Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

      Voa no ar, como gaivota, uma desconfiança generalizada com relação à qualidade da Universidade que concedeu diplomas aos médicos cubanos que foram chamados a acudir o sistema de saúde nacional e, por decorrência, com relação à qualidade e à quantidade de conhecimento desses médicos. O romance entre esse sistema e esses doutores cubanos não é de hoje e é decorrente de acordos de intercâmbio celebrados entre as nossas autoridades e as de diferentes países, em diferentes áreas, muitos deles, por sua vez, decorrentes da idéia de integração regional alinhavada no âmbito da ALADI desde muito antes da concepção do Mercosul. A integração da “América Latina e Caribe” nos foi imposta pelos constituintes de 1986 e, há décadas, tem sido a direção obedecida por nossos sucessivos Governos, todos eles obedientes à Constituição.

 

     Há muito boas Universidades espalhadas pelo mundo. E algumas são reconhecidas, sendo ou não sendo de fato, como as melhores em algumas áreas. São centros de pesquisa e inovação e reúnem grandes nomes ou nomes apenas conhecidos em seus quadros docentes e discentes. A Sorbonne, por exemplo, é uma Universidade francesa há séculos respeitada internacionalmente, por seja qual for o motivo, razoável ou não. E, conforme nos informa a Wikipédia, entre os “personagens célebres que freqüentaram a Sorbonne está Fernando Henrique Cardoso, o 34º Presidente do Brasil”.

 

     Segundo essa mesma fonte, o Doutor Fernando Henrique Cardoso foi funcionário da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), membro do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), Senador da República (1983 a 1992), Ministro das Relações Exteriores (1992) e Ministro da Fazenda (1993 e 1994), além de Professor na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade de Paris (Sorbonne), antes de ser Presidente da nossa República. Como tal permaneceu por oito longos anos, ao fim dos quais o candidato apresentado por seu Partido, em coalizão com alguns outros, foi derrotado. E foi derrotado pelo candidato de uma outra coalizão, formada por outros Partidos, que elegeu aquele que, mantendo exatamente a estrutura recebida, sem tirar nem pôr, esteve por mais oito longos anos no poder, e pôde eleger quem o sucedeu.

 

     Essas coalizações, costuradas aqui e ali com finalidade especifica e exclusivamente eleitoral, não se mantiveram compostas da mesma forma e com o mesmo desenho durante esses últimos quase 20 anos em que os Partidos exercitaram, tal como sempre o fizeram, aquilo que se chama conchavo e costumamos, equivocadamente, chamar de Política.  

 

     Com novas eleições se aproximando, aquele que antes pôde ser chamado de “Príncipe dos Sociólogos”, já consagrado “imortal” pela Academia Brasileira de Letras, veio generosamente nos oferecer, neste último domingo, uma análise de situação e uma receita para a construção de “uma sociedade mais próspera, decente e equânime” (texto publicado em www.estadao.com.br/noticias/impresso,falando–francamente-,1070059,0.htm e reproduzido em diferentes sítios virtuais).

 

     É preciso, pondera ele, fazer “um mea culpa coletivo” e, “mantendo as diferenças políticas, e mesmo ideológicas”, “limar as diferenças” e fazer “cessar as rixas internas a cada partido”, para que se forme “um bloco confiável, com visão estratégica e capaz de seguir caminhos práticos”.

 

     Isso, porque “quando o barco afunda vamos todos juntos, governo e oposição, empregados e empregadores, os que estão no leme e os que estão acomodados na popa”; porque “sempre o mais fácil é culpar o presidente ou o governo ou algum partido especificamente, embora seja possível identificar responsabilidades”; porque  “o bater de cabeças dentro e entre os partidos faz mais zoeira do que gera caminhos”; porque “é preciso grandeza para colocar os interesses de longo prazo do povo e do País acima das desavenças e pactuar algumas reformas (poucas, não muitas, parciais, não globais) capazes de criar um horizonte melhor, começando pela partidário-eleitoral”; porque “parece inevitável reconhecer que a questão central é de liderança”.

 

     De alguém muito instruído e de um líder nato essa receita e sua justificativa podem até ser. E, por isso, até merecerão nossa atenção. Mas, francamente, elas não primam pela criatividade, e seus ingredientes não nos parecem garantir qualquer resultado muito novo, minimamente nutritivo, que nos evite o escorbuto ou seja tão supimpa assim.  

 

     Francamente por francamente, que diabos o Doutor nos estaria recomendando e justificando? Dá pra entender? Um motim, que tenta liderar a partir da popa, uma nova direção ao leme, resultado de poder ver-se novamente ao timão? Ele convoca a “oposição” a que se una e avance? Muito bem. Que “oposição”? Quem está na “oposição”? Falando francamente, existe uma “oposição” neste País? “Oposição” a quê, exatamente? Uma vez formado um “bloco” de toda essa “oposição”, esse “bloco” faria, de repente, um mea culpa de quê? Seria, de repente, confiável em quê? Teria, de repente, uma visão estratégica por quê? Mostrar-se-ia capaz de seguir caminhos práticos visando a quê?

 

     No bocado que nos foi dito e recomendado, e naquele que já nos foi dado a, até aqui, experimentar, francamente por francamente, essa receita mais parece uma receita de gaiato, pois quem a oferece já pôde receitar o que quis, o quanto quis, desde a CEPAL, desde o CEBRAP, desde o Congresso Nacional, desde o Ministério das Relações Exteriores e o da Fazenda, e, em seguida, pôde administrar o nosso País, dando as ordens a seus eternos grumetes, de bombordo a estibordo, por oito longos e longos anos. E, com coalizão ou sem coalizão, a nenhum problema deu solução, não deixando, em contrapartida, de nos criar outros tantos mais. Pois apenas mais abriu e aplainou o caminho que nos levava e nos levou ao estado em que hoje nos encontramos – o de uma sociedade nem próspera, nem decente, nem equânime. E, mesmo que, a quem não for marinheiro de primeira viagem, seja possível identificar responsabilidades, ainda pretende se nos apresentar como sendo o conciliador da “oposição”.

 

     Um bocado gaiato é esse senhor. Mais gaiato, porém, será quem ainda se deixe levar por promessas vazias de um gaiato tão gaiato, ou pelas promessas vazias de qualquer outro gaiato entre todos os gaiatos que se dizem de “oposição” às vésperas de uma eleição, quando nenhuma oposição de fato aos rumos tomados pelo País foi sequer ensaiada, muito menos foi capaz de formar-se durante os últimos quase… não 20, mas 30 longos anos em que vagamos em direção ao Triângulo das Bermudas; gaiato será qualquer um que ainda ponha fé em que gaiatos em campanha eleitoral, viciados nas fanfarronadas e nas artimanhas dos maus timoneiros, sejam capazes de sacar qualquer receita minimamente sensata do bolso da algibeira como se saca um apito, se por quase trinta longos anos consecutivos nenhum deles percebeu que fazer uma oposição conseqüente aos absolutamente inconseqüentes, e não apenas propor conchavos ou ceder a eles, seria absolutamente necessário ao País.  

 

     Gaiatice por gaiatice, aliás, o que diz uma placa esperta cuja foto me chegou por aqui e vê-se abaixo – e onde está afixada não sei, mas, na Sorbonne, por certo não deve estar – nos poderá, em poucas linhas, esclarecer muito mais do que tudo o que já nos pôde ter sido dito até agora e continua sendo dito pelos encarregados do avanço da conciliação. Não é uma receita e, francamente, não resolve o nosso enguiço; mas talvez bem nos explique por que não temos qualquer liderança de oposição política à vista, e também por que, francamente, estamos precisando tanto de que surja, em nosso horizonte, uma Oposição de fato como alternativa a essa lamentável Situação.

 

 

    teoria e prática

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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