Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

Ob in Freude, ob in Not, Bleiben wir getreu bis in den Tod” (seja na alegria, seja no pesar, seremos fiéis até a morte) – de “Alte Kameraden” (Velhos Camaradas), marcha de Carl Teike, composta na Prússia em 1889, que costuma ser executada nas Academias Militares do mundo inteiro, especialmente ao fim do curso.

 

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      A guerrilha organizada em todo o sub-continente Sul-americano por inimigos do Estado nacional tumultuou o Brasil em dada época, provocando mortes de civis e militares e prejuízos materiais. Contra ela o Exército Brasileiro e as demais Armas se mobilizaram. E um regime de exceção se impôs por necessário, para que a população pudesse prosseguir vivendo sem experimentar os horrores de uma guerra civil. Confundindo novos métodos de ação adotados pela dita “esquerda” com a pacificação do País, os militares se recolheram aos Quartéis e, antes de entregar o poder novamente aos civis, permitiram uma anistia generalizada e o retorno ao território nacional dos que se auto-exilaram no exterior ao perderem seus cargos e/ou direitos políticos por terem cometido ações terroristas ou por terem fomentado uma agitação irresponsável.

 

      A guerrilha, porém, passou a contar com farta literatura fantasiosa e romantizada a justificá-la, o que deixou latentes suas alegadas razões ainda que não se ponha em ação. Sensibilizando os incautos, os “ex-guerrilheiros” puderam ser eleitos pelo voto direto, fazendo do Estado brasileiro o que bem entenderam sem que suas atitudes e suas intenções, tanto as do passado quanto as voltadas ao futuro, fossem questionadas – enquanto o porquê da anterior intervenção militar pôde ser sistematicamente omitido de nossa História, e vem sendo, no presente, pervertido por alguns e absolutamente esquecido por outros. 

 

      Alguns brasileiros, não muitos, indignaram-se com a invenção de uma Comissão de notáveis reunida às expensas do próprio Estado cujos “trabalhos” se destinavam a engordar essa literatura, divulgando uma “verdade” que condenasse a repressão aos “ex-guerrilheiros” e “ex-terroristas” como tendo sido criminosa. Alguns brasileiros, poucos, indignaram-se com o resultado dessa pantomima armada, que proclamou como “torturadores” 377 militares de várias patentes, entre eles os Presidentes da República e o Patrono de uma das três Armas do Estado. Alguns brasileiros, bem mais poucos, uns três ou quatro, acreditando que a Comissão “cumpriu seu papel”, indignaram-se apenas com a inclusão de seus familiares ou algum antigo conhecido que fosse considerado uma boa alma naquela lista. É o caso de Dona Claudia Maria Madureira de Pinho, que acusa uma injusta menção ao nome de seu pai entre os que teriam sido responsáveis por “crimes contra a humanidade” por lhe ter sido atribuído o combate aos “revolucionários”. Trocando em miúdos, o que lhe ocorreu levantar contra a leviandade daquela Comissão (seria apenas “leviandade” ou essa Comissão teria um claro propósito?) pode ser resumido em um único parágrafo:

 

“Eu, que sou sua filha, vou contar quem foi papai – o que ninguém mais poderá fazer. Posso afirmar que papai, que nasceu pobre, de mãe analfabeta, e só matou um único alemão na Batalha de Montese, não cometeria crimes contra a humanidade, pois só entrou nas Forças Armadas porque achou que poderia ter futuro. Talvez papai não devesse ter acreditado no Exército. Papai foi preso e arriscou uma corte marcial por se recusar a separar os soldados brancos dos negros em seu pelotão durante paradas. Um preso político, que almoçava com papai na Vila Militar, ao ser libertado foi visitá-lo. O período da ditadura foi difícil para papai e para mim porque, quando papai implorava que eu ficasse em casa porque tinha medo de que eu desaparecesse e ele não conseguisse me localizar, eu o desobedecia e ia engrossar as passeatas contra o Governo. Entre os melhores amigos de papai estavam vários militares cassados pela ditadura. Mas quando Geisel e Frota quiseram acabar com o horror dos porões, depois de Vladimir Herzog ter sido assassinado dentro de sua cela no DOI-Codi, chamaram papai para comandar o Centro de Informações do Exército. Papai viajou de quartel em quartel tentando impedir a barbárie praticada por quem não era militar de fato e por ordens não podia ser contido. Então, papai, que mantinha um pedido de saída para a reserva pronto na gaveta, explicou a Geisel e a Frota que não tinha perfil adequado ao cargo porque sua vida no Exército Brasileiro, que abrigou alguns dos homens mais abjetos em suas fileiras, havia sido toda baseada no respeito à Convenção de Genebra.”  

 

      Como é que é?

 

      Bem, festa é festa. Essa festa não é nossa, e nela sempre caberá mais um, desde que dance conforme a música. Mas, se, definitivamente, essa festa não é nossa, a quem de nós esse samba do crioulo doido deveria comover? E por que os atos e as decisões estritamente individuais de alguém que tenha sido nomeado “torturador” por meia dúzia de trapaceiros deveriam nos interessar em especial? O General Antonio da Silva Campos, se alcançou o posto que ostentava, idiota não seria e algum espírito de caserna deveria ter demonstrado e ter mantido, mesmo após ter passado para a Reserva. Sentir-se-ia hoje gratificado por essa “defesa” pública feita por sua filha? Por quê? Porque teria sido ele o único injustiçado entre seus camaradas ao ser proclamada a “verdade” da tal Comissão? Que verdade essa Comissão proclamou, afinal? Há alguma verdade a respeito de alguém no documento por ela divulgado? Ou haveria, por acaso, muitas verdades a respeito de muitos e mentiras apenas a respeito de outros poucos incompreensivelmente contemplados?

 

      Muitos brasileiros se admiram ao tomar conhecimento das “contradições” dos que hoje estão no Governo fazendo uso do poder que lhes foi delegado para locupletar-se particularmente da forma como bem entendem. Todos nós nos esquecemos de observar, no entanto, as “contradições” dos que os combatem ou dizem combatê-los. Não percebemos a que ponto de desrespeito por nossa própria História nós chegamos, a que ponto alcançam a nossa absoluta falta de consciência e a nossa tolerância com a miséria moral ao fim de tantos anos sob o jugo da dita “esquerda”.

 

      Mesmo os que viveram as tensões e as angústias nos Quartéis e no seio das famílias de Oficiais militares no período pré e pós 1964 podem compreender perfeitamente que os mais jovens tenham uma impressão equivocada do que ocorreu no passado e do que hoje ocorre – e sabem que é impossível competir com a propaganda dessa dita “esquerda”, especialmente quando se vêem aparelhadas tal como estão a Imprensa, a Educação, a Cultura em geral. Será igualmente impossível, porém, aceitar que os filhotes da chamada “abertura” não tenham uma idade determinada e que qualquer criaturinha que seja filha de um General que tenha ocupado uma função de tamanha responsabilidade durante o regime de exceção venha publicamente dizer o que nos disse Dona Cláudia.

 

      Se ela não consegue bem compreender o que moveu seu pai em vida ou considera o que ele tenha feito insuficiente para de sua memória se orgulhar, que não invente histórias da carochinha tentando desculpá-lo do que ela mesma acredita ter sido errado ou do que ela mesma sinta vergonha sabe-se lá por quê; e tente, sim, resolver-se com a ajuda de um psicanalista. Mas que não envolva alguém mais em seus dramas pessoais. Que vá insultar o Exército Brasileiro e os nossos Soldados assim no quinto dos infernos! E que no quinto dos infernos vá também pastar quem considere muito nobre essa demonstração de “amor filial” e demais atitudes semelhantes.

 

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Texto que vem sendo divulgado por correio eletrônico e talvez tenha sido publicado em algum lugar que não é citado:

“Pela memória de meu pai
Papai não cometeu crimes contra a humanidade. Tentou evitá-los. Foi escolhido para o cargo para isso. Por seu perfil. Era a missão. Acreditava na instituição do Exército
Pouco após o assassinato de Vladimir Herzog dentro de sua cela no DOI-Codi, em São Paulo, o presidente Ernesto Geisel e o ministro do Exército, Sílvio Frota, convocaram meu pai ao Planalto. Desejavam que assumisse o comando do Centro de Informações do Exército, o Ciex. Precisavam de alguém que acabasse com o horror dos porões. Papai, o general Antonio da Silva Campos, não queria o cargo. Em família o pressionamos para que passasse à reserva. Era uma ordem, ele a acatou. (Mantinha o pedido de saída para a reserva pronto na gaveta.) Por conta desta passagem de pouco mais de um ano pelo comando do Ciex, seu nome foi listado entre os 377 responsáveis por crimes contra a humanidade da Comissão da Verdade.
O que leva um nome a ser colocado como responsável por crimes contra a humanidade em um relatório oficial? Ele é citado três vezes no documento, todas de forma vaga. Mas está na lista. Os membros da comissão sequer descobriram o ano em que nasceu ou aquele em que morreu. Puseram seu nome entre os responsáveis pelo pior de todos os crimes que um ser humano pode cometer sem, ao menos, ter o respeito, a decência, de buscar saber de quem se tratava.
A Geisel e Frota, naquele dia, papai argumentou que não tinha o perfil. Que sua vida no Exército havia sido toda baseada no respeito à Convenção de Genebra. ‘Quem aceita tocar num fio de cabelo de um preso’, lhes disse, ‘ainda mais torturar, é um ser doente.’ Não eram militares de fato. Eram pessoas ‘a quem nenhuma ordem é capaz de conter’. Como de fato nenhuma ordem conteve. Durante aquele ano do Ciex, que passou viajando de quartel em quartel tentando impedir a barbárie, perdeu dez quilos.
Papai nasceu em família pobre. Sua mãe, imigrante portuguesa, foi uma empregada doméstica que jamais aprendeu a ler. Entrou nas Forças Armadas porque ali poderia estudar, encontrar futuro. Se fez voluntário para combater o fascismo durante a Segunda Guerra. Foi preso e arriscou corte marcial porque se recusava a separar soldados brancos de negros em seu pelotão durante paradas. Contava a história do único homem que soube ter matado, um soldado alemão, na Batalha de Montese. Lance de sorte: sacou mais rápido, disparou. Seguindo as regras, retirou do corpo o cordão de identificação que seria enviado para as forças inimigas e manuseou sua carteira. Lá, encontrou a foto de uma mulher e de um bebê. No meio de um tiroteio, nunca se sabe se uma bala feriu ou matou. Mas, naquele momento, ele soube. Os pesadelos com aquela imagem o perseguiriam pelo resto da vida.
Entre seus melhores amigos estavam vários militares cassados pela ditadura. Dentre eles, o brigadeiro Rui Moreira Lima. Estão, como papai, mortos. Não podem vir à frente e depor em seu nome, contar quem foi Antonio da Silva Campos. Mas eu, sua filha, posso.
O período da ditadura foi difícil para nós. Eu ia às passeatas pedir a volta da democracia, ele implorava que ficasse em casa. Tinha medo de que, se desaparecesse, não conseguiria me localizar. Ainda tenente-coronel, no fim dos anos 1960, foi responsável direto por um preso político, na Vila Militar. Almoçava com ele. Talvez ainda esteja vivo. Foi libertado e retornou para visitar meu pai.
Papai não cometeu crimes contra a humanidade. Tentou evitá-los. Foi escolhido para o cargo para isso. Por seu perfil. Era a missão. Acreditava na instituição do Exército. Talvez não devesse. De fato comandou o Ciex em 1976 e 1977. Mas, por honestidade, por integridade, no mínimo por uma questão de decência, antes de listar seu nome entre alguns dos homens mais abjetos que passaram pelas forças militares brasileiras, deviam se informar sobre quem foi.
Mas não fizeram, sequer, uma busca no Google.”

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Claudia Maria Madureira de Pinho é filha do general Antonio da Silva Campos, citado pela Comissão da Verdade como responsável por crimes contra a Humanidade

 

 

 

  

 

 

 

 

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