Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 Mandrake & Lothar  Gente, olhe só o que acabo de ler: “O Rio de Janeiro aparece em primeiro lugar na lista do jornal americano ‘The New York Times’ de cidades para se visitar em 2013. A cidade foi descrita pelo jornal como ‘famosa por seu Carnaval hedonista’ e ‘em vias de se tornar um centro cultural mais sofisticado’. Um ano antes da Copa do Mundo e a três anos das Olimpíadas, a cidade irá inaugurar novos espaços culturais nos próximos meses, como a Casa Daros, instituição com sede em Zurique dedicada à arte contemporânea latino-americana, e o Museu de Arte do Rio (MAR), que faz parte do projeto de revitalização da zona portuária carioca, Porto Maravilha. Na mesma região, será inaugurado em 2014 o Museu do Amanhã etc. etc. etc. e tal  (http://www1.folha.uol.com.br/turismo/1213520).

 

    Não são notícias verdadeiramente sensacionais? E não só para os cariocas, não! Ufanem-se todos! O Rio é o Rio, mas é Brasil! E está “em primeiro lugar”! E então? É o Brasil “na lista do jornal americano ‘The New York Times’ ”! Isso não se faz à toa nem é pra qualquer um!

 

    E não é tudo. Vejamos como, em 2016, estará o Centro da cidade já “famosa por seu Carnaval hedonista”… Mas, espere aí só um pouquinho: alguma vez houve, em algum lugar do mundo, desde que este mundo é mundo, algum Carnaval que não fosse hedonista? Apesar de que nem tudo o que é hedonista seja chamado de Carnaval, como seria esse Carnaval não hedonista? Ainda não vi, mas estou pra ver… Em todo caso, não estamos falando exatamente de Carnaval, o assunto é bem mais sério, então, vamos lá, ao http://oglobo.globo.com/videos/t/todos-os-videos/v/o-porto-do-rio-apos-as-obras/2184386/  Que coisa mais bonita! Que coisa mais fantástica!

 

    “Um ano antes da Copa do Mundo e a três anos das Olimpíadas”, os cariocas e os ansiosos potenciais turistas nacionais e internacionais já poderão ter certeza certa de que, de 2016 em diante, poderão ver o que jamais se viu na história deste país: após essas obras tão previdente e conscientemente planejadas, os veículos nunca mais transitarão, em horário algum, em quantidade maior do que a que foi considerada no desenho, e deslizarão… – a palavra é esta: deslizarão – pelas ruas do Centro do Rio sem engarrafamentos, sem alagamentos, sem arrastão na boca do túnel etc. etc.; os pedestres, que serão ainda em menor número que o de veículos, passearão sempre, pelas calçadas, aproveitando o balançar do verde das árvores à brisa e ao som do cantar dos pássaros, sem pressa, sem levar trombadas, sem tropeçar nas pedrinhas portuguesas, sem cair em buracos, sem receio de que alguém lhes leve embora a carteira do bolso ou a própria vida, sem fazer filas para coletivos etc. etc. tranqüilíssimos assim, assim mesmo.

 

    Não é quase como se alguém, empunhando uma varinha mágica, fizesse saltar da cartola, como uma pomba ou um coelho sempre brancos “como a paz” que todos nós merecemos, o tal “Porto-Maravilha”, ao mesmo tempo em que faz desaparecer, sob uma farta capa vermelha acetinada, só pelo prazer de nos ver sorrir, o que “atrapalha” que as belezas naturais se possam ver conjugadas à segurança e ao conforto públicos?

 

    Considerando outras recentes prestidigitações mais, tais como a do PIB ou a do superávit (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/88146-sem-manobra-economia-publica-e-65-da-anunciada-avalia-mercado.shtml), estaríamos não mais que desfrutando do triunfal império de Mandrake…

 

 PORTO MARAVILHA  Bem que Lothar, o ex-príncipe das sete nações africanas – que, graças à política de cotas adotada pela confederação internacional de editores de gibis, conseguiu um cargo de assessor de mandrakadas sem que fosse obrigado a abrir mão de sua pele de oncinha chique de doer, mesmo que hoje ela deva ser sintética – já me tinha explicado que Mandrake poderia fazer aparecer e desaparecer tudo e qualquer coisa, exceto ele próprio. E que, em todo o esplendor de sua misteriosa atividade, sempre haveria de estar presente em nossas vidas para fazê-las divertidas ao máximo.

 

    Bem, o que sei bem sabido é que Ferdinando, ao ver todo esse projeto (e outros projetos “espetaculosos” mais – conferir em http://oglobo.globo.com/rio/rio-embarca-na-onda-da-arquitetura-espetaculosa-7280211), embasbacou-se, deu pulos de entusiasmo no mesmo lugar, e, por ser solidário, chamou a família Buscapé inteirinha mais Violeta e a vizinhança toda aos gritos, como um sagüi surtado, para que todos também vissem tudo aquilo. Todos viram, curtiram, discutiram, acertaram os ponteiros e correram a fazer as malas… Por ser muito mais esperto e muito mais sabido que eu, Ferdinando assim pensou, e a família Buscapé com ele concordou: se a gente pode ver, ouvir e conferir com esses olhos e orelhas que a terra há de comer, se está nos noticiários nacionais e internacionais, se está no vídeo, se está impresso, se está no gibi, como e por que não seria verdade?

 

 Buscapé  São Paulo já era, Brasília idem, qual Miami ou Nova Iorque ou Paris qual nada! Vão todos e mais alguns, agora, para a Cidade Maravilhosa, a participar da construção do futuro “centro cultural mais sofisticado”. Não é todo dia que alguém encontra uma oportunidade dessas!

 

    Eu cá, confesso, ainda não entendi muito bem – mas só não entendi ainda porque sou meio lerda – onde estarão concentrados todo o tráfego, já hoje suficientemente infernal, e o resto da população do Rio e de turistas convocados que sai aos borbotões pelas portas e janelas dos prédios de todos os níveis de “classe média”, dos trens urbanos e suburbanos, dos ônibus interestaduais, dos aviões, dos navios e dos hotéis de luxo. Em Niterói? Na Zona Sul? Nas praias? Nas Escolas de Samba? Nem consegui compreender como será possível tirar toda aquela maravilha do desenho e do discurso, colocando-a na realidade em somente 3 anos, contando ainda com a Copa e outras coisinhas mais aí pelo meio. Nem alcanço projetar, tampouco, por mais que me esforce, o tamanho aproximado do alvoroço a ser enfrentado pelo povo carioca nesses próximos 4 anos e talvez outros tantos mais.

 

    Enfim, que tudo seja feito pelo bem do Brasil por todos aqueles que sabem que diabos isso vem significando. E, assim como, em 2014, a taça do mundo será nossa, nada há de atrapalhar nossa alegria; pelo contrário, tudo só nos ajudará a demonstrar que, com brasileiro, não há quem possa. Nem mesmo a crise econômico-financeira mundial. Não é isso?

 

    Para que essa nossa privilegiada situação se mantenha auto-sustentável, porém, não será bastante saber aproveitar o destaque internacional conferido “à arte contemporânea latino-americana” seja essa arte qual for, ou só saber dizer “I love you”, conforme lembra uma destacada diretora de uma associação do ramo: é importante que não apenas o poder público como a iniciativa privada tanto no Rio como nas demais capitais brasileiras invistam o que têm e o que não têm em sólidas fontes de recursos inesgotáveis, tal como são e sempre foram alguns setores de serviços e o turismo (conferir em http://www.meiahora.ig.com.br/noticias/prostitutas-aprendem-linguas-para-faturar-mais-com-clientes-na-copa-e-na-olimpiada_4684.html). Conforme muita gente já me tentou demonstrar, é investir nisso ou depender da afinação da guitarra e das bolsas-esmolas federais e, por luxo, sujeitar-se a fricotes separatistas…

 

    Só fico meio escabreada porque a vida aqui, em Brejo Seco, anda me parecendo um bocado difícil e complicada. E, sendo assim, a gente se habitua a duvidar de tudo. Mas Brejo Seco é outro departamento – no Rio, assim como em Brasília ou em Xanadu, não dá pra saber como as coisas vão indo… Devem ir muito bem. Mesmo porque já me explicaram que as chaves do mistério do sucesso democrático e popular são a honestidade e a transparência. Nada mais. Sendo assim, vai tudo dar certo, sim! Basta que esperemos sentados e tenhamos paciência, pois, desde que asseguremos eleições diretas em todos os níveis, honestidade e transparência nos vêm, de sobra, por decorrência (caramba, isso até que rimou…).

 

    Pois… depois de tomar chá e bater um longo e interessante papo com alguns companheiros, especialmente com Charlie Chan e Narda, delegados ad hoc dos BRICS, estou até pensando seriamente em aproveitar a carona que me foi oferecida por Chulipa e voltar para o Rio agora mesmo, de mala, enxada, cuia, papagaio, cachorro, bicicleta… Para não parecer aos inteligentes e bem informados que sou muito idiota. Não seria o caso?

 

    Afinal, eu leio os gibis! Não todos, mas quase todos.          

 

   

 

 

 

 

  

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