Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

  

    Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho…

– Guimarães Rosa em momento de invejável lucidez

 

 

 

 

    (a pretexto de um comentário lido no Facebook: “No elevador ouvindo alunos de Letras: ‘tipo assim’, ‘as moeda’. Espero que não sejam professores dos meus filhos e sobrinhos.”)

 

    Sem pretensões a demonstrar aqui qualquer pseudo-cientificidade tão distante de meu muito pouco e muito empírico saber, eu diria que um dos muitos mitos que vêm fazendo dos cânones do “progresso” (??) um complexo instrumento de absoluto retrocesso é o da possibilidade de que tenhamos 2 registros ou 2 códigos mentais, um para a comunicação escrita, outro para a comunicação oral. Talvez alguém possa acreditar que tenhamos também um 3º registro ou código que utilizamos apenas para pensar. Ou vários registros ou códigos que correspondam a linguagens diferentes, que seremos capazes de isolar perfeitamente ao nos dirigir a pessoas mais cultas ou menos cultas, ao ouvir, ler, escrever ou falar em diferentes idiomas estrangeiros, ao tocar diferentes instrumentos musicais etc. etc.

 

    Assim, quem procure falar Português corretamente em todas e quaisquer ocasiões – ou procure fazer qualquer outra coisa tal como deve e precisa de ser feita, contas exatas, por exemplo… – poderá ser, pelos “progressistas”, apontado como purista, como pedante ou até mesmo como reacionário.

 

    O mesmo mito incluirá o pressuposto de que podemos fragmentar nossos processos mentais, isolando-os todos e cada um deles de forma a produzir coisas diferentes que nenhuma conexão guardem entre si e/ou que nada tenham a ver com nossas convicções a respeito de qualquer assunto, com nosso passado, com nossas ambições, com nossas projeções etc. etc. também por exemplo.

 

    A mente, no entanto, é um todo, um todo íntegro e totalmente articulado. O que nos permite, à falta de um elemento mais adequado, recorrer a metáforas, a analogias ou a outro elemento qualquer que, embora muitas vezes não o seja, pareça-nos similar ao que se mostra necessário e/ou ser seu substitutivo e nos “quebre o galho”. De “quebra-galho” em “quebra-galho”, porém, cada vez menos buscamos o mais adequado e cada vez mais tenderemos a substituí-lo por qualquer coisa que signifique qualquer coisa.

 

    Daí que… em que direção estará indo o nosso “avanço”, o nosso “progresso”?

 

    O saber, o cuidado e os demais elementos presentes no processo de pensar (e no de refletir, por suposto) serão sempre os mesmos saber, cuidado e demais elementos presentes no processo que nos permite querer externar o pensamento (e promover a reflexão, por suposto); portanto, serão os mesmos elementos presentes no processo de comunicação, independentemente do grau de facilidade nele encontrado por cada indivíduo. E também estarão presentes no processo de criação, de produção material etc. etc. São, todos eles, processos em e de um único sistema mental.        

 

 

 

 

 

 

 

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