Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

– já que não mais nos é possível comemorar o aniversário da proclamação da República, muito menos é possível lhe (ou nos) dar os parabéns –

 

 

 

       A notícia que hoje cedo recebi de não poucos tinha um longo título: “SEGUREM-SE PARA NÃO CAIR DE COSTAS. UM TAPA NA CARA DE TODOS NÓS”. E um endereço era indicado: http://www.youtube.com/watch?v=jm7zXywyg-Y&list=UUIpqwvp6-wbti4JETXo_VtQ&index=1&feature=plcp

 

      Como a curiosidade matou o gato (e deixou escapar o rato), muitos, assim como fui, terão ido lá para ver de que se tratava. Ou alguns devem ter ido por cultivar certo masoquismo adquirido, já incontrolável e indisfarçável. Uns tantos ter-se-ão, no mínimo, incomodado. Apesar de alguns não se terem muito surpreendido. 

 

      O tapa doeu? Só um pouquinho? Muito? Não importa. Porque, se incomodou alguns e se doeu na pele de outros, a Rádio Bandeirantes já tratou de oferecer um programa às bochechas estapeadas: RECLAMAR ADIANTA. Mais um “grupo de trabalho”… É só participar, e participar é muito fácil: é reclamar e ouvir reclamações, como em um balcão de queixas aberto ao consumidor. O rubor e a sensação de ardência logo se atenuam, e o programa garante seu sucesso.

 

      A quem, exatamente, reclamar adiantaria? Pensando bem, a muita gente. O Datena reclama. O Casoy reclama. A Bandeirantes reclama. A Globo reclama. Reclamam os autorizados e os desautorizados a reclamar. Nove entre dez astros, estrelas, roteiristas e diretores do cinema e da televisão usam reclamar. Reclamam da Imprensa as autoridades. Reclamam os bandidos da Polícia, reclama a Polícia dos bandidos, reclama a população das balas perdidas, reclama o Alckmin do tamanho da população de São Paulo. Dirceu, Genoíno e Valério reclamam das condenações. O Ministro da Justiça reclama das condições das penitenciárias. Reclamam os Juízes, reclama a OAB e dos exames de ordem reclamam os bacharéis. Reclamam os Professores, reclamam os alunos, reclamam os Reitores. Reclamam os que votaram no PT. Reclama a indústria, reclama o comércio, os serviços reclamam. Reclamam os que não votaram no PT. Reclamam os que depuseram Jango. Reclamam os que “lutaram contra a ditadura”. Reclamam os pobres, os ricos e as classes médias de A a Z. Reclamam os civis dos militares. Reclamam os militares dos civis. Reclamam os autoritários, reclamam os tolerantes. Reclamam os monarquistas, os republicanos, os comunistas, os liberais, os anarquistas, os ecologistas. Reclamam os mais velhos, os mais jovens, os que não mais são tão jovens e os que ainda não são tão velhos. Reclamam os homens, as mulheres, os/as que nem são homens nem são mulheres. Reclamam os pretos, os brancos, os que nem são pretos nem são brancos. Reclamam os alfabetizados, os semiletrados, os analfabetos. Reclamam os crentes, os ateus e os que se fiam na ciência maia. Reclamam os que esperam um futuro que já está escrito. Reclamam os que têm saudades do passado. E por aí vai a lista sem fim dos reclamões nacionais.

 

      Muitos reclamam e, reclamando, dão-se muito bem, obrigada/o/s. Ora, ora, pois, pois… Reclamar é muito fácil, é democrático, poderá ser até solidário; e é bom, bonito e barato. E bem sabemos qual poderá ser o resultado final de tanta reclamação: uma choradeira belíssima, comovente, sem fim, ampla, geral e irrestrita. Uma beleza de espetáculo! O maior espetáculo da terra! A competir com os grandes eventos esportivos que brevemente em nosso território terão lugar. Destacando o nosso País do conjunto dos demais. Enchendo-nos de orgulho dito cívico.

 

      Poderíamos, então, apenas repetir o recado de um dos considerados estapeados que me enviaram aquele vídeo: “Realmente, não somos um País minimamente sério. Até quando seremos feitos de palhaços pelos donos do poder?

 

      Do que apenas uma única conclusão se extrai: é preciso reagir! Ou não?

 

      Já se tornou lugar comum citar a frase de Publius Flavius Vegetius: “igitur qui desiderat pacem, praeparet bellum”, reduzida ao vulgar “si vis pacem para bellum”, de uma obviedade quase insultante. E, entre nós, a questão crucial permanece sem resposta: qual é, afinal, o nosso objetivo, quais são as nossas intenções? Nós os teremos? Seria a… “paz”? A “dos cemitérios”? Seria a “liberdade”? A “universal”? Seria viver “sem medo de ser feliz”? Seria reclamar? Ou tudo isso e o céu também? Havendo um objetivo, sempre haverá uma estratégia possível e medidas práticas a ser tomadas. O que requer discussão. Sem que haja um objetivo, no entanto, não haverá qualquer estratégia, porque não haverá qualquer necessidade de uma estratégia. Que queremos, afinal? Quem somos? Quais são os nossos representantes, as nossas instituições, a nossa organização política criada para combater o que denunciamos como nocivo à nossa Sociedade? Onde estão? Que estão – ou que estamos – fazendo além de… reclamar, espernear e gritar salve-se quem puder?

 

      Uma guerra, mesmo que de palavras (que seria uma discussão de fato, levada às últimas consequências, não um enunciado de um rol de reclamações), faz-se com armas, com combatentes disciplinados e com um objetivo bem determinado. Reclamamos todos, mas, na realidade, não se vê qualquer discussão em nossa Sociedade. Não nos preocupamos com avaliar o tipo e o grau da força que sentimos agir contra nós e nos impele a reclamar dos seus efeitos, não discutimos as razões que permitem que exista o que consideramos que nos faz mal, não elaboramos argumentos, não nos preocupamos com nos armar mentalmente e com nos prover de munição intelectual, não sabemos o que queremos ou deveríamos querer, não nos organizamos. Apenas reclamamos. No campo de nossos falsos embates verbais permanentes e insanos, um “nós” sempre indefinido imagina que esteja enfrentando o “inimigo”, “inimigo” esse que nunca pôde ser exatamente definido porque “nós”, não sabendo nos definir, não saberemos defini-lo. O nosso “inimigo” pontual será aquele que se põe a favor do que nós, pontualmente, somos contra, ou se põe contra o que somos, pontualmente, a favor. Por vezes, aplaudimos a iniciativa daquele que, na véspera, como um inimigo reconhecíamos; outras vezes, atacamos nossos próprios virtuais aliados como se fossem, eles, os nossos inimigos.

 

      Não sistematizamos a guerra que se evidencia no cotidiano porque não a entendemos como uma guerra de sobrevivência. Rosnamos e fazemos de conta que lutamos. Assistimos placidamente a batalhas ferozes que se travam entre a imagem ilusória que temos de nós mesmos e essa mesma imagem no espelho, batalhas predestinadas ao fracasso de todos nós, já vencidos em outras batalhas anteriores ao nenhum planejamento ser traçado, nenhuma cautela ser tomada, nenhuma projeção ser feita, nenhuma providência ser aventada, nenhuma inteligência ser utilizada. São falsas batalhas que, sem objetivo definido, traduzem-se como falsas discussões, em que nenhum princípio de fato é defendido ou combatido. Como um bate-boca freqüente entre comadres que pretendem logo fazer as pazes, não em nome de qualquer “política de boa vizinhança”, mas porque cada uma apenas concebe sua própria vida como um reflexo da vida da outra. E, assim, diluem-se essas “discussões” em queixas, denúncias e críticas que são trocadas como crianças trocam figurinhas.

 

      No fogo cruzado de eventuais ataques mútuos – em que, de suas guaritas sempre dissimuladas por nós mesmos, o nosso Inimigo real nos tem por alvo e nos pretende fuzilar e, expostos à plena luz do dia, tentamos nos defender com pistolas “taser”, fogo cruzado esse do qual, entre mortos e feridos, salvam-se sempre todos – ninguém poderá ver ou ouvir a República reclamar. De tudo o que ela prometia ser, somos capazes apenas de nos lembrar de algumas palavras do hino que inspirou – “liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”. Mas, hoje, dia 15 de Novembro, faz 123 anos que a “nossa” República reclama. Insistentemente. Reclama uma atitude republicana. Reclama de nós. De todos nós. Os que nos dão tapas na cara. Os que levamos tapas na cara. Os que reclamamos. Os que não sabemos e não queremos saber que é o que ela exatamente significa ou nos deveria significar. E ela só se dá mal.

 

      Pois que, mesmo esgotada, continue reclamando, então! E daí?

 

      Daí que, além do estímulo a reclamar, nada é proposto, nada é cogitado, nada é feito.

 

      Daí que não poderá ser dito que reclamar não adianta. Reclamar adianta, sim. Adianta… o processo que a ameaça.

 

      Daí que só muita… ingenuidade… permitiria que alguém imaginasse que, em um País que “discute Futebol como se fosse assunto de Estado”, pudesse produzir algum efeito alguém reclamar de que ninguém aparece “para abrir uma ação pública” contra a “Lei da Copa” já sancionada pela Presidente, mesmo sendo essa Lei uma “aberração”.

 

      Daí também que, em meio a essa reclamação toda, a esse ruído todo, a discussão mais importante, a que deve ser levantada, a única que nos importa de fato, a sobre “que fazer”, “por que fazer” e “para que fazer”, mantendo-se a integridade nacional e a soberania como ponto de fuga na projeção do passado e no esboço do presente, perde seguidas oportunidades de tentar se desemperrar mesmo que entre uns poucos. Perdemos, assim, uma após outra, as raras oportunidades de nos desvencilhar das críticas furiosas, repetitivas e improdutivas contra os cínicos abrigados em Partidos e demais instituições políticas, contra sucessivos Governos irresponsáveis, contra a corrupção estrutural, contra fatos já mais que consumados, muitos deles já talvez irreversíveis (é preciso considerá-los, sim!), e contra aqueles que sabemos ser representantes, nacionais ou internacionais, de uma “ideologia” que nos vem levando ao nada absoluto. Perdemos a oportunidade de tentar levantar uma discussão de fato a respeito do nosso todo que hoje se desfaz aos nossos olhos e ouvidos complacentes, contando com nosso discurso conivente, a respeito de fatos que são decorrentes de um processo que a esse nada nos leva, a respeito de um sistema de relações que permite que esse processo prossiga. Perdemos a oportunidade de não apenas continuar entoando uma ladainha de denúncias sem sentido, com cada verso terminando em um contrito miserere nobis. E perdemos a oportunidade de passar, do exercício de um inócuo, iníquo, ensurdecedor e inegavelmente democrático jus murmurandi, a um exercício que a República nos exige e sempre exigiu de nós, de nós todos, os brasileiros – o de tentar encontrar um efetivamente eficaz modus operandi que nos leve a criar poder. E a ser poder.

 

      Perdemos, apenas perdemos, sempre perdemos, todos nós, enquanto se perdem, nesse nada que tão ruidosamente se agita, aqueles a quem, queiramos ou não, ensinamos com nosso exemplo e mostramos o caminho que eles próprios seguirão… até que tudo o que, um dia, tivemos nas mãos e deixamos, irresponsavelmente, escapar, finalmente chegue ao fim. Quando ninguém mais haverá de reclamar. Nem mesmo reclamar de que nada mais fazemos senão reclamar.

  

 

 

 

  

  

 

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