Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

      O que penso e o que eu possa pretender, todos os que me lêem estão cansados de saber.

 

      Ontem, no começo da tarde, escrevi no Facebook, onde gente de todas as tendências políticas me dá uma olhada (assim imagino), gente essa na qual estou de olho:

 

      1. “Uma hipótese nós levantamos quando queremos compreender e explicar alguma coisa. Em geral, sempre levantamos algumas hipóteses se queremos compreender, explicar e, principalmente, dar solução a alguma coisa que nos parece ser um problema. Em http://www.brickmann.com.br/ uma hipótese é levantada. Como hipótese. E ela até poderá ser válida. Muito válida. É uma hipótese que explicaria uma única morte em certo dia, entre as muitas e muitas mortes que temos nas ruas do País inteiro, todos os dias. Inclusive as de muitos PMs. O que eu gostaria de saber é o que poderia explicar o resto… todo o resto.  Alguém tem alguma hipótese a enunciar? Ou nos basta, como nos vem bastando, deixar rolar?” – o que se fazia acompanhar por um pedaço do texto publicado no endereço citado;

 

      2. “CADÊ? Cadê o corpo de João?  Alguém chamará no Facebook uma mobilização para que ele seja encontrado?” – o que introduzia um cartaz referente ao homem cuja cabeça foi encontrada no portão de sua casa dentro de uma mochila que foi divulgado por “apoio policial”.

 

      Não esperava resposta alguma, evidentemente. Apenas tentava, como sempre tento, estimular o raciocínio de quem observa o jogo político que se desenvolve sem sua participação direta como se estivesse sentado em uma arquibancada de estádio esportivo, escolhendo o time mais simpático, torcendo, gritando, chorando, rindo, argumentando, vociferando, não admitindo a derrota e não sendo capaz de ver qualquer falha ou má intenção naqueles “seus” jogadores.

 

      Mais tarde, chegou-me, tal como chegou a muitos, também pelo Facebook, o texto que se encontra em 

http://ensaiosde-igorbuys.blogspot.com.br/2013/10/proposicao-de-uma-tatica-anti-black.html?m=1 .

 

      Não é qualquer resposta de alguém, nem mesmo indireta, ao que escrevi. Não é, tampouco, apenas a propaganda de uma dada posição política. É uma análise de situação. Que, indireta, mas imediatamente, responderá à análise de situação que eu mesma possa ousar fazer.  

 

      Gosto de ler textos escritos por gente inteligente. Eles me acrescentam. Mas nem todos os textos que leio eu recomendo. E não considero inteligentes apenas aqueles que concordam com os objetivos que persigo e com os métodos que creio adequados. Podem ser inteligentes também os que discordam deles todos. Até os que possam discordar de minhas convicções absolutamente. Especialmente estes me instigam e, lendo-os, amplio ou corrijo o azimute de minhas considerações. Portanto, penso mais, reflito mais, aprendo mais, muito mais.

 

      Recomendo a leitura atenta desse texto a que me refiro. É bastante longo, mas é bastante claro no que diz. E é bastante sinuoso no que não diz ou pudesse pretender não dizer. Desde logo, pareceu-me que tivesse sido escrito por alguém que tivesse acesso ao que eu não poderia ter, jamais, e, assim, conhecesse um número muito maior de detalhes do que o que eu poderia tentar conhecer. Em muitas passagens, o texto entusiasma. Em outras, parece exagerar. Em outras mais, cai em certos cacoetes de argumentação que somente os mais organizados ou os mais confusamente “ideologizados” possuem. Não fui capaz de decodificar de imediato a organização que os pudesse permitir. Consideremos que muita gente se fantasia de “nacionalista”, adota um discurso “nacionalista” apenas por canalhice, ou explica – quando não justifica – qualquer estupidez como sendo “nacionalismo”; e que muitas organizações não só contam com elementos que se infiltraram desde sempre e ainda se infiltram em todos os nichos de poder, seja maior ou menor, inclusive nos menos prováveis, como contam com um excelente serviço de informações supranacional.

 

      Surpreendeu-me, assim, mesmo após ter percebido a recomendação de cautela com a possibilidade de um abalo irreversível da ordem institucional atual, encontrar a exaltação de porta-vozes dos projetos do Governo Rousseff que se caracteriza pelo tatibitate e pela demagogia voltados às massas incultas e semicultas. Não me constava que o PT tivesse alguém com estatura intelectual suficiente para produzir um texto tão bem articulado como esse é. Vê-se que nada é impossível, porém… E que nada deverá ser considerado improvável. Por outro lado, uma coisa é certa: os demais Partidos e organizações paralelas à política eleitoral não estarão preocupados, muito menos em grau semelhante, com o que é declarado como razão de preocupação. Nem têm “inteligência” capaz de possuir ou articular tanta informação.

 

      Recomendo, então, a leitura de um texto que foi escrito por quem não conheço – declara-se “servidor da Justiça Federal; escritor profissional sindicalizado desde 2001, dramaturgo e poeta” e desvinculado do Partido no poder. Não professará as mesmas convicções que professo; mas escreve muito bem e demonstra ter, se não as mesmas em um mesmo número, algumas das preocupações que, sim, eu tenho – e muito me preocupo.  Bem, sabemos que há preocupações programáticas e preocupações pragmáticas…

 

      Recomendo a leitura, sim. Mas recomendo uma leitura crítica. É um texto inteligente. Não afirmo que contenha apenas verdades, nem sequer que contenha alguma verdade, nem afirmo que contenha mentiras ou só mentiras. Afirmo apenas que contém e articula evidências. E tem alvo determinado: a camada mais intelectualizada da paróquia – a classe média urbana que, atônita, assiste à destruição de suas cidades, os profissionais de diferentes áreas que vêem, atônitos, seus esforços e seus conhecimentos considerados inúteis pelos entusiastas dos programas de cotas raciais e ditas sociais, os Policiais que vêem, atônitos, suas funções e sua capacidade sendo desafiadas, os Oficiais das FFAA que, atônitos, percebem que o País se desfaz como mingau no calor da violência das reivindicações de rua etc. O texto abre alas a que o Bloco Vermelho do Paz-e-Amor passe… e enfrente os Blocos Negros do Quebra-quebra no fantástico Carnaval de rua que se programa, ensaia e avizinha. “Legitima” a ação do Partido em lugar da ação do Estado. E isso somente pode ser feito porque não há, hoje, qualquer projeto nacional de fato que tenha sido sequer alinhavado por uma “inteligência” desvinculada dos objetivos da esquerda. Nem contamos com qualquer organização ou ação política de vulto efetivamente nacional (oh, mas elas não seriam… “fascistas”…?).

 

      Seja informação de fato, seja contrainformação, o que esse texto nos traz deverá ser considerado por quem pensa a realidade, busca soluções e busca antecipar-se a problemas que possam tornar-se insolúveis. Mesmo se sentirmos, enquanto lemos, um certo estranho odor no ar, os exageros do texto, sejam ou não sejam exageros de fato, correspondam ou não à verdade ou às possibilidades, precisam de ser considerados pelo menos como hipóteses.

 

      É isso. Eu penso, vocês pensam, nós pensamos… E, assim, algum dia, todos nós talvez possamos sair do buraco sem fundo em que nos metemos exatamente porque pudemos pensar que eles, os nossos “outros”, pudessem não pensar.

 

 

 

  

 

 

 

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