Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

     Há algum tempo, naqueles tais “anos de chumbo” anteriores à “Constituição-cidadã”, naqueles tempos em que existiam, de fato, a Situação e a Oposição – e a Oposição se colocava, por princípio, contra a Situação -, caso alguma autoridade ousasse cometer coisa parecida com o que vemos as nossas atuais “autoridades” (?) cometendo, imediatamente ouviríamos um argumento no discurso exaltado da Oposição, muitas vezes sendo esse argumento secundado por parte da Imprensa: estaríamos sendo governados por incompetentes, por políticos profissionais, tradicionais, reacionários, por “coronéis” desprovidos de inteligência e de sensibilidade, por gente sem-vergonha, safada etc. etc. – gente “de Direita”…

 

     E hoje? Eles (elles, que merecem letras dobradas, aquellas “autoridades” que legislam no Congresso, que nos julgam em nossos Tribunais, que nos administram os recursos, que analisam a nossa realidade) são de Esquerda ou são de Direita?

 

     Isso é, realmente, um enigma. Deveria ser trágico, porque, tal como o da Esfinge, quem não o decifrar será devorado. Mas, como tudo mais que ocorre neste País, acaba sendo até divertido. Tentemos, pois, compreendê-lo, pelo menos, em seus termos, nem que seja apenas como mero exercício mental, para espanar a poeira, o mofo e as teias de aranha do cérebro.

 

     Leio, na página do Facebook de um amigo, um comentário de um terceiro que nos traz uma daquelas “verdades históricas” que não passam de uma supina ignorância. Assim como outras “verdades históricas” que só nos confundem e nada esclarecem porque verdades não são, essa, que acabo de ler, foi afirmada com muita convicção. Quem a vai passando adiante (pra não virar elefante?) a terá ouvido de alguém ou lido em algum lugar, apenas a repete, não a inventa, e ela acabará sendo repetida por muitos outros. Nem por isso deixará de ser apenas ignorância.

 

     Mas, de repente, pensando bem, percebo que a evidência dessa ignorância nos ajuda, indiretamente, a entender muitas coisas – a começar do surto epidêmico de febre vermelha a que assistimos (ou que vivenciamos?) no anos 70/80 do século passado, bem pior que o de febre amarela dos anos 20, igualmente lento e insidioso no início, avassalador a partir de determinado ponto, igualmente desafiando quem tentava explicar satisfatoriamente sua origem, uma vez que acreditava-se que a doença havia sido controlada e era considerada praticamente extinta, dispensando maiores cuidados e muitos recursos no seu combate. Suas graves seqüelas manifestam-se hoje em um estado crônico semifebril de “centro-esquerda” que prossegue acometendo muita gente.

 

     Vejam só – foi escrito o seguinte, com todas essas vírgulas: “A Direita, por definição nasceu de um grupo de parlamentares na Inglaterra que ficava à direita do presidente do Parlamento, e que não pertenciam aos partidos ligados aos trabalhadores (Labour Party, etc). Na prática a Direita é quem defende alguns conceitos que excluem ao invés de incluírem cidadãos nos destinos e riquezas do mundo.

 

     Quanta bobagem é possível reunir-se em tão poucas palavras! Quando lemos muitas bobagens, sentimos logo vontade de escrever bobagens – mas talvez não tantas. Muito bem, vamos lá: na França, onde, com suas conotações políticas, os termos Direita e Esquerda de fato tiveram origem, lá pelos idos da revolução de 1789 (porque logo em seguida veio o Terror…), os membros da Assembléia Nacional se dividiam entre partidários do rei e partidários da revolução – e se sentavam respectivamente à direita e à esquerda da cadeira do presidente da Casa, para todo mundo poder conspirar à vontade e ninguém se matar durante as discussões. Por isso, por defender a ordem, que era monárquica, a ala à direita na Assembléia Nacional (a “Direita”) pôde ser acusada de “conservadora”; e de “reacionária”, pois não apenas pressupunha-se, à época, que a Revolução Francesa seria um considerável avanço civilizatório, como tanto ela mesma quanto todas as demais revoluções vistas como “espontâneas” e “populares” prosseguiram assim sendo consideradas, fosse qual fosse o seu resultado.

 

     No celebrado Manifesto Comunista, a principal encíclica dos imortais papas da Esquerda, os bem-amados Marx & Engels, quem é “conservadora” e “reacionária” é a classe média. Assim definem eles a classe média – ou as classes médias, como preferirem: “pequenos comerciantes, pequenos fabricantes, artesãos, camponeses que combatem a burguesia porque esta compromete sua existência… são, pois, … [classes] conservadoras; mais ainda, reacionárias, pois pretendem fazer girar para trás a roda da história. Quando são revolucionárias é em conseqüência de sua iminente passagem para o proletariado; não defendem então seus interesses atuais, mas seus interesses futuros. Abandonam seu próprio ponto de vista para se colocar no do proletariado”.

 

     Muito bem. Quais poderiam ser os interesses das classes médias? Não seriam os de manter suas condições de… classe média? Ou, talvez, o que as classes médias desejassem, mesmo, fosse encontrar meios de ascender econômica e socialmente, ter acesso pleno aos mecanismos financeiros – é bem possível que, desde sempre, na vida do “burguês”, ou seja, na vida dos ricos, encontrassem o objeto de seus sonhos de consumo.

 

     Então, pensemos: se o proletariado pretende, conforme a Esquerda vem pregando, por obra e graça de sua própria natureza proletária, eliminar as classes sociais e seus privilégios e suas misérias, como defenderiam as classes médias os seus interesses futuros colocando-se no ponto de vista do proletariado? Isso não nos parecerá um despautério? Só se compreenderá o raciocínio da Esquerda se ele partir de uma premissa – a de que as classes médias consideram-se espertas, mas são muito burras. Se forem burras, poderão ser facilmente comovidas, serão impressionáveis, manipuláveis – e, nisso, talvez a Esquerda tenha alguma razão.

 

     Mas, se de fato as classes médias são “conservadoras” porque “combatem a burguesia” que gira a roda da história à frente… (e daí viria o ódio que Mme Chauí lhes dedica? É possível, também: no conceito de “burguesia” e, especialmente, no de “elite” vem cabendo muita coisa e muita gente…), e são “reacionárias” porque querem a roda da história girando para trás, as classes médias serão “a Direita”. Ou serão “de Direita”. Sim ou sim? Muito embora, por vezes, possam agir como se fossem “de Esquerda” – e, então, serão “revolucionárias”… “Re-vo-lu-ci-o-ná-rias”…

 

     Na mesma França, lá, onde os termos tiveram sua origem, surgem outra denominação e outra classificação: a dita Direita será chamada de “partido da ordem” e a dita Esquerda será chamada de “partido do movimento”. Tudo o que se movimenta será, então, “de Esquerda”. Pressupõe-se, portanto, que uma ordem, qualquer que seja ela, peque pelo imobilismo. E que a Direita, como “partido da ordem”, teria o dom de fazer o tempo parar, fazendo parar todos os processos, tal como a Bruxa Malvada fez acontecer no castelo da Bela Adormecida. Combinando com isso, faz tempo que, em qualquer lugar do mundo, outra “verdade histórica” vem sendo oferecida (de graça?): a de que a Democracia seria uma tese da Esquerda e somente a Esquerda será capaz de demonstrá-la. Embora essa “verdade” contrarie todo o desenvolvimento do pensamento racional universal e todo o conceito que a palavra Democracia abriga, como todos sabem que a Esquerda detém o monopólio da “verdade absoluta”, ninguém se atreveu a contestar. E ficou feio ser “de Direita”… aliás, ficou até meio que vergonhoso ser “de Direita” – ou será vergonhoso não ser “de Esquerda”…

 

     No Brasil dos últimos anos 70/80, todos os que queriam ser vistos como “democratas” deveriam ser, pois, no mínimo solidários com os “de Esquerda”, que eram conhecidos como “revolucionários” e como favoráveis ao “avanço” – que nada tem a ver com o que se entende como desenvolvimento (cultural, industrial, tecnológico…), é bom que se diga desde já. Quem criticasse a ordem definida constitucionalmente em 1967, fosse por qual motivo fosse, seria reconhecido como favorável ao “avanço”. Então, apressaram-se todos em se declarar “de centro-esquerda” desde criancinhas. Como “militantes” de “centro-esquerda”, um “centro” que seria “de Esquerda”, nem seria essencial que se declarassem “revolucionários”, muito menos que fossem apontados como guerrilheiros ou acusados de terroristas – ao colocar-se “contra a ordem”, considerada pela Esquerda como antidemocrática, “de Direita”, conservadora, reacionária, ditatorial, todos investiam no reconhecimento de que eram “democratas”; e, em sendo “democratas”, “avançavam”; e seriam “subversivos”. Um “subversivo” abria a boca e adquiria status imediatamente, intelectual que fosse esse status. Além de que ser “subversivo” afastava a solidão e poderia ser também divertido – as músicas dos festivais da canção eram “subversivas”, as aulas no cursinho pré-vestibular eram “subversivas”, os professores na Faculdade eram “subversivos”, os cartunistas eram “subversivos”, os artistas eram “subversivos”, os amigos que se reuniam no chopinho dos sábados eram “subversivos”…

 

     Embora a ordem (?) seja isso que aí está e ser subversivo não mais dê status, muito pelo contrário, ter sido “subversivo” ainda dará. Conforme a Esquerda nos “esclarece”, a nós, que nada vimos, de nada soubemos e de nada sabemos, em cada boteco, cada esquina, cada casa, cada galho, cada flor, no Brasil inteiro, formaram-se focos de “resistência” para que o País fosse salvo das garras da Direita. Não foi assim? Deve ter sido, pois a Esquerda nos diz que foi por isso que ela, a Esquerda, venceu a Direita – pelo clamor popular. Não perguntarei “que Direita?”. Pergunto apenas “que Esquerda?” Não importa: se já nos esquecemos disso, um vizinho “ex”-tupamaro, que enfeita sua casa no campo com um retrato de Fidel, um busto de Guevara, outro do Papa Francisco, vem nos lembrar de que não há uma única Esquerda a nos rodear, mas sim muitas Esquerdas (http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/12/141203_entrevista_mujica_igl_cc), há uma montanha de Esquerdas, há Esquerdas para todos os gostos, o que permite que todos os “democratas” possam identificar-se politicamente com todas elas ou com apenas alguma delas todas… Não duvidem que se encontre por aí inclusive uma “Esquerda apolítica” bastante ativa… por que não? Tudo é possível. E em qual delas nós apostamos?

 

     Alterando-se a ordem e a razão do Estado em 1988, todos os “subversivos” de todas essas Esquerdas foram considerados “heróis da resistência”, “resistência” que seria “democrática”. Os “de Esquerda”, aliás, de “centro-esquerda”, que eram todos, foram eleitos a todos os cargos administrativos e legislativos, indicaram quem ocuparia os cargos no Judiciário, tomaram conta da Imprensa em todas as suas manifestações, e há 30 anos consecutivos gozam do poder absoluto em nosso país – não há quem tenha afirmado, e não faz muito tempo, que o Presidente da República, por ter sido eleito, é Soberano? Em nosso País, onde a “Oposição” será… também “de Esquerda”.

 

     Com o PT se tornando muito vulnerável a críticas, principalmente em publicações estrangeiras (caramba, essa gente nunca sabe o que quer – como acertaremos em nossas escolhas?) em virtude da apuração da corrupção generalizada que seus sucessivos Governos permitiram (se é que nela não se envolveram diretamente, talvez por não conseguir fabricar tantos cargos quantos os necessários para manter os conchavos, ou por ter abusado do direito de ser “generoso”, por não atentar ao prazo de validade que lhe foi concedido, por ter sido o Partido guloso demais, sei lá eu…), explica-se e justifica-se a célere debandada, já há algum tempo iniciada, de politiqueiros profissionais, inclusive a de seus “quadros históricos”, em direção a outros Partidos semelhantes e afins, os “de Esquerda” na “Oposição”, nos quais serão acolhidos de braços abertos. Porque a Esquerda é a Esquerda. É magnânima, é mãe. Na unidade de sua diversidade, a Esquerda é fiel e só a Esquerda salva. E, assim, em essência, nada se altera, nem os elementos do discurso, nem os elementos que o enunciam e todos continuarão sendo felizes para sempre.

 

     Hoje, quando aquela conversa de ser necessário passar a limpo a história do Brasil já deixou de dar tanto ibope e todos afirmam que querem tão somente um Brasil que dê certo (mas ninguém tem a mais mínima idéia de como isso se fará), já não será tão vergonhoso, mas continua sendo muito feio ser “de Direita”; melhor dizendo, continua sendo feio não ser “de Esquerda”, porque será “antidemocrático”, “conservador”, “reacionário” – e, se não todos, quase todos, ou aqueles que formam a nossa maioria serão “de Esquerda”. Os demais serão de nada. Mas todos os “de Esquerda” serão de “centro-esquerda”, mesmo os mais radicais, porque são todos “democratas”, não são radicais. Com uma característica muito curiosa, intrigante, mesmo: os “de Esquerda” serão a favor da ordem indefinida que foi definida constitucionalmente em 1988, a que mantém indefinidamente os Partidos “de Esquerda” no Poder seja como for, valendo, para tanto, todos e quaisquer argumentos, principalmente o de que todo e qualquer movimento contrário será “antidemocrático”. Movimentos prenunciam tremores mais fortes, terremotos, e assustam. Quaisquer movimentos que se demonstrem um pouco mais movimentados serão muito perigosos, pois serão coisas “de Direita”. Só será válido como movimento, e olhem lá, quando muito, o avanço ao próprio alheio, as ocupações, as invasões, sempre dependendo de a quem esse alheio se refira, e o das marchas daqui pr’ali, convocadas pela internet para data e hora certa, nas quais todos clamam histericamente nas ruas pelo fim da corrupção ninguém sabe muito bem a quem, talvez à mesma Esquerda, ou ao mesmo Governo, pois até o Governo, que é de Esquerda (ou não é?), ou principalmente o Governo, diz-se escandalizado, horrorizado com ela…

 

     Então, quem seriam os corruptos? Os “de Direita”. Evidentemente, pois a Direita é o Mal, a Esquerda é o Bem. Quem impede que um Governo “de Esquerda” seja probo e aja corretamente? Os “de Direita”, que estorvam os projetos “democráticos” da Esquerda e a obrigam a lançar mão de recursos indesejados. Mas, afinal, quem é “de Direita”? Ninguém. Onde está “a Direita”? Sumiu, ninguém sabe, ninguém viu… No entanto, consideremos: nada mais “de Direita” que o corporativismo e o sindicalismo – dos quais nasceram o PT na fábrica e alguns outros Partidos de “intelectuais” na Universidade – que tanto o ditador Vargas quanto algumas figuras do regime dito “militar” muito prestigiaram. Ou não?

 

     Esse quadro muito estranho e as relações estapafúrdias que nele se expõem também explicam a mediocridade do que se encontra hoje em dia na Imprensa, que já comentei dias atrás a pretexto de um texto de Leandro Narloch (http://veja.abril.com.br/blog/cacador-de-mitos/2015/04/23/bipolaridade-intelectual/), explicam essa constipação cerebral generalizada, essa quase absoluta incapacidade, manifestada por quase todos os “jornalistas, colunistas, sociólogos e palpiteiros”, de produzir análises políticas minimamente interessantes: sendo todos eles “democratas”, todos têm, se forem minimamente inteligentes, e pressuponho que sejam, um medo que se pelam de, caso se permitam pensar um pouco, ver-se obrigados a contradizer o que antes já disseram com tanto ardor e tanta convicção. Como se justificariam com seus fãs de carteirinha?

 

     Pois bem. É que a teoria, na prática, seria outra? Não, não – é que há hipóteses que nunca se hão de comprovar. As sobre as virtudes da Esquerda, por exemplo. Estão no campo das utopias. Serão necessárias porque utopias são necessárias? Bem, há quem assim justifique sua permanência em cartaz. E, se tudo isso que foi dito não parece pertencer à nossa História, bem mais parece uma anedota, uma anedota de muito mau gosto, é que a realidade é a realidade, não o que possamos supor ou dizer dela. Mas, abstraindo-se o fato de que tudo seja real, apesar de ser absurdamente pouco sério e um bocado trágico, tudo isso não deixa de ser divertido. Eu acho. Acho talvez porque seja republicana, visceralmente republicana. O que eu levo a sério é a República. Quando ela é séria. O resto é o resto, serve mais para nos distrair e, às vezes, para nos fazer dormir.

 

     Acho também, mesmo, de verdade, que isso tudo nos diz muito mais a respeito do que, aos trancos e barrancos, vamos vendo, vivendo e sofrendo na Política nacional que qualquer potoca que possa ser inventada e divulgada por qualquer idiota ou qualquer demente como sendo uma “verdade histórica”. Dedicar alguma atenção à realidade talvez seja suficiente para que comecemos a tentar querer decifrar o enigma que permite que quem o concebeu (e nunca o enuncia) nos venha devorando. No frigir dos ovos, pondero, de que nos valem tantas “verdades históricas” se elas não evitam que continuemos tropeçando, se não queremos e não sabemos ver a verdade que se põe presente sob o nosso próprio nariz?

 

     Pois é isso. Agora, é dar uma olhada nas notícias do dia e pensar um pouco. Sobrará, então, aquela famosa pergunta da qual a Esquerda, um dia, também se apropriou: que fazer?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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