Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

"… os entrevistados deveriam apontar os gentílicos e expressões com os quais mais se identificavam. A principal resposta foi "brasileiro" (79%) … Para os autores da pesquisa, os resultados comprovam, com dados de opinião pública, o que historiadores e cientistas sociais já apontavam: a autoidentificação do brasileiro é tênue e ambivalente…" – http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2015/12/21/brasileiro-despreza-identidade-latina-mas-quer-lideranca-regional-aponta-pesquisa.htm

 

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      Tal como nos apresentamos, nós nos identificamos: somos brasileiros! Tênue e ambivalente será a auto-identificação dos canalhas!

 

      E eis aí a prova contundente e definitiva de que não somos tão imbecis nem tão canalhas quanto parecemos ser – ou quanto os meios de comunicação, assim como os nossos ditos "centros de excelência em ensino e pesquisa", induzem o mundo e nos induzem a crer.

 

      Eis aí a prova contundente e definitiva de que somos uma Nação, uma única Nação, uma Nação inteligente, capaz, orgulhosa, valente, mal orientada, mas ansiosa por dar ao Brasil a projeção que desde sempre lhe foi destinada pela própria Natureza e que lhe continua reservada.

 

      O que nos indica que, apesar da política de terra arrasada adotada nos últimos 30 anos por tantos governos demagógicos e por tantos 'historiadores e cientistas sociais politicamente corretos", ideologicamente comprometidos com tudo o que nosso possa não ser, alguma chance de sair desse buraco em que nos meteram ainda acena em nosso horizonte.

 

      Sinceramente? O conteúdo dessa reportagem foi o meu presente de fim de ano! Sinto-me plenamente gratificada, plenamente satisfeita! Muito obrigada, Nação brasileira! Muito obrigada por me confirmar que nós existimos em nossa identidade singular e que eu não estou só!

 

      Sabendo disso, qualquer um agüenta qualquer tranco!

 

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Brasileiro despreza identidade latina, mas quer liderança regional, aponta pesquisa

BBC Thiago Guimarães –  Da BBC Brasil em Londres  – 21/12/2015

      Uma pesquisa inédita de opinião pública confirmou o que a história e o senso comum já sugeriam: o brasileiro despreza a América Latina, mas ao mesmo tempo se vê como líder nato da região.  Apenas 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos, ante uma média de 43% em outros seis países latinos (Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru).  E mais: quem mora no Brasil avalia que o país seria o melhor representante da América Latina no Conselho de Segurança da ONU, mas não quer livre trânsito de latinos por suas fronteiras nem priorizar a região na política externa.  Os resultados estão na edição 2014/2015 do projeto The Americas and the World: Public Opinion and Foreign Policy (As Américas e o Mundo: Opinião Pública e Política Externa), coordenado pelo Centro de Investigação e Docência em Economia (Cide) do México, em colaboração com universidades da região.

      No Brasil, o responsável pela iniciativa é o Instituto de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo), que aplicou 1.881 questionários no país.  Em uma das questões, os entrevistados deveriam apontar os gentílicos e expressões com os quais mais se identificavam. A principal resposta foi "brasileiro" (79%), seguida por "cidadão do mundo" (13%), "latino-americano" (4%) e "sul-americano" (1%).  

      O Brasil foi o único entre os sete países da pesquisa em que o adjetivo pátrio ficou entre as três principais opções dos entrevistados.  Argentinos, chilenos, colombianos, equatorianos e peruanos indicaram "latino-americano", "sul-americano" e "cidadão do mundo". E a segunda e terceira opção dos mexicanos depois de "latino-americano" foram, respectivamente, "cidadão do mundo" e "norte-americano".  O estudo também fez a seguinte questão aos participantes: em qual região do mundo seu país deve prestar mais atenção?  Na mesma linha do item sobre identidade, o Brasil foi o único na pesquisa a não priorizar a América Latina. Na opinião dos entrevistados, o foco da política externa deve ser a África (24%), depois América Latina (16%), seguida de perto por Europa (13%) e América do Norte (9,5%).

      Nos outros países a opção pela América Latina predominou, com percentuais de 57% (Argentina) a 30% (Chile e Peru).

      Autoidentificação ambivalente – Para os autores da pesquisa, os resultados comprovam, com dados de opinião pública, o que historiadores e cientistas sociais já apontavam: a autoidentificação do brasileiro é tênue e ambivalente, marcada pela percepção de pertencer a uma nação diferente dos vizinhos, seja pela experiência colonial, língua ou processo de independência distinto.  "A primeira explicação é a colonização. América Latina sempre se associou à colonização espanhola, e isso já gera uma divisão com o passado português do Brasil", afirma o argentino Fernando Mourón, pesquisador do Centro de Estudo das Negociações Internacionais da USP e participante do estudo regional.  "Depois temos os processos de independência na região. Na América espanhola houve guerras contra a Coroa e o reforço de uma identidade cultural única, enquanto no Brasil o próprio regente português declarou a independência."  A economia por muito tempo fechada aos vizinhos, a geografia continental que dificulta conexões físicas e o histórico diplomático também ajudam a explicar o "isolamento" brasileiro, avalia Mourón.  Sobre esse último ponto, em artigo ainda inédito sobre os resultados do estudo, Mourón e os colegas da USP Janina Onuki e Francisco Urdinez lembram que até o final da Guerra Fria diplomatas brasileiros acreditavam que a melhor estratégia para aprimorar a inserção internacional do país era manter distância de questões regionais.  "Uma das consequências foi que, até a metade dos anos 1980, as elites brasileiras e a população em geral viram a América Latina não como construção maior de identidade coletiva, mas apenas como a paisagem geográfica imediata em torno do país", escrevem os autores.

      Liderança contraditória – Ao analisar os dados da amostra, que é representativa de toda a população dos países analisados, os pesquisadores concluem que os brasileiros enxergam seu país como líder regional, mas em geral resistem a possíveis implicações de assumir tal posição.  Questionados sobre qual país deveria assumir uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU caso o órgão abrisse uma vaga para a América Latina, por exemplo, a maioria dos brasileiros (66%) indicou o próprio país.  O Brasil também foi a primeira opção dos entrevistados nos demais países do estudo, exceto as outras duas maiores economias, Argentina e México, onde os moradores também "elegeram" seus próprios países, com 60% e 54%, respectivamente.  Por outro lado, a maioria dos brasileiros (54%) discorda do livre movimento de pessoas na região sem controles fronteiriços. A maior fatia dos entrevistados também se opõe ao trabalho de sul-americanos no país sem visto (66%) e rejeita (65%) a possibilidade de intervenção brasileira em uma possível crise militar regional.  Quando o assunto é a "liderança pela carteira", ou seja, a ajuda financeira a países menos desenvolvidos da região, 65% dos entrevistados no Brasil disseram concordar com essa possibilidade.  Mas o índice do Brasil nesse item foi o menor de todos os países, e ademais os pesquisadores alertam que os altos índices nas respostas podem estar relacionados à tendência – identificada nos estudos de opinião pública – de participantes a responder perguntas de fundo moral baseados no que pensam ser algo social e politicamente correto.

      Problemas na vizinhança – A partir do governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), a ênfase da diplomacia brasileira na integração regional, como foco na América do Sul, expõe o reconhecimento tácito da dificuldade do país em exercer influência em todo o "continente" latino, avaliam Mourón e os pesquisadores do Instituto de Relações Internacionais da USP.  Mas em geral, quando o assunto é opinião pública no Brasil, a América Latina é vista mais como preocupação e problema do que benefício, conclui o estudo.  Percepção que, afirma Mourón, acaba tendo respaldo na realidade, diante da série de percalços que o país enfrentou na última década com os vizinhos, como o episódio da nacionalização dos ativos da Petrobras na Bolívia, a expulsão da Odebrecht do Equador, as barreiras de comércio entre Brasil e Argentina e a frustrada sociedade com a Venezuela na construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2015/12/21/brasileiro-despreza-identidade-latina-mas-quer-lideranca-regional-aponta-pesquisa.htm

 

 

 

 

  

  

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

       Perdoem-me os que considerarem que esse meu texto está meio desalinhavado. Costumo ser mais cuidadosa. Vou soltá-lo mesmo assim a quem por sua leitura puder se interessar porque as questões que nele levando me ardem o cérebro, porque ele já me queima nas mãos e porque não param de acontecer e de se avolumar fatos e mais fatos que mais poderiam ser nele incluídos sem desvirtuá-lo. Portanto, dou-o por terminado, acreditando sinceramente que ele reúna suficientes razões e estímulo à reflexão muito mais a respeito do processo insano de autodestruição em que nos metemos por absoluta ignorância das questões políticas mais básicas – que sempre orientam as opções econômicas e, principalmente, as opções eleitorais – do que do momento que estamos atravessando. Compreender esse processo, creio, ou tentar compreendê-lo de forma ampla e concatenada, pelo menos a partir de dado momento, há algumas décadas, em que ele aparentava apresentar condições para que fosse interrompido, é muito mais importante que analisar o momento que, ao que tudo nos indica, só tenderá a se agravar. Esse momento é nada mais que parte, é nada mais que continuidade do mesmo processo. Que nos vem prometendo não permitir que algo de nós se mantenha minimamente íntegro.

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"95% de uma liderança é um dispositivo audiovisual; 95% de uma campanha eleitoral é um dispositivo audiovisual e 95% do que pode dizer uma organização política é também um dispositivo audiovisual. Muito mais importante do que as propostas e de que um eventual desenho de um programa de governo alternativo é o discurso" – Pablo Manuel Iglesias Turrion, cientista político, Secretário-geral do “Podemos”, partido político espanhol

 http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/08/1675334-alvo-de-esquerda-e-direita-podemos-enfrenta-eleicoes-gerais-na-espanha.shtml

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      É fato, e fato indiscutível é, que um discurso proferido no idioma castelhano – que alguém resolveu chamar de “espanhol” apesar de que Espanha reúna em seu território diferentes idiomas co-oficiais – será, por certo, muito bonito, sonoro, solene, elegante, empolgante, muito embora o sotaque de algumas regiões nos possa parecer meio meloso demais, choroso demais… O idioma castelhano vai bem com um bolero, com um tango, tem o dom de nos despertar emoções. Em prosa e em versos. Aliás, com facilidade, qualquer coisa de qualquer natureza que nele seja dita ganha tons de um belo dramalhão, de consideráveis proporções, bem capaz de comover as pedras e levá-las às lágrimas – basta que seja dita com essa intenção. Os povos que por meio dele se comunicam, não apenas mas também os nossos vizinhos, vistas as coisas tal como elas estão, talvez não saibam tanto de Política quanto alguns de nós e alguns deles mesmos possam supor; mas sabem escrever muito, sabem falar muito, cantar um bocado, músicas que nós vamos aprendendo a cantar, sabem um bocado de rimas, que nós vamos querendo decorar, e sabem um bocado de… guerra civil. Sabem tudo isso na ponta da língua. Muitos indivíduos não se constrangem com bater livremente com a língua nos dentes enumerando a quantidade de razões para que, nos países situados ao Sul do continente americano – que, por decreto não sei de que rei ou vassalo, um belo dia passaram a ser considerados todos iguais – haja conflitos semelhantes ao que a mesma matriz Espanha, por exemplo, experimentou (“recentemente” ou “no século passado”, como preferirem), cujos horrores os politicamente corretos ainda cultivam na memória e da boca pra fora – porque os mortos, assim como os vivos, não são todos iguais e somente será politicamente correto cultivar a razão de alguns vivos e a memória de alguns mortos privilegiados, não de todos. Se não encontram razões suficientes, produzem-nas – em verso e em prosa. É possível até que já haja um manual que ensine a produzi-las, que nós nem nos preocupamos com traduzir – recitamos em “portunhol”. E, assim, como que por encanto, foi que surgiram em nosso território, por exemplo, o “índio” e o “negro” que seriam a “nossa maioria marginalizada” – tal como o são no Caribe e em algumas partes do território americano mais ao Sul, de colonização espanhola -, assim surgiram as “nossas ditaduras sanguinárias” que desde sempre teriam segregado essa maioria e a tratado como “escrava”, surgiu a “nossa elite branca racista” e tantas outras surpresas mais.

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      Tudo bem. O caso é que cada povo diz e faz o que lhe dá na telha dizer e fazer, cada povo ouve os palpites a seu próprio respeito como pertinentes ou não, cada povo respeita sua origem e sua história ou não, e aceita fazer ou não o que outros povos lhe sugerem que faça.

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      O idioma castelhano é muito bonito, de fato, é sonoro, é solene, é elegante, é até o idioma em que o Papa aprendeu a falar, imaginem!  Mas não é o nosso idioma. A lógica do idioma castelhano não é exatamente a nossa lógica e cada vez mais isso se vem demonstrando. Nós falamos Português, nós pensamos em Português, bem mais rico que o Castelhano, porém áspero, rude, objetivo, cru, mesmo em seus sotaques regionais mais arrastados. E as guerras civis (sim, que tivemos oportunidade de conhecê-las) não estão em nossa memória. Nem o nome de seus mortos, nem os seus horrores estarão na ponta de nossa língua. Para compensar esse “deslize” ou esse “defeito”, alguns de nós, que conosco muito pouco se identificam, fazem questão de insistir em um estranho composto de 5% de fatos mais 95% de dispositivo audiovisual que nos diz das aventuras e dos infortúnios de “ex”-terroristas que seriam muito bem-intencionados e teriam sido martirizados, aventuras e infortúnios que puderam ser observados “recentemente” ou “no século passado”, como preferirem; desencavam das profundezas da insignificância os nomes de meia dúzia de revoltados com os quais a nossa História de fato não se incomodou nem com eles se alterou, pretendendo que isso e nada mais que isso se transforme em nossa História oficial. E os “horrores da nossa guerra civil” passam a colocar-se da boca pra fora de muitos brasileiros. Enquanto alguns outros preocupam-se com mutilar e maquiar convenientemente a realidade atual, justificando ou desculpando com uma mesma cantilena as providências estapafúrdias a que nos submetemos nos últimos 30 anos, como se o único resultado disso não fosse apenas o progressivo agravamento da ignorância da população a respeito de seus problemas, os desde sempre encruados e os novos. Alienada a população, elimina-se o risco de que surja alguma pergunta fora do roteiro. Como nos ensina uma vinheta da Globo News, “perguntas erradas não encontram respostas corretas”… ou mais ou menos isso.

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      Em nosso idioma áspero, rude, cru, embora belíssimo, muitíssimo rico e de uma lógica a toda prova, o que entope nossos ouvidos e nossas vistas – agora bem mais flexíveis porque já acostumados a ver figurinhas “latino-americanas” e a ouvir as histórias contadas em Castelhano como se fossem “nossas” – além de não-verdadeiro, grosseiramente articulado, incoerente, mal acabado, de um mau-gosto extraordinário, repercutirá como sendo muito e muito estúpido em quaisquer cérebros minimamente bem formados e muito mais preocupados com que fazer para que tenhamos algum futuro do que com erguer memoriais faraônicos, materiais ou virtuais, a quem com nada contribuiu para nosso bem comum. Cérebros que não se conformarão, em absoluto, com que essas imagens e esse discurso possam ser considerados mais importantes do que as propostas eventualmente feitas pelos políticos e do que um programa de qualquer governo.

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      Perante a desordem que se promove em todos os campos da atividade nacional, o discurso dos nossos que se dizem “oposição” a um governo absolutamente alucinado é revoltado e feroz, tanto quanto o discurso daqueles que se mantinham, até bem recentemente, adeptos da “situação” – e as razões de ambos coincidem, item por item – são o caos que os últimos governos se empenharam em produzir. O caos especialmente mental. O que nos leva a concluir que ambos são, no mínimo, hipócritas. Dois elementos poderiam diferenciar o discurso de uma oposição que de fato fosse oposição à situação – o asco explícito ao que vem sendo produzido nos últimos tempos na Política (nos últimos 30 longos anos) e um projeto alternativo. Nenhum desses dois elementos se encontra no discurso da “oposição”. E, mesmo se nos restringirmos às histórias bem ou mal contadas em nossa própria língua, muito pouca coisa ainda será possível dizer a respeito da Política nacional uma vez que tudo já foi dito e por diversas vezes foi redito. Dito e redito de um lado para o outro, de cima para baixo, de baixo para cima, pelo direito e pelo avesso. Muito pouca coisa será ainda possível prever que já não tenha sido prevista. Não há muitos novos personagens nessas histórias todas que, com os que conhecemos pelo menos desde o começo da última metade do século XX, possam disputar espaço, e os de sempre, muito bem plantados e regados com a eterna esperança de uma população, também desde sempre alienada, de que algo novo e radiante a venha salvar de si mesma, não terão objetivos diferentes daqueles que sempre tiveram, nem seguem em direções diferentes das em que desde sempre se mantiveram. O país vai levando a breca, a olhos vistos, e ninguém encontra uma solução a lhe propor. Os discursos são todos estúpidos. E, numa dessas, este aqui, que faço eu, também é, pois nada mais estúpido que tentar pregar no deserto. Enfim, tudo bem.

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      Mas não é que sejamos todos estúpidos. Não somos. Há, sim, vida inteligente nesse nosso País. Mas, no geral, não aprendemos ainda a acreditar em evidências e, mais importante, em que evidências são muito mais poderosas que qualquer fantasia audiovisual. Ou talvez invejemos as narrativas dos vizinhos e nossas evidências nos pareçam muito sem-graça, e mais interessante nos parecerá desconsiderá-las. Nesse pastiche mal-acabado de “crônica de uma morte anunciada”, que por acaso é o título de uma obra produzida em castelhano, todos sabem de antemão quem nos desonrou e prossegue desonrando, não há nisso mistério algum, e, se de alguma morte iminente poderíamos já estar sabendo, essa morte é a nossa, não será a daqueles que continuamos a proteger até de pés juntos com nossa omissão cotidiana.

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’Se o Brasil fosse um paciente internado, os médicos do pronto-socorro o diagnosticariam como doente terminal’, diz o jornal britânico ‘Financial Times’. ‘Os rins já pararam; o coração vai em breve’ – segundo a publicação, a avaliação é de um senador do Partido dos Trabalhadores (PT).

http://g1.globo.com/economia/noticia/2015/09/brasil-e-doente-em-estado-terminal-diz-financial-times.html

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      É mais que evidente que o nosso País está profundamente doente, não faz falta o PT ou Financial Times ou qualquer observador nacional ou internacional não comprometido nos avisar disso. Ele está doente porque nós estamos insanos. Com as defesas comprometidas, o País adquiriu um vírus que o impede de reorganizar seu sistema vital, e, privado de consciência, não encontra forças para reagir adequadamente. Pior – a doença não é nova, é reincidente, é uma recaída. Portanto, o vírus vem sendo modificado, torna-se cada vez mais resistente. A população, visivelmente cansada, enfastiada de tudo, sem qualquer objetivo determinado exceto os vagos apelos a um mais que tradicional “abaixo a carestia e a corrupção”, arrasta-se pelas ruas em um Carnaval fora de hora que terminará, bem sabemos, em uma Terça-feira gorda, tendo à frente apenas uma Quarta-feira de Cinzas. Ou há, em nosso horizonte, algo diferente, mais consistente e mais promissor?

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      Nos últimos dias, muitos, mais de um milhão de pessoas, assinaram um manifesto em prol do impeachment de Rousseff. Que também assinei, e expliquei bem explicado por que o fazia, mesmo sem saber para quem ou para que explicava (1), da mesma forma como não sei para quem ou para que ainda escrevo isso que escrevo agora. Durante a campanha para as últimas eleições, era evidente que o voto no candidato adversário se fazia necessário não porque o indivíduo fosse qualquer Dom Sebastião e nos trouxesse a salvação nacional, mas porque sua eleição nos daria algum tempo para respirar e para tentar articular um projeto político que nos orientasse as expectativas e as ações em algum sentido minimamente sadio. Rousseff foi eleita tal como foi, ampara-se na “legitimidade do voto popular” para agarrar-se ao poder, e o campeonato de cuspe à distância continua no Congresso e nas ruas – palavras em frases sem qualquer coerência são arremessadas, obedecendo às mesmas razões torpes que vêm caracterizando os discursos nos últimos tempos, um campeonato que mobiliza torcidas absolutamente desarvoradas auto-intituladas “guerreiras”, que se crêem verdadeiros “exércitos” mobilizados, sem qualquer organização ou objetivo de fato estratégico, cuja única finalidade é garantir a condução, a permanência ou o afastamento de certos nomes das funções e dos cargos de poder. Como esses nomes são os de indivíduos que tiveram uma mesma cuna e uma mesma escola, nenhuma idéia alternativa, nenhum projeto alternativo se põe em discussão, muito menos se põe em jogo, e nenhum problema é sanado. Pelo contrário, os problemas são apenas agravados.

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      Nomes são nomes. Idéias são idéias. Inimigos são inimigos. Exércitos são Exércitos. Guerras são guerras. Idéias afins promovem simpatias, amizades e cumplicidade; apenas idéias conflitantes e, portanto, atitudes conflitantes e objetivos conflitantes são capazes de promover um confronto e uma inimizade. Uma inimizade não será mera antipatia, um inimigo não será um eventual adversário, será um indivíduo cujas idéias e objetivos, caso se concretizem, são capazes de nos fazer sérios danos. Se não reconhecermos um inimigo como um inimigo, estaremos arriscando nossos valores materiais e imateriais, nosso futuro, nossa própria vida e a dos nossos. Inimigos devem ser neutralizados, com inimigos mantemos conflitos, não cedemos colaboração, inimigos nos ameaçam, dos inimigos nos protegemos, dos inimigos nos defendemos, contra inimigos lutamos, os inimigos combatemos ou… os tais “inimigos” não serão inimigos – serão “parceiros” de jogos. Somente contra inimigos armam-se os verdadeiros guerreiros, compõem-se as verdadeiras e constantes estratégias conflitantes, só entre inimigos poderá haver algum conflito e será possível travar-se uma guerra, mas nenhuma guerra ver-se-á entre eventuais “adversários” políticos, comerciais, esportivos etc. Para que haja uma guerra, portanto, será necessário que haja inimigos e estes sejam reconhecidos enquanto tal. E enfrentar uma guerra significa fazer uso da violência. Se não encontramos inimigos, não pensamos em guerras. E, se não há guerras, não há razão para que nos preparemos para guerras. Nem há razão para que reconheçamos guerreiros. Muito menos “guerreiros”.

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A gente encarna uma referência de valores da qual a sociedade está carente. Não tenho dúvida. A sociedade esgarçou seus valores, essa coisa se perdeu. Essa é a principal motivação de quererem a volta dos militares. Mas nós estamos preocupados em definirmos para nós a manutenção da estabilidade, mantendo equidistância de todos os atores. Somos uma instituição de Estado… Uma instituição de Estado tem de atuar absolutamente respaldada pelas normas em todos os níveis.–  Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, Comandante do Exército

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica-brasil-economia/63,65,63,14/2015/09/27/internas_polbraeco,500267/

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      A razão da existência de Soldados em uma Sociedade é a existência de inimigos reais dessa Sociedade. Soldados de verdade sabem, por dever de ofício, o que é uma guerra de verdade. Soldados são preparados para o combate e para evitar a morte de civis, assim como para evitar o maior número de baixas em suas tropas. E não são Soldados os que detonam qualquer guerra. Eles apenas respondem ao apelo de civis, em geral aqueles que representam a população no Estado, aqueles que pela população são considerados lideranças políticas e intelectuais, que percebem com mais agilidade que o Estado se encontra ameaçado. Soldados de verdade armam-se contra as ameaças e as ações do inimigo, para contê-las ou desencorajá-las. Para qualquer Exército bem formado, os inimigos não serão sempre os mesmos, nem sempre agirão ao mesmo tempo e da mesma forma, mas os valores, os bens e as vidas eventualmente ameaçados serão, sim, sempre os mesmos – aqueles valores, aqueles bens e aquelas vidas que compõem a Sociedade nacional que se articula em um Estado nacional que é a razão dos seus Exércitos. Em defesa deles, do Estado e da Sociedade, os Soldados se mobilizam. E enfrentam qualquer guerra, sob quaisquer condições. É sua função, é a sua missão.

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      Já os civis, em geral, considerados, a troco de que ninguém sabe, como inocentes e inofensivos, gostam de viver amparados na ordem e de assistir ao progresso da civilização de camarote, embora teórica e eventualmente possam acreditar, por ignorância, que a desordem seja um apoio válido a um combate ao retrocesso. Civis, em geral, não têm muita idéia do que seja uma guerra, nem convencional, nem de guerrilha, muito menos de propaganda. Por mais que haja filmes e livros que transformam algumas cenas domésticas em tristes tempos de guerra ou algumas cenas contundentes em campo de batalha em verdadeiras obras de arte, civis em geral sabem, também pelos livros e pelos filmes, que nenhuma guerra será, na realidade, bonita – todas elas são feias, são horríveis, trazem consigo privações, sofrimento e morte, são “desumanas”, apesar de que todas elas sejam causadas pelas ações humanas que trazem consigo privações, sofrimento e morte, não por outro motivo qualquer. Saber que uma guerra é feia já bastará, em geral, aos civis, e, em geral, pouco lhes importarão as razões de qualquer guerra. E não apenas civis estetas, bem equilibrados, bem centrados, bem pensantes, buscarão, em geral, evitar guerras, e, nem sempre por ética, muitas vezes por pura estética, buscarão contornar os motivos que a possam deflagrar. Soldados bem equilibrados, que são gente como a gente, que também muito gostam da vida, também buscarão o mesmo, e da mesma forma agirão os governos bem eleitos e exercidos por indivíduos bem equilibrados.

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      Civis, em geral, são bem-humorados, são alegres, são “da paz”, embora, também em geral, não tenham a mais mínima idéia do que seja de fato necessário para que uma sempre relativa paz – uma relativa estabilidade – seja alcançada. Civis, em geral, não são capazes de avaliar o que possa estar em risco e o tamanho desse risco, porque, em geral, não têm muita noção da complexidade daquilo pelo que deveriam ser responsáveis, mas são suscetíveis à propaganda que se faz do que possa estar em risco e do tamanho desse risco. À falta dessa propaganda, mesmo que se vejam atropelados por iniciativas violentas do inimigo ou por sintomas de que algo muito parecido é iminente, civis, em geral, têm uma tendência a ignorar esses sintomas, a contemporizar, a tolerá-los, acreditando ou fingindo acreditar que somente os violentos terão inimigos violentos, que tratar a violência com violência terá como resultado apenas manter ou fazer crescer o número de inimigos violentos, alguns chegando até mesmo a propor que apenas os que combatem a violência com violência, e somente esses, devam ser rigorosamente punidos.

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      Do que se conclui que, por vezes, será possível ou até mesmo fácil defender um território e sua gente. Por vezes, não. E que, por vezes, será possível enfrentar uma guerra. Assim como, por vezes, será impossível não enfrentá-la e enfrentar suas conseqüências. Tudo depende da gravidade e da violência da ameaça que deverá ser resolvida e da consciência que civis e, especialmente, Soldados tenham dessa ameaça. Manter a estabilidade não é desculpa válida para que um inimigo não seja tratado como um inimigo.

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      E uma guerra não é uma aventura. Muito embora aventureiros façam ou estimulem guerras por mera aventura. Aventuras são aventuras, exigem certa dose de inconseqüência, pouco importam ao aventureiro o imprevisto, o risco, a incerteza do desfecho, porque a aventura o satisfaz por ser… uma aventura, ora! O aventureiro, mesmo em grupo, é um solitário. Ao aventureiro, basta-lhe a coragem. Ou o sonho, o desejo e a irresponsabilidade. O aventureiro age por estímulo e por conta próprios, e joga com sua própria sorte, embora, por vezes, envolva muita gente em suas aventuras. Já enfrentar uma guerra contra o inimigo reconhecido, além de coragem, exige conhecimento, exige discernimento, exige desprendimento, exige considerar valores coletivos como sendo mais sagrados que a própria vida individual. Só Soldados enfrentam uma guerra. Por dever de ofício, não por qualquer prazer. Para que a Sociedade possa defender seu Estado de seus inimigos sem correr o risco de vê-lo destruído e de ver-se subordinada. Soldados não são aventureiros, são Soldados, têm consciência de que têm uma missão conferida pelo Estado – que somos nós, todos nós, os nacionais de um território político, não qualquer governo. Civis que se engajam em uma guerra de defesa nacional, civis em armas, estejam ou não uniformizados, serão Soldados e como Soldados devem ser vistos. Já Soldados que se mantêm eqüidistantes entre a Nação que representam e seus inimigos não serão Soldados. Serão funcionários de um governo, serão burocratas fardados.

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guerra é guerra … Nossas armas estão na luta popular e saberemos fazê-la." Jandira Feghali (PCdoB-RJ) 

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/09/1682202-deputados-batem-boca-em-discussao-sobre-impeachment-na-camara.shtml

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       Quem conhece a História sabe que a ameaça que o Brasil enfrentou nas décadas de 60-70/XX, da qual muito pouca gente tomou conhecimento, estava nas ruas, para que quem quisesse as visse, embora tenha sido enfrentada por ações decididas tendo por base as informações obtidas nos bastidores (ou nos "porões", como alguns poetas preferem chamar). E bem sabe que quem combatia essa ameaça não combatia a Sociedade brasileira – combatia indivíduos inimigos da Sociedade brasileira, tal como hoje eles mesmos comprovam terem sido desde sempre. Esse combate permitiu o que a chamada “abertura política” encontrou na década de 80 – um PIB que permitiu que o Brasil saltasse da 45ª à 8ª posição na tabela dos jogos econômicos mundiais. O resultado da crise do petróleo e das alterações das anteriores condições oferecidas pelo sistema financeiro internacional levaram à execração pública quem havia acreditado na relativa estabilidade dessas condições (não exatamente apostasse, como recentemente se viu, em que o petróleo como mercadoria manteria um valor imutável e crescente por todos os próximos séculos) e, na ansiedade de encontrar meios para que o País solucionasse alguns de seus sérios problemas estruturais, e se projetasse soberano, havia sido talvez imprudente. Aliás, é bom lembrar: a Economia nacional nunca esteve atada às mãos dos Soldados. Nas mãos e no pensamento destes estava um projeto de futuro para o País, um projeto nacional em que a Economia era um dos fatores.  

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      Já quem sofria de sérios problemas psiquiátricos continuou padecendo deles. Nenhum Soldado seria capaz de dar um jeito nisso… Os Soldados apenas souberam, com muita arte e muito engenho, não envolver o grosso da população na tarefa de controlar os terroristas que contrariavam a expectativa social – entre os quais aqueles que, não por acaso, mas por pura “contemplação” dos que se julgam muito bem-pensantes, hoje estão no poder. Esse foi um grande mérito e, ao mesmo tempo, o maior erro daqueles todos que eram responsáveis pela Inteligência de nosso Estado (além daquele de, passados alguns anos, terem imaginado que o perigo que combatiam havia sido definitivamente afastado). Porque, uma vez isolada do combate, no geral, a população civil, ela pôde acreditar com “pureza d’alma” que sua presumida “inocência” teria sido maculada por iniciativa de homens muito maus, e quem disse afirmava querer proteger os “inocentes” em sua “inocência” pôde permanecer ou entrar de sola na Política; ninguém alcançou a dimensão daquilo que nos ameaçava, muitos puderam nem sequer acreditar que havia uma ameaça de fato, e ninguém entendeu o que acontecia. Porque a ninguém interessava preocupar-se com entender coisa alguma, desde que Economia funcionasse.

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      Hoje, essa ameaça não mais se resume aos limites de uma mera ameaça, e seus contornos nos parecem mais claros e mais presentes – sabemos todos das invasões no campo, sabemos da criminalidade consentida nas cidades, sabemos do caráter e das intenções dos que se reúnem no tal “Foro de São Paulo”, sabemos da podridão em nossas Instituições, que vêm sendo corroídas desde dentro, e tentamos, todos os que temos, mínima que seja, alguma noção de que este nosso País precisa manter-se íntegro para que subsista, reagir contra o poder dos marginais infiltrados nelas todas, verificando, a cada dia que passa, que os meios a que temos acesso para efetivar essa reação são capazes de produzir muitos cartazes, muitos discursos e muito rebuliço, mas não se demonstram eficazes ou suficientes para substantivá-la. Os salafrários que foram combatidos no passado hoje estão no poder, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, têm as armas, as canetas e os carimbos nas mãos, têm no bolso, inchado de propinas, o Estado e, portanto, o monopólio da decisão e da violência, não nos apresentam qualquer ambição nacional ou qualquer projeto democrático, porque nunca os tiveram, não têm a mínima idéia da gravidade da crise econômico-financeira que atravessamos ou fazem de conta que não têm porque assim lhes convém e fazem absoluta questão de nos demonstrar isso. Nossos Soldados, que seriam nossa defesa, estão nos quartéis – e nas Escolas – enchendo seus ouvidos com promessas e histórias de uma “resistência democrática” no passado, convencendo-se de que são essenciais à “paz mundial” (!?) e inúteis, supérfluos ou inconvenientes à Política nacional, tentando conciliar, da boca pra fora, neurastenicamente, com ajuda de uma “dialética” tortuosa, o respeito reverencial que deveriam manter por nossos grandes Chefes militares com o atual bom-mocismo que teria deixado aquelas suas preocupações insanas, caducas, após nosso País ter ingressado em uma fantasiosa era de “globalização” e de “pós-modernidade”.

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      Por isso mesmo, ainda há quem considere que quem combateu esses salafrários nas décadas de 60-70/XX deve ser exemplarmente punido. E para muitos, de cérebro mais diminuto que o do recém descoberto ou recém inventado “Homo Naledi”, continua valendo o mito de que, durante o período que muitos cretinos chamam de “ditadura militar”, alguns indivíduos tarados, com o beneplácito de uma administração estritamente militar, perseguiam inocentes idealistas por mero sádico deleite. Tão grave quanto isso será crer que a estabilidade do que está errado, do que vem sendo posto pelo avesso, seja um objetivo nacional correto e deva ser perseguido com a manutenção de eqüidistância de todos os atores políticos.

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      Tudo bem. Cada um, seja um indivíduo, seja um povo inteiro, poderá querer ou não querer ter poder. E acreditará no que quiser acreditar. E qualquer um poderá crer que as Instituições nacionais se manterão sobre suas pernas caso os inimigos do Estado brasileiro não sejam eficientemente combatidos. O triste é ver os responsáveis pelo Estado nacional imaginando que inimigos são personagens de jogos virtuais, que na realidade inimigos não existem, que tudo o que estamos atravessando não passa de um alegre folguedo de moleques travessos circunstancialmente afortunados ou desafortunados…

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O mérito do Podemos foi converter o enfado da população em instrumento político … soube modernizar sua forma de comunicar-se em relação à velha esquerda e seus símbolos antigos, ligados à classe operária … apela à cidadania com mensagens positivas, modernas, transversais … que podem convencer setores amplos da população" – Bibiana Medialdea, da equipe econômica do “PODEMOS”, partido político espanhol 

 http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2015/08/1675334-alvo-de-esquerda-e-direita-podemos-enfrenta-eleicoes-gerais-na-espanha.shtml

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      E assim nos será possível retornar ao discurso do Podemos espanhol, com o qual começamos este texto, e que, se bem lido, nos esclarecerá muita coisa que por aqui anda ainda meio-muito obscura.    

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      Quem conhece a Política e conhece os fatos sabe que, sem um governo que se proponha a recuperar o nosso Estado, nenhuma saída desse enguiço em que nos metemos encontraremos. E saberá também que a Sociedade nacional, no seu conjunto, deveria ter-se preocupado com defender esse Estado para que seu poder não fosse usurpado por salafrários aventureiros, tal como foi. Pois bem. No discurso da “oposição” a tônica não é um governo mínimo – é um Estado mínimo, que submeta-se às iniciativas de grupos privados, que tenha a sua soberania – uma prerrogativa exclusiva dos Estados – acorrentada, que abdique de todas as suas prerrogativas que o definem como um Estado, não como apenas um território em mãos de um governo. Tanto o discurso da “situação” quanto o discurso da “oposição” são discursos “municipais”. Não há quem defenda o Estado nacional. Não há, digamos bem dito, neste nosso País. E apenas nele.

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      Quem bem sabe o que é defesa nos diz que defesa significa “preparação para a guerra em todos os campos da administração, de pessoal, logística, mobilização, informações, comunicações, saúde, evacuação, sepultamento… Complexa na paz, pior na guerra” (2).  Melhor definição impossível. Quem não cuida disso não cuida de defesa. E bem sabe que a defesa do Estado não requer que um governo tenha nas mãos um Ministério da Defesa. Mas requer um Comando. Em 1964, não tínhamos, entre os Ministérios, nenhum especificamente “da Defesa” encarregado de defendê-los, mas o Estado, seus recursos e sua gente foram defendidos, com unhas e dentes, por civis e militares, contra os projetos de integração supranacional da Esquerda. A Sociedade não se ressentiu dos horrores de uma guerra civil nem esperou por ela para que nosso solo se visse ensopado de sangue – que era o que pretendiam os que estavam no poder e dele foram afastados. O chamado “golpe de Estado” se antecipou dando um fim à anarquia vigente. E a iniciativa deu certo. Por algum tempo…

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      Hoje todos sabem do que a Sociedade se livrou naquela época, porque é exatamente o que a Sociedade está enfrentando – só não o sabem os muito “ingênuos”, que ingênuos não são, são apenas voluntária e absolutamente alienados, ou os comprometidos até os ossos, por razões escusas, com o processo atual. Mesmo assim, a inveja compulsiva da produção artística dos países nossos vizinhos a respeito das atrocidades cometidas em suas constantes guerras civis permite que asnices sejam produzidas, que continuem sendo insistentemente repetidas e reelaboradas por poetas, seresteiros e namorados e divulgadas pelos meios de comunicação de massa, entortando de cabo a rabo a nossa História real que “precisa” ser igual à dos vizinhos porque a dos vizinhos é mais… bonita. A velha esquerda modernizou sua forma de comunicar-se, confundiu seus símbolos de classe, apelou a uma “cidadania” sem Estado que a sustente, com mensagens transversais que conseguem convencer muitos indivíduos e amplos setores da população…

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      Verdade é que, se alguns custam um pouco a se enfadar, outros demoram muito a perceber o enfado da população. Consideremos que “enfado” em Castelhano equivale a fúria, ira, e, em Português equivale a tédio, pura e simplesmente… Aqui e ali, percebemos que o discurso do Podemos espanhol – que é muito parecido com o discurso do Syriza grego, que é muito parecido com o do “santo” José Mujica e o de uma Erundina, por exemplo, que, no frigir dos ovos, é nada – vem-se insinuando em vozes ainda vinculadas aos partidos já existentes. Em contrapartida, uma “oposição” acena com utopias libertárias em igual medida, tal como podemos conferir em recomendação feita pelo Instituto Liberal: “Misture-se (…) idéias puras com um discurso flexível. Esta é a fórmula correta para adequar-se ao nosso tempo” (3). Afinal, devemos nos prender às idéias puras ou à flexibilidade? Até que ponto devemos levar a flexibilidade do nosso discurso para que não conflite com nossas idéias puras? A quais idéias puras nos devemos prender? Bastará que nos prendamos à pura idéia de “liberdade”? Que maior substância esse discurso nos apresenta?

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      O discurso a respeito do nada que a nada nos leva não é qualquer novidade, é o discurso correspondente ao pensamento único, e, em nosso território, se ainda não aglutinou em uma mesma única organização todos aqueles que dele se utilizam, talvez isso se deva a uma competição entre as “lideranças intelectuais e populares”, nenhuma delas, tampouco, nova. Aliás, o respeito reverencial que os “revolucionários” de todo o mundo dedicam a “nossos líderes” da “situação” ou da “oposição” é bastante elucidativo. Nova é apenas a terminologia, nova (ou nenhuma) é a sintaxe do discurso, cada vez mais surrealista, que, assim como a velha, não resiste a uma análise minimamente lógica.

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      Ao mesmo tempo, outros expedientes audiovisuais que também mal mascaram a utilização da ortodoxia oca das esquerdas na intenção de que mantenha suavemente a bandidagem demagoga no poder nacional ganham relevância pela mediocridade de tudo aquilo que se auto-intitula “novo”.

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      Foi republicado, por exemplo, em 16/08 último, por ter sido considerado “pertinente trazê-lo novamente” à baila, um texto intitulado dramaticamente “Por que não mataram todos em 1964?” (4). O cronista nos dirá que “…o conhecimento de História não é um [sic] dádiva, mas sim uma maldição. Porque você se torna responsável por dialogar com quem a ignora, por mais impossível que isso pareça ser. Um diálogo paciente e não-violento, na esperança de que entendam que a dignidade humana, construção de milhares de anos dessa História, é uma conquista que deve ser defendida a todo o custo.” Os “libertários” tomaram de assalto nossas Escolas e nossa Imprensa, e isso não é de hoje. E conseguiram formar mais de uma geração de absolutos analfabetos políticos. Só assim se compreende onde e como “um diálogo paciente e não-violento” pôde substituir o discurso inflamado que sempre os caracterizou. E como e por que se crêem no direito de dizer o que bem entendem como se estivessem dizendo para absolutos energúmenos, imaginando que não terão réplica em seus argumentos. Esse lero-lero transcrito acima serve apenas para introduzir o que será dito em seguida: “Como aqui já disse, que os assassinatos sob responsabilidade da ditadura sejam conhecidos e contados nas escolas até entrar nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do [sic] qual desfrutam não foi de mão beijada. Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente.” Convenhamos: em nenhuma hipótese “um diálogo paciente e não violento” combinaria com uma intenção de meter “nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes” fosse lá o que fosse… Mas, sim, o cronista em um certo ponto terá razão: “a dignidade humana” é de fato “uma conquista que deve ser defendida a todo o custo” e a liberdade custou “o sangue, a carne e a saudade de muita gente”. De que gente, exatamente? E por quê?

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      Como as perguntas e as respostas têm objetos muito seletivos e dependem do grau de conhecimento e de inteligência de quem pergunta e de quem responde, a resposta a esse meu último “por quê?” parece não ter qualquer importância para alguns civis bem-letrados e muito bem-intencionados. Assim, as idéias tronchas desse cronista metido a sebo – que não são apenas dele – puderam ser secundadas por outro, que, mesmo nos confessando que não consegue entender certas coisas, tenta nos explicar algumas delas a pretexto nos ensinar a usar o ‘por que’, o ‘por quê’, o ‘porque’ e o ‘porquê’ (5). Realmente, algumas coisas são facilmente compreendidas. Outras, será muito difícil entender. Difícil, por exemplo, será entender como alguém que se pretenda minimamente ilustrado e pretenda nos ensinar alguma coisa possa alegar, tal como este fez, que alguma vez tenhamos experimentado em nosso país um “regime nazista” e assistido, ainda que de longe, a um “extermínio por razões ideológicas”. Quem diz algo parecido faz muita questão de se demonstrar não só estupidamente ignorante como estupidamente burro! Burro ainda mais burro será quem com isso possa concordar por inércia e possa sair repetindo como um idiota. São muitos.

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      E assim nós viemos indo e assim nós vamos indo. E, por decorrência de uma mentalidade mimética que desde sempre esvoaça em nossos ares, ganhamos um Ministério dito “da Defesa” (ainda estou para saber contra quem seria essa defesa inerme e apática; a menos que seja a defesa dos Governos mal eleitos contra a crítica daqueles que os elegeram…), Ministério esse que substituiu os Ministérios militares por iniciativa de um ex-presidente inconseqüente – alguém já conseguiu compreender a dimensão dessa estupidez ou todos continuam “inocentes”? – que nem sequer alguma antipatia manifestou, jamais, em tempo algum, ao projeto canalha de nossa integração política com nossos vizinhos porque desde sempre dependeu do investimento de quem aposta no que sua “extraordinária capacidade intelectual” conseguiu produzir – e quem investe nisso? Quem era responsável pela Defesa até a última reforma ministerial, um civil tão “ex”-guerrilheiro quanto a atual Presidente da República que o nomeou, que, em palanque oficial, deu as costas ao desfile da tropa ativa, foi brindado com um decreto que lhe conferiu prerrogativas antes exclusivas dos Comandantes militares. Corre a voz solta que isso se deu por iniciativa de sua secretária, uma enfermeira que repousa a cabeça no travesseiro colocado ao lado, em uma mesma cama, daquele no qual um “guerreiro” do MST repousa a sua. Corre também a voz solta que “ninguém sabia” que o decreto seria sancionado e lançado sobre as FFAA, que foram tomadas de surpresa. Aliás, dizem os cronistas que nem mesmo a Presidente da República conhecia exatamente o seu teor, muito menos o conheciam os Comandantes militares. É muita gente querendo fazer muita gente de trouxa. Não?

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      Sim, nós temos um belo País, regido por uma Presidente-ostentação eleita pelo voto popular, que promoveu uma reforma em seu Ministério pretendendo conferir ainda mais poderes ao Partido no poder, que inclui um Ministério da Defesa que não se sabe bem ao certo a que serve, no qual havia um Ministro que gosta de música e é simpáticos aos músicos, que agora galga a Ministro-chefe da Casa Civil por presumidos bons serviços prestados, que tinha uma secretária que tem um marido, e temos Comandantes militares. Temos “guerreiros”, pois, além dos que se perfilam no “exército de Stédile”, temos cronistas, temos oradores, temos suas “verdades”. Temos agora um Ministro da Defesa vinculado a um Partido “revolucionário” que armou uma guerrilha contra o Estado nacional, que foi ferozmente combatida pela Força de Terra, e temos sofisticados dispositivos audiovisuais… que são capazes de transmitir o que esse Ministro nos diz, com a maior clareza e desfaçatez, invertendo tudo o que seria lícito esperar de alguém que demonstrasse um mínimo de discernimento – que as FFAA são “criadoras de valores importantes para a perpetuação dos interesses do povo e dos interesses do Brasil”. Onde estamos? As Armas nacionais se encarregam de manter os valores que são os valores da Sociedade, os que a Sociedade exige que sejam mantidos. Desde quando e onde, exceto em ditaduras, as Armas se encarregam de “criar valores” ou se submetem a prestar-se à função de os impor à Sociedade nacional para que um governo qualquer não se sinta ameaçado?

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      Pois bem, temos tudo isso. Que nos vem sendo supérfluo e/ou danoso. O que não temos, pois, é a consciência nacional, é um projeto nacional. Porque não temos a mínima noção do que seja o nacional. Razão pela qual acompanhamos o espetáculo desse País que temos (ainda temos, nem sei como…) se escoando pelo ralo. Resta-nos saber se ainda temos Soldados. E nos restaria saber por quê? E para quê? Ora, só pra saber… porque faz um bocado de tempo que só podemos desconfiar de que eles ainda existem assistindo aos 5% de discurso ufanista mais os 95% de dispositivo audiovisual bem produzidos pelo Ministério da Defesa. Aquele Ministério… que não sabemos muito bem que raios é aquilo que se propõe a defender. Ou quem diabos são os que se propõe a atacar.

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Lula se corrompeu e corrompe a sociedade brasileira” – Hélio Bicudo

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2015/09/29/lula-se-corrompeu-e-corrompe-a-sociedade-brasileira-afirma-helio-bicudo.htm

 

"Lutamos contra a ditadura do fuzil e agora lutamos contra a [ditadura] da propina". Miguel Reale Jr.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/09/1682484-golpismo-e-de-quem-fala-diz-bicudo-sobre-critica-de-dilma-a-impeachment.shtml

 

“Bendito o golpe em que seu espectro se exaure na fiel observância de comandos constitucionais! Maldita a democracia em que o voto popular possa constituir-se em cidadela da impunidade!” Nelson Jobim, segundo depoimento de Miguel Reale Jr

http://m.opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,impeachment,10000000189 

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      Sinceramente, e a bem do bom raciocínio, creio ter o dever de apontar que, na primeira frase do último período citado, algo parece estar muito errado. Não exatamente a idéia em si, mas o uso de um “em que seu” em lugar de um “cujo”, com o que a frase resta meio sem sentido. Imagino que ela devesse ter sido dita ou escrita dessa forma: “Bendito o golpe cujo espectro se exaure na fiel observância de comandos constitucionais!” Assim dá pra entender. Já como está é complicado. Enfim…  tendo compreendido por que nos foi possível adotar a mitologia “latino-americana” e por que nos é possível retornar ao discurso do Podemos espanhol, é fácil entender porque recorremos sem cerimônia às frases de efeito, que podem ser ditas de qualquer jeito, já que a nada menos medíocre nos é dado recorrer.

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      Acrescente-se que vem sendo lembrada por meios virtuais e vem merecendo atenção uma entrevista, concedida por um historiador de projeção a uma jornalista, que foi transmitida pela TV Cultura em abril de 2014 tendo por pretexto comentar os “50 anos depois” da intervenção militar ocorrida no Estado brasileiro em 1964 (6).

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      No imenso e profundo mar de asnices mil vezes ditas e mil vezes repetidas a respeito do período em que indivíduos de formação militar – formação presumidamente nacionalista, portanto – exerceram a Presidência por necessidade imposta pelas circunstâncias, essa entrevista chama a atenção por nos apresentar algumas ponderações racionais e conseqüentes. E merece, sim, alguma atenção. Mais ainda porque Lula da Silva está processando judicialmente esse historiador, alegando que ele o teria caluniado ao dizer de público que o ex-presidente “ ‘mente, mente’, que é culpado de ‘tráfico de influência internacional, sim’, além de ‘réu oculto do mensalão’, ‘chefe do petrolão’, ‘chefe da quadrilha’ e teria organizado ‘todo o esquema de corrupção’ ” que indiscutivelmente assola o país como nunca antes em sua História (7). Para quem acredita que o problema do país é Lula da Silva, o entrevistado reuniria méritos suficientes para ser considerado um bom orientador de consciência. E exatamente com alguns ‘por que’, ‘por quê’, ‘porque’ e ‘porquê’ preocupar-se-á ele, que é um historiador. E buscará esclarecer alguns detalhes que passam despercebidos pela maioria dos civis bem-intencionados e bem-letrados e talvez também por alguns militares jovens e velhos.

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      Durante sua entrevista, as caretas de simulada curiosidade entremeadas de caretas de igualmente simulada ingenuidade com as quais nos brinda a sua pernóstica entrevistadora nos lembrarão as de Jô Soares, o humorista, em seus programas metidos a sérios – só não mais se assemelham por lhe ter faltado a oportunidade de poder chamar os comerciais dado o caráter da emissora. Nas perguntas feitas, nenhuma novidade. Elas são, diríamos, “protocolares” – são as mesmas de sempre. Uma delas, preciosa, será: “E [se não era uma ditadura como explicar] a perseguição a, por exemplo, todos os membros do Partido Comunista Brasileiro?” E as demais estarão no mesmo nível. 

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      O historiador, intelectual, democrata, refinado, bem falante, plantado em sua poltrona, tendo sorvido muitas letras, depois de provar por A+B que não houve qualquer ditadura no Brasil após 64 (pois havia estímulo e liberdade cultural, um Congresso eleito etc. etc. e tal – e é tão pouco de verdade o que se diz a nosso respeito que apenas isso, que é muito e muito pouco, terá o dom de deixar muita gente entusiasmada e muito mais feliz do que, se em sã consciência, deveria ela ficar), citará a "luta heróica" pela “democracia” travada por bravos juristas e parlamentares, pela Igreja, pelas "organizações da sociedade civil"… contra um governo que, não se saberá bem por que, contando com todas as armas ao seu dispor, entregou-lhes a condução da Política nacional de bandeja. Não contente com isso, depois de citar também o resultado de vis atentados terroristas, nos quais civis perderam suas vidas de forma atroz, reprovará a "barbárie", a repressão, a censura da… "ditadura" (!?!), e nos dirá que não deveremos ter “contemplação” com os que combateram de forma violenta os terroristas, e que os responsáveis pela violência cometida devem ser exemplarmente punidos. Ele estará se referindo ao período em que o terrorismo “idealista” encrueceu em nosso território, requerendo um rude combate em igual medida? Sua opinião reflete uma posição bastante estética, sem dúvida, mas… meio incoerente, não é, não? Eu acho.

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      Em suma: entrevistado e entrevistadora, apesar de divergirem diametralmente na apreciação de ser ou não ser correto e/ou conveniente denominar como “ditadura” o período que vai de 1964 até que novamente fosse eleito um presidente pelo voto direto, comungam de um ponto de vista ou de um cacoete intelectual e/ou emocional – bonita será a “paz” – qual “paz”, pouco importa, talvez a proporcionada pela “estabilidade”; feia será a guerra, coisa maldita da qual não se deve sequer enunciar o nome. Bonito será conviver pacificamente com nossos inimigos e chamá-los de “adversários” ideológicos, bonito será permitir que todos gozem de liberdade e digam e façam o que bem entendam. E, se terroristas assaltam bancos e quartéis, se põem bombas, se explodem civis, se trucidam Soldados, poderemos ir às ruas ridicularizá-los, tal como hoje fazemos com os que se dizem “ex”-terroristas, ou então poderemos chamar um doutor-advogado para que os processe e garanta nossos direitos à vida na Justiça, pois a Lei existe para isso embora nem sempre ou quase nunca funcione. Contra o narcotráfico não funciona. Censurá-los, reprimi-los, obrigá-los a dizer quem são seus cúmplices e onde o resto do bando de meliantes possa ter-se alcovitado contando com espírito presumidamente humanitário, talvez solidário, de algum cidadão presumidamente indefeso e inocente, é muito, muito feio. Será uma violência descabida ou, no mínimo, será muito pouco educado…

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      Recusar-se a participar de um combate em armas, seja contra uma guerrilha, seja em uma guerra convencional, não querer aceitá-lo como justo ou necessário ainda que se faça para repelir uma agressão e seja de defesa, e não querer saber dos meios que esse combate exige que sejam utilizados e dos horrores que exige que sejam encarados é uma coisa – almas muito sensíveis, muito delicadas, só bem suportam atrocidades se praticadas nas telas e nas páginas literárias, se são ficção (e, muitas vezes, até as curtem). Já não querer reconhecer uma guerra dando de cara com suas evidências será outra coisa, e bem outra. E, em cada um dos casos, ao ser filtrada pela inconseqüência dos aventureiros ou a dos maníacos pacíficos, pelo preparo ou pelo despreparo dos Soldados ou pela suposta ignorância dos omissos, a História será, necessariamente, contada de forma diferente. É evidente. Assim como as histórias de cada um serão, necessariamente, diferentes e contadas de forma diferente. Ou não?

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      Na verdade, o intelectual, democrata, refinado, esteta, bem-falante historiador, em sua poltrona comodamente cercado de letras, ainda que sua inteligência privilegiada lhe permita não repetir a maioria das asnices que outros “mestres” da História, da Política e da Literatura nacionais insistem em propalar, demonstra que não sabe o que é enfrentar uma guerra, que nenhuma idéia tem do que seja isso, que nem sequer lhe interessa ter. Portanto, jamais haverá de saber. Ou talvez até viesse a querer saber como enfrentá-la caso os “soldados de Stédile” sob o comando de Vagner Freitas hoje resolvessem incomodá-lo em sua casa ou em seu ambiente de trabalho, tal como já fazem com os que estão nas regiões rurais de nosso território.

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      Interessante que as guerras, tanto as convencionais quanto as de guerrilhas, são narradas e muito bem narradas, detalhadamente, nos livros de História. Em cada uma dessas narrativas estará presente o inimigo contra o qual um Exército se mobiliza e age. Talvez por nunca ter participado de qualquer combate, embora considerasse “um mito para todos nós” ninguém menos que Gregório Bezerra, que nenhum “liberal” teria sido (8), o historiador não creia nesses livros, creia em que guerras e suas razões não existem, sejam apenas ficção, sejam fantasias de cabeças muito malvadas, apesar de muito criativas… o que é um grave problema para um historiador. Eu acho.

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      Ou, talvez, ele creia em que, se as guerras existem, elas devam ser postas “fora da lei”. Por ingenuidade? Talvez sim, talvez não. Difícil saber, mas pode ser. A ingenuidade não passa necessariamente pela capacidade intelectual, embora seja capaz de muito atrapalhá-la. O certo é que o ilustre em questão assume uma “postura pacifista”, tipicamente intelectual, ideológica, sempre defendida em discursos (nunca na prática) da Esquerda; e, tentando confundir os ouvintes com seus argumentos, põe-se a defendê-la. Tudo bem, o “pacifismo” será a “sua verdade” – e o “pacifismo” é deveras elegante. Muita gente no mundo, gente muito importante até, já fez do “pacifismo” a “sua verdade”… da boca pra fora, e muita gente ainda faz. Nem por isso as ameaças à nossa vida e à vida dos nossos e à integridade de nosso território, único espaço onde – atenção! – poderemos desenvolver nossas idéias com consciência e fazer nossa política com liberdade, vêem-se eliminadas. E, em cada versão, cada sentença, e cada… projeção.

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      Infelizmente, um dos resultados desse “pacifismo”, dessa “contemplação”, dessa “elegância” com relação às atitudes de salafrários travestidos de “guerreiros”, de “guerrilheiros” ou mesmo de estranhos “heróis do povo brasileiro” é o que hoje nós estamos vendo e sentindo na pele. A Democracia, nessa nossa “democracia” tão bravamente conquistada contra os nossos “ditadores” armados de fuzis até no banho, em "heroica" luta de bravos juristas e parlamentares, da Igreja, das organizações da sociedade civil… que nas mãos desses mesmos foi sendo esfarrapada dia após dia após a tal da “abertura política”, coloca-se cada vez mais distante de nossas vistas. O que explica aquilo que hoje tanto surpreende o nosso ilustre historiador (9) – que alguém do Partido que comandou a guerrilha do Araguaia seja nomeado o Ministro da Defesa… O problema é que isso o possa surpreender, ou o problema é que ele diga que isso o surpreende. Porque a ninguém mais deveria surpreender.

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      Muito bem. Eis que se alinhava o impeachment da nossa virtuosa Presidente da República. O que abalará o poder de Lula da Silva. A questão que se coloca é: que ocorrerá de diferente em termos políticos ao raiar o dia seguinte, se nada é capaz de alterar o funcionamento do Congresso e as demais Instituições nacionais tal como vêm fazendo de maneira reversa? Que fazer com as leis malditas que foram aprovadas nas últimas décadas e nos vêm regendo a vida cotidiana? A crise que afeta o Executivo nacional é o menor de nossos problemas. O nosso problema é a crise em que se encontra a representatividade do povo brasileiro. Se cai Rousseff ou não cai, mantendo-se todo o resto, nada se alterará.  

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      Ponderemos, pois: uma morte tranqüila, que permite à vida ceder espaço aos poucos à enfermidade e à caquexia, não será, por ser tranqüila, mais honrosa ou menos morte, mas será, sem dúvida, bastante menos deselegante que uma morte em combate, num campo de batalha, seja ele urbano ou rural. Por quê? Porque será lenta, porque será incruenta, porque se dará em belos e limpos lençóis…

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      Bem, se é apenas elegância o que a nossa brava gente brasileira vem buscando, ela está de parabéns. Está no bom caminho.

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 (1)    O “Movimento Pró Impeachment Brasil” colocou no ar um documento na intenção de pressionar os Parlamentares para que “aprovem o pedido de impeachment da Presidente Dilma” e pede ao público o maior número de assinaturas em apoio a essa iniciativa. Esse documento se encontra em https://www.change.org/p/deputados-aprovem-o-pedido-de-impeachment-da-presidente-dilma .

    Estou assinando porque aprovo, sim, que se declare o impedimento de Rousseff. Não porque ele seja qualquer solução que se dará aos nossos infinitos problemas – e esses problemas se criaram bem antes que ao PT fosse oferecido de bandeja o poder nacional. Aprovo o 'impeachment' porque, esmagados entre o atual desgoverno e os tumultos todos que se criam todos os dias sem qualquer outro objetivo senão derrubá-lo, não sobreviveremos por muito tempo. E precisamos de tempo, tanto quanto de ar, de água e de juízo, para tentar sobreviver.

    O 'impeachment' significa nada mais que um recurso para que a pressão que hoje nos asfixia se atenue – mas ela se atenuará por um período muito breve. E não é que não tenhamos uma liderança que nos conduza a tomar atitudes corretas que nos permitam criar as condições corretas, as que favoreçam uma retomada do desenvolvimento, pois efetivas lideranças políticas não se inventam, elas apenas se formam no calor das discussões ao longo dos processos políticos – o que não temos é a noção de objetivo nacional, o que faz que não tenhamos objetivos nacionais definidos, portanto, não tenhamos discussões a respeito do objetivo das propostas e das ações dos políticos, nem sequer tenhamos qualquer esboço dos meios para que essa retomada do desenvolvimento se faça. O que nos faz prosseguir sem rumo definido.

    Dessa forma, quem se beneficiará com o afastamento de Rousseff serão os mesmos que têm a responsabilidade de a terem levado ao poder, e que, de repente, perceberam que a coisa toda ficou tão feia que lhes parece eleitoralmente insustentável. Ninguém mais. Porque esses continuarão a fazer o que sempre fizeram, nada diferente farão.

    O nosso problema não é Rousseff, nem é Lula, nem é o PT, nem a bandalheira desenfreada dos últimos tempos – o nosso problema é quem investiu na deterioração de nossa identidade nacional e facilitou a disseminação de promessas demagógicas como se fossem propostas viáveis. O nosso problema é que nós, enquanto Nação, não sabemos que queremos. Porque não mais sabemos quem somos. Portanto, não saberemos que é o que poderíamos ou deveríamos fazer em nosso benefício. E ninguém se preocupa com a recuperação de nossa identidade, que sempre foi ímpar, que é um fator determinante para a recuperação da (de fato nossa) economia, e hoje se apresenta como uma incógnita, obscura, diluída em identidades corporativas, regionais, familiares, estéticas e, pior, de bando.

    O Brasil precisa reencontrar-se, encontrar, enunciar e adotar com seriedade um projeto nacional. Que será necessariamente grandioso. Sem o que não saberemos quem eleger, pois qualquer um tanto fará quanto qualquer um já vem fazendo, e, por mais que tudo muito se movimente, tudo se inclina no sentido da fragmentação de nosso país. E ninguém resolverá coisa alguma das que hoje tanto nos afligem e nada nos tirará do caminho enlameado em que enveredamos, sabe-se lá por que cargas d’água e em nome de quê – caminho esse que nos leva apenas à nossa absoluta destruição.

    Que caia Rousseff, sim, o que nos dará um tempo de sobrevida, mas que ganhemos algum discernimento nesse processo e não coloquemos em seu lugar, nunca mais, algo que com ela muito ou sequer minimamente se pareça.

  – 11/09/2015

(2) “Estrutura do Ministério da Defesa – Considerações” – Ernesto Caruso – http://www.alertatotal.net/2015/09/estrutura-do-ministerio-da-defesa.html 

(3) http://www.institutoliberal.org.br/blog/liberalismo-de-esquerda-ou-de-direita/

(4) http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2015/08/16/por-que-nao-mataram-todos-em-1964/

(5) O mais interessante no texto de Pasquale Cipro Neto será verificar não ter ele encontrado algo mais adequado para acertarmos no Português que isso: “uma boa dica é ver se entra ‘why’ ou ‘because’. Se entra ‘why’, entra ‘por que’; se entra ‘because’, entra ‘porque’ " (?!?). Mas, não satisfeito, esse tão didático e tão conhecedor de lingüística envereda pela Política e pela História para ponderar que: “Quer ver uma coisa que não entendo? Por que é proibido fazer a apologia do nazismo, mas é permitido fazer a apologia da ditadura militar, do extermínio por razões ideológicas etc.? … Bem, eu poderia me alongar nesse assunto, mas o meu texto não teria nem um pingo do brilhantismo do artigo publicado pelo grande Mário Magalhães em seu blog ("O silêncio cúmplice aceita a barbárie"). Mário esgotou o assunto. Sobrou-me a questão lingüística … Posto isso, vou tentar ajudar essas etéreas almas a redigir cartazes que, ainda que indignos da nossa semelhança a Deus, sejam linguisticamente ‘limpos’, ao menos no que diz respeito a ‘por que’, ‘por quê’, ‘porque’ e ‘porquê’.http://www1.folha.uol.com.br/colunas/pasquale/2015/08/1671032-porque-nao-mataram-todos-em-1964.shtml

(6) https://www.youtube.com/watch?v=ywI39X9TG5w

(7) http://www.institutolula.org/lula-move-queixa-crime-contra-calunias-de-villa

(8) para quem não sabe quem foi e que andou fazendo Gregório Bezerra, será interessante consultar http://www.brasil247.com/pt/247/pernambuco247/90776/Greg%C3%B3rio-Bezerra-este-sim-um-verdadeiro-brasileiro.htm

(9) https://www.facebook.com/SessentaSegundo/videos/753476074797570/?fref=nf

 

 

 

  

  

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

FHC

 

1.

*REVELAÇÃO – “Lula é um líder popular. Não se deve quebrar esse símbolo … É necessário sempre ter em mente o futuro do país. … fizeram dele um deus, mas ele apenas levou adiante a minha política.” – de Fernando Henrique Cardoso em entrevista a uma revista alemã.

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2015/07/31/dilma-e-honrada-e-nao-esta-envolvida-em-corrupcao-diz-fhc.htm

 

**REFLEXÃO – Não reconhecer o divino por seu divino nome indica grave falha de atenção. Ou grave falha de percepção.

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2.

*REVELAÇÃO… Agora apareceu uma comadre com pinta de madame e Maneco se impressionou // A galera já falou: Sai dessa lama, ela é malandrona, uma tremenda ‘171’… // Cuidado, que ela vai sujar teu nome, vai levar teu telefone, o barraco e o tamborim. // Meu Deus do céu, já tá pintando repeteco… e o sucesso do Maneco está chegando ao fim… // Teco, teleco, telecoteco, é a batida do Maneco castigando o tamborim // Teco, teleco, telecoteco, tá na crista do sucesso até fechar o botequim… – de Zeca Pagodinho, filósofo e cientista político, em “maneco telecoteco”, obra que se inclui no repertório da Orquestra de Câmara do G.R.E.S. Unidos do Planalto Central.

https://www.youtube.com/watch?v=LBoF4dktV6c&feature=player_embedded

 

**REFLEXÃO – Telecoteco também é cultura! Telecoteco também é saber!

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3.

*REVELAÇÃO… o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu a presidente Dilma Rousseff, afirmando que ela não está envolvida no escândalo de corrupção na Petrobras. ‘Não, não diretamente. … Eu a considero uma pessoa honrada …’

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2015/07/31/dilma-e-honrada-e-nao-esta-envolvida-em-corrupcao-diz-fhc.htm

 

**REFLEXÃO – Diante do senso de justiça do divino onisciente, onipotente e onipresente, as atribuições conferidas a qualquer outro poder tornam-se absolutamente impertinentes.

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4.

*REVELAÇÃOA respeito de entrevista que dei a um jornal alemão, a cujo texto completo não tive acesso, mesmo porque está em alemão, convém esclarecer que na nota do UOL não há as perguntas feitas, só aparecem minhas respostas. A entrevista foi dada há algum tempo, não me recordo os termos que usei.

https://www.facebook.com/presidentefhc?ref=nf

 

**REFLEXÃO – Ai, meu Deus do céu! Arrego! E não é que ele ainda continua querendo explicar? E que pretende continuar explicando? O que ele disse? Ou que ele já se esqueceu do que disse? Ou é que devemos esquecer o que ele disse? Tudo bem, o pior é que a gente acaba esquecendo. A memória por aqui anda um bocado fraca. Mas esse negócio de esquecer o que foi dito já está ficando chato. Não está, não? Eu acho…

 

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http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/deutschewelle/2015/07/31/dilma-e-honrada-e-nao-esta-envolvida-em-corrupcao-diz-fhc.htm

Dilma é honrada e não está envolvida em corrupção, diz FHC

DW World – 31/07/2015 13h42

Em entrevista a revista alemã, Fernando Henrique Cardoso afirma que escândalos começaram no governo Lula, a quem ele atribui responsabilidade política pela atual crise no Brasil.

Em entrevista a revista alemã, Fernando Henrique Cardoso afirma que escândalos começaram no governo Lula, a quem ele atribui responsabilidade política pela atual crise no Brasil.

Em entrevista à revista alemã de economia Capital, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu a presidente Dilma Rousseff, afirmando que ela não está envolvida no escândalo de corrupção na Petrobras. “Não, não diretamente. Mas o partido dela, sim, claro. O tesoureiro está na cadeia”, afirma FHC em entrevista publicada – em alemão – na edição deste sábado (01/08) da revista. “Eu a considero uma pessoa honrada, e eu não tenho nenhuma consideração por ódio na política, também não pelo ódio dentro do meu partido, [ódio] que se volta agora contra o PT.”

FHC atribui ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a responsabilidade política pelo escândalo de corrupção na Petrobras. “Os escândalos começaram no governo dele”, argumenta. “Tudo começou bem antes, em 2004, com o Lula, com o escândalo do mensalão.” Questionado se Lula estaria envolvido, FHC responde: “Não sei em que medida. Politicamente responsável ele é com certeza. Os escândalos começaram no governo dele”. O ex-presidente, uma das principais lideranças do PSDB, afirma que era impossível que Lula não soubesse do mensalão. “Para colocá-lo atrás das grades, é necessário haver algo muito concreto. Talvez ele tenha que depor como testemunha. Isso já seria suficientemente desmoralizante”, comenta.

Mas FHC afirma que seria ir longe demais colocar Lula na cadeia: “Isso dividiria o país. Lula é um líder popular. Não se deve quebrar esse símbolo, mesmo que isso fosse vantajoso para o meu próprio partido. É necessário sempre ter em mente o futuro do país.”

Em outro ponto da entrevista, FHC elogia Lula. “Ele certamente tem muitos méritos e uma história pessoal emocionante. Um trabalhador humilde que conseguiu ser presidente da sétima maior economia do mundo.”

Mais adiante, FHC afirma que Lula era como um Cristo. “Eles fizeram dele um deus, mas ele apenas levou adiante a minha política.”

FHC diz ainda que há um lado bom na atual crise. “Os cidadãos veem: as instituições funcionam – Ministério Público, Polícia Federal, toda essa operação Lava Jato.

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https://www.facebook.com/presidentefhc?ref=nf

Fernando Henrique Cardoso – 3 h · Editado ·

A respeito de entrevista que dei a um jornal alemão, a cujo texto completo não tive acesso, mesmo porque está em alemão, convém esclarecer que na nota do UOL não há as perguntas feitas, só aparecem minhas respostas. A entrevista foi dada há algum tempo, não me recordo os termos que usei. Mas, ao falar ao estrangeiro cuido sempre de não ser agressivo com políticos brasileiros.

Por outro lado, não falo, ao estilo lulopetista, desconhecendo o passado e negando fatos. Lula, gostemos ou não dele e de suas políticas, foi o primeiro líder operário a chegar à Presidência, o que tem inegável peso simbólico. Por que haveria eu de dizer ao exterior que merece cadeia? Se o merecer, quem dirá será a Justiça e é de lamentar, porque terá jogado fora (coisa que vem fazendo aos poucos) sua história.

Não se constrói o futuro com amargor, nem desmerecendo feitos.

Tampouco poderá ele se erigir tapando o sol com a peneira. Mas nas democracias não é o interesse de pessoas ou de partidos quem dá a palavra final. É a Justiça. Podemos até torcer para que ela atue. Mas o bom senso de cada líder deverá conter seus naturais impulsos por “justiça já”, ou a qualquer preço, em favor da moderação e do respeito às regras do jogo. O fato dos adversários não se comportarem assim não deve nos levar a que nos igualemos com eles. (FHC)

 

 

 

 

  

  

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

nunca pensei que viveria para ver tal despersonalização de minha Pátria: inicialmente, a Bandeira Nacional – que é única! – posta em paralelo com outra, de uma associação de poucos países, de discutível representatividade internacional e futuro aparentemente pouco promissor, à qual supostamente não teriam acesso Estados não democráticos (???); e a seguir, a substituição das Armas Nacionais, no documento que nos identifica perante o mundo, pelo mesmo símbolo internacionalista… –  Gil Cordeiro Dias Ferreira

 

***

 

     Desculpem-me o mau jeito, mas aqui vou (me) repetir: fatos de gravidade semelhante à dessa palhaçada que na epígrafe se denuncia e a que assistimos perplexos – e que em mera palhaçada não se resumem, pois se consubstanciam em uma descomunal agressão que nos é dirigida, à qual nos submetemos mansamente – não só hão de continuar se produzindo e reproduzindo como muito hão de se agravar. Porque são o resultado “normal” do desenvolvimento de um processo desencadeado por uma palhaçada fundamental, apenas permitida em virtude de uma grosseira, generalizada e absoluta falta de noção do que seja o Estado. E nos agredirão impunemente pelo menos enquanto o criminoso § único do art. 4º (“A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações“) não for arrancado, rasgado, pisoteado, queimado, enterrado, extirpado definitivamente daquela coisa imensa e maluca que vem acumulando remendos há quase 30 anos, a dita “cidadã” – uma tijolada na testa que desnorteou por completo os que já vinham, de praxe, agindo de forma absolutamente desnorteada, e que alguns conhecem pelo nome de “Constituição da República Federativa do Brasil”.

 

     Tentemos compreender: que é a República Federativa do Brasil? Não, não será qualquer “alternativa” ao Estado brasileiro que se possa colocar acima, abaixo ou ao lado dele. A República Federativa do Brasil é o Estado brasileiro, é o enunciado da forma como, em tese, o Estado brasileiro se organiza. A Constituição da República Federativa do Brasil será, portanto, a Constituição do Estado brasileiro – a nossa Constituição, a do nosso Estado, o brasileiro. Que nos indica como se dará essa nossa organização. E um Estado nacional não é um clube recreativo, uma sociedade anônima ou de responsabilidade limitada ou em conta de participação, não é qualquer ONG, um Governo, um Partido, uma Província, um fragmento de uma organização política qualquer. Um Estado nacional, seja ou não seja federal, há de autorizar-se – soberanamente! – a defender-se pretendendo, por si mesmo, manter-se – soberanamente! – em seus fundamentos.

 

     Tentemos compreender um pouco mais, porque as palavras não somente têm significado – elas têm conteúdo, elas dizem e produzem efeitos. Bons efeitos quando são bem ditas, péssimos efeitos quando são mal ditas. O princípio de qualquer coisa é o que permite seu surgimento, seu funcionamento, sua sustentação e sua articulação com as demais coisas do universo. Se qualquer coisa for concebida para que obedeça a dois ou mais princípios, ela não se acrescentará em virtudes – ela apenas há de se emperrar, não funcionará. Princípio é princípio. O princípio do Estado é um único – o poder soberano. Não requer ser enunciado. E que nenhum outro “princípio” se lhe invente para justificar-se seja o que for. Um Estado ou é um Estado ou não é – não o sendo, será uma província, uma colônia, um protetorado, qualquer coisa. Sendo um Estado, ninguém discutirá sua soberania ou sua independência. Porque são condição de sua existência enquanto tal. E, sendo condição, não serão um fundamento muito menos serão um objetivo. Qualquer outro enunciado que lhe seja atribuído como “princípio” em sua constituição não será “princípio” algum – será uma disposição que houve por bem ser enunciada como imperativa, o que nada mais significa que uma prerrogativa soberana. Assim como o princípio do Estado nacional não se poderá confundir com seus objetivos ou com seus fundamentos, nenhum objetivo do Estado nacional poderá pretender subordinar ou desvirtuar qualquer um de seus fundamentos e, muito menos, o seu princípio. Ao erguer-se um Estado nacional criado pelo poder soberano sobre fundamentos (= alicerces) democráticos, esse poder soberano não terá desaparecido – ele foi assumido pela Nação que o estenderá, democraticamente, ao conjunto da população dita nacional, aos cidadãos do Estado nacional.

 

     E um Estado não nos terá chegado às mãos a troco de nada. A um Estado nacional não cabe apenas exigir de suas instituições que o defendam com muito empenho e muita habilidade da seca, das enxurradas, das infestações de insetos e parasitas, dos ventanistas de plantão que o possam desolar – cabe a ele mesmo defender-se prioritariamente dos inimigos reais ou potenciais de sua sobrevivência e sua permanência – soberana! – enquanto Estado nacional entre seus pares. Principalmente, há de saber a que veio e a que está, consciente de que sem o exercício de um poder soberano (o da Nação que o criou) não viria à luz, de que, para que viesse à luz, exigiu sacrifícios, consumiu inteligência, dependeu de vidas nas quais seus sucessivos responsáveis se espelham e que merecem ser, por ele mesmo, exaltadas e eternizadas, e de que sem assumir o seu poder soberano, o que lhe foi transferido pela Nação que o criou, não se manterá.

 

     Já o fundamento de um Estado republicano que se caracteriza por ser uma democracia representativa enuncia-se claramente com as inequívocas palavras: “todo poder emana do povo e em seu nome é exercido” ou “será exercido”, tanto faz, palavras que são mais que suficientes. Pois, no “Título I”, que diz “Dos Princípios Fundamentais” que nos devem reger, do tijolo mal cozido que nos foi arremessado em 1988, uns caras-de-pau auto-intitulados “democratas” e alcunhados de “constituintes” enunciaram prolixa, redundante e confusamente como “fundamentos” do Estado brasileiro tudo isso aqui: “I – a soberania; II – a cidadania; III – a dignidade da pessoa humana; IV – os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V – o pluralismo político”, acrescentando ao final dessa lista que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente” – atenção seja dada pelos incautos a esse “diretamente” – “nos termos desta Constituição”. E aquele § único do art. 4º, perfeito e acabado, vê-se cometido dolosamente entre os “objetivos” do Estado brasileiro, colocando-se em pé de igualdade com a “independência nacional”!

 

     Onde estamos? Que é isso? É um jogo de palavras? A que se deve? Às exigências da métrica e da rima? É poesia para ser recitada em tertúlia que reúna alegres bacharéis? Não, não é poesia. Essa agressão vil, escancarada e descaradamente lesa-pátria, contida em um parágrafo absolutamente incompatível com a preservação da integridade do Estado brasileiro, infectou suas entranhas como um vírus letal ardiloso que o tivesse cerceado e penetrado sem encontrar resistência, e se traduz como o preâmbulo de uma outra constituição – a de uma organização política pretensamente “superior” à nossa soberana representação. Não, não é poesia. É uma patada adicional em nossa cara sem-vergonha. Ou, melhor, é um coice que nos permitimos levar em seguida de uma queda.

 

     Se tivesse sido sugestão de um único Partido, se apenas alguns dos segmentos da “sociedade civil” o tivessem estupidamente aplaudido, talvez tivéssemos tido a chance de interromper o processo infeccioso que esse coice provocou e a de curar suas seqüelas. Mas a questão não se resume a isso: tanto esse coice quanto aqueles de quem o levamos contarão, para defendê-los, com a maioria dos integrantes da Sociedade nacional que, por ignorância ou má fé, ainda alardeia as “virtudes democráticas” do golpe branco de que fomos vítimas em 1988; e, pior, contarão com as Armas nacionais – e aqui não me refiro ao nosso Brasão, símbolo da honra, da nobreza e da glória brasileiras, que antes se estampava em nossos passaportes, mas às Armas em sua materialidade, às Forças Armadas do nosso Estado. Porque as que nossas Armas são, que teriam o compromisso de defender o nosso Estado – que somos nós em nossa organização política, a que nós mesmos definimos e que, quando erramos, deveríamos tratar de consertar –, assumem o compromisso de defender os “poderes constitucionais”.

 

     Que ninguém se iluda, pois, com a redação do Art. 142 (Seção III – DISPOSIÇÕES GERAIS – CAPÍTULO II – DAS FORÇAS ARMADAS) “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. O contido nesse artigo apenas nos diz que elas defenderão aquele maldito parágrafo porque ele é uma disposição constitucional – apesar de que, a bem dizer, seja expressamente uma autoritária… “disposição transitória”… (“a República Federativa do Brasil buscará!”), provisoriamente válida até que se consolide a estapafúrdia organização comunitária supranacional que nos vem sendo imposta, aos trancos dados, com a força da lei, pelas patas voluntariosas de meia dúzia de animais irracionais. Elas, as nossas Armas, assumem, pois, o compromisso de defendê-lo e o defenderão com unhas e dentes.

 

     Mas não assumem o compromisso de ler essa Constituição. Assumem? Penso que não. Porque se o assumissem e se a lessem… questionariam esse arremedo de Carta Magna que promove a substituição de um Estado nacional por um arremedo de Estado que, nela e por meio dela, predestina-se à extinção e, em si mesma, justifica esse processo de extinção; e não defenderiam essa palhaçada toda que só um desaforo é, e causa efeitos perversos na Política nacional, interna e externa. Portanto, presume-se que não a leiam, nem leram as Constituições que a antecederam, para que pudessem, assim, compará-las. Apesar de que reze a lenda que o Mal. Dutra, que poderia lhes servir de exemplo, mantivesse, à sua época, “o livrinho” sempre à mão, “para não errar”.

 

     Pensando bem, para que nossas Armas, a instituição nacional representada por nossa gente fardada, sentir-se-iam estimuladas à leitura da Constituição, se não lhes compete alterá-la (isso compete apenas aos mesmos remendões oficiais que por ela são responsáveis, os que elegemos e reelegemos há décadas…). Não, isso não lhes servirá de desculpa ou pretexto, mas talvez seja por isso que não a leiam, e, porque não a lêem, não se permitem discuti-la – apenas a defendem. Com unhas e dentes. Porque é de sua função defendê-la e porque assumem essa defesa como missão. Burocratizadas em grau absurdo, “corretamente” despolitizadas, porque assim a hierarquia e a disciplina agora determinam que sejam, defendem-na, por certo, “em confiança”.

 

     Em quem, exatamente, as FFAA vêm confiando não se sabe bem ao certo, nem se sabe, tampouco, de quem ou de que possam pretender se precaver. Imagino que a confiança não se dará a algum “patriotismo” insuspeitado que a celebrada “Nova República” nos tivesse imposto (estaria tão camuflado que dir-se-ia inexistente?). Nem seria dada ao revolucionário e exacerbado “patriotismo” de um Jaques Wagner, tão bem explicitado em 31 de maio último na sua página do Facebook (**), quando nos diz, do alto de seu cargo e de sua função de Estado, que “os petistas”, não todos nós, os brasileiros, deverão ter orgulho do que são porque não são “cidadãos de 2ª classe”. Nem, por certo, ao “patriotismo” que nos puderam demonstrar seus antecessores no tal Ministério da Defesa… (da defesa de que, mesmo?).

 

    É fácil, rápido e rasteiro deduzir, portanto, que, se as Armas nacionais, as nossas Armas, sob infeliz regência constante nos últimos tempos, vêm defendendo e para sempre defenderão, sem que se apercebam dela, essa palhaçada toda que se constituiu à nossa revelia e contando, se não com nossa conivência, com nosso absoluto descaso, já nada nos diz que elas se predisporão a continuar defendendo o nosso Estado. O que significa, por sua vez, que já nada nos diz que nos defenderão enquanto Nação. Por quê? Porque estúpidas elas não são, embora já tenham perdido – ou, pelo menos, o grosso da Oficialidade já perdeu – a noção do que tudo isso pudesse, na realidade, significar. E por que mais? Porque oligofrênicas elas também não são, nem saem por aí a morder a própria orelha, e comprometer-se ao mesmo tempo com a defesa de modelos, teorias e práticas que a nossa Escola em todos os níveis, as militares inclusive, colocam como correspondentes a estímulos político-filosóficos tão visceralmente antagônicos quanto o Bem e o Mal seria apenas a demonstração de uma inadmissível incoerência e a admissão de uma cabal inconsistência ideológica, em estrito e amplo sentidos. Seria algo absurdamente ilógico que não será lícito lhes atribuir, em nenhuma hipótese.

 

     Haverá de lhes bastar, então, defender a Constituição que não lêem, da qual, portanto, não duvidam porque estão seguras de que dela duvidar não lhes compete. Defenderão a Constituição na qual vêm depositando sua confiança. E, assim, a lei, a ordem, o Ministro, o Governo, a “paz” (?), a democracia”, o “povo” (?), sim, até mesmo um território, elas saberão, poderão e hão de querer defender. E têm poder, têm conhecimento e têm alguns elementos materiais para tanto. Mas, defender os corretos fundamentos de nosso Estado, já não. A integridade da Nação brasileira, já também não. Muito menos o valor de nossa História. No que coincidem com a Sociedade brasileira. E com o que o nosso Brasão – símbolo da honra, da nobreza e da glória brasileiras – perde o sentido, e não haverá por que a identidade brasileira manter-se a ele vinculado.

 

    Pensemos mais um pouco: se acatarmos como apropriadas e lúcidas as palavras do Ministro da Defesa (que, de seu cargo e função de Estado, prega o “orgulho de ser petista”), de que e de quem os brasileiros deveríamos nos envergonhar? Dos que petistas não são, evidentemente, dos que escolheram o Partido errado. E isso deve incomodar a Sociedade, pois nem toda ela é petista. Mas, seja qual for o Partido no Poder, seja quem for o Ministro da Defesa, seja quem for que se diga na Oposição, se concordarmos com o acerto de “nossa” Carta Magna, de quem e de que tanto a Sociedade quanto as nossas Armas republicanas deverão se precaver e defender o território, as Instituições, a História, algum projeto para o futuro? O resultado dessa charada será inequívoco: de nós, empedernidos e reacionários nacionalistas (pchiiiuu, nunca digam essa palavra, vergonhosa em si e por si mesma, um palavrão! “Nacionalismo”, todos estão sabendo, é o mesmo que “fascismo”, algo que comunistas e liberais desde sempre combateram e hão de combater! Não é mesmo?). Todos os que desejam manter algo de que se orgulhar deverão defender o que é seu e se precaver de nossas ameaças, as da Nação brasileira, de nós mesmos. Apenas de nós, de ninguém mais. Nós somos “o inimigo” potencial desta dita República, nós, a Nação brasileira, um inimigo que, se usasse de inteligência, se tivesse decência e se projetasse o vulto que deveria projetar, se agisse como se soubesse quem realmente é e honrasse seu passado, se soubesse como se colocar e como exigir respeito de si mesmo e de todos os demais, ao se recusar a ser identificado politicamente por pertencente a “uma entidade puramente comercial e aduaneira” – que é como o Mercosul se define, tal como Gil Ferreira nos relembra em seu texto (***) –, ou seja, ao se recusar a comportar-se como mera mercadoria exibindo no rótulo um certificado de origem que lhe justifique um preço aleatório, poderia muito ameaçar os Governos que “democraticamente” vêm sendo eleitos, a “paz fraterna e solidária” celebrada com nossos vizinhos, os amplos direitos sociais e individuais já reconhecidos, a plena liberdade e a igualdade como valores supremos de uma sociedade “sem preconceitos” fundada na harmonia social e comprometida com a solução pacífica das controvérsias… um inimigo que poderia ameaçar seriamente a “integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade” supostamente una, próspera e justa por sua própria natureza… recusando-se a subordinar a estranhos o destino de seu próprio Estado, aquele pelo qual é responsável, e, portanto, o de sua própria vida.

 

     Nós somos “o inimigo” potencial do que se esboça em “nossa” Constituição e vem sendo alinhavado para que seja bem costurado, ninguém mais – por isso mesmo é preciso que sejamos combatidos, é preciso que sejamos podados em nossas expectativas, e é preciso que nos recolhamos à nossa atribuída insignificância, a insignificância a que devem recolher-se os verdadeiros “cidadãos de 2ª classe”, aqueles que, um dia, tendo sido cidadãos do Estado brasileiro, não encontram por que aceitar, ainda que seja algo muito “importante para redução das desigualdades regionais“, qualquer compromisso que represente apenas a oportunidade de dar um calote de US$ 120 milhões que não temos sobrando no quintal e que pudessem estar sendo utilizados para que superássemos as nossas reais dificuldades e tentássemos reduzir as de fato nossas desigualdades, as nacionais (****).

 

     Mas, na realidade – e que isso não nos sirva de consolo -, bem antes que inimigos de alguém mais, seremos o único inimigo real de nós mesmos. Porque, ao estender nossas prerrogativas nacionais, por nossa própria generosidade, a uma Sociedade nacional plural altamente complexa mantendo-nos na absoluta ignorância das questões, das razões e dos processos políticos como se estivéssemos em estado de graça e desejássemos apenas perpetuá-lo, permitimos que em nós mesmos fosse gerado e se desenvolvesse o embrião do inimigo de nós mesmos. E, voluntária, irresponsável e orgulhosamente prenhes dele, não mais sabemos como, nem mais teremos meios de combatê-lo. Nem encontramos por que dele nos livrar.

 

      Repito aqui o que venho dizendo há muitos e muitos anos – ao público em geral, há 10 redondos anos, no barato (em rápida busca em meus arquivos, encontro o texto que transcrevo abaixo, por exemplo – “Por nossa virtuosa intolerância” –, ainda mais ou menos cauteloso e mais bem comportado que este, que foi publicado na Tribuna da Imprensa-RJ em 20/05/2005); na Academia e aos mais próximos, venho dizendo, com plena certeza, há muito mais tempo. Se nem com nossas Armas poderemos mais contar para nossa defesa, porque não só elas se deixaram atar como nós mesmos permitimos que fossem atadas, com quem contaríamos para tanto? Repito mais uma vez, numa dessas já por mero cacoete mental. Repito à toa, pois ninguém admite levar a sério essa questão que tenho a irritante mania de dizer que nos é vital.  Nenhum “representante do povo brasileiro” se dispõe a levantá-la no Congresso, talvez porque, se for minimamente lúcido para compreender a premente necessidade de fazê-lo, bem saberá que ninguém lhe dará ouvidos. Mesmo porque o “povo brasileiro” (?) bem ou mal representado no Congresso nem idéia tem do que, enquanto povo, ele mesmo seja; e muito menos terá qualquer idéia do que seja a Política, do que seja o Brasil ou do que uns e outros vêm fazendo com “nosso” país (de quem, mesmo, ele é?). E por aí vão as coisas, sempre cada vez mais em frente.

 

     E, afinal, se algum significado ele adquiriu para nós, brasileiros, o Mercosul – nome fantasia que camufla um projeto eminentemente político, ao qual faltará um hífen ou faltará um S, caso contrário deverá ser lido Mercozul pelos que bem sabem ler o que está escrito – deve estar servindo para alguma coisa. Caso contrário, já teríamos tomado a providência de denunciar o Tratado esperto que o criou. Ou nossa Diplomacia já não tem discernimento e não é capaz de saber o que deve fazer? Qual seria esse seu significado? Não importa, ele será… significante! Mas, a que é, mesmo, que vem servindo, na prática, o Mercosul? Às nossas “pequenas” causas: a preservação e o bom uso de nossos recursos, nossa indústria, nosso comércio, nosso agronegócio, nosso desenvolvimento, portanto, a saúde, a educação, o bem estar de nosso povo? Ou estaria servindo exclusivamente à barafunda conceitual infernal que promove seu único objetivo, a integração regional, para que enfrentemos com maior poder, um poder potencializado pelo poder de nossos vizinhos (?), o cruel mundo hierarquicamente globalizado? E, por isso mesmo, ele se justificará?

 

     E assim vamos compreendendo que uma política de integração é coisa santa, sagrada, inquestionável, coisa fina, sofisticada, atualíssima, desenho europeu, de projeção universal… – olhem só o sucesso que vem fazendo no Velho Mundo, resolvendo todos os problemas seculares de todos os povos daquela região geográfica! Não? A integração nacional não vale tanto ou vale nada. Será coisa típica de caipira. Mas a internacional, ah, esta é coisa pela qual só os nossos santos guerreiros e aqueles que possuem uma capacidade intelectual privilegiada, os iluminados, seriam e são capazes de se predispor a lutar! Com unhas e dentes.

 

     Aos entusiastas do Mercosul, que agora nos carimba, qualifica, identifica e substitui provisoriamente, com sua generosa e sólida estrutura, essa nossa Pátria tão pequena e insignificante enquanto a desejada “Pátria Grande” não se converte plenamente em definitiva, aos entusiastas do que o antecedeu e do que o sucederá, ofereçamos, pois, a nossa outra face. Em seguida, novamente a primeira, e mais uma vez a outra, e mais outra vez a primeira, e ainda uma vez mais a outra… Se é que, algum dia, algum bofetão que tivéssemos levado chegou a nos causar alguma dor, hoje, uma vez que nosso corpo e nossa inteligência já foram, por inteiro, absolutamente anestesiados, já nenhum mais nos dói. E, se não acreditamos piamente em blefes estúpidos como o de que o joão-bobo deve ser considerado um modelo de “cidadania”, reagir como reage esse brinquedinho nos distrai, nos ocupa o tempo vago e até mesmo nos diverte um bocado. Porque é divertido. Saudemos agora, pois, a logomarca, a bandeira, o passaporte e os partícipes do Mercosul, esses nossos “irmãos” tão injustamente (ainda, por enquanto…) “inexplicavelmente” até hoje menos afortunados que nós… – e, muito em breve, haveremos de estar saudando a moeda única. Saudemos o ingresso do Suriname e da Guiana como membros associados desse poderoso bloco. Saudemos tudo isso com o coração aberto, com alegria, com entusiasmo, tal como já saudamos a porosidade de nossas fronteiras e a abdicação à nossa suposta hegemonia e à nossa efetiva soberania, tal como devemos saudar o fogo, a mandioca e a bola de folhas de bananeira. Como fatores da evolução que nos transformou, daquilo muito feio e vergonhoso que um dia, no passado, nós já fomos, em homens e mulheres sapiens, orgulhosos e sapientíssimos… Está bom assim? Deve estar.

 

     Pois, então, estamos combinados! E ninguém fala mais nisso. Falar nisso para quê? Se há tantos assuntos tão mais amenos que nos ajudam a elevar nosso espírito de tendência tão pré-jurássica, tão belicosa, tão mesquinha, tão injusta e nos amparam a alma tranqüila, coberta de bênçãos que nos asseguram a eterna bem-aventurança…

 

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(*) Título da obra de Célhia de Lavarène que retrata as condições impostas aos jovens que para a Libéria imigravam atraídos por falsas oportunidades de viver em paz e em liberdade, e viam-se submetidos a um regime de escravidão nos bordéis, com a conivência de membros da administração pública, homens de negócios, soldados das forças de paz e demais setores da ONU, entidade que não fornecia meios capazes de proporcionar qualquer segurança às vítimas deste processo criminoso.

(**) “Tenho visto com muita preocupação manifestações recentes de ódio e intolerância contra simpatizantes e representantes do PT. Em aeroportos, hospitais e restaurantes, brasileiros que não concordam com nossas ideias e nosso projeto estão se sentindo à vontade para nos agredir e nos humilhar. Não podemos aceitar isso. Temos que reagir, mas não usando as armas deles. Vamos rebater provocações com argumentos e números, mostrando a eles que nenhum outro partido fez tanto pelo Brasil quanto o PT. Nosso partido nasceu nas ruas e formou a sua identidade a partir das lutas, dos sonhos e da esperança do povo brasileiro. Sob o comando de Lula e Dilma, levamos educação, saúde e dignidade para milhões e milhões de pessoas que ao longo de nossa história foram tratados como cidadãos de segunda classe. Por isso, jamais devemos nos envergonhar do que somos. De cabeça erguida, peito estufado e sonhos renovados, temos que continuar lutando para derrotar o conservadorismo e tornar o Brasil um país cada vez mais justo. Precisamos, sobretudo, ter orgulho de ser petista!” Jaques Wagner

https://www.facebook.com/jaqueswagneroficial/photos/a.507396309298464.1073741827.136224023082363/890597667644991/

(***) Ao início de 2010, entre perplexo e indignado, constatei termos passado a ser obrigados a hastear, ao lado da Bandeira Nacional – símbolo maior da Pátria – o pavilhão de uma entidade puramente comercial e aduaneira – o Mercosul – que não tem, para nós, brasileiros, um infinitésimo do significado de nosso lábaro estrelado, de nossa flâmula verde-louro.

A esdrúxula Lei Ordinária que criou tal absurdo – nº 12.157, de 23/12/2009, de iniciativa de um deputado petista – limitou-se a alterar o Art. 13 da Lei 5700 de 01/09/1971 (dispõe sobre os Símbolos Nacionais), que passou a ter a seguinte redação:

Art. 13.  Hasteia-se diariamente a Bandeira Nacional e a do Mercosul:

……………………………………………………………………………………………….

A palavra “Mercosul” não foi incluída em qualquer outro trecho da Lei 5.700. Ou seja, não se definiram “Mercosul” nem “Bandeira do Mercosul”, mas, do nada, impôs-se seu hasteamento ao lado da Nacional, o que vale a alçar tal galhardete a Símbolo Nacional, como o Hino, as Armas e o Selo!

Não bastasse tal heresia, eis que agora, na contramão do que ocorre na maioria dos países do mundo, suprimem-se do Passaporte as Armas Nacionais, substituídas pela logomarca do mesmo Mercosul.

Educado em escola pública, no alvorecer dos anos 50, quando o civismo era efetivamente cultuado no Brasil, nunca pensei que viveria para ver tal despersonalização de minha Pátria: inicialmente, a Bandeira Nacional – que é única! – posta em paralelo com outra, de uma associação de poucos países, de discutível representatividade internacional e futuro aparentemente pouco promissor, à qual supostamente não teriam acesso Estados não democráticos (???); e a seguir, a substituição das Armas Nacionais, no documento que nos identifica perante o mundo, pelo mesmo símbolo internacionalista, em flagrante descumprimento à Lei 5.700, sujeito a penalidades:

CAPÍTULO III – Da Apresentação dos Símbolos Nacionais / SEÇÃO III – Das Armas Nacionais

Art. 26. É obrigatório o uso das Armas Nacionais:

……………………………………………………………………………………………………………………………

X – Nos papéis de expediente, nos convites e nas publicações oficiais de nível federal.

CAPÍTULO VI – Das Penalidades

Art. 35 – A violação de qualquer disposição desta Lei, excluídos os casos previstos no art. 44 do Decreto-lei nº 898, de 29 de setembro de 1969, é considerada contravenção, sujeito o infrator à pena de multa de uma a quatro vezes o maior valor de referência vigente no País, elevada ao dobro nos casos de reincidência. (Redação dada pela Lei nº 6.913, de 1981).

Art. 36 – O processo das infrações a que alude o artigo anterior obedecerá ao rito previsto para as contravenções penais em geral. (Redação dada pela Lei nº 6.913, de 1981).

Jamais imaginei que viria a ser governado por indivíduos capazes de gesto tão desprovido de patriotismo, nem para me surpreender com a apatia da maior parte da população diante do feito. Teremos perdido a capacidade de nos indignar? Teremos esquecido as lições aprendidas e repetidas desde a infância, de que os Símbolos Nacionais devem pairar, altaneiros e únicos, acima de tudo e de todos que compõem a Nação brasileira?

Espero, ao menos, não viver o suficiente para constatar que essas absurdas mudanças sejam o prenúncio de outras piores: a substituição definitiva de nossas amadas Bandeira e Armas Nacionais por outras, provavelmente vermelhas, assemelhadas ao símbolo que o presidente   boliv(ar)iano ofertou ao Papa em julho/2015, representativas de uma possível URSAL – União das Repúblicas Socialistas da América Latina, a que o Mercosul em breve poderá dar lugar.

Mais se afigura tal possibilidade, à vista da criação, em 23/02/2010, pelos 33 presidentes de países da América Latina e Caribe, reunidos em Cancun, no México, à revelia da ONU e da OEA, de uma nova organização internacional de perfil esquerdista,  que inclui Cuba, restringe o ingresso de Honduras e deixa de fora Estados Unidos e Canadá: a Comunidade dos Países da América Latina e Caribe, que, ao que tudo indica, tentará implantar entre nós os sistemas marxistas-leninistas que o mundo civilizado lançou à lata de lixo da História junto com o Muro de Berlim, há 26 anos, em 09/11/1989, mas que Fidel, Lula e outros ressuscitaram oito meses depois, em julho de 1990, quando criaram o Foro de São Paulo – espécie de “V Internacional Comunista” centrada em nosso continente .

Diante de tal quadro, resta-me apenas evocar Castro Alves: Auriverde pendão de minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balança, / Estandarte que a luz do sol encerra, / E as promessas divinas da esperança…/ Tu, que da liberdade após a guerra, / Foste hasteado dos heróis na lança, / Antes te houvessem roto na batalha, que servires a um povo de mortalha!… (…) Mas é infâmia demais ! Da etérea plaga, / Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! / Andrada, arranca esse pendão dos ares ! / Colombo, fecha a porta dos teus mares !

Gil Cordeiro Dias Ferreira – Administrador – CRA/RJ 20-42893-6 – gil.ferreira@globo.com

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(****) http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-da-calote-em-fundo-do-mercosul–imp-,1726070

Brasil dá calote em fundo do Mercosul

Lisandra Paraguassu – O Estado de S.Paulo – 16 Julho 2015 | 02h 01

Brasil deve cerca de US$ 120 milhões e vai abrir a cúpula do bloco, que se inicia amanhã, sem poder definir quando vai zerar a conta

BRASÍLIA – Prestes a estender o prazo de funcionamento do Fundo para Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), usado para financiar obras de infraestrutura entre os países da região, o governo brasileiro acumula uma dívida de nada menos que US$ 120 milhões com o fundo.

Os dados constam de um levantamento feito pelo Itamaraty a pedido do senador Heráclito Fortes (PSB-PI), sobre todas as dívidas do País com organismos internacionais.

O documento, obtido pelo Estado, aponta que entre os débitos está o Focem, que financia obras estruturais, especialmente no Paraguai e no Uruguai. Foi com recursos do fundo, por exemplo, que se construiu a linha de transmissão de energia entre a Usina de Itaipu e a capital paraguaia, Assunção, com um custo de US$ 550 milhões.

O fundo é formado por recursos dos cinco países-membros plenos do bloco. O Brasil deveria entrar todos os anos com US$ 70 milhões; a Argentina, com US$ 27 milhões, assim como a Venezuela. O Uruguai aporta US$ 2 milhões e o Paraguai, US$ 1 milhão. O Brasil, no entanto, acumula dívidas com o Focem ano após ano. Até 2014, já eram US$ 97,07 milhões. Neste ano, o País deixou de pagar outros US$ 24,5 milhões.

Amanhã, tem início em Brasília a Cúpula do Mercosul. A intenção é mostrar que os últimos seis meses tiraram o bloco da inércia dos últimos dois anos. A renovação do Focem é um dos pontos centrais da cúpula e o Brasil anunciará sua intenção de levar adiante a renovação do fundo. Essa renovação foi prometida pela presidente Dilma Rousseff ao assumir a presidência do bloco, em dezembro de 2014.

A boa notícia, especialmente para o Paraguai e para o Uruguai, maiores beneficiários do fundo, vem manchada pela dívida do Brasil, responsável por 70% dos recursos do Focem. Em reais, o saldo negativo chega a R$ 375 milhões.

Renovação. Procurado, o Ministério do Planejamento, que é o responsável pela liberação de recursos para pagamentos de fundos internacionais, informou que a renovação do Focem está sendo negociada com os parceiros do bloco e que “os recursos a serem aportados pelo Brasil são operacionalizados conforme a programação financeira do governo e a necessidade efetiva do Fundo”.

O Estado apurou que a negociação está sendo difícil dentro do governo brasileiro, apesar da decisão da presidente, que costuma citar o fundo como um dos pontos positivos do Mercosul. O Planejamento resistia a uma renovação imediata do compromisso em um ano de parcos recursos.

Consultado, o ministério disse que o Focem é “importante para redução das desigualdades regionais” e defendeu “a importância de se caminhar no sentido de tornar esse Fundo mais eficiente e efetivo”.

Acordos. Depois de dois anos em que o bloco se concentrou mais em crises do que resultados práticos – entre elas a suspensão do Paraguai e a conturbada entrada da Venezuela -, nos últimos seis meses, o Brasil, na presidência, tentou acelerar a implantação de acordos comerciais discutidos, mas nunca implementados.

Pressionado pela necessidade de apresentar resultados nessa área, o Brasil levou adiante as propostas de acelerar a redução de tarifas com os países da Aliança do Pacífico, A intenção é tentar acelerar a criação de uma zona de livre-comércio entre os países da Associação Latino-americana de Integração (Aladi) até o fim de 2016 – a previsão inicial era apenas 2019 -, incluindo o México.

Uma das vitórias cantadas pelos diplomatas brasileiros é o horizonte definido para uma troca de ofertas para o acordo com a União Europeia, o que deve acontecer até o fim deste ano. Além disso, o Itamaraty também vai apresentar aos demais países do bloco a proposta da Índia de ampliar um pequeno acordo comercial já existente, de apenas 470 produtos.

Na cúpula de amanhã, quem assumirá a presidência do bloco é o Paraguai, um dos maiores interessados em acelerar todos esses acordos. Na visão de negociadores brasileiros, isso traz uma boa perspectiva para que o trabalho iniciado pelo Brasil seja mantido e o bloco pare de “discutir a relação” e se volte para a implementação das questões práticas essenciais aos países-membros.

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POR NOSSA VIRTUOSA INTOLERÂNCIA

Vania Leal Cintra – Tribuna da Imprensa/RJ em 20-05-2005

O que estrutura e mantém o desenho da ordem mundial não é outra coisa senão as Políticas de Estado articuladas às políticas de Mercado.

Subordinada aos interesses de Mercado, a Política do Estado apenas reforça os lugares predefinidos pela ordem. Uma Política de Estado voltada, ao revés, ao fortalecimento do Estado Nacional e às necessidades de desenvolvimento e bem estar de sua população é, no entanto, o único instrumento de enfrentamento da ordem que nos é adversa.

Elegendo Governos sucessivos cuja propaganda alardeia pretender alterá-la em nosso benefício, voltamos a ser o “celeiro do mundo”, exportadores de alguns produtos industrializados mas dependentes da “otimização” das empresas multinacionais, moldando nossas capacidades competitivas de acordo com a espécie e o número de botões que, nelas, nos permitem acionar. Como pretender acudir a nação brasileira se são parcos os nossos recursos e se nossas prioridades serão o desenvolvimento do Caribe, a balança comercial argentina ou a internacionalização da Amazônia?

Em vez de reclamarmos contra buracos nas ruas ou goteiras nos cinemas, contra a “falta de liberdade cidadã” tal como sadios e corados catalães puderam gritar, um dia, por não poder ver os filmes pornográficos que se exibiam em Perpignan, ou contra a arrecadação federal, em vez de aplaudir plebiscitos a respeito de quem pode ou não ter armas, inclusive o Estado — problemas que se solucionam com meras Resoluções, e que muitas vezes nem problemas são, são apenas o resultado de má administração de recursos, e outras vezes são os únicos dispositivos capazes de manter, apesar de capenga, a integridade do Estado Nacional — deveríamos nos levantar todos e nos mobilizar todos, antes que tudo, contra o absurdo § único do Art. 4º de nossa Constituição, que define nosso presente e nosso futuro determinando que busquemos, como Objetivo Nacional, “a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina” e que asfixiemos nosso progresso e nossa ordem na “formação de uma comunidade latino-americana de nações”.

Nenhum Constituinte em 1988 se lembrou de propor plebiscito algum sobre a questão da integração de nosso País a outros países de origem, características e interesses diversos dos seus, questão que nos adjetiva e que substantivamente nos afeta, todos. Não seria hora de que ela fosse esclarecida em todos os seus grãos e, em seguida, decidida efetivamente pela Nação Brasileira?

Nenhum Congressista dispõe-se hoje a propor a discussão de uma Emenda que elimine, pelo menos e definitivamente, esse instrumento maldito que, utilizado, e utilizado vem sendo, representa apenas o nosso consensual suicídio coletivo, instrumento que alguns puderam construir à nossa revelia, ou melhor, por sobre a nossa ignorância em assuntos básicos relativos à Política, à Soberania e ao próprio Mercado — Mercado esse que não se organiza através da intenção e da ação de anjos imaculados. Acabemos com ele, assim como Geisel, um dia, pôde romper um Acordo Militar celebrado com os EUA — por ser nocivo aos nossos próprios interesses.

Enquanto não definirmos quem somos, não haverá qualquer perspectiva de Brasil à nossa frente. Nenhuma política cultural, nenhuma política nacional. E o Brasil quer um assento no Conselho de Segurança exatamente para quê?

De nada resolve, tampouco, gritar contra a corrupção (todos os Governos do mundo inteiro são corruptos — a diferença é que eles são representativos de algo-qualquer nacional e os nossos últimos perderam essa característica, que é pragmática, não é “ética”); de nada resolve espernear contra vencimentos militares aviltados (se a intenção do Estado é manter apenas tropas auxiliares, que ganham em dólares, e, por dez tostões, uma Guarda Pretoriana que garanta Governos contra nós eleitos por nós mesmos! E se muito em breve os vencimentos da Reserva serão, provavelmente, desvinculados dos da ativa); de nada adianta choramingar contra impostos federais (como o Brasil poderá financiar o desenvolvimento dos vizinhos sem nos sangrar? Aonde nos leva apostar em políticas fragmentadas, municipais, se o nacional nelas desaparece? Por outro lado, de onde vem o orçamento federal, que mantém funcionários federais — FFAA, Educação, Saúde, Segurança interna, os que nos garantem a administração federal e nosso próprio desenvolvimento?).

A nossa intolerância com todos e com tudo é hoje necessária. E é, cima de tudo, virtuosa. Não só a intolerância com “os outros”, mas com tudo aquilo que possamos estar fazendo, nós mesmos, contra nós. A intolerância absoluta com a inércia, com o marasmo, com a conivência com nossos adversários reais e/ou potenciais, que nos querem ver aos pedaços, passou a nos ser, simplesmente, vital.          

  

 

 

 

  

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nesta sexta-feira (26), três ataques terroristas organizados por radicais islâmicos abalaram diferentes regiões do mundo. … Os três ataques aconteceram praticamente ao mesmo tempo em diferentes países de diferentes continentes: Europa, África e Ásia, respectivamente.” – http://noticias.r7.com/internacional/sexta-feira-de-atentados-terroristas-deixa-o-mundo-em-estado-de-alerta-contra-radicais-islamicos-26062015

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      Até hoje, ao que se sabe, o batismo e a fé nas palavras atribuídas a Jesus eram as condições específicas da cristandade. Reza a tradição que o próprio Cristo as colocou. Agora as condições já não serão mais estas. Na interpretação ou na opinião de Francisco do Vaticano, a condição para ser cristão será abdicar das armas. Os cristãos que delas não abdiquem estarão sendo “hipócritas”. Assim sendo, Francisco nos diz: “Nunca mais a guerra!”  (http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2015/06/06/papa-francisco-chama-de-hipocrita-quem-vende-armas-e-defende-a-paz.htm). Não se trata de um desejo, de uma esperança, de uma expectativa de Francisco – isso é uma ordem! Que, aliás, muita gente antes dele já havia tentado impor, inclusive querendo colocar a guerra, que tinha suas regras, fora da Lei. Não deu muito certo. A novidade é que essa ordem agora vem do Papa, o chefe da Igreja Católica Apostólica Romana. E, porque há razões e razões para uma guerra e bem sabemos disso, o mais interessante será que essas palavras nada mais significam senão que se exige dos cristãos ou, no mínimo, recomenda-se aos cristãos que se submetam às armas dos que não são cristãos ou às daqueles que se dizem cristãos… mas… seriam “hipócritas” porque de suas armas não abrem mão.

 

      Não vejo por que discutir aqui filosoficamente se nossas escolhas e nossos atos dependem ou não do que é chamado de “livre arbítrio”. De uma forma ou de outra, cada um de nós saberá exatamente em que deve crer ou em que quer crer, e o que deve ou quer defender. Eu cá, definitivamente, não reconheço qualquer autoridade em qualquer organização ou em qualquer dita liderança que pretenda colocar-se acima da autoridade soberana de meu Estado (que não é qualquer autoridade emprestada a alguém que faça parte do Governo brasileiro, é bom que o diga e é bom que bem me entendam). A nada mais me submeto, a ninguém permito pretender orientar meu pensamento, e que nenhuma organização, nacional ou internacional, nenhuma ONG, nem a ONU, nem líderes ou chefes de Estados quaisquer, nem “pastores de almas” de Igrejas quaisquer me venham dizer o que será ou não politicamente correto ou o que será ou não uma correta Política de Estado. Que todos eles cuidem do que lhes compete cuidar, estritamente nos limites de suas atribuições.

 

      Há cerca de um mês, o Vaticano anunciava que reconheceria oficialmente o Estado Palestino em um novo Tratado que há dias se celebrou. Do que Israel não gostou, é óbvio (http://www.brasil247.com/pt/247/mundo/186536/Primeiro-acordo-do-Vaticano-com-‘Estado-Palestino’-irrita-Israel.htm). Tratados são celebrados entre Estados, não entre indivíduos. O povo palestino existe. O Estado palestino, não. O povo judeu nunca foi reconhecido como um Estado antes que de fato o fosse. Uma vez que o Estado de Israel foi criado pela autoridade da “santa” ONU, os israelenses talvez devessem reconhecê-la. Sei lá, o problema não está posto para que eu o resolva. Daí que considerem interessante que a cristandade inteira ou toda a comunidade católica lhes exija que ouçam Francisco como uma autoridade superior no que se refere ao necessário para a segurança e a defesa de seu território são outros quinhentos mil réis. Como defendê-lo das pretensões inimigas sem contar com – e sem usar – suas armas (ou suas Armas)? O mesmo diria eu a respeito de meu Estado, cuja existência nada deve à ONU ou a quem quer que seja exceto aos brasileiros mesmos. Não tenho o poder de Barack Obama, que nem sempre ou quase nunca me cai muito simpático, mas, na minha insignificância, faço agora minhas as suas palavras, nas quais não será possível encontrar-se qualquer traço de hipocrisia: “normalmente, eu sou tolerante, mas não quando estou na minha casa!” (http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/06/obama-da-bronca-em-convidada-que-interrompeu-discurso-na-casa-branca.html). Enquanto só me ponho a imaginar que dirão os que se dizem cristãos e se identificam com os Estados que se vêem feridos pelo tal “Estado Islâmico”, que nada mais é que um bando de facínoras alucinados…

 

      Não freqüento Igrejas, nem religiosas nem leigas, mas até poderia pensar em reconhecer o Chefe do Vaticano como uma autoridade merecedora de respeito assim como devo reconhecer a autoridade de Elizabeth II sobre os anglicanos ou a do Aiatolá Khamenei sobre os muçulmanos xiitas. Fato é tudo aquilo que fato é, e nada tenho, tampouco, a ver com isso. Mas a uma autoridade é preciso saber impor-se enquanto tal. O atual chefe da Igreja Católica Apostólica Romana cada vez mais se excede em proselitismo laico, enquanto continua sendo, no mínimo, muito suspeito que o Vaticano pretenda colocar-se acima dos Estados nacionais reservando-se um mais estranho ainda status – o que lhe permite ser reconhecido como um Estado soberano sem que aceite ser reconhecido como uma organização política e um poder político. A meu ver, isso, sim, é hipocrisia. Que assuma, pois, a sua vocação imperial. Ou pare de meter-se em assuntos políticos alheios à sua esfera de competência.

 

      Quando a Igreja Católica resolveu dedicar-se ostensivamente, de corpo e alma, a fazer proselitismo político, há algumas décadas, o que conseguiu foi amesquinhar sua alma e minguar seu corpo. Metendo-se no que não lhe concerne, perdeu o respeito reverencial de que gozava e tornou-se cada vez mais vulnerável. E, desovando palavras-de-ordem de inequívoco teor político por onde passa, o que seu atual Chefe dito espiritual, o argentino ex-peronista que hoje a lidera (ah, esses “ex”…), parece pretender é investir nesse desvio e ser reconhecido como um líder político no sentido estrito do termo, um “re-vo-lu-ci-o-ná-rio”, seja lá que significado isso assuma, possa vir a assumir ou possa ser entendido como assumido em sua voz.

 

      Não freqüento Igrejas, nem religiosas nem leigas, já disse isso e repito, mas, francamente, só tenho a lastimar que a Igreja Católica tenha tomado esse caminho, não só porque muita e muita gente precisa de fato de guias com algum bom discernimento para conseguir encontrar a diferença entre o que é correto e o que é errado, como porque há muita coisa bonita e muito mais útil e mesmo muito mais necessária a ser feita, em benefício dos enfermos, dos idosos e das crianças e adolescentes carentes de tudo, que pregar uma re-vo-lu-ção, seja lá o que isso queira dizer. Portanto, nada do que Francisco vem dizendo merece o meu respeito. Mas tudo merece minha atenção, uma vez que é uma figura pública de considerável projeção internacional.

 

      É nessa condição que Francisco, um indivíduo inequivocamente de arraigados valores e fortes convicções, na intenção resolver situações que provocam os gemidos da irmã terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, com um lamento que reclama de nós outro rumo”, pontifica que “há necessidade de construir lideranças que tracem caminhos, procurando dar resposta às necessidades das gerações atuais, todos incluídos, sem prejudicar as gerações futuras”. E qualquer um de bom senso concordará com isso. Mas, por isso, e porque “O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor“, Francisco acha por bem sugerir que a Amazônia, onde se encontra pouco menos de 50% do território brasileiro submeta-se (e também a bacia fluvial do Congo, os grandes lençóis freáticos e os glaciares)  a “um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas, antes que as novas formas de poder derivadas do paradigma tecno-econômico acabem por arrasá-los não só com a política, mas também com a liberdade e a justiça(http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.pdf). E, na maior desfaçatez, dedica-se a fomentar a organização de uma nova forma de poder político, tido por moral em sua essência, que não poderia ser limitado por nenhuma forma de poder nacional”, unindo-se aos “movimentos sociais de esquerda e as ONGs ambientalistas e indigenistas nacionais e internacionais” (conforme muito bem aponta Dennis Lerrer Rosenfield – http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-papa-e-a-amazonia,1715256). Com o que também, por certo, deveríamos, ou deveriam os cristãos concordar pacificamente... Por que não? Talvez alguém devesse perguntar se a bacia fluvial do Prata e muitas outras mais bem situadas também não deveriam incluir-se nesse grandioso projeto civilizatório. Por que não, também?

 

     Do alto do cargo vitalício de que goza na alegria e no louvor, cargo que obteve de forma nada democrática, o atual chefe do Estado do Vaticano e da Igreja Católica Apostólica Romana, exercendo o efetivo poder ideológico que qualquer fé em qualquer absoluto confere, manipula consciências e influencia as decisões políticas por meio de discursos “diplomáticos” que, presume-se, serão reverberados pelas agências do sui generis Estado apostólico fincado em território europeu por todos os escalões de sua hierarquia burocrática em todas as partes do mundo. Com a desenvoltura irresponsável de quem estivesse sobre um caixote de feira à porta de uma fábrica convocando a uma “manifestação” contra o aumento da passagem de ônibus, lança seu discurso “solidário” (solidário com quem, exatamente?) incitando uma tradicional “comunidade de fiéis” a que tome atitudes que extrapolam qualquer limite espiritual e religioso, a que desrespeite nossas fronteiras políticas, a que apóie quem as atropela.

 

      É fato que Francisco usa e abusa de franquia universal que lhe é concedida a pretexto da fé cristã. A meu ver, sua atitude apenas abala ainda mais a consideração que o Vaticano poderia merecer dos comuns dos mortais e das demais organizações nacionais ou internacionais, eminentemente religiosas ou não, eminentemente políticas ou não. O que não é exatamente a minha preocupação. A minha preocupação se resume a que, considerando-se o já não tão grande, mas ainda imenso número de católicos que temos no País, comportando-se Francisco como um típico Papa de passeata, aos graves problemas que já tínhamos e temos a enfrentar e aos fatores que concorrem às constantes e crescentes desestabilização política e falta de perspectiva da população, e eles não são poucos, acumula-se mais um. Que é grande e gordo. E arrasta multidões. 

 

      Estará Francisco tentando impor, à maneira de sua personalidade prepotente por sua própria natureza, a tão utópica paz universal? Isso é algo que ninguém logrará cutucando onças com varas curtas. Pretenderá estimular o martírio, que já produziu tantos santos, para aumentar o número deles? Deseja dar fim à sede e à fome que assolam o mundo com gotas  de água benta e de saliva,  propagandeando as qualidades nutritivas da “folha sagrada da coca” (http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2015/06/28/papa-francisco-planeja-mascar-folhas-de-coca-na-bolivia-diz-ministro.htm)? Ou sua intenção será apenas pôr-se à luz dos refletores?

 

      Que o Papa, os Cardeais, os Bispos, os Curas de paróquia, como bons cristãos que dizem que são, pretendam assegurar a Deus o que de fato acreditam ser de Deus. É seu ofício e pode ser entendido como sua missão. Pressupõe-se que essa seria a finalidade da Igreja ou “comunidade” que representam, aquela que eles têm o compromisso de preservar. Pois então que não só eles como todos os demais “guias”, “gurus”, “pastores de almas” que se crêem capacitados a apregoar verdades absolutas e indicar o caminho da salvação eterna entreguem a Cesar o que é de Cesar. Ou qual seria exatamente a finalidade do apostolado?

  

      Ah, que saudades de Ratzinger, que sabia manter a compostura… e contribuía com deixar o mundo, se não mais justo, pelo menos mais sério, mais coerente, portanto, menos assustador. Ou menos asqueroso.

  

 

 

 

 

 

  

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

  

 

 

     

     No começo deste mês de junho, o presidente da Assembléia Nacional venezuelana desembarcou no Brasil não-oficialmente e, portanto, após ter desembarcado, ao passear pelas ruas, não teria gozado ostensivamente da proteção do governo brasileiro. Se Diosdado Cabello veio até aqui, alguém o terá convidado. Fez algumas visitas, falou com algumas pessoas, entre elas Lula da Silva e as lideranças do MST, talvez se tenha regalado com uma boa buchada de bode e foi embora. Ninguém me perguntou, mas direi: não gostei dessa visita. Nem um pouco.     

 

     Dias depois, nesta semana agora, senadores que se dizem de oposição ao governo de nossa República atenderam a um convite feito pela oposição à situação venezuelana. Um deputado do Sergipe (João Daniel-PT), que participa da comitiva de grupos de movimentos sociais brasileiros que se encontram em Caracas, terá afirmado, em entrevistas ao canal de televisão do governo venezuelano e a O Estado de S.Paulo (http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2015/06/19/para-petista-em-caracas-senadores-de-oposicao-desrespeitaram-governo-de-maduro.htm), que a visita dos senadores brasileiros da oposição ao governo Rousseff aos opositores do governo Maduro teria sido “oportunista“, que eles estariam fazendo “um ato político contra o governo da Venezuela, o que é lamentável“, e, por tentar visitar os opositores da política praticada na sede bolivariana que já se encontram atrás das grades, essa visita serviria apenas para “desgastar o governo democrático”.

 

     Astuto, esse rapaz. Rousseff, que, quando quer, também sabe ser bastante ladina, logo percebeu, por sua vez, que essa visita dos senadores a Caracas teria “um viés político”. Mas… e a visita de Diosdado Cabello ao Brasil, que não foi “oficial”? Ou teria sido? Ela também teria tido “um viés político”? Ou não, e foi apenas um passeio?

 

     Nada tenho contra o roteiro turístico oferecido aos nossos senadores. Afinal, estamos no Outono, faz frio por aqui, e em Caracas é plena Primavera, quando os passarinhos gorjeiam e pulam de galho em galho. Os senadores até poderiam ter tido a sorte de, entre eles, encontrar o Chávez. Nada tenho a ver com isso e nada tenho contra, mesmo que eu, que não sou lá muito criativa, não consiga imaginar que é o que poderiam fazer de bom por lá, se muito pouco ou quase nada fazem eles por aqui.

 

     Pelo mesmo motivo – porque não sou lá muito criativa – não entendi também por que cargas d’água aquele nosso ministro de só-deus-lá-sabe-quê resolveu ser pródigo e lhes cedeu um de seus aviões com seus tripulantes – aqueles, que nós, simples mortais, imaginamos que são os da FAB. Não, também, que eu tenha algo a ver com isso, mas… a FAB tem poucos aviões, tem pouca gasolina, tem poucos recursos e tem muito mais a fazer que levar senadores a passear. Mesmo que estejam com coqueluche. É o que eu acho.

 

     Muito menos entendi por que cargas d’água ele mesmo, o ministro, intermediou esse passeio para que um encontro fraternal entre as oposições de ambos os Estados amantes do realismo bolivariano se fizesse, empenhando-se em prometer de público aos senadores brasileiros que eles teriam garantido o “direito a livre circulação no país vizinho” e poderiam “visitar as famílias dos políticos venezuelanos que estão presos e também conversar com membros da oposição que estão em liberdade” (http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/40730/).  

 

     Pois bem. O que o ministro prometeu, o ministro não cumpriu. Não cumpriu porque nem pretendia cumprir, tal como muitas coisas que possa vir a prometer, nem poderia ter prometido – ou soaria como uma ameaça ao governo vizinho caso os termos acordados não fossem cumpridos. E porque isso foi prometido mas nem por isso foi cumprido, aquela leva de senadores brasileiros voltou pra casa também “sem cumprir agenda”. Segundo nota expedida pelo Itamaraty – que lamentou os incidentes que “prejudicaram o cumprimento da programação prevista” e afirmou que “são inaceitáveis atos hostis de manifestantes contra parlamentares brasileiros” (http://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2015/06/18/itamaraty-diz-que-atos-contra-senadores-na-venezuela-sao-inaceitaveis/) entre os quais se incluíram pedradas – os senadores teriam sido “retidos no caminho devido a um grande congestionamento … ocasionado pela transferência a Caracas, no mesmo momento, de cidadão venezuelano extraditado pelo Governo colombiano”. Coisas venezuelanas, que se referem aos venezuelanos. Explicadas elas foram e explicadas elas já estão. Que mais esclarecimentos poderá exigir o Itamaraty do governo de Caracas?

 

     Mas, por ter sido assunto tratado pelo ministro do Estado brasileiro entre o Governo da Venezuela e os nossos viajantes, que são senadores da República brasileira, a visita por eles feita poderá ser considerada… “oficial”… Ou não? E o descumprimento dos termos acordados poderá ser considerado uma afronta ao Estado brasileiro…

 

     Então, tendo sido afrontado o Estado brasileiro nas pessoas dos senadores e do ministro, nenhum míssil, com certeza, será apontado para Caracas, mas, sim, resolve-se a questão bolivarianamente: enviando-se outro avião da FAB com uma segunda leva de senadores da nossa República a visitar a Venezuela (http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/40748/senado+brasileiro+aprova+ida+de+nova+comissao+a+venezuela.shtml ). Será agora uma leva de senadores da oposição à oposição à situação de nossa República. É evidente que merecerá voar pela FAB. A primeira leva não mereceu? E essa segunda leva será enviada exatamente para quê? Ora, para que volte após “cumprir agenda”… E tudo estará resolvido.

 

     Ou não. Nunca se sabe. E aí, eu, que já sou um bocado, ponho-me ainda mais curiosa, tentando entender o que não é para ser entendido: deveríamos apresentar uma terceira, uma quarta, uma quinta leva de senadores?

 

     Muito bem: se nada de sério nossos senadores encontram a fazer por aqui, que aproveitem o tempo vago. Não, também, que eu tenha algo a ver com isso, mas… as coisas são como elas são. Que se organizem, façam fila, garantam a senha e a vez. Que se entupam todos de pabellón criollo, que tirem muitas fotografias, que tragam muitas lembranças boas ou amargas… Só acho que deveriam fazer tudo isso e o céu também por conta própria.

 

     E fico pensando cá comigo mesma: um abraço solidário, seja mais, seja menos bolivariano, a gente pode enviar pelo correio. E, levando em conta o balanço da marola que tão surpreendentemente vem crescendo ao sabor dos ventos, e todos os ajustes necessários para que possamos continuar flutuando, por que os senadores de nossa República, essa coisa de brasileiros que deveria referir-se aos brasileiros, não se comportam um pouco menos bolivarianamente, não fazem uma vaquinha entre os interessados em conhecer a Venezuela antes que ela acabe, e, fretando um ônibus, vão a Caracas, todos eles, durante o recesso de julho que começa de hoje a menos de um mês? Poderiam alugar o da CBF.

 

     Numa dessas, viajar de ônibus é mais seguro, mais instrutivo, mais divertido, mais confortável. Eles poderiam ir parando de vez em quando, conhecendo o território, tomando contato com o povo… Para os cofres públicos, ou seja, para todos nós, poderia ser bem menos oneroso. E evitaria esses problemas esquisitos todos, que não deixam de ser desagradáveis, que podem perturbar e incomodar a tranqüilidade das cabeças bem pensantes, que preferem inovar, não se atendo muito às funções e às tradições diplomáticas e das Armas, voltando-se prioritariamente à construção da paz e de uma nova ordem, seja ela mais ou seja menos bolivariana, tanto faz. Além de que, assim, poderíamos, pelo menos, aceitar a intempestiva e impertinente visita que recebemos de Cabello como se fosse uma gentileza, não uma agressão. E tudo nos pareceria menos acintoso, menos desaforado, menos absurdo…

 

     Não acham, não? Eu acho. Mas devo estar errada. Como sempre estive. E sempre hei de estar.

  

 

 

 

 

  

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A ALTERNATIVA

26-05-2015
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

      Senhoras e senhores, respeitável público.

 

     Observemos com atenção que muitos dos “guerreiros do povo brasileiro” entram agora em nosso picadeiro parecendo já ter compreendido que a população brasileira, aquela que é real, de carne e osso, já percebeu que o projeto do PT era pura demagogia.

 

     Esta poderá até ser uma avaliação precipitada e equivocada – devemos considerar, pois eles são craques nas artes da dissimulação e da vitimização – mas… indícios não faltam. Um deles é a debandada dos Senadores petistas, com suas respectivas bagagens, rumo a outras agremiações partidárias. Mais um seria a proposta de “formação de uma Frente de Esquerda por mais democracia e direitos com partidos, movimentos e novos coletivos”, apresentada no documento “o PT não matará o petismo” (http://opetismovive.strikingly.com/). Outro, a tentativa dos “intelectuais” desse Partido de atribuir a perversa desorganização absoluta da economia nacional a “uma conspiração em marcha para desestabilizar o governo” (http://www.brasil247.com/pt/247/economia/170699/Em-manifesto-intelectuais-denunciam-golpe.htm). Outro mais será a declaração muito magoada de Marco Aurélio Garcia, ao ver o Congresso do Partido esvaziado mesmo no dia em que era prevista a presença de Lula da Silva. Diz Garcia: “Isso significa que perdemos a batalha política. Significa que não conseguimos ganhar politicamente aqueles que foram os grandes beneficiários das nossas políticas de inclusão social. Isso é sim responsabilidade do governo, mas é muito mais uma responsabilidade do nosso partido.” (http://oglobo.globo.com/brasil/congresso-do-pt-marcado-pela-ausencia-de-militantes-criticas-ao-governo-ao-partido-16246721#ixzz3b4qc9izt). E por aí vão as coisas.

 

       Ao mesmo tempo, temperando um pouco o malabarismo insosso do individualismo sem fronteiras, aplaudido entusiasticamente por muita gente, e em virtude do qual muita gente ainda acredita que basta gritar para si mesmo “eu tenho a força!” que seu pequeno universo estará protegido, os brasileiros começam também a descobrir (ou alguns talvez a redescobrir) que existe vida além da medíocre vidinha de cada um – ou seja, que existe uma vida coletiva, a da coletividade nacional; e não me refiro à “participação dos cidadãos” em passeatas, panelaços e quebra-quebras, mas à incipiente percepção de que indivíduos não só mantêm contatos reais, além dos virtuais, como são levados a criar vínculos diretos e indiretos de identidade e interdependência com aqueles que os cercam na Sociedade em que tentam sobreviver, Sociedade à qual pertencem, quer queiram, quer não; e, assim, é possível que descubram que nada são e nenhum direito terão enquanto indivíduos caso essa Sociedade não conte com valores corretos e com meios corretos a sustentá-la.

 

      Na intenção de que algum dia mais possamos desfrutar do espetáculo que se encontra em cartaz há muito mais tempo que os 25 anos nos quais “O Fantasma da Ópera” conseguiu manter-se na Broadway, insistirei aqui no mesmo assunto em que venho insistindo há décadas, embora bem saiba que isso será inútil. Pensem bem: a coletividade nacional não tem consciência do significado de correto ou de errado. A coletividade não tem consciência do significado dos valores nem do significado dos conceitos. A coletividade não tem consciência alguma. O que possa ser justo ou injusto, o que seja ou não seja ético, legítimo ou não etc. etc. – conceitos que vêm sendo bastante discutidos entre os que são e os que apenas se julgam muito capacitados a discuti-los – é, realmente, importante quando tratamos das vidas particulares, cada uma delas imprimindo o reflexo de pensamentos, palavras e obras na vida dos demais e, portanto, na do conjunto da Sociedade. Há, porém, outros dois conceitos, o de correto e o de errado, nos quais deveríamos muito refletir quando pensamos nessa vida do conjunto de nossas vidas, a vida coletiva. Apenas nós, indivíduos, cada um de nós, poderá definir o que possam significar esses conceitos. E projetar esse entendimento à vida coletiva, que, por sua vez, imprime seu reflexo na vida de cada um dos indivíduos.

 

      De minha parte, estou convencida de que errado nada mais é que aquilo que nos faz mal, o que nos produz danos, e correto será o que nos faz bem – e aqui, estamos considerando, evidentemente, o bem comum, o bem coletivo. Mas bem sei que, embora não pareça, costumo simplificar em excesso todas as coisas. Talvez elas sejam bem mais complexas, tal como alguns dizem que elas são. Feita essa ressalva, diria, então, que há muitos caminhos que nos levam ao que estará errado. Ou seja, para alcançarmos o errado há caminhos alternativos. Todos eles serão caminhos errados. Já o correto não oferece alternativa – o que é correto é correto, e todo o resto será errado e nos há de danar. Nenhum caminho será uma alternativa ao bom caminho, ao caminho correto, que, para que seja considerado correto, dependerá primordialmente de aonde e/ou a que ele nos levará. Será correto o caminho que nos levar ao objetivo correto pelos meios corretos. Não nos basta, porém, conhecer e repudiar alguns caminhos errados para encontrar aquele que poderia mostrar-se como sendo o correto.

 

       E digo isso, que me parece óbvio, a pretexto de dois vídeos que recebi no Facebook. O primeiro deles se encontra em https://www.facebook.com/matheusbrazmatt/videos/453085064845485 . É um horror! Quem o divulga comenta: “Este vídeo é uma relíquia. Foro de São Paulo em Porto Alegre, 1997. Lula, Dirceu, Stédile e Marco Aurélio Garcia. Todos juntos.” E cita Schopenhauer: “Toda verdade passa por três estágios.  No primeiro, ela é ridicularizada.  No segundo, é rejeitada com violência.  No terceiro, é aceita como evidente por si própria.

 

       Para profetas e prosélitos da Santa Madre Esquerda, que nos apontam seus ensinamentos como o único caminho da salvação, realmente esse vídeo será uma relíquia. Por que seria? Que significa relíquia? Vamos ao dicionário mais disponível – o Houaiss do UOL. “Relíquia” significa “o que resta do corpo dos santos“; por extensão, será o “nome dado aos objetos que pertenceram a um santo ou que tiveram contato com seu corpo”; é também “coisa preciosa e mais ou menos antiga, à qual se dedica grande estima” ou “pessoa ou coisa que se respeitou ou admirou”. 

 

       Os ímpios apenas farão coro aos crentes caso, para eles, a linguagem nada signifique. O que é um desatino. E será um desatino porque não apenas os olhos, mas também as orelhas são portas permanentemente abertas ao cérebro. Qualquer ouvido, mesmo que desatento, sendo minimamente afinado com qualquer ambição nacional, sentir-se-á ofendido pela voz do narrador desse vídeo; em cima disso, outras vozes, mesmo que sem pretender macarronar o Português, ao apelar à nacionalidade e ao exaltar o acendrado nacionalismo da Esquerda, arrepiarão o couro de qualquer jacaré, seja ele do pantanal ou urbano, por mais alienado que possa ser.

 

      Como já disse, o vídeo, ou, melhor, o conteúdo do vídeo é um horror. Mereceria apenas a lata de lixo como destino. Convenhamos: ou essa gente que nele aparece faz, de fato, da desonestidade um meio de vida ou é uma gente muito e muito burra… Mas, se esses discursos todos estão sendo divulgados por quem imagina estar divulgando informação e apenas pretende nos fazer um alerta, estaremos recebendo um recado errado. Quem não sabe o significado das palavras não saberá usá-las e não saberá dar um recado. E esse vídeo terá lugar entre as “nossas relíquias”, como “relíquia” estará gravado em nossas mentes, e seu recado, o do vídeo, em linguagem indefinida, mais dia, menos dia, será uma verdade “aceita como evidente por si própria”.

 

       Pondero, no entanto, para que não fiquemos apenas em denúncias, embora as denúncias estejam na moda; e não que estejam na moda como um estilo, uma cor, um ritmo, uma gíria, pois denunciar se transformou em “método” destinado a dar a impressão ao denunciante de que ele participa ativamente da vida política do país, e alguns inclusive crêem que também seja um “método de luta”…  Pondero, pois, o seguinte: por mais absurdas que sejam as mentiras em que o PT e outros Partidos e forças de Esquerda possam ter-se alicerçado e afirmado no cenário político nacional, no vídeo há um detalhe ao qual quase ninguém dará atenção, uma definição, um esclarecimento que nos é oferecido por Lula da Silva (mas… será que fazia falta, mesmo, esclarecer?). Diz ele que o Foro de São Paulo é uma “alternativa ao projeto de integração que nós queremos para o nosso continente … ao projeto de integração do neoliberalismo”.  

 

      O liberalismo é uma ideologia avessa ao comunismo (ou ao socialismo, como queiram) – e vice-versa. Ambas são cruéis, são truculentas, e, não respeitando fronteiras administrativas em nome de um “princípio”, afastam o controle de iniciativas e de resultados para muito longe de nosso alcance. Ou seja, arrancam esse controle da população que se vê afetada por decisões a respeito das quais não lhe é dado opinar. Uma alternativa política é uma alternativa de poder – exige um projeto voltado a dado fim que se revele como um poder alternativo. Os únicos projetos de que temos conhecimento, que disputam espaço na Política nacional, são projetos de integração supranacional, são projetos oferecidos por poderes supranacionais, seja o dito neoliberal, seja o dito (neo-?)socialista, qualquer que seja o número de suas correntes e tendências subsidiárias, das mais às menos radicais.

 

     Se pretendemos ter o controle de nossa vida política e, por decorrência, de nossa vida econômica, esses projetos são caminhos errados que nos estão sendo oferecidos. A finalidade de ambos é a eliminação do poder nacional e a sujeição dos recursos nacionais ao bom êxito dos negócios celebrados e a celebrar além-fronteiras. E isso não é tese – é fato. Não encontraremos qualquer finalidade alternativa. Alternativos são os meios e os métodos visando a esse mesmo fim, são os caminhos que não se truncam mutuamente, e a demagogia explícita dos indivíduos que se organizam em diferentes grupos para defendê-los termina por unificá-los todos – os que nos levam do nada a lugar nenhum e os que nos levam do lugar nenhum ao nada.

 

       Nenhuma integração supranacional nos será necessária, muito menos será fundamental para que por aqui se plantem mais árvores, para que menos lixo polua as águas e os ares, para que o acesso à saúde, à boa alimentação, à boa escola se garanta a todos, para que os governos se demonstrem sensíveis às nossas necessidades, para que haja desenvolvimento e se produza bem-estar social, para que se façam bons acordos, um bom comércio, o intercâmbio de conhecimento etc. etc. entre o nosso país e os demais países. Muito pelo contrário. Nenhuma consciência supranacional nos dará mais consciência do que nos é vital. E se a nenhum interesse público a integração supranacional visará, nenhum ideal elevado nos vêm demonstrando os indivíduos nacionais que defendem uma integração supranacional, esteja ela sendo costurada do jeito que for. A finalidade que perseguem é conquistar status não só na politicagem local como na internacional e garantir seus interesses particulares. Isso também é fato, não é tese. Atentos a suas particulares oportunidades, por particular conveniência, pouco lhes importa que questões nacionais estejam ausentes dos projetos com que iludem a população. Para nós, brasileiros, qualquer um dos projetos que se vêem em pauta, defendido por qualquer dos grupos (neo-?)socialista ou neoliberal, será uma alternativa de coisa nenhuma a coisa nenhuma.

 

       Poderíamos até considerar que houvesse um terceiro projeto insinuando-se na Política nacional – o da fragmentação de nosso território, conferindo poderes soberanos às províncias que foram denominadas “estados” por uns doidos varridos, sem qualquer apoio em nossa História, no momento da proclamação da República. Só um idiota proporá que se mate e se enterre um Estado nacional sob pretexto de que os indivíduos que estejam e, eventualmente, perpetuem-se no Governo não prestam e não correspondem à expectativa da população. Mas há um bom número de idiotas apostando na dissolução da integridade nacional, que é e sempre foi a nossa força, como se fosse uma solução. Seria uma solução interessante apenas para aqueles que pretendem obter maior facilidade para o êxito de qualquer dos dois projetos anteriores.

 

       E, assim, muito facilmente poderemos compreender que e por que, hoje em dia, nós, brasileiros, não temos, de fato, qualquer alternativa. Porque, para pensar nos problemas que nosso país enfrenta e resolvê-los com um mínimo de racionalidade e eficiência, é preciso pensar, em primeiro lugar, em ter poder e pensar em resolver como obtê-lo. Defender o nacional não significa isolar-se do mundo ou afrontar o estrangeiro – significa apenas defender o nacional na sua integridade, procurar conhecê-lo em profundidade, respeitar o processo que o formou, encarar a realidade e definir prioridades de forma conseqüente, significa não deixá-lo à disposição de interesses escusos, suspeitos, errados. Para pensar nos problemas de nosso país e tentar resolvê-los com um mínimo de racionalidade e eficiência, será preciso escapar daqueles caminhos que, na verdade, são trilhos que nos levam, ambos, em paralelo, de forma até mesmo complementar, apenas ao abismo. O tal 3º projeto apenas age como um vagão limpa-trilhos anexado à composição que nos vem atropelando, desembestada, nos últimos tempos.

 

       Apesar de estarmos soterrados em infinito número de problemas decorrentes do prestígio que nossa população ignorante vem concedendo aos demagogos profissionais, somente compreendendo essa equação chegaremos ao nosso real problema: nosso real problema é exatamente esse “não ter alternativa”, é ainda não ter encontrado a alternativa que se expresse em palavras corretas e em um correto programa de ação. É fato, não é tese, que não estamos sendo capazes de sequer alinhavar uma só proposta de fato alternativa às desses dois ou três projetos que se disfarçam em vários para brindar com variedade de cores, plumas e paetês a vaidade de ditas “lideranças partidárias”, mas, ao final, serão um só, que se coloca contra nós. Sem discutir propostas, muito menos seremos capazes de alinhavar um projeto alternativo. Derrapamos hoje em cada vez mais denúncias de corrupção daqui, de prevaricação dali, mas estamos há muito tempo atolados, metidos de corpo e alma num só lamaçal que nos vem cegando por completo; e, sem vislumbrar qualquer escapatória, insistimos em nos agarrar às mesmas correntes infectadas de parasitas que já nos foram lançadas por todos aqueles que prometiam nos salvar. O que também é fato, não é tese.

 

     E pensar que depende apenas de nós esse projeto, de que decidamos arquitetá-lo, e tudo mais dependerá apenas de nós – como tudo, de fato, já vem dependendo apenas de nós, mesmo que tudo esteja errado. 

 

     Mas, que tudo esteja errado já não nos surpreende, considerando-se que a metade de nossa população não é capaz de imaginar um Brasil concreto, real, pois nem sequer saberá localizar seu território projetado em um mapa-múndi (http://www.linguagemgeografica.com.br/noticiaisgeo/). Ou seja, para essa metade da população, o território brasileiro não existe. Se o território não existe, que mais existirá? Nada. O Brasil será apenas uma narrativa, nada mais, uma narrativa que se encaixa no “realismo maravilhoso” ou “fantástico” ou “mágico”… “latino-americano”… A outra metade da população apenas saberá colocar-se perplexa e inerte. Mas… ela se mobiliza, está fazendo movimentos! Sim, mas de forma errada, na direção errada. Por isso mesmo não encontramos alternativa. Impossível encontrá-la.

 

     Não temos alternativa porque não há indivíduos dispostos a unir-se e a organizar-se tendo por objetivo primordial solucionar nossos problemas reais, nacionais, indivíduos que apenas depois de que, pelo menos, alinhavem um projeto viável para o país como um todo – não antes – decidam lançar a público suas idéias para que elas possam ser vistas e defendidas como fator de poder – não para que eles, indivíduos, sejam vistos e defendidos; não temos alternativa porque não temos uma Inteligência nacional, porque apenas adotamos e nos submetemos a projetos desenvolvidos e articulados por aqueles que são estranhos a nós em prol de suas próprias ambições; não temos alternativa porque não encontramos na realidade nacional razão e finalidade suficientes, porque não somos capazes de compreender que precisamos e devemos nos defender, porque o mundo é o que ele é, não o que deveria ser, nem somos capazes de identificar aqueles de quem nos devemos defender.

 

      A contribuir com o marasmo coletivo, a composição que nos atropela, lotada de pretensos iluminados “cidadãos do mundo”, conseguiu, com muito pouco esforço e nenhum desgaste, que a nossa própria Constituição que, em tese, é a Constituição do Estado brasileiro, decepasse nossos pés e nossas mãos e nos tapasse a boca. Porque, conforme ela mesma reza, “devemos” buscar essa “integração econômica, política, social e cultural”, portanto, uma integração administrativa, com “os povos da América Latina” (quem são?) por qualquer meio, “visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”. Assim nos comprometemos com o que nada-e-ninguém antes na história deste país jamais se atreveu a insinuar ser possível, nem sequer o tão celebrado Mercado, nem sequer o tão endeusado Bolívar, muito menos este, que muito nos respeitava; a idéia é tão mais absurda até mesmo porque, por mais que as ex-colônias espanholas possam parecer aos olhos externos semelhantes entre si – e nem tanto assim elas são -, o Brasil, ele inteiro, excetuando-se os últimos governos, é bem outra coisa econômica, política, social e cultural. Sempre foi. Ainda é. Que diabos, afinal, justificaria esse repentino “desejo” de integração? De onde vem ele?

 

     E nenhuma reforma engendrada em um Congresso bichado trará ares de saúde a um sistema político cujo princípio mesmo está bichado. Consideremos que a razão do Estado republicano é nacional, não haverá qualquer outra que, teórica ou concretamente, justifique a formação e a soberania do Estado. “Comunidades políticas” plurinacionais não são “alianças” acertadas entre unidades soberanas – as “comunidades políticas” serão, sim, “impérios”, terão um centro decisório, ela, a “comunidade”, será soberana, ainda que as unidades se revistam de um regime de governo republicano formalmente democrático.

 

     Já o Mercado nunca obedeceu fronteiras desde que o mundo é mundo e sempre lhe foi conveniente fragilizar o poder nacional, que é eminentemente político, ou mesmo tentar sobrepor-se a ele. Por ser político, ou seja, por ser poder, sendo correto, o Poder nacional ou seja, o Estado, interferirá nas questões de Mercado e buscará adequá-las ao caminho correto. Se for correto. O Mercado nunca foi, não é e nunca será de Esquerda – é até divertido imaginar um “Mercado comunista” ou “socialista”, se preferirem, no qual se eliminasse, mesmo que em tese, o tal do “fetiche da mercadoria”… Mas, uma vez que se entenda que o Capital não tem pátria, que o objetivo do Mercado, especialmente o financeiro, é produzir lucro pelo lucro e o objetivo do Estado é (ou deve ser) outro, não será tão difícil entender a coincidência de interesses entre Esquerda e Mercado.

 

      A nossa integração econômica, política, social e cultural, a nacional, seria uma ambição correta, apenas nos faria bem ver todo esse nosso território que nos é tão pródigo harmoniosamente desenvolvido. O que vemos em nós e de nós, porém, é o empenho, quase um desesperado esforço em diluir a unidade nacional, com o que colaboram grupos “étnicos”, de “gênero” e todas as coisas que os valham. Uma identidade coletiva é alicerçada em valores coletivos, não se compõe de particularidades individuais, por mais que a elas se reconheça o direito, e a integração supranacional, que exige uma identidade supranacional, é uma proposta errada que poderá interessar a quem quer que seja, mas, a nós, brasileiros, os que somos brasileiros de fato e de direito, que nos damos ao luxo de ainda permitir que se questione a nossa própria integração, ela nunca poderá interessar. Só nos poderia interessar caso fôssemos realmente uma potência inconteste – cultural, econômica, financeira e militarmente – e tivéssemos os meios para e a intenção de enquadrar a América do Sul (México e Caribe são outríssimas coisas) “unificando-a” sob a nossa influência. Não temos estrutura para tanto. Como não temos estrutura para tanto, assim como não temos estrutura para pretender formar com a grande potência do Norte, que reconhecemos como “imperialista”, uma aliança estratégica (algo que, nas palavras de Rubens Barbosa, “pressupõe uma lenta construção entre iguais” – http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,dilma-nos-eua,1694058), mas, sim, devemos nos preservar de seu poder e de sua influência, “deveríamos” abdicar do nosso poder potencial, da nossa identidade política singular, e celebrar a integração de nosso Estado com Estados vizinhos? Ou colocar esse poder à disposição dos interesses de outro “império” qualquer? Interessante… Resta saber a quem.

 

      O que deveríamos resolver de uma vez por todas é essa estranha mania que temos de manter nossa atenção prioritariamente voltada a realidades distantes de nós, que nada têm a ver com nossas circunstâncias, muitas vezes meras utopias que nada têm a ver com as circunstâncias de lugar real algum ou de qualquer gente real, de nos manter aguardando instruções, acatando orientação, essa mania doente de nos deslumbrar e nos devotar a uma gente qualquer que não seja a nossa gente. Em benefício do interesse alheio a nós mesmos, vemos o esgarçamento e a perda acelerada dos fundamentos de nossa identidade no processo de uma unificação com países vizinhos forjada na ONU, que vem sendo obtida no berro e na marra, lastreada em presumida conveniência econômica regional unificada e forjada por ocasião da constituição da CEPAL, em benefício de uma presumida identidade cultural e política também regional desenvolvida e aperfeiçoada nos laboratórios da UNESCO, que nunca de fato existiram, muito menos alguma vez nos convieram, e que vêm sendo disseminadas pela Esquerda alegre, franca ou dissimulada, que se tornou “hegemônica” por suas auto-alardeadas “virtudes democráticas”. A exemplo da pretendida unificação européia, essa “nossa” unificação regional tudo tem para dar com os burros n’água, carregando de roldão todos e cada um dos países envolvidos.

 

      O outro vídeo a que me refiro colaborará com o que aqui está sendo dito – esse nos “explicará” que o “maior inimigo do Brasil” é o Foro de São Paulo: https://www.facebook.com/matheusbrazmatt/videos/450559831764675/

 

      Entendamos também de uma vez por todas: o maior inimigo do Brasil não é o Foro de São Paulo; nem é o projeto dito “neoliberal”. O maior inimigo do Brasil é a nossa própria omissão, a nossa absoluta estupidez política muitas vezes mal disfarçada em polidez caipira e nossa ignorância vocabular; somos nós mesmos, que não sabemos Português, não queremos saber, temos raiva de quem sabe, e não conseguimos nos comunicar sequer razoavelmente entre nós mesmos; nós, que imaginamos que nos basta conhecer um pequeno vocabulário de qualquer um dos idiomas oficiais da da Organização das Nações Unidas para entender o que qualquer estranho nos possa estar dizendo, que decoramos as “análises” produzidas em “centros de excelência internacional” sem ponderar as motivações de quem as produz e as nossas próprias condições; somos nós, que pregamos paz-e-amor, que afirmamos ter um horror visceral à violência e com ela somos tolerantes, que dispensamos nossas armas e as concedemos exclusivamente aos marginais que pretendem fazer da marginalidade a bem-aventurança, e incentivamos essa violência cada vez mais em nome de certos “direitos humanos” muito mal compreendidos e aplicados da pior forma, contra nossos próprios direitos; somos nós, que definitivamente não nos queremos bem e não nos reconhecemos em nós mesmos, que nos rechaçamos, que nos comovemos com a miséria que há no mundo inteiro, mas nos mantemos indiferentes à que prolifera em nosso território como se a tivéssemos resolvido, que sonhamos com evitar os solavancos da realidade pondo fé no atual “processo democrático” e o carregamos em um andor sobre nossos ombros em procissão pelas ruas sem compreender o sentido e o alcance da ladainha que entoamos; somos nós,  somos nós mesmos que, decepcionados com o Governo, invocamos que nos resolvam a vida os santos milagreiros de uma autodenominada “Oposição” que apenas compactua com manter as coisas como estão, avançando no ritmo em que avançam; o nosso inimigo somos nós, apenas nós, ninguém mais inimigo de nós mesmos que nós mesmos, nós que imaginamos que nos basta nos munir de boas queixas, bater panelas, “exigir” o afastamento da atual chefe do Governo e a punição de meia dúzia de gatos corruptos pingados, expostos publicamente como bois de piranha, e voltar a dormir acreditando que tudo está sendo resolvido. Somos nós mesmos, que criticamos o Foro de São Paulo da boca para fora, e da boca para fora criticamos o projeto “neoliberal”, e contribuímos, cotidiana e diuturnamente, para que uma gente cretina mantenha-se no poder e cada vez mais aumente esse seu exclusivo poder em detrimento do nosso. O maior inimigo do Brasil e dos brasileiros somos nós, nós todos, os brasileiros, especialmente os que nos consideramos mais ilustrados, mais capacitados, que não criamos uma alternativa para nós mesmos. O que resulta em uma vida coletiva absurdamente demente, absolutamente alienada.

 

      Bem, a função (em quase todos os sentidos da palavra) de hoje aqui termina. Desculpem-me. Eu avisei que insistiria no mesmo assunto. Assunto chato. Mas avisei também que sabia que seria inútil insistir. Bem sei que todos estamos muito preocupados e muito ocupados com bem escolher os nomes menos desgastados, entre os que nossos Partidos políticos degenerados nos possam apontar, para neles votar nas próximas eleições. Desculpem-me pretender tomar-lhes à toa um tempo tão precioso e tão bem destinado. E, apesar de que tenha a certeza de que venho dizendo o que digo em bom Português, quase perfeito porque nele eu capricho, a julgar pelo pavoroso silêncio no qual se encapsula esse assunto no meio de tanto barulho e pela indiferença que ele vem merecendo, sempre me parece que eu deveria procurar utilizar outra linguagem. Só que eu não sei qual poderia ser ela. O erro deve ser meu, que deveria demonstrar ter um pouco mais de… sensibilidade. Devo reconhecer. Desculpem-me.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

fato

 

 

  

 

 

 

… o general comandante militar do Sul, Antônio Mourão, diz que o Exército ‘não vai assumir poder’ e que segue os preceitos da Constituição de ‘garantir a democracia’.

 

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      O que se encontra nas entrelinhas:

 

      A razão de um Exército é o Estado Nacional. Não há Estado que se mantenha apenas pelos versos cantados por um Chefe de Governo ou pela Diplomacia, mesmo que a Diplomacia meramente comercial, sem que esses versos encontrem respaldo nas Armas. Portanto, ainda que um Estado Nacional não esteja enfrentando conflitos internos ou qualquer ameaça externa, a razão de um Exército continua sendo eminentemente política. Política é a sua natureza, não outra qualquer.

 

      Onde houver um Estado haverá um Exército a lhe garantir a segurança. Para garantir a segurança dos indivíduos há uma Polícia, não se requer um Exército. Um Exército garantirá o território do Estado com sua presença permanente – o que não se limita a auxiliar a Polícia no combate ao contrabando nas fronteiras, pois o contrabando é apenas uma das possíveis e mais freqüentes agressões ao Estado – e garantirá as Instituições – as Instituições, não os indivíduos que eventualmente as representem. E quem garante a Democracia não é o Exército – são as Instituições em correto funcionamento, cada uma delas visando ao fim para o qual foram criadas. Onde houver um Estado haverá uma Política de Estado. Uma Política de Estado inclui a determinação do destino a dar aos recursos públicos, que são os recursos nacionais. Um Exército também é quem garantirá o êxito de uma boa e correta Política de Estado nas múltiplas relações internacionais. Mesmo a participação em Operações conjuntas com outros Estados, quando inteligente, terá por finalidade garantir e projetar o poder do Estado Nacional no âmbito das relações internacionais… que são relações de poder.

 

      Nada disso se faz sem que o Exército nacional tenha, mantenha e, principalmente, assuma poder.

 

      Generais-Comandantes não encontrarão, no entanto, por que meter-se na pequena política, a do dia-a-dia, na administração e no emprego detalhado da verba pública, pois a função do Exército – a que desde sempre foi sua obrigação constitucional – seria meter-se apenas na Política de Estado, a de velar por ela. O Estado é permanente, o Governo é fugaz (ou presume-se que seja). Quem tem por função defender o Estado terá nele presença permanente e terá, necessariamente, poder permanente – a capacidade de influenciar o Governo para que não se afaste da correta Política de Estado, capacidade essa que se confunde com um dever.  

 

      Onde não houver um Estado, porque não foi constituído ou porque a “Sociedade Civil” (?) achou por bem que ele cometesse suicídio e suas Instituições fossem esfaceladas – este é o caso brasileiro -, não haverá fronteiras a  defender, não haverá território nacional a ocupar e proteger, não haverá Instituições a garantir a Democracia e não haverá uma Política de Estado. Haverá apenas o conflito de interesses entre os grupos que compõem a Sociedade. Onde não houver um Estado um Exército, qualquer Exército, não encontrará razão alguma para existir ou subsistir. Os indivíduos que o compõem poderão ser vistos e tratados como funcionários do Governo da Sociedade, e se submeterão aos mandos e desmandos dos por ela indicados ao Governo sem que possam ou devam dar palpites. E poderão garantir a segurança desse Governo. Ou, a não ser desarticulado, esse contingente poderá assumir qualquer função considerada “social”, tal como tapar buracos nas estradas, distribuir água e cestas básicas aos necessitados.

 

      Quem dispensa o Exército brasileiro, quem quer vê-lo funcionando como Polícia ou como Defesa Civil, quem o quer guardado nos Quartéis sem que assuma poder, dispensa o Estado Nacional – portanto, dispensa o Brasil.

 

      Pode até ser que, assim, todos venham a ser muito felizes para todo o sempre. Mas é isso. E nada mais que isso. Todo o resto é fricote e conversa fiada.

 

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http://www.gazetadopovo.com.br/vida-publica/exercito-descarta-intervir-na-politica-diz-comandante-militar-37aj4q8baz8jwx0277i2n5uih

Exército descarta intervir na política, diz comandante militar

 

Rodrigo Batista – 09/05/2015 –  publicado na edição impressa de 10/05/2015

Entrevista Antônio Mourão, general comandante militar do Sul.

 

Descontentes com o governo da presidente Dilma Rousseff, milhões de brasileiros foram às ruas em 15 de março de 2015. Em Curitiba, o protesto reuniu 80 mil pessoas, segundo a Polícia Militar (PM). Entre os diversos grupos que se reuniram, alguns pediam a intervenção militar “constitucional”, sob o argumento de que seria necessária a presença do Exército e demais Forças Armadas no governo para restabelecer a ordem e direitos dos cidadãos.

A posição do Exército, entretanto, vai de encontro com o que as ruas pedem. Em entrevista à Gazeta do Povo durante visita a Curitiba, o general comandante militar do Sul, Antônio Mourão, diz que o Exército “não vai assumir poder” e que segue os preceitos da Constituição de “garantir a democracia”.

A entrevista, concedida no dia 9 de abril de 2015, foi realizada no Quartel do Exército do bairro Boqueirão. O general falou, entre outros assuntos, sobre cortes no orçamento da instituição realizados pelo governo federal em virtude da crise econômica pela qual passa o país, sobre a possibilidade da desmilitarização da PM e a atuação do Exército em área urbana e nas fronteiras para o combate à criminalidade.

– Há uma atuação conjunta do Exército com a Polícia Militar no combate ao crime organizado nas fronteiras no Paraná?

– Por lei complementar, dentro da faixa de fronteira, nós temos as atribuições de realizar revistas em embarcações, aeronaves, veículos, pessoas, fazemos a interceptação de qualquer ilícito e, eventualmente, prender pessoas que estejam envolvidas com esses ilícitos. No Paraná, especificamente, nós temos unidades em Guaíra, Foz do Iguaçu, Cascavel e Apucarana. Temos perfeitas condições de guarnecer esse setor da fronteira sempre que for necessário. O ideal é que sempre em atuações dessa natureza estejam presentes a Polícia Militar, a Receita Federal, o Ibama, a Polícia Federal. Essa atuação conjunta favorece na repressão do ilícito. Porque, em determinados ilícitos, como o transporte de cargas legais ou perigosas, o Ibama tem mais atribuição para isso. No contrabando e o descaminho, a Receita Federal tem mais atribuição para isso. E o Exército daria a segurança para o trabalho desses agentes.

– Qual a necessidade de o Exército participar do combate à violência urbana, como ocorre em intervenções para instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), no Rio de Janeiro?

– A participação do Exército nesse tipo de atividade tem que ser episódica. Se há uma situação de agravamento da ordem pública, e a polícia está sem condições de agir, o Exército entra, age e sai. O Exército não é polícia. Infelizmente, o que acontece no Rio de Janeiro, pela situação que está sendo vivida, é que nós temos tido que permanecer muito mais tempo que o necessário, fugindo dessa característica da atuação episódica. Já estivemos durante quase dois anos no Complexo [de favelas] do Alemão, já estamos completando mais de um ano no Complexo da Maré. A gente se prepara de uma forma muito eficiente para cumprir essa tarefa, mas não é uma tarefa nossa. É para fazer uma atuação rápida e depois deixar nas mãos da polícia, que é o elemento especializado para esse tipo de situação.

– Correm no Congresso Nacional projetos que pedem a desmilitarização da Polícia Militar. Qual é a avaliação do Exército, sendo que a PM é uma força auxiliar da instituição?

– Para o Exército, não mudaria nada. Continuaria a polícia. O termo desmilitarização não é o correto. Isso vem de gente que ainda está pensando com a cabeça no século passado, que ainda vive o conflito da Guerra Fria e tudo aquilo onde entra o termo militar não é considerado politicamente correto. Em qualquer hipótese, se não existir a PM, mas só a Polícia, será necessário um ramo fardado dessa polícia que vai fazer o policiamento ostensivo. Você não vai ter elementos em trajes civis realizando policiamento ostensivo. Você pode dizer unificação da polícia. Ter um ramo da polícia só investigativa e a parte de policiamento ostensivo que estaria fardado. Como você vai fazer controle de distúrbios, controle de vias públicas em trajes civis? Não vai fazer.

– Nas ruas, durante as manifestações [contra a presidente Dilma Rousseff], parte da população pediu intervenção militar. Como o Exército vê esses pedidos?

– O Exército se posiciona de uma forma muito clara, de acordo com a missão que nós temos. Uma das nossas missões é a garantia dos poderes constitucionais. Está na Constituição, no Artigo 142. A gente deixa muito claro que o Exército, com as demais Forças Armadas, estará pronto para manter as instituições em funcionamento. O Exército não vai assumir o poder, não vai fazer nada disso. O que vai fazer é manter as instituições; garantir que o Executivo, Legislativo e o Judiciário funcionem. Isso é manter a democracia.

– No início do primeiro mandato da presidente Dilma Roussef, as Forças Armadas pediram investimentos de cerca de R$ 400 bilhões para seu reaparelhamento. Esses investimentos estão ocorrendo?

– O Exército passa por um processo de transformação, não é uma mera modernização. Na modernização você compra equipamentos novos, mas o principal, que é mudar a forma de atuar, de combater, não muda. Então o Exército está se transformando. O atual comandante, que assumiu em fevereiro [de 2015], general [Eduardo Dias] Villas Bôas, considera que nós fechamos o primeiro ciclo dessa transformação. E esse ano de 2015 é para fazer um replanejamento de modo que, a partir do ano que vem, a gente entre num segundo ciclo desse processo. Isso tem abrangido inicialmente a mecanização de unidades de infantaria, que eram motorizadas – especificamente aqui no Paraná a 15.ª Brigada, com sede em Cascavel, recebeu blindados Guarani, que são de fabricação nacional, para se transformar numa brigada de infantaria motorizada. Isso muda a forma de combater. Recebeu-se novos equipamentos de rádio: a comunicação que antigamente tinha muita coisa feita por telefone, na utilização de fios, hoje tudo é feito com rádio. Temos ainda o lançamento das infovias, que vai beneficiar a transmissão de dados. E, obviamente, nós temos projetos na área de artilharia de campanha, novos materiais sendo recebidos, e a própria cavalaria. Existe uma série de projetos. O principal é que o Exército quer, a partir de determinado momento, ter condições, de 1.° de janeiro a 31 de dezembro, de estarmos prontos. Essa é a grande transformação.

– Mesmo com a crise econômica esses investimentos vão ser mantidos ou haverá cortes?

– Vai haver corte, não tenha dúvidas. Nós estamos preparados para este ano, tanto que até agora nós não temos orçamento. O governo, normalmente quando não havia o orçamento aprovado, liberava 1/12. Ou seja, se você tem o orçamento “x”, divide por doze, e uma parte é destinada para cada mês. Mas o governo está liberando 1/18. Então ele já cortou praticamente 30% do orçamento. Então nós estamos nos adaptando. Mas ainda não sabemos qual a extensão desse corte, que a gente acredita que está nesta faixa de 30% a 40%, e, óbvio, isso vai levar a uma redução das atividades do exército ao longo de 2015. Mas ainda não sabemos onde será cortado o orçamento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     Há algum tempo, naqueles tais “anos de chumbo” anteriores à “Constituição-cidadã”, naqueles tempos em que existiam, de fato, a Situação e a Oposição – e a Oposição se colocava, por princípio, contra a Situação -, caso alguma autoridade ousasse cometer coisa parecida com o que vemos as nossas atuais “autoridades” (?) cometendo, imediatamente ouviríamos um argumento no discurso exaltado da Oposição, muitas vezes sendo esse argumento secundado por parte da Imprensa: estaríamos sendo governados por incompetentes, por políticos profissionais, tradicionais, reacionários, por “coronéis” desprovidos de inteligência e de sensibilidade, por gente sem-vergonha, safada etc. etc. – gente “de Direita”…

 

     E hoje? Eles (elles, que merecem letras dobradas, aquellas “autoridades” que legislam no Congresso, que nos julgam em nossos Tribunais, que nos administram os recursos, que analisam a nossa realidade) são de Esquerda ou são de Direita?

 

     Isso é, realmente, um enigma. Deveria ser trágico, porque, tal como o da Esfinge, quem não o decifrar será devorado. Mas, como tudo mais que ocorre neste País, acaba sendo até divertido. Tentemos, pois, compreendê-lo, pelo menos, em seus termos, nem que seja apenas como mero exercício mental, para espanar a poeira, o mofo e as teias de aranha do cérebro.

 

     Leio, na página do Facebook de um amigo, um comentário de um terceiro que nos traz uma daquelas “verdades históricas” que não passam de uma supina ignorância. Assim como outras “verdades históricas” que só nos confundem e nada esclarecem porque verdades não são, essa, que acabo de ler, foi afirmada com muita convicção. Quem a vai passando adiante (pra não virar elefante?) a terá ouvido de alguém ou lido em algum lugar, apenas a repete, não a inventa, e ela acabará sendo repetida por muitos outros. Nem por isso deixará de ser apenas ignorância.

 

     Mas, de repente, pensando bem, percebo que a evidência dessa ignorância nos ajuda, indiretamente, a entender muitas coisas – a começar do surto epidêmico de febre vermelha a que assistimos (ou que vivenciamos?) no anos 70/80 do século passado, bem pior que o de febre amarela dos anos 20, igualmente lento e insidioso no início, avassalador a partir de determinado ponto, igualmente desafiando quem tentava explicar satisfatoriamente sua origem, uma vez que acreditava-se que a doença havia sido controlada e era considerada praticamente extinta, dispensando maiores cuidados e muitos recursos no seu combate. Suas graves seqüelas manifestam-se hoje em um estado crônico semifebril de “centro-esquerda” que prossegue acometendo muita gente.

 

     Vejam só – foi escrito o seguinte, com todas essas vírgulas: “A Direita, por definição nasceu de um grupo de parlamentares na Inglaterra que ficava à direita do presidente do Parlamento, e que não pertenciam aos partidos ligados aos trabalhadores (Labour Party, etc). Na prática a Direita é quem defende alguns conceitos que excluem ao invés de incluírem cidadãos nos destinos e riquezas do mundo.

 

     Quanta bobagem é possível reunir-se em tão poucas palavras! Quando lemos muitas bobagens, sentimos logo vontade de escrever bobagens – mas talvez não tantas. Muito bem, vamos lá: na França, onde, com suas conotações políticas, os termos Direita e Esquerda de fato tiveram origem, lá pelos idos da revolução de 1789 (porque logo em seguida veio o Terror…), os membros da Assembléia Nacional se dividiam entre partidários do rei e partidários da revolução – e se sentavam respectivamente à direita e à esquerda da cadeira do presidente da Casa, para todo mundo poder conspirar à vontade e ninguém se matar durante as discussões. Por isso, por defender a ordem, que era monárquica, a ala à direita na Assembléia Nacional (a “Direita”) pôde ser acusada de “conservadora”; e de “reacionária”, pois não apenas pressupunha-se, à época, que a Revolução Francesa seria um considerável avanço civilizatório, como tanto ela mesma quanto todas as demais revoluções vistas como “espontâneas” e “populares” prosseguiram assim sendo consideradas, fosse qual fosse o seu resultado.

 

     No celebrado Manifesto Comunista, a principal encíclica dos imortais papas da Esquerda, os bem-amados Marx & Engels, quem é “conservadora” e “reacionária” é a classe média. Assim definem eles a classe média – ou as classes médias, como preferirem: “pequenos comerciantes, pequenos fabricantes, artesãos, camponeses que combatem a burguesia porque esta compromete sua existência… são, pois, … [classes] conservadoras; mais ainda, reacionárias, pois pretendem fazer girar para trás a roda da história. Quando são revolucionárias é em conseqüência de sua iminente passagem para o proletariado; não defendem então seus interesses atuais, mas seus interesses futuros. Abandonam seu próprio ponto de vista para se colocar no do proletariado”.

 

     Muito bem. Quais poderiam ser os interesses das classes médias? Não seriam os de manter suas condições de… classe média? Ou, talvez, o que as classes médias desejassem, mesmo, fosse encontrar meios de ascender econômica e socialmente, ter acesso pleno aos mecanismos financeiros – é bem possível que, desde sempre, na vida do “burguês”, ou seja, na vida dos ricos, encontrassem o objeto de seus sonhos de consumo.

 

     Então, pensemos: se o proletariado pretende, conforme a Esquerda vem pregando, por obra e graça de sua própria natureza proletária, eliminar as classes sociais e seus privilégios e suas misérias, como defenderiam as classes médias os seus interesses futuros colocando-se no ponto de vista do proletariado? Isso não nos parecerá um despautério? Só se compreenderá o raciocínio da Esquerda se ele partir de uma premissa – a de que as classes médias consideram-se espertas, mas são muito burras. Se forem burras, poderão ser facilmente comovidas, serão impressionáveis, manipuláveis – e, nisso, talvez a Esquerda tenha alguma razão.

 

     Mas, se de fato as classes médias são “conservadoras” porque “combatem a burguesia” que gira a roda da história à frente… (e daí viria o ódio que Mme Chauí lhes dedica? É possível, também: no conceito de “burguesia” e, especialmente, no de “elite” vem cabendo muita coisa e muita gente…), e são “reacionárias” porque querem a roda da história girando para trás, as classes médias serão “a Direita”. Ou serão “de Direita”. Sim ou sim? Muito embora, por vezes, possam agir como se fossem “de Esquerda” – e, então, serão “revolucionárias”… “Re-vo-lu-ci-o-ná-rias”…

 

     Na mesma França, lá, onde os termos tiveram sua origem, surgem outra denominação e outra classificação: a dita Direita será chamada de “partido da ordem” e a dita Esquerda será chamada de “partido do movimento”. Tudo o que se movimenta será, então, “de Esquerda”. Pressupõe-se, portanto, que uma ordem, qualquer que seja ela, peque pelo imobilismo. E que a Direita, como “partido da ordem”, teria o dom de fazer o tempo parar, fazendo parar todos os processos, tal como a Bruxa Malvada fez acontecer no castelo da Bela Adormecida. Combinando com isso, faz tempo que, em qualquer lugar do mundo, outra “verdade histórica” vem sendo oferecida (de graça?): a de que a Democracia seria uma tese da Esquerda e somente a Esquerda será capaz de demonstrá-la. Embora essa “verdade” contrarie todo o desenvolvimento do pensamento racional universal e todo o conceito que a palavra Democracia abriga, como todos sabem que a Esquerda detém o monopólio da “verdade absoluta”, ninguém se atreveu a contestar. E ficou feio ser “de Direita”… aliás, ficou até meio que vergonhoso ser “de Direita” – ou será vergonhoso não ser “de Esquerda”…

 

     No Brasil dos últimos anos 70/80, todos os que queriam ser vistos como “democratas” deveriam ser, pois, no mínimo solidários com os “de Esquerda”, que eram conhecidos como “revolucionários” e como favoráveis ao “avanço” – que nada tem a ver com o que se entende como desenvolvimento (cultural, industrial, tecnológico…), é bom que se diga desde já. Quem criticasse a ordem definida constitucionalmente em 1967, fosse por qual motivo fosse, seria reconhecido como favorável ao “avanço”. Então, apressaram-se todos em se declarar “de centro-esquerda” desde criancinhas. Como “militantes” de “centro-esquerda”, um “centro” que seria “de Esquerda”, nem seria essencial que se declarassem “revolucionários”, muito menos que fossem apontados como guerrilheiros ou acusados de terroristas – ao colocar-se “contra a ordem”, considerada pela Esquerda como antidemocrática, “de Direita”, conservadora, reacionária, ditatorial, todos investiam no reconhecimento de que eram “democratas”; e, em sendo “democratas”, “avançavam”; e seriam “subversivos”. Um “subversivo” abria a boca e adquiria status imediatamente, intelectual que fosse esse status. Além de que ser “subversivo” afastava a solidão e poderia ser também divertido – as músicas dos festivais da canção eram “subversivas”, as aulas no cursinho pré-vestibular eram “subversivas”, os professores na Faculdade eram “subversivos”, os cartunistas eram “subversivos”, os artistas eram “subversivos”, os amigos que se reuniam no chopinho dos sábados eram “subversivos”…

 

     Embora a ordem (?) seja isso que aí está e ser subversivo não mais dê status, muito pelo contrário, ter sido “subversivo” ainda dará. Conforme a Esquerda nos “esclarece”, a nós, que nada vimos, de nada soubemos e de nada sabemos, em cada boteco, cada esquina, cada casa, cada galho, cada flor, no Brasil inteiro, formaram-se focos de “resistência” para que o País fosse salvo das garras da Direita. Não foi assim? Deve ter sido, pois a Esquerda nos diz que foi por isso que ela, a Esquerda, venceu a Direita – pelo clamor popular. Não perguntarei “que Direita?”. Pergunto apenas “que Esquerda?” Não importa: se já nos esquecemos disso, um vizinho “ex”-tupamaro, que enfeita sua casa no campo com um retrato de Fidel, um busto de Guevara, outro do Papa Francisco, vem nos lembrar de que não há uma única Esquerda a nos rodear, mas sim muitas Esquerdas (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/12/141203_entrevista_mujica_igl_cc), há uma montanha de Esquerdas, há Esquerdas para todos os gostos, o que permite que todos os “democratas” possam identificar-se politicamente com todas elas ou com apenas alguma delas todas… Não duvidem que se encontre por aí inclusive uma “Esquerda apolítica” bastante ativa… por que não? Tudo é possível. E em qual delas nós apostamos?

 

     Alterando-se a ordem e a razão do Estado em 1988, todos os “subversivos” de todas essas Esquerdas foram considerados “heróis da resistência”, “resistência” que seria “democrática”. Os “de Esquerda”, aliás, de “centro-esquerda”, que eram todos, foram eleitos a todos os cargos administrativos e legislativos, indicaram quem ocuparia os cargos no Judiciário, tomaram conta da Imprensa em todas as suas manifestações, e há 30 anos consecutivos gozam do poder absoluto em nosso país – não há quem tenha afirmado, e não faz muito tempo, que o Presidente da República, por ter sido eleito, é Soberano? Em nosso País, onde a “Oposição” será… também “de Esquerda”.

 

     Com o PT se tornando muito vulnerável a críticas, principalmente em publicações estrangeiras (caramba, essa gente nunca sabe o que quer – como acertaremos em nossas escolhas?) em virtude da apuração da corrupção generalizada que seus sucessivos Governos permitiram (se é que nela não se envolveram diretamente, talvez por não conseguir fabricar tantos cargos quantos os necessários para manter os conchavos, ou por ter abusado do direito de ser “generoso”, por não atentar ao prazo de validade que lhe foi concedido, por ter sido o Partido guloso demais, sei lá eu…), explica-se e justifica-se a célere debandada, já há algum tempo iniciada, de politiqueiros profissionais, inclusive a de seus “quadros históricos”, em direção a outros Partidos semelhantes e afins, os “de Esquerda” na “Oposição”, nos quais serão acolhidos de braços abertos. Porque a Esquerda é a Esquerda. É magnânima, é mãe. Na unidade de sua diversidade, a Esquerda é fiel e só a Esquerda salva. E, assim, em essência, nada se altera, nem os elementos do discurso, nem os elementos que o enunciam e todos continuarão sendo felizes para sempre.

 

     Hoje, quando aquela conversa de ser necessário passar a limpo a história do Brasil já deixou de dar tanto ibope e todos afirmam que querem tão somente um Brasil que dê certo (mas ninguém tem a mais mínima idéia de como isso se fará), já não será tão vergonhoso, mas continua sendo muito feio ser “de Direita”; melhor dizendo, continua sendo feio não ser “de Esquerda”, porque será “antidemocrático”, “conservador”, “reacionário” – e, se não todos, quase todos, ou aqueles que formam a nossa maioria serão “de Esquerda”. Os demais serão de nada. Mas todos os “de Esquerda” serão de “centro-esquerda”, mesmo os mais radicais, porque são todos “democratas”, não são radicais. Com uma característica muito curiosa, intrigante, mesmo: os “de Esquerda” serão a favor da ordem indefinida que foi definida constitucionalmente em 1988, a que mantém indefinidamente os Partidos “de Esquerda” no Poder seja como for, valendo, para tanto, todos e quaisquer argumentos, principalmente o de que todo e qualquer movimento contrário será “antidemocrático”. Movimentos prenunciam tremores mais fortes, terremotos, e assustam. Quaisquer movimentos que se demonstrem um pouco mais movimentados serão muito perigosos, pois serão coisas “de Direita”. Só será válido como movimento, e olhem lá, quando muito, o avanço ao próprio alheio, as ocupações, as invasões, sempre dependendo de a quem esse alheio se refira, e o das marchas daqui pr’ali, convocadas pela internet para data e hora certa, nas quais todos clamam histericamente nas ruas pelo fim da corrupção ninguém sabe muito bem a quem, talvez à mesma Esquerda, ou ao mesmo Governo, pois até o Governo, que é de Esquerda (ou não é?), ou principalmente o Governo, diz-se escandalizado, horrorizado com ela…

 

     Então, quem seriam os corruptos? Os “de Direita”. Evidentemente, pois a Direita é o Mal, a Esquerda é o Bem. Quem impede que um Governo “de Esquerda” seja probo e aja corretamente? Os “de Direita”, que estorvam os projetos “democráticos” da Esquerda e a obrigam a lançar mão de recursos indesejados. Mas, afinal, quem é “de Direita”? Ninguém. Onde está “a Direita”? Sumiu, ninguém sabe, ninguém viu… No entanto, consideremos: nada mais “de Direita” que o corporativismo e o sindicalismo – dos quais nasceram o PT na fábrica e alguns outros Partidos de “intelectuais” na Universidade – que tanto o ditador Vargas quanto algumas figuras do regime dito “militar” muito prestigiaram. Ou não?

 

     Esse quadro muito estranho e as relações estapafúrdias que nele se expõem também explicam a mediocridade do que se encontra hoje em dia na Imprensa, que já comentei dias atrás a pretexto de um texto de Leandro Narloch (http://veja.abril.com.br/blog/cacador-de-mitos/2015/04/23/bipolaridade-intelectual/), explicam essa constipação cerebral generalizada, essa quase absoluta incapacidade, manifestada por quase todos os “jornalistas, colunistas, sociólogos e palpiteiros”, de produzir análises políticas minimamente interessantes: sendo todos eles “democratas”, todos têm, se forem minimamente inteligentes, e pressuponho que sejam, um medo que se pelam de, caso se permitam pensar um pouco, ver-se obrigados a contradizer o que antes já disseram com tanto ardor e tanta convicção. Como se justificariam com seus fãs de carteirinha?

 

     Pois bem. É que a teoria, na prática, seria outra? Não, não – é que há hipóteses que nunca se hão de comprovar. As sobre as virtudes da Esquerda, por exemplo. Estão no campo das utopias. Serão necessárias porque utopias são necessárias? Bem, há quem assim justifique sua permanência em cartaz. E, se tudo isso que foi dito não parece pertencer à nossa História, bem mais parece uma anedota, uma anedota de muito mau gosto, é que a realidade é a realidade, não o que possamos supor ou dizer dela. Mas, abstraindo-se o fato de que tudo seja real, apesar de ser absurdamente pouco sério e um bocado trágico, tudo isso não deixa de ser divertido. Eu acho. Acho talvez porque seja republicana, visceralmente republicana. O que eu levo a sério é a República. Quando ela é séria. O resto é o resto, serve mais para nos distrair e, às vezes, para nos fazer dormir.

 

     Acho também, mesmo, de verdade, que isso tudo nos diz muito mais a respeito do que, aos trancos e barrancos, vamos vendo, vivendo e sofrendo na Política nacional que qualquer potoca que possa ser inventada e divulgada por qualquer idiota ou qualquer demente como sendo uma “verdade histórica”. Dedicar alguma atenção à realidade talvez seja suficiente para que comecemos a tentar querer decifrar o enigma que permite que quem o concebeu (e nunca o enuncia) nos venha devorando. No frigir dos ovos, pondero, de que nos valem tantas “verdades históricas” se elas não evitam que continuemos tropeçando, se não queremos e não sabemos ver a verdade que se põe presente sob o nosso próprio nariz?

 

     Pois é isso. Agora, é dar uma olhada nas notícias do dia e pensar um pouco. Sobrará, então, aquela famosa pergunta da qual a Esquerda, um dia, também se apropriou: que fazer?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

      Às vésperas do que vem prometendo ser uma grande mobilização nacional, apesar de que não toda ela em um mesmo sentido, é sempre interessante dar um passeio pelas notícias e tomar conhecimento das opiniões daqueles que são os “formadores de opinião”. Pelo menos as mais recentes. E tentar articular tudo isso para que tenhamos uma mínima noção da realidade. Mal ou bem, é o que me proponho aqui fazer. O que direi parecerá, a muitos, um bocado desagradável. Alguns dos que se dispuserem a ler não mais hão de querer dar-me sequer um “bom dia”, muito menos me dar atenção. Mas aceito o desafio. Essa é a minha função – a que eu própria me imponho…  

 

      Uma vez que os Governos que foram eleitos após a “abertura” e a promulgação da Constituição de 1988 agiram e agem de acordo com o que esta determina – agem, portanto, de acordo com o § único do seu art. 4º: “A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”, consideremos como pano de fundo o que ocorre na Venezuela: “Maduro chegou à Assembléia Nacional vestindo a faixa presidencial…— ‘Quis entregar pessoalmente e assumir toda a responsabilidade por este projeto de lei que me dê poderes para proteger a paz frente às ameaças. Essa lei surgiu com uma necessidade de ter poderes constitucionais para que eu possa me mover’ — afirmou o presidente. … Graças à primeira Lei Habilitante, aprovada em novembro de 2013 e com duração de um ano, o presidente conseguiu, em um ano, promulgar 50 decretos que aumentaram o controle do Estado na economia e alavancaram alguns programas sociais. … — ‘Esta é uma lei anti-imperialista, destinada a preservar a paz, integridade e soberania da nação’ — defendeu o presidente”(http://oglobo.globo.com/mundo/maduro-apresenta-lei-para-ampliacao-de-poderes-na-assembleia-nacional-15559025#ixzz3U5hHPUHv)

 

      Considerando, pois, as bravatas de Maduro e as razões, sejam elas quais forem, da oposição venezuelana, e considerando o tumulto político-econômico armado em nosso País pelo atual Governo e pelas oposições, os que gritam pelo impeachment de Rousseff que opções nos oferecem? Seria possível precipitá-lo “constitucionalmente”, para que se chamem novas eleições? Miguel Reale Júnior nos diz que não: “A pena do impeachment visa a exonerar o presidente por atos praticados no decorrer do mandato. Findo o exercício da Presidência, não se pode retirar do cargo aquele cujo governo findou(http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,renuncia-ja-imp-,1646272). Evidentemente, um 2º mandato não será um 1º mandato prorrogado – é outro mandato. E a lei é a lei. Então, por que não se obter um impeachment no grito e na marra? Talvez porque isso não se chamaria impeachment, chamar-se-ia golpe de Estado – com todas as letras. Golpes de Estado podem ser muito necessários de quando em quando, para salvar o Estado de um processo de putrefação. Nada contra a priori. Mas os que são politicamente corretos não admitem sequer pensar em golpe de Estado – embora por aqui sejam vítimas incontestes de um “golpe branco” que, aliás, vem se mostrando muito bem sucedido.

 

      Há, no entanto, perguntas que podem ser feitas tanto na hipótese de que se logre um impeachment quanto na hipótese, que de tão remota será absurda, de que Rousseff renuncie tal como o jurista sugere que ela faça: “Renúncia já: a única via em busca do pacto sério em busca da reconstrução do país”. Essas perguntas são: em sendo destituída Rousseff, quem assumirá as rédeas da Política nacional? Um pacto sério em busca da reconstrução do país já foi ou está sendo costurado? Por quem? Que pacto poderá ser aquele que ainda se buscará? Seus termos só poderão ser aventados após o afastamento da atual governante? Por quê?

 

      Será possível cozinhar-se a proposta de impeachment e/ou a pressão por renúncia em fogo lento, malandramente, até que que Temer possa manter-se como sucessor de Rousseff. Ou poderemos enfrentar quatro anos de sangria até que surjam novas oportunidades aos desde sempre candidatos. “Não quero que ela saia, quero sangrar a Dilma, não quero que o Brasil seja presidido pelo Michel Temer (PMDB)”, diz-nos Aloysio Nunes Ferreira, não por acaso um ex-guerrilheiro (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1600269-fhc-diz-que-nao-adianta-tirar-dilma-e-aloysio-quer-ver-presidente-sangrar.shtml). Para tanto, é preciso que o fogo se mantenha aceso. Por quais meios que não os que mais tumultuam e mais paralisam o nosso País esse fogo se manteria? E de quem seria a sangria à sua luz e ao seu calor? Apenas Rousseff seria sangrada ou nós todos, o País inteiro, devemos sangrar em agonia, talvez até a morte, não mais nem menos que isso, enquanto os bons pactos não se concertam?

 

      Se as celebridades todas nos dizem que todos devemos ir às ruas no próximo dia 15 com as caras pintadas, agitando cartazes, a gritar pelo fim da corrupção, quem sou eu para dizer a alguém que não vá? Sou ninguém. Todos se esquecem, porém, de que já vimos esse filme. E/ou vimos alguns outros muito parecidos. No último deles, rodado em 1992, Collor de Mello, acusado de corrupção, pedia à população que fosse às ruas em sua defesa vestida nas cores da Bandeira nacional. Muitos se vestiram de preto em protesto, os estudantes liderados por Lindbergh Farias, presidente da UNE, lambuzaram seus rostos, 750 mil pessoas lotaram o Anhangabaú, todos exigiram o impeachment do presidente, que seria aprovado na Câmara. Pelo Senado, Collor foi condenado a afastar-se da Política por 8 anos; em seguida, foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal dos crimes que lhe eram imputados.

 

      Enquanto a mobilização dos “guerreiros da democracia” se prepara para que, mais uma vez, abrilhantem o espetáculo e ninguém possa cochilar, o ex-presidente e o ex-cara-pintada afagam os mesmos argumentos de defesa na apuração da corrupção generalizada apontada pela operação Lava Jato: Collor e Lindbergh vão responder a inquérito por corrupção e lavagem de dinheiro quase 23 anos após terem protagonizado, em lados opostos, o primeiro impeachment de um presidente brasileiro” (http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/ex-presidente-e-ex-cara-pintada-se-reencontram-na-lava-jato/). Lindbergh, que comandava os caras-pintadas que agitavam as ruas, ocupou uma cadeira no Senado Federal na última legislatura. Collor continua ocupando a sua desde 2006. Que há de diferente hoje para que tudo se comporte de maneira diferente? A violência explícita dos manifestantes, que é mais parecida à de 1964, talvez. Talvez. E, tanto da parte dos que são contra o Governo quanto dos que o apóiam ou em algum momento o apoiaram, rosnam-se ameaças de que serão vistos “exércitos nas ruas”.

 

      Há que considerar-se que, embora o Exército Brasileiro, o oficial, ainda se contenha nos Quartéis, em nossas ruas já há vários “exércitos”. O dos narcotraficantes, por exemplo. O de Stédile, sob as ordens de Lula, seu Comandante-em-Chefe. E outros mais, em manobras ou de prontidão. “Se até os pelegos do PT protestam contra medidas do governo Dilma na antevéspera do ato nacional contra seu desgoverno, obviamente não é sem o incentivo ou o consentimento tácito de Lula, o rei dos pelegos, que outro dia mesmo na ABI convocou a militância às ruas. Nem Dilma deve ser otária o suficiente para acreditar no contrário(http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/2015/03/05/lula-e-um-estrategista-cinico/).

 

      Já o Comandante verde-oliva nos declara que não se permitirão “descalabros”. Descalabro é o que vemos todos os dias. Ou não? Um descalabro permitido. Que mais poderá ser entendido por descalabro? A sangria de Rousseff? Segundo o Comandante, a intervenção militar em 1964 justificou-se porque o século XX foi conturbado, havia a Guerra Fria, mas “hoje o Brasil é um país com instituições estruturadas, desenvolvidas, constituídas – naquela época não havia instituições no Brasil. Então hoje nós já temos um sistema de pesos e contrapesos em nosso País que permite se não com o imediatismo, o voluntarismo que é natural em todos nós que vemos o país sofrendo o que está sofrendo mas as coisas naturalmente elas vão se equilibrando.” (http://www.folhapolitica.org/2015/01/novo-comandante-do-exercito-brasileiro.html). Em suma: se entendemos as FFAA como uma Instituição do Estado, devemos entender que elas não se encontravam estruturadas, desenvolvidas, constituídas em 1964. Não estavam, não? Parece que não, assim como as demais Instituições, que só hoje estão. Temos Instituições em funcionamento tal como tínhamos em 1964. Quais delas estão mas bem estruturadas, desenvolvidas, constituídas? Estão bem estruturados, desenvolvidos, constituídos os órgãos do Executivo, do Legislativo, do Judiciário? Em que sentido? Está bem estruturado, bem desenvolvido, bem constituído o Estado brasileiro? Então, tudo bem… Em 1964, o Exército Brasileiro, encarregado de manter a integridade do Estado brasileiro, que se esgarçava e se decompunha a olhos vistos, não rosnou, não ameaçou ir às ruas – ele foi. Se hoje sair dos Quartéis – e sairá se houver qualquer ameaça de “descalabro”, seja lá o que isso signifique -, ele defenderá quem representa a nova Lei e a nova Ordem que estão como estão, defenderá as novas (?) Instituições que são o que são, e defenderá essa coisa maluca que os malucos chamam de Constituição, que nos nega direitos à soberania em benefício de uma integração política com nossos vizinhos – ou seja, defenderá o Governo reeleito e o “processo democrático consolidado”. Ninguém se iluda. Nem o provoque, nem de perto, nem de longe.

 

      Enquanto isso, também, o “movimento” dos caminhoneiros que os mantinha parados comoveu a população. Não era o único “movimento” em pauta, mas foi o que mais comoveu. Os caminhoneiros merecem apoio? Merecem. Claro que merecem. Merecem todo apoio em seu trabalho e em sua função – o apoio das Leis, o apoio do Governo. Assim como muitas outras “categorias” também o merecem. Além de que, porque não temos ferrovias, porque sucateamos e deixamos às baratas ruivas um eficiente serviço de cabotagem, porque nossas hidrovias não são confiáveis, os caminhoneiros são fundamentais, imprescindíveis ao transporte de produtos vitais, garantindo o funcionamento regular da economia e um mínimo bem-estar à Sociedade. E eles sabem disso. Todos nós sabemos. Assim é que ganharam um “apoio” absolutamente dispensável, o da “inteligência” de um “exército” que já há algum tempo se vê não só nas ruas: “Manifestantes voltaram a bloquear a BR-116, em Camaquã, no Sul, às 21h30min deste domingo. Segundo a PRF, além de dois pontos com bloqueios, houve queima de pneus e um carro foi incendiado. Além disso, há informações de que veículos foram apedrejados também na região. A PRF prepara uma ação no local. Na madrugada desta segunda-feira, houve um bloqueio na RSC-470, em Garibaldi, por pelo menos uma hora, pouco depois da 0h30min. Conforme o Grupo Rodoviário da Brigada Militar de Bento Gonçalves, os manifestantes atearam fogo em pneus na altura do quilômetro 22, no trevo da Telasul.” (http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/transito/noticia/2015/03/caminhoneiros-voltam-a-fazer-bloqueios-em-rodovias-gauchas-4709842.html).    

 

      Houve muita gente se esquecendo de considerar que a greve dos caminhoneiros, como qualquer greve de qualquer “categoria”, é um “movimento” corporativo, seja qual for a sua rota, tenha ou não tenha um sindicato por trás a coordená-lo. E, por ser corporativo e apenas corporativo o “movimento” dos caminhoneiros, “O presidente da CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos), Diumar Bueno, criticou a violência nos protestos e afirmou que as manifestações espontâneas e individuais dos caminhoneiros pelo país saiu [sic] do controle. Segundo ele, isso ocorreu muito rapidamente com adesões não muito compreendidas e bandeiras com outros interesses.” (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2015/03/1597537-no-sul-caminhoneiros-anunciam-tregua-ate-a-proximas-terca-feira.shtml).

 

      Esqueceu-se essa gente também de que, à Sociedade em geral, essa greve e o “apoio” que ela recebe do “exército democrático-fundamentalista” somente prometem transtornos. Incentivar esse “apoio” como o detonador de uma comoção nacional generalizada, esperar que ele levasse a uma reação generalizada contra o Governo foi um risco. Um grave risco. Primeiro, porque a greve esfriaria ao ser obtida alguma concessão – o que já poderia ser mais do que esperado e é mais do que justo. Depois, porque quem lideraria essa reação? Ninguém sabe. Parece ser ninguém. Porque é para parecer ser ninguém, é para parecer ser um movimento “espontâneo”. Mas não existem “movimentos sociais espontâneos”, nem quaisquer “movimentos espontâneos de apoio” a outros “movimentos” – todos os “movimentos” sempre terão um comando, seja ou não seja conhecido; e, sem liderança, sem coordenação e sem objetivo claro não haverá movimento social que mereça respeito – o que há é baderna, é apenas prenúncio de caos social, de convulsão social anárquica.  

 

      Riscos, nós assumimos quando os podemos bem avaliar e quando consideramos que existem chances de que nossos objetivos sejam alcançados. A cassação de Dilma Rousseff resume o nosso objetivo? Que objetivo mais chinfrim, perdoem-me! Ou o nosso objetivo será outro? Se é outro, qual é ele?

 

      Sabemos que há um tempo de semear e um tempo de colher. E que nada se semeia durante um vendaval. No entanto, sabemos também que há quem se dedique a espalhar sementes de vento sejam quais forem as condições atmosféricas. E sabemos ainda que quem semear o vento colherá, com certeza, a tempestade. Quem nos diz isso  é o saber popular, aquele que é calcado na experiência. Há quem goste muito de tempestades, assim como dos raios e dos trovões que as prenunciam – tudo isso tem, sim, sua beleza. Faz barulho, inunda, encharca, destrói, arrasa… As guerras também oferecem belos espetáculos. Muitas vezes, os efeitos de uma tempestade são como se fossem os de uma guerra. Muitas vezes, são os de uma guerra de extermínio.

 

      Não apenas o ex-presidente Lula aposta nos “movimentos”. Outro ex-presidente, o Fernando Henrique, nos dirá que a mobilização atual será válida e necessária porque “Cabe sim que as forças sociais, econômicas e políticas se organizem e dialoguem sobre como corrigir os desmandos do lulo-petismo que levaram o país à crise moral e a economia à recessão” (http://www.valor.com.br/politica/3942088/seria-salvar-o-que-nao-deve-ser-salvo-diz-fhc-sobre-pacto-com-dilma). E terá, na ponta da língua, uma resposta a dar às perguntas que ficaram em aberto acima. Repito-as: Quem assumirá as rédeas da Política? Um pacto sério em busca da reconstrução do país já foi ou está sendo costurado? Por quem? Que pacto poderá ser aquele que ainda se buscará? Seus termos só poderão ser aventados após o afastamento da atual governante? Por quê? Ora, porque “só a criação de um novo bloco, com a participação da sociedade, seria capaz de criar uma saída para a crise”, e a crise se fez porque “ninguém quis agir” quando esse nosso ex-presidente avisou ao seu sucessor e à atual presidente, ao voarem juntos na companhia de dois de seus ilustres antecessores à África do Sul para lamentar a morte de um “companheiro”, que “o modelo de presidencialismo de coalização, que na verdade era um presidencialismo de cooptação” se havia exaurido. (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/03/1600269-fhc-diz-que-nao-adianta-tirar-dilma-e-aloysio-quer-ver-presidente-sangrar.shtml – cit). Ah, sim… então, estará tudo explicado. Depois… com a participação da Sociedade… os líderes que são líderes decidirão. E agirão. Depois de quê? Depois, ora. Afinal, eles são os líderes. Mas… o presidencialismo de coalizão não era um modelo decorrente de um pacto presumidamente sério? A Sociedade não participou desse pacto? E ele deu nisso?

 

      E as forças sociais, econômicas e políticas? Organizar-se-ão quando? “No processo”? Qual é “o processo”? O “processo” aí está. Pleno, franco, fagueiro. Ou essas forças já estão organizadas, tanto assim que estão “em movimento”? Se estão, esse “processo” é nada mais que decorrente dessa “organização”. Como elas estão organizadas? Tal como se apresentam no Congresso? Como se apresentam nas ruas? Quem dialoga ou já dialogou com quem sobre como corrigir os desmandos que levaram o país à crise moral e, por decorrência, a economia à recessão? Quem dialogará? Com quem?

 

      Venha o impeachment ou a renúncia mais cedo ou mais tarde, ou venham as eleições, quais alterações no espectro político se percebem para que o País se reja de forma mais correta ou para que se imponham projetos minimamente descomprometidos com projetos personalíssimos e subterrâneos paralelos que já conhecemos e já foram provados e comprovados e, por si mesmos, foram reprovados? Nenhuma. Que projetos são apresentados à Sociedade além desses, personalíssimos e subterrâneos, para que ela os discuta? Nenhum. Baseada em que a Sociedade poderá ter a expectativa de que se forme um Governo minimamente probo e interessado em resolver as graves questões nacionais ou um pacto sério? Em nada. O Congresso continua o mesmo. O Judiciário continua o mesmo. Os pactos continuam sendo feitos entre os mesmos. Os brasileiros continuam os mesmos. Ignorantes de tudo. Liderados pelos mesmos demagogos.

 

      Cada vez mais Lula, candidato natural do PT, cresce como “Salvador da Pátria” entre seus eleitores, desvinculando o desastre do governo de Rousseff, que ele mesmo faz questão de evidenciar, de seu governo – que literalmente flanou na marola mansa do momento internacional como um “milagre brasileiro” reeditado. O PSDB a cada dia mais se desgasta em cima do muro, sem qualquer consistência, como sempre. O PMDB, herdeiro direto do antigo MDB, é o que é, e é o que sempre foi – é preciso explicar? Lideranças menores, mas igualmente “iluminadas”, do tipo Marina Silva e outros menos badalados, recolhem-se às moitas, espreitando e esperando a oportunidade de apostar novamente na disputa dos votos das “bases” fanáticas – que incluem tanto a dita verde quanto a dita evangélica em contraposição à dita católica abrigada entre as hostes petistas. Ao mesmo tempo, a ONG supranacional pró-vandalismo “Anonymous”, que mantém íntimas relações carnais com o PSOL e outros nanicos radicais, tal como “apoiou” – ou seja, tentou desarrumar – o “movimento” dos caminhoneiros, “apoiará” todo e qualquer “movimento”  que vise a qualquer coisa e desarrumará qualquer coisa.  E é quem mais conclama a que se façam manifestações mais amplas, mais gerais e mais irrestritas. O povo, porque povo é, vai atrás do barulho que os “exércitos” presentes nas ruas produzem. É como se sempre bastassem apenas novos discursos, novas promessas e novos conchavos para que tudo dê certo… “Desta vez”, será diferente… quem sabe…?

 

      Se as celebridades todas nos dizem que todos devemos ir às ruas no próximo dia 15, eu considero isso um mau sinal. Um péssimo sinal. Mas quem sou eu para dizer a alguém que não vá? Estarei desafinando, não é mesmo? Pois, sinto muito: desafino, sim. Não consigo acompanhar o tom dessa charanga.  A começar por ela, nada disso é sério, tudo é só um circo, um circo de que todos parecem se sentir obrigados a gostar, em que todos parecem se sentir obrigados a pôr fé – e fé é fé, continua sendo fé, pouco importa o resultado da reza – e que todos parecem se sentir obrigados a manter de um jeito ou de outro, mesmo sabendo que a alegria do(s) palhaço(s) é vê-lo em chamas. Não sou, mas, se eu fosse cada um de vocês, antes de bater palmas com tanto entusiasmo sempre que alguém me incentivasse a fazer isso, pensaria muito a respeito desse circo de horrores em que vivemos hoje encarcerados, em que a hipocrisia, a má-fé e a incompetência não são apenas uma demonstração de grotescos trapezistas nos ares ou de prestidigitadores de 5ª categoria no picadeiro – são a lona, o chão, a arquibancada, são as cordas, as correntes, as grades.

 

       Tenho, sim, a estúpida mania de tentar derrubar expectativas “otimistas” que me pareçam ser nada menos que danosas, irresponsáveis, inconseqüentes; ou mesmo as aparentemente inócuas, mas que são exatamente as que mais reforçam o processo de consolidação de nossos erros acumulados. Por isso quase sempre desafino. E talvez só desafine tanto assim porque ainda creia – e fé é fé – em que, algum dia, alguns de nós, de bom juízo, ainda hão de predispor-se a pensar no Brasil com alguma seriedade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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MUDANÇAS

31-01-2015
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 “Affinché niente cambi, bisogna che tutto cambi” – disse o arguto Tancredi ao preocupado Dom Fabrizio Salina (“Il Gattopardo” de Giuseppe Tomasi di Lampedusa).

 

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      A imanência do que normalmente é chamado de “populismo” (e eu chamo de demagogia, pura e simplesmente) se manifesta plenamente na tendência dita “política” em voga na atualidade. A mais recente fantasia que hoje reluz entre as que vestem a velha esquerda e a deixam permanentemente sedutora como se nova em folha fosse se ajusta com alfinetes, alinhavos e pespontos como uma luva ao corpo das massas das mais diversas paragens. Todos querem “mudanças” – exatamente quais, por quais métodos, ninguém sabe. E pouco importa saber. “Mudanças” é uma palavra de ordem bastante sonora, que evoca audácia, de teor tão amplo, tão convenientemente abrangente, que é capaz de comover e entusiasmar rebeldes adolescentes de todas as idades, de todas as ideologias, de todos os estratos sociais.


      Essa imanência populista levou a rapaziada sarada do Syriza, com maioria de votos quase absoluta obtida em curto tempo, ao poder na Grécia. Portugal rói-se de inveja e dor de cotovelo. O Partido espanhol conhecido pelo nome de “Podemos” (será que vem pagando direitos autorais ao marqueteiro de Obama?) reúne milhares nas praças, entre os quais “Angel … de 37 anos … porque acredita que Espanha precisa de mudar, que as políticas do Governo de Mariano Rajoy estão comprovadamente erradas. Quanto às idéias de Pablo Iglesias e do Podemos, sabe pouco: ‘principalmente acredito que é preciso uma limpeza da classe política em Espanha. É isso que o Iglesias diz e eu acredito nisso’.”


      Por aqui, entre nós, ainda se busca um “líder” que nos oriente a respeito do que deverá ser mudado. Logo aparecerá alguém de bom porte e boa conversa. Quando aparecer, tudo resolvido… porque o apoio das massas ele terá. O importante é termos a certeza de que estamos na onda mais progressista que banha a Humanidade. A tendência já se vem impondo aos pouquinhos – chegou aos lares por vias virtuais e vai às ruas, embora em uma versão ainda meio acanhada. Todos queremos “mudanças” – uma palavra de ordem bastante sonora que não nos custa repetir sem refletir. As políticas de nosso Governo também estão comprovadamente erradas e mudar o erro pelo acerto é necessário. Exatamente como se definirá esse acerto, por quais métodos será ele obtido, ninguém sabe e pouco nos importa saber. Para que nos preocuparmos por antecipação? O que o “líder” disser, aplaudiremos. Porque nele acreditaremos.


      Se essa tendência crescer como promete, abre-se apenas (mais) um caminho alternativo do nada para o coisa nenhuma. Mas… iremos em frente porque em frente é preciso ir… Afinal, se tudo se resume a ter fé e a pagar para ver, em fazer isso estamos viciados faz tempo. E isso é algo que ninguém, ninguém mesmo, há de querer mudar…  

 

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 http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Internacional/Interior.aspx?content_id=4374332&page=-1

Espanha, Europa, Internacional, Madrid, Manifestação, Partido Podemos

Dezenas de milhares vindos de toda a Espanha enchem Praça Cibeles

Última atualização hoje às 12:55, Publicado hoje às 12:22

Dezenas de milhares de pessoas enchiam pelas 12:30 (hora local) a Praça Cibeles e a subida da Rua de Alcalá (Madrid), em frente ao Banco de Espanha e ao Instituto Cervantes, para participarem na “Marcha da Mudança”, organizada pelo partido Podemos.

 A praça e ruas adjacentes estavam pelas cerca das 11:30, hora em Lisboa, pintadas de roxo com os cartazes do Podemos.

 Angel, um cidadão de Alicante, de 37 anos, juntou-se à manifestação do Podemos com a família, porque acredita que Espanha precisa de mudar, que as políticas do Governo de Mariano Rajoy estão comprovadamente erradas.

Quanto às ideias de Pablo Iglesias e do Podemos, sabe pouco: «principalmente acredito que é preciso uma limpeza da classe politica em Espanha. É isso que o Iglesias diz e eu acredito nisso».

O aparato policial na manifestação não é muito intenso, mas há polícias em frente aos principais edifícios ligados ao poder local, como a Câmara Municipal de Madrid, bem como um helicóptero a sobrevoar em permanência o espaço da manifestação, que decorre com tranquilidade.

Juntaram-se à marcha pessoas vindas de todos os lados de Espanha. O Podemos conseguiu reunir 260 autocarros, com 40 lugares cada um.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

“Pour le dessinateur Luz, ces manifestations sont à ‘contre-sens’ de Charlie – Luz, l’un des dessinateurs de Charlie Hedbo … donne son regard sur le mouvement ‘Je suis Charlie’ unanimement repris à travers la France, jusqu’à faire de ‘Charlie Hebdo’ un vrai symbole universel. … ‘Tout le monde nous regarde, on est devenu des symboles, tout comme nos dessins … C’est formidable que les gens nous soutiennent mais on est dans un contre-sens de ce que sont les dessins de Charlie … Cet unanimisme est utile à Hollande pour ressouder la nation. Il est utile à Marine Le Pen pour demander la peine de mort’http://www.sudouest.fr/2015/01/10/pour-le-dessinateur-luz-ces-manifestations-sont-a-contre-sens-de-charlie-1792749-6092.php

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“Anonymous declara guerra aos jihadistas em vingança pelo Charlie Hebdo – O ramo belga do grupo de hackers Anonymous ameaça diretamente a Al Qaeda e o Estado Islâmico. VEJA O VÍDEO – No vídeo, o representante do Anonymous explica, com voz distorcida, que o grupo decidiu ‘declarar guerra’ aos terroristas, referindo-se depois especificamente à Al Qaeda e ao Estado Islâmico. ‘Vamos perseguir-vos – todos – e matar-vos’ – garante o grupo, numa campanha que identifica como ‘#OpCharlieHebdo’. ‘Permitiram-se matar pessoas inocentes e nós vamos vingar as suas mortes’, promete o vídeo. O Anonymous diz que os seus ativistas em todo o mundo vão seguir toda a atividade online dos jihadistas e encerrar as suas contas nas redes sociais. ‘Não vamos deixar que a vossa estupidez mate as nossas liberdades e a nossa liberdade de expressão. Já vos avisámos: Esperem pela vossa destruição’, ouve-se ainda. ‘Vamos perseguir-vos por todo o planeta, não vão estar seguros em lado nenhum. Somos o Anonymous. Somos legião. Não esquecemos. Não perdoamos. Temam-nos Estado Islâmico e Al Qaeda – vão receber a nossa vingança’, termina.” http://visao.sapo.pt/anonymous-declara-guerra-aos-jihadistas-em-vinganca-pelo-charlie-hebdo=f806560#ixzz3OQvpdOh5

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“… los que desfilaban por las calles querían taponar los enfrentamientos comunitarios. Los asesinos de París han desencadenado un movimiento de unidad sin precedentes, enviando así un mensaje inequívoco a las debilitadas corrientes centrales de la política. … Es difícil reanudar un pacto social puesto en cuarentena por la crisis económica, pero no queda otra para reducir al mínimo la violencia latente entre los que no se integran en sus países, y eso con independencia de los compromisos militares u objetivos de seguridad adoptados por los poderes del Estado. Es el objetivo buscado por los protagonistas de la gran oleada republicana en curso: protegerse contra las amenazas, pero rearmarse frente a las dinámicas de los halcones.”  http://internacional.elpais.com/internacional/2015/01/11/actualidad/1421005317_089649.html

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      Não exatamente fiéis ao sentido que pretendeu Olavo Bilac dar às suas palavras, muitos são os “poetas” que ouvem estrelas e em seguida nos explicam que é preciso muito e muito amar para entendê-las. Quem não as entende não é capaz de amar o suficiente. E muitos também são os que, ao vir do sol, saudosos e em pranto, procuram-nas pelo céu deserto… Seguramente anseiam pela chegada da próxima noite, para que possam novamente encontrá-las em pleno brilho. E as encontrarão, com toda a certeza. Com elas conversarão. É que, mesmo depois de extintas, as estrelas exigem anos-luz para que não mais as vejamos. E quem alguma vez as escutou há de seguir escutando-as pela vida afora. E nada mais, além de estrelas, escutará.

 

      Há uns dias, a redação do Charlie Hebdo foi alvo de uma ação terrorista. Por muito amor (?), doze pessoas foram assassinadas. Por muito amor (?), meio mundo celebrou. Por muito amor (?), o outro meio mundo saiu às ruas com cartazes que diziam “eu sou Charlie”. Outras muitas pessoas mais foram mortas em outras ações, outras ocasiões, outros locais. Nem sabemos onde, nem sabemos seus nomes nem quantas foram elas. É muito amor…

 

      Que significaria ser Charlie, quem seria Charlie, que tantos agora querem ser? Um protesto contra as condições desumanas sob as quais mais de meio mundo sobrevive não levaria tanta gente às ruas, pois nunca levou. Que poderosa voz de comando faria alguém abrir mão de sua própria identidade aceitando personificar uma determinada versão de liberdade indicada por um semanário que sobrevive graças ao prazer mórbido que certo público encontra no absoluto desrespeito voltado a tudo e a todos? Quem diz ser Charlie sem que de fato o seja terá sido seduzido pelo canto de alguma estrela, um canto que em muito se parece com o canto das sereias.

 

      No dia 08, logo em seguida à notícia do que havia ocorrido em Paris, comentei na “rede”, sem muito me alongar, que, para opinar com um mínimo de serenidade, antes de imaginar que qualquer fé religiosa ou política pudesse ser, por si só, capaz de desencadear tamanha estupidez, deveríamos nos lembrar de que existem indivíduos enfermos, fanáticos, alucinados, que, sozinhos ou em pequeno grupo, apenas buscam um pretexto qualquer para provocar pavor e desfrutar de uma sensação de poder, ainda que seja efêmera. Bem poderia ter dito ainda que, em contrapartida, existem outros indivíduos que, isoladamente ou em grupo, sem correr qualquer risco, apenas recolhem o que encontram em seu caminho e tudo transformam, inclusive o lixo, em vantagens que lhes permitem algum proveito. Ambos os tipos contam, a seu favor, com uma infeliz tendência a absolutas irresponsabilidade, maleabilidade e conformidade das massas. Para não citar outras tendências mais que com estas muito colaboram. Não por acaso, pois, o Charlie Hebdo, que mantinha até agora uma tiragem regular de 60 mil exemplares, está lançando, uma semana após sua redação ter sofrido baixas em um atentado, em 16 idiomas, uma edição em que reafirma o seu “direito à blasfêmia” (seria um direito sagrado?), esperando contar com não menos de 3 milhões de interessados.

 

      Em uma Europa que hoje parece estar tão assustada, alguém ainda se lembraria, por exemplo, do bando Baader-Meinhof (que se denominava Rote Armee Fraktion = Fração do Exército Vermelho)? Ou todos já se esqueceram de que seus integrantes, comunistas, justificavam a guerrilha urbana a que se dedicavam como uma luta contra o “Estado fascista” e, por isso, arrebentavam, roubavam, seqüestravam, matavam? Comoveu a Europa a ponto de promover-se uma manifestação do vulto da que se viu domingo último? Parece que todos também já se esqueceram das Brigadas Vermelhas (Brigate Rosse), cujo objetivo seria destruir “o projeto contra-revolucionário do capitalismo multinacional imperialista”. Bonito, isso. Quantos não justificaram os atos desses bandos de cretinos como atos heróicos, necessários, revolucionários, até mesmo… românticos…?

 

      Quem não tem idéia do que, em mais de duas décadas (e ainda hoje ameaçam ressuscitar), inspiradas nos Tupamaros e em íntima relação com a máfia calabresa, reunindo jovens militantes do Partido comunista, do movimento sindical e da esquerda católica, foram capazes de fazer na Itália as Brigadas Vermelhas, cujo ódio também se voltava aos intelectuais da esquerda (jornalistas, professores universitários, juízes, advogados, policiais…) a quem atribuíam cumplicidade com um “Estado imperialista multinacional”, ou quem não tem idéia do que faziam os ilustres personagens que, entre 1970 e quase o finalzinho do século, compunham o Baader-Meinhof, quando esse bando pôde ser responsável por dezenas de mortos e centenas de feridos entre civis e militares, inclusive estrangeiros, em território alemão, além de um prejuízo de milhões de marcos em patrimônio público e privado, ou quem apenas quiser avivar a sua memória, que dê um pulo em pt.wikipedia.org/wiki/Fra%C3%A7%C3%A3o_do_Ex%C3%A9rcito_Vermelho  e em pt.wikipedia.org/wiki/Brigadas_Vermelhas  e talvez possa aprofundar um pouco mais seu conhecimento a respeito das estrelas que então eram ouvidas, aprofundando também suas reflexões e suas conclusões a respeito de tanto… amor. E que me diga, em seguida, se nada encontrou que se pareça com outra coisa ou se pareça com a mesma coisa que tenha ocorrido alguma vez em nosso território, mesmo que, entre nós, um pouco mais subdesenvolvida.

 

estrelas

 

      Cito apenas esses bandos, três, incluindo o bando uruguaio, para também aqui não muito me alongar – para quem, ao somar dois com dois, encontra quatro… Em suma, embora haja estrelas em quantidade infinita buscando cantar em uníssono e muito desafinando, terrorismo é terrorismo, o terrorista é um terrorista. Nada mais. A violência, que todos abominam, é da natureza humana, é instintiva quando essa natureza permanece em estado bruto, e a dirigimos, por instinto, àqueles que consideramos que nos ameaçam, Mas a cultura – a civilização – ao refinar-se, será capaz de contornar e/ou limitar e controlar a violência. Nesse sentido, alguém pôde teorizar o recurso à violência como sendo monopólio exclusivo de uma organização política estruturada que seria a única que o poderia legitimar, atribuindo funções responsáveis por ele. A quem os políticos, intelectuais, líderes religiosos e todos os demais manifestantes que se reuniram na “marcha republicana” em Paris poderiam estar reclamando providências contra o terrorismo? Aos anjos?

 

     Se a cultura está, ela própria, também na natureza humana, o terrorismo age em paralelo à cultura, não se encaixa nela, é difuso, é irresponsável, dirige-se contra todos e qualquer um e é incontrolável; não será a radicalização de qualquer tendência, não será movido a religião alguma, é simplesmente uma aberração da natureza, e como tal precisa visto e ser tratado. O terrorista é absolutamente marginal, é um demolidor, não segue “livro sagrado” algum, não faz Política nem faz humor, nem de bom nem de mau gosto – apenas desqualifica tudo e qualquer coisa, promove o tumulto, a desordem e goza com as imensas tragédias que provoca. Terroristas não defendem liberdade alguma ou qualquer valor que mesmo de longe possa parecer democrático ou minimamente racional, não são contra qualquer esquerda ou qualquer direita que se diga ou se suponha crítica ou não. São apenas contra qualquer ordem, contra qualquer instituição, adeptos da destruição de tudo o que a cultura (as culturas), a civilização (as civilizações) pôde (puderam), em séculos, erguer. Pouco importa o que eles próprios ou aqueles que os aplaudem aleguem para justificar suas atitudes. E pouco importa o que alguns outros alegarão para, mais uma vez, conforme seus próprios interesses, manipular a (pouca) inteligência das massas.

 

      Os envolvidos na(s) tragédia(s) ocorrida(s) em Paris são terroristas. Em qualquer tipo de cultura serão considerados criminosos, e não estão, nem um pouco, preocupados com salvar alguém da crueldade de qualquer sistema, seja o sistema capitalista, seja o sistema galáctico, ou com salvar suas próprias almas de um jeito ou de outro; são gente doente, que não tem cura.

 

      Terroristas nada respeitam e não respeitam fronteiras, invadem territórios, seqüestram indivíduos, explodem instituições públicas e privadas – não perdoam e não esquecem. Isso eles nos dizem claramente e disso nós bem sabemos, porque o sentimos em nossa própria carne. Só não sabemos muito bem que é o que eles exatamente não perdoam e não esquecem. Talvez o fato de que estejamos no mundo e a eles sobrevivamos… talvez porque nada mais tenham como objetivo senão provocar o terror que do mesmo terror se alimenta e o mesmo terror produz. E terroristas não discutem entre si. Poderão matar-se uns aos outros, sim, quando os bandos se põem em disputa por espaço e poder, mas discutir, não discutem, jamais. Com armas de fogo ou com lápis e papel ou um carimbo nas mãos, quando aparentam discutir, estarão… dialogando. Será um diálogo entre comadres, porque o objetivo de um terrorista qualquer será sempre o mesmo: meter-se por todas as frestas, corroer tudo, derrubar tudo, acabar com tudo.

 

      Por tudo isso e mais um pouco, não apenas Hollande, visando a reaglutinar a Nação francesa, ou Marine Le Pen, visando a obter uma legislação que reintroduza a pena de morte, aproveitam as massas que foram postas em movimento a partir de Paris afirmando ser Charlie após o atentado – também o bando supranacional que se autodenomina Anonymous – cuja estrela se mascara de estrela cadente, ou seja, fantasia-se de material fragmentado não se sabe bem qual, vindo não se sabe bem de que parte do espaço sideral e entra em combustão ao atingir a atmosfera que nos permite mal ou bem respirar – nos declara (alguém de sua “fração belga” declara em seu nome como seu “representante”) não que “seja” Charlie, mas sim que “vingará” Charlie, e que decidiu “declarar guerra”.

 

      Quem busca revanche, quem busca vingança, não estará buscando Justiça alguma, nem a divina nem a dos homens. Justiça é algo de eminente essência política, pública, vingança é algo muito particular, subjetivo, que qualquer idéia de Justiça só atrapalhará. E guerras se fazem entre Estados, não entre indivíduos ou bandos. Quem o bando (fração, brigada, legião…) Anonymous supõe que seja para que nos venha comunicar que decidiu “declarar guerra”? Que tanto poder teria o Anonymous para fazer tantas ameaças a outros bandos terroristas tais como o Al-Qaeda e o dito Estado Islâmico, que não são Estado algum? Por que seria lícito o bando Anonymous se preocupar com “vingar” Charlie em qualquer tempo e lugar, por todo o planeta, convulsionando-o ainda mais? Por que tanta certeza tem o Anonymous de que poderá contar com a cumplicidade de quem os ouve para mais facilmente poder perseguir e matar aqueles que aponta como seus adversários, sobrepondo-se aos Estados nacionais, apropriando-se de funções que destes seriam monopólio e as deturpando? Quem lhe deu esses “direitos”? Os que hoje dizem ser Charlie, todos, que se sentiram feridos ao ser “vingado” por alguns fanáticos um ato de desrespeito a qualquer coisa ou a alguém? Quem estará, de fato, por trás desse anonimato insano, que vem sendo tão bem sucedido especialmente entre aqueles que dizem abominar os Exércitos? Que é o que nos promete esse bando mascarado senão mais terrorismo? Fará o terror em nome de quem, legitimado por quem? Pelos que se dizem Charlie? Quem, então, seria Charlie, que, por ter sido agredido por terroristas, por terroristas deverá ser vingado? Que “filosofia” Charlie representa, afinal, que espécie de “liberdade” pretenderia impor?

 

      Apesar de que muitos tenham tido conhecimento de algumas de suas charges mais divulgadas e comentadas por serem possivelmente as mais grosseiras, quem e quantos dos que se dizem Charlie alguma vez passaram os olhos pelas páginas do Charlie Hebdo, de tão baixo nível e tão duvidoso humor (que alguns definem como sendo uma espécie de “nosso” antigo Pasquim e que nem por ser francês seria ou será mais refinado, mais divertido ou mais “universal”)? Por mais que lamentemos mortes inúteis, todas elas, é muito complicado encontrar alguma graça no que dizem ou fazem os depravados, ou encontrar algum ar de democracia em sua prepotência doentia, que nada e ninguém respeita. Mais complicado será com eles identificar-se. E mais complicado ainda será justificar uma ação terrorista ou qualquer diálogo com terroristas, seja qual for a fé que estes digam professar.

 

      Terrorismo não é apenas crime – é lixo. O terrorista é o que a Humanidade tem de mais podre. Tolerar ou, pior, justificar o terrorismo, venha ele de onde vier, da forma como vier, é nada mais que colaborar com a produção de lixo, um lixo altamente tóxico que se acumula sobre si mesmo, obstrui qualquer via democrática e empesteia a atmosfera política por inteiro. E, por experiência própria, estamos bem sabendo de que os que muito se aproximam de terroristas e com terroristas muito dialogam correm o sério risco de ficar muito parecidos com eles, correndo também o mais sério ainda risco de acabar por elegê-los a exercer funções públicas que se demonstrem vitais em uma sociedade.

 

     Será, assim, no mínimo uma anedota o comentário de um cronista, que um dos nossos jornalões publica (www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/2015/01/1574241-por-que-nao-fomos-charlie.shtml), criticando osilêncio ensurdecedor” que se ouviu no Brasil no último domingo, quando em Paris se fazia uma mega manifestação contra o terrorismo, “silêncio que começa lá em cima, na Presidência da República”. As razões da cautela de Rousseff não seriam óbvias? Aliás, talvez sejam duas as anedotas no texto, pois a segunda será atribuir a “uma mentalidade hiperburocrática” o fato de o Governo brasileiro ter designado nosso Embaixador para comparecer a um ato que era, antes que tudo, de caráter diplomático – teria sido uma “omissão”, pois, afinal, o indivíduo “José Bustani teria comparecido à manifestação mesmo que não fosse escalado”… E…? E quê? Ou seriam três as anedotas, contando com a crucial informação de que, da ausência de alguém do 1º escalão da República ao ato, “a mídia não perdoou” sequer os EUA. Mas talvez fossem quatro, pois, conforme se lê, “apenas um clássico brasileiro: a incapacidade ou a inapetência (ou ambas) de se mobilizar, de ganhar a rua, de protestar, de reclamar, de ser inconformista” explicaria o trânsito da Av. Paulista não ter sido interrompido por uma montanha de cartazes com as palavras “eu sou Charlie”. Se essas palavras, de ordem tão superior, não forem adotadas com entusiasmo e acatadas, quem de nós poderá ter a certeza de que não “estamos fora do Universo”…? É divertido, isso tudo. Ou não? Eu acho.

 

      Há muita coisa fora de lugar, principalmente em muitas cabeças muito confusas com tantas idéias enjambradas e mal arrematadas, não só por aqui como pelo mundo afora, não? Isso, sim, é o nos parece, mas também é o que nos convence de que estamos perfeitamente “dentro do Universo”. E, a prosseguir as coisas como elas vão indo, especialmente por aqui, de muito pouco servirá que alguns continuem procurando pelo céu deserto, ao vir do sol, saudosos e em pranto qualquer estrela, nova ou velha, que nos indique um caminho menos acre. É mais do que hora, portanto, de dar fim aos fricotes poéticos e de começarmos, sem querer ouvir estrelas estranhas e sem, de fato, ouvi-las, a pensar muito a sério em coisas muito sérias que nos dizem de muito perto. É mais que hora de tentarmos fazer alguma coisa que preste para nós mesmos. Em nosso próprio nome. Porque o nós que nós somos de fato, apesar de que goze plenamente de um (seria sagrado?) “direito à blasfêmia”, não vem gozando de liberdade alguma, nem de Justiça, nem de segurança, perde a vida nas ruas ou trancado em sua própria casa a qualquer hora de todos os dias, nas mãos de uma bandidagem muito bem protegida pela politicagem. O que não deixa de ser um tipo de terrorismo institucional. E esse nós não é anônimo – tem nome próprio. Que não é Charlie. Que não se confunde com o nome de quem quer que seja. Que deve ser enunciado em forte e bom som.

 

      Aceitar que a mídia seja a única voz da verdade, acreditar que problemas somente sejam o que a mídia aponta como sendo problemas, pretender que, com todos os problemas reais que enfrentamos, sejamos Charlie porque Charlie todos “devem” ser, negar nossa identidade, impedir que nos reconheçamos apenas por nossa cara limpa e por nosso nome verdadeiro será exigir que sejamos uma população “maria-vai-com-as-outras”, é querer mostrar ao mundo inteiro e a nós mesmos que não passamos de um bando submisso às palavras de ordem de estranhas estrelas sempre entendidas a meias. Pouco importa se são estrelas que se mostram por inteiro ou se camuflam, se estão mortas ou ainda vivem – elas todas sempre nos disseram, ainda nos dizem e sempre nos dirão que deveremos viver e morrer pela liberdade… delas mesmas.

 

      Se estrelas são tão essenciais para nos conduzir, se muito queremos ouvi-las e se, por muito e muito amar, nos sentimos plenamente capazes de entendê-las, que ouçamos, então, com muita atenção, as que compõem o Brasão de Armas de nossa República.

armas da república  Que ouçamos estas, e apenas estas estrelas. E não nos fará falta ouvir qualquer outra. E cuidemos para que ninguém, senão nós mesmos, possa sequer pretender dizer ou fazer algo em nome delas – um nome que é, de fato, o nosso único nome.

 

 

 

 

 

 

 

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Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

Ninguém sabe com que velocidade o Partido dos Trabalhadores vai implantar as mudanças que levarão o Brasil a um regime mais explicitamente totalitário. … O que separa a sina do Brasil da apavorante realidade da Venezuela é o fato de que o Foro de São Paulo, por meio do Partido dos Trabalhadores, ainda não dominou completamente a mídia, nem as Forças Armadas, nem as forças policiais do país. Então, para nós que lutamos pela liberdade e pela democracia no Brasil, é uma corrida contra o tempo.” veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/2014/11/14/deu-na-canada-free-press-o-caminho-do-brasil-para-o-comunismo-bolivariano-vamos-traduzir-para-o-jo-soares

 

 

      Nada, absolutamente nada justifica – não se justifica em absoluto, portanto – que alguém que goze de alguma inteligência e algum equilíbrio emocional ainda se iluda ou tente iludir os demais, minimizando a quantidade e a gravidade dos problemas que se acumulam em nosso País – que o vai deixando de ser antes mesmo de que tivesse a oportunidade de plenamente ter sido.

 

      No processo de desmanche do Estado brasileiro, desencadeado há mais de século (ninguém perdoa Floriano Peixoto…!), a eleição de Aécio poderia ter rompido alguns esquemas e nos ter permitido alguma sobrevida. A reeleição de Rousseff inaugurou uma nova fase desse mesmo processo em que não mais se trata de tentar corroer as Instituições – trata-se agora de imporem-se, na conversa ou na marra, doa a quem doer, os objetivos “soberanos” de um grupo de indivíduos cujo único “mérito” é ter participado de ações armadas ou não, em conjunto ou não, contra o Estado brasileiro. A associação com inequívocos fins lucrativos que esses indivíduos celebraram substituiu o Estado, pôde deturpar por completo suas funções e exerce o Poder acima de tudo e de todos porque a Sociedade que se formou em nosso território nunca teve consciência desse Estado. Assim, suas Instituições puderam ser todas corroídas e esfarelaram-se por completo – hoje são “empresas”, redutos de “companheiros”.

 

      Apesar de que alguns, percebendo que já lhes falta o chão antes mesmo que lhes falte o pão, ainda esperem uma reação não se sabe bem vinda de onde pois não há qualquer indício de uma organização que vise à reconstrução do País, eu diria que a prova mais contundente da impossibilidade de reversão do avanço desse processo é a facilidade com que os “libertários” continuam ganhando espaço nos meios de comunicação, nas Artes, na Imprensa, nas Escolas, nas Universidades, mesmo aqueles que simulam combater a situação, e a passividade com que as FFAA aceitaram a indicação de Rousseff para o Ministério de Defesa, pondo-as em um escandaloso nocaute técnico.

 

      Sustentam esse processo os mesmos elementos que o detonaram – o não sabermos quem somos, o não sabermos avaliar o que podemos e devemos ou não devemos nem podemos querer, o não termos um objetivo conjunto, o nada sabermos de Política, o não querermos saber e o sempre termos tido raiva de quem sabe – que se resumem em o não termos um projeto de Nação. Livremente esse processo avançou a passos largos, pouco importando a velocidade que imprimiu a esse avançar – reduzia quando havia oposição, acelerava quando a oposição se recolhia, mas jamais foi interrompido. Aos que dele se beneficiam de uma forma ou de outra, por condições de poder ou de status, o Brasil pouco importa. O que importa é seu próprio bolso. Por isso é tão importante lutar contra o tempo.

 

      A pretexto de apontar a má-fé, inequívoca, de Dilma Rousseff e de combater seu discurso prepotente e vazio em ação de reiteração de posse (e foi isso mesmo o que eu quis dizer), e, de quebra, criticar a nomeação, para compor seu novo Ministério, de alguns que já se demonstraram suficientemente incapazes de articular coisa com coisa, um esperto “cidadão do mundo”, a soldo de sei lá quem, escreve um dos textos mais cretinamente desagregador que já tive a oportunidade e o desprazer de ler. E considerem que já li e tenho lido muitos nesse mesmo estilo.

 

      Esse texto, no entanto, por ser “contra o governo do PT”, será celebrado, aplaudido e bastante divulgado. Porque é “contra o governo do PT”… Como se bastasse ser “contra o governo do PT” para que alguma coisa tivesse algum valor…

 

      Todos nós, inclusive os próprios petistas militantes, sabemos que não é possível avaliar o governo de Rousseff pelo que Rousseff diz (ou pelo que os petistas dizem) que ele é – o governo de Rousseff deve ser avaliado apenas pelo que o governo de Rousseff faz. Tal como todos os nossos anteriores governos significaram exatamente o que esses governos fizeram, não o que pôde ser dito a respeito deles. Seja o que for que Rousseff diga, portanto, seu discurso mais recente valerá tanto quanto o primeiro e todos os demais discursos com que já nos vem brindando nos últimos quatro anos. Nenhuma expressão nova ou diferente sendo incluída em qualquer frase terá o condão de emprestar às suas atitudes ou às suas intenções qualquer sentido novo ou diferente.

 

      Ao ouvir de Rousseff, porém, a expressão “alma coletiva”, que nenhuma surpresa nos traz, teorizou o Sr. Claudio Tignolli (texto na íntegra abaixo): “O Brasil precisa de almas individuais, sem raízes, que defendem uma cultura universal, planetária, sem barreiras. Individualismo dá prêmio Nobel: não o contrário.”

 

     Por acaso, “almas individuais, sem raízes, que defendem uma cultura universal, planetária, sem barreiras” foram alguma vez capazes de construir, em algum território, um bom País, um País sério? Desde quando? Onde? Qual bom País pôde ser construído por essas “almas individuais”? Se elas alguma coisa construíram, construíram para quem?

 

      Ao escrevinhar esse seu artiguete, que nos quis dizer exatamente o Sr. Claudio Tignolli (que, de curiosa, fui ver quem é e o que faz em http://www.portaldosjornalistas.com.br/perfil.aspx?id=12587)? Eu aqui poderia repetir, acrescentando-lhes uma interrogação, as palavras que ele mesmo usou: “ninguém reparou”? Mas nem vale a pena perder tempo buscando definir o que seja essa tal alma individual porque a questão levantada pelo Sr. Tignolli, apesar de parecer ser, não será uma questão espiritual ou emocional. Não será um conflito entre as almas coletivas e as almas individuais. A questão é bem outra – é uma questão de ordem essencialmente ideológica. Eminentemente política, portanto.

 

      O que ele nos quis dizer foi que defender, investir e apostar no desenvolvimento de uma estrutura nacional será manipular “um ‘fator’ psíquico de natureza irracional, um ciclone que anula e varre para longe a zona calma onde reina a cultura” (??); que quem o fizer estará favorecendo o surgimento de um regime totalitário, de um “caudilho”, será necessariamente um “nazista”, um “fascista”, um “comunista”, um “fundamentalista” e/ou outras bobagens (digamos “bobagens” para dizer o mínimo…) que tais, estará pregando uma “fé religiosa” – muito  embora, no frigir dos ovos, ele tenha desejado apenas propagandear aquilo em que ele mesmo crê ou algo em que diz crer por alguma particular conveniência. 

 

      Que princípio teria orientado essa teoria do Sr. Claudio Tignolli? Teria tomado a Anarquia como um princípio? Difícil dizer. Ele apenas teorizou teóricos e teorizou teorias. Teorias são teorias, não são princípios, assim como não são fatos. Um princípio regerá os fenômenos que ocorrem nos limites de sua alçada. Uma teoria procurará explicar como se comportam os fenômenos em relação a esse princípio, em relação aos fatos e a outros fenômenos, criando outros fatos. Os princípios, se princípios de fato forem, serão muito poucos, e serão eternos, pois “princípios” eles serão, servindo ao bem ou servindo ao mal. E, por serem princípios, é de se supor que sejam conflitantes, absolutamente incompatíveis entre si. Já as teorias são incontáveis e, mesmo partindo de princípios incompatíveis, muitas vezes mostrar-se-ão, em muitos pontos, perfeitamente compatíveis.

 

      É inegável que as teorias nos são muito úteis. Foram pensadas, repensadas e nos ajudam a pensar. Mas só um estúpido absoluto não sabe que todo e qualquer enunciado teórico será datado, pois depende de observação, de experiências, de conhecimento acumulado, portanto, não é que toda e qualquer teoria seja relativa, mas sim que terá valor relativo ao ser aplicada à realidade presente. E só alguém muito mal intencionado haverá de apresentar teorias datadas como se fossem elas algum princípio, sugerindo que se lhes dê atenção suficiente a que as demais teorias sejam desprezadas a priori – e isso será feito para que possa fazer valer as suas particulares verdades que, muitas vezes, não passam de opiniões rasas, de meras preferências, sem qualquer outro fundamento que uma estética de gosto até meio duvidoso. E só um estúpido muito estúpido há de crer nessas verdades sem questioná-las, apenas porque lhe seja dito que uma teoria qualquer as respalda, mesmo que essa teoria goze de aceitação pretensamente universal.

 

      Pensemos um pouco – porque pensar, sim, faz falta e, se a Liberdade é importante, nenhum Homem será livre se não for livre de dogmas o seu pensamento. Se a colaboração a um processo de implosão ou deterioração de nosso País, se a cumplicidade com que a sua integridade territorial e a nossa identidade sejam eliminadas do mapa forem condição a que sejam reconhecidos quaisquer méritos a qualquer indivíduo, definitivamente não nos faz falta alguma que algum brasileiro receba qualquer prêmio internacional. Por que precisaríamos de um prêmio Nobel? A Argentina recebeu cinco desses prêmios. E daí? Nossos amados vizinhos sabem mais, podem mais, são mais capazes, mais inteligentes que nós, brasileiros? Aquele país está em melhores condições que o nosso? Em compensação, alguns brasileiros que só atrapalharam o Brasil ganharam vários outros prêmios internacionais… De que esses prêmios individuais nos valeram?

 

      Ao Brasil, só lhe faz falta ser, ser plenamente Brasil, e que tenhamos plena consciência de que somos brasileiros e dependemos de que o Brasil seja de fato o Brasil. E, para tanto, se, realmente, não precisamos de matilhas culturais, sejam elas de quais tendências forem, menos ainda precisaremos de almas planetárias, sem raízes, sem barreiras, curtas, mesquinhas, individualistas.

 

      Muito pelo contrário, dessas almas todas o Brasil já se vê entupido faz tempo. Elas nos saem, literalmente, pelo ladrão. Almas malditas que se encarregam constante e diligentemente de umedecer a farofa de letrinhas que entulha nossos meios de comunicação, da qual só os fungos se aproveitam, pois dela se nutrem, nela se criam e proliferam. Por isso, exatamente, por nada mais, o Brasil, sendo o que é, pode estar como está, pôde eleger os governos que já elegeu e poderá eleger os que, infelizmente, por certo, ainda elegerá enquanto, mal e mal, sobreviver.

 

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Sent: Saturday, January 03, 2015  To: undisclosed recipients 

 

Saiba porque Dilma citou “alma coletiva” em seu discurso de posse

Por Claudio Tignolli

NINGUÉM reparou no seguinte trecho do discurso de posse de Dilma: “O nome de milhões de guerreiras anônimas que, voltam a ocupar, encarnadas na minha figura, o mais alto posto de nossa grande nação. Encarno outra alma coletiva que amplia ainda mais a minha responsabilidade e a minha esperança”.

Note bem o termo empregado: alma coletiva. O ghost writer do discurso de Dilma deixou bem claro a quem o termo alma coletiva se endereça.

Quem entende o mínimo de história do Brasil, e o mínimo de filosofia, deve ter tido um repuxão, um vazio no fígado, um bolo duro na garganta, ao ter ouvido o termo. Porque “alma coletiva” é definição empregada pelo nacional-socialismo, pelos nazistas, pelos caudilhos. Pelo totalitarismo religioso, enfim.

Quem mais entendeu sobre alma coletiva no Brasil foi o embaixador José Osvaldo de Meira Penna, sobretudo em sua obra “Em Berço Esplêndido” (Editora Topbooks, 1999). Meira Penna mostra, como ninguém, que Getúlio Vargas, exatamente quando o Eixo assombrava o mundo na Segunda Guerra, vendia, a torto e a direito, a ideia de “alma coletiva”.

Meira Penna dissecou como ninguém os perigos da “alma coletiva” ser defendida no Brasil. E foi beber na origem de quem apontava os perigos na alma coletiva na política:  Karl Jung.

 Escrita em 1936, a obra Wotan, de Jung, deixa claro os perigos da alma coletiva em política: “A a psicose coletiva alemã surge a partir do louvor da imagem arquetípica de Wotan, deus nórdico pagão dos germânicos, das tempestades, da efervescência, da inspiração e da guerra”.

Segundo Jung, de Wotan corresponde a “uma qualidade, um caráter fundamental da alma alemã, um “fator” psíquico de natureza irracional, um ciclone que anula e varre para longe a zona calma onde reina a cultura”.

Tem muito líder religioso fundamentalista que adora também o termo alma coletiva. Mas o vende como “egrégora”. Do grego egrêgorein, «velar, vigiar”, é a soma de energias coletivas.

O Brasil não precisa de conceitos de coletividades, de “raízes nacionais” (como defenderam a vida toda os hoje ministros da Cultura, Juca Ferreira, e da Ciência, Aldo Rebelo). Quem tem raiz é planta. Coletivo é ônibus, bonde, trem e metrô.

O Brasil não precisa de “coletivos”, de “matilhas culturais”, aliás nomes que você encontra em vários blogs, que defendem cegamente o PT, e vivem de grana pública.

O Brasil precisa de almas individuais, sem raízes, que defendem uma cultura universal, planetária, sem barreiras. Individualismo dá prêmio Nobel: não o contrário

Quem mais criticou o conceito de alma coletiva, aliás, foi o negro mais brilhante dos EUA: W.E.B. Du Bois, homem de Harvard, estudado na Alemanha. Referia que a “alma vital”, a que em alemão ele chamava de “seleleben”, ia pelo individualismo. (“O futuro será, muito provavelmente, o que as minorias raciais individualmente fizerem dele”, notou Du Bois em sua obra The Negro, 1915).

Dilma vai contra tudo isso, indica o discurso de posse.

E vou te dizer porque: porque, na brasilidade mais profunda, seja sob o PT do Mensalão barra Petrolão, seja sob o tucanato Alstom, alma coletiva quer dizer que todos bebem da mesma fonte.

Veja bem: Dilma nomeou um ministério pífio para fazer favores políticos. Que, além das benesses auferidas pelas indicações de titulares e apaniguados, são pagos pela distribuição de grana.

O Mensalão foi a pré-fixação dos pagamentos demandados pelos políticos coligados e de ocasião. O Mensalão tinha valores combinados, datas de pagamento, locais de saque. Era a corrupção tópica: local e hora de saque previamente combinados. Ainda que com uma logística complexa de repasses.

Petrolão foi a mesma coisa: as almas coletivas indo sacar o prometido. Mas, desta vez, direto no caixa da Petrobras, sem uma lógica de assalto medieval tecnicamente tão intricada como a do Mensalão.

Agora você entende o que é a “alma coletiva” ?

Veja como publicado:

https://br.noticias.yahoo.com/blogs/claudio-tognolli/saiba-porque-dilma-citou-alma-coletiva-em-seu-173458200.html

 

 

 

  

 

 

 

 

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