Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

     … do “barão”.

 

 

 

     Conforme nos diz o artigo publicado no caderno “ilustríssima” da Folha de S.Paulo (transcrito abaixo), “toda Nação vive, em parte, de seus mitos”.

 

     Já há algum tempo que, para reforçar um profundo menosprezo por tudo o que possamos ter e que nosso possa ser, as altas patentes militares passaram a ser escritas na Imprensa com inicial minúscula.

 

     Alguns poderiam classificar essa questão como ideológico-corporativa. Mas a prática se ampliou e alcançou qualquer título obtido por importantes vultos de nossa História. E alguns poderiam considerar essa questão como semântica.

 

     Ela é bem mais complicada.

 

     Para reforçar e levar sempre e cada vez mais longe os pretensamente nobres objetivos dos últimos Governos (ou seriam governos) – entre os quais o de atribuir grau acadêmico ao saber popular e o de conseguir fazer, da nossa, uma terra arrasada –, não é bastante à nossa Imprensa dedicar-se a ajudar a desmoralizar nossos Generais. Ela precisa mais estender o leque das “verdades” jornalísticas exibindo-as tal como um pavão exibe sua cauda. Só para exibi-la, nada mais. Porque a carrega. Arrastando-a no chão.

 

     Uma vez que compete ferozmente no estrito âmbito de si mesma e nada constrói nem se preocupa com construir, essa Imprensa dita nacional, estéril de assuntos minimamente interessantes da forma como se vem demonstrando, parece mais encontrar que sua missão é não outra que destruir a imagem dos que ainda hoje se mantêm como um exemplo para todas as gerações.

 

     Se “toda Nação vive, em parte, de seus mitos” e se exemplos alguns indivíduos se tornaram, que mais a respeito desses personagens de nossa História nos poderia interessar? Os detalhes mais íntimos de suas vidas privadas? O disse-que-disse-que paralelo aos fatos pelos quais foram responsáveis e graças aos quais conseguimos alguma vez nos impor frente aos demais? O que nossos inimigos deles apregoaram? O uso que, de sua sombra, os políticos do improviso fazem ou puderam fazer?

 

     Se “toda Nação vive em parte de seus mitos“, para que servirá, exatamente, tentar desmoralizar o Barão do Rio Branco? Alguém nos saberia dizer?

 

     A cauda de um pavão é bem farta e colorida. Quando ele está ciscando, ela se mantém fechada. E, ao que saibamos, nenhum pavão alça vôo com a cauda aberta.

 

     Quem gosta de se arrastar, pois, que corra atrás dela.

 

PAVÃO CISCANDO

      

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“Toda nação vive, em parte, de seus mitos. (…) Rio Branco fez de si o elo entre o Império derrotado e a República vitoriosa. (…) serviu a quatro presidentes como ministro das Relações Exteriores sem compunção (1902-12). (…) pôs a política externa a serviço dos novos-ricos da burguesia agroexportadora e não hesitou em entrar para a vitrine da nova ordem, a Academia Brasileira. (…) manteve o título de barão e fomentou a mitologia segundo a qual a diplomacia republicana bebia da fonte de um suposto passado imperial de glórias. Habilidoso jogador para uns, inescrupuloso camaleão para outros, enfrentou desafetos e inimigos. Para os monarquistas, era um traidor. Para os republicanos, potencial líder da restauração monarquista. (…) Só virou unanimidade depois de morto. (…) Em muitos países, uma figura desse naipe seria objeto de ricas e divergentes biografias. Não aqui. A literatura sobre o barão é escassa, ignora a farta documentação disponível sobre ele em arquivos estrangeiros e mantém-se irritantemente laudatória. (…) O conjunto faz do barão um herói irretocável. (…) Ler a respeito de Rio Branco ainda é frustrante. (…) aprende-se que ele era “coerente”, “seguro”, “inovador”, “singelo”, “lúcido”, “despretensioso” e, curiosamente, conseguia ser “tímido” e “extrovertido” ao mesmo tempo. Como se tivesse poderes do além, “não falhou em nada que empreendeu”. (…) Há cem anos, o nome do Barão é usado e abusado. Nas palavras de Villafañe, trata-se de uma verdadeira ‘santificação de Rio Branco na religião laica do nacionalismo’.” http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/55782-usos-e-abusos-do-barao.shtml 

 

 

 

 

  

  

 

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