Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

      A declaração da então Ministra da Saúde da África do Sul – a de que a AIDS (SIDA, em bom Português) poderia ser curada com uma dieta de azeite de oliva, alho e beterraba – e a de Jacob Zuma, homem forte do regime que, logo em seguida, seria eleito Presidente desse país africano – a de que, depois de fazer sexo com mulheres infectadas pelo HIV, ele se livrava do vírus tomando um bom banho – escandalizaram o mundo em 2007. E com razão. Não à toa, “ir a cemitérios para os funerais de parentes e amigos” era “uma das atividades a que os sul-africanos” dedicavam mais tempo; e as escavadeiras preparavam “a cada dia dezenas de novos sepulcros nos gigantescos e reluzentes cemitérios de Soweto, Elizabethtown, Khayelitsha e as demais cidades…” – como nos dizia o repórter de La Vanguardia (http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI1856221-EI298,00.html).   

 

      Aquelas declarações me vieram imediatamente à lembrança ao abrir, ontem, o computador e me deparar com as imagens expostas em http://noticias.uol.com.br/album/2014/01/30/campanha-denuncia-casos-de-discriminacao-e-xenofobia-na-universidade-de-coimbra.htm

 

      Indivíduos brasileiros desde sempre passearam livre e alegremente pela Europa e pelo mundo inteiro sem enfrentar qualquer sombra de discriminação. Nem eram emigrantes nem eram refugiados políticos amparados por uma “Anistia Internacional” – eram turistas curiosos ou estudiosos que buscavam Universidades mais adequadas às suas ambições profissionais ou mesmo políticas. A partir de certo momento, porém, passaram a ser vistos com certo desagrado em certos locais em virtude do comportamento que assumiam quando “em bando”, inclusive quando em excursões de classe média alta. Seriam um pouco mais que apenas barulhentos.

 

      Já especificamente em solo português, os indivíduos brasileiros desde sempre foram acolhidos com alegria, carinho e respeito. Com muito e muito mais carinho, alegria e respeito com que os indivíduos portugueses, imigrantes ou visitantes, eram acolhidos em nosso País. Estes, sim, muitas vezes eram alvo de chacotas sem qualquer sentido ou razão, que apenas nos deveriam causar vergonha, a nós mesmos. Mas isso até se explicaria por uma espécie de nacionalismo retardado – porque, de Portugal, havíamos sido uma colônia e, na História, firmou-se a birra. De repente, os brasileiros passaram a ser evitados e a ser apontados como inconvenientes ou mesmo indesejáveis em qualquer lugar, inclusive em Portugal. Que aconteceu? Por que “os brasileiros” são hoje vistos como ignorantes, desrespeitosos, irresponsáveis, baderneiros, absolutamente amorais, quando não imorais, epítetos que os piqueniques de nossas autoridades em Lisboa só reforçam, quando não são confundidos com narcotraficantes e/ou terroristas, a ponto de um Chanceler ter sido obrigado a submeter-se a revista policial em aeroporto dos EUA e a tirar seus sapatos?

 

      Não só um protecionismo nacional, a bem dizer natural, com relação aos postos de trabalho ameaçados em época de profunda crise econômica generalizada determinaria que qualquer brasileiro ou outros indivíduos estrangeiros bem ou mal capacitados quaisquer fossem malqueridos e malvistos, quando não maltratados por populações européias que procuram desesperadamente se resguardar em suas conquistas sociais, em seus direitos suadamente conquistados e em sua cultura. Um longo processo de desmoralização da cultura brasileira e do próprio povo brasileiro foi o grande responsável por um especial retrato de nós, que se viu pintado nos tons que nós mesmos afirmávamos ser os nossos e que hoje provoca uma reação que tanto nos ofende, a todos nós. A começar pela exposição e a valorização, como mercadoria, das tais “brasilidades”, algo recortado, remontado e estereotipado que representaria a “nossa cultura”. Entre praias paradisíacas, frutos, pássaros, matas, cachoeiras, cascatas e futebol, o nosso País passou a ser apresentado, reconhecido e desejado no exterior pelas propagandas oficiais e extra-oficiais que investiam em imagens de corpos nus em tribos silvestres, em corpos seminus em tribos urbanas, em nádegas se requebrando ao som de pandeiros, cuícas e berimbaus, enquanto acolhia “turistas” do mundo inteiro em busca de aventuras libertinas que até hoje nos recheiam os cofres públicos e privados. Passamos a ser reconhecidos como um país aberto ao desfrute das “espontaneidades” e das “liberdades”. E apenas isso, nada mais que isso.

 

      Por mais que nossos Ministros ou nossos Presidentes eleitos possam nos recomendar uma dieta de azeite, alho e beterraba ou um bom banho com água e sabão, por mais que a nossa Imprensa possa amparar e estimular denúncias de xenofobia ou campanhas para que os portugueses aprendam a falar, a escrever e a pensar como “os brasileiros” (?), essas providências não serão eficazes para combater e remediar os efeitos perversos da epidemia de “preconceitos” contra os brasileiros todos que se encontrem porventura em solo europeu ou em qualquer lugar do mundo. Esses “preconceitos” todos foram provocados por conceitos a respeito de nós mesmos que nós mesmos adotamos e confirmamos. Esses conceitos, não os “preconceitos” deles decorrentes, não permitiram que, hoje, pudéssemos ser apontados como um País de gente respeitável – imagem que ninguém além de nós mesmos poderia e deveria produzir.    

 

      No futuro, nada é impossível. Mas, para que o nosso País seja, algum dia, reconhecido como um centro mundial de pesquisa e propagação de conhecimento, falta-nos muito e muito feijão. Farofa não nos faz falta, e já temos de sobra. Enquanto isso não acontece, dependemos, em tudo e mais um pouco, do que é produzido no resto do mundo, do mundo civilizado. Resta-nos, então, tentar encontrar a mezinha correta e, de preferência, uma vacina eficaz contra o vírus que vem devastando a nossa própria cultura, prejudicando e, às vezes, mantendo atrás das grades em territórios alheios ou expulsando deles os nossos “indivíduos na cultura”.

 

      Em vez de pretender corrigir a educação de outros, de fazer uma propaganda escandalosa, supostamente reversa, para que discriminemos a Universidade de Coimbra e/ou tentemos obrigar Portugal a aceitar como correto o “nosso” Português, quase “dialetal”, um Português errado – mesmo porque não temos poder para desfazer ou alterar alguma coisa que não seja de fato nossa -, talvez seja o caso de começarmos a identificar e a corrigir os nossos próprios preconceitos, preconceitos novos, novíssimos, adquiridos pela leitura de manuais absolutamente equivocados, que nos tenham sido impostos por alguns poucos interessados neles ou por absoluta falta de atenção à necessidade de demonstrar respeito com o que, de fato, nosso é – os nossos próprios estúpidos preconceitos contra uma educação que busque preservar nossos valores tradicionais. E talvez seja hora de começarmos a cuidar um pouco mais de nossa própria educação, permitindo que ela seja encontrada nos moldes em que o mundo real, não qualquer utopia de botequim, nos exige.

 

      Alguma coisa anda muito errada na Europa, sim. Mas essa coisa com certeza não é a mesma coisa que anda muito mais que errada em solo brasileiro. Isso só um cego não vê. E o pior cego sempre será aquele que se recusa a ver.

 

 

XENOFOBIA 1

XENOFOBIA 2

XENOFOBIA 3

XENOFOBIA 4

XENOFOBIA 5

 

 

 

 

  

  

 

 

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