Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     Leio que … Conceito Base Zero, o método de armazenagem que promove a irrigação e regeneração do solo, foi criado pelo engenheiro José Artur Padilha, um estudioso do semiárido e da natureza: são as barragens submersas em leitos de rios secos. (…) ‘O aleijamento cultural nos impede de perceber obviedades’ (…) Incluído na Agenda 21 do Ministério do Meio Ambiente de 1999, o Conceito Base Zero nunca foi adotado por nenhum governo.”

 

     A notícia, evidentemente, provoca-me extraordinário entusiasmo – foi lembrado que temos uma solução para a seca no Nordeste! Uma solução criada, provada e comprovada por um brasileiro! Embora ainda não tenha sido aproveitada por nossos governos.

 

     Mas… como é que é? “O aleijamento cultural nos impede de perceber obviedades”?

 

     Formidável! Era só o que nos faltava! Eis que aí surge entre nós mais um que de nós se destaca e nos vem ensinar que nossa cultura é troncha. O aleijume cultural seria adquirido, decorrente de um tombo ou de uma rasteira, por exemplo? Ou de um vírus como o da pólio, porque nossa cultura nunca pôde ser vacinada? Terá ela um aleijão de nascença? Seria (e este vem sendo o “argumento” preferido pelos considerados “intelectuais”…) genético esse aleijão? Ou nossa cultura terá sido amputada em um procedimento cirúrgico? Quando? Que membro exatamente lhe falta? Não importa: se nossa cultura aleijada é, estará predestinada a capengar ou até mesmo a ser dependente por todos os séculos dos séculos, amém.

 

     Aqui mesmo, porém, comprova-se que um brasileiro, que brasileiro é, será bem capaz de dar solução a qualquer problema por mais velho e mais gordo que seja este. Sendo um brasileiro, em que cultura, afinal, criou-se esse engenheiro que afirma ter resolvido, depois que observou e respeitou o comportamento da natureza na caatinga, não só na teoria como na prática o problema da seca no Nordeste? Será que esse seu feito se deve a que ele seja um único que pôde ser criado imerso em um ambiente perfeito, isolando-se de nosso entorno defeituoso? Ou deverá ele ser considerado “uma palmeira que nasceu no deserto”?

 

     Sejam óbvios ou não, problemas requerem solução. Ou não serão problemas. E problemas só se tornam óbvios quando afetam um interesse óbvio ou não. A seca do Nordeste é um problema nacional, não apenas do Nordeste é. E é um problema óbvio. Assim como se está tornando a seca no Sul. Assim como são as enchentes periódicas em todo o território nacional. Já a solução para qualquer problema óbvio põe-se igualmente óbvia desde que vejamos o problema como um problema de fato; desde que o que tão óbvio nos parece seja muito bem analisado e muito bem definido; desde que queiramos encontrar-lhe uma solução, desde que nos empenhemos em encontrar essa solução.

 

     Mas quem deixaria ou haveria de querer observar e enunciar nossos problemas (que obviamente são nossos, de ninguém mais) em sua forma correta e encontrar-lhes solução? Seria a “nossa cultura”? Ou esse interesse e essa responsabilidade são de nós mesmos, indivíduos providos de inteligência e algum conhecimento? Cultura cai do céu? Brota espontaneamente do chão? Cresce autonomamente? Do nada, no nada? Afinal, quem produz e cultiva uma cultura senão nós mesmos, os indivíduos?

 

     Ora, bem sabemos que um acúmulo de conhecimentos é o que permite novas descobertas e um maior avanço sobre a natureza que nem sempre se comporta exatamente como se fosse uma “mãe” e, muitas vezes, mostra-se apenas perversa. Tentemos, então, colocar, por favor, os fatos, os conceitos, as opiniões gratuitas, as coisas todas, enfim, em seus devidos lugares, sem o que o raciocínio se entorta, empaca e não consegue avançar.

 

     Sem dar grandes mergulhos na teoria, de forma rápida e rasteira que a intenção não é produzir um tratado, podemos entender a cultura como aquilo que permitiu domar e transformar a natureza – desde sempre em benefício de um grupo que se distinguirá dos demais por um conjunto mais ou menos uniforme de saberes, costumes, crenças, padrões de comportamento etc. Cultura, portanto, vincula-se diretamente a um grupo de indivíduos, cujo interesse é sobreviver da melhor forma, e também se vincula a um conjunto de fatores físicos, favoráveis ou adversos à vida desse grupo, e de valores que, por sua inteligência, foram criados e são respeitados. Sejam mais ou sejam menos racional e eficazmente orientados no sentido de unir, manter e proteger o grupo, os “saberes” culturais nem serão exatamente aleatórios nem serão rigidamente petrificados, porque mantêm-se, transformam-se ou se perdem em um processo que, muito ou pouco, transforma as condições em que o grupo se formou originariamente. Uma cultura poderá alterar-se por estímulo de elementos da própria natureza e também pelo estímulo provocado por contatos com elementos de outras culturas, quando técnicas podem ser adotadas, comportamentos assimilados, símbolos e significados replasmados, o que, em geral, permite que o grupo avance em conhecimento sem que necessariamente perca sua identidade e, principalmente, sem que a cultura perca sua finalidade.

 

     Conhecimento e inteligência, porém, assim como estupidez e ignorância, têm sede e domicílio próprios e bem definidos: encontram-se apenas no cérebro dos indivíduos, em nenhum outro espaço real ou virtual. Portanto, não é “a cultura” quem os abriga. Nem, portanto, “a cultura” poderá produzir, por si mesma, qualquer alteração na natureza, ou nela mesma, cultura, ou nos indivíduos que dela privam sem que estes estejam, por sua própria vontade, conformes. Nem produzirá qualquer descoberta, qualquer decisão ou qualquer solução. Se não perceberem uma necessidade, se não estiverem de acordo com uma alteração qualquer em seu ambiente, se não dedicarem esforços no sentido de produzir essa alteração, seja o que for que se pretenda alterar por meio de uma força, externa ou invasora, que “na cultura” e em seus objetivos não se identifique, os indivíduos “na cultura” compreenderão como sendo uma ameaça, e a essa força reagirão.

 

     Há culturas mais estruturadas e rígidas; outras serão bem mais flexíveis, mais “porosas”. Há culturas que se mostram mais adequadas às intenções dos indivíduos que as representam e há culturas menos adequadas. Há culturas mais avançadas pelo grau de eficácia de técnicas praticadas pelo grupo e pelo número de inovações efetivamente a ele úteis produzidas; outras há que são extremamente atrasadas. Só não há culturas aleijadas. Nenhuma cultura tem consciência alguma, nenhuma cultura quer alguma coisa ou tem alguma vontade, nenhuma cultura tem sentimentos ou se ressente, nenhuma cultura tem conhecimento algum, nenhuma cultura responde a pesquisas, nenhuma cultura atribui percentuais de aprovação a qualquer governante ou manifesta preferências eleitorais, nenhuma cultura nomeia investigados pelo TCU para cargos públicos, nenhuma cultura assalta o Tesouro Nacional ou os cofres particulares, constrói estruturas destinadas a desabar ou executa policiais nas ruas, nenhuma cultura vota, questiona candidatos, considera o passado e projeta futuro, nenhuma cultura poderá ser antropomorfizada segundo nossa mesquinha necessidade de, enquanto indivíduos, isentar-nos de responsabilidades, indivíduos cuja consciência individual somos responsáveis por levar aos que consideramos como nossos grupos de interesse. Não somos, portanto, “aleijados culturais” porque “nossa cultura” nos impediria de perceber obviedades. Nossa cultura nada nos impede. E nada faz, como qualquer cultura. Se nos recusamos a perceber obviedades, somos nós mesmos, indivíduos, que nos recusamos a perceber obviedades. Seja para que lado for que nossa cultura cresça ou definhe, seja o que for que nela aconteça, seja como for que a queiram podar ou mostre-se ela na foto depois de passar por eficiente editor de imagens.

 

     Fato é também que brasileiros não se destacam na observação de nossos problemas, portanto, não se destacam na produção de soluções que nossos problemas exigem, o que permite qualificar nossa cultura como, mesmo que relativamente, estagnada. Por outro lado, nenhuma idéia efetivamente “de ponta” produzimos. Se por vezes, mesmo que preguiçosamente, buscamos diminuir nossa defasagem no campo tecnológico, em muitos outros campos vê-se sendo adotado, como fosse uma solução “de vanguarda”, o que já pôde ser, por inútil ou contraproducente, descartado em sociedades tão complexas quanto a nossa. Nossa cultura, a brasileira, que nossa é, de todos nós, sem exceção, que é apenas o que é, não é o que dela possam dizer, é apenas uma cultura, não um qualificativo; é nem mais nem menos inteira e articulada, nem mais nem menos mutilada ou aleijada que qualquer cultura. Transforma-se, como qualquer outra, no tempo, no espaço e na medida exata em que os brasileiros – que, presume-se, por sua própria natureza, têm um cérebro e têm vontade – transformam-se individualmente e individualmente pensam, criam e agem, contagiando seus grupos que, progressivamente, contagiam outros grupos, até que toda a população se vê contagiada dos mesmos valores, dos mesmos saberes e das mesmas expectativas. Em uma reação “metabólica” em cadeia.

 

     Acreditamos que sabemos o que seja uma cultura porque os europeus e os norte-americanos nos ensinaram a verbalizar a palavra com extrema leviandade, não nos ensinando a usar o conceito com propriedade, até mesmo porque são muito poucos no mundo os que se dispõem a refletir a respeito dos conceitos. Os europeus e os norte-americanos são considerados civilizados, porém, e dizem “respeitar” a cultura dos demais e quando são publicados os respeitamos, sem discussão. Eles têm “a verdade”. E, como os compreendemos da forma como bem queremos (ou talvez como bem queiram eles), “cultura” e “cultural” passaram a ser palavras-coringa, que servem para designar qualquer coisa, da mais elaborada à mais rudimentar.

 

     Enquanto os indivíduos, em muitas partes do mundo (não em todas…), procuram aprimorar-se produzindo benefícios àquelas populações com as quais se identificam, muitos ou a maioria de nós, os brasileiros, pensamos e agimos tal como um Neandertal, que sozinho vai à caça, ou como as criaturas mais selvagens ainda remanescentes que, em sua “pureza cultural”, até hoje deixam seu lixo atrás de si a cada vez que migram em busca de solo novo ao verem esgotado o que antes ocupavam, acreditando, talvez, que a natureza se encarregará de repor os recursos explorados e de processar e incorporar o lixo residual da melhor forma. A responsabilidade, portanto, será “da natureza”, de ninguém mais. Será essa a “nossa cultura”? Ou esse é apenas o nosso modo individual de ser, de fazer, de agir, ao que nos impele a nossa inteligência, a inteligência que individualmente cultivamos?

 

     Embora todos os nossos problemas se venham acumulando, agravando e eternizando, o problema mais que óbvio no qual tropeçamos é exatamente esse acúmulo progressivo e incessante de problemas deixados sem solução porque não lhes queremos dar solução. Nosso fazendeiro de Afogados da Ingazeira, no sertão do Pajeú, que resolveu o seu próprio problema porque assim era de seu interesse, ofereceu a solução que encontrou aos governos brasileiros; acontece que resolver o problema da seca no Nordeste não era e não é do interesse dos governos brasileiros, de nenhum governo brasileiro. Porque “nossa cultura” é aleijada e nos impede de ver obviedades? Não. Nada nos impede de dar solução aos nossos problemas, muito menos a cultura. Nosso descaso não é, portanto, nunca foi, nem alguma vez será decorrente de qualquer “aleijamento cultural”.

 

     Aleijado muita gente pretende que o nosso raciocínio se demonstre ser e que assim ele se mantenha; também muita gente pretende que creiamos que esse nosso aleijamento não terá solução enquanto não repudiarmos nossa cultura – aquilo que, conforme foi dito acima, permite domar e transformar a natureza, seja como for que ela se manifeste, em benefício de nós mesmos enquanto grupo que se distingue dos demais. Quando o que nos falta é apenas querer nos conhecer. É querer mais consciência de nós mesmos e é mais nos identificarmos
com essa e, principalmente, nessa nossa cultura. Nada há de errado com ela. Errados somos nós, mancos de vontade de tomar consciência, de coragem de ter consciência. Consciência que nos vem do conhecimento de nós mesmos, da qual nos virá mais conhecimento e nos virá a capacidade que nos falta. Nada mais nos falta. E, como toda e qualquer consciência, toda e qualquer vontade e toda e qualquer coragem são exclusivamente individuais, assim como serão exclusivamente individuais todo e qualquer conhecimento e toda e qualquer capacidade, nenhuma consciência, nenhuma vontade, nenhuma coragem, nenhum conhecimento, nenhuma capacidade será dependente de qualquer cultura.

 

     Aleijada é nossa organização, que se traduz como nossa desorganização. Aleijado é o sistema político nacional. Sistema esse que, não tendo sido em nossa cultura criado, mas por nós foi adotado em sua nomenclatura como se fosse a condição imposta (por quem?) para que uma República se realizasse, assim como permitiu que nossos sucessivos governos tomassem decisões que muito nos prejudicaram, permitiu que nenhum deles, desde 1999, decidisse investir na solução da seca no Nordeste que aqui se diz provada e comprovada. Porque perpetuar problemas lhes conveio, a cada um deles, tal como sempre conveio a todos os nossos governos. É de seu interesse.

 

     É não mais que uma obviedade ululantemente óbvia que o que mais precisa de uma solução urgente é esse nosso sistema político aleijado, capenga, torto, sistema que permite que aleijados intelectuais – e aleijados morais – definam a nossa Política e invistam em condições aleijadas, fazendo do problema da seca, de problemas dela decorrentes e de outros problemas mais, tal como o de nossas cidades inchadas, o do nosso sub-emprego, o de nosso semiletrismo etc. uma próspera indústria eleitoral. Estariam esses aleijados em nossa cultura? Não, estão absolutamente fora dela, pensam e agem como se brasileiros não fossem. E não precisassem de ser. Esse sistema se mantém por regras que por nós vêm sendo feitas, aceitas e mantidas para que ele próprio, sistema, se mantenha, regras que, essas sim, são tortas, que nos obrigam, que nos empurram, que nos “educam” e nos paralisam, impedindo que nós nos mantenhamos como uma forte unidade cultural nacional. E a manutenção ou não dessas regras depende exclusivamente de nossa aceitação, de nossas atitudes, de nossa reação. Esse processo, ele sim, precisa de uma solução urgente e definitiva. Que não será encontrada enquanto acreditarmos que “nossa cultura” se desenvolveu de forma aleijada porque nasceu aleijada ou se aleijou de repente, determinando o que somos e podemos ser, fazendo que sejamos reconhecidos como aleijados físicos ou mentais, portanto, incapazes relativa ou absolutamente. E que desempenados nasceram os… outros.

 

     Enquanto acreditarmos que “nossa cultura” é aleijada, que a cultura dos outros é, seja lá por que motivo for, livre de aleijões, mais reta, mais bem articulada e mais correta que a nossa, enquanto nossa consciência, nossa vontade e nossa coragem demonstrarem que, elas sim, precisam de muletas, em geral importadas seja lá de onde forem, enquanto nos submetermos a adotar pseudo-soluções que nos são recomendadas por seja lá quem que possamos considerar mais capaz que nós mesmos, enquanto não buscarmos dar os nomes corretos aos bois, enquanto nos recusarmos a fazer Política de fato, observando e respeitando o comportamento da natureza na Política, só mais nos arrastamos e definhamos, cada um de nós. O que permite que um sistema político aleijado também se arraste em nosso território e mais nos sufoque indefinidamente até poder nos enterrar. A dez metros abaixo do nível do chão, tal como estão construídas as barragens da Fazenda Caroá. Mortos de sede e de fome. E de vontade de comer.

 

     De um jeito ou de outro, nossa cultura continuará sendo a nossa cultura. E continuará sendo feita. Por nós. Da única forma como uma cultura se faz, como toda e qualquer cultura se faz, para o bem ou para o mal. Porque todas as culturas são feitas pelo acúmulo de experiências dos indivíduos, de conhecimentos dos indivíduos e das atitudes daqueles que dela dependem, ou seja, daqueles que sabem que dependem dos que devem considerar como seus iguais. E nenhuma cultura poderá superar as deformidades que lhe sejam idiotamente atribuídas sem que os indivíduos que se olham no espelho e se julgam perfeitos tentem superar o seu próprio narcisismo, sua própria egolatria, seu próprio aleijamento.

 

     Torta, pois, não é a nossa cultura. Ela é apenas o que dela fazemos. Em nossa covardia. Em nossa irresponsabilidade. Em nossa estupidez. Em nossa deformidade. Todas elas individuais. Em nosso conjunto de todos nós. Nada mais. Nada menos. Tortos, pois, somos nós, que mantemos um sistema político suicida e, dia após dia, com nossas decisões tortas ou nossa indiferença, desprezando a inteligência dos nossos, fazemos nossa cultura. Até que nos desfaçamos por completo enquanto grupo de interesse nacional, quando não mais seremos “nós”. Por mais brilhantes, ilustrados e civilizados que individualmente, independentemente dessa nossa cultura, pensemos poder ser e imaginemos poder sobreviver. E essa nossa cultura deixará de existir.

 

     A quem ou a que, então, passaremos a atribuir nossos próprios erros?

 

     Este talvez seja um problema de difícil solução…

      

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     http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,barragem-submersa-garante-agua-na-seca-do-sertao-de-pernambuco,962853,0.htm

      

     Barragem submersa garante água na seca do sertão de Pernambuco

     Engenheiro cria método que promove a irrigação e a regeneração do solo e transforma sua fazenda em um laboratório vivo

     21 de novembro de 2012 | 2h 05 – Angela Lacerda, enviada especial – O Estado de S.Paulo

     Na pior seca das últimas décadas, em pleno sertão do Pajeú, em Pernambuco, a Fazenda Caroá, no município de Afogados da Ingazeira, a 390 quilômetros do Recife, não disputa carro-pipa. Na sua área, de 450 hectares, há água.

      

     Fazenda Caroá    

     Padilha diz que apenas observou e respeitou o comportamento da natureza na caatinga

      

     De boa qualidade e guardada no subsolo, a água pode ser coletada nos “pontos de entrega”, os bebedouros, distribuídos pela propriedade. Intitulado de Conceito Base Zero, o método de armazenagem, que promove a irrigação e regeneração do solo, foi criado pelo engenheiro José Artur Padilha, um estudioso do semiárido e da natureza: são as barragens submersas em leitos de rios secos.

     Ele faz questão de frisar que nada criou, apenas “observou e respeitou o comportamento da natureza na caatinga”, que tem como característica águas subterrâneas rasas e um elevado índice de evaporação.

     A propriedade de Padilha funciona como um laboratório vivo – o Laboratório Base Zero Fazenda Caroá. Depois de décadas de pesquisa, o engenheiro chegou à essência do que buscava. “O aleijamento cultural nos impede de perceber obviedades”, afirma ele.

     O “óbvio” percebido pelo engenheiro é simples, barato – em relação a outras alternativas – e eficiente. Ele constrói barragens baixas, em forma de arco romano deitado, utilizando apenas pedras – sem cimento ou argamassa nem escavação para fundações – ao longo do leito seco. No período chuvoso, a sucessão de barramentos absorve e retém a água, que fica acumulada, a cerca de dez metros, no subsolo, para os períodos de estiagem. Os elementos trazidos pelas correntes das águas da chuva – a exemplo de minerais e materiais orgânicos – vedam os espaços entre as pedras e são decantados e sedimentados, permitindo a regeneração da biodiversidade.

     Com a tática, o solo se recompõe e a vida animal é preservada. Sapos, abelhas e pássaros voltam a habitar a área. Nas terras que voltam a ser férteis, torna-se possível praticar a agricultura familiar – aliada ou não à criação de animais.

     Na Fazenda Caroá, os bebedouros instalados no mesmo rumo dos barramentos estão sempre cheios, oferecendo água sem necessidade de bombas ou cataventos para puxá-la. A gravidade faz o serviço.

     Ampliação

     Padilha tem mapeadas 418 microbacias hidrográficas nos 17 municípios do sertão do Pajéu. Mas ele assegura que o projeto pode ser replicado em todo o Estado de Pernambuco, em todo o semiárido e até no Brasil inteiro. “Sem exceção”, assegura o engenheiro, que já comprovou o sucesso das barragens submersas mesmo em áreas de caatinga totalmente planas.

     A sua fazenda se localiza ao pé de uma serra, com parte do terreno em área mais alta. “A lógica é a mesma, mas o modo de fazer é personalizado”, diz, ao observar que o ideal é construir as barragens em período seco, preparando o solo para o ciclo chuvoso. Quem faz a experiência, segundo ele, vê o resultado depois da primeira chuva. “É algo mágico, o ambiente antes inóspito se torna produtivo”, explica.

     Padilha dispõe o método a quem se interessar e afirma que a tecnologia pode ser repassada numa capacitação de menos de quatro horas – e até mesmo a distância. Ele destaca que a evaporação no bioma caatinga é muito alta – média de 2,5 mil milímetros – levando barreiros, barragens e açudes a uma redução rápida da água armazenada.

     “Não adianta brigar com o semiárido, qualquer coisa que se tente alterar é insensato”, defende o engenheiro, ao reiterar que a estiagem é um fenômeno comum na região.

     Padilha acredita em uma “revolução pacífica” para todo o semiárido nordestino com a adoção do Conceito Base Zero dentro de um planejamento de política pública. Ele observa que a mão de obra ociosa no período seco poderia ser usada para trabalhar na construção das barragens e sugere até um nome para a sua remuneração: “Bolsa Ecologia”.

     “Trata-se de uma questão fundamentalmente ecológica”, avalia, defendendo um desenvolvimento efetivamente sustentável e produtivo. Incluído na Agenda 21 do Ministério do Meio Ambiente de 1999, o Conceito Base Zero nunca foi adotado por nenhum governo.

 

      

      

 

 

 

   

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