Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     “O erro, feito em uma fração de segundos – e admitido pela atleta –, pôs fim a uma jornada de quatro anos (…) A atleta ficou inconsolável e precisou de quase uma hora para se recompor e conseguir falar com os jornalistas sobre a desclassificação. Rafaela admitiu que cometeu o erro, mas que acreditou que não seria punida.”

 

      

     O mau hábito da cozinha vai à sala. Esse é um sábio ditado, muito antigo, que nos ensina que, em lugar nenhum, em nenhuma ocasião, um comportamento indevido, venha de quem venha, deve ser tolerado. Porque, em qualquer que seja o campo da atividade, tudo o que de verdade funciona bem na vida obedecerá a regras e protocolos rígidos. Quem não os observa só fará um papelão à vista de todos.

 

     E a culpa do mal feito será de ninguém mais senão daquele que não observou as regras e os protocolos ou, principalmente, daqueles que permitiram que eles não fossem observados. Ou seja, de quem não os levou a sério.

 

     Hoje em dia, no entanto, é mais comum ouvirmos a “lição” de que devemos ser tolerantes com o comportamento das ruas, onde regras e protocolos passam quase despercebidos. Quando não a de que deveríamos mesmo exaltar “democraticamente” esse comportamento como exemplo de sinceridade, espontaneidade etc. e tal.

 

     Mais dia, menos dia, porém, os hábitos (e os vícios) das ruas acabam chegando aos palácios. Aos palácios do Esporte, da Política, da Justiça…

 

     É assim que, até nas Olimpíadas, as esperanças brasileiras de sucesso são também eliminadas não só pela capacidade do oponente como também pelo comportamento dos próprios brasileiros. Aos quais é permitido acreditar que golpes irregulares não serão vistos, não serão considerados, muito menos serão punidos.

 

     Depois de exibido e conferido, quem lamenta o fracasso vertendo lágrimas em cachoeiras perante o mundo merecerá tão somente a tolerância dos tolerantes. Pode até ganhar algum consolo, mas esse consolo não o corrigirá. Talvez o levará ainda mais para trás.

 

     Haverá de ser essa, para todo o sempre, a nossa marca nacional, indelével e internacionalmente reconhecida?

 

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     http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/07/120730_judoca_dg_rc.shtml

     Golpe irregular elimina judoca brasileira ‘descoberta’ brigando na rua

     Daniel Gallas – Da BBC Brasil em Londres – Atualizado em 30 de julho, 2012 – 11:27 (Brasília) 14:27 GMT

     Rafaela disse acreditar que golpe não seria julgado irregular

     A judoca Rafaela Silva, que era a grande esperança de medalha do Brasil nesta segunda-feira nos Jogos de Londres, foi eliminada das Olimpíadas na sua segunda luta após derrubar sua rival com um golpe irregular.

     O erro, feito em uma fração de segundos – e admitido pela atleta –, pôs fim a uma jornada de quatro anos que começou na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro.

     Aos 12 anos, Rafaela Silva era considerada arruaceira e se metia em várias brigas de rua. Foi quando conheceu o técnico Geraldo Bernardes, que percebeu o talento da jovem para o judô.

     Rafaela Silva foi acolhida pelo Instituto Reação, do judoca brasileiro Flávio Canto, medalhista de bronze em Atenas 2004. A ONG usa o judô para dar oportunidades a crianças de comunidades carentes no Rio de Janeiro.

     No último ano, a carioca de 20 anos chamou atenção pelos bons resultados. Foi medalha de prata no Jogos Pan-Americanos e está em quarto lugar no ranking na categoria leve – de até 57 kg.

     Lutas

     Rafaela Silva começou o dia com uma vitória tranquila sobre a alemã Myrian Roper – após duas penalidades para a alemã e um yuko da brasileira.

     Na luta seguinte, contra a judoca húngara Hedvig Karakas (16ª no ranking), Rafaela conseguiu aplicar um golpe e derrubar a adversária. Inicialmente, o árbitro marcou um wazari (a segunda melhor pontuação do judô) para a brasileira, mas logo a decisão foi objeto de consulta na mesa de juízes.

     Poucos minutos depois, o árbitro anunciou o hansoku-make – eliminação imediata da brasileira. Rafaela desequilibrou a adversária agarrando a sua perna – um golpe que não é mais permitido no judô.

     A atleta ficou inconsolável e precisou de quase uma hora para se recompor e conseguir falar com os jornalistas sobre a desclassificação.

     Rafaela admitiu que cometeu o erro, mas que acreditou que não seria punida. Ela achou que Karakas já estava desequilibrada e que – ao agarrar a perna da adversária – não estaria influenciando na queda da húngara.

     “Eu senti ela descendo e botei a mão na perna. Achei que já tinha sido dado o golpe. Achei que podia”, disse Rafaela, que disse esperar poder competir nas Olimpíadas na sua cidade natal daqui a quatro anos.

     O técnico Ney Wilson disse que a decisão da arbitragem é incontestável.

     “Foi justo. Ela fez o golpe da maneira clássica que fez com que isso fosse proibido no judô”, disse Ney. “A dor dela é justamente porque ela sabe que foi culpa dela.”

     (…)

 

 

 

 

  

  

 

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