biblioteca do Pensamento Política Republicano, v. 6, pág 82

[8] i,i pág 71

[9] i,i pág 78

[10] i,i, 72/73

[11] i,i, 81

[12] ROSSOLILLO, Francesco, in Dicionário de Política de Norberto Bobbio et alii, CIT. págs 795/799

[13] Interessante será comparar com esta outra opinião: “Os valores liberais de liberdade, democracia e respeito aos direitos humanos, ainda que possam ter sido utilizados formalmente como bandeira por uma burguesia em ascensão, são hoje conquistas da humanidade. Da mesma forma, as idéias de igualdade (e não simplesmente  de igualdade de oportunidade, como pretende uma ideologia capitalista tecnoburocrática) e de eliminação progressiva das diferenças de classe e de raça, ainda que tenham feito menos progresso em direção ao consenso, são idéias-força no século XX. Por outro lado, as crenças em uma sociedade de consumo de massa e no desenvolvimento econômico sem limites perdem vigor, cedem lugar aos ideais de liberdade, igualdade e justiça. E ao mesmo tempo ganha prioridade crescente na escala de valores sociais a defesa da natureza e de uma vida mais simples, bela e humana, que é preciso defender contra a poluição generalizada do desenvolvimento industrial a todo custo. [… ] Por isso, repetimos, há esperanças de progressos, mas desde que haja uma crescente tomada de consciência por um número cada vez maior de pessoas das transformações que é preciso realizar, no sentido de uma sociedade mais justa e mais livre, em que as discriminações de classe, raça e religião sejam paulatinamente eliminadas”. PEREIRA, Luis Carlos Bresser – Estado  e  Subdesenvolvimento Industrializado, Ed. Brasiliense, São Paulo, 1977, 2ª ed., 1981, págs 326/327

[14] HOBSBAWM, Eric J. – Nações e Nacionalismo desde 1780 – Paz e Terra, 1998,  pág 50

[15] Observa esse mestre da Antropologia que uma trama simbólica formada por crenças, expressão e valores, em cujo interior vivemos, provê-nos dos mecanismos necessários a uma conduta ordenada e que. “um ser humano desprovido de cultura não seria provavelmente um grande símio intrinsecamente dotado de talento, ainda que não realizado, mas uma monstruosidade carecente de psique e por conseguinte irrealizável”. Já a cultura da humanidade forneceria todo o necessário para que os homens sejam plenos e mantenham diferentes desenhos para viver. Sem o guia das imagens exteriorizadas, dos sentimentos falados no ritual, os mitos e a arte, não saberíamos, de fato, como sentir, afirma ele. Da mesma forma, o conhecimento dependerá sempre da existência de modelos simbólicos da realidade, objetivos e externos: “Em lugar de considerar a cultura apenas na sua função de suprir, desenvolver e aumentar capacidades com base orgânica, geneticamente anteriores a ela, dever-se-ia considerá-la como integrante das mesmas capacidades”. E assim pôde preconizar que, num futuro próximo (“nas próximas décadas”), consideraremos os padrões de cultura menos em termos do modo com que estes limitam a natureza humana, e cada vez mais na forma em que, para bem ou para mal, a atualizam; cada vez menos como uma acumulação de mecanismos engenhosos para alargar as capacidades inatas preexistentes e cada vez mais como “desenhos para viver”. . Ora, a idéia de “desenhos para viver” só dirá a respeito a uma estrutura no sentido que aqui utilizamos − a de organização ou “disposição especial das partes de um todo considerado nas suas relações recíprocas”. GEERTZ, Clifford  – Transição para a Humanidade  in O Papel da Cultura nas Ciências Sociais, Villa Marta Ltda, PA, 1980

[16] HERNÁNDEZ ARREGUI, J.J. – Que é o Ser Nacional? – Série Estudos sobre o Brasil e a América Latina, v. 15, Paz e Terra, RJ págs 10/11

[17] i,i, págs 25-26-27-28

[18] i,i págs 136/137

[19] i,i pág 194

[20] i,i pág 203

[21] i,i, 20-24

[22] CLAUSEWITZ, Carl von – Da Guerra – Martins Fontes, 1996 – pág 10/11

[23] FERREIRA, Oliveiros S. – A crise da Política Externa, Ed. Revan, Rio de Janeiro, 2001, Prefácio – pág 30 ss

[24] OLIVEIRA VIANNA, Instituições Políticas Brasileiras, v. 1, Ed. Itatiaia Ltda, 1987 – págs 141/143

[25] DEUTSCH, Karl – Análise das Relações Internacionais – Editora Universidade de Brasília, 1978 – págs 30/31

[26] http://www.unesco.org.br/unesco/nobrasil  O programa de atividades atuais da UNESCO é extenso e abrange todas as áreas do conhecimento. As informações em suas páginas virtuais nos dão idéia aproximada da gama e da extensão da influência e da orientação que exerce nas Universidades e nas ‘comunidades’:. “Associada a várias agências de financiamento, a UNESCO fornece dados, assessoria e assistência técnica para cooperar com os governos na formulação e implementação de estratégias e políticas eficazes em ciência e tecnologia. O Programa Hidrológico Internacional busca fornecer conhecimento científico, capacitação técnica e assessoria em políticas públicas, necessárias para administrar esse recurso precioso com eficiência, eqüidade e sensibilidade ambiental. O Programa está cada vez mais comprometido no desenvolvimento de instrumentos e estratégias para prevenir o surgimento de conflitos sobre o uso da água nos países e entre eles. Todas as agências e comissões das Nações Unidas que lidam com o tema da água contribuem para monitorar o progresso rumo a metas em saúde, alimentação, ecossistemas, cidades, indústria, energia, administração de risco e governança. www.unesco.org/water/ihp O Programa Internacional de Ciências Básicas é uma iniciativa intergovernamental destinada a fortalecer a capacidade dos países por intermédio de uma rede de centros de excelência em ciências básicas. O Programa abrange projetos em matemática, física, química, ciências da vida e suas áreas interdisciplinares a serviço das necessidades nacionais. www.unesco.org/science/bes  Ao ressaltar a importância de estudos prospectivos, a UNESCO desempenha relevante papel como fórum ético, filosófico e científico sobre temas que abrangem desde segurança humana e prevenção de conflitos até diálogo intercultural, transformações sociais, cidadania e globalização, assim como luta contra a pobreza. Os diálogos sobre o século XXI, realizados em diferentes partes do mundo, reúnem cientistas, filósofos, pesquisadores e artistas para debater questões críticas que moldam as sociedades. www.unesco.org/shs/prospective A filosofia, que estimula a reflexão crítica e  independente, promove a compreensão do mundo, a tolerância e a paz e há muito vem sendo celebrada pela UNESCO, que instituiu, em 2005, o Dia Mundial da Filosofia. www.unesco.org/shs/philosophy  Uma imensa riqueza de expressão cultural pode também ser encontrada, em países em desenvolvimento, sob a forma do patrimônio intangível – festivais, canções, línguas – e locais de encontros que alimentam a criatividade e a solidariedade. A Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, adotada pela Conferência Geral da UNESCO em 2003, é o primeiro instrumento internacional a proporcionar um contexto legal, administrativo e financeiro para a proteção desse patrimônio. www.unesco.org/culture/masterpieces Uma parte essencial da estratégia da UNESCO consiste na promoção do acesso à informação e ao conhecimento por meio de uma gama de atividades que incluem a criação de oportunidades de treinamento em TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação), particularmente para mulheres e jovens; desenvolvimento e distribuição de software livre e colaboração com as companhias privadas de software para o benefício de todos. No mundo em desenvolvimento, os Centros Comunitários Multimídia da UNESCO – CCM – promovem o empoderamento comunitário e são uma porta de acesso a uma ativa participação na sociedade global de conhecimento. Os CCM combinam radio comunitária de baixo custo e fácil de operar com o acesso público à Internet e tecnologias relacionadas. Eles informam, educam e divertem, mas também fornecem um forte canal para a manifestação das pessoas que não têm voz em assuntos comunitários e encorajam maior responsabilidade nos assuntos públicos. www.unesco.org/webworld/cmc  A iniciativa da UNESCO em favor do Programa Conteúdo Criativo busca estimular a inovação na produção de conteúdo local para televisão, rádio e novas mídias nos países em desenvolvimento e promover a diversidade cultural e lingüística. O Programa torna disponível a produtores e instituições de radiodifusão independentes a Plataforma Eletrônica Audiovisual da UNESCO, um catálogo audiovisual online. http://portal.unesco.org/ci/cc  O Instituto de Estatística da UNESCO, sediado em  Montreal, no Canadá, foi criado em julho de 1999 para atender às necessidades crescentes, por parte dos Estados-Membros e da comunidade internacional, de uma gama de estatísticas relevantes, oportunas e confiáveis para o acompanhamento político nas áreas da educação, da ciência e da tecnologia, cultura e comunicação. www.uis.unesco.org A UNESCO aceita um número limitado de funcionários, pesquisadores e estudantes universitários nacionais como estagiários para trabalhar nas áreas de interesse da Organização durante um a três meses. Há também várias bolsas para professores e estudantes. www.unesco.org/fellowships  etc. etc. e tal

[27] HELLER, Hermann, La Soberanía – Contribución a la Teoria del Derecho Estatal y del Derecho Internacional – Fonde de Cultura Econômica – México, 1995 – pág 194

[28] HELLER, Hermann – Teoria do Estado – Ed. Mestre Jou 1968 – pág 174/175

 

Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

      Abaixo mantenho mensagem recebida do Clube Militar, que a envia aos seus sócios em momento de campanha para a eleição de sua Diretoria. Essa mensagem divulga, sem comentários, um texto escrito por Professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) publicado em “O Estado de S.Paulo” – “1964, meio século depois”.  

 

      Contesto os argumentos do texto, a sua divulgação e a presumível intenção deles todos.

 

      A quem conhece, ainda que minimamente, um “regime castrense”, será impossível apontar um único fato sequer que permita induzir quem quer que seja a considerar que os Governos dos Presidentes Militares impuseram um “regime castrense” ao nosso País. Muito menos será possível apontar um único ato do Governo Figueiredo que permita considerá-lo como um “governo de força” que arremataria, como tal, “duas décadas” de desgaste das Forças Armadas. Figueiredo não tinha poder algum para baixar Atos Institucionais e governou estritamente sob a Constituição – Congresso, Tribunais e Imprensa livres, absolutamente livres.

 

      Atribuir o descontrole das “Universidades brasileiras, em especial as públicas”, a que uma “esquerda raivosa” as tenha controlado “a partir da abertura democrática” expõe um total desconhecimento de tudo, um desconhecimento absoluto do processo alinhavado desde antes e costurado durante todo o dito período de “regime militar” – e esse processo só pôde ser costurado, chegando ao ponto em que hoje chegou, exatamente porque, naquele período, embora os Chefes de Estado fossem Oficiais Militares, o regime nunca foi um “regime militar” ou “castrense”.

 

      O parágrafo a respeito dos “desacertos de 1964”, explicando-os como decorrentes de uma “grande falha” – o “viés autoritário do regime militar”, que seria, por sua vez, “decorrente do fato de que os profissionais das armas não estão habilitados para a chefia do Estado, toda vez que são preparados … para defender com coragem e eficiência os interesses soberanos da Nação, à luz da ética de convicção weberiana, que se caracteriza pela fidelidade aos princípios” – também revela apenas um absoluto desconhecimento da História, das gestões de Deodoro, Floriano, Hermes e Dutra, do que se enfrentou e se enfrentava, do caráter das funções militares e de toda a Sociologia. E não é só estúpido – é um descalabro!

 

      Afirmar que “falta aos nossos homens de armas a sensibilidade da ética de responsabilidade, que exige que o governante calcule, nas decisões tomadas, as conseqüências que decorrerão para a comunidade”, seja lá qual for essa “comunidade”, é afirmar que os Oficiais Militares brasileiros são e sempre foram irresponsáveis e inconseqüentes, e estão e sempre estiveram absolutamente inabilitados e incapacitados para o Comando de qualquer coisa, inclusive e principalmente o de uma tropa, que é uma “comunidade”.

 

      Afirmar que “por formação, os militares estão preparados para gerir a unanimidade decorrente da hierarquia e da obediência do profissional das armas” é mais ainda reiterar o acima dito, definindo “os militares” não só como absolutamente servis a qualquer comando como absolutamente insanos.

 

      E fico por aqui para não me alongar, porque sei que me muito alongarei à toa. E porque é insano esse texto! Argumenta como se não houvesse Partidos políticos durante o período dos Governos Militares, o que permitiu que a oposição alcançasse maioria no Senado nas eleições de 1976. Como se, para ponderar ou mesmo discutir uma ordem de um Comandante, fosse necessário realizar “assembleias no front” ou esperar o momento em que “as balas silvam sobre a cabeça dos soldados”. Como se, exceto por sua excessiva confiança na “ética dos políticos” brasileiros, tivesse alguma vez faltado aos Presidentes militares “a sensibilidade da ética de responsabilidade, que exige que o governante calcule … as conseqüências”. Como se a tal “ética” dos políticos, que desde sempre se impôs e nos dias de hoje se impõe como sendo a “ética da Política brasileira, devesse necessariamente dispensar a “fidelidade aos princípios”. Como se a “fidelidade aos princípios” fosse ou devesse ser necessariamente avessa à “preocupação com o resultado da ação”. E por aí ele vai.

 

      Ora, se “a política é o reino do dissenso, em decorrência da nossa natureza racional essencialmente dialética”, é perfeitamente compreensível que a ECEME abrigue quem pense dessa forma, tal como desde sempre abrigou. Mesmo porque, se pode não ser (ou ainda não ser) a principal e a mais correta, essa é a versão dos fatos que interessa aos Governos pós-1985 imprimir na tropa. Essa versão, disseminada por intermédio da ECEME e de outros canais institucionais ou não, leva a que a tropa e seus Comandantes se conformem com pedir eternamente um “perdão imerecido” e se dobrem às ordens e aos interesses exclusivos de quem já se plantou ou de quem ainda pretenda se plantar em definitivo no Planalto Central.

 

      E é, também, perfeitamente compreensível que a Imprensa possa ter seu próprio interesse em divulgá-la.

 

      Incompreensível, absolutamente incompreensível, e inaceitável, absolutamente inaceitável, é que o Clube Militar divulgue um texto desses sem contestá-lo, havendo tantas evidências que o contrariam à sua inteira disposição.

 

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From: Clube Militar   Sent: Friday, March 07, 2014 12:56 PM  To: vaniacintra@uol.com.br  Subject: Divulgação: Artigo publicado no jornal O Estadão em 26/Fev/14

 

1964, meio século depois

RICARDO VÉLEZ RODRÍGUEZ

Há 50 anos eclodia a intervenção militar de 1964.  Embora cogitada inicialmente como uma correção de rumo na desastrada ladeira por onde havia enveredado o populismo janguista, o regime castrense terminou durando mais do que se imaginara inicialmente e acabou por desgastar as Forças Armadas, em governos de força que se estenderam ao longo de duas décadas.  Esse é um período suficientemente longo como para imprimir num país diretrizes novas e, também, para cometer erros conjunturais e estratégicos.  Ora, ambas as coisas precisam ser analisadas, notadamente no ambiente universitário, que deve ser, nas sociedades hodiernas, o celeiro de ideias novas, bem como o filtro por onde passam os acontecimentos à luz crítica da razão, a fim de que, com esse patrimônio de ilustração, se beneficiem as gerações futuras.

No caso da avaliação do regime militar, não foi isso exatamente o que ocorreuno Brasil.  As universidades brasileiras, em especial as públicas, controladas a partir da abertura democrática pela esquerda raivosa, acabaram fazendo da memória de 1964 ato indiscriminado de repúdio aos militares e às diretrizes por eles traçadas, fazendo com que uma cortina de fumaça terminasse pairando sobre essa importante etapa da nossa vida republicana.

As coisas não mudaram com a chegada dos esquerdistas ao poder, notadamente no ciclo do lulopetismo.  A criação, pelo atual governo, da “Comissão da Verdade” visando a uma “omissão da verdade”e que coloca sob os holofotes a repressão praticada pelo Estado sem, no entanto, relembrar nada do terrorismo praticado pela esquerda radical, está a revelar que pouco se progrediu nesse terreno.  A finalidade prevista coma tal comissão é clara: torpedear a Lei de Anistia, que abriu as portas para a volta dos exilados e firmou o início da abertura democrática.

Falemos, inicialmente, dos desacertos de 1964.  A grande falha consistiu, a meu ver, no viés autoritário do regime militar, decorrente do fato de que os profissionais das armas não estão habilitados para a chefia do Estado, toda vez que são preparados – como lembrou com propriedade o saudoso amigo Paulo Mercadante (1923-2013) em Militares e Civis: a Ética e o Compromisso (Rio de Janeiro: Zahar, 1978) – para defender com coragem e eficiência os interesses soberanos da Nação, à luz da ética de convicção weberiana, que se caracteriza pela fidelidade aos princípios, sem que haja preocupação com o resultado da ação.  Falta aos nossos homens de armas a sensibilidade da ética de responsabilidade, que exige que o governante calcule, nas decisões tomadas, as consequências que decorrerão para a comunidade, sendo esta, segundo Weber, a ética dos políticos.

Em segundo lugar, anotaria mais este ponto: por formação, os militares estão preparados para gerir a unanimidade decorrente da hierarquia e da obediência do profissional das armas.  Afinal, ninguém realiza assembleias no front, quando as balas silvam sobre a cabeça dos soldados.  Eles cumprem as ordens dadas por seus comandantes, sem discussão.  Ora, a política é o reino do dissenso, em decorrência da nossa natureza racional essencialmente dialética, condição já apontada por Aristóteles (384-322 a.  C.) na sua Política.  A organização da comunidade politicamente estruturada deve ser pensada como construção de consensos a partir do dissenso, não como eliminação pura e simples deste.  Esse é o difícil trabalho doshomens públicos, que precisam armar sede dose infinita de paciência a fim de conciliar os interesses dos seus representados, os cidadãos que votaram neles.

Anotemos sumariamente os aspectos positivos do regime de 1964: a intervenção militar evitou que os comunistas tomassem o poder, instaurando uma ditadura do proletariado, com o banho de sangue que isso provocaria num país de dimensões continentais como o Brasil.  A opinião pública sabe que o que a extrema esquerda buscava era isso.  O Brasil não teve a sua “República das Farc”,com que se debate até os dias de hoje o governo colombiano, depois de meio século de guerra, graças à corajosa intervenção das Forças Armadas, notadamente do Exército, que aniquilou a possibilidade de um território controlado pelos terroristas, sendo essa a finalidade perseguida pela guerrilha do Araguaia.

No que tange à economia, o Brasil transformou-se num país industrializado.  Consolidou- se a indústria petroleira e desenvolveu-se a petroquímica, bem como a siderurgia e a fabricação de maquinaria pesada.  A engenharia deu um grande salto para a frente, com as obras públicas que pipocaram pelos quatro cantos do território nacional.

Acelerou-se, por outro lado, a indústria bélica – em que pese o fato da falta de continuidade de uma política para o setor, como tem sido analisado oportunamente por Expedito Bastos, do Centro de Pesquisas Estratégicas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).  Efetivou-se, com o fantástico desenvolvimento das telecomunicações e com a política de abertura de estradas, a denominada – por Oliveira Vianna (1883-1951) – “circulação nacional”, unindo ao centro nevrálgico do poder as regiões mais afastadas e ligando estas às mais importantes áreas metropolitanas do País.  O regime militar tinha um propósito, em que pese o viés autoritário evidentemente criticável.  Mas hoje, 30 anos após os governos militares, carecemos de um projeto estratégico que nos indique para onde irá o País nas próximas décadas. Este é o grande desafio: costurarmos uma proposta estratégica, no contexto da democracia que conquistamos, superando o vezo tutorial que empanou o regime de 1964.

 

MEMBRO DO CENTRO DE PESQUISAS ESTRATÉGICAS DA UFJF E DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO,

É PROFESSOR EMÉRITO DA ESCOLA DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME)

  

 

 

  

  

 

 

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AUGUSTO HELENO

06-03-2014
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
 
 
 
“ … general Heleno …  gosta de repetir uma afirmação pouco convicta sobre os valores democráticos. “Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim”, diz, citando uma frase cubana. … o movimento “general Heleno presidente” alcançou nas últimas semanas o apoio de 5,7 milhões de eleitores. Uma ordem de grandeza respeitável em qualquer circunstância. … o general Heleno … rara liderança fardada nascida após a democratização do País, tem tudo para se transformar na principal estrela de um movimento de caráter simbólico. … O certo é que, com o apoio que tem recebido, o general não será um eleitor qualquer. … Os militares que se articulam em volta de Heleno pretendem formar o Partido Militar Brasileiro, PMB … os candidatos que apoiam a criação do PMB estão espalhados por outros partidos … O deputado comunista Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), delegado da Polícia Federal que fez fama na Operação Satiagraha, já assinou sua ficha de apoio … costuma pedir aos eleitores que façam o mesmo. (…) Longe da política, mas famoso no meio militar, o primeiro astronauta brasileiro, o coronel da Aeronáutica Marcos Pontes, também fará parte do diretório de São Paulo. O vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa, Eliezer Rizzo, analisa a emergência do descontentamento militar como parte do descontentamento geral do funcionalismo com os salários. … um movimento dessa natureza faz parte natural dos regimes democráticos …Os militares estão misturados à política brasileira desde a Proclamação da República, que foi obra de um golpe militar. Depois de Deodoro e Floriano, os dois primeiros presidentes, o Brasil teve um terceiro general presidente, Eurico Dutra.”
http://www.istoe.com.br/reportagens/350106_O+CANDIDATO+DOS+MILICOS?pathImagens&path&actualArea=internalPage
 
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    1. O General Augusto Heleno estúpido não é – nem muito, nem pouco, nem de perto, nem de longe; é um sujeito inteligente, bem educado, bem humorado, e demonstra ter posições políticas bastante firmes e bem fundamentadas. O texto da reportagem da ISTOÉ, transcrito abaixo na íntegra, aponta-o como “principal estrela de um movimento de caráter simbólico”; afirma que o apoio de que goza é “respeitável em qualquer circunstância”; destaca, não se sabe bem por quê, ou para quê, que o General Augusto Heleno “gosta de repetir” uma frase sobre a “democracia” (“uma frase cubana” ou uma frase do saudoso Millôr Fernandes? Há que pesquisar…) que só não será interpretada como sendo dita por ironia por quem for muito estúpido.

 

    2. O texto dessa reportagem desconsidera em nossa História, além de outros fatos mais, a gestão de Hermes da Fonseca (embora sua foto e seu nome conste da figurinha “fardas nas urnas” – mas quem é que lê as legendas de figurinhas? O que vale é o texto…). Por maioria dos votos, derrotando Rui Barbosa, o Marechal Hermes da Fonseca foi eleito à Presidência da República brasileira, aquela que teria sido “obra de um golpe militar”… Ele, não Gaspar Dutra, foi o terceiro Oficial Militar a ocupar a Presidência depois dos dois primeiros, Deodoro e Floriano, e depois de cinco civis.  Nunca (até hoje) alguém terá ou poderia ter insinuado que Hermes da Fonseca tivesse dado um “golpe”. E será muito interessante procurar saber a respeito de sua gestão: 1910-1914.

 

    3. As Forças Armadas brasileiras não são uma facção. São as nossas Forças Armadas. E não deveriam ser – nem deveriam querer ser – amparadas por um único Partido no Congresso. Nem deveríamos, todos nós, desejar que isso pudesse ocorrer. E o “descontentamento geral do funcionalismo com os salários” não será razão suficiente, em tempo algum, nem aqui, nem na Conchinchina, para justificar a criação de um Partido corporativo, mesmo que pretenda atender ao “descontentamento militar”, mesmo que “militar” em sentido muito amplo. 

 

    4. Marcos Pontes é um Oficial da Aeronáutica na Reserva. Deve ser um bom piloto. Foi, de carona, em 2006, conferir o que estava escrito nas estrelas, passeio que nos custou, por baixo, uns 40 milhões de reais, e, assim que desceu do foguete e foi condecorado por Lula da Silva, exato um mês depois, puxou o carro da Ativa. Que terá Marcos Pontes, de tão especial, a contribuir com a orientação dos rumos da Política nacional?

 

    5. Protógenes, de “milico”, só tem o prenome – o de um Almirante da Marinha que, entre outros feitos, organizou em 1924 um movimento cujo objetivo era incitar o levante em diferentes pontos do então Distrito Federal em apoio aos “tenentes” insurrectos. Ele é um Delegado de Polícia licenciado. Filiou-se num 07 de Setembro, sugestiva data, ao PCdoB, linha auxiliar do Governo atual que só diverge abertamente do PT em dias de baderna nas ruas. Dizem ter ele afirmado que o fez porque o PCdoB tem um considerável “histórico de luta pelo povo brasileiro” e “profundos ideais éticos”. Protógenes senta-se no Congresso graças aos votos dados ao Tiririca, do PR. Que pretenderia Protógenes levar em sua mudança a um “Partido Militar Brasileiro”? Ou… por onde e para onde pretenderia levar esse Partido?

 

    6. Se, para apoiar as posições políticas que o General Augusto Heleno inequivocamente defende, for preciso apoiar os vôos de Marcos Pontes, os mergulhos de Protógenes e as corridas e derrapadas de qualquer indivíduo, a coisa se complica. E se complica muito.

 

    Pois bem. A reportagem transcrita abaixo, na íntegra, começa apontando o “respeitável em qualquer circunstância” número de indivíduos, militares e civis, que comungam de idéias expostas pelo General Augusto Heleno – que não seria “um eleitor qualquer”, ou seja, seria um eleitor influente. Inexistindo qualquer indício ou manifestação de que ele pretenda candidatar-se a qualquer cargo público, a reportagem contempla quem candidato não é, mas é uma incontestável liderança política, com o título de “o candidato dos milicos”, parecendo querer resumir suas idéias todas, algumas das quais enunciadas no texto, a uma única frase “pouco convicta dos valores democráticos”. E considera tempestiva a menção ao apoio que uma hipotética candidatura dessa “liderança simbólica” à Presidência da República recebe, desde já, de figuras públicas de duvidosos atributos e de um Partido político ainda não constituído. Por quê? Para quê?

 

     Ao publicar essa reportagem, a revista ISTOÉ “independente” nos parece estar visando a apenas um único objetivo: complicar o descomplicado, confundir o bem explicitado, desaglutinar o minimamente aglutinado, e, por antecipação, tentar desconstruir uma virtualmente “ameaçadora” liderança que possa vir a se afirmar nacionalmente alicerçada em valores corretos e em corretas expectativas nacionais. 

 

   Antes de que alguém, por qualquer motivo, possa entusiasmar-se com essa reportagem, seria conveniente, pelo menos, ponderar…

 

    Imprensa cretina…!!

 
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Brasil |  N° Edição:  2310 |  28.Fev.14 – 14:00 |  Atualizado em 04.Mar.14 – 18:37

O candidato dos milicos

Movimento surgido na caserna e que já conta com o apoio de mais de cinco milhões de pessoas quer lançar o general Augusto Heleno, chefe da missão brasileira no Haiti, para concorrer à presidência da República

Josie Jeronimo (josie@istoe.com.br)

Aos 66 anos, o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira é um fenômeno que não aparece nas pesquisas de intenção de voto nem frequenta as análises políticas convencionais. Na internet, porém, sua eventual candidatura à Presidência da República tem feito sucesso. Conforme dirigentes de 68 associações de militares da reserva, que costumam refletir o pensamento de boa parte da caserna, o movimento “general Heleno presidente” alcançou nas últimas semanas o apoio de 5,7 milhões de eleitores. Uma ordem de grandeza respeitável em qualquer circunstância. Apesar desses números, o general Heleno, que foi comandante militar da Amazônia, e também esteve à frente das tropas da ONU que mantêm a ordem no Haiti, construindo uma rara liderança fardada nascida após a democratização do País, tem tudo para se transformar na principal estrela de um movimento de caráter simbólico. Oficial da reserva desde maio de 2011, ele teria de ter preenchido alguma ficha de filiação partidária até outubro do ano passado para poder disputar a eleição e até agora não se posicionou sobre isso. Seus aliados não confirmam nenhuma vinculação partidária do general, embora também não descartem a possibilidade de este ser um segredo estratégico. O certo é que, com o apoio que tem recebido, o general não será um eleitor qualquer.

POLÊMICO – O general Augusto Heleno: ele disse que a política indigenista do governo Lula era “lamentável, para não dizer caótica”

O sucesso do general na internet tem explicação. Num universo político em que os principais candidatos têm uma postura que admite apenas mudanças de tonalidades cinzentas entre o centro e o centro-esquerda, com receio de descontentar eleitores desconfiados da propaganda eleitoral, o general apresenta um discurso conservador que um bom número de eleitores gosta de ouvir. Ele tornou-se uma celebridade instantânea ao dizer que a política indigenista do governo Luiz Inácio Lula da Silva era “lamentável, para não dizer caótica,” afirmação que lhe custou o comando militar da Amazônia. De lá para cá, ironizou o “passado ilibado” de Renan Calheiros, criticou a política econômica do ministro da Fazenda, Guido Mantega, e chamou o acordo do Mercosul de um “mero tratado bolivariano”. Heleno já definiu o ex-ministro José Dirceu  como o “maior colecionador de rabos presos” da República. Aliados e amigos do general afirmam que, ainda que a legislação impeça uma candidatura própria, irão entrar na campanha como parte de um “movimento anti-PT.” O capitão Augusto Rosa, um dos mais ativos aliados do general, faz críticas ao programa Bolsa-Família que a oposição civil abandonou há muitos anos. “Estamos criando uma geração de pais vagabundos que não servem de referência para os filhos.”

O discurso conservador não faz do general Heleno um defensor do golpe militar de 1964, mas aos mais próximos ele gosta de repetir uma afirmação pouco convicta sobre os valores democráticos. “Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim”, diz, citando uma frase cubana. A boa notícia em torno da liderança do general é que, desde a redemocratização do País, é a primeira vez que se consolida entre as Forças Armadas um movimento que pretende se valer do voto e das vias democráticas para colocar suas posições. Os militares que se articulam em volta de Heleno pretendem formar o Partido Militar Brasileiro, PMB, que anuncia ter conseguido filiar 490 mil eleitores para obter registro no TSE – se todas as fichas forem regulares, faltarão 80 mil para que possa chegar ao registro definitivo. Por enquanto, a exemplo do que acontece com os simpatizantes da Rede, de Marina Silva, os candidatos que apoiam a criação do PMB estão espalhados por outros partidos ou usando o PRTB como “sigla franqueada” para disputar as eleições de 2014. O deputado comunista Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), delegado da Polícia Federal que fez fama na Operação Satiagraha, já assinou sua ficha de apoio e milita pela criação do partido. Através de seu site, Protógenes costuma pedir aos eleitores que façam o mesmo. Outro aliado seguro é o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que se dedica a organizar o partido no Rio de Janeiro e é um nostálgico assumido da ditadura. Longe da política, mas famoso no meio militar, o primeiro astronauta brasileiro, o coronel da Aeronáutica Marcos Pontes, também fará parte do diretório de São Paulo.

O vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa, Eliezer Rizzo, analisa a emergência do descontentamento militar como parte do descontentamento geral do funcionalismo com os salários. No governo Lula, relembra, o Planalto investiu em plano de recuperação salarial do funcionalismo e ganhou a simpatia geral, inclusive dos fardados. Mas essa política foi abandonada no governo Dilma, levando a uma reação previsível nas repartições e na caserna. Para Eliezer Rizzo  um movimento dessa natureza faz parte natural dos regimes democráticos. “É preferível ter um partido pró-militares disputando eleições a ter grupos em atitude de confronto com o sistema democrático. Grande parte da população considera a democracia como frágil, corrupta, inoperante, como se um regime forte e antidemocrático não padecesse de situação similar. Mas o regime democrático pode perfeitamente incorporar essa iniciativa.”

Os militares estão misturados à política brasileira desde a Proclamação da República, que foi obra de um golpe militar. Depois de Deodoro e Floriano, os dois primeiros presidentes, o Brasil teve um terceiro general presidente, Eurico Dutra. Além deles, no pós-guerra surgiram dois candidatos competitivos, ainda que derrotados nas urnas, o brigadeiro Eduardo Gomes  e o general Henrique Lott. Uma diferença é que esses candidatos nasceram no interior de partidos civis, enquanto o movimento que carrega o general Heleno nasceu no universo militar, em suas famílias e associações de reservistas. Os militares têm causas que seduzem muitos eleitores, como o combate às cotas raciais e também ao casamento entre homossexuais. Sua agenda, no entanto, tem vários elementos típicos da caserna.

O Partido Militar Brasileiro denuncia a investigação conduzida pela Comissão da Verdade em torno dos crimes do regime como uma forma de revanchismo. Embora determinadas atitudes da Comissão possam mesmo estimular a interpretação de que se trata de um movimento “revanchista”, ela cumpre um papel necessário, indispensável à democratização que se defronta com a memória da tortura. No próximo 31 de março, data que foi retirada do calendário das celebrações militares pela presidenta Dilma Rousseff, o general Heleno vai dar uma palestra sobre a deposição de João Goulart para um grupo de maçons de Brasília. 

FOTOS: JOEDSON ALVES/AGêNCIA ESTADO/AE, Roberto Castro / AG. ISTOÉ; Anibal Philot / Agência O Globo; Cris Komesu/Folhapress

 

  

 

 

 

 

  

  

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 ou

POR FAVOR, TENHAM PACIÊNCIA…

 

 

 

 “Ah, mas se soubessem como éramos felizes… Dormíamos de mãos dadas e com o revólver ao lado, e éramos completamente felizes”.  

 

 

  

      1. A notícia, publicada no Estadão > Notícias > Internacional, pôde ser lida nos últimos dias de fevereiro recém-findo:

O ministro da Defesa da Rússia, Serguei Shoigu, afirmou nesta quarta-feira (26) que o país já tem ‘negociações avançadas’ para a instalação de bases militares em países como Cuba, Venezuela, Nicarágua e Vietnã. A declaração foi dada horas depois do início de um exercício militar russo na região de fronteira com a Ucrânia.”  

 

      2. Transcrevo agora as palavras de um Chefe de Estado sobre o comportamento de uma Nação Soberana – faz tempo que, por aqui, ninguém mais ouve ou lê a respeito disso e quase todos já se esqueceram do que possa significar:

Não devemos pautar nossa atitude nem por maquiavelismo matuto nem por uma política de extorsão. Reciprocamente, não devemos dar adesão prévia às atitudes de qualquer das grandes potências – nem mesmo às potências guardiãs do mundo ocidental, pois que, na política externa destas, é necessário fazer a distinção entre os interesses básicos da preservação do sistema ocidental e os interesses específicos de uma grande potência”.

      Essas palavras, que pertencem ao discurso intitulado “A Diplomacia da Revolução Brasileira”, foram escritas pelo Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco e por ele enunciadas por ocasião da entrega de diplomas aos aprovados à Carreira de Diplomata, em 31 de julho de 1964 – no auge da Guerra Fria.  

 

      3. Em seguida, trago-lhes um trecho da conclusão de um artigo de Túlio Sérgio Henriques Ferreira – “A ruína do consenso: a política exterior do Brasil no governo Figueiredo (de 1979 a 1985)” – publicado na Revista Brasileira de Política Internacional vol.49 no.2 Brasília, Jul-Dez/2006:

Idéias preestabelecidas sobre períodos históricos pouco estudados não são boas guias para o analista. No mínimo, exigem cuidados, olhar desconfiado. (…) Pela coleta de fontes que expressavam as idéias defendidas por diferentes atores influentes na formulação e execução da política externa, demonstrou-se que o Universalismo não foi o único projeto de inserção internacional brasileiro a ganhar voz na gestão do último general presidente do ciclo militar (…) a conjuntura impediu a existência de somente uma matriz propositiva para a inserção externa da nação. Por meio das críticas aos pressupostos do Universalismo, evidenciou-se o dissenso no interior das estruturas burocráticas do Estado brasileiro. (…) [Na] análise, firmou-se a pertinência da utilização de teoria que concebe o Estado como permeável ao jogo político, e não como estrutura monolítica que age verticalmente impondo ações no corpo social (…) a burocracia estatal é analisada em sua complexidade, tomada como estrutura que abriga em seu interior grupos de pressão com múltiplas idéias e interesses na luta pelo poder. (…) pode-se apontar a conjuntura crítica vivida pelo governo Figueiredo que levou ao esgotamento do modelo de desenvolvimento por substituição de importações, baseado em forte atuação ‘empresarial’ do Estado e financiado por capitais externos. Outro limite foi dado pela conjuntura econômica internacional que causou fortes constrangimentos à economia brasileira. Conjugou-se a tais fatos adversos do campo econômico, o processo de Abertura política conduzido pelo governo que também implicava redistribuição de poderes na sociedade. Tal conjuntura tornou possível o dissenso, tanto por parte da oposição, como por atores que anteriormente compunham a aliança legitimadora do governo militar. (…) diferentes projetos para a melhor inserção internacional do Brasil (…) eram decorrentes da percepção que os diferentes grupos possuíam da conjuntura e do papel que o país deveria assumir no sistema internacional. (…) Guerreiro sempre defendia que a postura do Brasil no mundo não era questão de escolha, mas imposta pela especificidade do país. Mas, a aproximação com o Terceiro Mundo não deveria significar o abandono ou o desprezo em relação às relações com o Primeiro Mundo. O chanceler (…) defendia que nem tudo se resumia à economia. (…) Em contraste com (…) postura de maior autonomia em relação aos centros de poder do norte (marcadamente em relação aos norte-americanos), estabeleceu-se um grupo de atores que propunham novos rumos para as relações internacionais do país.

 

      4. E, ao final de tudo, transcrevo a primeira versão de um artigo que acabo de ler: “É meu dever dizer aos jovens o que é um golpe de estado [sic]”, de Hildegard Angel, que foi publicado em 20/21 de fevereiro em diferentes blogues e, com correções de avaliação posteriores, é encontrado no da própria cronista social que o assina (http://www.hildegardangel.com.br/?p=35008). Dele retirei as palavras que são colocadas, aqui, como epígrafe. A foto que o ilustra se incluirá ao pé desta página.

 

***

 

      Se, aqui e agora, os três textos anteriores dispensarão qualquer comentário, este último faço questão de comentar.

 

      A foto que ilustra o artigo não é a de um jantar alegre que reúna uma quadrilha que se empavona no poder emanado do Planalto Central e esteja a passeio pelo mundo. Reparem nela, por favor. É uma foto de tanques do Exército embandeirados. Ao fundo, o antigo Ministério da Guerra, no Rio, e o monumento erguido em honra a Caxias, nosso exemplar Comandante em Chefe de todos os tempos. Suponho que essa foto também seja de 1964, tal como o citado discurso de Castelo. Está na web, sem data, com as marcas do arquivo do Exército e do sítio Defesanet, que foram apagadas grosseiramente para que parecesse uma foto de arquivo jornalístico (o que “comeu” detalhes da lagarta mecânica vista em primeiro plano). Há povo nas ruas? Não. Não há multidões agitadas com ou sem direção, não há a torcida de um time, não há uma turma, não há um bando. A foto indica que nas ruas estariam apenas os Soldados, que haviam sido, antes, chamados por grande parte do povo a acudir o Estado – ou seja, nas ruas estaria a porção do povo que, por ele mesmo, pelo próprio povo, é encarregada, em última instância, da defesa e da segurança do Estado. Há cartazes e bandeiras partidárias? Não. A única Bandeira que se vê, sobre os tanques, sombreando os Soldados, é a do Brasil. Essa imagem não é “fictícia” – é uma imagem da realidade de um dado momento. E tem um significado – que não é aquele que artistas e críticos de Arte lhe possam emprestar. Ninguém deveria precisar explicá-lo ou interpretá-lo. Muito menos alguém precisaria interpretar ou explicar o significado da Bandeira Nacional, que representa a Nação e o Estado brasileiros, nada menos e nada além. Na foto, eles, e apenas eles, a Nação e o Estado brasileiros, apresentam-se. Em armas. 

 

      Cabe, aqui, lembrar que o nosso Estado contava, desde que um Estado ele se tornou, com um Ministério dos Negócios da Guerra – ou seja, dos assuntos da guerra. O Estado contava com esse Ministério para sua própria defesa. Porque sabíamos o que eram guerras, apesar de que ninguém de bom juízo alguma vez as pudesse ter desejado. Principalmente os Soldados sabiam o que era uma guerra, mas não apenas eles – todos sabiam. Principalmente os Soldados e as famílias dos Soldados não queriam guerras, mas nenhum deles se recusava a lutar. A lutar pelo Estado brasileiro e pela Nação brasileira. Na 1ª República, o órgão público perdeu as palavras “dos Negócios” – passou a denominar-se Ministério da Guerra. E, um belo dia, desapareceu. Não que hoje não haja mais guerras ou não estejamos nelas – apenas hoje não mais sabemos o que seja uma guerra. Nem temos qualquer idéia do que possam ser as razões de uma guerra. Ninguém sabe. Se não soubermos o que seja determinada coisa, não saberemos para que essa coisa serve, por que ela pode ou deve existir ou por que possa subsistir. Se não soubermos o que seja determinada coisa, essa coisa não poderá ser reconhecida e/ou nomeada, nem que ela se coloque sob o nosso nariz. Imaginamos que, hoje, tudo se resolva na ONU, nas Cúpulas, nas Copas, em festivos campeonatos esportivos – de futebol, de bola de gude ou de cuspe à distância. E que vença o melhor nos dribles, na marcação do adversário, no grito ou no apito, sob o aplauso de todos! Não que, com isso, haja paz no mundo. Não que com isso não mais haja Soldados em nosso território. A diferença entre ontem e hoje é que, hoje, formamos nossos Soldados para emprestá-los às guerras que são travadas no exterior por interesse de outros Estados. Eles deverão lutar e, por vezes, morrer pela… paz mundial… seja lá o que for isso, acreditando que possam levar, ao mundo todo, tudo aquilo pelo que, em seu próprio País, passaram a se considerar não-responsáveis.

 

      Levando em conta e a sério, entre outras obviedades, que uma guerra nada mais é que a continuação da Política por outros meios, haverá guerras cruentas e guerras incruentas. Há duas formas de entrar em uma guerra: como soberano, com poder econômico nacional e força nacional armada, ou como força armada e/ou econômica auxiliar. Há duas formas de sair dela: como vencedor ou como vencido. Há duas formas de não entrar em uma guerra: por uma decisão política, isolando-se em “neutralidade” e assumindo os riscos dessa omissão, ou por força das circunstâncias que refletem a força da insignificância: quando nada houver a oferecer para colaborar com os envolvidos e nada houver que possa ser alvo da cobiça destes. Para que não haja guerras é preciso que não haja Política. Nenhuma “filosofia” é capaz de derrubar esses fatos que são fatos, mas que, na concepção rasteira de alguns, poderiam ser apontados como uma forma “maniqueísta” de ver o mundo. Não é. Aqui não se trata de dizer de “O Certo” x “O Errado”, de “O Bem” x “O Mal”, ou de como tudo “deveria ser”. O certo e o errado, assim como o bem e o mal, não são absolutos – sua percepção, sua visão, sua antevisão sempre dependerão da posição em que nos colocarmos e os avaliamos em relação a nós mesmos – o que implica avaliá-los em relação aos nossos, considerando-os, em seus limites, o mais amplamente possível, porque os nossos não são todos e, nos nossos, nós nos projetamos, quer queiramos, quer não. E Soberania não se confunde com qualquer “livre arbítrio” do Governo segundo seus caprichos. A Soberania, sim, é absoluta, e diz respeito exclusivamente ao Estado-Nação e ao comportamento do Estado-Nação. Soberanos, mesmo que não se temam, respeitam-se mutuamente. Apoiar um eventual “amigo” contra um eventual inimigo comum não fere a Soberania. Mas quando decidimos que devemos “relativizar” a nossa Soberania em benefício de uma organização política supranacional qualquer, mesmo que seja uma associação de Estados ditos Soberanos, se não a liderarmos direta ou indiretamente, estaremos imediatamente abdicando da Soberania e nos tornando lacaios de seja lá de quem for. Toda e qualquer Liga, desde os tempos de Esparta e Atenas, se não antes, forma-se em torno de uma liderança que se destaca dos liderados pela evidência de sua inteligência e de seu decorrente poder.   

 

      Com o território, a população, a posição geográfica e os recursos naturais que temos, não podemos nos dar ao luxo de acreditar em que passaremos pelo mundo desapercebidos e seremos desconsiderados nos planos estratégicos das grandes potências e das não tão grandes assim. Para chegarmos, do discurso altivo de Castelo Branco, ao ponto de inconsistência nacional e de subserviência aos interesses alheios em que nos encontramos hoje, razões muito complicadas, tão complexas que de “razões” não poderiam ser chamadas e só poderiam ser justificadas por intelectos muito “sofisticados”, foram alegadas e propagandeadas ao público de forma superficial, mas, por isso mesmo, muito eficaz. E por muitos de nós foram assimiladas, depois de consideradas “óbvias” e “muito bem esclarecidas”. Por essas mesmas razões ou por razões conexas, em um mesmo processo, o mesmo Governo que instalou uma “Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos” enquadrou o antigo Ministério da Guerra (já “democraticamente” denominado, desde 1967, por respeito às demais Armas nacionais, de Ministério do Exército) e os Ministérios das demais Armas em um Ministério da Defesa, retirando das nossas Forças Armadas – as forças da Nação e do Estado brasileiros em armas ostensivas, cuja função é intervir em situações de guerra e/ou em ameaças de guerra, para preveni-las – o poder de participar diretamente das decisões de Estado. Com o que as Armas nacionais perderam sua específica função – uma função eminentemente política.

 

      Se a questão nacional, que é grave e a cada dia se torna mais grave, deve ser enfrentada e discutida com base em “o que digo eu aqui” versus “o que diz aquele outro ali”, se as nossas verdades públicas devem ser encontradas nos álbuns de família ou em depoimentos de testemunhas que ouviram dizer, não nos fatos e na razão dos fatos, e se isso significa saber, não há por que dar ao que digo atenção menor que a que possa ser dada ao que diga qualquer um – exceto uma simpatia ou uma antipatia gratuita. Por isso me manifesto. Se o outro é o outro, eu sou eu, caramba! E daí? Não sou uma “celebridade”, mas muita gente me conhece, assim como muita gente conhece muita gente, apesar de que nenhum de nós saiba tudo de tudo e de todos.

 

      Podemos até nem sequer saber muita coisa a nosso próprio respeito. Mas todos nós bem sabemos o que seja sofrer uma perda, ou duas, ou três, ou muitas mais. E sabemos sofrer muito, sofrer intensamente, profundamente. E quase todos nós também sabemos superar nossas perdas e nosso sofrimento. Não só porque lemos muito e não apenas as críticas de Arte, as poesias e as crônicas sociais, como porque muito perdemos, muito sofremos e muito precisamos saber superar. Eu também sei como fazer tudo isso. E, se nem todos sabem, eu bem sei também o que é uma guerra. E por quais razões inimigos se reconhecem como inimigos e com que disposição se enfrentam em uma guerra. Não só porque leio muito e não apenas as críticas de Arte, as poesias e as crônicas sociais, como porque guerras que o Brasil enfrentou foram vividas e discutidas em minha casa, pelos meus, por gerações consecutivas, inclusive as ditas guerras “civis”. E sei o que é dedicar-se à defesa e à segurança do Estado. Não só porque leio muito e não apenas as críticas de Arte, as poesias e as crônicas sociais, como porque gerações que me antecederam deram suas vidas ao Estado brasileiro. Não eram cronistas, não eram poetas, não eram “filósofos” – eram Soldados, eram filhos e filhas de Soldados, eram mulheres de Soldados. Se alguns se criaram em outros ambientes, muito diferentes, eu me criei nesse, e muitos outros se criaram nesse mesmo ambiente ou em outros muito semelhantes, respeitando os mesmos valores, respirando Política, e saberão do que digo. Sei muito bem, também, o que é um golpe de Estado. Ninguém me explicará que diabos vem a ser isso – eu mesma sou capaz de explicar muito bem explicado a quem quiser saber, jovens ou velhos. Não só porque leio muito e não apenas as críticas de Arte, as poesias e as crônicas sociais, como porque golpes que o Estado brasileiro sofreu ou poderia ter sofrido foram vividos e discutidos em minha casa, por gerações sucessivas. E por mim, e por outros muitos mais, principalmente o último, em 1988, do qual sofremos hoje os terríveis efeitos. Sei, ainda, quem quis, quem deu e quem quer dar outros golpes em nosso Estado – Estado este que deveria, como a boa Gramática da boa Escola nos ensina, ser escrito com E maiúsculo, sempre, por todos, especialmente pela Imprensa, que, quando não mais ainda pretenda, vem pretendendo ensinar História, mas ensina, de fato, a escrever (e deveria ensinar bem). E que golpes de Estado nada têm a ver com certo refinamento à mesa e, em geral, nada têm a ver com a fome das multidões – em geral, têm muito a ver com o apetite de alguns poucos, apenas. E sei que o nosso Estado não é qualquer “estado de espírito” particular, nem mesmo será um “estado de espírito” coletivo. Ele é um Estado, o nosso, com E maiúsculo. Ou “ainda” é. Mas nem todos sabem o que seja um Estado… e quase ninguém quer saber. Especialmente os muito jovens. E muitos dos mais velhos, que poderiam saber, já se esqueceram.

 

      Todos esses anos que vivi e muitos viveram, e muitos outros mais, anteriores, que marcaram muita gente, também me marcaram; marcaram os mortos que me eram queridos e os vivos que queridos me são, marcaram suas expectativas e suas emoções, marcaram minha educação, minha personalidade, marcaram minhas expectativas, minhas experiências… marcaram minha vida, meu raciocínio e meu coração. Exatamente da mesma forma como marcaram a vida, o raciocínio e o coração de muitos e muitos outros mais, que muitos e muitos outros mais conhecem seja mais ou menos intimamente. Mas nem minha vida nem a vida dos outros, a vida de ninguém servirá de modelo de bem viver ou de boa consciência para quem quer que seja. Porque a ninguém servirá de experiência. Muito menos servirão de experiência as emoções alheias. Porque de ninguém substituem a própria experiência, muito menos substituem o saber e a inteligência.

 

      Há quem os meios de comunicação de massas transformam em “celebridade”; há quem, por isso, considere-se acima de todos os demais;  há quem julgue suas alegrias, suas dores e suas frustrações muito mais importantes e muito mais justificadas que as alegrias, as dores e as frustrações do comum dos mortais; há quem se habituou a atribuir a “culpa” por sua particular infelicidade à nossa gente, em especial à nossa classe média – que seria “o inimigo” -, lançando-lhe um olhar de desprezo semelhante ao que um rei tribal lança às formigas do seu terreiro que lhe picam os pés, e habituou-se a, nessa nossa gente, encontrar os “culpados” por suas aflições, desconsiderando a responsabilidade de sua própria trupe e  sua própria ignorância quanto à realidade; há quem se “preparou desde a infância para ser atriz” e ficou “por aí”, como “barata tonta”, “vagando feito mariposa, em volta da fosforescência da luz magnífica” da profissão de colunista social que lhe rendeu aplausos e uma suposta “insolente incompreensão de quem se arbitrou o insano direito” de julgar alguém  “por ter sobrevivido”. Podemos, assim, todos nós, compreender que será muito difícil, muito e muito difícil que alguém que tenha apoiado sua vida de muitos anos nessas circunstâncias aceite abrir mão da “majestade” que lhe foi atribuída por alguns “muitos queridos amigos” ou simplesmente possa ter sido auto-atribuída… Será muito difícil porque, dessa “majestade”, tal personalidade estará firmemente convencida.  

 

      Nem por isso todos os demais, que hoje vivem o século XXI e viveram, na década de 60, o século XX, serão ou deverão sentir-se como tendo sido representativos de “uma classe média desinformada, aterrorizada por perversa lavagem cerebral da mídia, que antevia uma ‘invasão vermelha’, quando o que, de fato, hoje se sabe, navegava célere em nossa direção, era uma frota americana.

 

      Muito bem. Cá, de minha insignificância e de minha pouca sensibilidade ou da absoluta falta dela (?), ouso fazer perguntas que deveriam ser respondidas, intimamente, por todos os que se digam interessados em Política e, em especial, na Política nacional. Se a tal frota “americana” navegava célere, em 1964, em nossa direção, quem a fez recuar? Ela vinha em nossa direção por quê? Recuou por quê? Não deveria ter recuado? Tendo ela recuado, que foi evitado? Deveriam os marines norte-americanos ter desembarcado em nosso território? Deveríamos tê-los enfrentado? Em nome de quê? De quem? Nós nos esquecemos, por completo, de que vivíamos no calor da Guerra Fria? Não sabemos que significou essa Guerra Fria? Ou é que, hoje, nós “devemos” nos esquecer do que ela significou ou significa? Que é o que “a mídia” vem antevendo hoje? Sua percepção brota da perspectiva de quem? Que é o que nos indica, hoje, que certa porção da mídia não nos esteja pretendendo fazer uma “perversa lavagem cerebral” ao apontar uma “frota americana” e não uma “invasão vermelha” se aproximando célere em nossa direção? Qual das duas “devemos” preferir: a frota ou a invasão? Apenas uma delas “devemos” temer? Que é possível fazer para enfrentá-las ou para evitá-las? Que é o que nos indica que certa porção da mídia não pretenda apenas nos “desinformar” e nos “aterrorizar”? Como nos precaver de certa porção da mídia que nos parece ignorante, tendenciosa e mal intencionada, inclusive quando incita uma frenética comoção popular sob aplausos de autoridades supranacionais que incentivam o culto às nossas “celebridades” chinfrins, consideradas pelo vulgo como “soberanos” em seus nichos institucionais ou privados ou mesmo em sua individualidade, e que promove qualquer dramalhão de folhetim a “legítima” obra de “Arte de Vanguarda”?

 

      Há 25 longos e árduos anos foi dado o mais recente golpe de Estado no Estado brasileiro – quando pôde ser elaborada uma “Constituição” que, fragilizando os conceitos de nacionalidade e de Estado Nacional, abriu caminho a que se fragilizasse o conceito de Soberania e a que ele, o nosso Estado, pudesse ser desconstituído em uma quimérica, em todos os sentidos, “comunidade latino-americana de nações”. Foi um golpe branco, branco-sujo, mas foi um golpe, sim. Esse golpe lhe/nos foi dado porque permitimos que fosse dado. É meu dever, portanto, dizer aos jovens – e aos não tão jovens – que não nos devemos esquecer de que a História se e nos concede idas e voltas, avanços e retrocessos, e de que ela nem se faz em um único dia nem se faz por uma única vontade. É meu dever, portanto, dizer aos jovens – e aos não tão jovens – que tenham alguma paciência. É bom, é essencial, é vital que tenham paciência neste momento. Não tolerância, que ser tolerante com o erro é suicídio; tolerância não, resignação nunca – mas paciência, sim, no bom sentido, no sentido da perseverança, para que possam pensar e agir com cautela, com prudência, com sensatez, com inteligência, sem se desesperar, sem seguir o canto de sereias que sabem ser tão “ensaboadas” quanto peixes que nos escorregam das mãos, sem atropelar a História, sem perdê-la de vista, fazendo-a acontecer no sentido correto de nossa perspectiva, a da Nação brasileira, nas condições adequadas, no momento certo e seguro. 

 

      Digo-lhes que tenham paciência porque este é o meu dever. Digo-lhes que tenham paciência, por favor, muito embora esteja começando a perceber que, no sentido de “calma”, eu própria já não tenha mais muita paciência. Confesso que por vezes me enfureço, e muito, como muitos se enfurecem, pois já estou, como muitos estão, pra lá de farta desse estúpido, ridículo e personalíssimo embuste a nos massacrar diariamente, sendo durante tantos e tantos anos encenado por supostas “ex”-crianças-prodígio que, mesmo que já tenham cabelos brancos, a cara enrugada, estejam sujando os chinelos e babando na gravata, não conseguem alcançar a maturidade emocional e intelectual, ou simulam não conseguir. Esses “iluminados” ainda pretendem que creiamos que o mundo gira em torno de seus próprios umbigos. E nos recitam versinhos encruados em linguajar manhoso e tatibitate com objetivo de tentar justificar a voluntariedade e as travessuras “guerrilheiras” indubitavelmente terroristas à época em que foram reprimidas pelo nosso Estado, igualmente criminosas hoje, quando pretendem limitar-se ao âmbito financeiro e “devem” ser perdoadas por recomendação dos insanamente pródigos e dos ditos “politicamente corretos”. E muitos são os que lhes dão atenção. Por mera desatenção.

 

      Nada disso é minimamente sério ou pode ser levado minimamente a sério. Todos nós sabemos disso. A inocência e o idealismo invocados são falsos – seriam, no máximo, desorientação, ignorância e irresponsabilidade, que deveríamos lamentar, não festejar, nunca perpetuar, em hipótese nenhuma cultuar. Além de que, em certos casos, correspondiam a uma intenção consciente, uma intenção estúpida. E já foram mais que desmascarados, não por depoimentos, mas por fatos evidentes. Insistir em alegar inocência e idealismo e, especialmente, inteligência em atos de terrorismo, na conivência direta ou indireta com atos de terrorismo, nos incentivos explícitos ou velados a atos de terrorismo, insistir em rotular de “terrorismo de Estado” (?!) os atos de combate a atos de terrorismo  praticados contra o Estado não é somente desrespeitoso – é muito desaforado, além de ser muito maçante, quando não muito irritante.

 

      Mas… tenham paciênciaE nos ajudem, ajudem todos nós a também ter paciência, a avaliar os fatos com sensatez, a bem definir objetivos, a definir como bem perseguir esses objetivos e a ter perseverança. A bem compreender e a reaprender a respeitar a boa Política. Porque a impaciência apenas nos traz o sério e grave risco de apostarmos em uma “ação pela ação” como reação ao marasmo, o de provocar uma precipitação descontrolada de elementos que nos são nocivos mas estão bem organizados, bem plantados e bem protegidos em seus covis, e o de mais ainda aprofundar e acelerar esse nosso já tão longo e profundo processo de decadência em direção ao nada. Um processo longo e profundo demais… Paciência…

 

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“É meu dever dizer aos jovens o que é um golpe de estado”

“Neste momento em que um golpe ronda um país vizinho, é meu dever dizer aos jovens o que é um golpe de estado”

Hildegard Angel

Neste momento extremamente grave em que vemos um golpe militar caminhar célere rumo a um país vizinho, com o noticiário chegando a nós de modo distorcido, utilizando-se de imagens fictícias, exibindo fotos de procissões religiosas em Caracas como se fosse do povo venezuelano revoltoso nas ruas; mostrando vídeos antigos como se atuais fossem; e quando, pelo próprio visual próspero e “coxinha” dos manifestantes, podemos bem avaliar os interesses de sua sofreguidão, que os impedem de respeitar os valores democráticos e esperar nova eleição para mudar o governo que os desagrada, vejo como meu dever abrir a boca e falar.

Dizer a vocês, jovens de 20, 30, 40 anos de meu Brasil, o que é de fato uma ditadura.

Se a Ditadura Militar tivesse sido contada na escola, como são a Inconfidência Mineira e outros episódios pontuais de usurpação da liberdade em nosso país, eu não estaria me vendo hoje obrigada a passar sal em minhas tão raladas feridas, que jamais pararam de sangrar.

Fazer as feridas sangrarem é obrigação de cada um dos que sofreram naquele período e ainda têm voz para falar.

Alguns já se calaram para sempre. Outros, agora se calam por vontade própria. Terceiros, por cansaço. Muitos, por desânimo. O coração tem razões…

Eu falo e eu choro e eu me sinto um bagaço. Talvez porque a minha consciência do sofrimento tenha pegado meio no tranco, como se eu vivesse durante um certo tempo assim catatônica, sem prestar atenção, caminhando como cabra cega num cenário de terror e desolação, apalpando o ar, me guiando pela brisa. E quando, finalmente, caiu-me a venda, só vi o vazio de minha própria cegueira.

Meu irmão, meu irmão, onde estás? Sequer o corpo jamais tivemos.

Outro dia, jantei com um casal de leais companheiros dele. Bronzeados, risonhos, felizes. Quando falei do sofrimento que passávamos em casa, na expectativa de saber se Tuti estaria morto ou vivo, se havia corpo ou não, ouvi: “Ah, mas se soubessem como éramos felizes… Dormíamos de mãos dadas e com o revólver ao lado, e éramos completamente felizes”. E se olharam, um ao outro, completamente felizes.

Ah, meu deus, e como nós, as famílias dos que morreram, éramos e somos completamente infelizes!

A ditadura militar aboletou-se no Brasil, assentada sobre um colchão de mentiras ardilosamente costuradas para iludir a boa fé de uma classe média desinformada, aterrorizada por perversa lavagem cerebral da mídia, que antevia uma “invasão vermelha”, quando o que, de fato, hoje se sabe, navegava célere em nossa direção, era uma frota americana.

Deu-se o golpe! Os jovens universitários liberais e de esquerda não precisavam de motivação mais convincente para reagir. Como armas, tinham sua ideologia, os argumentos, os livros. Foram afugentados do mundo acadêmico, proibidos de estudar, de frequentar as escolas, o saber entrou para o índex nacional engendrado pela prepotência.

As pessoas tinham as casas invadidas, gavetas reviradas, papéis e livros confiscados. Pessoas eram levadas na calada da noite ou sob o sol brilhante, aos olhos da vizinhança, sem explicações nem motivo, bastava uma denúncia, sabe-se lá por que razão ou por quem, muitas para nunca mais serem vistas ou sabidas. Ou mesmo eram mortas à luz do dia. Ra-ta-ta-ta-tá e pronto.

E todos se calavam. A grande escuridão do Brasil. Assim são as ditaduras. Hoje ouvimos falar dos horrores praticados na Coreia do Norte. Aqui não foi muito diferente. O medo era igual. O obscurantismo igual. As torturas iguais. A hipocrisia idêntica. A aceitação da sobrevivência. Ame-me ou deixe-me. O dedurismo. Tudo igual. Em número menor de indivíduos massacrados, mas a mesma consistência de terror, a mesma impotência.

Falam na corrupção dos dias de hoje. Esquecem-se de falar nas de ontem. Quando cochichavam sobre as “malas do Golbery” ou as “comissões das turbinas”, as “compras de armamento”. Falavam, falavam, mas nada se apurava, nada se publicava, nada se confirmava, pois não havia CPI, não havia um Congresso de verdade, uma imprensa de verdade, uma Justiça de verdade, um país de verdade.

E qualquer empresa, grande, média ou mínima, para conseguir se manter, precisava obrigatoriamente ter na diretoria um militar. De qualquer patente. Para impor respeito, abrir portas, estar imune a perseguições. Se isso não é um tipo de aparelhamento, o que é, então? Um Brasil de mentirinha, ao som da trilha sonora ufanista de Miguel Gustavo.

Minha família se dilacerou. Meu irmão torturado, morto, corpo não sabido. Minha mãe assassinada, numa pantomima de acidente, só desmascarada 22 anos depois, pelo empenho do ministro José Gregory, com a instalação da Comissão dos Mortos e Desaparecidos Políticos no governo Fernando Henrique Cardoso.

Meu pai, quatro infartos e a decepção de saber que ele, estrangeiro, que dedicou vida, esforço e economias a manter um orfanato em Minas, criando 50 meninos brasileiros e lhes dando ofício, via o Brasil lhe roubar o primogênito, Stuart Edgar, somando no nome as homenagens ao seus pai e irmão, ambos pastores protestantes americanos – o irmão assassinado por membro louco da Ku Klux Klan. Tragédia que se repetia.

Minha irmã, enviada repentinamente para estudar nos Estados Unidos, quando minha mãe teve a informação que sua sala de aula, no curso de Ciências Sociais, na PUC, seria invadida pelos militares, e foi, e os alunos seriam presos, e foram. Até hoje, ela vive no exterior.

Barata tonta, fiquei por aí, vagando feito mariposa, em volta da fosforescência da luz magnífica de minha profissão de colunista social, que só me somou aplausos e muitos queridos amigos, mas também uma insolente incompreensão de quem se arbitrou o insano direito de me julgar por ter sobrevivido.

Outra morte dolorida foi a da atriz, minha verdadeira e apaixonada vocação, que, logo após o assassinato de minha mãe, precisei abdicar de ser, apesar de me ter preparado desde a infância para isso e já ter alcançado o espaço próprio. Intuitivamente, sabia que prosseguir significaria uma contagem regressiva para meu próprio fim.

Hoje, vivo catando os retalhos daquele passado, como acumuladora, sem espaço para tantos papéis, vestidos, rabiscos, memórias, tentando me entender, encontrar, reencontrar e viver, apesar de tudo, e promover nessa plantação tosca de sofrimentos uma bela colheita: lembrar aos meus mártires, e tudo de bom e de belo que fizeram pelo meu país, quer na moda, na arte, na política, nos exemplos deixados, na História, através do maior número de ações produtivas, efetivas e criativas que possa multiplicar.

E ainda há quem me pergunte em quê a Ditadura Militar modificou minha vida!

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

       Por correio eletrônico e no facebook, eu recomendava, ontem, a alguns, que deveriam dar atenção a um debate que foi divulgado pelo canal Globo News – “VOCÊ É DE DIREITA OU DE ESQUERDA?”: https://www.youtube.com/watch?v=lwEUK8_E60k

 

      E dizia: “Embora, de quando em vez, eu manifeste minhas discordâncias, mais sérias ou menos sérias, com cada um dos três entrevistados – e nisso também reside a democracia –, considero que a Reinaldo Azevedo deveria ter sido concedido mais tempo.

      E, aproveitando um gancho de Pondé, eu diria que, no Brasil, para mim, ser revolucionário é ser brasileiro. 

      Portanto, concordem ou discordem, com todos ou com alguns, no todo ou em parte – mas ouçam. Ouçam atentamente. Leva um tempo, mas vale a pena. Façam um esforcinho extra para conseguir pensar – e pensar muito – a respeito de tudo aquilo que aqui é dito. E levem essa discussão às ruas, às Escolas, às Universidades, aos Clubes, aos sindicatos… Comecem por levá-la à mesa, na hora do almoço, dentro de suas próprias casas. Como em minha casa, desde sempre, ela se fez e se faz até hoje. Discutir bem discutido não mata nem ofende.”

 

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      Algumas respostas que recebi me levam a querer trocar isso em miúdos mais miúdos: esse debate é importante e só é importante porque, mal ou bem, recoloca em pauta a questão política – que desapareceu faz tempo de nosso horizonte. E não foge dela – mesmo que tenha sido muito reduzido pelo tempo, pela orientação que lhe foi dada e por ter como pano de fundo apenas a obviedade da impertinência do PT como representação de qualquer coisa além do interesse de suas “celebridades” e um tiroteio cerrado voltado a essas “celebridades” e à sua “prole”.

 

      O mais equilibrado e realista naquele debate foi Azevedo, jornalista, que tentou aprofundar o assunto. Estranhamente, foi ele quem mais se destacou em questões que deveriam ter sido muito mais bem abordadas e aprofundadas por eminentes acadêmicos. E não foram. Deveria esse debate servir de impulso a outros debates caso a questão política fosse considerada importante.

 

      A esquerda, como diz Pondé, também ontem, 24/02, na Folha de São Paulo, é sim “totalitária. Quer nos convencer que não, mas mente. … Ninguém precisa da esquerda para fazer uma sociedade ser menos terrível, basta que os políticos sejam menos corruptos (os da esquerda quase todos foram e são), que técnicos competentes cuidem da gestão pública e que a economia seja deixada em paz, porque nós somos a economia, cada vez que saímos de casa para gerar nosso sustento.”

 

      Observe-se que “técnicos competentes” cuidando “da gestão pública” – cuidando, pois, da Economia – significa nada mais nada menos que o seguinte: o nosso Estado precisa estar de olho e de mão metida por inteiro na Economia, no mínimo orientando-a – o que conflitará necessariamente com uma “economia deixada em paz”. Se o Estado não se encarrega disso, quem meterá a mão em questões que a nós e só a nós concernem? Que Estado, então, deverá ser esse, que, em tese, é nosso e só nosso é?

 

      A direita também sabe ser totalitária e também sabe ser corrupta e só não vê isso quem não quer. Ou quem se dedica a “filosofar” com vistas ao estrelismo e, ao tentar se aproximar da terra, pára nas nuvens.

 

      Já o “tucanato’ sempre foi o nicho “centro-esquerda” em que se reuniram e hoje ainda se reúnem os que teriam tendências ditas liberais moderadas na Economia. Mas, como o Partido é de esquerda, e de esquerda ele é, a direita que nele se abriga tem, como único e íntimo ponto contato com a esquerda, o internacionalismo. E, nesse campo, ninguém conflita. E, ainda nesse campo, poucos, muito poucos, na “oposição”, conflitarão com os da “situação” – que é o PT.

 

      No fundo, no fundo, as idéias internacionalistas (e, com elas, as regionalistas e as “governanças”) continuam pairando sobre as cabeças todas, continuam comandando o raciocínio dos mais e dos menos intelectualizados, o que faz que a suposta discussão sobre problemas nacionais se limite às questões de Economia internacional, e que as questões nacionais, todas elas, as nossas questões, que só nossas são, mesmo que eventualmente bem adjetivadas, percam em importância e em substância.  

 

      Por isso mesmo e por muito mais que isso, incentivo, sempre que me é dado incentivar, a discussão política – enquanto espero o surgimento de uma organização republicana, em sentido estrito e amplo, que possa lançar alguma candidatura que demonstre alguma responsabilidade com e empreste alguma coerência a preocupações voltadas ao que, de fato, ainda possa e deva ser visto como nacional em sentido estrito e amplo. 

 

      Afinal, quem somos? Que Estado queremos? Que fazemos a “cada vez que saímos de casa para gerar nosso sustento”? Esta, não outra que nos desvie a atenção devida ao que de fato é importante, é a discussão política que deve estar nas ruas, nas Escolas, nas Universidades, nos Sindicatos, em nossa mesa de almoço e de jantar.

 

      A outra discussão, a respeito de quem pode ou não pode, de quem deve ou não deve ser Governo, lhe é decorrente – é uma discussão que depende de uma definição prévia, uma definição a respeito do nosso Estado, sem o que tudo será demagogia. Portanto, a discussão a respeito do Governo, que é uma discussão administrativa, não precede nem substitui a discussão a respeito do nosso Estado, que é política. Aliás, isso, e nada mais que isso, é “Política”. É Poder.

 

      Queremos fazer Política? Então, devemos querer enfrentar essa discussão. Ou quem permitiremos que se encarregue de definir o que podemos ou não podemos fazer?

 

 

 

  

  

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

Capitão Nascimento

 

       Não que o “Capitão Nascimento” corresponda a meu tipo de macho ideal, que é… digamos… mais “intelectualizado” ou mesmo mais… “sofisticado” – mas o desempenho de Wagner Moura na pele de um personagem íntegro, capaz, sério, amargurado, dedicado, responsável, padrão “família”, com tantas virtudes que chegava a beirar o estereótipo, esteve muito bom. Comoveu multidões. Além de que os roteiros e a direção dos dois filmes da série “Tropa de Elite” foram também muito bons. São filmes que quase reproduzem exatamente a nossa realidade. Gostei tanto do primeiro que corri a ver o segundo tão logo foi lançado. Eu corri e todo mundo correu.

 

      Depois de dois filmes ao bom estilo capa-e-espada e me refiro ao senso de justiça e de lealdade aos companheiros, ao destemor e à sagacidade em combate indicativos da “nobreza” do personagem central – seria quase impossível que o povo não associasse intimamente esse personagem ao ator, que, vestindo a farda do BOPE, segue sendo lembrado em inúmeros quadrinhos espalhados nas “redes sociais”. O problema é que, do discurso eminentemente político de antes, o personagem passou, num zás, a outro, absolutamente oposto, francamente politiqueiro, pura demagogia.

 

      Ao ouvir aquele discursinho sonso, empoado, medíocre, pontuado de chavões, no final do 2º filme da série – o “o inimigo agora é outro” , que tanto desafinou de todo o resto, uma pulga me picou atrás da orelha. Aquele discurso me parecia antecipar um 3º filme da série que, muito provavelmente, seria não mais que uma grande xaropada. Essa tropa da “elite política” tem muita coragem… e tem muita arte… Usa e abusa delas.

 

      E o pior de tudo é que esses caras fazem a cabeça de muita gente…

 

      Esse terceiro filme da série não veio. E foi bom que não viesse. Mas vieram outros em que Wagner Moura – que, para as multidões, “é” o “Capitão Nascimento” – se destaca.

 

      A percepção e a imaginação do povo não se mostram tão férteis quanto alguns dizem que elas são, mas o leque de associações possíveis é um bocado amplo. E não requer muita inteligência. “Corrigindo” a imagem transmitida na quase totalidade dos filmes da série “Tropa de Elite”, o “Capitão Nascimento” poderá, a partir de agora, ser projetado e lembrado não mais fardado, mas nu, rolando na cama com outro gajo. É o que vai acontecer. E, logo, logo, mesmo sendo ao máximo tolerante e respeitoso com todas as escolhas e tendências individuais de todos e cada um, quem insistir muito, seja homem ou seja mulher, em só se comportar como um heterossexual se comporta ouvirá um sonoro “pede pra sair”. E, sob tanta pressão, pedirá para sair não só do jogo como do banco e também da arquibancada. 

 

      Tudo bem. Mas sair por onde? Para chegar até onde?  

 

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Cenas de sexo gay e nu de Wagner Moura chamam atenção no Festival de Berlim

Estéfani Medeiros –  Do UOL, em Berlim – 11/02/201411h45 

Na contramão de “Hoje eu Quero Voltar Sozinho”, que usa da delicadeza e da percepção para narrar a história de um adolescente que se descobre gay, “Praia do Futuro”, outro drama brasileiro que foi exibido nesta terça-feira (11) na mostra competitiva do Festival de Berlim, apresenta a história de um casal gay adulto que busca se aventurar e encontrar coragem para viver. O longa chamou a atenção por conta das diversas cenas de sexo e nu frontal de Wagner Moura.

O novo longa do diretor Karim Aïnouz (de “O Abismo Prateado”, 2011, e “O Céu de Suely”, 2006) foi apresentado para uma sala cheia, mas não arrancou palmas da plateia. Um dos integrantes do júri, o ator Christoph Waltz, bocejou algumas vezes durante a exibição. Cerca de 15 espectadores deixaram a sala nas cenas que envolviam carícias do casal.

Na conversa com os atores após a exibição, Wagner Moura, Jesuíta Barbosa e o alemão Clemens Schick comentaram sobre o trabalho, filmado em Berlim e em Fortaleza (CE) em 2012. “Uma das coisas importantes é que [os atores] falassem, se aventurassem, se arriscassem e fossem a lugares desconhecidos. Queríamos falar sobre o contratempo entre medo e coragem“, disse o diretor. (…)

http://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2014/02/11/cenas-de-sexo-gay-e-nu-de-wagner-moura-chamam-atencao-no-festival-de-berlim.htm
 

  

  

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

  

 

 

 

e aponte a razão – ou o conjunto de razões – que seja capaz de explicar por que um cinegrafista foi atingido e morto por um rojão lançado durante uma pacífica manifestação popular:

 

 

       ( ) porque o cinegrafista era o sujeito errado que estava no lugar errado na hora errada;

 

      ( ) porque o cinegrafista era negro;

 

      ( ) porque a Imprensa está a serviço da classe dominante;

 

      ( ) porque os manifestantes brasileiros são mal treinados e mal equipados;

 

      ( ) porque um rojão “tem razões que a própria razão desconhece”;

 

      ( ) porque o cinegrafista trabalhava em momento de sacrossanta manifestação libertária e foi confundido com elementos da repressão;

 

      ( ) porque “o sonho não acabou”; 

 

      ( ) porque “vandalismo é o cacete! Vandalismo é botar as pessoas quatro horas na fila das barcas todo dia”;    

 

      ( ) porque Mercúrio estava retrógrado e Júpiter exaltado;

 

      ( ) porque o cinegrafista era pobre;

 

      ( ) porque apenas a câmara do cinegrafista era o alvo visado, mas o lançador do rojão é ligeiramente vesgo;

 

      ( ) porque em manifestações coletivas externa-se e expande-se livremente a solidariedade latente de todos e cada um;

 

      ( ) porque uma elite branca de olhos azuis da sociedade brasileira, que é homofóbica e racista, mas é enrustida, não gosta de ser filmada em sua privacidade;

 

      ( ) porque a Polícia Militar, herança nefasta do regime autoritário, sempre provoca confusão nas ruas;

 

      ( ) porque o rojão era destinado a qualquer um, mas nem mesmo o rojão sabia disso;

 

      ( ) porque o indivíduo é soberano e tem o direito inalienável de lançar rojões onde, quando e em quem os quiser lançar;

 

      ( ) porque “há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia”;

 

      ( ) porque o rojão é um elemento provocador infiltrado por forças reacionárias entre os manifestantes pacíficos;

 

      ( ) porque o cinegrafista estava sem capacete, sem raquete e sem cassetete e não pôde rebater o lance;

 

      ( ) porque “nas noites de frio é melhor nem nascer; nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer”; 

 

      ( ) porque quem lançou o rojão imaginou que estava lançando uma cabeça-de-negro;

 

      ( ) porque “estava escrito nas estrelas”;

 

      ( ) porque alguém terá ouvido o cinegrafista dizer algo como “por favor, minha senhora, com licença” – e… reagiu;

 

      ( ) porque a lei só proíbe que rojões sejam lançados em temporadas de festas juninas e de campeonatos de futebol de várzea;

 

      ( ) porque “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”;

 

      ( ) porque a sociedade brasileira é “resultante de um processo de colonização que tem como base (…) a guerra de conquista e a escravidão”;

 

      ( ) porque a Polícia Militar, que tinha planos de fazer uma vítima fatal para que mais se legitimasse a manifestação, chegou atrasada;

 

      ( ) porque “o dia amanheceu lá no mar alto da paixão e dava pra ver o tempo ruir”;

 

      ( ) porque ao cair da noite todos os gatos são pardos;

 

      ( ) nenhuma das respostas é correta porque toda a nossa História e as nossas histórias todas podem ser explicadas e entendidas do jeito como cada um bem as queira entender e explicar.

 

  

  

 

 

 

 

 

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CANGAÇO

09-02-2014
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

cangaço

Assassinato de policiais em Juazeiro da Bahia vem à tona e deixa policiais do país revoltados.

Ver mais em http://folhadosertao.com.br/portal/noticia.php?page=noticiaCompleta&id_noticia=13957

 

 

       Imaginava-se que o Nordeste se havia livrado da praga do cangaço na primeira metade do século XX. Ledo engano. Sendo Lampião cantado em verso e prosa e transformado em herói, no cinema e nas histórias em quadrinhos, por “pesquisadores” e “especialistas” de “alto nível” muito dedicados à descoberta das nossas “verdades” históricas; sendo seus crimes justificados e “legitimados” pela miséria e o sofrimento do sertão, o cangaço ressurgiu no final do século. Ressurgiu, então, consagrado como “revolucionário” por Hobsbawm e amparado pela Universidade (a elite engajada) e por parte da Sociedade (o vulgo ignaro). E, invadindo o espaço brasileiro de Norte a Sul, de Leste a Oeste, continuou produzindo o que desde sempre produziu – o que se vê agora em escalada exponencial.   

 

      Só se alterou a indumentária dos cangaceiros, que abandonaram o couro que os protegia na caatinga – hoje usam das camisetas coloridas, com alguma estupidez que lhe seja impressa, a um terno-e-gravata e/ou a uma toga. Para conferir, basta-nos ler, nos jornais das grandes capitais, as notícias referentes às execuções de Policiais Militares quase diárias e as inúmeras notícias referentes à exigência “da sociedade” de “apuração de responsabilidades” não dos meliantes, mas somente desses mesmos Policiais quando no exercício de sua função.

 

      Como devemos denominar academicamente o fenômeno ilustrado na foto? De “cangaço tradicional”? De “neo-cangaço”? De “cangaço urbano”? Porque cangaço, e nada mais do que cangaço, ele é. E como devemos chamar a “cultura” que se promove a partir da tolerância de muitos com esse fenômeno? De “cultura libertária”? De “cultura revolucionária”? 

 

      Se “revolucionário” é algo muito e muito difícil de definir em alguns trocados, cangaço nós sabemos muito bem o que é. E bem sabemos como pode e deve ser combatido. Só não queremos combater. Não combatemos o cangaço sequer combatendo sua alegada justificativa e atribuída “legitimidade”, com medidas que visem à solução do sofrimento, da miséria e da ignorância de imensa parcela da população nacional – ignorância, miséria e sofrimento que, se é que de fato produzem cangaceiros, produzem muitas e muitas coisas mais, bem mais nocivas ao nosso País.

 

      Por quê? A quem interessa a manutenção do sofrimento, da miséria e da ignorância que se constatam a olho nu, aos borbotões, em nossos campos, em nossas Capitais, em nossas demais cidades todas, pequenas, médias ou grandes?

 

      A resposta – que é óbvia – alguém ainda poderia pôr em dúvida?   

 

 

 

  

  

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

      A declaração da então Ministra da Saúde da África do Sul – a de que a AIDS (SIDA, em bom Português) poderia ser curada com uma dieta de azeite de oliva, alho e beterraba – e a de Jacob Zuma, homem forte do regime que, logo em seguida, seria eleito Presidente desse país africano – a de que, depois de fazer sexo com mulheres infectadas pelo HIV, ele se livrava do vírus tomando um bom banho – escandalizaram o mundo em 2007. E com razão. Não à toa, “ir a cemitérios para os funerais de parentes e amigos” era “uma das atividades a que os sul-africanos” dedicavam mais tempo; e as escavadeiras preparavam “a cada dia dezenas de novos sepulcros nos gigantescos e reluzentes cemitérios de Soweto, Elizabethtown, Khayelitsha e as demais cidades…” – como nos dizia o repórter de La Vanguardia (http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1856221-EI298,00.html).   

 

      Aquelas declarações me vieram imediatamente à lembrança ao abrir, ontem, o computador e me deparar com as imagens expostas em http://noticias.uol.com.br/album/2014/01/30/campanha-denuncia-casos-de-discriminacao-e-xenofobia-na-universidade-de-coimbra.htm

 

      Indivíduos brasileiros desde sempre passearam livre e alegremente pela Europa e pelo mundo inteiro sem enfrentar qualquer sombra de discriminação. Nem eram emigrantes nem eram refugiados políticos amparados por uma “Anistia Internacional” – eram turistas curiosos ou estudiosos que buscavam Universidades mais adequadas às suas ambições profissionais ou mesmo políticas. A partir de certo momento, porém, passaram a ser vistos com certo desagrado em certos locais em virtude do comportamento que assumiam quando “em bando”, inclusive quando em excursões de classe média alta. Seriam um pouco mais que apenas barulhentos.

 

      Já especificamente em solo português, os indivíduos brasileiros desde sempre foram acolhidos com alegria, carinho e respeito. Com muito e muito mais carinho, alegria e respeito com que os indivíduos portugueses, imigrantes ou visitantes, eram acolhidos em nosso País. Estes, sim, muitas vezes eram alvo de chacotas sem qualquer sentido ou razão, que apenas nos deveriam causar vergonha, a nós mesmos. Mas isso até se explicaria por uma espécie de nacionalismo retardado – porque, de Portugal, havíamos sido uma colônia e, na História, firmou-se a birra. De repente, os brasileiros passaram a ser evitados e a ser apontados como inconvenientes ou mesmo indesejáveis em qualquer lugar, inclusive em Portugal. Que aconteceu? Por que “os brasileiros” são hoje vistos como ignorantes, desrespeitosos, irresponsáveis, baderneiros, absolutamente amorais, quando não imorais, epítetos que os piqueniques de nossas autoridades em Lisboa só reforçam, quando não são confundidos com narcotraficantes e/ou terroristas, a ponto de um Chanceler ter sido obrigado a submeter-se a revista policial em aeroporto dos EUA e a tirar seus sapatos?

 

      Não só um protecionismo nacional, a bem dizer natural, com relação aos postos de trabalho ameaçados em época de profunda crise econômica generalizada determinaria que qualquer brasileiro ou outros indivíduos estrangeiros bem ou mal capacitados quaisquer fossem malqueridos e malvistos, quando não maltratados por populações européias que procuram desesperadamente se resguardar em suas conquistas sociais, em seus direitos suadamente conquistados e em sua cultura. Um longo processo de desmoralização da cultura brasileira e do próprio povo brasileiro foi o grande responsável por um especial retrato de nós, que se viu pintado nos tons que nós mesmos afirmávamos ser os nossos e que hoje provoca uma reação que tanto nos ofende, a todos nós. A começar pela exposição e a valorização, como mercadoria, das tais “brasilidades”, algo recortado, remontado e estereotipado que representaria a “nossa cultura”. Entre praias paradisíacas, frutos, pássaros, matas, cachoeiras, cascatas e futebol, o nosso País passou a ser apresentado, reconhecido e desejado no exterior pelas propagandas oficiais e extra-oficiais que investiam em imagens de corpos nus em tribos silvestres, em corpos seminus em tribos urbanas, em nádegas se requebrando ao som de pandeiros, cuícas e berimbaus, enquanto acolhia “turistas” do mundo inteiro em busca de aventuras libertinas que até hoje nos recheiam os cofres públicos e privados. Passamos a ser reconhecidos como um país aberto ao desfrute das “espontaneidades” e das “liberdades”. E apenas isso, nada mais que isso.

 

      Por mais que nossos Ministros ou nossos Presidentes eleitos possam nos recomendar uma dieta de azeite, alho e beterraba ou um bom banho com água e sabão, por mais que a nossa Imprensa possa amparar e estimular denúncias de xenofobia ou campanhas para que os portugueses aprendam a falar, a escrever e a pensar como “os brasileiros” (?), essas providências não serão eficazes para combater e remediar os efeitos perversos da epidemia de “preconceitos” contra os brasileiros todos que se encontrem porventura em solo europeu ou em qualquer lugar do mundo. Esses “preconceitos” todos foram provocados por conceitos a respeito de nós mesmos que nós mesmos adotamos e confirmamos. Esses conceitos, não os “preconceitos” deles decorrentes, não permitiram que, hoje, pudéssemos ser apontados como um País de gente respeitável – imagem que ninguém além de nós mesmos poderia e deveria produzir.    

 

      No futuro, nada é impossível. Mas, para que o nosso País seja, algum dia, reconhecido como um centro mundial de pesquisa e propagação de conhecimento, falta-nos muito e muito feijão. Farofa não nos faz falta, e já temos de sobra. Enquanto isso não acontece, dependemos, em tudo e mais um pouco, do que é produzido no resto do mundo, do mundo civilizado. Resta-nos, então, tentar encontrar a mezinha correta e, de preferência, uma vacina eficaz contra o vírus que vem devastando a nossa própria cultura, prejudicando e, às vezes, mantendo atrás das grades em territórios alheios ou expulsando deles os nossos “indivíduos na cultura”.

 

      Em vez de pretender corrigir a educação de outros, de fazer uma propaganda escandalosa, supostamente reversa, para que discriminemos a Universidade de Coimbra e/ou tentemos obrigar Portugal a aceitar como correto o “nosso” Português, quase “dialetal”, um Português errado – mesmo porque não temos poder para desfazer ou alterar alguma coisa que não seja de fato nossa -, talvez seja o caso de começarmos a identificar e a corrigir os nossos próprios preconceitos, preconceitos novos, novíssimos, adquiridos pela leitura de manuais absolutamente equivocados, que nos tenham sido impostos por alguns poucos interessados neles ou por absoluta falta de atenção à necessidade de demonstrar respeito com o que, de fato, nosso é – os nossos próprios estúpidos preconceitos contra uma educação que busque preservar nossos valores tradicionais. E talvez seja hora de começarmos a cuidar um pouco mais de nossa própria educação, permitindo que ela seja encontrada nos moldes em que o mundo real, não qualquer utopia de botequim, nos exige.

 

      Alguma coisa anda muito errada na Europa, sim. Mas essa coisa com certeza não é a mesma coisa que anda muito mais que errada em solo brasileiro. Isso só um cego não vê. E o pior cego sempre será aquele que se recusa a ver.

 

 

XENOFOBIA 1

XENOFOBIA 2

XENOFOBIA 3

XENOFOBIA 4

XENOFOBIA 5

 

 

 

 

  

  

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

da falsa Sociologia, da desinformação absoluta, da idiotice de alguns, da liberdade de todos… ao salve-se quem puder.

 

 

 

 

 

…na minha infância, havia primeiro o ‘Correio da Manhã’, um jornalaço. E havia ‘A Noite’ – que vendia muito mais. E era um jornal muito mais amado pelo leitor. (…)  O sujeito comprava ‘A Noite’ disposto a ler ou disposto a não ler. (…) Ler ou não ler era um detalhe insignificante. Mas o povo gostava desse jornal. E esse antigo jornalismo permitia, por exemplo, que você fosse fazer a cobertura de um incêndio e levasse na mão uma casa de pássaro, uma gaiola e metesse a gaiola com um pássaro lá num certo ponto da casa em chamas. E aí o repórter que não era idiota da objetividade dizia que o nosso querido fotógrafo ouviu toda a cantoria do canário. E terminava dizendo: ‘Morreu cantando’ (…). O repórter fora cobrir um incêndio. Mas o fogo não matara ninguém. E a mediocridade do sinistro irritara o repórter. Tratou de inventar um passarinho: enquanto o pardieiro era lambido, o pássaro cantava, cantava. Só parou de cantar para morrer. Nelson Rodrigues, em entrevista publicada em http://www.geneton.com.br/archives/000012.html

 

1º tempo

A pretexto de “informar” o público, o vídeo “O primeiro rolezinho: minidocumentário sobre invasão a shopping da Zona Sul do Rio em 2000 – uma excelente reflexão sociológica” foi divulgado nas redes sociais (http://www.youtube.com/watch?v=UHJmUPeDYdg&feature=player_embedded).

 

2º tempo

O leitor da Folha de S. Paulo seria “bem informado” lendo a coluna de Hélio Schwartsman – “Liberdade, igualdade, rolezinhos”  (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2014/01/1400256-liberdade-igualdade-rolezinhos.shtml) que destaca, entre outras coisas mais, que “são absurdas as liminares que pretendem proibir a realização de rolezinhos. … A moral da história é que liberdade e igualdade, embora tenham inspirado a Revolução Francesa, são princípios incongruentes.

 

3º tempo

Ao leitor da BBC-Brasil, um título e um comentário também “informariam” (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/01/140120_rolezinho_shopping_classe_c_mm.shtml): “Shoppings ‘ignoram potencial de consumo da classe C’ ao coibir rolezinhos, diz pesquisa“.

 

*** 

      Qualquer manifestação pública espontânea de um grupo qualquer, especialmente uma ocupação do espaço público, seja pacífica ou violenta, será, por certo, motivo suficiente para uma reflexão sociológica, nem que seja uma reflexãozinha muito leve e muito breve, pois essa manifestação apenas pertencerá a um processo muito mais amplo e complexo e necessariamente nele se encaixará. Tentar compreendê-la e analisá-la como um detalhe, ou mais um, em um processo e decodificar esse processo são funções da boa Sociologia. Assim, quem sabe o que Sociologia é, e sabe para que diabos essa disciplina serve, não chamará de “reflexão” a evidência de qualquer manifestação pública ou de “sociológico” qualquer “achismo” a respeito dela. 

 

      Que vemos no vídeo indicado? Um bando de indivíduos que se dirige a um centro comercial; em seguida, ocupa os espaços; a vendedora solicita aos que não pretendam experimentar alguma peça de roupa nos provadores que desocupem a loja; as crianças comem pão com mortadela; a Imprensa, chamada para acompanhar a “manifestação “espontânea”, filma não só o “evento” como o percurso em ônibus; os “intelectuais”, esses “filosofam”; a “escola de cinema” edita; o feicebuqueiro rotula. O que é divulgado no vídeo – que, aliás, logo no início, após o nome dos patrocinadores, exibe o seguinte texto bastante elucidativo: “em agosto de 2000, um grupo de manifestantes organizou uma ocupação em um grande shopping da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro” – não corresponde a qualquer atitude “espontânea” de quaisquer eventuais consumidores ou curiosos; corresponde, sim, à teatralização de uma alegada “discriminação” que “a sociedade” praticaria contra determinados indivíduos a pretexto de sua origem social. Ela foi programada, planejada, bem coordenada, bem ensaiada, inclusive com discurso na ponta de língua, decorado pelos manifestantes e com a exposição inconseqüente de idosos e crianças a qualquer tipo de distúrbio que pudesse ser provocado pela ação dos próprios manifestantes ou pela reação dos lojistas e dos policiais que foram chamados a manter a ordem e a segurança dos demais presentes naquele espaço ameaçado de sofrer um tumulto. Por que ameaçado de sofrer um tumulto? Porque a intenção era filmar, divulgar e “denunciar” qualquer reação ao que fugisse do cotidiano daquele espaço. Portanto, a intenção era provocar essa reação.    

 

     Qual “excelente reflexão” poderemos fazer a partir do que nos foi informado pelo vídeo? E como a Sociologia poderia interpretar o que nos foi mostrado?

 

      Sociologia é algo além e muito diferente de uma mistura grosseira de psicologia de quintal + filosofia revolucionária barata + estatística seletiva. Sociologia é coisa séria porque é coisa útil, mas só será coisa útil se for coisa séria. Muito embora os politiqueiros tenham encontrado, no espaço acadêmico a ela originariamente destinado, um campo aberto a um proselitismo que se desenvolve sem qualquer controle disciplinar, de forma absolutamente contrária aos fundamentos da disciplina, caracterizando algo em que a Sociologia de fato não poderia, jamais, ter-se transformado. Porque seu nome rotula o seu avesso, Sociologia que é Sociologia se vê a bem dizer ausente de nossas Escolas e Universidades. O desvirtuamento e a desmoralização da Sociologia enquanto disciplina objetiva não é de hoje, mas, hoje ainda, quem considere ou acredite que sua finalidade seja fazer agitação, levantar “a palavra da revolução”, “promover na fronteira esse afrontamento, esse confronto das intensidades” ou coisa parecida não passa de um idiota. Isso não é e nunca foi Sociologia. Afirmar que é Sociologia a divulgação de palavras de ordem e o incentivo e a promoção de “movimentos”, sempre foi, sempre será e é apenas falta de conhecimento. Reles politicagem. Politicagem pura e simples. Má intenção. Demagogia. Nada mais. A demagogia, esta, sim, servirá um bocado a uma “excelente reflexão sociológica”.

 

      Aliás, para quem gosta de Sociologia, o demagogo não é exatamente um “tipo ideal” e a demagogia será um prato cheio de realidade…

 

*** 

       Ora, não é preciso ser um sociólogo nem ser um gênio, basta saber somar dois com dois e saber encontrar quatro para concluir que os “princípios” de “liberdade e igualdade” são incongruentes; e para concluir, imediatamente em seguida, que, pelo menos da maneira como vêm sendo divulgadas pelos ditos “revolucionários” e compreendidas pelo vulgo, como essenciais à “busca da felicidade”, não passam de um blefe, ou, no máximo, de um mito. Alguns procuram, no entanto, que esse mito – muito favorecido pela Declaração de Independência dos EUA (1776) que terá sido inspirada em texto do Thomas Jefferson, não exatamente a partir da Revolução Francesa (1789…) que lhe é posterior – mova o mundo. Quem pretender atribuir excelência ou mesmo alguma viabilidade a um sistema qualquer construído a partir de dois ou mais “princípios” incongruentes apenas demonstrará que está brincando com coisa séria, que não tem juízo algum ou apenas quer confundir.

 

      Uma única frase de um único parágrafo desse texto de Jefferson, na íntegra ou adaptada ao discurso laico, presta-se a justificar qualquer desarranjo e qualquer veleidade pretendidos em âmbito social: “todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade”. Seria interessante que lêssemos o texto por completo, colocando-o em suas circunstâncias, ou, pelo menos, que lêssemos com bastante atenção o parágrafo abaixo transcrito, que diz da igualdade primordial e dos direitos inalienáveis à liberdade e à procura da felicidade, os chamados “princípios” que passaram a ser tão “respeitados” pelos ditos libertários: 

 

Consideramos … que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade. Que, a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade. Na realidade, a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros; e, assim sendo, toda experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objeto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assistem-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos Guardiães para sua futura segurança. Tal tem sido o sofrimento paciente destas colônias e tal agora a necessidade que as força a alterar os sistemas anteriores de governo. …“

 

      Convenhamos: vida é vida. A vida é algo objetivo que deve ser tratado objetivamente. O direito à vida incluirá o direito a respirar, comer, beber, dormir, abrigar-se, ter boa saúde, locomover-se, procriar e, principalmente, desenvolver-se plenamente, ou seja, ganhar consciência plena das relações que o indivíduo necessariamente experimenta enquanto ser da Natureza e da Cultura, para que escolhas possam ser feitas; incluirá também, por decorrência, o direito a (ou o dever de?) produzir e a divulgar conhecimento que possa ser útil a todos, evitando que se propague tudo o que possa ser nocivo à vida, inclusive e principalmente a ignorância. Incluirá ainda segurança, que significa proteção não só contra seres mal intencionados como contra forças irracionais da Natureza. Ou seja, as condições materiais básicas de vida devem ser garantidas ao indivíduo que, para tanto, organiza-se politicamente.

 

       Felicidade e liberdade não são, nunca foram nem serão condições de vida – são “estados de espírito”, e dependem visceralmente das maneiras de ver o mundo e de lidar com ele. Apesar de que cérebro seja matéria e deva também ser tratado objetivamente, felicidade e liberdade são produtos subjetivos, ou seja, vinculam-se e obedecem a fatores estritamente individuais, a emoções, que o cérebro do indivíduo processa da forma como for capaz de processar. É, pois, pura ilusão supor que o direito à vida deva ou possa ter o mesmo valor que os tais “direitos” à liberdade e à felicidade. Mais que pura ilusão, porém, será estupidez e má-fé pretender que o direito à vida, esse sim, inalienável, desde que o seu portador o respeite, inclua qualquer “direito” do indivíduo a impor aos demais sua específica tradução do que seja um estado de felicidade e liberdade. 

 

      A liberdade e a felicidade de cada um não dependem de uma receita pronta, pois dependem das escolhas feitas conforme as circunstâncias de cada um. Nenhum regime político poderá, portanto, responsabilizar-se por elas. A sensação de liberdade e de felicidade depende de decisões exclusivas ao indivíduo, que se alteram no tempo e no espaço de acordo com as condições do meio e com o conhecimento que o mesmo indivíduo incorpore ao seu raciocínio, que é o que determina suas ambições. Inclusive e principalmente depende do conhecimento a respeito do leque de opções que lhe possa estar aberto e do porquê dele existir. Essas escolhas serão ou não cumulativas, mas sempre serão sucessivas; e serão determinadas pelo caráter de cada um. Não dependem da constância do entorno. Portanto, escolhas diferentes das que possam ter sido feitas em tempos anteriores não indicam que tenha havido qualquer alteração em uma personalidade. Conhecimento não altera a personalidade do indivíduo. Ele o terá para o Bem ou para o Mal. E nenhuma personalidade se “converte”. Por mais conhecimento que tenha o indivíduo, sua personalidade depende exclusiva e rigidamente da maneira como ela pôde ser estruturada. Cada um é o que é e morrerá sendo apenas o que é e sempre foi. Considerando o indivíduo, e apenas o indivíduo, submeter-se intelectualmente aos autoproclamados “mais sábios” e às suas “verdades”  subjetivas será nada mais nada menos que abdicar absolutamente da liberdade intelectual, fundamental a qualquer outro tipo de liberdade, assim como submeter a própria felicidade a um conceito de felicidade alheio será abdicar da felicidade.

 

      Sendo assim, a liberdade e a felicidade que as escolhas individuais possam proporcionar ao indivíduo serão sempre relativas, nunca absolutas. Estarão em relação com as pressões do meio e em relação com o próprio sujeito em suas relações. Sendo assim, também, apenas poderemos supor condições apropriadas à igualdade de oportunidades, à liberdade e à felicidade de todos (não de cada um) se nos referirmos às condições políticas, públicas, de todos, não às condições individuais de cada um, mesmo que em seu grupo. Ainda assim, no entanto, não há como um regime político garantir a todos o exercício de uma igualdade e uma liberdade absolutas, nem sequer há como acenar com um arremedo delas caso todos não compreendam que a liberdade individual de cada um, se não for controlada, conflitará com a liberdade individual dos demais. Nem há como um regime político garantir a busca da felicidade de todos, se a felicidade de cada um depende do que faz cada um feliz, podendo ser esse direito à felicidade de alguns, se não controlado, traduzir-se exatamente no exercício do que faz os demais indivíduos muito infelizes, porque privados da vida em sua total dimensão. Mesmo que todos os indivíduos tenham nascido em semelhantes condições. 

 

      Fora do registro político e dos limites do público, tentar providenciar a igualdade entre todos será algo racionalmente inconcebível, porque é algo absolutamente inviável. E de fraternidade, então, nem há que falar. E apenas no registro político, racional, não emocional, estão a igualdade, a liberdade e a felicidade de que falou Jefferson. Essas não correspondem, em absoluto, à igualdade, à liberdade e à felicidade individuais, mas a ambições políticas mais nobres, àquelas igualdade, liberdade e felicidade que dependem diretamente da garantia que o Estado possa oferecer a cada um, e da forma de Governo que possa ser adotada por comunidades políticas suficientemente coesas e maduras, com ambições à Soberania – e, no caso específico, Jefferson se referia às colônias inglesas na América. Não estivessem nesse específico registro e nesses específicos limites, e poderia ser perguntado, aos que se consideravam por seus próprios méritos e vontades como pertencentes a uma nova nacionalidade, potencial que ela fosse, por que razão aos ingleses colonizadores não deveria ser reconhecido o direito à sua própria liberdade e à sua busca da felicidade…

 

      Exatamente porque os Homens fazem suas escolhas, nenhuma forma de Governo poderá contar para sempre com indivíduos “mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram”. Esses indivíduos, desde que não “por motivos leves e passageiros”, terão o direito bem como o dever de “instituir novos Guardiães para sua futura segurança“, ou seja, um novo Governo, afastando os que só pretendem destruir uma comunidade na sua mais elevada expressão política, em sentido muito mais amplo que o de qualquer dado grupo e muito mais real e mais consistente que qualquer dita “humanidade”, afastando os que abusam de suas funções, os que usurpam dos demais o direito, esse sim, inalienável e de todos, à vida. Esse direito à vida, e, em se tratando de Homens, também à vida política, cultural, a ninguém garantirá a liberdade ou a felicidade pessoal, particular. Mas poderá e deverá garantir o direito de qualquer um a fazer escolhas. Em uma sociedade bem estruturada, pois, quem escolher mal que agüente as conseqüências. 

 

     O indivíduo não é uma ilha e quem o trata como tal simplesmente não percebe a realidade. Mas ele não se confunde com qualquer grupo ou qualquer comunidade. Sendo todos conscientes de que do respeito ao direito à vida, à própria e à dos demais (dos que respeitem a vida de todos, bem entendido), depende a vida e também a felicidade e a liberdade de cada um e de todos, torna-se bem fácil lidar com conflitos de consciência, de bairro, de Governo – resolvem-se guerras, resolvem-se responsabilidades, resolve-se tudo. Ou, pelo menos, encontra-se mais facilmente um caminho que tentará nos levar a resolver. Um Estado bem administrado é um exemplo que poderá observado e poderá ser imitado. Entregue aos demagogos, no entanto, será apenas visto com desconfiança.

 

      Por outro lado, a igualdade, a liberdade e a busca da felicidade não dependerão de que uma “consciência coletiva” seja formada. A coletividade não tem pernas, nem braços, nem olhos, nem ouvidos, nem, muito menos, terá consciência, em absoluto. Consciência é atributo exclusivo do indivíduo. Se o indivíduo, no entanto, não tem noção (ou prefere não ter) do seu entorno e da sua dependência dele (o que depende em muito da educação política que recebeu, do grau de coerência, portanto, que a orientou), tudo se tornará muito e muito difícil. Esse entorno não abrange um universo em expansão, mas é dado pela própria Natureza das coisas e dos Homens, obedece a limites que identificam e classificam o indivíduo como um de alguns entre todos nesse universo, limites nos quais se encontra tudo aquilo de que necessariamente a vida do indivíduo depende, aos quais o indivíduo deve procurar adaptar-se sem pretender criar regras universais que pudessem ser impostas ao mundo inteiro; são limites estritamente humanos, portanto, também culturais, também políticos, nos quais o indivíduo em seus próprios limites se identifica, se organiza e pode e deve participar em situação de igualdade aos demais, limites nos quais o indivíduo deve procurar fazer, da melhor forma, o melhor para todos os que reconhece como seus semelhantes. Nesses limites, políticos, racionais, naquele mesmo registro, político, racional, nos quais uma identidade de propósitos possa manifestar-se, poderá ser encontrada a tal fraternidade que a Revolução Francesa tentou proclamar. 

 

      Apelar aos “princípios” de liberdade e igualdade para tentar justificar ou mesmo para explicar o tumulto provocado por bandos organizados por anarcóides que, para mostrar que “existem”, invadem os espaços públicos onde a permissão de freqüência exige do comportamento individual a obediência a certos protocolos não só formais como legais, é pura demagogia. Nada mais. Que, esta sim, a demagogia, também servirá um bocado a uma “excelente reflexão sociológica”.

 

      Aliás, para quem gosta de Sociologia, o demagogo não é exatamente um “tipo ideal” e a demagogia será um prato cheio de realidade…

 

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      Muito bem. Grande parte da Imprensa, grupo de interesse político e comercial que idiota não é, nem foge dos seus objetivos, convenceu-se de que terá todo o direito de fugir dos fatosProvavelmente considerando que certos sinistros são muito medíocres, e irritando-se com isso, convenceu-se também de que terá todo o direito de inventar passarinhos engaiolados que morrem cantando enquanto o nosso pardieiro nacional é lambido pelas chamas desencadeadas por incendiários. Convenceu-se de que o povo só gosta desse tipo de notícia. Dramática. Convenceu-se de que o povo gosta principalmente desse tipo de imagem. Muito dramática. Elas emocionam multidões e vendem-se por si mesmas. E convenceu-se de que, nas classes A, B, C ou Z, ler ou não ler será um detalhe insignificante. De acordo com o que nos diz Nelson Rodrigues, esse convencimento é bastante antigo. E parcela dele talvez tenha origem e, com certeza, tem apoio nos fatos. Alguns fatos merecem e sempre mereceram ser observados pela Imprensa. Outros não.      

 

      Grande parte da Imprensa pensa e age de forma muito semelhante no mundo inteiro. Já as sociedades hoje encontradas no mundo inteiro são estruturadas e, sejam socialistas ou liberais, nelas haverá quem mande e haverá quem obedeça. O que permite ou até obriga a que alguns consumam mais e outros consumam menos. E faz, de todas elas, “sociedades de classes”. Sendo avaliadas subjetivamente, umas poderão parecer mais justas que outras. Sendo avaliado subjetivamente, um estado de liberdade e igualdade poderá ser definido como sendo aquele em que todos fazem “turismo” onde queiram, no momento em que bem entendam. Sendo avaliada subjetivamente, a sensação de felicidade poderá ser definida como dependente do poder de consumo. Os indivíduos apontados como pertencentes à classe C no território brasileiro, aqueles que compõem, segundo Rousseff, a “nova classe média”, induzidos ao consumo pelos incentivos governamentais publicados com alarde na Imprensa, terão um “inalienável” direito de exercer sua liberdade e de buscar a sua felicidade em condições de igualdade com todos os demais. Isso talvez nem mereça discussão. Se essas condições se limitam ao poder de consumo e se as questões nacionais a elas se resumem, tudo bem, ampliem-se as oportunidades de consumo da classe C garantindo-lhe postos de trabalho, administrando-se bem administrada a economia, e arreganhem-se as portas dos centros comerciais – mas não se entenderá por que não deva haver preocupação com a segurança de todos, independentemente de classe social de cada um, que não apenas economicamente se define, não só nos espaços públicos como nos espaços privados.

 

      Quanto a concluir e declarar publicamente que os “rolezinhos” devam ser desejados pelo comércio porque poderão demonstrar o poder de consumo potencial da classe C, tal como conclui e declara o presidente do Instituto Data Popular em entrevista publicada na BBC, bem, para isso será preciso um pouco mais de “sofisticação” ideológica – é preciso treinar muito, para fazer-se de muito idiota, e, ao mesmo tempo, considerar o público minimamente leitor muito idiota, pois é tentar convencê-lo de que não existe diferença alguma entre um indivíduo consumidor, um grupo inocente de seis ou meia dúzia que nada pretenda consumir, pretenda apenas ostentar e divertir-se, e um bando industriado de centenas (ou milhares) de indivíduos que só tenha por intenção promover a desordem e, a pretexto de exercer os seus direitos individuais, subjetivos, agredir o direito objetivo dos demais indivíduos. Ou seja, é preciso ser muito demagogo ou, tal como grande parte da Imprensa, estar a serviço da demagogia.

 

      A demagogia, esta, sim, servirá um bocado a uma “excelente reflexão sociológica”. Aliás, para quem gosta de Sociologia, o demagogo não é exatamente um “tipo ideal” e a demagogia será um prato cheio de realidade… E só um idiota pretenderia que a Sociologia desprezasse os fatos e limitasse seu objeto às subjetividades. Isso é muita idiotice. É idiotice em excesso. É mediocridade em excesso. Ou é excessiva demagogia. Não é, não? 

 

 

 

  

  

 

 

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