Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

  

 

 

 

     “Ninguém é inimigo de ninguém” – Ayres Britto

      Frase destacada na Folha de S.Paulo, ontem.      

 

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     Segundo Ayres Britto, a palavra “mensalão” – nome dado às investigações que apontaram um esquema de compra de votos de parlamentares pelo Executivo no Governo Lula da Silva – não deve ser usada pois indica um pré-julgamento do processo ora em pauta na Suprema Corte brasileira. O Ministro não vê, no entanto, mal algum em que Dias Toffoli, seu colega de toga amigo de José Dirceu, “como qualquer ministro da casa, (…) suficientemente maduro, maior, capaz, vacinado, experimentado para decidir, diante de uma eventual alegação de suspeição”, decida participar do julgamento.

 

     Ao que a frase citada acima indica, Ayres Britto, o poeta do STF, aprendeu a versejar com boleros rasgados na juventude: “Ninguém é de ninguém, na vida tudo passa. Ninguém é de ninguém, até quem nos abraça. Não há recordação que não tenha seu fim. Ninguém é de ninguém, o mundo é mesmo assim…”

 

     Só não sei se bem os compreendeu. Talvez não, talvez sim. Porque o que o bolero quer dizer, mas não diz em seu mau Português, é que ninguém seria de alguém em exclusivo.

 

     Ninguém significa nenhuma pessoa. Assim como nada significa nenhuma coisa.

 

     Em bom Português, não o dos pungentes versos de um bolero, se dizemos que “nada é nada”, ou que nenhuma coisa será nenhuma coisa, estaremos também dizendo, por certo, que “qualquer coisa pode ser muita coisa”, não que “tudo nada é”.

 

     Se dizemos “ninguém é inimigo de ninguém”, não é que nenhuma pessoa seja ou tenha um inimigo, mas, sim, que alguém ou todos e qualquer um podem ser inimigos de alguém outro. Ou de todos. Simples assim: duas negações = uma afirmação. Regra decorrente da lógica gramatical que talvez decorra, por sua vez, do matemático e cristalino princípio que nos indica que menos por menos dá mais… Sei lá. Sei que não há linguagem sem uma lógica que a reja. E que o Português exige uma lógica rígida e perfeita, caso contrário não será Português, será um dialeto inculto e feio. Se não obedecermos a essa lógica, não haverá compreensão alguma do que seja dito. E faz-se imediatamente a confusão – a que nos vem regendo faz tempo em todos os campos da atividade social.

 

     Se “ninguém é inimigo de ninguém”, alguém que seja inimigo de alguém pode querer se engalfinhar com esse alguém, como quiseram Barbosa e Lewandovski, e, em muitas ocasiões, muitos mais.

 

     Por outro lado, a frase mal construída pode querer significar que alguém é amigo de alguém. Ou que todos serão amigos de todos.

 

     Entre amigos, tudo o que for dito e feito poderá, em seguida, ficar por não dito e não feito. Nenhum problema. Como diz o bolero, dessa vez sem confundir, na vida tudo passa e não há recordação que não tenha seu fim. O mundo é mesmo assim… Pelo menos, o mundo que vamos conhecendo por aqui.

 

     Sei também que, se pelo menos alguns só discutissem em bom Português – que ninguém mais conhece, nem mesmo para bem compreender nossa Lei que nos diz que um Juiz deve declarar sua suspeição caso o réu no processo que julga seja seu amigo -, nada estaria tão atravessado como está, facilitando o tropeço de todos nós, que devemos dançar conforme a música.

 

     Enfim, sigamos em frente: são dois pra lá, dois pra cá…

 

 

 

 

  

  

 

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