Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

   

  

 

     A charge anexa é até engraçadinha. Não digo que não é.   

   

     Mas direi que não só engraçadinha ela é. A sua intenção subliminar – tal como a intenção por vezes escancarada de muitas outras charges e certos textos que circulam na web e na Imprensa escrita – ou é muito desavisada ou é apenas cínica. E é perversa.

 

 CHURRASCO

 

     Joaquim Barbosa foi o Ministro-relator do processo do “mensalão” e reconheça-se o seu mérito em bem ter-se portado como um Juiz do Supremo Tribunal Federal. Mas Joaquim Barbosa não é o responsável exclusivo pela condenação dos criminosos que poderíamos querer ver afastados da Política. Sem os votos dos demais Juízes do Supremo que os condenaram, todos os acusados estariam hoje soltos e impunes… apesar do esforço e da vontade de Joaquim Barbosa. E ainda teríamos que lhes pedir desculpas, talvez também inaugurar uma placa no STF e pagar-lhes indenização…

 

     Se o processo do “mensalão” se deve a uma denúncia do Ministério Público e se cada Juiz no Supremo votou segundo a sua própria convicção depois de ter, cada um deles, estudado cuidadosa e minuciosamente esse processo, por que apontar Joaquim Barbosa como aquele que nos veio oferecer três cabeças petistas ao corte e à degustação? E por que tentar fazer de Joaquim Barbosa um herói nacional?

 

     Joaquim Barbosa condenou, sim, alguns réus do “mensalão”. Presumidamente porque não quis pôr-se à venda em um momento no qual tudo se reduz a ser uma mercadoria. Condenou-os, como bom Juiz que é, porque considerou que eram culpados, da mesma forma como absolveu outros deles: condenou uns e absolveu outros obedecendo à sua consciência. Joaquim Barbosa, o Relator do processo, levantou argumentos e demonstrou considerável saber jurídico, além de demonstrar ter Moral individual e respeito ao que é público – tal como muitos brasileiros pobres, remediados e ricos, brancos, pretos ou multicores, Juízes, Promotores, Professores, Motoristas de ônibus ou Varredores de rua etc. terão (e outros não terão). O Revisor várias vezes o contestou. E, se os demais Juízes, cumprindo sua função e obedecendo às suas próprias consciências, não discordaram dos votos de Joaquim Barbosa, isso não ocorreu porque, nele, tenham encontrado um “líder” excepcional, mas porque consideraram culpados os que, como culpados, consideraram; e consideraram inocentes do que lhes foi, nesse específico processo, imputado, aqueles que absolveram.

 

     Por outro lado, não por ser negro e não porque nasceu pobre, Joaquim Barbosa condenou criminosos e demonstra ter Moral e ter saber jurídico. Joaquim Barbosa criou-se no Brasil da sua geração, preparou-se, formou-se, fez seus cursos complementares, teve suas chances, teve suas vitórias e sofreu seus fracassos no Brasil de sua geração, como qualquer negro, qualquer branco, qualquer indivíduo de qualquer cor e qualquer origem, sob as condições dadas por gerações anteriores, tal como todos os de sua geração; nem hoje é Ministro do Supremo graças a uma política de cotas ou por sempre ter votado no PT (tal como, por certo, continuará votando); nem se tornou capaz de exercer sua função graças à iluminação extraordinária de uma geração de esquerda. Joaquim Barbosa é um homem inteligente, sem dúvida, e é resultado das condições da Escola brasileira de seu tempo, que se preocupava com bem formar e, assim, dar oportunidades a muita gente – Escola que hoje, “democraticamente”, cada vez piores condições oferece aos pobres, remediados e ricos e cada vez mais apenas reforça os desmandos do Governo, Governo que “resolve” carências estruturais, tais como o insuficiente número de vagas e de mérito docente e discente, com expedientes racistas conjunturais, deixando muita gente inteligente e capaz fora da Escola e sem oportunidades.  

 

     Apenas por ter saber jurídico, por ter condenado criminosos e por ser inteligente, porém, Joaquim Barbosa não demonstra que esteja capacitado para ser indicado como Presidente de nossa República ou, sequer, que esteja capacitado a nos indicar quem deva ser Presidente de nossa República – da mesma forma como, apenas por ter saber jurídico, ter condenado criminosos e por ser inteligente, não demonstra estar suficientemente capacitado para ser um Administrador Público ou um Engenheiro ou um Oficial Militar ou um Médico, um Técnico em Informática, um Pintor, um Padre, um Cozinheiro ou qualquer outra coisa que não seja um Jurista. Ele está capacitado para ser um bom Juiz do Supremo. Será um bom Juiz do Supremo se assim se mantiver.

 

     É preciso dar um basta à demagogia frouxa de uma vez por todas enquanto é tempo. E fazer parar, enquanto é tempo, um andor preguiçoso que agora carrega nas alturas mais uma estrela tirada da cartola de alguém, estrela que, exibida da forma como vem sendo, tem sua imagem espalhada com velocidade da luz e quer se impor como mais uma verdade absoluta. É preciso fazer que esse erro não mais se avolume e não mais siga adiante, contagiando multidões em procissão. É preciso que chutemos de uma vez por todas, para bem longe de nós, um balde já repleto, até a boca, de fantasias estúpidas, que insistentemente nos é oferecido graciosamente para que nos distraiamos jogando-o insana e repetidamente cada vez mais ao fundo de um poço absolutamente seco de qualquer realidade. É preciso que não saiamos, mais uma vez, beijando mãos e agradecendo de joelhos, como reles escravos das circunstâncias, a cada qualquer um que apenas nos demonstre saber bem cumprir o seu dever perante a coisa pública – o que não deve ser visto como qualquer virtude extraordinária pois nada mais é que uma obrigação de todos nós. E é preciso fazer, de uma vez por todas, exatamente o que fez Joaquim Barbosa, em sua função, com os erros levados a julgamento no Supremo: repor, inteligentemente, cada um de nós, cada coisa e cada um em seu devido lugar. Porque esta é nossa função.

 

     Se consideramos que merecemos um Brasil mais decente e melhor, se consideramos que temos o dever de deixar às próximas gerações algo de bom que mereça ser preservado, que nos preocupemos com imaginar como resolver o que impede que isso seja alcançado, todos nós, sem nos deixarmos cair, outra vez mais, em politiquices, estrelices e esparrelas eleitoreiras, corporativas ou pontuais.

 

     Enquanto nos aglutinarmos apenas por conveniência individual, por diversão ou por comoção, movidos por charges, cartazes, filmes, novelas, espetáculos pirotécnicos, sorrisos, lágrimas e cantorias, enquanto evitarmos pisar no nosso chão e não tentarmos saber, a sério, que fazer com nosso País em toda a sua dimensão, enquanto não nos organizarmos com uma expectativa de futuro consistente e realista, baseada em suas condições reais e nas reais condições de seu entorno, não saberemos quem chamar para administrá-lo e não teremos quem chamar. E tudo ficará no mesmo. Na mesma ficção. Ou ainda bem pior do que já está.

 

     É mais que tempo de pararmos de ser tolerantes e coniventes com o resultado de patacoadas do tipo “o crime é fruto da miséria”, “a crise é um tsunami nos EUA e no Brasil é só uma marolinha”, “a Amazônia é o pulmão do mundo”, “o Brasil é um país pacífico”, “a terra é do índio e foi usurpada”, “a culpa dos fracassos nacionais é de uma elite branca e conservadora”, “o Brasil tem uma dívida histórica decorrente do regime de escravidão”, “o Brasil tem uma dívida histórica decorrente da Guerra do Paraguai”, “somos latino-americanos e todos somos irmãos”, “o país tal é um exemplo a seguir”, “encontremos um líder e seremos salvos”… e outras do gênero. Precisamos compreender definitivamente que um líder não se encontra de repente – um líder nasce no calor da discussão, dos debates, da luta. E não se mantém como líder se não mais acudir às funções de uma liderança – transforma-se em mito vazio de sentido, nocivo ou apenas inservível, ocupando um espaço que nos poderia ou deveria ser útil, nada mais.

 

     Precisamos urgentemente compreender que já não somos crianças que devem ser conduzidas por alguém para que não se percam em um passeio. Não estamos por aqui a passear e somos todos adultos – e ser adulto é assumir responsabilidades, inclusive e principalmente políticas. Nós, todos nós, devemos cumprir nossas funções da melhor forma possível, empenhando o melhor de nós mesmos. E não o devemos a qualquer presumida vítima do passado, mas sim à nossa população do presente, ela inteira, para que, entre todos os brasileiros, não haja vítimas no futuro.

 

     Se vítimas houver, não procuremos culpados, pois seremos nós mesmos seus algozes. Serão nossas essas vítimas, vítimas de nossa inconsequência, de nossa incompetência, de nossa incoerência, de nada e ninguém mais, ainda que sejamos nós mesmos essas vítimas.

      

     Para que ninguém se esqueça ou se confunda:

 

1. “Barbosa diz que foi Frei Betto, que o conhecia por terem participado do conselho de ONGs, que fez seu currículo ‘andar’ no governo. (…) O ministro votou em Leonel Brizola (PDT) para presidente no primeiro turno da eleição de 1989. E depois em Lula, contra Collor. Votou em Lula de novo em 2002. (…) ‘Lula é um democrata, de um partido estabelecido. As credenciais democráticas dele são perfeitas’. O escândalo do mensalão não influenciou seu voto: em 2006, já como relator do processo, escolheu novamente o candidato Lula, que concorria à reeleição. ‘Eu não me arrependo dos votos, não. As mudanças e avanços no Brasil nos últimos dez anos são inegáveis. Em 2010, votei na Dilma.’ (…) ‘A imprensa brasileira é toda ela branca, conservadora. O empresariado, idem’, diz. ‘Todas as engrenagens de comando no Brasil estão nas mãos de pessoas brancas e conservadoras (…) Uma pessoa com o mínimo de sensibilidade liga a TV e vê o racismo estampado aí nas novelas’.” Cf. em http://mariomarcos.wordpress.com/2012/10/11/joaquim-barbosa-a-folha-o-comando-e-dos-brancos/

      

2. Conferir as decisões no STF.

http://revistaepoca.globo.com/Brasil/Especial/noticia/2012/09/o-julgamento-do-mensalao-no-stf-voto-voto.html

 

 

 

 

  

  

 

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