BOLSA CASERNA?

30-08-2013
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

1. “Precisamos continuar temperando nossa fibra na dureza do adestramento continuado, gastando suor para poupar sangue. E, também, na prontidão para o inesperado, na preservação dos valores intrínsecos da nacionalidade brasileira, na busca dos melhores meios, da maior competência e da melhor capacidade para atuar no amplo espectro dos conflitos, e proteger o País de ameaças que possam atrasar sua chegada ao seu local de destino. Lá, o BRASIL, cada vez mais forte, decisor de primeira grandeza, e participante ativo da modelagem do cenário mundial, poderá – inspirado em CAXIAS – contribuir ainda mais com a harmonia entre os povos e com a paz mundial, ampliando sua Estratégia da Cooperação”. Enzo Martins Peri, Comandante do Exército em Ordem do Dia de 25 de agosto de 2013 (dia que é do Soldado em homenagem a Caxias)

 

2. “No ano passado 249 oficiais se demitiram das Forças Armadas. A predominância recai sobre os postos de capitães e tenentes; e os oficiais engenheiros e dos quadros de saúde e intendência superam aqueles dos quadros operacionais, em todas as três Forças Armadas. A evasão ocorre, pois, nos postos mais baixos da carreira e incide nas qualificações mais demandadas no atual mercado de trabalho – engenharia, medicina e logística. (…) Uma explicação simplista poderia considerar o fator remuneração como o preponderante, uma vez que a demissão deveu-se, em sua grande maioria, por aprovação em concurso público para ocupar cargo que provavelmente pague melhor. Tal fato não é uma verdade absoluta. Conheço casos de oficiais que se demitiram até mesmo para perceber menor vencimento, mas sem os ônus que a profissão militar requer, como por exemplo a dedicação exclusiva. Marco Antonio Esteves Balbi – Cel Ref do Exército Brasileiro em 16/08/2013 – http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/forcas-armadas-249-oficiais-se-demitiram-no-ano-passado-neste-ano-ate-julho-foram-162-o-que-e-que-esta-acontecendo/

 

3. “O post provocou também muitos comentários de militares ou ex-militares das três Armas e de diferentes graduações, explicitando, na maior parte, as razões de seu desencanto com a carreira militar. Acho que o blog presta um serviço aos responsáveis ao registrar aqui algumas das opiniões, não raro dramáticas ou muito críticas, desses integrantes ou ex-integrantes das Forças Armadas. Opiniões como essas deveriam, no mínimo, provocar reflexões do Ministério da Defesa, dos comandantes militares e do governo”. Ricardo Setti, jornalista, em 22/08/2013 – http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/forcas-armadas-depoimentos-dramaticos-de-militares-mostram-as-razoes-de-frustracao-com-a-carreira/

 

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      É… Não é? Pois é. E, disso tudo, eu cá, se é que posso achar alguma coisa, achei outra, que se coloca em diametral oposição àquela que pôde ser achada pelo Jornalista – achei que este “post” só nos presta um enorme desserviço. A todos nós. E digo por quê:

 

     – porque nem o Ministério da Defesa, nem os Comandantes militares, nem o Governo carecem tomar conhecimento por intermédio da Imprensa de quaisquer “opiniões como essas” que foram publicadas para refletir sobre a atual realidade das FFAA, nem seriam essas opiniões o que os induziria ou obrigaria a fazer qualquer reflexão – estão todos eles fartos de conhecer a realidade, nos mínimos detalhes e nas condições e circunstâncias em que se vem gastando o suor da tropa brasileira para poupar o sangue de não sabemos muito bem quem – mas bem sabemos que o nosso sangue não é esse que vem sendo poupado;

 

     – porque as Forças Armadas somente chegaram às condições deploráveis, desastrosas, em que estão graças à condição deplorável, desastrosa, em que se encontra o Estado Brasileiro, exatamente em virtude da irresponsabilidade do(s) Governo(s), do Ministério da Defesa, dos Comandantes militares, das demais Instituições nacionais, da boa-Imprensa e de bons-cidadãos brasileiros comuns, convincentes que são e convencidos que estão, todos, há algumas décadas, de que contribuímos decisivamente com a harmonia entre os povos e com a paz mundial por efeito de nossa cada vez mais ampliada Estratégia da Cooperação. Talvez aqui devêssemos perguntar: e os fatos? Ora, se produzimos tão belos poemas, que importância nos terão os fatos?

 

     – porque, se o Ministério da Defesa, os Comandantes militares ou o Governo se incomodassem e se comovessem com algum problema nacional e se sentissem minimamente responsáveis por oferecer-lhe alguma solução, solução de fato, não o que fosse um quebra-galho, não esperariam “opiniões como essas” para procurar reverter um desastre já mais do que constatado, cujas consequências são perfeitamente calculáveis e, portanto, de surpresa não nos pegarão; mas, para enfrentá-las, ao que se saiba, ninguém se pôs, ninguém se põe ou se porá de prontidão;

 

     – porque os Comandantes militares, o Ministério da Defesa e, especialmente, o(s) Governo(s), irresponsáveis, gozaram e gozam do aplauso entusiasmado de todos os demais irresponsáveis, que cotidianamente informam suas consciências lendo o que publica aquela que consideram ser uma boa-Imprensa, fazem das eleições uma festa e se vêem, a si próprios, como bons-cidadãos – caso contrário não teriam aceito ou compactuado com essa realidade deplorável, desastrosa, que não se fez de repente e não mais que de repente; o que nos induz a supor que essa realidade deplorável, desastrosa, que é tanto do Estado quanto das FFAA encarregadas de sustentá-lo e preservá-lo, seja exatamente a que era desejada pelos que se crêem bons-cidadãos – caso contrário estes não aplaudiriam e manteriam o(s) Governo(s), o Ministério da Defesa, os Comandantes militares e a Imprensa que a aceitaram e com ela compactuaram;

 

     – porque todo e qualquer denuncismo sem projeto apenas incentiva uma rebeldia sem causa, e o incentivo a toda e qualquer rebeldia sem causa será apenas um imenso desserviço prestado à Nação.

 

     Dizem alguns que fantasiar a realidade e confundir a consciência dos incautos é não só uma das artes como um dos poderes do demônio. Não sei se isso reflete alguma verdade absoluta. Mas sei que este nosso País, por ingenuidade e boa-fé à toda prova, acredita piamente que, pedindo perdão por existir, tal como lhe vem sendo sugerido ou exigido, poderá garantir sua eternidade, protegendo os demais e sendo protegido para todo o sempre de todos os males do universo ao alcançar o reino dos céus. Aliás, essa, lá, é única instância em que é possível aos crentes supô-lo cada vez mais forte, um decisor de primeira grandeza e participante ativo da modelagem do cenário mundial. Contando com os meios, a competência e a capacidade que temos para atuar no amplo espectro dos conflitos, é um bocado difícil, extremamente complicado, nesta nossa terra habitada, toda ela inteira, por simples mortais, até mesmo sonhar com que esse nosso tão sublime, generoso e glorioso “destino manifesto” possa ser realizado algum dia, mesmo que com muito atraso. Quem não cuida da própria casa porque não sabe cuidar ou porque não cria meios para dela cuidar por sua própria conta e risco não terá o direito de querer meter-se a dar palpites em como cuidar das casas dos vizinhos – a menos que seja um funcionário do dono do bairro inteiro e aja sob suas ordens.

 

     Pois bem. As Forças Armadas recebem, nas pesquisas de opinião, alto grau de consideração, confiança e estima da população nacional, que elas vêm acudindo, a cada catástrofe eventual ou crônica, não em auxílio, mas substituindo literalmente uma Defesa Civil mal estruturada e insuficiente, quando não inexistente (incluindo-se nisso também o território da Amazônia). São prestigiadas ainda porque apoiam os atletas nacionais. A existência das Forças Armadas, porém, somente se justifica pelo fato de que elas se encarregam de defender, em armas, o Estado nacional contra seus inimigos externos e internos, e, em armas, somente elas devem disso se encarregar. Elas estão aviltadas? Estão. Vêm sendo estúpida, vergonhosamente aviltadas por Governo eleito após Governo eleito, em progressão geométrica, há décadas. Por que e como se mantêm?

 

     Se os Soldados, integrantes dessa Instituição que é do Estado e de ninguém mais, cidadãos diferenciados porque permanente, legítima e legalmente em armas, concordando com a opinião dos “representantes da sociedade civil”, estão convencidos de que sua função se limita a curvar-se às decisões de Governos (Governos?), Ministros da Defesa (Defesa?) e Comandantes militares mesmo que esses todos sejam flagrantemente irresponsáveis; se acreditam (porque todos eles, Soldados, e todos os demais, que Soldados não são, estão a depender dessas decisões que se mostram, a cada dia que passa, mais estúpidas) que suas frustrações individuais provocadas pelas condições encontradas nos Quartéis devam ser “denunciadas ao povo” para que o “povo” cada vez mais com eles se identifique e vice-versa; se estão convencidos de que podem ou devem lamentar-se e protestar batendo panelas ou fazendo passeatas ou vertendo lágrimas ou apelando a gestos espetaculosos (chegamos a uma exibição de rappel, caramba!) ou a discursos dramáticos e grandiloqüentes que repercutam nos Quartéis e/ou ganhem espaço na Imprensa, tal como o “povo” e seus “representantes” se comportam; se confiam em que, demonstrando publicamente o tipo e o grau de seu “desencanto” profissional, obterão a atenção e a comiseração do “povo”, que chamará à razão as “autoridades” em seu benefício; se supõem que assim (e só assim, porque o “povo” exige) seus chefes imediatos e remotos atenderão suas reivindicações individuais ou corporativas; se… mais um monte de evidências que podem ser colhidas ao acaso… e se tratam de justificar a defesa de si próprios como indivíduos comuns e, com pureza d’alma, supõem que isso tudo deva ser considerado como um bom e suficiente serviço que prestam ao País, em vez de agir correta, decisiva, ordenada e corajosamente em defesa das FFAA e do Estado contra eventuais Governos (Governos?) irresponsáveis… é porque Soldados eles não são. E se nenhum daqueles que se dizem Soldados deles discorda, mesmo que muitos assim não ajam, é porque faltam Soldados neste País. Haverá poetas, seresteiros, namorados, oradores, conciliadores, pacificadores, contorcionistas, manifestantes… mas não Soldados. Nem Comandantes, que muito bons Soldados devem ser. Muito menos haverá Soldados e Comandantes que tenham sido forjados à sombra de Caxias, com a consciência do Estado que Caxias deixou como exemplo, dentro e fora do Exército. Por mais que haja quem tenha tido sua fibra temperada na dureza de um adestramento continuado.

 

     Não havendo mais Soldados como Caxias, com a consciência de Caxias, não mais haverá quem defenda em armas o Estado. A Diplomacia o defenderá? Não há boa Diplomacia sem respaldo em boas Armas. E talvez isso já pouco importe aos bons-cidadãos porque talvez Estado brasileiro já não haja (e eu continuo me perguntando e continuo sem saber me responder de que, exatamente, imaginam esses que serão cidadãos…). Talvez neste País haja tão somente um Governo (Governo?) com o qual alguns estão muito satisfeitos e outros tantos não estarão. E, talvez, por isso os Soldados queiram ir às ruas, que a Imprensa tem por função também cobrir. Não só acatam o chamamento dos que nas ruas já estão, como convocam às ruas. Enfim, levam-se os Soldados às ruas não para festejar o poder nacional em 07 de Setembro, não para manter, para impor ou para fazer a Ordem no Estado tal como deles espera quem tem juízo. Levam-se os Soldados às ruas para que se acotovelem com outros grupos de bons-cidadãos insatisfeitos, para que lamentem e protestem. E para que, flagrantemente, desrespeitem não apenas a hierarquia das Armas (e a desrespeitem não por razões de Ordem nacional, o que se justifica, mas por razões estritamente particulares) como para que desrespeitem os regulamentos disciplinares por inteiro, a começar pelo que se refere ao decoro que o Estado lhes exige.

 

     Se alguém ou algo os leva, e se não é, com certeza, uma voz de comando militar, terá sido uma voz de comando civil. À qual, não por comando militar, acharam por bem obedecer. Mas, uma coisa é certa: se Estado brasileiro já não houver, cidadãos brasileiros não mais haverá, pois quem concede e garante a condição de cidadão ao indivíduo é o Estado, nada e ninguém mais, muito menos um Governo. E, não havendo Estado, não haverá por que haver FFAA. Nem haverá por que haver Soldados inspirados em Caxias. E de nada nos servirá chamar de Soldados e adestrar, mal ou bem adestrados, e manter financeiramente, bem ou mal mantidos, indivíduos que carregam armas inadequadas, cujos tiros lhes saem pela culatra, e arrastam um espírito que, por ser inservível ao Estado, permitiu que este se visse inerme e, não só, mas também por isso, perecesse. Por outro lado, não é possível que os vencimentos dos Soldados sejam tratados como se fossem uma espécie de “Bolsa Caserna” entre as instituídas pelo revolucionário programa de concessão de bolsas do Governo da República que, sendo o que é, por razões óbvias, quer que a população confunda aceitar receber “bolsas” e “cestas básicas” com assumir algo semelhante a dignidade.  

 

     Devemos, sim, todos nós, lamentar a perda dos valores intrínsecos da nacionalidade brasileira e o fracasso dos projetos nacionais, devemos incentivar a denúncia dessa perda e procurar compreender as razões desse fracasso, e reagir a elas com firmeza e decisão e tentar recuperar o nosso Estado; mas isso exige inteligência e organização, e não será protestando nas ruas, implorando atenção de… de quem? das “autoridades”?… que recuperaremos valores ou (re)formularemos projetos nacionais e salvaremos o que nosso deve ser. Nada nos obrigará (ou obrigará o Estado, portanto) a, em processo semelhante, tratar a expectativa de alguém ou de todos e cada um com relação a uma carreira pessoal livremente escolhida como um desses valores, ou a confundir com um desses projetos o adequado ajuste do valor de serviços particulares contratados a curto ou a longo prazo. Não será dever do Estado, portanto, patrocinar indivíduos quaisquer porque a estes lhes atraem usar uniformes, executar serviços técnicos e burocráticos, gozar de instalações esportivas ou experimentar emoções radicais; nem será seu dever cuidar para que nunca se frustre quem sirva a qualquer uma das Armas nacionais que servem ao Estado e, pelas boas, decidiu servir como se fosse funcionário de uma empresa ou de uma fictícia governança supranacional.

 

     Mas é exatamente isso, apenas isso, nada mais que isso o que mais uma rebeldia sem causa e mais um denuncismo sem projeto promovem e incentivam. E, assim sendo, não se justificam a promoção e o incentivo. Muito menos se justificará qualquer lamento da tropa fardada, que será mais um que se junta, em uníssono, aos demais lamentos particulares que ao mesmo e único ponto sempre nos levaram e nos vêm levando – ao nada. 

 

     Pois é. E assim é. Pelo menos é o que eu acho que é, e só acho e só digo que acho porque todo mundo ainda pode achar e vem achando o que bem entende. Mesmo que as FFAA sofram porque o orçamento militar mais uma vez se viu roído por outros setores em nome de outras prioridades públicas ou particulares, eu cá duvido e faço pouco de que alguém possa encontrar no “post” de Ricardo Setti qualquer razão para respeitar nossos Soldados como Soldados inspirados em Caxias. Pior, bem pior: muito menos alguém de bom juízo encontrará razão alguma para tanto seja no primeiro ou no segundo textos aqui transcritos. São manifestações verbais que apenas refletem como pode ser fantasiada e mais ainda maltratada uma realidade já muito e muito infeliz – a realidade que é a de todos nós. Que os Soldados de fato inspirados em Caxias não mais encontram meios de tentar resolver.

 

     E muito pior, ainda: nenhum dos textos aqui postos em epígrafe evitará que alguém possa interpretar que o Congresso Nacional, ao não ter ainda proposto extinguir as Forças Armadas em uma só canetada, e não aos poucos, tal como a própria Instituição vem fazendo em suicídio lento, apenas esteja contribuindo para consagrar, sem pompa, sem fanfarra e sem palanque, um Governo irresponsável e uma “categoria de funcionários” que lhe parece interessante e confiável, embora esta se considere injustiçada com o pouco que recebe em comparação com o muito que se empenha para que, conforme se confirma no discurso do Comandante do Exército, um Brasil efetivamente “de todos”, não mais dos brasileiros, torne-se uma realidade irreversível. Que ninguém possa supor e decida afirmar que isso acontece por respeito ao vulto de Caxias, ao vulto de qualquer um dos Patronos das Armas nacionais ou ao de seus Soldados.

    

   

  

 

 

 

 

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