Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nesta sexta-feira (26), três ataques terroristas organizados por radicais islâmicos abalaram diferentes regiões do mundo. … Os três ataques aconteceram praticamente ao mesmo tempo em diferentes países de diferentes continentes: Europa, África e Ásia, respectivamente.” – http://noticias.r7.com/internacional/sexta-feira-de-atentados-terroristas-deixa-o-mundo-em-estado-de-alerta-contra-radicais-islamicos-26062015

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      Até hoje, ao que se sabe, o batismo e a fé nas palavras atribuídas a Jesus eram as condições específicas da cristandade. Reza a tradição que o próprio Cristo as colocou. Agora as condições já não serão mais estas. Na interpretação ou na opinião de Francisco do Vaticano, a condição para ser cristão será abdicar das armas. Os cristãos que delas não abdiquem estarão sendo “hipócritas”. Assim sendo, Francisco nos diz: “Nunca mais a guerra!”  (http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2015/06/06/papa-francisco-chama-de-hipocrita-quem-vende-armas-e-defende-a-paz.htm). Não se trata de um desejo, de uma esperança, de uma expectativa de Francisco – isso é uma ordem! Que, aliás, muita gente antes dele já havia tentado impor, inclusive querendo colocar a guerra, que tinha suas regras, fora da Lei. Não deu muito certo. A novidade é que essa ordem agora vem do Papa, o chefe da Igreja Católica Apostólica Romana. E, porque há razões e razões para uma guerra e bem sabemos disso, o mais interessante será que essas palavras nada mais significam senão que se exige dos cristãos ou, no mínimo, recomenda-se aos cristãos que se submetam às armas dos que não são cristãos ou às daqueles que se dizem cristãos… mas… seriam “hipócritas” porque de suas armas não abrem mão.

 

      Não vejo por que discutir aqui filosoficamente se nossas escolhas e nossos atos dependem ou não do que é chamado de “livre arbítrio”. De uma forma ou de outra, cada um de nós saberá exatamente em que deve crer ou em que quer crer, e o que deve ou quer defender. Eu cá, definitivamente, não reconheço qualquer autoridade em qualquer organização ou em qualquer dita liderança que pretenda colocar-se acima da autoridade soberana de meu Estado (que não é qualquer autoridade emprestada a alguém que faça parte do Governo brasileiro, é bom que o diga e é bom que bem me entendam). A nada mais me submeto, a ninguém permito pretender orientar meu pensamento, e que nenhuma organização, nacional ou internacional, nenhuma ONG, nem a ONU, nem líderes ou chefes de Estados quaisquer, nem “pastores de almas” de Igrejas quaisquer me venham dizer o que será ou não politicamente correto ou o que será ou não uma correta Política de Estado. Que todos eles cuidem do que lhes compete cuidar, estritamente nos limites de suas atribuições.

 

      Há cerca de um mês, o Vaticano anunciava que reconheceria oficialmente o Estado Palestino em um novo Tratado que há dias se celebrou. Do que Israel não gostou, é óbvio (http://www.brasil247.com/pt/247/mundo/186536/Primeiro-acordo-do-Vaticano-com-‘Estado-Palestino’-irrita-Israel.htm). Tratados são celebrados entre Estados, não entre indivíduos. O povo palestino existe. O Estado palestino, não. O povo judeu nunca foi reconhecido como um Estado antes que de fato o fosse. Uma vez que o Estado de Israel foi criado pela autoridade da “santa” ONU, os israelenses talvez devessem reconhecê-la. Sei lá, o problema não está posto para que eu o resolva. Daí que considerem interessante que a cristandade inteira ou toda a comunidade católica lhes exija que ouçam Francisco como uma autoridade superior no que se refere ao necessário para a segurança e a defesa de seu território são outros quinhentos mil réis. Como defendê-lo das pretensões inimigas sem contar com – e sem usar – suas armas (ou suas Armas)? O mesmo diria eu a respeito de meu Estado, cuja existência nada deve à ONU ou a quem quer que seja exceto aos brasileiros mesmos. Não tenho o poder de Barack Obama, que nem sempre ou quase nunca me cai muito simpático, mas, na minha insignificância, faço agora minhas as suas palavras, nas quais não será possível encontrar-se qualquer traço de hipocrisia: “normalmente, eu sou tolerante, mas não quando estou na minha casa!” (http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/06/obama-da-bronca-em-convidada-que-interrompeu-discurso-na-casa-branca.html). Enquanto só me ponho a imaginar que dirão os que se dizem cristãos e se identificam com os Estados que se vêem feridos pelo tal “Estado Islâmico”, que nada mais é que um bando de facínoras alucinados…

 

      Não freqüento Igrejas, nem religiosas nem leigas, mas até poderia pensar em reconhecer o Chefe do Vaticano como uma autoridade merecedora de respeito assim como devo reconhecer a autoridade de Elizabeth II sobre os anglicanos ou a do Aiatolá Khamenei sobre os muçulmanos xiitas. Fato é tudo aquilo que fato é, e nada tenho, tampouco, a ver com isso. Mas a uma autoridade é preciso saber impor-se enquanto tal. O atual chefe da Igreja Católica Apostólica Romana cada vez mais se excede em proselitismo laico, enquanto continua sendo, no mínimo, muito suspeito que o Vaticano pretenda colocar-se acima dos Estados nacionais reservando-se um mais estranho ainda status – o que lhe permite ser reconhecido como um Estado soberano sem que aceite ser reconhecido como uma organização política e um poder político. A meu ver, isso, sim, é hipocrisia. Que assuma, pois, a sua vocação imperial. Ou pare de meter-se em assuntos políticos alheios à sua esfera de competência.

 

      Quando a Igreja Católica resolveu dedicar-se ostensivamente, de corpo e alma, a fazer proselitismo político, há algumas décadas, o que conseguiu foi amesquinhar sua alma e minguar seu corpo. Metendo-se no que não lhe concerne, perdeu o respeito reverencial de que gozava e tornou-se cada vez mais vulnerável. E, desovando palavras-de-ordem de inequívoco teor político por onde passa, o que seu atual Chefe dito espiritual, o argentino ex-peronista que hoje a lidera (ah, esses “ex”…), parece pretender é investir nesse desvio e ser reconhecido como um líder político no sentido estrito do termo, um “re-vo-lu-ci-o-ná-rio”, seja lá que significado isso assuma, possa vir a assumir ou possa ser entendido como assumido em sua voz.

 

      Não freqüento Igrejas, nem religiosas nem leigas, já disse isso e repito, mas, francamente, só tenho a lastimar que a Igreja Católica tenha tomado esse caminho, não só porque muita e muita gente precisa de fato de guias com algum bom discernimento para conseguir encontrar a diferença entre o que é correto e o que é errado, como porque há muita coisa bonita e muito mais útil e mesmo muito mais necessária a ser feita, em benefício dos enfermos, dos idosos e das crianças e adolescentes carentes de tudo, que pregar uma re-vo-lu-ção, seja lá o que isso queira dizer. Portanto, nada do que Francisco vem dizendo merece o meu respeito. Mas tudo merece minha atenção, uma vez que é uma figura pública de considerável projeção internacional.

 

      É nessa condição que Francisco, um indivíduo inequivocamente de arraigados valores e fortes convicções, na intenção resolver situações que provocam os gemidos da irmã terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, com um lamento que reclama de nós outro rumo”, pontifica que “há necessidade de construir lideranças que tracem caminhos, procurando dar resposta às necessidades das gerações atuais, todos incluídos, sem prejudicar as gerações futuras”. E qualquer um de bom senso concordará com isso. Mas, por isso, e porque “O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor“, Francisco acha por bem sugerir que a Amazônia, onde se encontra pouco menos de 50% do território brasileiro submeta-se (e também a bacia fluvial do Congo, os grandes lençóis freáticos e os glaciares)  a “um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas, antes que as novas formas de poder derivadas do paradigma tecno-econômico acabem por arrasá-los não só com a política, mas também com a liberdade e a justiça(http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.pdf). E, na maior desfaçatez, dedica-se a fomentar a organização de uma nova forma de poder político, tido por moral em sua essência, que não poderia ser limitado por nenhuma forma de poder nacional”, unindo-se aos “movimentos sociais de esquerda e as ONGs ambientalistas e indigenistas nacionais e internacionais” (conforme muito bem aponta Dennis Lerrer Rosenfield – http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-papa-e-a-amazonia,1715256). Com o que também, por certo, deveríamos, ou deveriam os cristãos concordar pacificamente... Por que não? Talvez alguém devesse perguntar se a bacia fluvial do Prata e muitas outras mais bem situadas também não deveriam incluir-se nesse grandioso projeto civilizatório. Por que não, também?

 

     Do alto do cargo vitalício de que goza na alegria e no louvor, cargo que obteve de forma nada democrática, o atual chefe do Estado do Vaticano e da Igreja Católica Apostólica Romana, exercendo o efetivo poder ideológico que qualquer fé em qualquer absoluto confere, manipula consciências e influencia as decisões políticas por meio de discursos “diplomáticos” que, presume-se, serão reverberados pelas agências do sui generis Estado apostólico fincado em território europeu por todos os escalões de sua hierarquia burocrática em todas as partes do mundo. Com a desenvoltura irresponsável de quem estivesse sobre um caixote de feira à porta de uma fábrica convocando a uma “manifestação” contra o aumento da passagem de ônibus, lança seu discurso “solidário” (solidário com quem, exatamente?) incitando uma tradicional “comunidade de fiéis” a que tome atitudes que extrapolam qualquer limite espiritual e religioso, a que desrespeite nossas fronteiras políticas, a que apóie quem as atropela.

 

      É fato que Francisco usa e abusa de franquia universal que lhe é concedida a pretexto da fé cristã. A meu ver, sua atitude apenas abala ainda mais a consideração que o Vaticano poderia merecer dos comuns dos mortais e das demais organizações nacionais ou internacionais, eminentemente religiosas ou não, eminentemente políticas ou não. O que não é exatamente a minha preocupação. A minha preocupação se resume a que, considerando-se o já não tão grande, mas ainda imenso número de católicos que temos no País, comportando-se Francisco como um típico Papa de passeata, aos graves problemas que já tínhamos e temos a enfrentar e aos fatores que concorrem às constantes e crescentes desestabilização política e falta de perspectiva da população, e eles não são poucos, acumula-se mais um. Que é grande e gordo. E arrasta multidões. 

 

      Estará Francisco tentando impor, à maneira de sua personalidade prepotente por sua própria natureza, a tão utópica paz universal? Isso é algo que ninguém logrará cutucando onças com varas curtas. Pretenderá estimular o martírio, que já produziu tantos santos, para aumentar o número deles? Deseja dar fim à sede e à fome que assolam o mundo com gotas  de água benta e de saliva,  propagandeando as qualidades nutritivas da “folha sagrada da coca” (http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/reuters/2015/06/28/papa-francisco-planeja-mascar-folhas-de-coca-na-bolivia-diz-ministro.htm)? Ou sua intenção será apenas pôr-se à luz dos refletores?

 

      Que o Papa, os Cardeais, os Bispos, os Curas de paróquia, como bons cristãos que dizem que são, pretendam assegurar a Deus o que de fato acreditam ser de Deus. É seu ofício e pode ser entendido como sua missão. Pressupõe-se que essa seria a finalidade da Igreja ou “comunidade” que representam, aquela que eles têm o compromisso de preservar. Pois então que não só eles como todos os demais “guias”, “gurus”, “pastores de almas” que se crêem capacitados a apregoar verdades absolutas e indicar o caminho da salvação eterna entreguem a Cesar o que é de Cesar. Ou qual seria exatamente a finalidade do apostolado?

  

      Ah, que saudades de Ratzinger, que sabia manter a compostura… e contribuía com deixar o mundo, se não mais justo, pelo menos mais sério, mais coerente, portanto, menos assustador. Ou menos asqueroso.

  

 

 

 

 

 

  

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