Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

Os fatos obrigam Chico Buarque a se desculpar. Mas ele continua errado, na gramática e no mérito. (…) Sempre que me deparo com o uso de ‘algum’ em lugar de ‘nenhum’, fico atento. Pode ser que estejamos diante de um novo Castilho da língua portuguesa, não é? Estou entre aqueles que consideram esse emprego uma licença. Evidentemente, o que remete à melhor língua portuguesa é ‘Eu não me lembrava de ter dado entrevista NENHUMA’. Para não entrar em minudências, vou para o exemplo: — Quantos livros de gramática você já leu, Chiquinho? — Não li algum! — Hein? — Não li nenhum! — Ah, bom… (…) Ocorre, meus caros, que uma licença pode ser usada por escolha ou por ignorância.” – Reinaldo Azevedo – http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/ – 17/10/2013

 

 

      A bem da boa verdade, afirmaríamos que a gramática quase nunca obrigará Chico Buarque a se desculpar. E a estética muito pouco o obrigará a fazer isso. Muito embora os méritos e os fatos lhe pudessem exigir que o fizesse com bastante frequência. Nestes, o popular compositor vem dando chutes e trombadas, há muitos e muitos anos, mas desculpar-se é algo com que, sendo uma celebridade, ele não muito se preocupará. Celebridades, como bem sabemos, estão acima de qualquer suspeita. Não cometem erros nem contam mentiras. No máximo, se algo puder ser mais escandaloso do que sua própria fama, explicarão que desconheciam certos fatos ou que sofreram algum lapso de memória, que terá sido involuntário, como bem sabemos.

 

     Também a bem da boa verdade, diríamos que os méritos e os fatos quase nunca vêm obrigando Reinaldo Azevedo a que se desculpe. Mas, mesmo que consideremos que sejam poucos os seus tropeções (nem por isso serão pouco graves), nem sempre a estética se vê presente no que escreve; e, na semana passada, a gramática não deve ter dormido muito satisfeita com ele.  

 

     Fatos e méritos à parte (por enquanto), querer corrigir Chico Buarque por este ter dito “Eu não me lembrava de ter dado entrevista alguma a Paulo Cesar de Araújo, biógrafo de Roberto Carlos” será desconhecer não apenas as regras básicas da língua portuguesa como sua lógica irrepreensível. Se, onde e quando elas forem desprezadas, faz-se a confusão. E será pretender que se adote um galicismo como sendo uma regra “legítima” dessa nossa preciosa língua. Os franceses, sim, usam em suas frases a dupla negativa. Em Português, quem o fizer estará afirmando, não negando.

 

     Se alguém dissesse “Eu NÃO me lembrava de ter dado entrevista NENHUMA”, tal como sugere Reinaldo Azevedo que Chico Buarque devesse ter dito, esse alguém estaria dizendo o que corresponderia a “eu NÃO me lembrava de NÃO ter dado uma, qualquer, alguma entrevista” – o que, por sua vez, corresponderá a “eu me lembrava (sim!) de ter dado uma, qualquer, alguma entrevista”. O que Chico Buarque pretendia dizer, pelo que se retira de suas declarações, seria o justo contrário, fosse verdade ou não fosse. Ele quis dizer que NÃO se lembrava de ter concedido, sim, a entrevista que, sim, concedeu.

 

     Vou às minudências. No diálogo que Reinaldo Azevedo traz como exemplo de sua certeza do erro de Chico Buarque, que começa com: “— Quantos livros de gramática você já leu, Chiquinho? — Não li algum!”, o que temos é o seguinte: quantos livros terá lido Chiquinho? Se Chiquinho dissesse que NÃO tinha lido uns quantos livros, cinco, seis, dois, ele poderia ter lido os demais que lhe tivessem sido recomendados; se ele diz que NÃO leu (livro de gramática) algum, ALGUM livro, livro ALGUM, qualquer livro, um único livro de gramática, NADA do que já tenha sido publicado a respeito de gramática ele leu. E, se ele NADA leu, a resposta correta não poderia ser “NÃO li NENHUM” (livro). Ela seria: “NÃO li ALGUM (livro)”, ou “eu li NENHUM (livro) ou “NENHUM (livro) eu li” – e lhe caberia, perfeitamente, ouvir um “Hein?” de desaprovação, de espanto, como resposta (e, neste ponto, já estarei entrando em méritos…). Mas, sendo esperto, e cuidando de escapar da bronca, Chiquinho quis “corrigir-se” e disse em seguida: “— Não li nenhum!”. E, então, terá merecido um — Ah, bom…” como resposta que, antes, não lhe caberia, porque esta é uma resposta de aprovação. Recebeu-a agora porque, dizendo “NÃO li NENHUM”, terá dito que leu, sim, livros de gramática – aliás, poderá ter lido todos eles. Quantos livros de gramática Chiquinho NÃO leu? NENHUM. Invertendo os termos: se NENHUM livro de gramática Chiquinho NÃO leu, quantos livros ele leu? Se não todos, algum ele terá lido.  

 

     Se digo que a preguiça me leva a NÃO querer fazer uma coisa qualquer, alguma coisa, escrever um livro, por exemplo, como poderemos supor que o dissesse, principalmente por escrito? Para não ser acusada de incoerência, levando em conta a preguiça que aleguei, um segundo “não” só poderia estar na frase no início dela, antes de uma vírgula, no final, depois de uma vírgula, ou entre vírgulas, pois seria apenas um reforço: NÃO, eu NÃO quero escrever um livro. Ou eu NÃO quero, NÃO, escrever um livro. Ou eu NÃO quero escrever um livro, NÃO. Ou, como diriam os nordestinos, talvez por influência holandesa (?!), quero NÃO escrever um livro, ou escrever um livro, quero NÃO. Ou, simplesmente, NÃO quero escrever livro ALGUM. E, se não quero escrever um livro, o que, sim, eu quero é escrever NENHUM livro. Somente se NÃO quero (negativo) fazer alguma coisa ou coisa alguma, tanto faz, o que quero (afirmativo) será fazer coisa NENHUMA (negativo) – o que só a preguiça me permitirá dizer. Não poderei dizer que NÃO quero NÃO escrever um livro. Se um segundo “não” estiver desprovido de vírgulas, e se o “nenhum” estiver confrontando o único “não”, em conjunto, na frase, eles estarão afirmando que estou querendo fazer alguma coisa, SIM.

 

     Explicando de melhor forma (penso eu), pelo avesso: se o que eu NÃO quero é ver-me NÃO fazendo qualquer coisa, se NÃO quero NADA fazer (ou fazer NADA), se NÃO quero fazer NENHUMA coisa (ou coisa NENHUMA), se NÃO quero escrever NENHUM livro (ou livro NENHUM), que será o que eu quero, então, fazer? Tudo. Ou fazer alguma coisa. Ou fazer qualquer coisa, até escrever um livro. O que não se encaixará muito bem com a preguiça que aleguei. Se não quero escrever um livro não poderei dizer que NÃO quero escrever livro NENHUM. Chico Buarque disse que NÃO se lembrava da entrevista que deu. Não é que NÃO se lembrasse da entrevista que NÃO deu, ou seja, que NÃO se lembrava de NENHUMA entrevista que tivesse dado, ou de entrevista NENHUMA. Ele NÃO se lembrava de que ALGUMA entrevista teria sido dada, NÃO se lembrava de entrevista ALGUMA. A inversão das palavras apenas reforça o que foi dito, não inverterá nem subverterá o significado delas ou o da frase inteira.

 

     Obedecendo à mesma lógica, dizer, como é nosso costume, que NINGUÉM (nenhum indivíduo) quer fazer NADA (nenhuma coisa, nenhum fazer, nenhuma forma, nenhuma essência) será o mesmo que dizer que todos querem fazer tudo e mais um pouco, como também é nosso costume. Mas também atrapalhará a vida de todo mundo, tanto quanto a preguiça atrapalha. 

 

     É certo que, na leitura e na redação, inclusive na nossa própria, deveremos estar atentos sempre que nos depararmos com o uso de “algum” em lugar de “nenhum” e vice-versa. E deveremos nos manter atentos especialmente quando escrevemos muito rapidamente ou quando rebatemos com paixão algo ou alguém que muito nos incomode – poderemos não dar muita atenção à forma que emprestamos ao que de fato estivéssemos querendo dizer, e os tropeços serão constantes. Isso porque, ao negarmos algo, nosso próprio raciocínio, que é muito mais rápido que nossas mãos e muitas vezes nos passa a perna, se deixado solto, há de nos levar a pôr tudo aquilo que a esse algo ou a esse alguém se refira ou se acrescente no negativo. Porque, ao negar, negaremos absolutamente. Bastará, porém, que leiamos com atenção o que já escrevemos, e o conhecimento dos fatos e o conhecimento da linguagem correta nos acudirão e nos levarão a corrigir o que poderá ter sido muito bem pensado, mas poderá ter sido mal escrito.

 

     E deveremos ainda estar muito atentos a muitas coisas mais que se nos colocam como armadilhas. Deveremos, por exemplo, prestar muita atenção à pontuação ao transcrever a linguagem oral (a que usamos para pensar no que dizer): primeiro, porque ela não é sonora; depois, porque não corresponde a pausas de locução – estas dependem da entonação que damos ao enunciado. Vírgulas, pontos, travessões etc. são sinais gráficos exclusivos de uma linguagem escrita, muito necessários a ela, se na conta certa, e têm uma função específica, uma função lógica, essencial à comunicação das idéias quando postas por escrito. Dê-se, pois, a Saramago o que é de Saramago e a nós o que nosso é. O que valerá, ao fim, é o conteúdo, a capacidade de transmissão e a capacidade de compreensão.

 

     O conhecimento nem sempre acudiu Chico Buarque. Talvez porque nem sempre tenha sido chamado a acudir – não seria o que lhe importava no momento. Nos versos de “O que será”, por exemplo, que de repente me ocorrem, Chico Buarque parece concordar com a lição que Reinaldo Azevedo nos quis dar. Ao dizer “o que NÃO tem certeza NEM NUNCA terá, o que NÃO tem conserto NEM NUNCA terá… o que NÃO tem decência NEM NUNCA terá, o que NÃO tem censura NEM NUNCA terá”, esses seus “nem” todos deveriam ter sido substituídos por “E” – o que não feriria a métrica nem a sonoridade: o que não tem… E nunca terá. Porque NEM significa NÃO. Quando já dissemos um NÃO, antes, significará TAMBÉM NÃO. NÃO isso, (também) NÃO aquilo, ou NÃO isso NEM aquilo, ou NEM isso, NEM aquilo. E porque a negação já estava intensamente expressa em NUNCA (em tempo NENHUM ou em NENHUM tempo): NÃO isso (E) NUNCA aquilo.

 

     Como bem diz Reinaldo Azevedo, “uma licença pode ser usada por escolha ou por ignorância”. Um galicismo é um vício de linguagem que “deixamos passar” com liberdade e, muitas vezes, permitimos que se instale entre nós e em nós. Nós lhe damos licença como damos licença aos que consideramos muito sábios e/ou muito eruditos, algumas vezes até lhes fazendo reverências. De vez em quando, resvalo em galicismos. E, sim, por ritmo, por sonoridade, por estética, por preguiça, quando não compromete o que escrevi, permito-me não incomodá-los. No caso, a licença, que subverte a nossa linguagem, que foi dada pelo próprio Reinaldo Azevedo e também por Chico Buarque, terá sido uma escolha, porque ignorância não será, mas resultará em que usemos duas negativas para negar. Elas se anularão e afirmarão positivamente o que pretendíamos que fosse negado. Aceitar tal construção como regra significará querer confundir, será adotar algo que não pertence à lógica (lusitana, corretíssima) de nossa linguagem. Algo que obrigará a linguagem a se comportar como não deveria se comportar. E, por vezes, há de nos levar a nos comportar como não deveríamos nos comportar. Esta é a questão de fato.

 

     Alguém nos poderá dizer ainda que um galicismo, ora, mesmo sendo um vício, não é exatamente um erro. Não, não é, não – é apenas um galicismo, nada mais. É um “jeito de ser, de fazer e de dizer”, com o qual já nos habituamos e muitas vezes adotamos sem querer e sem perceber. Alguns até poderão nos dizer que é um “refinamento”. Entre nós, todos dizem o que bem entendem a respeito de qualquer coisa. E todos entenderão qualquer coisa como sendo qualquer coisa. Inclusive o que digo agora. E acreditam que tudo terão entendido muito bem.

 

     É assim que outros vícios mais e outras escolhas tortas se incluem em nosso cotidiano. Porque também os “deixamos passar”, sem lhes impor os limites que nos seriam adequados e convenientes. Assim vamos indo, aos escorregões, aos trambolhões e aos tropeços em galicismos, em anglicismos, em germanismos e em outros tantos “ismos” mais que nos sejam muito e muito mais perversos.

 

     Questão de méritos, talvez. Quem sabe? Mas quem os atribui a quem?

 

 

 

 

 

 

 

 

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