Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

“Pour le dessinateur Luz, ces manifestations sont à ‘contre-sens’ de Charlie – Luz, l’un des dessinateurs de Charlie Hedbo … donne son regard sur le mouvement ‘Je suis Charlie’ unanimement repris à travers la France, jusqu’à faire de ‘Charlie Hebdo’ un vrai symbole universel. … ‘Tout le monde nous regarde, on est devenu des symboles, tout comme nos dessins … C’est formidable que les gens nous soutiennent mais on est dans un contre-sens de ce que sont les dessins de Charlie … Cet unanimisme est utile à Hollande pour ressouder la nation. Il est utile à Marine Le Pen pour demander la peine de mort’http://www.sudouest.fr/2015/01/10/pour-le-dessinateur-luz-ces-manifestations-sont-a-contre-sens-de-charlie-1792749-6092.php

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“Anonymous declara guerra aos jihadistas em vingança pelo Charlie Hebdo – O ramo belga do grupo de hackers Anonymous ameaça diretamente a Al Qaeda e o Estado Islâmico. VEJA O VÍDEO – No vídeo, o representante do Anonymous explica, com voz distorcida, que o grupo decidiu ‘declarar guerra’ aos terroristas, referindo-se depois especificamente à Al Qaeda e ao Estado Islâmico. ‘Vamos perseguir-vos – todos – e matar-vos’ – garante o grupo, numa campanha que identifica como ‘#OpCharlieHebdo’. ‘Permitiram-se matar pessoas inocentes e nós vamos vingar as suas mortes’, promete o vídeo. O Anonymous diz que os seus ativistas em todo o mundo vão seguir toda a atividade online dos jihadistas e encerrar as suas contas nas redes sociais. ‘Não vamos deixar que a vossa estupidez mate as nossas liberdades e a nossa liberdade de expressão. Já vos avisámos: Esperem pela vossa destruição’, ouve-se ainda. ‘Vamos perseguir-vos por todo o planeta, não vão estar seguros em lado nenhum. Somos o Anonymous. Somos legião. Não esquecemos. Não perdoamos. Temam-nos Estado Islâmico e Al Qaeda – vão receber a nossa vingança’, termina.” http://visao.sapo.pt/anonymous-declara-guerra-aos-jihadistas-em-vinganca-pelo-charlie-hebdo=f806560#ixzz3OQvpdOh5

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“… los que desfilaban por las calles querían taponar los enfrentamientos comunitarios. Los asesinos de París han desencadenado un movimiento de unidad sin precedentes, enviando así un mensaje inequívoco a las debilitadas corrientes centrales de la política. … Es difícil reanudar un pacto social puesto en cuarentena por la crisis económica, pero no queda otra para reducir al mínimo la violencia latente entre los que no se integran en sus países, y eso con independencia de los compromisos militares u objetivos de seguridad adoptados por los poderes del Estado. Es el objetivo buscado por los protagonistas de la gran oleada republicana en curso: protegerse contra las amenazas, pero rearmarse frente a las dinámicas de los halcones.”  http://internacional.elpais.com/internacional/2015/01/11/actualidad/1421005317_089649.html

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      Não exatamente fiéis ao sentido que pretendeu Olavo Bilac dar às suas palavras, muitos são os “poetas” que ouvem estrelas e em seguida nos explicam que é preciso muito e muito amar para entendê-las. Quem não as entende não é capaz de amar o suficiente. E muitos também são os que, ao vir do sol, saudosos e em pranto, procuram-nas pelo céu deserto… Seguramente anseiam pela chegada da próxima noite, para que possam novamente encontrá-las em pleno brilho. E as encontrarão, com toda a certeza. Com elas conversarão. É que, mesmo depois de extintas, as estrelas exigem anos-luz para que não mais as vejamos. E quem alguma vez as escutou há de seguir escutando-as pela vida afora. E nada mais, além de estrelas, escutará.

 

      Há uns dias, a redação do Charlie Hebdo foi alvo de uma ação terrorista. Por muito amor (?), doze pessoas foram assassinadas. Por muito amor (?), meio mundo celebrou. Por muito amor (?), o outro meio mundo saiu às ruas com cartazes que diziam “eu sou Charlie”. Outras muitas pessoas mais foram mortas em outras ações, outras ocasiões, outros locais. Nem sabemos onde, nem sabemos seus nomes nem quantas foram elas. É muito amor…

 

      Que significaria ser Charlie, quem seria Charlie, que tantos agora querem ser? Um protesto contra as condições desumanas sob as quais mais de meio mundo sobrevive não levaria tanta gente às ruas, pois nunca levou. Que poderosa voz de comando faria alguém abrir mão de sua própria identidade aceitando personificar uma determinada versão de liberdade indicada por um semanário que sobrevive graças ao prazer mórbido que certo público encontra no absoluto desrespeito voltado a tudo e a todos? Quem diz ser Charlie sem que de fato o seja terá sido seduzido pelo canto de alguma estrela, um canto que em muito se parece com o canto das sereias.

 

      No dia 08, logo em seguida à notícia do que havia ocorrido em Paris, comentei na “rede”, sem muito me alongar, que, para opinar com um mínimo de serenidade, antes de imaginar que qualquer fé religiosa ou política pudesse ser, por si só, capaz de desencadear tamanha estupidez, deveríamos nos lembrar de que existem indivíduos enfermos, fanáticos, alucinados, que, sozinhos ou em pequeno grupo, apenas buscam um pretexto qualquer para provocar pavor e desfrutar de uma sensação de poder, ainda que seja efêmera. Bem poderia ter dito ainda que, em contrapartida, existem outros indivíduos que, isoladamente ou em grupo, sem correr qualquer risco, apenas recolhem o que encontram em seu caminho e tudo transformam, inclusive o lixo, em vantagens que lhes permitem algum proveito. Ambos os tipos contam, a seu favor, com uma infeliz tendência a absolutas irresponsabilidade, maleabilidade e conformidade das massas. Para não citar outras tendências mais que com estas muito colaboram. Não por acaso, pois, o Charlie Hebdo, que mantinha até agora uma tiragem regular de 60 mil exemplares, está lançando, uma semana após sua redação ter sofrido baixas em um atentado, em 16 idiomas, uma edição em que reafirma o seu “direito à blasfêmia” (seria um direito sagrado?), esperando contar com não menos de 3 milhões de interessados.

 

      Em uma Europa que hoje parece estar tão assustada, alguém ainda se lembraria, por exemplo, do bando Baader-Meinhof (que se denominava Rote Armee Fraktion = Fração do Exército Vermelho)? Ou todos já se esqueceram de que seus integrantes, comunistas, justificavam a guerrilha urbana a que se dedicavam como uma luta contra o “Estado fascista” e, por isso, arrebentavam, roubavam, seqüestravam, matavam? Comoveu a Europa a ponto de promover-se uma manifestação do vulto da que se viu domingo último? Parece que todos também já se esqueceram das Brigadas Vermelhas (Brigate Rosse), cujo objetivo seria destruir “o projeto contra-revolucionário do capitalismo multinacional imperialista”. Bonito, isso. Quantos não justificaram os atos desses bandos de cretinos como atos heróicos, necessários, revolucionários, até mesmo… românticos…?

 

      Quem não tem idéia do que, em mais de duas décadas (e ainda hoje ameaçam ressuscitar), inspiradas nos Tupamaros e em íntima relação com a máfia calabresa, reunindo jovens militantes do Partido comunista, do movimento sindical e da esquerda católica, foram capazes de fazer na Itália as Brigadas Vermelhas, cujo ódio também se voltava aos intelectuais da esquerda (jornalistas, professores universitários, juízes, advogados, policiais…) a quem atribuíam cumplicidade com um “Estado imperialista multinacional”, ou quem não tem idéia do que faziam os ilustres personagens que, entre 1970 e quase o finalzinho do século, compunham o Baader-Meinhof, quando esse bando pôde ser responsável por dezenas de mortos e centenas de feridos entre civis e militares, inclusive estrangeiros, em território alemão, além de um prejuízo de milhões de marcos em patrimônio público e privado, ou quem apenas quiser avivar a sua memória, que dê um pulo em pt.wikipedia.org/wiki/Fra%C3%A7%C3%A3o_do_Ex%C3%A9rcito_Vermelho  e em pt.wikipedia.org/wiki/Brigadas_Vermelhas  e talvez possa aprofundar um pouco mais seu conhecimento a respeito das estrelas que então eram ouvidas, aprofundando também suas reflexões e suas conclusões a respeito de tanto… amor. E que me diga, em seguida, se nada encontrou que se pareça com outra coisa ou se pareça com a mesma coisa que tenha ocorrido alguma vez em nosso território, mesmo que, entre nós, um pouco mais subdesenvolvida.

 

estrelas

 

      Cito apenas esses bandos, três, incluindo o bando uruguaio, para também aqui não muito me alongar – para quem, ao somar dois com dois, encontra quatro… Em suma, embora haja estrelas em quantidade infinita buscando cantar em uníssono e muito desafinando, terrorismo é terrorismo, o terrorista é um terrorista. Nada mais. A violência, que todos abominam, é da natureza humana, é instintiva quando essa natureza permanece em estado bruto, e a dirigimos, por instinto, àqueles que consideramos que nos ameaçam, Mas a cultura – a civilização – ao refinar-se, será capaz de contornar e/ou limitar e controlar a violência. Nesse sentido, alguém pôde teorizar o recurso à violência como sendo monopólio exclusivo de uma organização política estruturada que seria a única que o poderia legitimar, atribuindo funções responsáveis por ele. A quem os políticos, intelectuais, líderes religiosos e todos os demais manifestantes que se reuniram na “marcha republicana” em Paris poderiam estar reclamando providências contra o terrorismo? Aos anjos?

 

     Se a cultura está, ela própria, também na natureza humana, o terrorismo age em paralelo à cultura, não se encaixa nela, é difuso, é irresponsável, dirige-se contra todos e qualquer um e é incontrolável; não será a radicalização de qualquer tendência, não será movido a religião alguma, é simplesmente uma aberração da natureza, e como tal precisa visto e ser tratado. O terrorista é absolutamente marginal, é um demolidor, não segue “livro sagrado” algum, não faz Política nem faz humor, nem de bom nem de mau gosto – apenas desqualifica tudo e qualquer coisa, promove o tumulto, a desordem e goza com as imensas tragédias que provoca. Terroristas não defendem liberdade alguma ou qualquer valor que mesmo de longe possa parecer democrático ou minimamente racional, não são contra qualquer esquerda ou qualquer direita que se diga ou se suponha crítica ou não. São apenas contra qualquer ordem, contra qualquer instituição, adeptos da destruição de tudo o que a cultura (as culturas), a civilização (as civilizações) pôde (puderam), em séculos, erguer. Pouco importa o que eles próprios ou aqueles que os aplaudem aleguem para justificar suas atitudes. E pouco importa o que alguns outros alegarão para, mais uma vez, conforme seus próprios interesses, manipular a (pouca) inteligência das massas.

 

      Os envolvidos na(s) tragédia(s) ocorrida(s) em Paris são terroristas. Em qualquer tipo de cultura serão considerados criminosos, e não estão, nem um pouco, preocupados com salvar alguém da crueldade de qualquer sistema, seja o sistema capitalista, seja o sistema galáctico, ou com salvar suas próprias almas de um jeito ou de outro; são gente doente, que não tem cura.

 

      Terroristas nada respeitam e não respeitam fronteiras, invadem territórios, seqüestram indivíduos, explodem instituições públicas e privadas – não perdoam e não esquecem. Isso eles nos dizem claramente e disso nós bem sabemos, porque o sentimos em nossa própria carne. Só não sabemos muito bem que é o que eles exatamente não perdoam e não esquecem. Talvez o fato de que estejamos no mundo e a eles sobrevivamos… talvez porque nada mais tenham como objetivo senão provocar o terror que do mesmo terror se alimenta e o mesmo terror produz. E terroristas não discutem entre si. Poderão matar-se uns aos outros, sim, quando os bandos se põem em disputa por espaço e poder, mas discutir, não discutem, jamais. Com armas de fogo ou com lápis e papel ou um carimbo nas mãos, quando aparentam discutir, estarão… dialogando. Será um diálogo entre comadres, porque o objetivo de um terrorista qualquer será sempre o mesmo: meter-se por todas as frestas, corroer tudo, derrubar tudo, acabar com tudo.

 

      Por tudo isso e mais um pouco, não apenas Hollande, visando a reaglutinar a Nação francesa, ou Marine Le Pen, visando a obter uma legislação que reintroduza a pena de morte, aproveitam as massas que foram postas em movimento a partir de Paris afirmando ser Charlie após o atentado – também o bando supranacional que se autodenomina Anonymous – cuja estrela se mascara de estrela cadente, ou seja, fantasia-se de material fragmentado não se sabe bem qual, vindo não se sabe bem de que parte do espaço sideral e entra em combustão ao atingir a atmosfera que nos permite mal ou bem respirar – nos declara (alguém de sua “fração belga” declara em seu nome como seu “representante”) não que “seja” Charlie, mas sim que “vingará” Charlie, e que decidiu “declarar guerra”.

 

      Quem busca revanche, quem busca vingança, não estará buscando Justiça alguma, nem a divina nem a dos homens. Justiça é algo de eminente essência política, pública, vingança é algo muito particular, subjetivo, que qualquer idéia de Justiça só atrapalhará. E guerras se fazem entre Estados, não entre indivíduos ou bandos. Quem o bando (fração, brigada, legião…) Anonymous supõe que seja para que nos venha comunicar que decidiu “declarar guerra”? Que tanto poder teria o Anonymous para fazer tantas ameaças a outros bandos terroristas tais como o Al-Qaeda e o dito Estado Islâmico, que não são Estado algum? Por que seria lícito o bando Anonymous se preocupar com “vingar” Charlie em qualquer tempo e lugar, por todo o planeta, convulsionando-o ainda mais? Por que tanta certeza tem o Anonymous de que poderá contar com a cumplicidade de quem os ouve para mais facilmente poder perseguir e matar aqueles que aponta como seus adversários, sobrepondo-se aos Estados nacionais, apropriando-se de funções que destes seriam monopólio e as deturpando? Quem lhe deu esses “direitos”? Os que hoje dizem ser Charlie, todos, que se sentiram feridos ao ser “vingado” por alguns fanáticos um ato de desrespeito a qualquer coisa ou a alguém? Quem estará, de fato, por trás desse anonimato insano, que vem sendo tão bem sucedido especialmente entre aqueles que dizem abominar os Exércitos? Que é o que nos promete esse bando mascarado senão mais terrorismo? Fará o terror em nome de quem, legitimado por quem? Pelos que se dizem Charlie? Quem, então, seria Charlie, que, por ter sido agredido por terroristas, por terroristas deverá ser vingado? Que “filosofia” Charlie representa, afinal, que espécie de “liberdade” pretenderia impor?

 

      Apesar de que muitos tenham tido conhecimento de algumas de suas charges mais divulgadas e comentadas por serem possivelmente as mais grosseiras, quem e quantos dos que se dizem Charlie alguma vez passaram os olhos pelas páginas do Charlie Hebdo, de tão baixo nível e tão duvidoso humor (que alguns definem como sendo uma espécie de “nosso” antigo Pasquim e que nem por ser francês seria ou será mais refinado, mais divertido ou mais “universal”)? Por mais que lamentemos mortes inúteis, todas elas, é muito complicado encontrar alguma graça no que dizem ou fazem os depravados, ou encontrar algum ar de democracia em sua prepotência doentia, que nada e ninguém respeita. Mais complicado será com eles identificar-se. E mais complicado ainda será justificar uma ação terrorista ou qualquer diálogo com terroristas, seja qual for a fé que estes digam professar.

 

      Terrorismo não é apenas crime – é lixo. O terrorista é o que a Humanidade tem de mais podre. Tolerar ou, pior, justificar o terrorismo, venha ele de onde vier, da forma como vier, é nada mais que colaborar com a produção de lixo, um lixo altamente tóxico que se acumula sobre si mesmo, obstrui qualquer via democrática e empesteia a atmosfera política por inteiro. E, por experiência própria, estamos bem sabendo de que os que muito se aproximam de terroristas e com terroristas muito dialogam correm o sério risco de ficar muito parecidos com eles, correndo também o mais sério ainda risco de acabar por elegê-los a exercer funções públicas que se demonstrem vitais em uma sociedade.

 

     Será, assim, no mínimo uma anedota o comentário de um cronista, que um dos nossos jornalões publica (www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/2015/01/1574241-por-que-nao-fomos-charlie.shtml), criticando osilêncio ensurdecedor” que se ouviu no Brasil no último domingo, quando em Paris se fazia uma mega manifestação contra o terrorismo, “silêncio que começa lá em cima, na Presidência da República”. As razões da cautela de Rousseff não seriam óbvias? Aliás, talvez sejam duas as anedotas no texto, pois a segunda será atribuir a “uma mentalidade hiperburocrática” o fato de o Governo brasileiro ter designado nosso Embaixador para comparecer a um ato que era, antes que tudo, de caráter diplomático – teria sido uma “omissão”, pois, afinal, o indivíduo “José Bustani teria comparecido à manifestação mesmo que não fosse escalado”… E…? E quê? Ou seriam três as anedotas, contando com a crucial informação de que, da ausência de alguém do 1º escalão da República ao ato, “a mídia não perdoou” sequer os EUA. Mas talvez fossem quatro, pois, conforme se lê, “apenas um clássico brasileiro: a incapacidade ou a inapetência (ou ambas) de se mobilizar, de ganhar a rua, de protestar, de reclamar, de ser inconformista” explicaria o trânsito da Av. Paulista não ter sido interrompido por uma montanha de cartazes com as palavras “eu sou Charlie”. Se essas palavras, de ordem tão superior, não forem adotadas com entusiasmo e acatadas, quem de nós poderá ter a certeza de que não “estamos fora do Universo”…? É divertido, isso tudo. Ou não? Eu acho.

 

      Há muita coisa fora de lugar, principalmente em muitas cabeças muito confusas com tantas idéias enjambradas e mal arrematadas, não só por aqui como pelo mundo afora, não? Isso, sim, é o nos parece, mas também é o que nos convence de que estamos perfeitamente “dentro do Universo”. E, a prosseguir as coisas como elas vão indo, especialmente por aqui, de muito pouco servirá que alguns continuem procurando pelo céu deserto, ao vir do sol, saudosos e em pranto qualquer estrela, nova ou velha, que nos indique um caminho menos acre. É mais do que hora, portanto, de dar fim aos fricotes poéticos e de começarmos, sem querer ouvir estrelas estranhas e sem, de fato, ouvi-las, a pensar muito a sério em coisas muito sérias que nos dizem de muito perto. É mais que hora de tentarmos fazer alguma coisa que preste para nós mesmos. Em nosso próprio nome. Porque o nós que nós somos de fato, apesar de que goze plenamente de um (seria sagrado?) “direito à blasfêmia”, não vem gozando de liberdade alguma, nem de Justiça, nem de segurança, perde a vida nas ruas ou trancado em sua própria casa a qualquer hora de todos os dias, nas mãos de uma bandidagem muito bem protegida pela politicagem. O que não deixa de ser um tipo de terrorismo institucional. E esse nós não é anônimo – tem nome próprio. Que não é Charlie. Que não se confunde com o nome de quem quer que seja. Que deve ser enunciado em forte e bom som.

 

      Aceitar que a mídia seja a única voz da verdade, acreditar que problemas somente sejam o que a mídia aponta como sendo problemas, pretender que, com todos os problemas reais que enfrentamos, sejamos Charlie porque Charlie todos “devem” ser, negar nossa identidade, impedir que nos reconheçamos apenas por nossa cara limpa e por nosso nome verdadeiro será exigir que sejamos uma população “maria-vai-com-as-outras”, é querer mostrar ao mundo inteiro e a nós mesmos que não passamos de um bando submisso às palavras de ordem de estranhas estrelas sempre entendidas a meias. Pouco importa se são estrelas que se mostram por inteiro ou se camuflam, se estão mortas ou ainda vivem – elas todas sempre nos disseram, ainda nos dizem e sempre nos dirão que deveremos viver e morrer pela liberdade… delas mesmas.

 

      Se estrelas são tão essenciais para nos conduzir, se muito queremos ouvi-las e se, por muito e muito amar, nos sentimos plenamente capazes de entendê-las, que ouçamos, então, com muita atenção, as que compõem o Brasão de Armas de nossa República.

armas da república  Que ouçamos estas, e apenas estas estrelas. E não nos fará falta ouvir qualquer outra. E cuidemos para que ninguém, senão nós mesmos, possa sequer pretender dizer ou fazer algo em nome delas – um nome que é, de fato, o nosso único nome.

 

 

 

 

 

 

 

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