Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 – ou… Por que é preciso saber Português?

 

 

 

 

      Em https://www.youtube.com/watch?v=FZbDUfpQtJs&feature=player_embedded vê-se e ouve-se um trecho da entrevista de Lula à RTP.

 

      Ao ser perguntado, em dado momento dessa entrevista, sobre os efeitos do envolvimento dos envolvidos no Mensalão, Lula dirá, com todas as letras, que “não se trata” de gente de sua confiança. A Imprensa, com isso, fez um auê. Auê este que seria muito injusto, de acordo com os intérpretes de Lula a ele mais chegados, porque a frase teria um “sujeito oculto” – esse “sujeito” seria “o assunto”: “Não se trata (o assunto) de gente da minha confiança“.

 

      Haveria, então, uma “sutil diferença“. Uma diferença tão sutil, mas tão sutil será essa diferença, que quem não for petista não a encontrará – a diferença entre o nada e o coisa nenhuma.

 

      Pois bem: apesar de que possa ter dito nada, se Lula, como sempre, disse o que quis dizer, e se até os intérpretes de Lula dizem que Lula disse alguma coisa, o que ele disse, ele disse, sim. Que teria dito Lula?

 

      Em bom Português, o verbo “tratar” poderá ser transitivo direto (ex: faço questão de tratar mal quem aposta na ignorância do povo) e pode ser pronominal (ex: Esquerda e Direita nunca sequer se trataram). Quando dizemos, porém, “trata-se de” ou “não se trata de”, o verbo tratar será transitivo indireto (pede complemento preposicionado). Nem sequer admitirá voz passiva. Acompanhado da partícula “se”, esse “se” ganha o nome de “índice de indeterminação do sujeito”. Portanto, na frase com a qual Lula nada disse, mas com a qual algo foi dito, o sujeito será indeterminado.

 

      Um sujeito indeterminado não é um sujeito oculto. É indeterminado. E a diferença é nada sutil. O “assunto”, que foi levantado durante a entrevista que está gravada, não poderá, jamais, em tempo algum, ser um “sujeito oculto” na frase de Lula; e o que Lula chamou de “gente de minha confiança” será um objeto indireto.

 

      Por outro lado, se o assunto de que se tratava era o Mensalão – assunto escandaloso, que em “trapalhadas” envolveu diretamente muita gente do PT que, de fato, muita gente do PT pretenderia manter oculta para todo o sempre; se tratar do Mensalão implicará, é óbvio, tratar dos que nele estão envolvidos; se Lula afirma categoricamente que “não se trata” de gente de sua confiança… tratar-se-ia de que gente?

 

      É bem possível que alguns sujeitos envolvidos indiretamente no Mensalão tenham permanecido ocultos no processo… ele mesmo, Lula… quem sabe? Nós não sabemos… Mas sabemos que tudo isso é muito complicado…  E o que se retira disso tudo é que essa gente toda não merece confiança alguma, nem mesmo a dela própria.

 

      Tudo isso é muito complicado, sim, mas a língua portuguesa não é complicada, não. Não é, não. Não adianta querer enrolar… Dizeu, tá dizido!

 

      Entrevista na íntegra: http://www.rtp.pt/noticias/index.php?

 

 

 

  

  

 

 

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