Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
 
 
 

 

     A notícia estampada na página do UOL ontem à noite era, no mínimo, intrigante… Talvez nem Sherlock Holmes a decifrasse sem incriminar alguém: “Governo brasileiro desiste de ‘exportar’ 6000 médicos cubanos” (clique nas imagens).

 

QUEDA NAS EXPORTAÇÕES...QUEDA NAS EXPORTAÇÕES.... 2 jpg

 

      A decisão de exportar gente brasileira não é nova. Vem de longe, de muito longe. Mas a de exportar cubanos, de verdade, surpreende. Francamente, desconheço o impacto dessa decisão em nossa produção e nossas exportações… Mas pode até ser grave; ou não – sei lá…

 

     Hoje, a notícia a respeito da contratação de médicos estrangeiros já era mais detalhada, mas nem por isso era menos doida: “Dilma: médicos estrangeiros ocuparão vagas não aceitas por brasileiros. A presidente Dilma Rousseff voltou a defender nesta segunda-feira a contratação de médicos estrangeiros (…) ‘Os estrangeiros só cobrirão as vagas que não sejam ocupadas pelos médicos brasileiros’, que terão ‘prioridade’, pois são ‘formados no país e são altamente qualificados’, declarou a chefe de Estado.” 

 

     Com o que a questão do grau de qualificação dos médicos brasileiros, sobre o qual a ameaça da “importação” dos cubanos pôde semear alguma dúvida, parece ter sido resolvida. Eles são “altamente qualificados” – muito embora o Governo tenha acrescentado 2 anos à sua formação: serão 8 anos, mais um Exame Nacional de Revalidação de Diplomas (este, mais do que justo e necessário, dada a qualidade incerta de algumas Faculdades e, muito mais incerta, a das novas Faculdades particulares que serão abertas com incentivo governamental…) que, a partir de 2015, os novos terão que enfrentar.

 

     E tomamos ainda conhecimento, por vias oficiais (já o poderíamos supor, mas… também pairavam dúvidas…), de que há “vagas desprezadas pelos profissionais brasileiros – pois assim “declarou a chefe de Estado” que também assim “esclarece” e justifica sua nova determinação. Se nossos médicos são exigentes e caprichosos, se não aceitam ou não aceitamos os cubanos, tudo resolvido – “importaremos” outros médicos, não os médicos cubanos. Ou talvez importemos os médicos cubanos que Portugal possa descartar…

 

     Mercadante mais ainda elaborou o discurso: “Não é uma importação de médicos, porque para trazer médicos para trabalhar em outras áreas tem que fazer o Revalida” – o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos. A ser isso verdade, a questão novamente se complica e muito mais – e torna-se bem mais grave: que estamos trazendo ao nosso território (não “importando”, não), afinal? Para quem um médico sem um diploma revalidado será suficiente? A quem recorrerá esse médico em casos que requeiram mais que uma aspirina? Os Hospitais das promessas de hoje ainda são promessas, não são Hospitais e não o serão tão cedo. Ou seja, para quem, exatamente, bacalhau há de bastar?

 

     Pois bem. Pretendendo facilitar a seus leitores a compreensão da “proposta de contratação de médicos estrangeiros para atuar no Brasil”, a Folha de S.Paulo publicava, em 28 de junho último, um… desenho… (reproduzido abaixo).

 

     Por esse desenho e suas legendas, já de cara, via-se que à Saúde, assim como à Escola, o que menos importará é o conteúdo. Será bastante que “constem” postos de atendimento, seja qual for a condição desses postos, e nele “conste” um “profissional”, seja “profissional” em que for e seja qual for o grau de sua competência, para dar ao mundo a impressão de que a população brasileira está sendo assistida.

 

     Afora outras considerações importantes mais, que o miserável quadro da Saúde nacional permite levantar, a considerar correta a informação matemática divulgada pela Folha, cerca do dobro do número de vagas oferecidas (6 mil) e não preenchidas em 2011 terá sido o número de médicos brasileiros que estariam formados em 2012 (projetando-se os 13 mil que se formaram em 2011 e sem considerar o possível acúmulo de médicos formados nos anos anteriores). Matematicamente, pois, considerando-se esse acúmulo apenas a partir de 2012 e considerando-se ainda que, como foi informado, apenas a metade desses médicos se interessasse por atender na Rede Pública, uns 6.000 poderiam estar disponíveis já no começo de 2013. Acrescentando-se a este contingente os que, nas mesmas condições, estão por formar-se em 2013, o número de médicos brasileiros que, em tese, estarão qualificados e sem oportunidade de trabalho (porque a desprezam…) no final do ano corrente será o dobro (serão 12.000) do número de vagas que se ofereciam em 2011.

 

     Estaríamos oferecendo que tipo de trabalho a estrangeiros qualificados em quê (não prestarão o “Revalida”) e por quê?

 

     Porque os médicos brasileiros todos decidiram ou decidirão montar seus consultórios com seus próprios recursos, foram ou serão absorvidos por clínicas particulares, deverão incorporar-se aos serviços médicos de outros países ou ao “médicos sem fronteiras”? Ou é porque novos postos de saúde, novos leitos, novos hospitais públicos além dos da promessa de hoje e novas vagas já teriam sido abertos em quantidade muito maior que os 12.000 médicos brasileiros que, em tese, estarão disponíveis em 2013?  Ou os médicos estrangeiros seriam, seguramente, mais interessados e mais capacitados em “medicina básica” que os nossos, uma vez que Rousseff afirma que os nossos são “altamente qualificados”, ou seja, qualificados em excesso? E seriam mais capacitados por quê? Porque os nossos desprezaram o povo? Ou será porque terminaram a Faculdade mas desprezaram a residência? Desprezaram ou não tiveram condições de fazê-la? E não tiveram por quê? Eles todos terão cumprido as exigências todas e preferem exercer serviços burocráticos em outras áreas a clinicar? E por que os médicos estrangeiros “com autorização para exercer medicina no seu país de origem” se submeteriam a um trabalho a bem dizer “escravo”, ou seja, a exercer seu trabalho sob condições extremamente limitadas inclusive no espaço (“só poderão exercer a atenção básica – prevenção e procedimentos pouco complexos” e “só estariam autorizados em um local determinado, por isso não fariam a revalidação do diploma, que os permitiria atuar em todo país”)? O mundo é ingrato e não os valoriza? Estariam mais desesperados por um emprego que os nossos? Onde estão os nossos médicos? O concurso para preenchimento das vagas foi muito exigente? Eles se assustaram com o padrão FIFA das instalações que lhes eram oferecidas nos Hospitais públicos e, por isso, encolheram-se? Que estão fazendo os nossos médicos? Preferiram vadiar e receber o bolsa-família?

 

     Consideremos que “a situação é mais grave em especialidades como pediatria, anestesia e ginecologia” e nas áreas mais remotas; que “o governo federal vai abrir cerca de 10 mil vagas para médicos para atuação exclusiva na atenção básica em periferias de grandes cidades, municípios de interior e no Norte e Nordeste do país”; que muitos de nossos médicos são e serão formados com subsídios públicos; que “o Ministério da Saúde pretende alcançar 2,5 médicos para cada mil pessoas – índice similar ao da Inglaterra, que tem 2,7”; que o salário oferecido estará “em torno de R$ 10 mil” e carga horária ainda está por definir-se pela “presidenta” que lança agora seu Programa Mais Médicos para inglês ver…

 

     De qualquer jeito, seja o que for, seja como for, poderão ser feitas muitas outras perguntas, que, por mais ou menos idiotas que possam ser ou parecer, ficarão, como todas as demais que se fazem, no ar, sem respostas. Fico eu aqui, absolutamente leiga no assunto, com algumas poucas, sendo uma delas a principal: por que raios as FFAA, que estão presentes (ou deveriam estar porque precisam de estar) em todo o território nacional, não ampliam seus quadros na área da Saúde? Seria porque nossos médicos não se interessariam pelos proventos, aviltados da forma como estão, e não veriam futuro algum na carreira militar? Porque o rancho não é suficiente? Porque é da conveniência do Governo que as FFAA eliminem seu serviço médico-hospitalar e se dependurem no SUS? Melhor será, então, para todos os brasileirinhos e brasileirinhas das cidades, dos campos e das matas que o Governo contrate elementos provisórios provisoriamente, que se dependurarão, eles mesmos, no SUS por dois anos, que no SUS prestarão serviços limitados porque terão licença limitada, que depois… ora, depois… depois é depois, ora. Que se aventurem assim como nos aventuramos todos… A vida é bela.

 

     Ah, esses nossos políticos… esses nossos administradores… esses nossos jornalistas… esses nossos professores… esses nossos militares… esses nossos médicos… essa nossa gente… Ah, esse nosso Brasil…

 

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agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-05-14/mercadante-diz-que-medicos-formados-fora-do-brasil-devem-trabalhar-no-pais-temporariamente

noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2013/07/08/medicos-formados-terao-de-atuar-dois-anos-no-sus-anuncia-governo.htm

noticias.uol.com.br/infograficos/2013/06/28/entenda-a-proposta-do-governo-de-contratacao-de-medicos-estrangeiros-para-atuar-no-brasil.htm

MÉDICOS 2  (clique na imagem)

                

 

  

 

 

 

 

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