Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

      

 

 

     Em um sítio virtual que costumo, por vezes, visitar, encontro publicado – portanto, recomendado –, na seção “para meditar”, o texto de um sociólogo internacionalmente conhecido e por muitos acatado (*).

 

     Leio, então, o texto; em seguida, medito.

 

     E, após ter, creio eu, suficientemente meditado, imagino ter podido reunir algumas conclusões, nenhuma delas muito importante ou surpreendente. A de que tenho nenhum poder, por exemplo. A de que não sou dona de qualquer verdade absoluta, mesmo porque ninguém é, nem aqueles que têm ou já tiveram algum ou muito poder nas mãos. Talvez exatamente por isso, se e quando chegar aos meus 80 anos, espero, mais que tudo, que tenha podido preservar minha lucidez. E espero que ela me livre de declarar, tentando me desculpar por meus muitos erros (se sou humana, errar será inevitável), que “me dediquei muito mais a ver a situação dos outros. De uma maneira modesta, sem proclamar”. Da situação nacional, pois – que é do que depende a minha situação e a “dos outros”, direta ou indiretamente, sejam eles quem forem, amigos ou inimigos, próximos ou distantes –, procuro sempre divulgar o que percebo, na expectativa de contribuir, em meus limites, com uma discussão que, a meu ver, a cada dia mais se nos faz necessária. Por cuidados devidos aos que dependem de nossa lucidez e nossa responsabilidade.  

 

     Concluo ainda que não levo, definitivamente, “minha vida inteira pensando no mundo, pensando na sociedade, pensando nas pessoas, nos outros”. Mas sempre me foi muito difícil supor alguma vez que fosse possível alguém querer dissociar o “intelectual” do “político”. Principalmente na faina sociológica. E que nunca imaginei que “buscar fazer alguma coisa que mude a situação mais ampla do que a minha própria” pudesse alguma vez prescindir da consciência de que “as pessoas contam”; ou prescindir da percepção de que o sentido da Vida não depende daquele que eu possa querer, ou não, emprestar à minha própria existência. Se a Vida é a Vida, enquanto Vida ela terá um sentido que extrapola qualquer definição mais detalhada que lhe venha a ser dada por qualquer indivíduo. E, se acaso eu confundisse o sentido da Vida com um sentido qualquer que quisesse dar à minha própria existência, ou se tentasse dissociar esses sentidos um do outro, o sentido de minha existência não seria “sentido” algum, seria apenas um expediente, uma invenção que me deixasse confortável ou menos desconfortável.

 

     Sei exatamente de quais latitude e longitude venho e, principalmente, sei por onde se estende o território – que tem seus limites perfeitamente delineados – em que me finquei – nos meus próprios limites, por mais que os possa pretender ampliar; sei também que estou onde estou porque quero estar, embora desconheça por completo, tal como todos desconhecem, o dia de amanhã. Assim como sei que não é pela idade que a morte escolhe quem consigo levar em seus passeios pelo mundo. Sei ainda que apenas quem disso se esquece e, à toa, muito se presume poderá paralisar-se diante de qualquer “angústia da morte e da ausência de um destino claro”.

 

     Assim sendo, bem sei também que o que percebo e faço questão de enunciar será não mais que uma opinião, uma opinião pessoal, limitada, que depende de referências acumuladas em uma existência limitada que, essa sim, é só minha, de ninguém mais, apesar de que ela se faça imersa no todo social do qual extraio algumas verdades que também serão só minhas, de mais ninguém. Penso o meu País porque nele me encontro e porque o que nele ocorre me afeta diretamente, e muito. Sou, portanto, solidária, em meus limites, com aqueles que nele procuram viver e procuram dar sentido ao que os cerca de perto de acordo com o sentido da Vida – que é a própria Vida, não outro qualquer.  Minha capacidade de abstração e de projeção também tem limites bem contornados: ele, o meu País, está no mundo – não eu, não aqueles que considero iguais a mim, os “meus”.

 

     Muitas e muitas vezes, porém, penso e repenso à exaustão se devo ou não devo divulgar o que percebo. Principalmente pondero se o que divulgo será útil ou inútil. O inútil, muitas vezes, poderá não ser apenas inútil e mostra-se prejudicial. Porque ocupa tempo, espaço e atenção. Que, na Vida, são preciosos.

 

     Pronto! Meditei! Despendendo algum esforço, é certo, mas meditei.

 

     Por mais que me esforce, porém, não consigo, sinceramente, alcançar saber a que tipo de meditação nos poderia ter estimulado o texto do sociólogo “velho de guerra” caso esse exercício não nos tivesse sido recomendado. E que é o que, de minimamente útil, suas palavras nos poderiam ter acrescentado.

 

     Bem, já disse e repito: tenho eu cá os meus limites…  

      

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     (*) As palavras postas entre aspas estão em “A soma e o resto: um olhar sobre a vida aos 80 anos” do sociólogo Fernando Henrique Cardoso, livro publicado pela Ed. Civilização Brasileira, em 2011, cujo trecho abaixo foi divulgado na web.

      

     (…) Tem que haver, é claro, algum grau de riqueza, senão a miséria, a escassez, predomina e então não se tem nem liberdade nem igualdade. A escassez é a luta, a guerra pela sobrevivência. Tem que haver um certo bem-estar material. Além disso, porém, é preciso criar uma condição humana de dignidade, de decência, de aceitação e respeito pelo outro.

     Tentei entender isso do ponto de vista intelectual e fazer a mesma coisa do ponto de vista político. Então acho que dei um certo sentido à minha vida. Esse sentido tem que ser dado por cada um. Não está dado que todos tenham que ter o mesmo sentido e haverá quem nunca encontre sentido na vida e fique batendo cabeça.

     “Quando se vai ficando velho e, portanto, mais maduro, você tem que valorizar mais a felicidade, a amizade, essas coisas que, no começo da vida, parecem secundárias.”Essa angústia vai ser permanente. Não tem solução. É parte da condição humana. Não sabemos de onde viemos, não sabemos para onde vamos. Tampouco sabemos por que e para que estamos aqui. O que não podemos é deixar que essa angústia da morte e da ausência de um destino claro nos paralise.

     Cada um tem que inventar sua resposta. Cada um tem que dar sentido à sua vida. Ela não tem sentido em si. Esse sentido não está dado. Cada um tem que construir o seu sentido. E vai sofrer para encontrar.

     Uma resposta está no próprio convívio com os outros. Inclusive com os mortos. Talvez isso arrefeça um pouco a angústia. Não se vive sem amizade, sem amor, sem adversidade. Quando se vai ficando velho e, portanto, mais maduro, você tem que valorizar mais a felicidade, a amizade, essas coisas que, no começo da vida, parecem secundárias. Você continua querendo mudar o mundo, mas sabe que as pessoas contam. Embora eu tenha sempre me definido como mais intelectual do que como político, na verdade minha vida foi muito mais dedicada ao público. Isso vem da minha ancestralidade, da minha convivência familiar.

     O sentido, para mim, sempre consistiu em buscar fazer alguma coisa que mude a situação mais ampla do que a minha própria Nunca fui uma pessoa voltada em primeiro lugar para alcançar o meu bem-estar. Eu tenho bem-estar. Diria que quase sempre tive bem-estar. Mas esse não foi o meu valor.

     Mesmo em termos subjetivos, a ideia de felicidade, nunca busquei com denodo a felicidade pessoal. Eu a tive de alguma forma, nunca me senti infeliz. Eu me dediquei muito mais a ver a situação dos outros. De uma maneira modesta, sem proclamar.

     Nunca andei proclamando, sou solidário, sou do bem. Mas levei a vida inteira pensando no mundo, pensando na sociedade, pensando nas pessoas, nos outros. O sentido que dei à minha vida foi construir isso.

 

 

 

      

 

 

   

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