CIRANDANDO…

13-10-2014
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

Hoje, com a benção de Nossa Senhora Aparecida, é um dia glorioso para a nossa campanha. Recebo com muita honra e responsabilidade o apoio de Marina Silva. A partir de agora somos um só corpo, um só projeto” – Aécio Neves

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      Há momentos na vida em que ficamos torcendo para que a análise de situação e as projeções que fizemos se mostrem muito erradas. Constatar que estavam corretas não nos trará alegria alguma. Só nos dará raiva.

 

      Venho dizendo, há algum tempo, que Aécio Neves precisa ser eleito. Absolutamente avessa a tudo o que se demonstra inútil, votei em Aécio no 1º turno. Sim. Por uma única razão: elegê-lo parecia abrir uma brecha, estreita que fosse, a que se alterassem os compromissos que nos vêm levando a um mergulho fatal ao fundo do poço em velocidade vertiginosa, e a que tivéssemos um tempo para projetar e discutir os resultados dos novos compromissos, os que pudessem já ter sido alinhavados nos bastidores, com alguma seriedade e alguma profundidade.

 

      Com a morte de Eduardo Campos, Marina parecia decolar rumo ao 2º turno. Investi meu verbo (certo que apenas o meu verbo…) na candidatura de Aécio, mesmo porque não havia alternativa – em termos de propostas, ser tolerante com as de Marina Silva significaria apenas pretender trocar o PT1 pelo PT2, ou seja, o PT que está no poder pelo PT dos excluídos do PT que está no poder; e, se alguns foram “auto-excluídos”, tanto faz – o que vale é o que pensam e o que fazem, não as oportunidades de dizer, de querer ou de fazer que tiveram ou deixaram de ter. Ser PT não se define com pertencer a um Partido político – ser PT é um estado de espírito, é manter uma determinada visão de mundo que tudo compromete.

 

      Quando a situação se inverteu, os jornais nos disseram que Marina condicionava seu apoio a Aécio a que, no programa de governo deste, fossem incluídas as propostas de alguns “segmentos da sociedade” que nela votaram. Então, eu disse que, caso Aécio merecesse o apoio declarado de Marina, saberíamos um pouco mais de Aécio…

 

      Nunca disse que acreditava que o PSDB + aliados, fossem estes de primeira ou de última hora, seriam capazes de fazer um governo minimamente satisfatório. Ser PSDB também não se resume a pertencer a um Partido político – é também assumir um estado de espírito, é também ter uma visão de mundo que tudo compromete. E já me cansei de dizer que de nada adiantará alguém se dedicar a torcer para que dê certo alguma coisa que tem tudo para dar errado. Porque não vai dar certo, vai dar errado.

 

      A mim, Aécio não entusiasma, nem um pouquinho. Mas não exatamente me decepciona, nem, tampouco, surpreende. Aécio faz apenas o que seria de esperar que ele fizesse. É interessante notar que não foi Marina quem, por conveniência e por investimento em seus projetos, aceitou exigências de Aécio – foi Aécio quem complementou seu vago “plano de governo” com as específicas propostas de Marina, depois que esta permaneceu, por dias, em cima do muro. Portanto, Aécio nem mesmo precisou dizer um “esqueçam o que escrevi”… Em termos de propostas, sem muito se aprofundar, declarando-se amalgamado em “um só corpo, um só projeto” com Marina, Aécio une agora a fome com a vontade de comer – o que parece agradar a muitos cidadãos-eleitores.

 

      O meu maior receio não é o dia da eleição – é o dia seguinte ao da posse. Nesse troca-troca entre os mesmos que representam o mesmo (nanicos incluídos), esse dia seguinte é bem capaz de nos mostrar muita gente já começando a sonhar com… a volta de Sarney à Presidência! Porque o tempo de Sarney poderá parecer a muita gente bem menos pior que o que veio depois e que o que ainda está por vir e já se prenuncia.

 

      Duvidam disso? Pensam que estou brincando? Não estou, não… Nada impede que insistamos na nossa constante ciranda-cirandinha dos últimos tempos. A cada vez que constatamos que o anel que nos deram era de vidro e se quebrara e que o amor que nos tinham era pouco e se acabara, demos meia-volta e/ou volta-e-meia procurando quem nos prometia “ética na política” e “mudança de rumos”. Por que não faremos o mesmo no futuro? Seja quem for que estiver a postos na ocasião terá grande chance de ser apontado como o nosso salvador, como a solução dos nossos problemas todos que nós mesmos nos recusamos a enfrentar e a solucionar empenhando nossas presumidas inteligência e capacidade de trabalho. Preferimos “encostar”. Isso, em todos os níveis sociais e em todos os ambientes culturais. Além de que tudo nos deve parecer possível quando sabemos que a população que se informa das falcatruas, das negociatas e demais crimes comuns e não tão comuns, cometidos contra ela mesma, também se informa, antes de tentar somar dois com dois e de formar a sua opinião, do resultado das contas que “celebridades” já fizeram e do que estariam essas “celebridades” pensando de tais crimes e de quem os cometeu; que, a cada novo capítulo desta novela, perderá a memória de tudo ao que pôde assistir no dia anterior; que, quanto ao mais, acreditará que tudo prosseguirá da melhor forma possível… “se Deus quiser”… “com as bênçãos de Nossa Senhora Aparecida”…  ou o que o valha.

 

      É doloroso ter que admitir, mas o fato é que o Brasil não mais existe. Não mais existe na consciência dos que, por efeito de um registro civil, são brasileiros. Querer fazer-lhe remendos é querer tentar costurar as nuvens. O Brasil é um “lugar” no mundo. Um “lugar” de negócios, um “lugar” de investimentos, um “lugar” para passar férias ou curtir o carnaval. E não há espaço na cabeça do eleitor para que conste mais que isso. Nem há espaço para que conste mais que isso nos programas partidários e na cabeça dos candidatos. O que faz do Brasil um “lugar” onde a demagogia barata rola solta e rende muito. E faz absolutamente vã qualquer expectativa de que, algum dia, ponhamos minimamente em ordem nossas idéias. Pensando bem… quais idéias temos para pôr em ordem? E também faz vã a expectativa de que, em sua insignificância política e em sua soberba, essa unanimidade festiva de “centro-esquerda” (?) que continuamos a levar a Brasília com nossos votos quase sempre muito entusiasmados possa nos permitir respirar por alguns instantes. Ela nos cerca por todos os lados e sufoca por completo. Tudo isso é muito doloroso ter que admitir. E ter que aceitar que, à falta de consciência, à falta de organização, à falta de projetos globais-nacionais, seremos sempre gratos aos acenos feitos a vantagens setoriais. Aos que insistem em querer pensar o Brasil a sério – que não se confunde com querer “passar o Brasil a limpo” – não se oferecem opções.

 

      Mesmo assim, e apesar de que o que penso ou deixo de pensar a respeito disso tudo nunca importou e não importará a quem quer que seja, prometo que não vou agora sair dizendo por aí “Dilma não nos representa. Nenhum voto em Aécio”. Porque me incomodaria muito ver meu pensamento confundido com o pensamento de Luciana Genro… Portanto, fiquem tranqüilos os amigos que, no 2º turno, reafirmo, votarei em Aécio. Apesar de que esteja consciente de que estarei votando também nas propostas do PT2. E, desta vez, esse meu voto só poderá ser justificado a mim mesma caso me afirme convencida de que será bastante não arriscar manter essa turma do PT1, a que se abancou no Planalto, por mais tempo fazendo das suas. O que me horroriza, por ser inútil. Mas viram só como, dizendo isso, até pareço ser menos antipática? Legal!

 

       No frigir dos ovos, apenas este é o objetivo de muita gente. A turma que está no poder é o que vem, de fato, incomodando muita gente – apenas isso, nada mais. Como se de nada mais dependesse o Brasil poder se recompor, como se nada mais importasse, fosse necessário ou conveniente exceto afastar dos instrumentos e dos meios de poder aqueles que diretamente participam do governo atual.

 

      Então, vamos embora, vamos logo tratar de cirandar, já que o tempo urge, já que essa banda desafinada que nos faz dançar conforme a sua música nunca substituirá a partitura que tem à sua frente, nem nos permitirá instante algum de, sequer, silêncio. E já que, disso, ninguém reclama. Em seguida, se virmos que o anel que nos foi dado era de vidro e se quebrou, se percebermos que o amor que nos tinham era pouco e se acabou, volta-e-meia nós sempre poderemos dar… A vida é bela e desfrutar dessa beleza toda só depende de… de que, mesmo? Ah, sim, de nossa “vontade política”… Não é isso?

 

      Cirandando…

 

 

 

  

 

 

 

 

 

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