Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

    

 

 

     Em 14 de junho último, foi publicado no sítio virtual do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas pelo impacto do desenvolvimento social com sede em São Paulo) um comentário sobre pesquisa da Fundação Victor Civita mais o CEBRAP, em parceria com o Banco Itaú BBA e a Fundação Telefônica Vivo, cujo título, para variar, estará em mau Português: “O que pensam os jovens de baixa renda sobre o Ensino Médio?” (por favor, elimine-se ou o “O” do início ou a interrogação do final…).

 

     De cara, seremos informados de que “O estudo aponta que falar sobre a escola com os jovens é difícil, o assunto não aparece nas conversas entre si e a instituição é considerada apenas como um ponto de encontro. Um em cada cinco alunos só vai à escola para conseguir o diploma, e as expectativas em relação ao Ensino Médio são baixas e nem sempre atendidas” (www.gife.org.br/artigo-o-que-pensam-os-jovens-de-baixa-renda-sobre-o-ensino-medio-15130.asp). A pesquisa abrangeu “mil jovens de 15 a 19 anos de [?] de Recife e São Paulo”.

 

     Seria, de fato, necessária uma pesquisa para que alguém chegasse a essa conclusão? Seria necessária pesquisa mais ampla para dela sacar a conclusão de que, no Brasil inteiro, a realidade é essa mesma, não outra qualquer?

 

     Diz-nos ainda o texto publicado (que não está assinado): “Dentre as causas do descontentamento estão: a desorganização, já que 76,7% dos entrevistados relatam que situações de “zoeiras” são comuns em salas de aula, a ausência frequente de professores (42% deles não tiveram alguma aula no dia anterior à pesquisa) e a insegurança no ambiente escolar (24% dos respondentes não se sentindo seguros na escola). A visão de inutilidade em muitas disciplinas oferecidas também é um ponto de discussão. Física, sociologia e literatura, por exemplo, estão abaixo dos 20% de estudantes que acreditam que essas matérias façam sentido. Outro ponto crucial levantado na pesquisa é a falta de tecnologia nas escolas. Cerca de 70% dos entrevistados têm acesso à internet em casa e 57% em celulares, mas 37% dos alunos nunca usaram o computador na escola. Para Torres [coordenador da pesquisa feita], as escolas de Ensino Médio não estão preparadas para atender a juventude. ‘Não há possibilidade das escolas não terem tecnologias. O ponto a se discutir é qual tecnologia usar a favor da educação’.”

 

     Ah…! A tecnologia…!!! Oba! Vamos cuidar da tecnologia. Com muito empenho e respeito. Da tecnologia, que é crucial. Que deixou, faz tempo, de ser mera tecnologia, transformando-se em uma “filosofia”. Ou em uma “religião”. Só ela nos salvará. Aleluia, aleluia.

 

     Do conteúdo dos currículos escolares, nenhuma palavra. E por que os conteúdos nos deveriam preocupar?   

 

     Há dois dias, Rodolfo Constantino, jovem economista atento e liberal, apontava no facebook (irônico, por certo): “Acabo de escrever artigo alegando que quem tem Fiesp não precisa de USP. Mas olha, a USP consegue se superar! É muita doutrinação ideológica mesmo, vou te contar… socorro!!!!” E indicava a razão do seu espanto ou de seu medo: a ementa da disciplina “Introdução à Pedagogia Socialista” (EDA0693) do Curso de Administração Escolar e Economia da Educação  da Faculdade de Educação da USP.

 

     Esse grito por socorro foi divertido. Mas o mais divertido não é isso. O mais divertido é que alguém, entre os que leram o comentário de Constantino, pulou e contestou: “Doutrinação? Sério mesmo? Vc checou o programa? Notou que a disciplina tem uma abordagem HISTÓRICA [em maiúsculas, assim mesmo]? Que trata desde o socialismo de Thomas Morus até o socialismo real? Ou deduziu pelo nome que era doutrinação marxista?

 

     Caramba! Só mesmo um doutrinado muito doutrinado, só um alucinada e irremediavelmente doutrinado não perceberá que um programa da disciplina (uspdigital.usp.br/jupiterweb/obterDisciplina?sgldis=EDA0693&nomdis) composto por seis pontos, sendo o 1º deles “Socialismo: em busca de uma definição” (ou seja, ele mesmo, o Programa, já anuncia que serão levados à sala de aula informações e métodos que ajustem a atenção do indivíduo a um conteúdo indefinido), os 4 seguintes versando a respeito do Socialismo utópico (“utópico” porque não se tornou realidade) e o 6º e último “Os impasses advindos da derrocada do socialismo real: para repensar a educação” (mas… o Socialismo não estaria ainda buscando uma definição?), com uma bibliografia indicada composta de “mestres” anarquistas e comunistas, sem uma única exceção sequer que permita uma comparação qualquer e, portanto, permitisse qualquer reflexão, somente poderá corresponder a um único objetivo:  doutrinar e apenas a doutrinar. Ou não?

 

     Imaginemos que constasse da grade curricular do Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação, não esta, mas outra disciplina, denominada “Introdução à Pedagogia Liberal-capitalista”, com o seguinte programa: o ponto 1 seria “Liberalismo: em busca de uma definição”; os 4 seguintes versariam sobre a “utopia liberal”; o último ponto seria “Os impasses advindos da derrocada do Liberalismo real: para repensar a educação”. A bibliografia que acompanhasse a “abordagem histórica” do programa seria composta de autores que difundiram as idéias liberais ao longo dos séculos, mas não incluiria uma única obra crítica. Como deveria essa disciplina ser interpretada? No máximo, usando o máximo de tolerância e elasticidade intelectual e verbal possível, poderíamos dizer que, da mesma forma que uma “Introdução à Pedagogia Socialista”,  ela estaria destinada a ensinar a ensinar a ter sonhos bonitos… Mas essa disciplina não existe. Nem sequer é aventada. Quem precisará de escola para especializar-se em cultivar e em divulgar sonhos, por mais bem “formatados” que eles queiram e possam ser?

 

     O problema, no entanto, não se limita a uma específica disciplina – o problema é o Curso inteiro de Pedagogia da USP, a começar por sua concepção. E, como a USP é a USP, quantas Faculdades mais não a tomarão por modelo? A vontade que dá? A vontade que dá é a de recomendar aos alunos matriculados que sejam vadios, bastante relapsos… que percam as aulas… que não façam os trabalhos… Pois, para que obtenham um diploma lhes bastará usar a imaginação. E, gazeteando, sairiam da Universidade bem menos estúpidos. No mínimo, sairiam tão curiosos quanto entraram, e não tão “donos da verdade”.

 

     Para ampliar a discussão – ou seria para incentivá-la ou, pelo menos, para despertar a preocupação -, eu recomendaria uma visita ao PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DO CURSO DE LICENCIATURA PLENA EM PEDAGOGIA da USP (www4.fe.usp.br/wp-content/uploads/graduacao/ppppedagogiaversao.pdf). Depois dessa coisa toda ter sido lida e relida, a gente poderá conversar um pouco mais sobre a realidade… 

 

     Enquanto isso, fiquemos no que realidade parece – e eu disse “parece” – ainda não ser. Pois bem: vimos que, segundo os intelectuais que freqüentam a Educação da USP, o Socialismo, que ainda não goza de definição, foi e ainda é considerado por alguns enquanto utopia, pois quando concebido como “real” não deu certo, mas será suficiente para que possamos “repensar a educação”… socialista, é claro, seja lá o que for o Socialismo. E utopia? Que significaria “utopia”, afinal? O que era utopia deixou de ser utopia? Seria um ideal a conquistar? Um ideal que, conforme seja concebido e articulado, poderá ser considerado viável? Ou utopia (sem tergiversações, por favor!) será simplesmente o que, mesmo sendo projetado como a perfeição das perfeições, por ser incompatível com a realidade, mostrar-se-á inviável? E, exatamente por estar em desacordo com a realidade, por ser inviável, por basear-se em uma quimera, por ser não mais que uma ilusão, “utopia”, não outro qualquer, será seu nome? Ou como é que a gente deveria chamar algo que assim fosse?

 

     A pretexto do artigo “The Courage to be Utopian”, publicado pelo Ludwig von Mises Institute austríaco, de tendência inquestionável (mises.org/daily/6469) – do qual me permito aqui destacar o seguinte: “A public intellectual need not be an original thinker, scholar, or expert in a field. (…) Such intellectuals include journalists, teachers, ministers, lecturers, publicists; radio, television, and online commentators; writers of fiction, cartoonists, artists, actors, and even scientists and doctors who speak outside their fields of expertise. ‘It is the intellectuals in this sense who decide what views and opinions are to reach us, which facts are important enough to be told to us, and in what form and from what angle they are to be presented. Whether we shall ever learn of the results of the work of the expert and the original thinker depends mainly on their decision’ ” -, Constantino, o liberal, comentava ainda, no mesmo dia, em outro tópico da mesma página virtual: “É verdade que Hayek estimulou liberais a mergulharem em uma ‘aventura utópica’, para tornar a doutrina atraente novamente. Mas algo me diz que o próprio Hayek, se vivo estivesse, não gostaria muito do resultado prático disso. É que esses utópicos agora o chamam de ‘socialista’…”

 

     Pondero eu, cá com meus botões, se, tendo sido quem foi e feito o que fez, Hayek hoje não estaria exultante com o resultado prático do que estimulou – porque recomendou – em suas teses. São “aventuras utópicas” sendo cogitadas aqui, ali, lá, acolá, desfrutadas acolá, lá, ali e aqui, métodos, técnicas e tecnologias várias sendo colocadas a serviço dessas aventuras e da exaltação de uma “ordem espontânea” decorrente de um “comportamento emergente”, e comentários deste tipo podendo ser feitos: “… Buscar uma ‘utopia viável’ – pra usar uma expressão que o FHC usou ontem no Roda Viva – pode ser um caminho… Como sabemos, conjecturas são perigosas em qualquer área das ciências sociais, mas ao nos abstermos de tentar procurar respostas de uma sociedade de livre mercado ou sem Estado, que nunca vivemos plenamente, acabamos por fazer igual aos próprios socialistas, que não procuram essas respostas por esse mesmo motivo de ‘nunca vivemos um socialismo pra saber’.  É por essas e outras que Hayek é importantíssimo.”

 

     Bem, esse nosso ex-Presidente que esteve no programa Roda Viva e foi citado nos brindou com… um livro (!) intitulado “Utopia Viável” – são mais de 100 páginas publicadas em 1995. Já o comentário acima foi, por alguém, no facebook, atrelado ao que, aqui, antes foi transcrito. E não encontrou resposta. Ou seja, não conseguiu impressionar ou motivar sequer um único indivíduo em um grupo de leitores. Por quê? Ora, porque, aventura por aventura, utopia por utopia, tecnologia por tecnologia, de tecnologia em tecnologia, de utopia em utopia, de aventura em aventura, mal ou bem, o barco vai indo… Ele vai indo. Se assim é que assim seja. E, ao que tudo indica, assim é que deve ser, e ele continuará indo… e indo… e… … … indo. Nele estamos nós. Que “a coragem dos utópicos” o vá tocando em frente. Porque isso, sim, e apenas isso será importantíssimo… E dane-se a realidade, a nossa e a do mundo inteiro.

 

     Corretos, pois, estarão hoje a USP e seus intelectuais. E corretos estarão os atuais intelectuais de nossas Faculdades e Universidades todas. Que formam com louvor um número cada vez maior de corajosos intelectuais utópicos que povoam nossas Escolas todas, nossos Institutos, nossas Fundações, nossas Empresas, nosso Congresso, nossas ruas… Que buscam viabilizar utopias. Todos estarão corretos.

E quem sou eu para dizer que não?                  

 

  

 

 

 

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