Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     “Dilma na banguela: da ditadura à dentadura, ‘uma’ mutirão de pensamentos desdentados”

      

      Para não sentir apenas mal-estar com o comentário que a esse título se segue, com as razões que o possam justificar e com tudo ou quase tudo que hoje se vê feito e comentado como se Política fosse, será necessário considerar que o nível nacional das considerações e do discurso anda um bocado baixo. Talvez devamos, então, procurar também baixar o nível das nossas próprias considerações e do nosso próprio discurso. Para não destoar.

 

     Vamos lá, pois.

 

     Bem, que me lembre, quem disse “o povo está botando dentes” ou algo muito parecido com isso foi Dom FHC (não, esse H não é de haxixe – haxixe é só uma rima toante), fazendo sua demagogiazinha em setembro de 1997. À época, os otimistas calculavam que seriam mais ou menos 1 milhão e meio de brasileiros sem um único dente na boca. A dentadura e o frango na panela seriam as grandes conquistas populares em seus 8 anos de governo.

 

     Dom da Silva seguiu o modelo. E Dona Rousseff não se afastou dele. Ao frango de Dom Fernando somaram-se o financiamento para a compra de um carro, uma televisão, uma geladeira e o próprio frango, e a inadimplência geral. Já a dentadura, como também, é claro, a “ditadura”, de que todos alegam terem sido vítimas, permaneceram no discurso – para que ninguém imaginasse que essas coisas não existem, embora seja desde sempre e cada vez mais tão difícil encontrá-las fora do discurso, e porque discurso é discurso, em geral é pastoso, desde que seja quente não requer muito tempero e, a seja lá o que ele contenha ou deixe de conter, muita gente abre a boca e, mesmo sem querer, acaba por engoli-lo de gute-gute sem se engasgar.

 

     Dom Fernando pôde ser esquecido, graças a Deus, mesmo que ainda, por vezes, cuspa alguma abobrinha que mastiga em seco tentando resolver isso. E pôde se esquecer dos dentes do povo. E do povo sem dentes.

 

     Tanto da Silva quanto Rousseff, mais dia, menos dia – algum dia -, pedirão também para que esqueçamos tudo o que disseram, e também serão esquecidos, se Deus quiser.

 

     Mas não antes que levemos as muitas dentadas que esses discursos todos vêm permitindo que nos sejam dadas. Que nos são e serão dadas não pelo povo, porque, tenha ou não tenha dentes, morder, o nosso povo não morde, isso está mais que comprovado. Mas são muitos os que dizem representá-lo e continuam afiando os dentes que de fato tenham ou que pretendam ter para mostrar e para usar.

 

     Resta apenas conferir quantos mais, com dentes ou sem dentes, continuam sorrindo ao tomar conhecimento do teor dos discursos pré e pós-eleitorais. E por que razão continuam sorrindo. Ou se põem às gargalhadas…

      

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http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/dilma-na-banguela-da-ditadura-a-dentadura-uma-mutirao-de-pensamentos-desdentados/

 

     Dilma na banguela: da ditadura à dentadura, “uma” mutirão de pensamentos desdentados

     CELSO ARNALDO ARAÚJO

     Rio Pardo de Minas, norte do estado, mais de 700 km distante de BH. A presidente vai falar da importância de ter dentes na boca. Como ela insiste em ser chamada de presidenta, não é uma rima „Ÿ e já não era uma solução.

     De dedo em riste, num tom muito acima do normal, Dilma vai anunciar na cidade a ampliação do programa Brasil Sorridente, criado no primeiro ano do governo Lula. Uma espécie de PAC 2 odontológico, com a mesma dinâmica do plano-mãe: não se conhecem os resultados da primeira fase.

     O Brasil „Ÿ depois de oito anos de Lula „Ÿ continua sendo um dos países mais desdentados do mundo, no qual 55% dos adolescentes já não têm todos os dentes e 40 milhões de adultos só têm na boca a língua e as gengivas. Lula, na verdade, se incomoda ao ver uma pessoa sem dente „Ÿ é o que dirá Dilma, daqui a pouco.

     Pelo discurso, porém, presume-se que, ao final dessa ampliação do BS, todos os brasileiros estejam de posse de seus 32 dentes, originais ou substituídos, exatamente na configuração que Deus nos deu: 8 incisivos, 4 caninos, 8 pré-molares, 12 molares.

     Ao tentar explicar o programa, insistindo na tese surpreendente de que é melhor ter dentes do que não tê-los, assim como é melhor ter casa própria do que morar sob a ponte, Dilma tentou ser bastante incisiva.

     Mas, se a Dilma sobram dentes, faltam palavras. Seus discursos, como os desdentados, não podem sorrir nunca „Ÿ talvez de vergonha por sua dramática incapacidade de expressar as boas intenções que devem perpassar o neurônio solitário. Mas há dias especiais „Ÿ em que as palavras de Dilma parecem cair da boca como dentes abalados na raiz. Rio Pardo de Minas presenciou um desses dias:

     “No passado, ninguém olhava pra pessoa de uma forma completa”, começa ela, antropologicamente, sem esclarecer quem é essa pobre pessoa do passado a quem só se olhavam as partes.

     Prossegue:

     “E aí, a gente tratava aqui no Brasil de várias coisas, mas isquicia (sic) que um dos elementos fundamentais pra identidade de uma pessoa é ela ser uma pessoa inteira”.

     Será o mesmo infeliz da frase anterior? Ou outro? Uma coisa é certa: desse monturo de sandices, a pessoa só sai mesmo aos pedaços.

     Ok, mas essa pessoa está prestes a ser remontada, como um Robocop:

     “Daí porque a importância que no Brasil Sorridente nós damos à saúde bucal, aos dentes, e nós olhamos não mais uma pessoa como uma parte, uma pessoa que tem uma doença, mas olhamos o que pode dá saúde integral pra ela”.

     Afinal, o Brasil Sorridente é um projeto odontológico ou oftalmológico? De qualquer forma, o fim dos desdentados brasileiros começou com Lula – que não suporta ver um pela frente, mesmo que seja da família. É o que revela Dilma, relembrando a origem do programa:

     “Assisti e presenciei o empenho do presidente Lula e o incômodo que ele tinha quando ele via um cidadão do nosso país, um brasileiro, um irmão, ou uma brasileira, uma irmã, sem os dentes”.

     Um reparo: onde estava Lula, muito bem pago desde 1978, e com assistência sindical-odontológica completa extensiva à família, que deixou um irmão e uma irmã perder os dentes?

     Na verdade, o Brasil de Dilma é um grande irmão:

     “Nós precisamos de uma coisa importante em nosso país, que é a nossa autoestima. Olhar pra nós mesmos e sabê que esse país conta fundamentalmente conosco”.

     Nesse fundamentalismo da presidente, era o caso de perguntar: quem é nosco?

     Mais à frente, o povo de Rio Pardo de Minas será informado de que, além de resgatar todos os dentes, o governo de Dilma estará “assegurano” emprego para todos os brasileiros, incluindo crianças e aposentados. Sim, é um novo Brasil – no anterior, estar desempregado ou não trabalhar era um direito. Agora, não mais:

     “Esse povo que pode e teve (sic) muitas vezes desempregado. Nós não queremos isso. Nós queremos todos os brasileiros empregados”.

     Impactante. Empregos para todos, dentes para todos. É uma ordem de Dilma:

     “Num pode perdê dente, num pode deixá que jovem perca os dentes ou qui criança não tenha acesso ao dentista”.

     Então, faz um apelo tão claro quanto um molar cariado:

     “Junto com uma prótese, que a gente fala uma (sic) mutirão de prótese, eu vou falá como o povo fala, junto com um mutirão de dentadura, nós temos de falá também num mutirão para tratar dos dentes de cada criança”

     Mas ainda faltava, nesse extraordinário discurso de Dilma, aquela centelha do gênio, a palavra que marca para sempre. A versão Dilma de “I have a dream”.

     Não espere mais. Ei-la:

     “Aqui eu vi muitas crianças, vi muitos jovens, vi muitas mulheres e vi também muitos homens”.

     Agora, sem sorrir: mesmo sendo um país de desdentados, o Brasil não merece uma presidente cujo raciocínio desce ladeira abaixo, sem rumo, atropelando o bom senso e a inteligência, na banguela.

     (http://www.youtube.com/watch?v=JkLhH5gQ8RE)

  

 

 

 

  

  

 

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