Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

      Gosto muito de olhar para o céu e de poder ver aquele azul imenso, as nuvens passeando, livres e brancas como dizem que é a paz; gosto de ver os passarinhos voando, gosto de poder ouvi-los gorjeando, as cigarras cantando no alto da copa das árvores… A Natureza é muito bela e dela desfruto o quanto posso. Quando olho para o chão, só vejo bestas feras – as indomadas e as ditas domesticadas. O que não me fará considerar a Natureza menos bela. Mas é com essas bestas feras que convivo. Aliás, é com elas que convivemos todos nós. E, entre elas, buscamos sobreviver.

 

      O artigo abaixo, assinado por Luís Felipe Pondé, é muito interessante. Muito. Imagino que ele acuse os fatos que constata e que com eles se preocupe por razões muito e muito elevadas.

 

      Mas, como a exposição que ele faz desses fatos mais se assemelha à descrição de um cenário de guerra que a um poema parnasiano, vou aproveitar para tirar uma soneca.

 

      Se e quando for levantada a questão dos meios que deverão ser usados para tentar resolver esse enguiço todo que Pondé acusa, por favor, dêem-me, rápido, um cutucão. Porque vou gostar de lhe perguntar se o que ele propõe é que resolvamos tudo isso peripateticamente. 

 

      Se ele disser que sim, me levanto e vou embora, sem mais. Não haverá possibilidade de qualquer discussão ou, sequer, de uma troca de idéias. 

 

      Se disser que não, também me levanto e vou embora, porque me convenço de que ele só faz questão de mencionar “terríveis torturas” durante a “ditadura carregada por um golpe” porque não abre mão de passear pelos bosques férteis da demagogia abocanhando pedaços de melancias e assoprando os caroços. Gosto muito de melancias geladas, mas elas podem ser muito perigosas se ingeridas quando quentes do sol.

 

      E se Pondé disser que não sabe como resolver, aceitarei sua resposta numa boa, mas me levantarei mais rápido, para poder ir embora mais rápido ainda. E vou procurar trocar idéias com quem possa saber. Ou discutir com quem possa querer saber. E queira resolver.

 

      Por enquanto, aproveito para tirar uma soneca.

 

      Porque tudo isso que Pondé acusa, além de muito e muito mais do que isso tudo, já estamos cansados de conhecer. E não só deixamos acontecer como deixamos que continue acontecendo.

 

      Ou não?

 

 

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segunda-feira, novembro 04, 2013

Eu acuso – LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP – 04/11

O bullying ideológico com os mais jovens é apenas o efeito, a causa é maior

 

Muitos alunos de universidade e ensino médio estão sendo acuados em sala de aula por recusarem a pregação marxista. São reprovados em trabalhos ou taxados de egoístas e insensíveis. No Enem, questões ideológicas obrigam esses jovens a “fingirem” que são marxistas para não terem resultados ruins.

Estamos entrando numa época de trevas no país. O bullying ideológico com os mais jovens é apenas o efeito, a causa é maior. Vejamos.

No cenário geral, desde a maldita ditadura, colou no país a imagem de que a esquerda é amante da liberdade. Mentira. Só analfabeto em história pensa isso. Também colou a imagem de que ela foi vítima da ditadura. Claro, muitas pessoas o foram, sofreram terríveis torturas e isso deve ser apurado. Mas, refiro-me ao projeto político da esquerda. Este se saiu muito bem porque conseguiu vender a imagem de que a esquerda é amante da liberdade, quando na realidade é extremamente autoritária.

Nas universidades, tomaram as ciências humanas, principalmente as sociais, a ponto de fazerem da universidade púlpito de pregação. No ensino médio, assumem que a única coisa que os alunos devem conhecer como “estudo do meio” é a realidade do MST, como se o mundo fosse feito apenas por seus parceiros políticos. Demonizam a atividade empresarial como se esta fosse feita por criminosos usurários. Se pudessem, sacrificariam um Shylock por dia.

Estamos entrando num período de trevas. Nos partidos políticos, a seita tomou o espectro ideológico na sua quase totalidade. Só há partidos de esquerda, centro-esquerda, esquerda corrupta (o que é normalíssimo) e do “pântano”. Não há outra opção.

A camada média dos agentes da mídia também é bastante tomada por crentes. A própria magistratura não escapa da influência do credo em questão. Artistas brincam de amantes dos “black blocs” e se esquecem que tudo que têm vem do mercado de bens culturais.

Mas o fato é que brincar de simpatizante de mascarado vende disco.

Em vez do debate de ideias, passam à violência difamatória, intimidação e recusam o jogo democrático em nome de uma suposta santidade política e moral que a história do século 20 na sua totalidade desmente. Usam táticas do fascismo mais antigo: eliminar o descrente antes de tudo pela redução dele ao silêncio, apostando no medo.

Mesmos os institutos culturais financiados por bancos despejam rios de dinheiro na formação de jovens intelectuais contra a sociedade de mercado, contra a liberdade de expressão e a favor do flerte com a violência “revolucionária”.

Além da opção dos bancos por investirem em intelectuais da seita marxista (e suas similares), como a maioria esmagadora dos departamentos de ciências humanas estão fechados aos não crentes, dezenas de jovens não crentes na seita marxista soçobram no vazio profissional.

Logo quase não haverá resistência ao ataque à democracia entre nós. A ameaça da ditadura volta, não carregada por um golpe, mas erguida por um lento processo de aniquilamento de qualquer pensamento possível contra a seita.

E aí voltamos aos alunos. Além de sofrerem nas mãos de professores (claro que não se trata da totalidade da categoria) que acuam os não crentes, acusando-os de antiéticos porque não comungam com a crença “cubana”, muitos desses jovens veem seu dia a dia confiscado pelo autoritarismo de colegas que se arvoram em representantes dos alunos ou das instituições de ensino, criando impasses cotidianos como invasão de reitorias e greves votadas por uma minoria que sequestra a liberdade da maioria de viver sua vida em paz.

Muitos desses movimentos são autoritários, inclusive porque trabalham também com a intimidação e difamação dos colegas não crentes. Pura truculência ideológica.

Como estes não crentes não formam um grupo, não são articulados nem têm tempo para sê-lo, a truculência dos autoritários faz um estrago diante da inexistência de uma resistência organizada.

Recebo muitos e-mails desses jovens. Um deles, especificamente, já desistiu de dois cursos de humanas por não aceitar a pregação. Uma vergonha para nós.

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Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, “Contra um mundo melhor” (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de “Ilustrada”.

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2013/11/1366183-eu-acuso.shtml 

 

 

 

 

  

  

 

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