Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

8 de Março      

 

      Sábado último, há uma semana exata, no dia 08 de Março, foi comemorado “o Dia Internacional da Mulher”.  

 

      Sou uma mulher. Sei que sou. E, se você também é uma mulher, você soube que esse foi “o dia de” o dono do armazém lhe dar um bombom, o frentista do posto de gasolina lhe oferecer uma florzinha, o seu chefe ou o seu patrão lhe dirigir um sorriso. Foi “o dia de” todos perceberem que você existe. Foi “o dia de” todos lhe darem os parabéns. Por quê? Porque você é mulher. Mesmo que você, até por ser mulher, não tenha amanhecido lá muito disposta a se manifestar muito encantada com tudo isso…

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi “o dia de” você ter tido alguma esperança de não mais receber em sua caixa de correio aquela montanha de ofertas muito especiais de lojas que você nem conhece, que lhe foram especialmente dirigidas durante mais de uma semana ou quase um mês por você ser mulher, mesmo que de nada do tudo que lhe foi oferecido você estivesse ou esteja precisando… 

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi “o dia de” você prestar atenção à cretinice e à violência domésticas, às das ruas, às das Escolas, às das leis, que vitimam as mulheres. Porque você é mulher… Ainda que, todos os dias, você possa e tenha podido perceber que a mesma violência e a mesma cretinice também vitimam os homens, as meninas, os meninos, os animais… 

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi o dia de” você mergulhar na fossa de cabeça porque alguém percebeu que ninguém percebe – nem mesmo aqueles que a vêem como uma “santa” e que um comportamento de “santa” esperam de você ou mesmo lhe exigem – o quanto você é esforçada, o quanto você sempre se esforçou, o quanto merece ser respeitada… por ser mulher…

 

      Foi “o dia de” você demonstrar que percebeu que não é suficientemente protegida, devidamente admirada, legalmente mimada, legitimamente paparicada por ser mulher… 

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi “o dia de” você, por ser mulher, exigir de seu companheiro que fosse para o banheiro limpar as orelhas das crianças, em seguida que fosse para a cozinha fazer o jantar e lavar as panelas e os pratos, que levasse o lixo à calçada, que passeasse com o cachorro… – e foi “o dia de” você se surpreender com que ele expressamente demonstrasse um imenso enfado com ter que fazer tudo isso; ou, por ter sido “o dia de” todos se lembrarem de que você é mulher, o seu companheiro a convidou para passear e jantar fora de casa e surpreendeu-a com um belo presente… surpreendendo-se com você não ter, até mesmo por ser mulher, amanhecido lá muito disposta a se manifestar muito disposta…

 

      Foi “o dia de” você escutar da Presidente de sua República não só que este nosso atual “é o século do Brasil … é, sem dúvida, o século das mulheres!” como também que a mulher brasileira tem a sensibilidade de perceber que, abrindo um negócio próprio, ela pode administrar melhor sua vida e a de sua família”. E foi “o dia de” você pôr fé nisso tudo. Afinal, a Presidente da República é uma mulher, em princípio tão mulher quanto você é. E é a Presidente da República. Sábado, dia 08 de Março, foi, então, “o dia de” você ficar contente por poder ser tão mulher, por poder ser tão sensível, por poder ser tão brasileira. Mesmo que, no dia seguinte, você voltasse a duvidar de que tudo isso mais uma Bolsa-família devesse deixá-la tão contente.  

 

      Foi “o dia de” você compreender que seu trabalho, qualquer que seja ele, pode ser muito mal feito – mas você não pode ser mal remunerada. Porque você é mulher. E foi “o dia de” você compreender que, se nada mais ou nada de melhor tiver a oferecer, a exibir ou a fazer, um bom preço, que, em geral, é visto como se acompanhasse uma boa causa, justificará que você exiba seu corpo em qualquer lugar, que o ofereça a quem quer que seja, e que você o use de qualquer jeito, exercendo o inalienável direito de fazer dele o que bem entenda, inclusive o direito de alugá-lo… Poderá ser um bom negócio. Alguém o há de querer. Porque você é mulher.

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi “o dia de” você, por ser mulher, identificar-se com um monte de gente com quem você não se identifica tanto assim ou nem um pouco se identifica, nem sequer alguma vez se identificou ou poderá se identificar; então, foi “o dia de” ser cobrada por se mostrar tão pouco participativa e tão pouco solidária, e por não se sentir até mesmo meio culpada por não se ter identificado…

 

      Foi “o dia de” você, por ser mulher, levar um raspe em regra das feministas radicais, radicalizadas e mal humoradas de plantão porque era “o dia de” você manifestar sua profunda revolta pela condição da mulher em todos os séculos dos séculos e em todos os cantos da Terra – e você, por ser mulher, por ser sábado, por ser véspera de domingo, por seja lá o que tenha sido, não amanheceu muito disposta a se manifestar lá muito revoltada…

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi “o dia de” você protestar pela igualdade… Pela igualdade de quem? Para que qualquer indivíduo, por ser reconhecido como mulher, mesmo que não queira ser ou mesmo que apenas queira ser mulher, possa ser igual a você? Para que você, por ser mulher, possa ser igual a quem?

 

      Foi “o dia de” você lutar pela liberdade… Pela liberdade de quem? Para que qualquer indivíduo, por ser reconhecido como mulher, mesmo que não queira ser ou mesmo que apenas queira ser mulher, possa se sentir tão livre quanto você? Para que você possa se sentir tão livre quanto quem?

 

      Sábado, dia 08 de Março, foi “o dia de” quem, mesmo? Para quê? Foi “o dia de” você agradecer a quem? Aplaudir quem? Defender as idéias de quem? As expectativas de quem? Enunciadas por quem? Para quem? Em benefício de quem? Por quê? Por que sábado, dia 08 de Março, terá sido “o dia de”, por ser mulher, você sentir, fazer ou aceitar alguma coisa contra e apesar de sua própria consciência e se comportar fora de sua rotina?

 

      Pode ser que você saiba a resposta. Eu cá não sei e talvez nunca venha a saber. Para mim, todos os dias são iguais, têm o mesmo significado e o mesmo valor. Vivo cada um deles depois do outro. E tudo o que sinto, que quero e que faço em cada um desses dias se acrescenta ao que senti, quis e fiz na véspera, na antevéspera… e se acrescenta a tudo o que, no seu dia-a-dia, todas as mulheres e todos os homens sentiram, quiseram e acharam por bem ou por mal fazer antes de mim, assim como a tudo o que eles todos ainda fazem, querem e sentem. E tudo me traz conseqüências. E traz conseqüências a todos os demais. Boas ou más, para o bem ou para o mal. Não preciso, pois, por ser mulher, de que alguém me conceda, por decreto ou convenção, “o dia de” fazer o que acho que devo ou o que alguém acha que devo fazer; nem admito que alguém o faça.

 

      E você, mulher? Você precisa disso? É isso, mesmo, o que você quer?

 

      Se é isso o que você quer, receba agora de mim, mesmo que atrasados, desculpe-me, os parabéns pelo “seu dia”. No próximo ano e em muitos outros mais, à sua frente, você poderá, outra vez e sempre, comemorá-lo. E, nesse exato dia, poderá se enternecer e se alegrar, poderá se enfurecer, poderá protestar contra todos e mais alguns, poderá ouvir os discursos de quem diz que as mulheres unidas jamais serão vencidas e bater palmas a quem diz que luta por você… E poderá chamar todas as suas conhecidas e as absolutamente desconhecidas a fazer o mesmo – a comemorar, a se alegrar, a se enternecer, a se enfurecer, a protestar, a ouvir, a bater palmas… conforme o modelo determinado e referendado por seja lá quem for. No dia seguinte, você poderá voltar à sua rotina. Com a alma lavada.

 

      Se não é isso o que você quer – se é algo diferente, algo mais ou muito mais que isso –, por que celebra ou permite, sem reclamar, que seja celebrado “o dia da mulher”, engolfando-se nele, você mesma?

 

      Se não é isso o que você quer – se é algo diferente, algo mais ou muito mais que isso –, que é exatamente o que você quer?

 

      Se não é isso o que você quer – se é algo diferente, algo mais ou muito mais que isso –, que foi o que você fez ontem? Que foi o que você fez durante a última semana? Que é o que está você fazendo hoje? Que pretende fazer amanhã… na próxima semana… no próximo mês… no próximo ano… na próxima década…? 

  

 

 

  

  

 

 

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