Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
 
 
Ora, vejam só: pelo visto, alguém neste mundo ainda sabe – e ainda quer – fazer Política.
A lástima é que esse alguém não sejamos nós.
Tentar reunir, neste nosso País, cinco ou seis cabeças para discutir qualquer idéia que fuja das tradicionais receitas de como fazer farofa, aquelas que já constem do índice dos manuais importados e muito mal traduzidos que os milhares de nossos iluminados recitam de cor e salteado, é algo que a todos parece ser absolutamente absurdo e injustificável.
Jantar, sim, jantamos todos, e muito bem. Em nossos jantares, discutimos também. Discutimos a farofa. A que fazemos e a que comemos, saboreando.
Farofa, quando bem feita, é muito bom; e, quando não engasga, entulha. E só entulha.
Nós, aqui, continuaremos a nos entulhar de farofa até o dia em que não só uma farofa como também um jantar sejam considerados politicamente incorretos. Ou pela Esquerda ou pela Direita, isso tanto faz.
Nesse dia, Brasil não mais haverá.
E, de nós, sobrarão os ossos. Que alguém há torrar, moer e transformar em farinha. Que alimentará os peixes dos aquários ornamentais.
E o mundo continuará girando…  Da mesma forma como ele sabe girar. 
 
 
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08/11/2013 às 00h00

Ativistas querem mudar a China com jantares

Por Josh Chin | The Wall Street Journal, de Pequim

Uma nova safra de ativistas está causando embaraços ao governo autoritário da China de uma maneira simples, apesar de inusitada: eles se reúnem para jantar.

Todo mês, no último fim de semana, críticos do governo se reúnem para refeições modestas em mais de 20 cidades do país para discutir problemas que vão das falhas do sistema jurídico à desigualdade no acesso à educação. Os encontros são intencionalmente discretos, dizem os organizadores, mas sua meta – estabelecer os fundamentos para a democratização da China -, não.

“Não é ilegal se reunir para jantar”, diz Zhang Kun, um ex-funcionário de uma empresa de publicidade, de 26 anos, que começou ajudando a organizar as refeições depois de conhecer outros ativistas online. “Esse é o nosso lema: mude a China comendo.”

Ao mesmo tempo em que a elite do poder se encontra em Pequim para uma reunião a portas fechadas do Partido Comunista neste fim de semana, o grupo organizado de maneira informal e conhecido como Movimento dos Novos Cidadãos apresenta aos líderes do país um novo desafio. Encabeçado por um advogado formado na Universidade Yale, nos Estados Unidos, e apoiado por um investidor de capital de risco bem-sucedido, o grupo é formado por representantes da elite empresarial e da crescente classe média – uma enorme diferença dos movimentos anteriores, que eram formados em grande parte por dissidentes e pobres.

Suas reuniões têm evoluído para além de bate-papos: os jantares têm sido usados para organizar petições e manifestações contra corrupção, desigualdade e abuso de poder por parte da polícia.

Até agora, as autoridades reagiram de maneira previsível. Desde março, 18 membros do movimento foram detidos, incluindo a maioria de seus líderes, de acordo com a Human Rights Watch. Na semana passada, foram abertos os primeiros processos contra três ativistas menos conhecidos, acusados de reunião ilegal e outros crimes, depois que tiraram uma foto em grupo protestando contra a repressão.

Os líderes de Pequim temem agitações – assim como o chinês comum. Se por um lado a China vê com frequência protestos, às vezes violentos, seja de agricultores descontentes ou separatistas étnicos, o Movimento dos Novos Cidadãos apresenta um tipo diferente de ameaça, atraindo chineses educados e críticos que estão interessados em alternativas para o atual autoritarismo político.

Depois de várias décadas de forte crescimento econômico, aqueles que colheram os frutos desse avanço estão migrando das questões financeiras para as sociais. Profissionais urbanos conectados por uma explosão da mídia social, fortalecidos por suas carreiras de sucesso e ansiosos para proteger o que possuem estão cada vez mais criticando o governo abertamente sobre tudo, da poluição à censura e à violação das liberdades civis consagradas pela Constituição.

“Trata-se da chamada revolução das expectativas crescentes”, diz Tom Gold, especialista em sociedade civil chinesa da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Muitas dessas pessoas foram beneficiadas e agora querem o cumprimento do contrato.”

Os membros do Movimento dos Novos Cidadãos dizem que não estão incentivando uma revolução. Muitos chineses se lembram das violentas reviravoltas políticas da era maoísta e estão profundamente preocupados com uma possível volta da turbulência daqueles dias. Em vez disso, o grupo apoia uma mudança gradual na cultura da política da China.

“A China deve mudar completamente, deve se transformar completamente do estado atual de lutas políticas de vida ou morte para uma democracia com base no Estado de direito, da barbárie ao discurso civilizado. Sobre este ponto, não há discussão”, diz Chen Min, um comentarista social mais conhecido pelo pseudônimo Xiao Shu, que escreve intensivamente sobre o movimento. “Mas os métodos e caminhos específicos estão abertos para discussão.”

Participantes de longa data relacionam as origens do movimento à proposta de criar uma nova “cultura de cidadania” para vencer a “corrupção aparentemente onipresente e privilégios que minam o Estado de direito” na China. Publicada online em 2010, a “Promessa dos Cidadãos” foi apoiada por um grupo de reformistas que inclui Xu Zhiyong, professor de direito que deu aula na Universidade Yale como acadêmico convidado em 2004 e 2007, e Wang Gongquan, um investidor de capital de risco que fez fortuna investindo no mercado imobiliário e no boom das empresas pontocom no fim dos anos 90.

O apelo gradualmente ganhou espaço entre os usuários das mídias sociais de tendência mais liberal, cujo ceticismo sobre o governo cresceu depois de recorrentes escândalos de segurança alimentar e corrupção.

Ansioso para se conhecer pessoalmente, no ano passado o grupo passou a realizar jantares como uma forma de se reunir sem levantar suspeitas. O grupo queria que seus jantares fossem caracterizados por discussões organizadas para dar a todos a oportunidade de serem ouvidos, afirma Zhang Kun.

Os participantes propõem tópicos que variam de protestos contra a desapropriação de terras a modelos de governança democrática e depois os colocam em votação.

As refeições podem atrair de um punhado a dezenas de pessoas. No fim de dezembro, um jantar em Pequim atraiu mais de 200 pessoas, diz ele.

Quando uma nova liderança do Partido Comunista assumiu o poder, no fim do ano passado, prometendo combater a corrupção, o grupo enxergou uma abertura. Eles circularam uma petição online pedindo que 205 líderes do país divulgassem o patrimônio de suas famílias.

Essa iniciativa, que passou da teoria à prática, provavelmente instigou o governo da China a voltar-se contra o grupo, de acordo com defensores de direitos humanos e analistas.

Pouco depois das reuniões legislativas anuais do país terem terminado, em março, as autoridades prenderam dez membros do movimento por organizar uma manifestação em Pequim. Xu Zhiyong foi detido em meados de julho e Wang Gongquan dois meses mais tarde.

 

 
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