Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

“Cinismo absurdo pedir que os índios trabalhem. … eles trabalham. … cada um tem uma função no sentido de utilidade para o grupo … [suas] preciosas reservas … [são] reserva de terra … Para que dentro dessas reservas os verdadeiros donos de onde você e eu moramos possam exercitar o seu sagrado direito de liberdade e propriedade: cultura. Pagar impostos? Eles já pagaram com a vida, afinal, nós matamos centenas de milhares de índios em pouco mais de quinhentos anos. Pagaram também com muita terra, sendo excluídos de sua casa violentamente.”

 

     Caso todos se mantivessem em sã consciência, convenhamos, ninguém poderia pensar e dizer uma coisa dessas. Muito menos escrever. Só quem fosse muito tolo. Ou quem fizesse questão de fazer-se de tolo. Mas a coisa foi pensada, foi dita e foi escrita. E foi lida. Quem a escreveu poderá ter, porém, apenas copiado, sem pensar. Se assim foi, será mais tolo ainda ou mais fará questão de fazer-se de tolo. Mas fazer-se de tolo, apesar de ser muito bizarro, “está na moda”. Está “na crista da onda”, como já foi moda dizer. Muita gente, portanto, haverá de também copiar…

 

    A quem escreveu isso, eu cá até poderia querer perguntar se teria alguma noção não só de como a História do mundo sempre se fez, mas também de como continua ela sendo feita. Bem sei que pedir uma resposta racional, coerente e desapaixonada seria pedir muito. Portanto, porque tola creio que não sou nem acho graça em me fazer de tola, nem sequer me atreveria a pensar em lhe perguntar se consideraria conceder-me o exercício de nossa cultura, do nosso “sagrado direito” de liberdade (de opinião, inclusive) e propriedade, e da nossa política (eu disse a “nossa”, a que deve ter por objeto o nosso benefício, não a que nos vem sendo recomendada) nessa terra que os nossos conquistaram e fizeram nossa. Seria perda de tempo.

 

    Questionar seria perda de tempo, por mais pertinente que a questão pudesse parecer; mesmo porque o que aqui está em epígrafe foi extraído de uma resposta dada a Luiz Felipe Pondé que, em artigo publicado em Novembro passado, intitulado “Guarani Kaiowá de boutique” (1), apontava a bizarrice e o indiscutível ridículo das atitudes de alguns militantes da causa indígena; ou seja, ele, o autor, ousou expressar sua opinião sobre uma manifestação de um grupo de indivíduos destinada a promover um interesse estritamente privado e foi crivado de flechas verbais envenenadas (indigesto como mostrou ser, ninguém pensaria em disputar seus polegares que, segundo nos informa certa “tradição milenar”, é o pedaço de nós mais saboroso…).

 

    A resposta que “mereceu” (e nós “merecemos”) foi imediata, e imediatamente foi reproduzida nas redes sociais, embora só me tenha chegado ao conhecimento agora – e, se chegou, é porque continua sendo divulgada. É a resposta de uma “autoridade” (2): um membro-fundador de um instituto recém-inaugurado (no Dia do Índio) que conta “com projeto de museu/centro de formação criado por um dos mais relevantes e respeitados nomes de nossa arquitetura” e os recursos de um recente leilão de obras de arte cujos lances mínimos variam de 300 reais (uma gravura) a 10 000 reais (a tela Brasil Mágico). Sei, assim – porque li –, que este nosso Brasil cada vez mais mágico ganhou mais um espaço com nome pomposo patrocinado por gente muito chique a celebrar a aparência em detrimento da essência; a que exatamente está destinado não se diz e ninguém sabe.

 

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    Ao ler o que foi dirigido a Pondé (e a nós todos), veio-me imediatamente à lembrança uns versinhos-refrão de Chico Buarque – “Ai, que vida boa, o-le-rê, ai, que vida boa, o-la-rá, o estandarte do sanatório geral vai passar…” (3) – aos quais Francis Hime emprestou encanto melódico (houve um tempo em que se fazia e se ouvia música com jeito de música) e que se insere na grande opereta nacional com pretensões histórico-analítico-mobilizante-revolucionárias composta pelas “celebridades” de uma certa época. Desta feita, esses versos poderão ser entendidos, palavra por palavra, no seu significado cru, sem concessões às tortuosas intenções metafóricas originais.

 

    Ficassem nos versos e refrões os que participam dos blocos (de pressão) que descem à avenida pretendendo exercitar não a nossa cultura, nem mesmo a cultura “do índio”, mas, sim, o interesse do “outro” que índio não é, nunca foi nem será, e nada a opor – mesmo porque essas não são as únicas bizarrices “culturais” das quais somos obrigados a tomar conhecimento e que, em nome das boas maneiras que a civilização nos exige, devemos engolir todos os dias com feijão e farinha, pacificamente, quando não agradecer. O problema está na ignorância de quem crê, ao embalo das redes sociais, que as opiniões bordadas nas varandas sejam informações acima de qualquer suspeita a respeito de todos e quaisquer assuntos. O problema está no vento que essa “fonte de informação” provoca ao balançar, na repercussão dessas opiniões e no resultado dessa fé ingênua, que, por um fator demográfico (“massa crítica”), ganham dimensão política, portanto, exercem efetiva pressão cultural – e, nesse campo, tão simples, ao mesmo tempo tão complicado, cada vez menos podemos esboçar e divulgar qualquer opinião divergente daquela que possa ser considerada “politicamente correta”.

 

    O que a resposta dada a Pondé (e a todos nós) traz fantasiado de argumento é de um primarismo semelhante ao dos argumentos utilizados pelas nossas mais atuais “celebridades” artísticas em um vídeo-protesto contra a construção da usina de Belo Monte; e inconsistente, para não dizer incoerente, como os de um outro vídeo sobre o mesmo tema (que sugere, por exemplo, a manutenção correta das usinas já existentes como uma “alternativa” – é isso, sim: eu disse “como uma alternativa”! – ao que seria produzido por essa nova usina, uma vez que já nos sobra muita energia que produzida e não é, por nós, utilizada…(www.youtube.com/watch?v=E8-ARMhdJwM&list=UUdGpd0gNn38UKwoncZd9rmA&index=64). O responsável por essa sugestão nos promete dar, em mais outros vídeos, maiores esclarecimentos sobre a floresta amazônica, o código florestal, os índios etc. – e vale a pena acompanhar (www.youtube.com/user/Pirulla25?feature=watch) a propaganda do que há de mais atualizado nos setores “politicamente corretos” para não correr o risco de, em coquetéis de lançamento de qualquer novidade alardeada como essencial à vida nacional, entrar mudo e sair calado, sem aplaudir. E, agindo assim, o risco de ser considerado pouco inteligente ou muito deselegante…

 

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    A propósito, a dizer a verdade verdadeira, o texto escrito por Pondé não prima exatamente pelo que se possa chamar de elegância. É curto e grosso. Mas é estupidamente verdadeiro. Temos que considerar que a verdade muito pouco tem de elegante. E que paciência tem limite. É preciso ter muita paciência para agüentar as manifestações patuscas dessas militâncias universalistas patuscas, tais como a militância “indígena”, a “homossexual”, a “feminista”, a “ecológica”, a “pacifista” – são, todas elas, um tormento para qualquer um que goze do funcionamento articulado de mais que dois neurônios no cérebro. São um tormento… caso a estupidez não seja tomada como virtude ou como vantagem a priori… porque, apesar de carregarem algumas idéias que poderiam ser consideradas piedosas, solidárias e justas, e embora avancem em resultados, o método pelo qual são defendidas é tosco e as equações que propõem são burras.

 

    Consideremos que uma coisa é pretendermos ser objetivamente justos em nossas avaliações e atitudes, outra é sermos piedosos com o que, subjetivamente, mais nos comove, outra ainda é sermos solidários, pois solidariedade requer identidade, comunhão de interesses, requer compromisso e responsabilidade. Podemos procurar ser justos e piedosos, mas não seremos solidários com as pretensões de nossos adversários. Ou seremos dementes.

 

    Essa obviedade é demonstrada, por exemplo, no texto digamos “singelo” de Bresser Pereira (www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/90963-adeus-reino-unido.shtml): “A UE é a mais extraordinária obra de engenharia política de que tenho notícia. (…) o objetivo dos fundadores da UE foi sempre o de gradualmente formar um Estado, mas o Reino Unido, associado aos EUA, sempre se opôs a todos os grandes passos que a UE tentou dar nessa direção. Ao mesmo tempo, sempre advogou, juntamente com os EUA, sua ampliação com a incorporação de mais e mais membros, porque sabia que, dessa forma, tornava-se mais difícil dar a todo o sistema político a coesão social necessária para transformá-lo em um Estado. Sua decisão de não entrar no euro quando este foi criado foi acertada, mas também expressou essa atitude geral do país em relação ao projeto europeu. Quando, em 2005, um referendo na França e outro na Holanda recusaram a aprovação da nova Constituição, a revista “The Economist” manifestou literalmente seu regozijo, afirmando que essa recusa havia sido uma vitória para seu país. Recentemente o governo Cameron se opôs ao novo sistema de regulação bancária adotado pela União Europeia. (…) Mergulhada na sua crise – na crise do euro que a mantém estagnada -, a Europa precisa da união de seus membros. Cameron caminha na direção oposta; aproveita a crise, ao invés de contribuir para sua solução. (…) Um Reino Unido que não sabe ser solidário não interessa à União Europeia.

 

    Portanto, a solidariedade, apesar de ser uma emoção perfeitamente normal e compreensível, talvez inevitável, levando-se em conta a natureza humana, sempre haverá de ser relativa e comprometer as decisões políticas. Não há solidariedade “universal”. Não podemos ser solidários com as intenções de todos e qualquer um. Mas uma “engenharia política” será bem capaz de criar uma “opinião pública” favorável a uma “solidariedade” supostamente com todos e cada um. Se formos pacientes e tolerantes com a “solidariedade” criada por essa “engenharia política”, seremos pacientes e tolerantes com a “opinião pública” que a ampara, por mais idiota que ela se manifeste, e seremos pacientes e tolerantes com a “engenharia política” que as criaram. Seremos, então, suicidas. Simples assim.

 

    Quando passa de certo limite, a paciência, que é tolerância, deixa de ser mera paciência e tolerância, transformando-se em insana conivência. Orientados por mentores alheios aos nossos reais problemas, esses blocos (os de pressão…) se organizam, e os resultados que nos trarão serão tão cruéis e tanta ingenuidade nos exigem para aceitá-los como bons ou inofensivos que apenas nos envergonha que quase ninguém a essas “militâncias” reaja de forma inteligente e minimamente eficaz para que não se propaguem indefinidamente no tempo e no espaço. Além de que os que mais clamam por tolerância são os que mais se manifestam intolerantes. E de que criticar um “ativismo” paspalho não significará discriminar qualquer minoria (ou maioria) ou prestigiar a discriminação e a violência contra quem quer que seja – significa apenas considerar valores não tão estreitos como mais relevantes socialmente.

 

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    O primarismo, a inconsistência e a incoerência são flagrantes na resposta “indignada” dirigida pela “autoridade” (em quê? em “índios”?) a Pondé (e a todos nós), ainda que quem a esses recursos apele para defender uma atitude “ativista” em prol de “nobres intenções solidárias” possa imaginar-se alicerçado na produção de “celebridades” que, vez por outra, interessaram-se, por razões de trabalho, pela “cultura milenar, muito anterior a apropriação europeia do continente, de três mil anos” [sic] – mas, nem por isso, ao que me conste, enunciaram publicamente que pretendiam que alguém devesse deixar de pagar seus impostos. A resposta alega, pois, basear-se na história dos irmãos Villas Boas; na pesquisa da antropóloga Betty Mindlin; no acervo fotográfico de Maureen Basilliat; na opinião do psicanalista Jorge Forbes e do filósofo e pensador francês Luc Ferry (que “nos alertam para o fim das grandes revoluções e nos chamam a atenção para as pequenas revoluções feitas através das redes sociais, alterando comportamentos e rumos históricos”); no “legado” de Darcy Ribeiro (premiado pela UNESCO) e Claude Levi-Strauss e, pasmem!, em Cândido Rondon, Oficial do Exército Brasileiro que foi responsável por levar as linhas de telégrafo ao interior do território nacional na expressa e inequívoca intenção de mais integrá-lo. Esse “índio”, no porte e nas feições, era um Oficial porque assim multiétnico o Exército nacional se formou desde sempre, mas isso não o impedia de ser um brasileiro exemplar no exercício da cultura nacional e na execução de missão constitucional da profissão que escolheu; foi “um pioneiro” no “nobre esforço de catequese leiga de nossos índios” (nas palavras de Juarez Távora), um entusiasta da “Marcha para o Oeste” na década de 40/séc.XX, que aprofundaria “o povoamento do sertão” e “seu aproveitamento agropecuário com fundamentos econômicos mais sólidos e eficientes” (em suas próprias palavras) – o que, em geral, os nossos atuais Mestres-Escola de 3º nível dispensam considerar por completo, usando o nome do Marechal em sua demagogia durante o que chamam de “aula”.

 

    Não deixa de ser admirável o esforço de um bando de anarcóides ignorantes e inconseqüentes para que nos seja condenada a miscigenação étnica, tradição milenar portuguesa que caracterizou desde sempre a nossa sociedade e permitiu que ela bem ou mal se desenvolvesse de forma bem menos cretina que outras tantas que conhecemos. Nem se fale da condenação expressa à integração territorial. A palavra de ordem é desestruturar o que nacional for – para o que será necessário fragmentar. Esses alegres pequenos revolucionários acantonados nas ONGs e nas redes sociais não se perguntam, em nenhum momento, que espécie de místico projeto demagógico-pedagógico levam adiante balançando a cabeça como vacas de presépio. Ou será que consideram que inventaram a roda sozinhos ou descobriram a pólvora sem fazer barulho? E a resposta dada a Pondé (e a nós todos) é a prova absoluta de que muitos serão os que tentam excluir o Estado brasileiro do rol dos soberanos na maior desfaçatez e pretendem fazê-lo impunemente – ou seja, “consensualmente”. E/ou comprova que muitos são os que não têm qualquer noção do que seja um Estado nacional, de suas prerrogativas e de suas responsabilidades. Esses muitos, somados aos também alegres místicos da esquerda radical, apenas nos anunciam um tempo que nos quer parecer extremamente sombrio.

 

    Terá tido sorte Pondé, assim, ao ser flechado. A reação poderia ter sido bem pior… A julgar pelo que desfere, por exemplo, com candura e liberdade extraordinárias, um “blogueiro” que se diz “progressista”, sobre a situação política atual – “Traidores social-fascistas como a social-democracia menchevique, bem como oportunistas de esquerda como os seguidores de Trotsky devem ser julgados por um tribunal popular e fuzilados por suas posições contra-revolucionárias” – essa sorte poderá ser atribuída às “vacilações democrático-burguesas” de Rousseff… (pravdadobrasil.blogspot.com.br/2013/01/opsol-faz-o-jogo-da-tucanalha-font-face.html)

 

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    Em sã consciência, todos sabemos – não apenas os que criticam a prédica infernal dos protetores do retrocesso travestida em apologia do avanço humanitário, mas também aqueles que a levam às ruas em forte e bom som – que a questão levantada em torno dos índios remanescentes em nosso território não é qualquer “causa indígena”. Todos bem sabemos que a sombra de Iracema dos lábios de mel não mais é capaz de esconder Martim, que bem conheceu a cabana de Araquém e roubou a virgem de Tupã. Que nem mesmo o segredo da jurema (que lhes proporcionava um barato) não foi capaz de promover paz, a comunhão ou a sociabilidade entre os Tabajaras e os Pitiguaras guiados por Japi. Que em Poti “germinou a palavra do Deus verdadeiro na terra selvagem”. Que Moacir foi concebido e conheceu a Europa e suas maneiras, boas e más. E que a cultura (o modo de ser, fazer, agir, pensar) encontrada pelos portugueses em 1500 é absolutamente irrecuperável. E, como já bem disse, em seu parecer ao Projeto de Lei nº 1876/99, Aldo Rebelo – que não poderá ser apontado como um representante de qualquer “direita raivosa”… : “A harmonia entre os chamados povos da floresta e o meio em que vivem – na verdade sobrevivem – não passa de ficção produzida para filmes como Avatar, de James Cameron, que levam às lágrimas plateias confortavelmente instaladas em modernas salas de cinema dos shopping centers (…) Aliás, seria o caso de se perguntar ao famoso cineasta, ao popstar Sting e aos seus cortesãos locais que, juntos, se apresentam como grandes defensores dos povos da floresta amazônica, se teria sido possível aos mesmos visitarem a região e realizarem suas performances eco-hollywoodianas não houvesse sido ali construídos, no coração da floresta, alguns luxuosos hotéis …” (www.florestafazadiferenca.org.br/wp-content/uploads/2012/08/parecer-aldo-rebelo.pdf).

 

    A pseudo-“causa indígena” não decorre, pois, de qualquer “questão étnica” ou “cultural” indígena. E, se algum especial saber remanescente que nos pudesse ser essencial o indígena brasileiro tivesse a transmitir, esse saber já estaria incorporado não só em nossa cultura nacional como teria contaminado a cultura mundial, quando não já estivesse patenteado por uma indústria supranacional. Por que querem, então, alguns, a nós estranhos, especialmente, mas nem só, os apadrinhados pela UNESCO em sua rede de ONGs, que esses marginais em sentido estrito (e, por vezes, em sentido amplo) não se integrem plenamente à vida e à cultura nacionais como qualquer indivíduo brasileiro, de qualquer origem, seja velho ou jovem, homem ou mulher, pobre ou rico, e que marginais assim eles se mantenham? Por que caprichos de uns poucos, a nós estranhos, os nascidos em território brasileiro não podem ser simplesmente reconhecidos como brasileiros e por que esse reconhecimento não lhes basta? Para que não sejam convictamente brasileiros, consensualmente brasileiros?

 

    Além de que o “índio” que fosse “índio” deveria hoje estar em “museus de todo o planeta”, os que “solicitam informações sobre o modo de vida dos índios” e não mais deles sair. Para atendê-los a contento, deveria o nosso País transformar-se em um imenso museu, de mais de 8,5 milhões de Km²? (visitem, por diversão, www.guarani-campaign.eu/landen/portugal/cartacompromisso.htm). A querer que “índios” se mantenham “índios” e nos manter coerentes, esta nos parece ser a única forma de resolver o que nos narra o (de fato) jornalista Washington Novaes ao comentar o contato das tribos do Parque do Xingu com a cultura “branca” de seu entorno, facilitado pelas estradas que ali foram abertas: “… ‘os jovens, ao absorverem essa cultura, querem usar roupas, ter DVDs, aparelhos de gravação, dançar forró. E, para isso, é preciso produzir artesanato, como pulseiras, colares e redes, a fim de adquirir dinheiro para esse consumo’ (…) Mais um problema, segundo o jornalista, é que jovens xinguanos não querem cuidar da agricultura e nem se interessam mais pelas tradições. ‘Em praticamente todas as aldeias não há quem queira ser pajé, pois é um caminho longo e de sacrifícios’, conta. O pajé faz o intermédio dos humanos com o mundo dos espíritos. ‘Se não houver isso, as culturas vão desaparecer. Tudo na vida deles tem essa relação. Cada árvore tem um espírito, as danças e cantos estão neste universo. A cultura está ameaçada por este ângulo, como também a organização social e política’ ”(www.revistafilosofia.com.br/eslh/Edicoes/19/imprime134622.asp).

 

    Disso, que se conclui? É possível sacar apenas duas conclusões: 1. os pajés são essenciais ao “resgate” e à manutenção da cultura e da organização social e política indígena; 2. ter um pajé em uma tribo requer que nenhum contato com o mundo essa tribo experimente! Muito errados, então, teriam estado os Villas Boas… e estarão outros tantos mais… Ou não? Mas, se a “cultura indígena” está ameaçada, por que, então, e já faz tempo, Tacuru, no Mato Grosso do Sul, adotou o Guarani como também uma “língua oficial”, incentivando-o nas Escolas e nos meios de comunicação e comprometendo-se com a valorização de suas “variedades”, como o kaiowá, o ñandeva e o mbya (a nova ortografia da língua portuguesa incorporou o K, o W e o Y mas se esqueceu de incorporar o Ñ – aguardemos, pois) – medida esta (seria soberana?) que o Ministério Público Federal considerou que “vai ao encontro de posição defendida pelos procuradores” (oglobo.globo.com/pais/cidade-de-mato-grosso-do-sul-adota-guarani-como-lingua-oficial-3000919#ixzz2Iq3rSOeI). Que mais poderá vir “ao encontro de posição defendida pelos procuradores”? Qual cultura e qual organização política e social vêm sendo ameaçadas?

 

    Para celebrar e piorar a questão social decorrente da questão política que permite o nosso já institucional e permanente baile pré-carnavalesco, o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Unidos da Pedra Lascada se apresenta como um dos mais violentos. De vez em quando podemos ver algumas de suas alas desfilando, exibindo tacapes, empunhando lanças, quando não invadindo propriedades particulares e públicas, bloqueando estradas, seqüestrando, estuprando, na pureza de “milenares tradições”. E há quem as aplauda. Essa “Escola” não reconhece o Estado, muito menos reconhece a Lei, exceto naquilo que beneficia diretamente seus patrocinadores. Por ser financiada por organizações supra e internacionais, vê-se poderosa e exige que seu Carnaval particular seja garantido durante o ano inteiro, pelo resto de nossas vidas. É um Carnaval já previsto constitucionalmente. Entope os ouvidos e o cérebro de muita gente com o mesmo velho samba-enredo composto e recomposto por “celebridades” cosmopolitas que nunca souberam o que é ter raízes e não admitem que as tenhamos, e que, mal digerido, vê-se puxado por assovios, gritos e gemidos desafinados que buscam acompanhar o tempo marcado por uma caixa de guerra descompassada. Enquanto isso (para não que sejamos acusados de menosprezar o valor dos poetas…), dorme “a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber” que vem sendo “subtraída em tenebrosas transações”, pátria essa já “desbotada na memória das nossas novas gerações”, que erram, cegas, pelo continente levando “pedras feito penitentes” para erguer “estranhas catedrais” etc. etc. e tal.

 

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    Em sã consciência, sabemos que questões sociais, basicamente econômicas, mal resolvidas decorrem exclusivamente de uma Política mal feita e mal planejada. Sabemos também que a Política nacional por nós vem sendo levada, secularmente, da pior maneira, a mais equivocada possível. O que não justifica tentar, como “solução”, negar ou arrasar o País e acabar com ele. Saberemos ainda que a responsabilidade de dar solução às questões sociais mal resolvidas – tais como carência de Saúde e de Educação de qualidade (que exigiria um mínimo de respeito à nossa única linguagem oficial que vem sendo dia após dia apenas mais aviltada), problemas relativos à produção de energia e todos e quaisquer “temas ligados diretamente a produção de soja em larga escala, gado, extração de minérios preciosos de modo ilícito, organizações internacionais que adquirem terras ameaçando nossa soberania…” – será da alçada exclusiva do nosso Estado, que nada resolve porque é estúpido. E não é estúpido por sua natureza estatal – é estúpido apenas porque nós, que o formamos, somos, em nossa maioria, estúpidos. E, por sermos estúpidos, somos fracos.

 

    Essas “causas” todas que estão “na moda” (feminista, gay, ecológica, da paz mundial), a que alguns pretendem emprestar relevância pela forma “tribal” caricata como se apresentam, decorrem de uma intenção inequívoca de fomentar o alvoroço social para que o nacional mais se desorganize. Todas elas, sacadas do bolso da algibeira de mal-intencionados manipuladores de consciência, sugerem que o saber, o mérito e a competência sejam superados pelo alarido e pela falta de compostura, que, em locais determinados por grandes interesses políticos e econômicos, uma dada ordem dos homens e das coisas se sobreponha à natureza das coisas e à dos homens e que uma “não-violência” extremamente seletiva se imponha à revelia de prerrogativas soberanas. São, todas elas, fragmentos de uma única questão nacional que, mal administrada, põe em risco a integridade nacional e a nossa individual integridade.

 

    Paciência é preciso? Paciência é, de fato, uma virtude – se e quando o que a motiva é virtuoso. Mas paciência, que é tolerância, já disse, tem limite. E tem que ter. Porque, se não tiver, é conivência com o vício, também já disse.

 

    O que é preciso de fato, pois, é que aqueles que não são mentalmente insanos por completo e ainda tenham algum pulmão cuidem, com muito cuidado ou com um mínimo vital de cuidado, da tendência a tanta paciência e tanta tolerância com tanta estupidez. Somos fracos e somos estúpidos, sim, também já disse, em nossa maioria, mas nem todos seremos tão estúpidos a ponto de desistir de nossa história comum, de nossa identidade, de nosso Estado e de nossa cultura e entregá-los à execução em praça pública de bandeja e mão beijada ao freguês da vez. É que o freguês terá sempre razão? Se aplicada à Política, que tipo de lucro traz, a quem, essa “regra de ouro” do comércio varejista? Por maiores que sejam elas, a nossa estupidez e a nossa fraqueza adquiridas em quase dois séculos de educação e políticas tolerantes não dão, a ninguém, nem mesmo se escudado por potências mundiais ou poderosas ONGs, o direito de decidir por nós, como se o que nosso é fosse de propriedade alheia. E não poderíamos conceder autoridade a quem quer que fosse que, gozando de uma liberdade da qual nós, os brasileiros de fato, jamais gozamos, exige-nos apenas obediência e que “cheguemos pra lá”. Não poderíamos conceder porque gente bem mais estúpida e bem mais fraca que nós nada nos concede. O que não quer dizer que não estejamos concedendo.

 

    Esse “índio de boutique” que se expõe nas vitrines das Perdizes, de Ipanema, de Boa Viagem etc. ou em irreverentes grêmios literários, artísticos e/ou carnavalescos, semelhante aos “guerreiros” das “tribos” de feministas e de homossexuais sem compostura, dos pacifistas de conveniência, dos verdes patológicos; esse “índio” oportunista, que prestigia a formação de aldeias étnicas em que etnia será uma “opção”; esse “índio” que considera que aqueles que ele próprio resolve chamar de “índios” são “os verdadeiros donos de onde você e eu moramos”, esse “índio” é, em geral, um mestiço, mas pode ter traços orientais, ser negro ou ser branco, bem branco, às vezes lourinho com olhos azuis ou ruivo sardento, podendo ser encontrado vivendo em uma casa ao lado da nossa, até gozando de maior conforto. E não estará dedicado à dança da chuva, ou a prever o fim dos tempos, ou agachado colhendo flores de maniva ou tirando um cochilo em redes tecidas artesanalmente – mas estará pendurado nas redes sociais virtuais, tentando fazer “pequenas revoluções” contra os nossos direitos à propriedade inclusive pública, à nossa liberdade e ao desenvolvimento das regiões mais atrasadas de nosso território; celebrando a “globalização que derrubará definitivamente qualquer fronteira”, discutindo uma “filosofia” barata e uma “sociologia” de botequim; exercendo “uma função no sentido de utilidade para o grupo” com o qual se identifica por opção “solidária” ou vantagem financeira ou por modismo; dando entrevistas aos meios de comunicação; pregando a anarquia nas Universidades; desmontando o País que chamamos de nosso e tentamos bem construir há quase dois séculos… comendo pizza e tomando um chopinho, que ninguém é de ferro… tal como sempre fizeram todos os “revolucionários” de araque que o Brasil já conheceu desde que o primeiro europeu “humanitário” aqui pisou. E cobiçou.

 

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    Pondé, o filósofo já apelidado de “jornalista”, comenta que “a moda agora é ‘assinar’ sobrenomes indígenas no Facebook” talvez porque, entre outras possíveis razões, “saiu da moda o aquecimento global”. Consideremos que qualquer moda é relacionada a consumo. Qualquer moda será lançada em benefício de um comércio, quando não de uma indústria. As modas editorial, esportiva, arquitetônica, religiosas… também. Moda é um paradigma. De pensamento e ação. Que não advém necessariamente de quaisquer novas descobertas científicas ou reflexões filosóficas. Na esteira do sucesso de uma marca cuja boa qualidade nem sempre foi testada, mas pôde ser atribuída, corre o sucesso das falsificações para consumo popular. Uma moda não é lançada, em geral com estardalhaço, para ser discutida, mas para ser adquirida e assimilada. Adotar qualquer moda, “de vanguarda”, “retrô” etc., a exemplo das modas do vestuário, requer discernimento e adaptação ao tipo físico e às condições geográficas reais. Adotar uma moda ou substituí-la por outra moda sem comedimento, mesmo que a nova moda nos conforte idealmente, não significará avanço algum.

 

    O que saiu de moda entre nós, porém, é ser racional, e, isso, faz tempo! E pouco importará a remota origem filosófica ou científica de qualquer moda que tenhamos adotado – desconfio eu cá que o fenômeno se deu porque nenhuma “pseudo-óbvia ciência” ou qualquer “pseudo-óbvia filosofia” saiu de moda por aqui nos últimos anos. Todas elas desembarcam, apresentam-se com pompa e circunstância, e se acumulam anarquicamente nas prateleiras acadêmicas e demais redutos “intelectuais”, sem qualquer ponderação, e continuam lotando os salões e os barracões e desfilando sob aplauso das torcidas em uma imensa avenida circular, de mão única, em que não se encontra uma praça de dispersão. E nada foi e nada é feito no sentido de que essas modas passem de fato e desapareçam como qualquer moda. As Escolas que se criam em torno dessas modas permanecem e permanecerão nos atormentando com seus estridentes ensaios-gerais, até que o Carnaval nacional – e este, sim, um dia vai passar, só não sabemos exatamente quando nem como – mais se amplie e mais se estruture como um sólido estado social, um sanatório geral, amplo e irrestrito.

 

    A questão de fato, pois, da qual devemos assumir a responsabilidade de querer e de tentar solucionar, tem duas caretas: uma sorri, “solidariamente”, às pretensões econômicas de reais e virtuais potências, a outra revira, pisca e fecha os olhos a uma questão social ampla e gravíssima, muito mal resolvida, que o tempo e a demagogia só mais agravam. Despojada de fantasias e de recursos literários, tudo o que a essa questão social se refere inclui-se em uma única questão real – a questão da integração nacional. Contra a qual qualquer “engenheiro político” estranho a nós há de inventar sempre uma “moda”.

 

    Agora, então, enquanto assisto aos ensaios dos blocos precursores do “sanatório geral” que promete se impor após essa “ofegante epidemia que se chamava carnaval”, eu pergunto, porque perguntar não ofende, a quem possa e queira responder com consciência: quem estará, se não de má fé, muito e muito desinformado com relação a essa pseudo-“causa indígena”? Quem estará envergonhando a nossa Nação? Quem será o cínico nessa história toda? Será o Professor Luiz Felipe Pondé? Seremos nós todos que não mais acreditamos e não devemos mais acreditar em histórias da carochinha?

 

    E pergunto, por fim, que é o que deveríamos estar considerando como “lixo jornalístico”. E, em nossa absoluta ir-relevância midiática, que mais deveríamos estar fazendo caso fôssemos menos covardes e minimamente mais inteligentes, mesmo que nunca tivéssemos lido versos de qualquer poeta russo, para tentar evitar a imensa e pretensamente irreversível catástrofe que nos ameaça. Essa ameaça será só uma “marolinha”, apenas uma “moda” que vai passar, como todas as “ondas”, as “modas” e as ameaças vão chegando e vão passando em todas as partes do mundo? Ou, por aqui, tudo chega e se estabelece em definitivo, e com tudo nos habituamos a conviver, cada vez mais espremidos, cada vez mais “chegando pra lá”?

 

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(1) 19/11/2012 – Guarani Kaiowá de boutique – Luiz Felipe Pondé

 

As redes sociais são mesmo a maior vitrine da humanidade, nelas vemos sua rara inteligência e sua quase hegemônica banalidade. A moda agora é “assinar” sobrenomes indígenas no Facebook. Qualquer defesa de um modo de vida neolítico no Face é atestado de indigência mental.

As redes sociais são um dos maiores frutos da civilização ocidental. Não se “extrai” Macintosh dos povos da floresta; ao contrário, os povos da floresta querem desconto estatal para comprar Macintosh. E quem paga esses descontos somos nós.

Pintar-se como índios e postar no Face devia ser incluído no DSM-IV, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

Desejo tudo de bom para nossos compatriotas indígenas. Não acho que devemos nada a eles. A humanidade sempre operou por contágio, contaminação e assimilação entre as culturas. Apenas hoje em dia equivocados de todos os tipos afirmam o contrário como modo de afetação ética.

Desejo que eles arrumem trabalho, paguem impostos como nós e deixem de ser dependentes do Estado. Sou contra parques temáticos culturais (reservas) que incentivam dependência estatal e vícios típicos de quem só tem direitos e nenhum dever. Adultos condenados a infância moral seguramente viram pessoas de mau-caráter com o tempo.

Recentemente, numa conversa profissional, surgiu a questão do porquê o mundo hoje tenderia à banalidade e ao ridículo. A resposta me parece simples: porque a banalidade e o ridículo foram dados a nós seres humanos em grandes quantidades e, por isso, quando muitos de nós se juntam, a banalidade e o ridículo se impõem como paisagem da alma. O ridículo é uma das caras da democracia.

O poeta russo Joseph Brodsky no seu ensaio “Discurso Inaugural”, parte da coletânea “Menos que Um” (Cia. das Letras; esgotado), diz que os maus sentimentos são os mais comuns na humanidade; por isso, quando a humanidade se reúne em bandos, a tendência é a de que os maus sentimentos nos sufoquem. Eu digo a mesma coisa da banalidade e do ridículo. A mediocridade só anda em bando.

Este fenômeno dos “índios de Perdizes” é um atestado dessa banalidade, desse ridículo e dessa mediocridade.

Por isso, apesar de as redes sociais servirem para muita coisa, entre elas coisas boas, na maior parte do tempo elas são o espelho social do ridículo na sua forma mais obscena.

O que faz alguém colocar nomes indígenas no seu “sobrenome” no Facebook? Carência afetiva? Carência cognitiva? Ausência de qualquer senso do ridículo? Falta de sexo? Falta de dinheiro? Tédio com causas mais comuns como ursinhos pandas e baleias da África? Saiu da moda o aquecimento global, esta pseudo-óbvia ciência?

Filosoficamente, a causa é descendente dos delírios do Rousseau e seu bom selvagem. O Rousseau e o Marx atrasaram a humanidade em mil anos. Mas, a favor do filósofo da vaidade, Rousseau, o homem que amava a humanidade, mas detestava seus semelhantes (inclusive mulher e filhos que abandonou para se preocupar em salvar o mundo enquanto vivia às custas das marquesas), há o fato de que ele nunca disse que os aborígenes seriam esse bom selvagem. O bom selvagem dele era um “conceito”? Um “mito”, sua releitura de Adão e Eva.

Essas pessoas que andam colocando nomes de tribos indígenas no seu “sobrenome” no Face acham que índios são lindos e vítimas sociais. Eles querem se sentir do lado do bem. Melhor se fossem a uma liquidação de algum shopping center brega qualquer comprar alguma máquina para emagrecer, e assim, ocupar o tempo livre que têm.

Elas não entendem que índios são gente como todo mundo. Na Rio+20 ficou claro que alguns continuam pobres e miseráveis enquanto outros conseguiram grandes negócios com europeus que, no fundo, querem meter a mão na Amazônia e perceberam que muitos índios aceitariam facilmente um “passaporte” da comunidade europeia em troca de grana. Quanto mais iPad e Macintosh dentro desses parques temáticos culturais melhor para falar mal da “opressão social”.

Minha proposta é a de que todos que estão “assinando” nomes assim no Face doem seus iPhones para os povos da floresta.

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ponde.folha@uol.com.br – http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/1187356-guarani-kaiowa-de-boutique.shtml –

Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, “Contra um mundo melhor” (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de “Ilustrada”.

 

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(2) – (RESPOSTA)

“Caríssimo,

seu artigo é uma catástrofe. Muito me espanta um homem com sua relevância midiática fazer uso de um precioso espaço para tantos absurdos num único artigo.

Por acaso você conhece – conhece mesmo, de fato, com profundidade e consistência – a história dos irmãos Villas Boas e o que dessa história temos como resultados humanitários, além, muito além dos resultados antropológicos?

Saberá o caro jornalista e filósofo que algumas etnias foram salvas de extinção e que junto com extinção de índios paralelamente há todo um contexto social, temas ligados diretamente a produção de soja em larga escala, gado, extração de minérios preciosos de modo ilícito, organizações internacionais que adquirem terras ameaçando nossa soberania…?

O jornalista extingue, com seu artigo infeliz o legado de Darcy Ribeiro, Claude Levi-Strauss, Marechal Rondon, além de uma cultura milenar, muito anterior a apropriação europeia do continente, de três mil anos.

Saberá o amigo do que trata toda uma vida de pesquisa da antropóloga Betty Mindlin? Conhecerá o acervo fotográfico de Maureen Basilliat? Tudo jogado no lixo jornalístico escrito por você.

Terá também o jornalista e filósofo Pondé assistido à entrevista feita pelo psicanalista Jorge Forbes com o filósofo e pensador francês Luc Ferry, em que eles nos alertam para o fim das grandes revoluções e nos chamam a atenção para as pequenas revoluções feitas através das redes sociais, alterando comportamentos e rumos históricos?

Pois bem, depois de ler o seu artigo, concluo que você é a pessoa desinformada ou mal formada. E com o agravante de levantar a público algo seríssimo: você é um formador de opinião.

Não assinei meu sobrenome como Guarani-Kayowa, no entanto, os que o fizeram conseguiram com este feito alertar as autoridades para a questão.

Cinismo absurdo pedir que os índios trabalhem. Você está novamente desinformado: eles trabalham. É a ÚNICA organização social que sempre funcionou, com respeito às diferenças, organização sim, em que cada um tem uma função no sentido de utilidade para o grupo; Afora as investidas civilizatórias de corrupção e vícios como álcool e fumo, além de prostituição, que acontecem com os índios justamente FORA das preciosas reservas. Não são reservas temáticas, meu caro. É reserva de terra. Para que pessoas com sua mentalidade não queiram empresariar o espaço. Para que dentro dessas reservas os verdadeiros donos de onde você e eu moramos possam exercitar o seu sagrado direito de liberdade e propriedade: cultura. Pagar impostos? Eles já pagaram com a vida, afinal, nós matamos centenas de milhares de índios em pouco mais de quinhentos anos. Pagaram também com muita terra, sendo excluídos de sua casa violentamente.

O amigo também não saberá que nosso estado de São Paulo inaugurou o Parque Orlando Villas Boas, com projeto de museu/centro de formação criado por um dos mais relevantes e respeitados nomes de nossa arquitetura, Ruy Ohtake. Não saberá que a família Villas Boas tem mais de duas mil peças indígenas – algumas que já não existem por ações como a sua – e acervo fotográfico, filmes, etnologia e registros de troncos linguísticos, fonte para nossos cientistas e de todo o mundo? Também está desinformado de que museus de todo o planeta solicitam informações sobre o modo de vida dos índios, como exemplo de sociabilidade e comunhão.

Bem, meu caro, vou fazer uso justamente da rede social para publicar este e-mail, solicitando a você uma RETRATAÇÃO PÚBLICA diante da nação envergonhada com seu texto.”

Rita Alves – Membro Fundadora do Instituto Orlando Villas Boas

Postado nas redes sociais por inúmeros entusiastas da “causa indígena”

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(3)  

“Vai passar nessa avenida um samba popular. Cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar ao lembrar que aqui passaram sambas imortais, que aqui sangraram pelos nossos pés, que aqui sambaram nossos ancestrais. Num tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória das nossas novas gerações, dormia a nossa pátria mãe tão distraída sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações. Seus filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes, erguendo estranhas catedrais. E, um dia, afinal, tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava carnaval. O carnaval vai passar. Palmas pra ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do bulevar. Meu Deus, vem olhar, vem ver de perto uma cidade a cantar a evolução da liberdade até o dia clarear. Ai, que vida boa, o-le-rê, ai, que vida boa, o-la-rá, o estandarte do sanatório geral vai passar”

Francisco Buarque de Hollanda, 1984 (?) ou mais ou menos por aí.

 

 

 

 

 

 

 

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