Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

       Um artigo de Rodrigo Constantino publicado hoje (http://oglobo.globo.com/opiniao/todos-unidos-contra-pt-14236082) nos diz de “um gigantesco campo ideológico” que se formou em torno da candidatura de Aécio Neves porque haveria “uma prioridade mais urgente e comum a todos, que é impedir o Brasil de se tornar a próxima Argentina ou Venezuela”.

 

       É um artigo curto e, diria, “primoroso”. E não apenas por deixar de manifesto a obviedade ululante de que “o PSDB nunca foi um partido de direita, e sim de centro-esquerda”. Ele bem esclarece que essa “centro-esquerda” prima em “costurar acordos com base programática e construir pontes para ligar diferentes grupos em torno de um objetivo comum”, tal como o fez Tancredo, de quem Aécio Neves seguiria os passos. E, citando Marina Silva em sua carta de apoio ao tucano – “Chegou o momento de interromper esse caminho suicida e apostar, mais uma vez, na alternância de poder sob a batuta da sociedade, dos interesses do país e do bem comum” – justifica e insiste em investir fichas no mito sujo e esfarrapado de que a democracia se caracteriza por permanentes novas apostas e é sinônimo de necessária “alternância de poder”.

 

       Não, não é assim. Democracia é outra coisa.

 

       Pois bem. Faltam dez dias para a eleição de quem comandará o nosso País. Hoje, 16/10, haverá um 2º debate entre os presidenciáveis.

 

       Dez dias, em um processo tumultuado como o atual, com múltiplas intercorrências tipicamente emocionais, é muita coisa. É uma eternidade. Em dez dias, muita coisa nos poderá surpreender, muita coisa poderá ser alterada. Para o bem ou para o mal.

 

       Eu, particularmente, não acredito em pesquisas e sempre preferi me fiar em meu faro. Não acreditei nos números – pura propaganda, que confundiu muita gente – quando eles indicavam uma inexplicável ascensão meteórica de Marina que se explicava a troco de nada. A temperamental candidata do PSB apresentou no 1º turno o que era de esperar da união entre seus fiéis seguidores mais os eleitores dos partidos que formavam a coligação que apoiava seu nome, não o número que as pesquisas anunciavam poucos dias antes. Isso me confirmava que o que Marina pudesse representar em termos de transferência de votos seria irrelevante. Eles se distribuiriam conforme simpatias secundárias que os dois candidatos mais votados já tivessem angariado, conforme as tendências que já se mostravam meio óbvias desde o início das campanhas. Apesar de que os institutos de pesquisa sempre possam arrumar qualquer desculpa para os erros apresentados ao público (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1533195-9-definiram-voto-no-dia-do-1-turno.shtml).

 

       Agora, já não mais sou eu quem diz. O seguinte comentário foi publicado ontem a respeito da mais recente pesquisa do Datafolha: “O apoio de Marina Silva (PSB) ao presidenciável Aécio Neves (PSDB) pode estar mais atrapalhando do que ajudando” ((http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/10/1533127-apoio-de-marina-a-aecio-pode-mais-atrapalhar-que-ajudar-diz-datafolha.shtml ). Mas Marina continua sendo tratada por Aécio (ou pelo PSDB) como se fosse uma liderança suprapartidária inconteste, que arrastaria multidões.

 

       Falemos então apenas de “objetivos comuns”. Pois bem, também. A primeira condição a que não haja qualquer “objetivo comum” é haver “de tudo” em uma “enorme coligação” de “sindicalistas, evangélicos, ambientalistas, liberais, conservadores e social-democratas” etc. etc. e tal… apoiando qualquer coisa que seja no País. Nesse murundu emaranhado infernal de pequenos interesses haverá em conjunto desordenado apenas o oba-oba dos que estão, por qualquer razão, seja lá qual for, insatisfeitos. Ou seja, nada haverá como objetivo e talvez nada haja, portanto, efetivamente em comum. E, se o único objetivo comum for “apostar na alternância de poder”, tudo bem – hoje votaremos no PSDB, amanhã, outra vez no PT. E tudo estará democraticamente correto… Nada a reclamar.

 

       Pois é. Já declarei por várias vezes que votei em Aécio e declaro mais uma vez que nele mesmo votarei uma vez mais. O que nem me impede de ser crítica com relação aos protocolos do PSDB, nem de observar o quanto esses se assemelharam, desde sempre, aos do PT. É uma pena, porém, que tanta gente considere qualquer crítica à campanha do candidato apontado como nosso “salvador” como uma ofensa pessoal – como se as cores do seu time ou a honra da mãe estivesse em jogo – em sinal inequívoco de uma forte predisposição às fantasias.

 

       Voto em Aécio Neves sem qualquer ardor cívico; aliás, voto com muito enfado. Mas isso tanto faz como tanto fez, porque eu sou ninguém. O fato é que não havia alternativa no 1º e muito menos há alternativa nesse 2º turno. E que, sendo ele eleito, teremos pela frente muitas oportunidades de conferir o que fará e/ou deixará de fazer. Já o que fará Rousseff bem sabemos. É, pois, uma aposta… em que o azar determinará o resultado.

 

       Se, neste momento, no entanto, o que importa é que Aécio seja eleito – não para que se faça uma “alternância de poder”, não para levar qualquer “centro-esquerda civilizada” à Presidência, mas talvez apenas porque a alternativa à sua eleição é mais que cruel -, seria muito interessante que tentássemos ampliar a discussão a respeito do debate que foi promovido pela Rede Bandeirantes. Sem paixão. Deixando quietas as bandeirinhas coloridas que agitamos e o regaço que nos acalenta por uns instantes e prestando um pouquinho de atenção tanto no comportamento dos candidatos quanto nas circunstâncias sob as quais o debate se fez.

 

       Aécio não é um pão-de-queijo qualquer, não é um idiota, é simpático, é bem educado, é de tradicional família mineira que conta com vários membros envolvidos na política local e nacional, tem uma boa postura física, uma imagem limpa, um sorriso bonito, uma voz agradável, nem monótona nem falsamente dramática, e um discurso muito bem articulado. Com essas características todas, será bem capaz de cativar todos aqueles que estão mais do que cansados das baixarias explícitas, muitas delas hediondas, que vêm substituindo o exercício da atividade pública nesse nosso pedaço.

 

       E, nessa altura do campeonato, pouco importa o grau de inocência e candura de Aécio. Importaria que Aécio insistiu, por diversas vezes, durante o tempo em que esteve no ar, inclusive ao ser entrevistado antes do “debate”, em que o importante seria falar do futuro, não do passado. Falar de propostas, de projetos. Portanto, de objetivos, de meios, de recursos. Ou não? 

 

       Projetos e propostas não se confundem com promessas vagas, por mais atraentes e amplas que nos pareçam. E governar é, realmente, “desenhar sem borracha” como disse Josias de Souza. Portanto, é preciso que o eleitor não se sinta, no dia seguinte, como tendo sido enganado. Ou nada será democrático. E porque uma campanha eleitoral, principalmente para cargos executivos, precisa ser, ao máximo, objetiva. Não se preside um País a contento avaliando seus problemas subjetivamente. As avaliações que os eleitores fazem dos candidatos, no entanto, necessariamente serão subjetivas. Apenas essas avaliações.

 

       Onde se escondeu a objetividade que Aécio prometeu imprimir ao debate?  De quais propostas e de quais projetos se falou? Que foi o que se debateu? Nada. Absolutamente nada.

 

       Rousseff usou e abusou de seu tempo a discursar para seu público cativo – petistas militantes e a massa ignorante. Nada acrescentou ao discurso de sempre, que desqualifica tudo o que não tenha o carimbo do PT. Aécio se colocou na retranca, dando chutaços para o meio de campo onde Rousseff recebia a bola e a segurava entre seus joelhos gordos, dava cambalhotas sem soltá-la e impunha ao “debate” as regras de Lula, que são também as suas próprias regras – as que serão apenas capazes de reger um campeonato de cuspe à distância. Rousseff falou do passado, falou de Fernando Henrique, da gestão de Aécio governador, falou de Minas Gerais, falou até mesmo na “ditadura”, falou de aeroportos, de quem roubou mais e quem roubou menos, de quem mente mais e quem mente menos e nada mais. Aécio também. Não conseguiu, portanto, sequer fazer o jogo a que se propunha, muito menos fazer gols. Não se empenhou nisso ou não soube recuperar a bola e sair jogando. Portanto, nem sequer ameaçou a zaga do PT. E nada de novo conseguiu dizer aos minimamente ilustrados, que são o seu eleitorado.

 

       Peessedebetes e tietes de Aécio dirão que, oh, sim, ele foi formidável. Teria parecido formidável porque não é idiota, é simpático, é bem educado, tem uma imagem limpa, um sorriso bonito, uma voz agradável e um discurso bem articulado. Se eu, porém, tivesse algum entusiasmo por sua candidatura (não tenho), estaria muito frustrada, e diria que, a cada bloco de perguntas/respostas, levou uma rasteira. O que vimos foi Aécio enrolando-se nas teias de que Rousseff lançava, muito segura de que suas abobrinhas fazem estrondoso sucesso, e, supreendentemente, sem tropeçar sequer nos verbos e nos plurais, tal como costuma fazer. 

 

       E exatamente por isso estamos nós conversando aqui sobre isso e apenas isso, nada mais.

 

       Ouviu-se uma infinidade de adjetivos mas não se ouviu nem se viu “debate” algum – o que nos foi oferecido foi apenas mais uma troca de desaforos, não uma troca de idéias. Infelizmente. Uma briga de moleques no pátio de um colégio, ou, como costumo qualificar esse tipo de conversa fiada, uma briga de comadres, comadres que trocam farpas ao se encontrarem no cabeleireiro e, ao se despedirem, trocam beijinhos, porque tanto faz como tanto fez, uma vez que são comadres.

 

       Já conforme a informação que nos chega em http://www.defesanet.com.br/hangout/noticia/17120/HANGOUT—Comunicado-DefesaNet/, Segurança e Defesa Nacional não serão exatamente um objetivo de qualquer um dos dois candidatos.

 

       Não sei quem conversa com quem nas ruas e poderá ter tido outra impressão. Eu, particularmente, estou farta disso tudo. Isso não é campanha eleitoral que se preze ou se apresente. Mas não só eu – muita gente mais está muito farta disso. Mesmo que as convicções e as expectativas de Josias de Souza nada tenham a ver com as minhas expectativas e minhas convicções políticas, foi-me forçoso concordar com ele. O que vi e ouvi foi um espetáculo que nada nos acrescentou. Infelizmente. E eu não poderia tê-lo relatado de forma mais detalhada e mais precisa que a encontrada em seu artigo de ontem: “Debate presidencial foi briga de pátio de escola”. 

 

       Tomara que esse espetáculo realmente deprimente não se repita hoje no debate da SBT.

 

 

 

  

 

 

 

 

 

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