Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

      Não se conta mais com a ajuda dos dedos das mãos o número de passeatas recentemente conclamadas e realizadas em diferentes capitais do País. Vira e mexe um grupo ocupa ou vários deles ocupam uma avenida interrompendo o trânsito e reivindicando qualquer coisa. Quase sempre serão manifestações que fogem ao controle da racionalidade, e uma violência gratuita contra tudo e qualquer coisa poderá ser observada. “Os brasileiros estão exercendo seus direitos de cidadão!”, dirão alguns.

 

      Pois bem: eu cá sou e sempre fui muito esquisita, bem sei… e talvez por isso mesmo não acredite em que passeata alguma resolva qualquer um de nossos problemas. Aliás, nunca acreditei em que passeatas pudessem ter qualquer objetivo sensato. Passeatas, quando pacíficas, são festas de confraternização. Nunca se sabe como, onde ou quando terminam. Quando não pacíficas, serão apenas desordem. E Política a gente faz com a cabeça, não com os pés. Ou apenas meteremos os pés pelas mãos. Além de que quem deve marchar é soldado, porque soldado não cansa e sabe ou, pelo menos, deve saber que, ao marchar, não deve discutir com quem mandou que marchasse em determinada direção; e também sabe ou, pelo menos, deve saber que vai preso pro Quartel quando mostra que tem uma cabeça de papel.

 

      Se, em 1964, quem marchou em uma imensa passeata cansou logo em seguida e chutou (com os pés) tudo pro alto, chutando – quando quem tinha a Política na cabeça e a cabeça na Política tomou as rédeas do processo – até mesmo da própria cabeça a lembrança de por que aquela passeata havia sido realizada, outras muitas passeatas, de gente completamente sem cabeça, convocadas antes e depois daquela de 64, deram nisso que hoje está aí. Para quem gosta, um prato cheio. Mas, tudo bem, gosto não se discute.

 

      A respeito da marcha convocada para hoje, 22 de março, cuja intenção seria a reedição da marcha de 64, dizia, hoje mesmo, o Correio Braziliense: “Na visão da historiadora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) Carla Ferrete a reedição da marcha demonstra a retomada de interesses conservadores e antidemocráticos. ‘…revela que na nossa sociedade existem grupos que se organizam e que podem revelar um crescimento preocupante de antidemocráticos … São vozes que vem de diferentes lugares, que questionam o jogo democrático e, portanto, defendem soluções para os nosso problemas fora da democracia … É a fala de quem deu o golpe em 1964, que foi dado em nome da democracia e em nome da liberdade. Temos que tomar cuidado com esse tipo de discurso, muitas vezes usado por governos autoritários’.” (1)

 

      “Pois bem” de novo. Ao abrir, hoje também, o Facebook, encontrei um recado grosseiro, em palavras atribuídas a Emma Goldman, recado que considero muito estúpido e que foi divulgado pelo “AnonymousBrasil”:

EMMA GOLDMAN  Emma Goldman, lituana, nascida em 1869, radicada nos EUA, escritora, planejou o assassinato de um industrial, induziu muita gente a se recusar a acatar o alistamento militar tornado obrigatório em 1917, animou outras tantas revoltas contra o Estado, incentivou em presença a Revolução Bolchevique, publicou “Minha Desilusão na Rússia”, viveu na Inglaterra, no Canadá e na França, publicou “Vivendo Minha Vida”, uma autobiografia, apoiou em presença os anarquistas na Guerra Civil Espanhola e morreu em 1940. E foi solenemente esquecida. Uns trinta anos mais tarde, seus artigos e livros foram relançados, e camisetas foram impressas com sua imagem e suas frases mais candentes. Não, por certo, para chamar a qualquer passeata pela família, ou com Deus, ou pela liberdade. Com absoluta certeza.

 

      E, então, aí vai outro “pois bem”: eu, que vivo a minha vida, não a de Emma Goldman, nem a que ela ou a que quem quer que seja teria gostado que eu vivesse, posso até vir a querer participar ativamente em uma guerra por suas boas razões, mas não vou marchar, porque não marcho, não autorizo que alguém me mande marchar e não tenho autoridade para mandar alguém marchar. Não me custa, no entanto, tentar alertar, a respeito do que possa estar rolando, os que gostam e os que não gostam de fazer passeatas; tentar alertar os que, sendo convocados a delas participar, não duvidam da pertinência da proposta, da eficácia da ação, da coincidência de intenções de todos os que delas participam e da lisura dos que a elas convocam; e alertar os que não duvidam da lisura daqueles que, do alto dos palanques, muito já se valeram de passeatas e agora as desmobilizam porque “o mundo é outro completamente diferente” (2).

 

      Alerto porque o mundo segue igual ao que sempre foi. Alerto para que ninguém faça confusão ou fique surpreso com os rumos que possam tomar a passeata que foi muito comentada com muita antecedência e hoje foi realizada, também a outra, que foi convocada para enfrentá-la e não mereceu comentários, e outras tantas mais. Alerto para que ninguém tenha muita expectativa, nem boa, nem má, e ninguém se incomode com fazer muita marola à toa, nem contra, nem a favor, muito pelo contrário. Passeatas são passeatas, nada mais que passeatas. Mas também alerto para que ninguém mais diga que o desprezo pelo voto popular, inclusive o absoluto desprezo pelo voto popular impresso no discurso dos desde sempre demagogos, deve-se à Política feita à “sombra dos quepes” nacionais. Porque isso é burrice. Ou é ignorância. Ou é descarada má fé.

 

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(1) “A SOMBRA DOS QUEPES” » Manifestação será reeditada

http://impresso.correioweb.com.br/app/noticia/cadernos/politica/2014/03/22/interna_politica,121156/manifestacao-sera-reeditada.shtml

Grupos ultraconservadores realizam hoje à tarde a Marcha da Família. Expectativa é reunir 5 mil pessoas

ANA POMPEU – Publicação: 22/03/2014 04:00

Do lado oposto ao movimento de memória, justiça e verdade que pretende esclarecer os detalhes da ditadura cívico-militar iniciada no país em 1964, grupos ultraconservadores reeditam hoje a Marcha da Família com Deus Pela Liberdade. Será uma comemoração às cinco décadas da passeata, que, naquele ano, rebateu a mobilização empreendida pelo presidente João Goulart. Eles sairão da Praça da República até a Praça da Sé, pela Barão de Itapetininga, em São Paulo. A expectativa é que outras capitais também promovam passeatas semelhantes.

A manifestação percorrerá o mesmo trajeto de 19 de março de 1964, quando versões históricas apontam que meio milhão de pessoas marcharam contra o comunismo, convocadas principalmente pelo então governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Pesquisadores e estudiosos do período estimam o público em 200 mil. Hoje, com base em imagens da época, calcula-se que foram pouco mais de 100 mil pessoas. A organização do ato pretende reunir cerca de 5 mil pessoas, a partir das 15h.

Ao contrário de algumas especulações, uma das organizadoras do ato, Cristina Peviani, 51 anos, a marcha não pede a instituição de uma ditadura. “Estão falando que a gente está querendo uma ditadura militar. De forma alguma se trata disso. É uma homenagem ao aniversário de 50 anos de uma data histórica muito bonita”, explica. Ela argumenta que atualmente o país vive tempos difíceis. “O marxismo está aí, estamos vivendo no comunismo. Precisamos evitar a cubanização do Brasil”, aponta. Celso Brasil, 56 anos, também faz parte da organização da Marcha da Família. Ele classifica o movimento como conservador por excelência. “Queremos conservar as cores da nossa bandeira, para que ela não se torne vermelha”, exemplifica.

De acordo com ele, o Brasil passou por um momento de desenvolvimento e fortalecimento com o regime militar e hoje está em declínio. “Estamos nos mobilizando no contragolpe da ditadura gramscista, como em 1964”, diz. Celso Brasil explica que existem, entre eles, pessoas que defendem a intervenção militar e outra vertente que levanta a bandeira da intervenção constitucional. “Temos instrumentos legais para isso”, afirma. Para os organizadores, a repressão como é colocada hoje só existiu para uma parcela da população. “A mão de ferro era contra os terroristas, não contra o cidadão de bem. Prepararam a juventude para acreditar numa ditadura. Queremos resgatar a verdadeira história”, acrescenta Brasil.

Na visão da historiadora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) Carla Ferrete a reedição da marcha demonstra a retomada de interesses conservadores e antidemocráticos. “Não é a mesma marcha, a de 1964. Estamos em um contexto diferente, mas revela que na nossa sociedade existem grupos que se organizam e que podem revelar um crescimento preocupante de antidemocráticos”, afirma. Para a professora, o movimento usa de instrumentos inerentes à democracia para sugerir o autoritarismo.

“São vozes que vem de diferentes lugares, que questionam o jogo democrático e, portanto, defendem soluções para os nosso problemas fora da democracia”, diz. Carla Ferrete acredita ainda que, o mesmo discurso usado para justificar a Marcha da Família foi usado no passado, o que precisa de uma análise aprofundada. “É a fala de quem deu o golpe em 1964, que foi dado em nome da democracia e em nome da liberdade. Temos que tomar cuidado com esse tipo de discurso, muitas vezes usado por governos autoritários”, completa.

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(2) http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2014/03/21/fhc-critica-marcha-da-familia-e-diz-que-populacao-nao-quer-mudar-o-regime.htm  

 

 

  

  

 

 

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