Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 
 

 

 

     Hoje, porque amanheci muito inspirada, cometi um soneto que chamei de “soneto de transfiguração”. Inspirei-me em Vinícius de Moraes. Se minha obra for considerada um plágio, não me importarei muito. Nesses tempos de total liberdade, igualdade e fraternidade, assumo, por conta própria, os mesmos direitos de que gozam as celebridades acadêmicas. Não fiquem tão curiosos – vou transcrevê-lo logo abaixo. Mas, em seguida, inspiração já posta em rimas ou plágio já feito, fiz um giro rápido – incompleto, portanto – pelas páginas dos meios de comunicação. Deu para sentir o clima que se faz em volta de mim.

 

    Conscientes de sua função, os que consideramos ou os que se consideram, eles próprios, “intelectuais orgânicos” se manifestam. Como sempre se manifestam em momentos de inércia ou de agitação social. E nos dizem coisas interessantes tal como sempre nos disseram. 

 

    Hélio Schwartsman, verdade seja dita, hoje, 19 de junho, estava surpreendentemente sensato. Ele nos diz (www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2013/06/1297338-entre-a-sabedoria-e-a-loucura.shtml): “Entre as principais patologias do pensamento de grupo destacam-se a radicalização, a supressão do dissenso e a animosidade. Movimentos terroristas, caça às bruxas e brigas de torcida são, afinal, fenômenos de massa. Multidões podem ainda ser manipuladas por demagogos e geram desastres históricos com seu comportamento de manada. Políticos, com seu aguçado senso de sobrevivência, aprenderam a cultivá-las e temê-las.”

 

    Gilberto Dimenstein, que “integra uma incubadora de projetos de Harvard”, como sempre manteve-se atento à biruta do bairro: “A informação capaz de provocar mais irritação nos brasileiros ainda não foi viralizada – imagina quando for. Pesquisa Datafolha publicada hoje revela a queda expressiva do prestígio das instituições entre os paulistanos – o que certamente revela, em maior ou menor grau, uma tendência nacional. (…) Quanto empregos deixam de ser gerados porque os empresários são sufocados por tantos impostos e burocracia? Quanto o país deixa de crescer por causa dos gastos gigantescos com o funcionalismo público e poucos investimentos? Quanto perdemos em melhorias sociais por causa da incapacidade de os governos trabalharem em rede e com foco, otimizando os recursos? (…) O dia em que cada cidadão tiver em mente (e no coração) que fica trabalhando esses cinco meses por ano para ter serviços ruins, em meio a tanto desperdício, a irritação vai ser muito maior do que vemos hoje. Mas é só uma questão de tempo.“  (www1.folha.uol.com.br/colunas/gilbertodimenstein/2013/06/1297521-imagina-quando-eles-descobrirem.shtml)  

 

    Élio Gáspari (www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2013/06/1297394-o-monstro-foi-para-a-rua.shtml), que não desiste de nos contar suas histórias sobre a História do Brasil, falou e disse o que pode ser mais ou menos assim resumido: o fato é o fato e contra fatos não há argumentos – portanto, dane-se a teoria porque teoria, minha gente, não se baseia em fatos. É esperto esse rapaz… Ele diz: “… JK morreu num acidente de automóvel e o monstro levou-o no ombros ao avião que o levaria a Brasília. Lá ocorreu a maior manifestação popular desde a deposição de João Goulart. Em 1984 o general Ernesto Geisel estava diante de uma fotografia da multidão que fora à Candelária para o comício das Diretas Já. (…) Demorou uma década, mas o monstro prevaleceu. O oposicionista Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral e a ditadura finou-se. O monstro voltou. O mesmo que pôs Fernando Collor para fora do Planalto. (…) É natural que junho de 2013 desencadeie uma produção de teorias para explicar o que está acontecendo. Jogo jogado. Contudo, seria útil recapitular o que já aconteceu. Afinal, o que aconteceu, aconteceu, e o que está acontecendo, não se pode saber o que seja.” Mas, se não se pode saber, para que servirá recapitular o que já aconteceu desde mil novecentos e antigamente? Para encher a tela e o papel?

 

    Em algumas festas de arromba, como esta que estamos vendo e vivendo em nosso País, alguns tantos evitam dançar ou cantar e preferem se divertir vestindo-se de preto e cobrindo-se com lençóis brancos. Seus vultos podem ser vistos esvoaçando na semipenumbra que deveria bem servir aos namorados. E quem os vê corre a avisar aos demais que há assombrações no jardim. Se alguém puxar o lençol, verá um ser de carne e osso dando risadas. E dará risadas não só porque assustou todo mundo. Assustando, desviou, de todo mundo, a atenção devida ao que deveria ser visto e não é sequer percebido. Isso é, de fato, de muito mau gosto, mas acontece.

 

    Há os que apontam assombrações de todo tipo, inclusive as do tipo “terrorismo de Estado”. Há também os ventríloquos, que se satisfazem com emprestar voz, vida e sabedoria aos sapos, aos anõezinhos de cerâmica e às corujas. Poderiam ser chamados de irresponsáveis, mas nem todos são. Sentem-se e são muito responsáveis – pela divulgação e a afirmação de idéias suas ou alheias.

 

    O mais interessante neste giro feito hoje em nosso esplêndido jardim foi o que li em http://www.viomundo.com.br/denuncias/no-centro-de-sao-paulo-manifestante-dizia-foda-se-o-brasil-nacionalismo-e-coisa-de-imbecil.html de responsabilidade de Rodrigo Vianna. Ele narra o que viu na manifestação do “passe-livre” em São Paulo. O texto é longo, por isso o “resumo” também será: “A chegada ao viaduto do Chá foi surpreendentemente rápida. Trabalhadores e lojistas tinha ido embora mais cedo, deixando o centro de São Paulo estranhamente vazio às seis horas da tarde. (…) Êpa… De repente, o grupo dos mascarados se exalta e avança sobre os portões da Prefeitura. Voam pedras, arrancadas do calçamento do centro antigo. Pedras portuguesas. Jovens mascarados arremetem contra os homens da Guarda Civil Metropolitana. Um deles usa camiseta branca justa, bota em estilo militar e age com a volúpia típica dos provocadores que conhecíamos tão bem nos anos 80 – quando a Democracia ainda engatinhava. (…) A turma mais moderada grita: ‘sem vandalismo’. Os mascarados devolvem: ‘sem moralismo’. (…) Um grupo segura uma bandeira brasileira e queima. Um rapaz grita: ‘foda-se o Brasil, Nacionalismo é coisa de imbecil’. E aí tenho certeza que há um caldo de cultura perigoso por aqui. Um Brasil fraco, um Estado nacional sob ataque, não será capaz de melhorar a vida do povo. Isso interessa para os conservadores e para seus aliados nos Estados Unidos. (…) chega um grupo novo, mais de cem pessoas. Trazem uma faixa amarela, com a frase ‘Chega de Impostos – Mooca’. O bairro da Mooca é um reduto da classe média – em geral, conservadora. A palavra de ordem é ‘Fora, Dilma’. (…) Penso com meus botões: essa turma foi pra rua pra pedir serviços públicos de qualidade e, de repente, está pedindo também menos impostos, menos Estado. E queimando a bandeira do Brasil. O que é isso? (…) sintoma de uma sociedade que incluiu jovens pelo consumo, sem politização. (…) Desde 2010, dizíamos nos blogs que essa equação do lulismo poderia não fechar. Despolitização? Ou pior que isso: um pé no fascismo? O discurso que nega a Política é a melhor forma de deixar a avenida aberta para uma Política autoritária. (…) A esquerda organizada, hoje tive certeza, precisa disputar as ruas. Lula precisa reaparecer e botar o bloco na rua. (…) A massa lulista – aquela massa forte das periferias das capitais, e do Nordeste – essa massa não está nas ruas. (…) não ficaria surpreendido se, desse processo todo, nascesse não ‘uma nova política’. Mas um governo (mais) conservador, que botasse o Brasil de novo ‘nos trilhos’ da submissão aos EUA, jogando fora os tênues avanços da Era Lula.”

 

    O provocador de camiseta branca justa e bota em estilo militar, que teria agido com a volúpia típica dos que teriam sido conhecidos nos anos 80, quando a Democracia ainda engatinhava, já foi identificado (noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/06/19/homem-que-depredou-prefeitura-e-identificado-pela-policia-e-esta-sendo-procurado.htm) com direito a gozações em outro sítio que mais bem especifica sua aloprada vida pregressa. Por outro lado, que me desculpem os que atribuem nossa desordem a teóricos defuntos: o cidadão que escreveu isso e mais um pouco não os leu, não – deve ter lido, sim, e com muita e muita atenção, o texto intitulado “DOCUMENTOS SECRETOS“ (operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/22498/). Que também deveríamos ler, porque mostra uma face da realidade que não consideramos, tão preocupados que estamos com apenas caçar fantasmas. Mostra uma face que não será a única face da realidade. Mas o rapaz leu, recitou “uni-du-ni-tê” e, carente de toda e qualquer teoria, pensa com seus botões que fez a opção corretamente politizada.  

 

    Mas, tudo bem: como disse Gáspari contando suas histórias, “o que aconteceu, aconteceu, e o que está acontecendo…”  Não, não é que “o que está acontecendo não se pode saber o que seja” – é que ninguém quer saber. O que está acontecendo é que não conseguimos ainda dar um único passo no sentido de sair da atmosfera sufocante da Guerra Fria tal como ela se firmou na periferia e continuamos sufocados. E, como disse Schwartsman em sua surpreendente sensatez de hoje, “multidões podem ainda ser manipuladas por demagogos e geram desastres históricos com seu comportamento de manada. Políticos, com seu aguçado senso de sobrevivência, aprenderam a cultivá-las e temê-las”. O que está acontecendo é que “passe-livre” não é sequer nome adequado a uma reivindicação de redução do preço das passagens a zero – e as lideranças do movimento bem sabem disso e pretendem “passe-livre” de fato para todos em qualquer tempo e lugar a qualquer preço (e eu deveria até achar bom, pois poderia mais plagiar à vontade). O que está acontecendo é que o PCC e o Comando Vermelho ainda não viram vantagem alguma em tomar a si a direção desse movimento. Mas, como disse Dimenstein, sempre atento à biruta do bairro, “é só uma questão de tempo”. O que está acontecendo é que, enquanto nos dedicamos a caçar fantasmas, e só a caçar fantasmas, não nos organizamos porque não sabemos mais o que é honra, altivez ou soberania. E o País só vai levando a breca.

 

    Enfim… que se danem as teorias. Mesmo porque teorizar dá muito trabalho, é tão chato quanto “produzir comida tendo de enfrentar os peles-verdes, os peles-vermelhas e os caras de pau”, algumas teorias também nos podem assombrar, outras são muito enrugadas e pouco atraentes, e teorias novas não surgem onde todos se recusam a criar fatos novos, tal como começar a pensar seriamente no bem do Estado brasileiro, sem buscar modelos viciados no primeiro ou no último mundo, e, portanto, recusam-se a relacioná-los com outros fatos que despontam nas ruas ou no horizonte. Enquanto isso, as mais novas palavras-de-ordem do movimento que nas ruas está são também velhas de doer, e foram, hoje à noite, levantadas bem alto para que nenhum inglês possa dizer que não as viu e não sabe de onde vêm: são “passe-livre”, “reforma agrária” e “reforma urbana”. O único problema que elas resolvem é o da Constituição dita “cidadã”, que, “lideranças”, avocando poderes, rasgam, de alto a baixo. A palavra-de-ordem que se esconde vestida de preto sob esses lençóis brancos que tanto assustam tanta gente que, mesmo assim, insiste em ir às ruas, é uma só: “dane-se o Estado”. De que adianta alguém cantar o Hino nacional e se enrolar na Bandeira brasileira se ninguém sabe nem quer saber a que eles se referem?

 

Pois bem. Agora, ao meu soneto:

 

Soneto de Transfiguração 

 

De repente, o riso fez-se do pranto,

Barulhento e colorido como um rito.

E das bocas abertas fez-se o grito

E de rojões e pedras fez-se o espanto.

 

De repente, do marasmo fez-se o vento

Que, aos ônibus, alastrou alguma chama.

E do ignorado fez-se o ressentimento

E da turba inglória fez-se a fama.

 

De repente, não mais que de repente,

Fez-se uno o que é dessemelhante

E fez-se impávido o que é obediente. 

 

Fez-se do nada um ser surpreendente.

Fez-se virtuosa uma aventura errante.

De repente, não mais que de repente.

 

Sub censura…

              

 

  

 

 

 

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