VACAS VOAM?

23-09-2012
Vania Leal Cintra - minhatrincheira@uol.com.br

 

 

 

 

“Dos mortos, seis foram identificados. Todos possuem passagens pela polícia, segundo informou, em nota, a Secretaria Estadual da Segurança Pública. (…) foram apreendidos duas espingardas calibre 12, uma metralhadora, sete pistolas, quatro revólveres, cinco veículos, todos roubados, e 20 quilos de maconha que estavam dentro de uma geladeira. Segundo a polícia, a chácara pertence a um candidato a vereador. (…) a vítima do estupro, uma garota de 12 anos, sua mãe e o irmão dela, também criança, estavam presentes na chácara. Eles confirmaram que assistiram ao julgamento.”  (*) 

      

     Entre minhas leituras, não digo as obrigatórias, mas as de quando em quando freqüentadas, estão as colunas de Pasquale Cipro Neto na Folha de S.Paulo. São bem interessantes. A nossa língua portuguesa me encanta, encanta-me a riqueza e a precisão de seu vocabulário, sua lógica impecável, seus sons, seus meandros, suas “armadilhas”, tanto quanto me encanta a nossa gente brasileira. Da mesma forma como gostaria de não ver essa nossa gente dominada, em tempo algum, por qualquer meio, por quem quer que fosse, gostaria imensamente de poder dominar com perfeição a nossa linguagem – o que, reconheço, é bastante difícil. Já o Professor Pasquale, conforme currículo publicado na wikipédia, “notabilizou-se por popularizar a interpretação de textos e em especial as dúvidas de gramática”. Bem, eu cá prefiro crer que o responsável pela redação tenha tentado dizer que o Professor se notabilizou por se dedicar, em especial, a esclarecer dúvidas que nossa boa gramática sucita, não por popularizá-las…

 

     A coluna do Professor Pasquale na Folha de 20/09, intitulada “Leitura(s) torta(s)” (1), levanta um problema sério que, sempre que tenho oportunidade, insisto em apontar – a nossa falta de atenção ao significado correto das palavras e à logica das frases, que compromete não só a leitura como a redação e o próprio raciocínio. O Professor nos diz que um “exemplo de leitura torta /…/ decorre do desconhecimento do real significado de uma palavra. Passemos para outro exemplo de leitura torta, que começa com o seguinte raciocínio: ‘Toda vaca voa; Mimosa voa, portanto Mimosa é…’. Quem concluiu o raciocínio dizendo ‘portanto Mimosa é uma vaca’ errou. E errou porque leu mal, porque pensou mal. Dizer que toda vaca voa não equivale a dizer que tudo que voa é vaca. Como vimos, esse caso de leitura torta decorre da deficiência no raciocínio lógico. Agora vejamos um terceiro caso de leitura torta – para mim, o pior de todos. Refiro-me ao tipo de leitura de que é exemplo aquela que muitos fizeram do lúcido texto escrito por Maria Rita Kehl e publicado na ‘Ilustríssima’ do último domingo. Eu sabia que não deveria ler os comentários postados na versão eletrônica do artigo. /…/ Caminhões de exemplos de leitura torta, raivosa, fruto do pior dos males, da pior das doenças: a brutalidade, a grosseria, o analfabetismo funcional.

 

     Muito bem. Li somente os textos. Os comentários, não li. Mas ponderaria que, se “brutalidade” e “grosseria” pertencem a um mesmo registro lógico – decorrem da falta de equilíbrio ou de refinamento emocional –, “analfabetismo funcional” se encaixa em outro, completamente distinto – é o resultado de uma péssima escolaridade. De fato, esses são problemas que, não raramente, enfrentamos em nossa Sociedade. Mas não se confundem. Se tratados como uma doença, a pior das doenças, cujo sintoma ou cuja conseqüência seria uma leitura torta e raivosa, que remédio lhes dar? Meio difícil resolver isso…

 

     Não será difícil, no entanto, compreender que, pretendendo identificar Mimosa, se começarmos a raciocinar com a premissa “toda vaca voa”, seguramente chegaremos não muito longe e a nada de bom ou útil. Este não é um bom caminho. Não é que seja um caminho equivocado, apenas – é um caminho estúpido. No entanto, ele poderá ser contestado com um raciocínio que comece tendo “nem toda vaca voa” como premissa, e esse caminho será igualmente estúpido. Associar qualquer vaca à capacidade de voar continuará sendo não mais que uma estupidez. E o raciocínio que nos leve a aceitá-la não será estúpido por uma deficiência na sua própria lógica, mas por ignorância absoluta dos significados das palavras ou por um desprezo absoluto à conexão que as palavras e seus significados devem manter em sua função na lógica da linguagem.

 

     Portanto, somente quem souber que uma vaca é um bicho que não tem asas, e souber que asas são necessárias para que um bicho possa voar (embora nem todo par de asas permita a façanha), saberá que uma vaca não poderá voar. Quem não conhece uma vaca e/ou nunca viu voando um bicho que voe, não saberá. Uma vaca nunca voará. Ponto pacífico. Alguns poderão afirmar, porém, que bastará colocá-la em um avião que ela, a própria vaca, voa… Este é um raciocínio errado, mas não é exatamente estúpido, é até bem esperto. E alguns outros se lembrarão de que (dizem que) Tomás de Aquino acreditou que fosse mais razoável uma vaca voar que um monge mentir. Tomás de Aquino era um Filósofo. Provavelmente um bom homem. Não era um Professor de Português. 

 

     O Professor Pasquale continua em sua coluna: “Gente que não consegue diferenciar uma reportagem de um texto analítico se pôs a dizer grosserias /…/ Maria Rita Kehl, cujo nome atravessa as nossas fronteiras, escreveu um artigo (artigo, não reportagem!) em que, essencialmente, defende a civilização, e, no estado de direito, civilização significa agir de acordo com a lei, seja quem for aquele que age (civil ou militar). /…/ Para os que gostam de enxergar o que não há nos textos e/ou para os que gostam de atacar o que não foi dito ou ainda para os que atacam a pessoa e não as ideias (realmente) proferidas, sugiro a leitura de “A Dialética Erística”, do filósofo Schopenhauer. Quem sabe a compreensão dessa obra fizesse muita gente ficar corada de vergonha por perpetrar tanta bobagem. É isso.”

 

     Bem, pode até ser isso, sim, mas, antes de nos atermos a apenas isso, façamos uma visita aos conceitos, que sempre nos ajudam a mais bem compreender o que nos possa estar sendo dito e nos ajudam a manter o raciocínio bem orientado. Não vou discutir “civilização” nem “lei” porque não terminaria este texto hoje. Já com as palavras “artigo”, “reportagem” e “análise” temos todos alguma intimidade. Na Imprensa, nada impede que um artigo corresponda a uma reportagem. Mas pode não corresponder. Nem por isso será, necessariamente, um texto analítico. Poderá ser apenas um artigo opinativo, ou seja, uma opinião. E, penso eu, porque me é permitido assim pensar, que, tal como uma vaca não voa, quem não conhece o significado das palavras e desfaz de sua articulação lógica nas frases não compreenderá “A Dialética Erística” do filósofo Schopenhauer, por mais que abra o livro recomendado, por mais que o leia ou imagine que o esteja lendo. E muitas outras coisas mais poderá não compreender. Vamos agora ao dicionário, que está ao alcance de todos e não nos costuma mentir, para que evitemos esforços hermenêuticos excessivos e desnecessários: “dialética” seria um “conflito originado pela contradição entre princípios teóricos ou fenômenos empíricos”. E “erística” seria “arte ou técnica da disputa argumentativa no debate filosófico, desenvolvida sobretudo pelos sofistas, e baseada em habilidade verbal e acuidade de raciocínio”. Platão já teria usado o termo com um significado pejorativo: “argumentação que, buscando unicamente a vitória em um debate, abandona qualquer preocupação com a verdade” (cf. Houaïss na web). A “dialética erística” poderá, então, ser compreendida como um embate verbal travado entre opositores movidos por quaisquer interesses conflitantes, no qual vencer, seja como for, custe o que custar, é o único objetivo – nada mais terá, nesse embate, importância alguma. Nem coerência, nem honestidade, nem… Ou será o próprio método utilizado nesse embate para obter-se a vitória.

 

     Muitos serão os que poderão compreender com bastante facilidade que, se o objetivo de uma discussão for encontrar uma verdade a respeito de um assunto qualquer, as teorias, as premissas e os argumentos corretos que acompanham o raciocínio correto deverão prevalecer, sempre, sobre os que possam ser falsos e/ou errados. O que em geral se observa em uma discussão, no entanto, especialmente se ela for sobre a Política e as paixões ditas políticas, é que os argumentos vão-se desenvolvendo em um crescendo de equívocos fortuitos ou premeditados que se acumulam e se enroscam uns nos outros até deixarem essa discussão com um aspecto absolutamente surrealista. E talvez não haja força ou habilidade capaz de destrinchá-los e ordená-los convenientemente. É possível observar-se também que, se a discussão for pública, os discursos, ainda que absurdos e mal articulados, sempre ganharão aplausos da claque particular de quem os levanta – porque algumas palavras desses discursos serão suficientes para levar essa claque a aceitá-los como corretos e verdadeiros por inteiro.  

 

     Voltemos, então, a Mimosa. Se Mimosa voa, e se vacas não voam, Mimosa não será uma vaca. Ponto pacífico. Mas nada disso nos diz que raios Mimosa é. Mimosa poderá ser uma arara, uma mosca, uma barata… ou qualquer coisa – dizer que folhas voam ao vento de outono não é um erro semântico, lógico ou gramatical, é apenas uma extensão de sentido ou uma licença poética. Nem mesmo ressalvas de muita importância, como a de que dizer “toda vaca voa” não equivale a dizer que tudo aquilo que voa é uma vaca, algum indício nos darão do que seja Mimosa. Se conhecermos as vacas apenas de ouvir falar delas, porém, ou se pouco nos importar se vacas voam ou não voam, a classificação de Mimosa como vaca poderá ser perfeitamente bem aceita – que importância isso teria? – pois incontestável é que “Mimosa” é um típico nome de vaca, de boa vaca leiteira de anedota mineira, com badalo no pescoço; e, se Mimosa voa ou não voa, muito pouco também nos há de importar, pois, com este nome de vaca que Mimosa tem, Mimosa há de merecer ser reconhecida como vaca. Por outro lado, se as vacas voassem, seria possível imaginar que fizessem ninhos em beirais de telhados ou nos galhos. Só mesmo para quem bem conhece vacas e bem sabe que vacas não voam, nem sobem pelas paredes ou em árvores, será impossível imaginar um ninho de vaca nas alturas. Da mesma forma como não será possível exigir que um Estado se comporte como se fosse um monastério na suposta (esta palavra não está ficando meio gasta?…) ideal concepção de Tomás de Aquino.

 

      ***

 

     Que nos diz o texto de Maria Rita Kehl, publicado na Folha de domingo (2), que o Professor Pasquale interpretou e tanto defendeu em sua coluna?

 

     Com a autoridade que lhe empresta o fato de ter sido indicada como membro da “Comissão da Verdade” e, pelo Governo, contratada com um salário de mais de R$ 11.000,00 mensais para punir os que agiram em nome e em defesa do Estado brasileiro, Maria Rita Kehl, a Psicanalista, critica: “O Estado, ao mentir, coloca-se acima do direito republicano à informação – portanto, contra os interesses da sociedade que pretende governar. O Estado, ao mentir, perde legitimidade”. E exemplifica: “agentes das Polícias Militares, integrantes do Exército e diversos matadores free-lancer justificavam as execuções de supostos inimigos públicos que militavam pela volta da democracia durante a ditadura civil militar, a qual oprimiu a sociedade e tornou o país mais violento, menos civilizado e muito mais injusto entre 1964 e 1985”.

 

     Com a pureza d’alma de um Tomás de Aquino, ela nos indicará qual é a mentira a que se refere: “o Estado militarizado teve carta branca para prender sem justificativa, torturar e matar cerca de 400 estudantes, trabalhadores e militantes políticos (dos quais 141 permanecem até hoje desaparecidos e outros 44 nunca tiveram seus corpos devolvidos às famílias /…/) Esse número, por si só alarmante, não inclui os massacres de milhares de camponeses e índios, em regiões isoladas e cuja conta ainda não conseguimos fechar. Mais cínicas do que as cenas armadas para aparentar trocas de tiros entre policiais e militantes”.

 

     Somos assim informados de que o País era injusto, incivilizado e violento antes de 1964, pois, daí até 1985, quando a sociedade era oprimida pelos inimigos de supostos inimigos públicos, ele teria ficado mais injusto, menos civilizado e mais violento. O que se alterou naquelas datas, para que elas possam ser uma referência, pouco importa, mesmo porque, hoje, o País parece estar bem pior: “Se a tortura aos oponentes da ditadura foi acobertada, quando não consentida ou ordenada por autoridades do governo, o que pensar das chacinas cometidas em plena democracia, quando governadores empenham sua autoridade para justificar assassinatos cometidos pela polícia sob seu comando?” Hoje, “a mortandade continua, e a sociedade brasileira descrê da democracia” – o que, de verdade, parece ser uma situação um bocado grave e também muito difícil. Mas difícil, mesmo, será compreender como pôde ser classificado como “analítico” um texto cuja premissa básica é uma extraordinária declaração de fé em uma verdade absoluta absolutamente subjetiva, fé que promete ser mantida apesar de qualquer prova objetiva que porventura possa ter sido ou vir a ser apresentada e a contrarie.

 

     Tudo indica que Maria Rita Kehl não gosta do nosso Estado. Nem gosta do Exército nem gosta de Polícia. Nem de quem os justifica como instituições necessárias. Não gosta, pronto! E não gosta do Governador Geraldo Alckmin, de quem eu mesma também não gosto – e daí? – não pelos mesmos motivos que ela tem para não gostar. Quais motivos são esses, não sabemos exatamente, mas ficamos sabendo que ela não gosta do Governador porque ele defendeu a “ação da Rota /…/ que matou nove supostos bandidos”. E mais explica a razão desse seu não gostar: “Um dos mortos foi o suposto estuprador de uma menor de idade, que acabava de ser julgado pelo “tribunal do crime” do PCC na chácara de Várzea Paulista. Ora, não faz sentido imaginar que os bandidos tivessem se esquecido de desarmar o réu Maciel Santana da Silva /…/ Aliás, o “tribunal do crime” acabara de inocentar o acusado: o senso de justiça da bandidagem nesse caso está acima do da PM e do próprio governo do Estado. Maciel Santana morreu desarmado”.

 

     Caramba! É verdade? O suposto estuprador de uma menor de idade morreu desarmado? Isso não faz, mesmo, sentido algum e não é, nem um pouco, justo! Certa estará a Psicanalista: deveria ter uma arma o morto, se já havia sido absolvido pelo “tribunal do crime” cujo senso de justiça é superior ao suspeito senso de justiça da PM e ao do próprio Governo do Estado que apenas “investe-se do direito de mentir para encobrir seus próprios crimes” praticados contra criminosos! Mas, pensando bem… por que não faria sentido imaginar que bandidos se esquecessem de desarmar um bandido que por eles mesmos, bandidos, já teria sido inocentado? Eu aqui não saberia responder. Ficou muito complicado, bem difícil de entender… Além de que… quem informou que o bandido havia sido inocentado? A Polícia? Os bandidos? A vítima? A Imprensa?

 

     “Engana-se – ainda nos dirá a “analista” (psicanalista, não repórter – estava escrito nos créditos do artigo, santo Deus!) – a parcela das pessoas de bem que imaginam que a suposta ‘mão de ferro’ do governador de São Paulo seja o melhor recurso para proteger a população trabalhadora. Quando o Estado mente, a população já não sabe mais a quem recorrer” e a Policia militar “compromete a segurança de todos os cidadãos”. E, piedosa, pontifica: “Não há grande diferença entre a crueldade praticada pelo tráfico contra seis meninos inocentes, no último domingo, no Rio, e a execução de nove homens na quarta, em São Paulo. /…/ ‘os homens’ não invadem mais as casas de cantores, professores e advogados, mas continuam a arrastar moradores ‘suspeitos’ das favelas e das periferias para fora dos barracos ou a executar garotos reunidos para fumar um baseado nas esquinas das periferias das grandes cidades”.

 

     Santo Deus digo eu! Então, “os homens” invadiam as casas de cantores, professores e advogados que tocavam suas músicas, preparavam seus planos de aula e escreviam suas petições, não as invadiam em busca de envolvidos com uma guerrilha contra o Estado, seus planos de assaltos e seqüestros e suas armas? E “os homens” agora executam garotos nas esquinas das periferias das grandes cidades só porque eles estão fumando um baseado? “Os homens” feriram e ferem a intimidade da vida privada, que é sagrada, em todos os sentidos! Com uma violência gratuita! Que justificará plenamente o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso ter confessado o receio que tinha de expor sua opinião contrária à proibição do uso da maconha. De mais a mais, não se entende por que a Polícia possa atribuir certos atos somente imagináveis em um filme de horror àqueles que supostamente fornecem entorpecentes ou àqueles que, porque supostamente são viciados em entorpecentes, supostamente já perderam o discernimento e a consciência do que fazem ou deixam de fazer – uma mentira que permite que, mesmo mal nutrida e mal acudida, essa Polícia decida, de vez em quando, sair caçando vítimas inermes, que nunca reagem, em divertido safari esportivo como se fosse o Rei de Espanha; nem é possível aceitar que o Estado insista na mentira de que viciados em entorpecentes procurem e consigam viciar outros tantos que ainda não estão viciados, supostamente por ordem expressa de honestos comerciantes de entorpecentes que com isso se beneficiam – o que, mesmo sendo verdade, deve ser considerado muito bom para a Sociedade, pois, segundo alguma lei da Economia que ainda está para ser provada, quanto maior for a demanda, mais cairá o preço da mercadoria e, assim sendo, um número bem menor de seqüestros e latrocínios será necessário para amparar o consumo de entorpecentes. O que comprova, por sua vez, ainda que meio pelo avesso, o que nos diz a “analista”: “O que parece ser decidido em nome da segurança de todos produz o efeito contrário” e nos instiga a querer decidir em prol da insegurança. Afinal, a Sociedade deve ser corretamente protegida. E, se antes alguém poderia duvidar, agora ninguém mais duvida: proibir vícios “não dá certo”… (3). Não é assim?

 

     Há ainda mais, tenham paciência, por favor. O “texto analítico” da respeitada Psicanalista Maria Rita Kehl, um nome que atravessa nossas fronteiras, alerta-nos para duas outras questões, que são cruciais: 1. “do ponto de vista do cidadão desprotegido, qual a diferença entre a lógica do tráfico, do PCC e da política de Segurança Pública /…/ quando a eliminação sumária de supostos criminosos pelas PMs segue os mesmos procedimentos e goza da mesma impunidade das chacinas cometidas por quadrilhas de traficantes?” 2. “O Estado que pratica vendetas como uma Camorra destrói as condições de sua própria autoridade, que em consequência disso passará a depender de mais e mais violência para se sustentar.

 

     Como não me incomodo de jogar fora o meu tempo, mas nem tanto assim, não me ponho aqui a me perguntar “se é possível confiar na lisura” de um inquérito quando um Governador já legitimou “o morticínio praticado pela PM que responde ao comando dele”; mas me pergunto por que cargas d’água, um bom dia, alguém, que estúpido não era, pôde definir o Estado como aquele que detém o “monopólio da violência legítima”; por que cargas d’água pôde ser conferida a legitimidade da violência ao Estado, se tão mais fácil seria se, a todos, tudo fosse permitido fazer, se descriminalizássemos tudo aquilo que crime é porque, em nome da segurança de todos, como crime foi definido em Lei – tal como alguém outro que não era, tampouco, estúpido, definiu; por que cargas d’água qualquer Estado que deve “proteger a sociedade a partir de suas atribuições constitucionais” haveria de pensar em praticar algo que destruísse as condições de sua própria autoridade; por que cargas d’água – e por quem – a autoridade do Estado pôde ser e continua sendo questionada e enfrentada; por que cargas d’água, se não motivada por uma vendeta, e com que autoridade formou-se uma “Comissão da Verdade” que só reconhece razão a quem atentou e hoje atenta contra o Estado; e, considerando que um conjunto intersubjetivo, cuja realidade psíquica é extraordinariamente privilegiada, tem na manga uma carta com a receita pronta para que bandidos-mocinhos e mocinhos-bandidos vivam em paz e em segurança e crimes não mais existam ou não mais sejam considerados como crimes (inclusive os contra o Estado), eu me pergunto ainda – à toa, à toa, bem sei – como, para que, para quem e por que cargas d’água o Estado brasileiro deverá se manter.

 

     Não gosto de atacar pessoas nem ataquei o que, nos textos que comento, não foi dito; enxerguei, pois, somente o que neles de fato havia, e discuti somente as idéias realmente neles proferidas – e, é claro, as minhas – cá comigo mesma, com meus botões e minha consciência, que não pretendo substituir pelo inconsciente de quem quer que seja e gosto de manter bem acesa. Assim, posso afirmar que, do que li, restou-me apenas a incômoda sensação de ter sido chamada a acompanhar as rasantes que vacas voadoras pudessem estar praticando sobre nossas cabeças.

 

     Não afirmaria que seja uma Verdade que certa gente que demonstra crer que vacas voam só esteja tentando fazer, por uma viciada dialética erística, que algumas mentiras de caráter particular sejam consideradas como verdades públicas. Mas diria que é bem possível que sim. Concluo, pois, sugerindo que o Professor Pasquale ainda deixe a gramática e a sintaxe um pouco de lado, tal como fez em sua última coluna, para mais se preocupar com descobrir, de uma vez por todas, se esses bichos voam ou não voam, nunca voaram nem voarão; e com esclarecer o mais rapidamente possível tanto a população inculta quanto a população culta de sua conclusão. A considerar as palavras e as frases com que justificou o “analítico” e “lúcido” artigo de Maria Rita Kehl, muita gente que lê sua coluna procurando conhecer um pouco mais de nossa linguagem vai continuar acreditando ou vai passar a acreditar que, se não todas, algumas vacas possam voar.

      

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(1) www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/67213-leituras-tortas.shtml

     São Paulo, quinta-feira, 20 de setembro de 2012

     Leitura(s) torta(s)  – Pasquale Cipro Neto  

     O leitor certamente conhece a frase “O bom filho a casa torna”. Vou logo dizendo que esse “a” não tem mesmo acento indicador de crase, mas isso é conversa que fica para outro dia.

     Pois bem. Muita gente entende mal uma conhecida sentença, que é “semelhante” à primeira e vem da parábola do filho pródigo. Sabe qual é, não? É só trocar “bom” por “pródigo”. Lá vai: “O filho pródigo a casa torna” (também sem acento no “a”). Muita gente acha que as frases se equivalem, como se “pródigo” fosse sinônimo de “bom”, “magnânimo” etc., ou seja, como se o filho voltasse para casa porque não esquece os seus, porque lhes é grato e por aí vai. O filho pródigo volta para casa justamente porque é pródigo, ou seja, porque é esbanjador, gastador, dissipador. Leia a parábola, se for o caso.

     O exemplo de leitura torta que acabamos de ver decorre do desconhecimento do real significado de uma palavra. Passemos para outro exemplo de leitura torta, que começa com o seguinte raciocínio: “Toda vaca voa; Mimosa voa, portanto Mimosa é…”. Quem concluiu o raciocínio dizendo “portanto Mimosa é uma vaca” errou. E errou porque leu mal, porque pensou mal. Dizer que toda vaca voa não equivale a dizer que tudo que voa é vaca. Como vimos, esse caso de leitura torta decorre da deficiência no raciocínio lógico.

     Agora vejamos um terceiro caso de leitura torta -para mim, o pior de todos. Refiro-me ao tipo de leitura de que é exemplo aquela que muitos fizeram do lúcido texto escrito por Maria Rita Kehl e publicado na “Ilustríssima” do último domingo. Eu sabia que não deveria ler os comentários postados na versão eletrônica do artigo. Um dos meus filhos bem que me advertiu (“Pai, não estrague o seu domingo”). Mas o burro aqui leu. E o que o burro viu? Caminhões de exemplos de leitura torta, raivosa, fruto do pior dos males, da pior das doenças: a brutalidade, a grosseria, o analfabetismo funcional.

     Gente que não consegue diferenciar uma reportagem de um texto analítico se pôs a dizer grosserias como “Essa repórter deveria ir para a cozinha” ou “Por que essa jornalista não leva um bandido para a casa dela?”. Santo Deus!

     A respeitada psicanalista (psicanalista, não repórter -estava escrito nos créditos do artigo, santo Deus!) Maria Rita Kehl, cujo nome atravessa as nossas fronteiras, escreveu um artigo (artigo, não reportagem!) em que, essencialmente, defende a civilização, e, no estado de direito, civilização significa agir de acordo com a lei, seja quem for aquele que age (civil ou militar). Para muita gente, no entanto, basta que alguém questione uma ação da polícia, umazinha que seja, para que se configure a defesa do banditismo (!!!), das ações dos bandidos (!!!) etc. Para essa gente, a polícia tem e sempre teve razão, em qualquer situação, fato, circunstância, tempo, período, era etc., o que configura um estado de coisas que tem um nome bem claro: nazifascismo (ou atraso, barbárie etc., etc., etc.).

     Sugiro a essa gente que ouça (e entenda) “Nome aos Bois”, dos Titãs. Sugiro ainda que leia, leia muito, mas leia o que desarma o espírito, eleva e enleva a alma. Se possível, que inclua na leitura um pouco de filosofia, de textos que aprimorem o pensamento. Para os que gostam de enxergar o que não há nos textos e/ou para os que gostam de atacar o que não foi dito ou ainda para os que atacam a pessoa e não as ideias (realmente) proferidas, sugiro a leitura de “A Dialética Erística”, do filósofo Schopenhauer. Quem sabe a compreensão dessa obra fizesse muita gente ficar corada de vergonha por perpetrar tanta bobagem. É isso.

      

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(2) www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/66471-o-veredicto-de-geraldo-alckmin.shtml

     São Paulo, domingo, 16 de setembro de 2012

     O veredicto de Geraldo Alckmin

     MARIA RITA KEHL      

     “Quem não reagiu está vivo”, disse o governador de São Paulo ao defender a ação da Rota na chacina que matou nove supostos bandidos numa chácara em Várzea Paulista, na última quarta-feira, dia 12. Em seguida, tentando aparentar firmeza de estadista, garantiu que a ocorrência será rigorosamente apurada.

     Eu me pergunto se é possível confiar na lisura do inquérito, quando o próprio governador já se apressou em legitimar o morticínio praticado pela PM que responde ao comando dele.

     “Resistência seguida de morte”: assim agentes das Polícias Militares, integrantes do Exército e diversos matadores free-lancer justificavam as execuções de supostos inimigos públicos que militavam pela volta da democracia durante a ditadura civil militar, a qual oprimiu a sociedade e tornou o país mais violento, menos civilizado e muito mais injusto entre 1964 e 1985.

     Suprimida a liberdade de imprensa, criminalizadas quaisquer manifestações públicas de protesto, o Estado militarizado teve carta branca para prender sem justificativa, torturar e matar cerca de 400 estudantes, trabalhadores e militantes políticos (dos quais 141 permanecem até hoje desaparecidos e outros 44 nunca tiveram seus corpos devolvidos às famílias -tema atual de investigação pela Comissão Nacional da Verdade).

     Esse número, por si só alarmante, não inclui os massacres de milhares de camponeses e índios, em regiões isoladas e cuja conta ainda não conseguimos fechar. Mais cínicas do que as cenas armadas para aparentar trocas de tiros entre policiais e militantes cujos corpos eram entregues às famílias totalmente desfigurados, foram os laudos que atestavam os inúmeros falsos “suicídios”.

     HERZOG A impunidade dos matadores era tão garantida que eles não se preocupavam em justificar as marcas de tiros pelas costas, as pancadas na cabeça e os hematomas em várias partes do corpo de prisioneiros “suicidados” sob sua guarda. Assim como não hesitaram em atestar o suicídio por enforcamento com “suspensão incompleta”, na expressão do legista Harry Shibata, em depoimento à Comissão da Verdade, do jornalista Vladimir Herzog numa cela do DOI-Codi, em São Paulo.

     Quando o Estado, que deveria proteger a sociedade a partir de suas atribuições constitucionais, investe-se do direito de mentir para encobrir seus próprios crimes, ninguém mais está seguro. Engana-se a parcela das pessoas de bem que imaginam que a suposta “mão de ferro” do governador de São Paulo seja o melhor recurso para proteger a população trabalhadora.

     Quando o Estado mente, a população já não sabe mais a quem recorrer. A falta de transparência das instituições democráticas -qualificação que deveria valer para todas as polícias, mesmo que no Brasil ainda permaneçam como polícias militares- compromete a segurança de todos os cidadãos.

     Vejamos o caso da última chacina cometida pela PM paulista, cujos responsáveis o governador de São Paulo se apressou em defender. Não é preciso comentar a bestialidade da prática, já corriqueira no Brasil, de invariavelmente só atirar para matar -frequentemente com mais de um tiro.

     Além disso, a justificativa apresentada pelo governador tem pelo menos uma óbvia exceção. Um dos mortos foi o suposto estuprador de uma menor de idade, que acabava de ser julgado pelo “tribunal do crime” do PCC na chácara de Várzea Paulista. Ora, não faz sentido imaginar que os bandidos tivessem se esquecido de desarmar o réu Maciel Santana da Silva, que foi assassinado junto com os outros supostos resistentes.

     Aliás, o “tribunal do crime” acabara de inocentar o acusado: o senso de justiça da bandidagem nesse caso está acima do da PM e do próprio governo do Estado. Maciel Santana morreu desarmado. E apesar da ausência total de marcas de tiros nos carros da PM, assim como de mortos e feridos do outro lado, o governador não se vexa de utilizar a mesma retórica covarde dos matadores da ditadura -“resistência seguida de morte”, em versão atualizada: “Quem não reagiu está vivo”.

     CAMORRA Ora, do ponto de vista do cidadão desprotegido, qual a diferença entre a lógica do tráfico, do PCC e da política de Segurança Pública do governo do Estado de São Paulo? Sabemos que, depois da onda de assassinatos de policiais a mando do PCC, em maio de 2006, 1.684 jovens foram executados na rua pela polícia, entre chacinas não justificadas e casos de “resistência seguida de morte”, numa ação de vendeta que não faria vergonha à Camorra. Muitos corpos não foram até hoje entregues às famílias e jazem insepultos por aí, tal como aconteceu com jovens militantes de direitos humanos assassinados e desaparecidos no período militar.

     Resistência seguida de morte, não: tortura seguida de ocultação do cadáver. O grupo das Mães de Maio, que há seis anos luta para saber o paradeiro de seus filhos, não tem com quem contar para se proteger das ameaças da própria polícia que deveria ajudá-las a investigar supostos abusos cometidos por uma suposta minoria de maus policiais. No total, a polícia matou 495 pessoas em 2006.

     Desde janeiro deste ano, escreveu Rogério Gentile na Folha de 13/9, a PM da capital matou 170 pessoas, número 33% maior do que os assassinatos da mesma ordem em 2011. O crime organizado, por sua vez, executou 68 policiais. Quem está seguro nessa guerra onde as duas partes agem fora da lei?

     ASSASSINATOS A pesquisadora norte-americana Kathry Sikkink revelou que o Brasil foi o único país da América Latina em que o número de assassinatos cometidos pelas polícias militares aumentou, em vez de diminuir, depois do fim da ditadura civil-militar.

     Mudou o perfil socioeconômico dos mortos, torturados e desaparecidos; diminuiu o poder das famílias em mobilizar autoridades para conseguir justiça. Mas a mortandade continua, e a sociedade brasileira descrê da democracia.

     Hoje os supostos maus policiais talvez sejam minoria, e não seria difícil apurar suas responsabilidades se houvesse vontade política do governo. No caso do terrorismo de Estado praticado no período investigado pela Comissão da Verdade, mais importante do que revelar os já conhecidos nomes de agentes policiais que se entregaram à barbárie de torturar e assassinar prisioneiros indefesos, é fundamental que se consiga nomear toda a cadeia de mando acima deles.

     Se a tortura aos oponentes da ditadura foi acobertada, quando não consentida ou ordenada por autoridades do governo, o que pensar das chacinas cometidas em plena democracia, quando governadores empenham sua autoridade para justificar assassinatos cometidos pela polícia sob seu comando?

     Como confiar na seriedade da atual investigação, conduzida depois do veredicto do governador Alckmin, desde logo favorável à ação da polícia? Qual é a lisura que se pode esperar das investigações de graves violações de Direitos Humanos cometidas hoje por agentes do Estado, quando a eliminação sumária de supostos criminosos pelas PMs segue os mesmos procedimentos e goza da mesma impunidade das chacinas cometidas por quadrilhas de traficantes?

     Não há grande diferença entre a crueldade praticada pelo tráfico contra seis meninos inocentes, no último domingo, no Rio, e a execução de nove homens na quarta, em São Paulo. O inquietante paralelismo entre as ações da polícia e dos bandidos põe a nu o desamparo de toda a população civil diante da violência que tanto pode vir dos bandidos quanto da polícia.

     “Chame o ladrão”, cantava o samba que Chico Buarque compôs sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Hoje “os homens” não invadem mais as casas de cantores, professores e advogados, mas continuam a arrastar moradores “suspeitos” das favelas e das periferias para fora dos barracos ou a executar garotos reunidos para fumar um baseado nas esquinas das periferias das grandes cidades.

     PELA CULATRA Do ponto de vista da segurança pública, este tiro sai pela culatra. “Combater a violência com mais violência é como tentar emagrecer comendo açúcar”, teria dito o grande psicanalista Hélio Pellegrino, morto em 1987.

     E o que é mais grave: hoje, como antes, o Estado deixa de apurar tais crimes e, para evitar aborrecimentos, mente para a população. O que parece ser decidido em nome da segurança de todos produz o efeito contrário. O Estado, ao mentir, coloca-se acima do direito republicano à informação -portanto, contra os interesses da sociedade que pretende governar.

     O Estado, ao mentir, perde legitimidade -quem acredita nas “rigorosas apurações” do governador de São Paulo? Quem já viu algum resultado confiável de uma delas? Pensem no abuso da violência policial durante a ação de despejo dos moradores do Pinheirinho… O Estado mente -e desampara os cidadãos, tornando a vida social mais insegura ao desmoralizar a lei. A quem recorrer, então?

     A lei é simbólica e deve valer para todos, mas o papel das autoridades deveria ser o de sustentar, com sua transparência, a validade da lei. O Estado que pratica vendetas como uma Camorra destrói as condições de sua própria autoridade, que em consequência disso passará a depender de mais e mais violência para se sustentar.

      

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(3) noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/09/18/fhc-elogia-proposta-uruguaia-de-legalizacao-da-maconha-e-diz-que-tinha-receio-de-defender-descriminalizacao.htm

      

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(*) redebomdia.com.br/noticia/detalhe/32765/Acao+da+Rota+acaba+em+tiroteio+e+9+mortos

     12/09/2012

     Ação da Rota acaba em tiroteio e 9 mortos

     Polícia recebe denúncia anônima sobre julgamento de estuprador e invade chácara na região de Jundiaí

     Aline Pagnan e Michele Stella /Agência BOM DIA     

     Nove homens foram mortos durante operação da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), nesta terça-feira à tarde, em uma chácara na Rua Cambará, no Sítio São José, em Várzea Paulista, a 52 quilômetros de São Paulo. Outros oito homens foram presos pela tropa de elite da Polícia Militar no local.

     O serviço de inteligência da PM recebeu uma denúncia anônima de que no local haveria o julgamento de um estuprador por integrantes da facção criminosa PCC. 

     Dois pelotões da Rota, com 45 policiais em dez viaturas, chegaram à cidade por volta de 16h30. Quando notaram a presença da polícia, alguns bandidos tentaram fugir em dois carros. Dois deles foram mortos a menos de 200 metros da porta da chácara e um outro comparsa acabou preso. Segundo a PM, eles teriam disparado contra os oficiais e não obedeceram a ordem de parada.

     Já outros quatro homens, em um outro carro, conseguiram fugir do cerco e foram perseguidos. A pouco mais de 1,5 quilômetro da chácara acabaram batendo o veículo em uma árvore e, ainda segundo a versão dos policiais, desceram atirando contra os oficiais da Rota. Dois foram mortos na hora e outros dois presos.

     Enquanto isso, na chácara, quem ficou também atirou contra a Rota, novamente segundo o relato dos policiais. Cinco foram detidos e cinco morreram.

     “As informações que nos chegaram mostram que, entre os mortos, estava o estuprador. Tudo indica que os criminosos o executaram”, disse, nesta terça à noite ao DIÁRIO, o coronel Roberval Ferreira França, comandante da PM.

     Os nove homens baleados foram levados para o Hospital da Cidade, em Várzea. Dos mortos, seis foram identificados. Todos possuem passagens pela polícia, segundo informou, em nota, a Secretaria Estadual da Segurança Pública. Os nomes e as idades de cada um não foram divulgados pelo comando da corporação até o fechamento desta edição.

     Explosivo  Uma viatura do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) esteve na chácara nesta terça onde ocorreu a troca de tiros para retirar granadas e dinamites encontradas no imóvel de alto padrão. Por volta das 20h30, os presos foram retirados do local nos camburões da PM e, só então, a Perícia Técnica chegou ao local. Os delegados Marcel Fehr, da DIG (Delegacia de Investigações Gerais) de Jundiaí, e seu assistente, Elias Ribeiro Evangelista Júnior, estiveram no local para iniciar as investigações, mas não quiseram dar detalhes aos jornalistas, que ficaram do lado de fora do imóvel.

     Ao todo, foram apreendidos duas espingardas calibre 12, uma metralhadora, sete pistolas, quatro revólveres, cinco veículos, todos roubados, e 20 quilos de maconha que estavam dentro de uma geladeira. Segundo a polícia, a chácara pertence a um candidato a vereador.

     Moradores de bairro pacato têm tarde de terror em meio a balas

     O barulho de tiros durante pelo menos 40 minutos interrompeu o marasmo da Rua Cambará, no Sítio São José, em Várzea Paulista, na tarde desta terça. Segundo a aposentada Orides Campos Santos, de 75 anos, os disparos começaram por volta das 17h. “Eu estava no quintal. A primeira reação foi colocar os netos para dentro de casa e fechar as portas e janelas”, contou.

     Formado principalmente, por chácaras e casas de alto padrão, o Sítio São José é um bairro relativamente novo. A Rua Cambará, uma via sem saída, é dividida entre empresas, pequenas chácaras e muitas casas em construção.

     Sandra Gadioli, de 42 anos, estava sozinha com o filho de 3 anos no momento do confronto entre policiais e bandidos. “Liguei para meus irmãos que moram perto e eles vieram me buscar. Hoje vou dormir fora por segurança”, disse. 

     Para a dona de casa Marli Souza, de 32, a ação da Rota “foi coisa de televisão”. “É assustador ver tantas viaturas assim.”

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     Entrevista

     Roberval França -_comandante da PM

     Vítima de estupro acompanhou julgamento

      

     DIÁRIO_ Que informação a PM recebeu de início?

     ROBERVAL FRANÇA_ No meio da tarde recebemos um denúncia de que haveria um tribunal do crime em Várzea Paulista. Seria uma quadrilha numerosa e julgariam um estuprador. Várias equipes da Rota foram para o local e tentavam localizar a chácara. A missão era preservar vidas e por isso era preciso agir rápido.

     E a Polícia Militar confirmou que realmente haveria o tribunal do crime?

     O tribunal do crime foi confirmado. Inclusive fomos surpreendidos com a informação de que a vítima do estupro, uma garota de 12 anos, sua mãe e o irmão dela, também criança, estavam presentes na chácara. Eles confirmaram que assistiram ao julgamento.

     E qual foi a definição dos bandidos?

     Decidiram que o estuprador deveria morrer. Até mandaram que a mãe e as duas crianças saíssem da chácara.

     O estuprador morreu. Ele entrou em confronto com a polícia também ou foi assassinado pelos integrantes do tribunal do crime?

     Tudo indica que ele foi morto pelos criminosos.

     A ação da Rota foi legítima?

     A existência do tribunal do crime, com a presença da própria vítima do estupro, o arsenal e drogas encontrados e o fato de que em três situações houve presos ilesos indicam que sim.

 

 

 

 

  

  

 

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