Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br
 
 

Moisés 

 

        Em seu blogue, Rodrigo Constantino publicou, sob o título “O simbolismo dos punhos cerrados”, um texto e algumas imagens (*) a pretexto das poses em que se deixaram fotografar Genoíno, Dirceu e outros tantos mais antigos.

 

       Braços levados ao alto em público – ambos os braços ou apenas o esquerdo ou o direito, estejam os punhos cerrados, estejam as mãos abertas ou entrelaçadas – costumam ilustrar propagandas de desodorantes. Que, em geral, pretendem transmitir uma sensação de poder, liberdade, sensualidade, alegria, frescor, bem estar… mas são de muito mau gosto, estúpidas, cafonas, ridículas, algumas até mesmo asquerosas se bem observadas.

 

       Propaganda de perfumaria não é feita para inspirar lágrimas. Nem é feita para provocar risadas. É feita exclusivamente para vender perfumaria. Mesmo que o produto seja inócuo ou seja nocivo.

 

       Braços erguidos são também recomendados em manuais de propaganda de perfumaria política. Se super-heróis de araque são flagrados por fotógrafos com os braços nessa posição, mesmo que a legenda se diversifique, alguma perfumaria alguém nos estará querendo vender. E a propaganda será distribuída por todos os meios possíveis, porque é importante que a imagem se fixe atrás de nossa retina. Nem sempre o produto se põe evidente, e por muitos de nós será comprado não por ele mesmo, mas pelas alegadas vantagens materiais e imateriais que nos traria se fosse aceito e usado sem moderação, vantagens que serão levadas muito a sério. Tal como são levadas a sério as supostas vantagens de tudo e mais um pouco que preenche em vão os nossos dias vãos.

 

SEMPRE CABE MAIS UM

 

       Bem que a propaganda, qualquer propaganda, de qualquer coisa, se fosse mais inteligente, poderia servir não só para estimular o consumo, mas para também estimular o público a ser um pouquinho mais exigente, mais crítico e a reagir. Nem que o estimulasse apenas a sair em busca da estética perdida. Especialmente quando fosse a propaganda de uma perfumaria política. 

 

       Como consumir é bom, e como ninguém por aqui está a fim de reagir, continuaremos a produzir e a admirar as propagandas, a acreditar que elas nos indicam o que nos abrirá caminho à terra prometida tal como Moisés teria afastado as águas do Mar Vermelho, continuaremos a colecionar produtos propagandeados como essenciais à nossa sobrevivência e a trocar figurinhas, todas elas com os braços apontando para cima.

 

       E continuaremos a chamar, como já chamamos, essa prática lúdica, que, barata ou cara, custa-nos não menos que a vida, de prática política.

 

       Aliás, pior ainda: consideraremos, para todo o sempre, essa prática como muito bela, muito sadia e essencialmente democrática.

 

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(*) http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/corrupcao/o-simbolismo-do-punho-cerrado/

 

 

 

 

  

  

 

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