Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

      A Terra do Faz de Conta não é um País das Maravilhas. Nem é um Estado de Graça. É apenas um Município. Com uma Constituição municipal.

 

     A Terra do Faz de Conta é um Município, um mega-município, cujo território, administrado com objetivos e mentalidade estrita e especificamente municipais, abrange 8.515.767 km² e uns quebrados. Nele vivem mais de 200 milhões de indivíduos que se dedicam à colheita de uma cultura de multiplicação vegetativa quando não se caçam, pescam-se e devoram-se mutuamente.  

 

     Como todos, na Terra do Faz de Conta, fazem de conta que devem e podem confiar em que seus direitos individuais inalienáveis sejam garantidos por forças superiores sobrenaturais, ninguém tem a mais mínima idéia do que venha a ser o Poder; muito menos terá idéia do que seja ter o Poder nas mãos ou de por que uma boa Política possa ser necessária à sobrevivência. E todos vão levando tudo na flauta. No frigir dos ovos, todos, na Terra do Faz de Conta, gostariam de viver gozando de sombra, água fresca e alguma pastagem para polir os dentes e manter belos os sorrisos. “Sombra e água fresca” é uma legenda que, nessa privilegiada área municipal e apenas nela, transformou-se, por sua vez e por si mesma, em ideal civilizatório; e, assim, todos terão, por certo, alguma noção do que ameaça impedir a transformação dessa feliz legenda em feliz realidade. Segundo os habitantes dessa Terra, o que ameaça são os “outros”. Nem todos, mas alguns já viram esses “outros” – portanto, eles existem! – e os que os viram contam que são abomináveis, assustadores como o ET de Varginha, e que, como este, merecem muito respeito.

 

     Na Terra do Faz de Conta, a cadência do tempo é bissexta. A cada quatro anos acontece uma grande liquidação para balanço. É o chamado “Grande Festival das Urnas”. Uma queima de estoques mais modesta é também oferecida a cada quatro anos, mas em época não coincidente. Em todas essas ocasiões, que são intercaladas, multidões acorrem aos pontos de venda preocupadas com não se esquecer do nome do santo de sua devoção que permitirá adquirir seu sonho de consumo por pouco preço. Entre um e outro desses eventos festivos, todos se põem indignados e muito se revoltam por constatar que, depois de cada uma dessas festas, não mais encontram qualquer uma daquelas vantagens promocionais que lhes eram prometidas antes delas. E decidem reclamar a quem não se sabe muito bem, talvez aos “outros”, ameaçando levar a questão aos Tribunais. Logo após, porém, verificando que os Tribunais estão muito atarefados e não gostam muito de lidar com conflitos, correm todos a limpar e a montar novamente as vitrines para o próximo evento, providenciando novas roupagens cor de burro quando foge para os mesmos manequins cor de burro quando foge, que se exibem sobre um mesmo e antigo fundo cor de burro quando foge.

 

     Na Terra do Faz de Conta todos buscam a perfeição, o que parece fácil atingir porque tudo se faz na cor de burro quando foge – que sabemos ser uma cor específica, aquela que não é cor que possa ser chamada por outro nome, mas que algum erudito certa vez afirmou que não existe, pois o que existiria de fato é um “corro de burro quando foge”, que ninguém, desde tempos muito remotos, soube entender corretamente. Mas, na Terra do Faz de Conta, ninguém o entenderia, mesmo, porque isso é coisa que ninguém, na Terra do Faz de Conta, pensou em fazer até hoje. Então, todos fazem de conta que a cor existe, e tanto faz como tanto fez. É bom saber, no entanto, que essa cor, que não existe, mas passa a existir, não foi a escolhida para compor a Bandeira da Terra do Faz de Conta; nem essa Bandeira terá sido inspirada em burros fujões, mas apenas no resultado de uma recente pesquisa acadêmica patrocinada pela UNESCO: constatou-se que, à noite, todos os gatos se confundem como fossem da mesma cor. Essa Bandeira, de extrema originalidade, foi, então, desenhada por um artista de renome internacional e já foi aprovada em plebiscito amplo, geral e irrestrito. Ela é negra, com um losango de cor parda e um círculo recheado de vermelho ao centro. Uma faixa cinzenta nesse círculo, em diagonal, trará as palavras “UNIDOS VENCEREMOS” e um ponto de exclamação. Ao ser oficialmente apresentada, a Comunidade internacional, que ninguém sabe quem é ou onde vive, mas todos fazem de conta que sabem porque desconfiam de que precisam de sua bênção, celebrou com uma taça de champanhe, emocionada. Há um vídeo no youtube que o comprova. Embora nenhuma das demais imagens esteja minimamente nítida, o rótulo da garrafa pode ser visto com muita nitidez.

 

     É bom também saber que, se correr de burro quando foge é algo bastante prudente, e se ninguém aprendeu, na Terra do Faz de Conta, a correr de burros quando fogem, será porque todos estão convencidos 1. de que correr cansa; 2. de que fugir é coisa de meliante; 3. de que ninguém será capaz de ser burro. Na Terra do Faz de Conta, ninguém será reconhecido como sendo burro. Assim como ninguém será reconhecido como meliante. Atribuir qualquer um desses qualificativos a alguém é terminantemente proibido e quem o fizer se verá incurso nas penas que se aplicam aos que cometem atos de violência física ou psicológica, em uma relação desigual de poder, causando dor e angústia. Na Terra do Faz de Conta só há gente bonita, honesta e inteligente. Ninguém mais. Alguns são criativos, outros são vítimas das circunstâncias. O que não impede que muitos se caracterizem por ambos os atributos. Todos os que sejam apenas vítimas das circunstâncias, para que não encruem como vítimas, deixam-se salgar por um certo período em um poço de lágrimas, após o que terão oportunidade de submeter-se a novas avaliações consecutivas, em processo de depuração, até que o feito eventualmente considerado imperfeito possa ser considerado perfeito. E, assim, todas vítimas das circunstâncias passam a ser apenas indivíduos criativos.

 

     Na Terra do Faz de Conta foi, um certo dia, decretado que a palavra “cidadania” deveria constar de todos os proclamas, públicos ou privados, inclusive da Ordem do Dia nos Quartéis, das prédicas em Igrejas, dos brindes à mesa, das discussões no trânsito e dos pitos das mães a seus filhos, sem o que todo o conteúdo de qualquer deles deveria ser desconsiderado. Conforme determinaria um Dicionário da Academia de Letras municipal – ainda não publicado por falta de verbas específicas e por excesso de trabalho dos ilustres que se dedicam a, uma vez por semana, elogiar-se reciprocamente, a elaborar um dialeto que venha a substituir o idioma oficial do Município, a fazer poses para fotografias e a tomar chá com biscoitos -, “cidadania”, uma palavra de fácil articulação e complicadíssima compreensão, que adquiriu o valor de um carimbo mágico que a tudo e qualquer coisa empresta legitimidade, significa algo como “abracadabra”.

 

     Na Terra do Faz de Conta, as Instituições, especialmente a Imprensa e a Escola, encarregam-se de manter um culto árduo, mas divertido, aos profetas que afirmaram que o fim da História será o inverso daquele que Fukuyama encontrou e divulgou em sua famosa ficção que foi um estrondoso sucesso em vendas e diferente daquele que o calendário maia antecipava. Os que não concordam com os profetas se encarregam de lembrar a todos de que a Guerra Fria não terminou, mesmo que ela possa já ter terminado oficialmente por decisão em reunião do Conselho de Segurança da ONU, e mesmo que as guerras que ainda hoje se vêem sejam outras e sejam tão quentes como as que desde sempre se fizeram. E, assim, esses últimos jogam o mesmo jogo dos primeiros. Na Terra do Faz de Conta, ninguém manifesta qualquer pretensão, qualquer expectativa ou qualquer preocupação com relação a qualquer fim da história ou a qualquer futuro. O futuro é lá mesmo, e é agora, quando se mastiga e se suga o presente, seja qual for esse presente, e se farejam e se esburacam terrenos em busca do passado, seja qual for esse passado, em todas as suas versões. Assim, não há por que haver qualquer pretensão ou qualquer expectativa de que essa Terra se comporte como soberana ou destaque-se de alguma forma no dito “mundo globalizado”. Basta fazer de conta que ela é.

 

     E a Terra do Faz de Conta não quer saber de fazer guerras. Ela é da paz, e treina Soldados exclusivamente para fazer a paz politicamente correta. Quem faz guerras são Estados, e a Terra do Faz de Conta não é um Estado, nem mesmo é um País, é apenas um Município administrado por nobres famílias rivais que se revezam no poder e buscam impor-se sobre as demais por gozarem de um status já tradicional, sempre reconfirmado naqueles “Festivais das Urnas”. De quando em quando, algum fidalgo pula o muro, escapa de seu castelo com sua viola, fantasia-se de menestrel e põe-se a cantar uma velha história procurando esconder sua pertença à nobreza local. Só de farra. Logo será reconhecido pelos cacoetes verbais. E tudo volta ao normal. Nada disso terá importância alguma, porque os Prefeitos, os ex-Prefeitos, os candidatos à Prefeitura desse Município, todos, e seus eleitores, todos, têm um mesmo discurso – é só dar corda na chavinha que se encontra nas costas de cada indivíduo que esse discurso se repete, de cor e salteado, indefinidamente, nas promessas, nas cobranças, nos lamentos, nos rancores. E ninguém seria capaz de compreender um outro discurso qualquer, nem mesmo aquele que diga exatamente o mesmo que os já conhecidos dizem, mas em ordem diferente e com outras palavras – ele seria considerado confuso.

 

     A Terra do Faz de Conta ocupa hoje o mesmo território que antes era ocupado por um Estado Nacional criado há mais ou menos uns dois séculos. Alguns que perceberam sua existência consideraram, por muitos e muitos anos, que ele poderia crescer e dar muito trabalho; mais recentemente, consideraram que, por não ser tão jovem, já era hora de que fosse ultrapassado pela velocidade das fortes pernas do progresso e de que fosse morto e enterrado sem choro e sem velas. E de que quem nele vivesse abrisse alas aos criadores do Município que seria constituído com todas as novidades e as facilidades de seu tempo. Mesmo as Forças daquele Estado, tanto as armadas, que saíam dos Quartéis, quanto as desarmadas, que permaneciam em alerta nas demais Instituições, deixaram-se substituir docilmente pela muito amada força da meiguice (leia-se ternura) daqueles que entenderam que deveriam ter por missão a sua firme omissão. Alguns dos remanescentes das antigas Forças sobrevivem e se mantêm imóveis e calados porque em boca fechada não entra mosca e porque macaco que muito se mexe pede para cair do galho. E porque o que é válido para os insetos deve valer para os mamíferos. Outros, que a população espera e torce para que não demorem a desocupar a cena, são legitimamente discriminados, legitimamente qualificados como antiprogressistas, legitimamente tratados, se possível, a pão e água que lhes sejam fornecidos, de preferência, através das grades, legitimamente isolados da Sociedade local, porque não vale a pena preocupar-se com eles, e, quando se atrevem a aparecer em público, levam cusparadas, são apedrejados e são baleados nas ruas. Legitimamente. E, a isso, a população do Município chama de exercício democrático.

 

     Na Terra do Faz de Conta, Nação se confunde com população, como se fossem sinônimos. E a coisa pública é considerada a soma das coisas privadas. Faz-se de conta que Política é algo que se formula como se faz uma lista de supermercado, a cada 2ª feira, e se administra como a geladeira lá de casa. As Finanças municipais são complicadas e, mesmo com todos os cortes na carne, complicam-se cada vez mais. Mas, não surpreendentemente, exatamente por ser de Faz de Conta, essa Terra mantém um Corpo Diplomático municipal, de faz de conta, que se dedica a programar as freqüentes viagens oficiais dos Prefeitos e suas troupes e a rosnar nos espelhos palacianos estrangeiros, fazendo eco aos que crêem que, sem ele, o mundo não evoluirá no que se deve considerar o bom sentido. Apesar de que o mundo continue evoluindo exatamente do único jeito que sabe e pode evoluir.

 

     Em todas as Regiões Administrativas em que se divide esse Município que, pelos menos atualizados, é conhecido como “República Federativa do Brasil” – porque este é o nome do antigo Estado que o precedeu -, tudo o que for verdade deve ser posto no lixo ou todos devem fazer de conta que não vêem e seguir adiante. E o que é de faz de conta se transforma em verdade e, como verdade, fixa-se em todas as esquinas. Em parte, isso acontece porque, já naquele Estado que havia antes de que a Terra do Faz de Conta se constituísse no território, todos já podiam fazer de conta que os que iam às ruas na intenção de desfazer a ordem e a segurança pública eram heróis, e todos aqueles que assumiam a prerrogativa de impor a ordem e manter a segurança seriam os inimigos da coisa pública. Afinal, foi ou não foi aquele Estado chamado Brasil que deu origem à Terra do Faz de Conta e permitiu que ela prosperasse? E essa Terra é ou não é a Terra do Faz de Conta?

 

     Convenhamos: se não fosse…

 

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A notícia abaixo refere-se ao que ocorre em uma das Regiões Administrativas da Terra do Faz de Conta.

 

De Roberta Trindade,

Em 11 de Setembro

“Setembro: em 11 dias, 9 policiais atingidos por tiros – 5 não resistiram. A quarta-feira começa com mais um ferido. Um PM lotado no 16ºBPM foi atingido durante confronto com assaltantes, na Avenida Brasil, na altura da Favela Cidade Alta, em Cordovil, na Zona Norte do Rio.”

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Em 12 de Setembro

“Só nesta quinta-feira, dia 12 de setembro, foram dois mortos. De janeiro a hoje, 133 baleados – 52 não resistiram.”

Estatística completa -> http://robertatrindade.com.br/?page_id=8951  

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Em 08 de setembro

“Tentei não comentar, mas infelizmente não consigo.

‘OAB-RJ assume a defesa de Black Blocs presos por vandalismo em atos’: ah, tá! Agora tente encaminhar vítimas de violência para um orientação jurídica e descubra a verdadeira OAB (bem verdade que o mesmo serve pras tais comissões de Direitos Humanos, Defensoria, etc.)

Vergonhoso. E ainda querem nos enfiar goela abaixo o ‘sem advogado não há democracia’. Mas oferecem serviços gratuitos – ah, ‘voluntários’ – apenas para quem bem entendem.

O dia em que encontrar advogados dando plantão em qualquer delegacia, em qualquer ocasião – e não apenas quando há imprensa envolvida – aí, sim, vou levar a sério.

‘São voluntários e os presos têm a quem recorrer’? Ah, senta lá, Cláudia! Todos os dias centenas de pessoas são presas e não têm qualquer facilidade de acesso a advogados. Menos ainda sendo de graça. Então, se querem realmente ‘fazer voluntariado’, essa é uma boa oportunidade. Pelo menos vão aparecer fazendo uma boa ação.

E para os que vão bater no peito falando em ‘Direitos Humanos’, só digo uma coisa: Cadê os ‘defensores dos direitos humanos’? Estarão eles se organizando em plantões para dar assistência a todos os familiares? Para cobrar resposta das autoridades?  Acho que não, né?

E para aqueles que vão falar que ‘Direitos Humanos’ são apenas para ‘vítimas do Estado’:

O policial recebe salário indigno, mora em área de risco por conta disso, tem que esconder a farda para não morrer, leva um tiro quando tem sua identidade descoberta… Ah, sim… Ele não é vítima do Estado, né?…

Bando de hipócritas!

Isso só reforça a minha tese de que os brasileiros não têm o costume de tratar o 7 de Setembro como os americanos tratam o 4 de Julho e talvez por isso vivamos nessa democracia falida – onde o que está escrito na Constituição vale apenas para alguns e onde todos são iguais perante a lei, mas não perante os encarregados de fazê-la cumprir.

Em tempo: ‘DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS (adotada e proclamada pela resolução 217 A (III) da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948)

Artigo III -> Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.  (…)

 Artigo VII -> Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.’

Quem quiser me mostrar onde está escrito que Direitos Humanos não se aplicam a policiais, estou à disposição para receber esse esclarecimento.”

 

    

 

  

 

 

 

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