Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

      É divertido, é divertidíssimo acompanhar a velha guarda dos ditos socialistas enrolando o rocambole de idéias recheado de goiabada cascão que vem sendo produzido, para venda no varejo, desde que ela ficou de mal com o PT. E ela só ficou de mal com o PT porque o PT é muito guloso e monopolizou as atividades no atacado, trazendo-lhe prejuízos incalculáveis. Afinal, uma boa indústria precisa ser bem administrada sem que se queira ir com muita sede ao pote.

 

      É ainda mais divertido porque está ficando cada vez mais difícil saber que vem a ser, exatamente, o tal Socialismo e quem seriam, exatamente, os tais socialistas. Enrolando-se nesse mesmo rocambole, tentando justificar-se como a vanguarda e como um baluarte histórico da moralidade, da democracia e do… progresso, cada um por si e “a esquerda” por todos, uns lambuzam os outros querendo que engulamos, em seco, as cascas, os caroços e até mesmo alguns ossos.

 

      Por exemplo, Caio Gorentzvaig, que foi candidato a deputado federal em 2010 pelo PPS(ex-PCB)-SP, era, até 2009, proprietário da Triunfo Petroquímica; e só agora acusa a Petrobrás de ter vendido sua participação naquela empresa (que teria sido “estranhamente expropriada”) para a Braskem (Grupo Odebrecht) por R$ 118 milhões, quando ele mesmo, Gorentzvaig, oferecia R$ 355 milhões (https://www.youtube.com/watch?v=wvCluNRVcsg). Não há algo aí que parece meio… esquisito…?

 

      Já Fernando Gabeira, entre outras coisas em tantos outros momentos, nos dirá em seu artigo “O farmacêutico do ar” (http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-farmaceutico-do-ar,1152251,0.htm), o seguinte:

 

As coisas andam esquisitas. Ou sempre estiveram, não sei. … Estamos em ano eleitoral e Dilma, nesse cai-cai. É compreensível que as esperanças se voltem para Lula como salvador de um projeto em ruínas. Mas como salvar o que ele mesmo arruinou?O esgotamento do projeto do PT é também o de Lula, em que pese sua força eleitoral. Ele terá de conduzir o barco num ano de tempestades…. Que importância tem a demarcação rígida de terrenos, se estamos diante de fatos morais inaceitáveis, como a corrupção na Saúde, o abalo profundo na Petrobrás, a devastação da nossa vida política? … É um consolo estar nas nascentes do São Francisco, ver as águas descendo para a Cachoeira Casca Danta [sic]: o lindo movimento das águas rolando para sentir a mudança permanente. Sei que essa é uma idéia antiga, de muitos séculos. Mas para mim sempre foi verdadeira. É o que importa. … Uma das grandes ilusões da ditadura militar foi interromper a democracia supondo que adiante as pessoas votariam com maturidade. A virtude do processo democrático é precisamente estimular as pessoas a que aprendam por si próprias e evoluam. …  De certa forma, são vítimas da megalomania, do ufanismo, de todas essas bobagens de gente enrolada na Bandeira Nacional comprando refinarias no Texas, deixando uma fortuna nas mãos de um barão belga …

 

      Quem nos trouxe, enrolados na Bandeira Nacional, a tantos “fatos morais inaceitáveis, como a corrupção na Saúde, o abalo profundo na Petrobrás, a devastação da nossa vida política”? Quem seria responsável por eles? A “ditadura militar”, que teria interrompido “a democracia supondo que adiante as pessoas votariam com maturidade”? Ah… sempre desconfiei daquela tal de “ditadura”… deve ter sido por culpa dela que Ulisses Guimarães, por exemplo, um de seus mais destacados, argutos e fervorosos oponentes, atravessou o período sem se levantar um só minuto sequer de sua cadeira no Congresso (tendo sido, aliás, reeleito por onze mandatos consecutivos desde 1951, até que morreu em 1992… – e, surpreendentemente, ninguém ainda levantou a hipótese quase tese a comprovar-se de que ele teria sido assassinado…). Ele só não se levantou daquela cadeira porque o momento não era democrático… antes, sim, ele era; depois, voltou a ser; mas durante um tempo a democracia foi interrompida. Pelo visto, Ulisses continuava a ser eleito (mas como ele era eleito?) porque as pessoas que votavam nele (mas elas votavam? Ué…!) e em outros tantos da oposição tão simpática às liberdades, igualdades e fraternidades socialistas não o faziam com maturidade… e, por isso mesmo, porque o processo não era virtuoso, elas nada aprenderam e não evoluíram. Aqueles foram, sim, de fato, anos de chumbo… Dá para entender por que chegamos onde chegamos.

 

      Dá pra entender e é um bocado divertido… tudo isso é muito divertido… E Gabeira é um gozador. Um demagogo, um artista, quase um poeta. Sempre foi. Nada contra os poetas, desde que possamos ler o que escrevem e ouvir o que dizem como apenas poesia, e desde que se dediquem a fazer bons poemas, não má política; e nada contra os artistas, profissionais ou amadores, desde que não façam de uma tanga de crochê, da folha da maconha, da produção da coca, da torcida por um apagão generalizado etc. etc. uma bandeira “revolucionária”. Gabeira oferece espetáculos, os mais recentes, não resta dúvida, bem mais estéticos que os anteriores e bem menos estúpidos que os espetáculos oferecidos pelos seus ainda companheiros de aventura; com o que vai ganhando aplausos da platéia que se considera intelectualmente “refinada” e, por isso, não se preocupa com “a demarcação rígida de terrenos“… Aliás, se isso nunca foi levado a sério, por que agora deveria ser?

 

      A velha guarda dos socialistas nos surpreende, todas as semanas, preocupadíssima com o nosso País, com discursos lindos, cheios de graça – não só com discursos pintados de muito verde, amarelo, azul e branco como inclusive com alguns discursos que poderiam ser atribuídos a autênticos “guerreiros” liberais, da ala mais radical… E, assim, “a esquerda” (??), por mais que apronte das suas, poderá continuar a ser considerada como a vanguarda e como um baluarte histórico da moralidade, da democracia e do… progresso…  e continuar se (e nos) lambuzando ao pôr a mão na massa para enrolar seu rocambole.

 

       “As coisas andam esquisitas”? Não, elas não andam mais “esquisitas” do que sempre andaram. Eu cá bem sei disso. Elas sempre foram muito “esquisitas” e continuam tão “esquisitas” como sempre estiveram. Só não vê isso e só não sabe disso quem não quer ver nem saber. Mas, como a água lava tudo, deixemos “o lindo movimento das águas rolando para sentir a mudança permanente”…  Essa verdade secular é o que nos deve importar, nada mais.

 

      Assim, cabe-nos apenas consumir rocamboles que nos inflam sem nos nutrir e que, já suficientemente balofos, continuamos a comprar empacotados, sem regatear, nas lanchonetes das esquinas da vida. A nós cabe continuar prestigiando os talentos culinários e a extraordinária e inesgotável criatividade político-literária nacionais. E já não é muito? Para que nos preocuparmos com algo mais que isso?

 

 

 

  

  

 

 

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