A ALTERNATIVA

26-05-2015
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

      Senhoras e senhores, respeitável público.

 

     Observemos com atenção que muitos dos “guerreiros do povo brasileiro” entram agora em nosso picadeiro parecendo já ter compreendido que a população brasileira, aquela que é real, de carne e osso, já percebeu que o projeto do PT era pura demagogia.

 

     Esta poderá até ser uma avaliação precipitada e equivocada – devemos considerar, pois eles são craques nas artes da dissimulação e da vitimização – mas… indícios não faltam. Um deles é a debandada dos Senadores petistas, com suas respectivas bagagens, rumo a outras agremiações partidárias. Mais um seria a proposta de “formação de uma Frente de Esquerda por mais democracia e direitos com partidos, movimentos e novos coletivos”, apresentada no documento “o PT não matará o petismo” (http://opetismovive.strikingly.com/). Outro, a tentativa dos “intelectuais” desse Partido de atribuir a perversa desorganização absoluta da economia nacional a “uma conspiração em marcha para desestabilizar o governo” (http://www.brasil247.com/pt/247/economia/170699/Em-manifesto-intelectuais-denunciam-golpe.htm). Outro mais será a declaração muito magoada de Marco Aurélio Garcia, ao ver o Congresso do Partido esvaziado mesmo no dia em que era prevista a presença de Lula da Silva. Diz Garcia: “Isso significa que perdemos a batalha política. Significa que não conseguimos ganhar politicamente aqueles que foram os grandes beneficiários das nossas políticas de inclusão social. Isso é sim responsabilidade do governo, mas é muito mais uma responsabilidade do nosso partido.” (http://oglobo.globo.com/brasil/congresso-do-pt-marcado-pela-ausencia-de-militantes-criticas-ao-governo-ao-partido-16246721#ixzz3b4qc9izt). E por aí vão as coisas.

 

       Ao mesmo tempo, temperando um pouco o malabarismo insosso do individualismo sem fronteiras, aplaudido entusiasticamente por muita gente, e em virtude do qual muita gente ainda acredita que basta gritar para si mesmo “eu tenho a força!” que seu pequeno universo estará protegido, os brasileiros começam também a descobrir (ou alguns talvez a redescobrir) que existe vida além da medíocre vidinha de cada um – ou seja, que existe uma vida coletiva, a da coletividade nacional; e não me refiro à “participação dos cidadãos” em passeatas, panelaços e quebra-quebras, mas à incipiente percepção de que indivíduos não só mantêm contatos reais, além dos virtuais, como são levados a criar vínculos diretos e indiretos de identidade e interdependência com aqueles que os cercam na Sociedade em que tentam sobreviver, Sociedade à qual pertencem, quer queiram, quer não; e, assim, é possível que descubram que nada são e nenhum direito terão enquanto indivíduos caso essa Sociedade não conte com valores corretos e com meios corretos a sustentá-la.

 

      Na intenção de que algum dia mais possamos desfrutar do espetáculo que se encontra em cartaz há muito mais tempo que os 25 anos nos quais “O Fantasma da Ópera” conseguiu manter-se na Broadway, insistirei aqui no mesmo assunto em que venho insistindo há décadas, embora bem saiba que isso será inútil. Pensem bem: a coletividade nacional não tem consciência do significado de correto ou de errado. A coletividade não tem consciência do significado dos valores nem do significado dos conceitos. A coletividade não tem consciência alguma. O que possa ser justo ou injusto, o que seja ou não seja ético, legítimo ou não etc. etc. – conceitos que vêm sendo bastante discutidos entre os que são e os que apenas se julgam muito capacitados a discuti-los – é, realmente, importante quando tratamos das vidas particulares, cada uma delas imprimindo o reflexo de pensamentos, palavras e obras na vida dos demais e, portanto, na do conjunto da Sociedade. Há, porém, outros dois conceitos, o de correto e o de errado, nos quais deveríamos muito refletir quando pensamos nessa vida do conjunto de nossas vidas, a vida coletiva. Apenas nós, indivíduos, cada um de nós, poderá definir o que possam significar esses conceitos. E projetar esse entendimento à vida coletiva, que, por sua vez, imprime seu reflexo na vida de cada um dos indivíduos.

 

      De minha parte, estou convencida de que errado nada mais é que aquilo que nos faz mal, o que nos produz danos, e correto será o que nos faz bem – e aqui, estamos considerando, evidentemente, o bem comum, o bem coletivo. Mas bem sei que, embora não pareça, costumo simplificar em excesso todas as coisas. Talvez elas sejam bem mais complexas, tal como alguns dizem que elas são. Feita essa ressalva, diria, então, que há muitos caminhos que nos levam ao que estará errado. Ou seja, para alcançarmos o errado há caminhos alternativos. Todos eles serão caminhos errados. Já o correto não oferece alternativa – o que é correto é correto, e todo o resto será errado e nos há de danar. Nenhum caminho será uma alternativa ao bom caminho, ao caminho correto, que, para que seja considerado correto, dependerá primordialmente de aonde e/ou a que ele nos levará. Será correto o caminho que nos levar ao objetivo correto pelos meios corretos. Não nos basta, porém, conhecer e repudiar alguns caminhos errados para encontrar aquele que poderia mostrar-se como sendo o correto.

 

       E digo isso, que me parece óbvio, a pretexto de dois vídeos que recebi no Facebook. O primeiro deles se encontra em https://www.facebook.com/matheusbrazmatt/videos/453085064845485 . É um horror! Quem o divulga comenta: “Este vídeo é uma relíquia. Foro de São Paulo em Porto Alegre, 1997. Lula, Dirceu, Stédile e Marco Aurélio Garcia. Todos juntos.” E cita Schopenhauer: “Toda verdade passa por três estágios.  No primeiro, ela é ridicularizada.  No segundo, é rejeitada com violência.  No terceiro, é aceita como evidente por si própria.

 

       Para profetas e prosélitos da Santa Madre Esquerda, que nos apontam seus ensinamentos como o único caminho da salvação, realmente esse vídeo será uma relíquia. Por que seria? Que significa relíquia? Vamos ao dicionário mais disponível – o Houaiss do UOL. “Relíquia” significa “o que resta do corpo dos santos“; por extensão, será o “nome dado aos objetos que pertenceram a um santo ou que tiveram contato com seu corpo”; é também “coisa preciosa e mais ou menos antiga, à qual se dedica grande estima” ou “pessoa ou coisa que se respeitou ou admirou”. 

 

       Os ímpios apenas farão coro aos crentes caso, para eles, a linguagem nada signifique. O que é um desatino. E será um desatino porque não apenas os olhos, mas também as orelhas são portas permanentemente abertas ao cérebro. Qualquer ouvido, mesmo que desatento, sendo minimamente afinado com qualquer ambição nacional, sentir-se-á ofendido pela voz do narrador desse vídeo; em cima disso, outras vozes, mesmo que sem pretender macarronar o Português, ao apelar à nacionalidade e ao exaltar o acendrado nacionalismo da Esquerda, arrepiarão o couro de qualquer jacaré, seja ele do pantanal ou urbano, por mais alienado que possa ser.

 

      Como já disse, o vídeo, ou, melhor, o conteúdo do vídeo é um horror. Mereceria apenas a lata de lixo como destino. Convenhamos: ou essa gente que nele aparece faz, de fato, da desonestidade um meio de vida ou é uma gente muito e muito burra… Mas, se esses discursos todos estão sendo divulgados por quem imagina estar divulgando informação e apenas pretende nos fazer um alerta, estaremos recebendo um recado errado. Quem não sabe o significado das palavras não saberá usá-las e não saberá dar um recado. E esse vídeo terá lugar entre as “nossas relíquias”, como “relíquia” estará gravado em nossas mentes, e seu recado, o do vídeo, em linguagem indefinida, mais dia, menos dia, será uma verdade “aceita como evidente por si própria”.

 

       Pondero, no entanto, para que não fiquemos apenas em denúncias, embora as denúncias estejam na moda; e não que estejam na moda como um estilo, uma cor, um ritmo, uma gíria, pois denunciar se transformou em “método” destinado a dar a impressão ao denunciante de que ele participa ativamente da vida política do país, e alguns inclusive crêem que também seja um “método de luta”…  Pondero, pois, o seguinte: por mais absurdas que sejam as mentiras em que o PT e outros Partidos e forças de Esquerda possam ter-se alicerçado e afirmado no cenário político nacional, no vídeo há um detalhe ao qual quase ninguém dará atenção, uma definição, um esclarecimento que nos é oferecido por Lula da Silva (mas… será que fazia falta, mesmo, esclarecer?). Diz ele que o Foro de São Paulo é uma “alternativa ao projeto de integração que nós queremos para o nosso continente … ao projeto de integração do neoliberalismo”.  

 

      O liberalismo é uma ideologia avessa ao comunismo (ou ao socialismo, como queiram) – e vice-versa. Ambas são cruéis, são truculentas, e, não respeitando fronteiras administrativas em nome de um “princípio”, afastam o controle de iniciativas e de resultados para muito longe de nosso alcance. Ou seja, arrancam esse controle da população que se vê afetada por decisões a respeito das quais não lhe é dado opinar. Uma alternativa política é uma alternativa de poder – exige um projeto voltado a dado fim que se revele como um poder alternativo. Os únicos projetos de que temos conhecimento, que disputam espaço na Política nacional, são projetos de integração supranacional, são projetos oferecidos por poderes supranacionais, seja o dito neoliberal, seja o dito (neo-?)socialista, qualquer que seja o número de suas correntes e tendências subsidiárias, das mais às menos radicais.

 

     Se pretendemos ter o controle de nossa vida política e, por decorrência, de nossa vida econômica, esses projetos são caminhos errados que nos estão sendo oferecidos. A finalidade de ambos é a eliminação do poder nacional e a sujeição dos recursos nacionais ao bom êxito dos negócios celebrados e a celebrar além-fronteiras. E isso não é tese – é fato. Não encontraremos qualquer finalidade alternativa. Alternativos são os meios e os métodos visando a esse mesmo fim, são os caminhos que não se truncam mutuamente, e a demagogia explícita dos indivíduos que se organizam em diferentes grupos para defendê-los termina por unificá-los todos – os que nos levam do nada a lugar nenhum e os que nos levam do lugar nenhum ao nada.

 

       Nenhuma integração supranacional nos será necessária, muito menos será fundamental para que por aqui se plantem mais árvores, para que menos lixo polua as águas e os ares, para que o acesso à saúde, à boa alimentação, à boa escola se garanta a todos, para que os governos se demonstrem sensíveis às nossas necessidades, para que haja desenvolvimento e se produza bem-estar social, para que se façam bons acordos, um bom comércio, o intercâmbio de conhecimento etc. etc. entre o nosso país e os demais países. Muito pelo contrário. Nenhuma consciência supranacional nos dará mais consciência do que nos é vital. E se a nenhum interesse público a integração supranacional visará, nenhum ideal elevado nos vêm demonstrando os indivíduos nacionais que defendem uma integração supranacional, esteja ela sendo costurada do jeito que for. A finalidade que perseguem é conquistar status não só na politicagem local como na internacional e garantir seus interesses particulares. Isso também é fato, não é tese. Atentos a suas particulares oportunidades, por particular conveniência, pouco lhes importa que questões nacionais estejam ausentes dos projetos com que iludem a população. Para nós, brasileiros, qualquer um dos projetos que se vêem em pauta, defendido por qualquer dos grupos (neo-?)socialista ou neoliberal, será uma alternativa de coisa nenhuma a coisa nenhuma.

 

       Poderíamos até considerar que houvesse um terceiro projeto insinuando-se na Política nacional – o da fragmentação de nosso território, conferindo poderes soberanos às províncias que foram denominadas “estados” por uns doidos varridos, sem qualquer apoio em nossa História, no momento da proclamação da República. Só um idiota proporá que se mate e se enterre um Estado nacional sob pretexto de que os indivíduos que estejam e, eventualmente, perpetuem-se no Governo não prestam e não correspondem à expectativa da população. Mas há um bom número de idiotas apostando na dissolução da integridade nacional, que é e sempre foi a nossa força, como se fosse uma solução. Seria uma solução interessante apenas para aqueles que pretendem obter maior facilidade para o êxito de qualquer dos dois projetos anteriores.

 

       E, assim, muito facilmente poderemos compreender que e por que, hoje em dia, nós, brasileiros, não temos, de fato, qualquer alternativa. Porque, para pensar nos problemas que nosso país enfrenta e resolvê-los com um mínimo de racionalidade e eficiência, é preciso pensar, em primeiro lugar, em ter poder e pensar em resolver como obtê-lo. Defender o nacional não significa isolar-se do mundo ou afrontar o estrangeiro – significa apenas defender o nacional na sua integridade, procurar conhecê-lo em profundidade, respeitar o processo que o formou, encarar a realidade e definir prioridades de forma conseqüente, significa não deixá-lo à disposição de interesses escusos, suspeitos, errados. Para pensar nos problemas de nosso país e tentar resolvê-los com um mínimo de racionalidade e eficiência, será preciso escapar daqueles caminhos que, na verdade, são trilhos que nos levam, ambos, em paralelo, de forma até mesmo complementar, apenas ao abismo. O tal 3º projeto apenas age como um vagão limpa-trilhos anexado à composição que nos vem atropelando, desembestada, nos últimos tempos.

 

       Apesar de estarmos soterrados em infinito número de problemas decorrentes do prestígio que nossa população ignorante vem concedendo aos demagogos profissionais, somente compreendendo essa equação chegaremos ao nosso real problema: nosso real problema é exatamente esse “não ter alternativa”, é ainda não ter encontrado a alternativa que se expresse em palavras corretas e em um correto programa de ação. É fato, não é tese, que não estamos sendo capazes de sequer alinhavar uma só proposta de fato alternativa às desses dois ou três projetos que se disfarçam em vários para brindar com variedade de cores, plumas e paetês a vaidade de ditas “lideranças partidárias”, mas, ao final, serão um só, que se coloca contra nós. Sem discutir propostas, muito menos seremos capazes de alinhavar um projeto alternativo. Derrapamos hoje em cada vez mais denúncias de corrupção daqui, de prevaricação dali, mas estamos há muito tempo atolados, metidos de corpo e alma num só lamaçal que nos vem cegando por completo; e, sem vislumbrar qualquer escapatória, insistimos em nos agarrar às mesmas correntes infectadas de parasitas que já nos foram lançadas por todos aqueles que prometiam nos salvar. O que também é fato, não é tese.

 

     E pensar que depende apenas de nós esse projeto, de que decidamos arquitetá-lo, e tudo mais dependerá apenas de nós – como tudo, de fato, já vem dependendo apenas de nós, mesmo que tudo esteja errado. 

 

     Mas, que tudo esteja errado já não nos surpreende, considerando-se que a metade de nossa população não é capaz de imaginar um Brasil concreto, real, pois nem sequer saberá localizar seu território projetado em um mapa-múndi (http://www.linguagemgeografica.com.br/noticiaisgeo/). Ou seja, para essa metade da população, o território brasileiro não existe. Se o território não existe, que mais existirá? Nada. O Brasil será apenas uma narrativa, nada mais, uma narrativa que se encaixa no “realismo maravilhoso” ou “fantástico” ou “mágico”… “latino-americano”… A outra metade da população apenas saberá colocar-se perplexa e inerte. Mas… ela se mobiliza, está fazendo movimentos! Sim, mas de forma errada, na direção errada. Por isso mesmo não encontramos alternativa. Impossível encontrá-la.

 

     Não temos alternativa porque não há indivíduos dispostos a unir-se e a organizar-se tendo por objetivo primordial solucionar nossos problemas reais, nacionais, indivíduos que apenas depois de que, pelo menos, alinhavem um projeto viável para o país como um todo – não antes – decidam lançar a público suas idéias para que elas possam ser vistas e defendidas como fator de poder – não para que eles, indivíduos, sejam vistos e defendidos; não temos alternativa porque não temos uma Inteligência nacional, porque apenas adotamos e nos submetemos a projetos desenvolvidos e articulados por aqueles que são estranhos a nós em prol de suas próprias ambições; não temos alternativa porque não encontramos na realidade nacional razão e finalidade suficientes, porque não somos capazes de compreender que precisamos e devemos nos defender, porque o mundo é o que ele é, não o que deveria ser, nem somos capazes de identificar aqueles de quem nos devemos defender.

 

      A contribuir com o marasmo coletivo, a composição que nos atropela, lotada de pretensos iluminados “cidadãos do mundo”, conseguiu, com muito pouco esforço e nenhum desgaste, que a nossa própria Constituição que, em tese, é a Constituição do Estado brasileiro, decepasse nossos pés e nossas mãos e nos tapasse a boca. Porque, conforme ela mesma reza, “devemos” buscar essa “integração econômica, política, social e cultural”, portanto, uma integração administrativa, com “os povos da América Latina” (quem são?) por qualquer meio, “visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”. Assim nos comprometemos com o que nada-e-ninguém antes na história deste país jamais se atreveu a insinuar ser possível, nem sequer o tão celebrado Mercado, nem sequer o tão endeusado Bolívar, muito menos este, que muito nos respeitava; a idéia é tão mais absurda até mesmo porque, por mais que as ex-colônias espanholas possam parecer aos olhos externos semelhantes entre si – e nem tanto assim elas são -, o Brasil, ele inteiro, excetuando-se os últimos governos, é bem outra coisa econômica, política, social e cultural. Sempre foi. Ainda é. Que diabos, afinal, justificaria esse repentino “desejo” de integração? De onde vem ele?

 

     E nenhuma reforma engendrada em um Congresso bichado trará ares de saúde a um sistema político cujo princípio mesmo está bichado. Consideremos que a razão do Estado republicano é nacional, não haverá qualquer outra que, teórica ou concretamente, justifique a formação e a soberania do Estado. “Comunidades políticas” plurinacionais não são “alianças” acertadas entre unidades soberanas – as “comunidades políticas” serão, sim, “impérios”, terão um centro decisório, ela, a “comunidade”, será soberana, ainda que as unidades se revistam de um regime de governo republicano formalmente democrático.

 

     Já o Mercado nunca obedeceu fronteiras desde que o mundo é mundo e sempre lhe foi conveniente fragilizar o poder nacional, que é eminentemente político, ou mesmo tentar sobrepor-se a ele. Por ser político, ou seja, por ser poder, sendo correto, o Poder nacional ou seja, o Estado, interferirá nas questões de Mercado e buscará adequá-las ao caminho correto. Se for correto. O Mercado nunca foi, não é e nunca será de Esquerda – é até divertido imaginar um “Mercado comunista” ou “socialista”, se preferirem, no qual se eliminasse, mesmo que em tese, o tal do “fetiche da mercadoria”… Mas, uma vez que se entenda que o Capital não tem pátria, que o objetivo do Mercado, especialmente o financeiro, é produzir lucro pelo lucro e o objetivo do Estado é (ou deve ser) outro, não será tão difícil entender a coincidência de interesses entre Esquerda e Mercado.

 

      A nossa integração econômica, política, social e cultural, a nacional, seria uma ambição correta, apenas nos faria bem ver todo esse nosso território que nos é tão pródigo harmoniosamente desenvolvido. O que vemos em nós e de nós, porém, é o empenho, quase um desesperado esforço em diluir a unidade nacional, com o que colaboram grupos “étnicos”, de “gênero” e todas as coisas que os valham. Uma identidade coletiva é alicerçada em valores coletivos, não se compõe de particularidades individuais, por mais que a elas se reconheça o direito, e a integração supranacional, que exige uma identidade supranacional, é uma proposta errada que poderá interessar a quem quer que seja, mas, a nós, brasileiros, os que somos brasileiros de fato e de direito, que nos damos ao luxo de ainda permitir que se questione a nossa própria integração, ela nunca poderá interessar. Só nos poderia interessar caso fôssemos realmente uma potência inconteste – cultural, econômica, financeira e militarmente – e tivéssemos os meios para e a intenção de enquadrar a América do Sul (México e Caribe são outríssimas coisas) “unificando-a” sob a nossa influência. Não temos estrutura para tanto. Como não temos estrutura para tanto, assim como não temos estrutura para pretender formar com a grande potência do Norte, que reconhecemos como “imperialista”, uma aliança estratégica (algo que, nas palavras de Rubens Barbosa, “pressupõe uma lenta construção entre iguais” – http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,dilma-nos-eua,1694058), mas, sim, devemos nos preservar de seu poder e de sua influência, “deveríamos” abdicar do nosso poder potencial, da nossa identidade política singular, e celebrar a integração de nosso Estado com Estados vizinhos? Ou colocar esse poder à disposição dos interesses de outro “império” qualquer? Interessante… Resta saber a quem.

 

      O que deveríamos resolver de uma vez por todas é essa estranha mania que temos de manter nossa atenção prioritariamente voltada a realidades distantes de nós, que nada têm a ver com nossas circunstâncias, muitas vezes meras utopias que nada têm a ver com as circunstâncias de lugar real algum ou de qualquer gente real, de nos manter aguardando instruções, acatando orientação, essa mania doente de nos deslumbrar e nos devotar a uma gente qualquer que não seja a nossa gente. Em benefício do interesse alheio a nós mesmos, vemos o esgarçamento e a perda acelerada dos fundamentos de nossa identidade no processo de uma unificação com países vizinhos forjada na ONU, que vem sendo obtida no berro e na marra, lastreada em presumida conveniência econômica regional unificada e forjada por ocasião da constituição da CEPAL, em benefício de uma presumida identidade cultural e política também regional desenvolvida e aperfeiçoada nos laboratórios da UNESCO, que nunca de fato existiram, muito menos alguma vez nos convieram, e que vêm sendo disseminadas pela Esquerda alegre, franca ou dissimulada, que se tornou “hegemônica” por suas auto-alardeadas “virtudes democráticas”. A exemplo da pretendida unificação européia, essa “nossa” unificação regional tudo tem para dar com os burros n’água, carregando de roldão todos e cada um dos países envolvidos.

 

      O outro vídeo a que me refiro colaborará com o que aqui está sendo dito – esse nos “explicará” que o “maior inimigo do Brasil” é o Foro de São Paulo: https://www.facebook.com/matheusbrazmatt/videos/450559831764675/

 

      Entendamos também de uma vez por todas: o maior inimigo do Brasil não é o Foro de São Paulo; nem é o projeto dito “neoliberal”. O maior inimigo do Brasil é a nossa própria omissão, a nossa absoluta estupidez política muitas vezes mal disfarçada em polidez caipira e nossa ignorância vocabular; somos nós mesmos, que não sabemos Português, não queremos saber, temos raiva de quem sabe, e não conseguimos nos comunicar sequer razoavelmente entre nós mesmos; nós, que imaginamos que nos basta conhecer um pequeno vocabulário de qualquer um dos idiomas oficiais da da Organização das Nações Unidas para entender o que qualquer estranho nos possa estar dizendo, que decoramos as “análises” produzidas em “centros de excelência internacional” sem ponderar as motivações de quem as produz e as nossas próprias condições; somos nós, que pregamos paz-e-amor, que afirmamos ter um horror visceral à violência e com ela somos tolerantes, que dispensamos nossas armas e as concedemos exclusivamente aos marginais que pretendem fazer da marginalidade a bem-aventurança, e incentivamos essa violência cada vez mais em nome de certos “direitos humanos” muito mal compreendidos e aplicados da pior forma, contra nossos próprios direitos; somos nós, que definitivamente não nos queremos bem e não nos reconhecemos em nós mesmos, que nos rechaçamos, que nos comovemos com a miséria que há no mundo inteiro, mas nos mantemos indiferentes à que prolifera em nosso território como se a tivéssemos resolvido, que sonhamos com evitar os solavancos da realidade pondo fé no atual “processo democrático” e o carregamos em um andor sobre nossos ombros em procissão pelas ruas sem compreender o sentido e o alcance da ladainha que entoamos; somos nós,  somos nós mesmos que, decepcionados com o Governo, invocamos que nos resolvam a vida os santos milagreiros de uma autodenominada “Oposição” que apenas compactua com manter as coisas como estão, avançando no ritmo em que avançam; o nosso inimigo somos nós, apenas nós, ninguém mais inimigo de nós mesmos que nós mesmos, nós que imaginamos que nos basta nos munir de boas queixas, bater panelas, “exigir” o afastamento da atual chefe do Governo e a punição de meia dúzia de gatos corruptos pingados, expostos publicamente como bois de piranha, e voltar a dormir acreditando que tudo está sendo resolvido. Somos nós mesmos, que criticamos o Foro de São Paulo da boca para fora, e da boca para fora criticamos o projeto “neoliberal”, e contribuímos, cotidiana e diuturnamente, para que uma gente cretina mantenha-se no poder e cada vez mais aumente esse seu exclusivo poder em detrimento do nosso. O maior inimigo do Brasil e dos brasileiros somos nós, nós todos, os brasileiros, especialmente os que nos consideramos mais ilustrados, mais capacitados, que não criamos uma alternativa para nós mesmos. O que resulta em uma vida coletiva absurdamente demente, absolutamente alienada.

 

      Bem, a função (em quase todos os sentidos da palavra) de hoje aqui termina. Desculpem-me. Eu avisei que insistiria no mesmo assunto. Assunto chato. Mas avisei também que sabia que seria inútil insistir. Bem sei que todos estamos muito preocupados e muito ocupados com bem escolher os nomes menos desgastados, entre os que nossos Partidos políticos degenerados nos possam apontar, para neles votar nas próximas eleições. Desculpem-me pretender tomar-lhes à toa um tempo tão precioso e tão bem destinado. E, apesar de que tenha a certeza de que venho dizendo o que digo em bom Português, quase perfeito porque nele eu capricho, a julgar pelo pavoroso silêncio no qual se encapsula esse assunto no meio de tanto barulho e pela indiferença que ele vem merecendo, sempre me parece que eu deveria procurar utilizar outra linguagem. Só que eu não sei qual poderia ser ela. O erro deve ser meu, que deveria demonstrar ter um pouco mais de… sensibilidade. Devo reconhecer. Desculpem-me.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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